2021-04-02

Semeadura

"Semeadura", crónica no Canal N.


O sonho de um lugar novo para o lar tinha nascido ao mesmo tempo em que as mãos descobriram o afago da redonda redoma do útero maternal, em conversas crepusculares quando nascem e se põe as ideias conjugais, à cabeceira de uma cama em casa emprestada, entre paredes idosas de pedra e corações juvenis de ouro.

No final do dia, quando o cansaço de uma jorna ainda não despertara, os braços bronzeados misturavam areia, cimento e água, vertida depois na cofragem de madeira, dia após dia, para que no fim-de-semana outros braços, familiares e amigos, surgissem para o matutino auxílio tão típico quanto o orvalho suado pelas noites frias e, tijolo a tijolo, sangue a sangue, suor a suor, ganhasse forma a habitação. 

A cozinha exterior foi a primeira edificação, um pequeno assentar de um arraial num terreno ganho à tenacidade das oliveiras. Ali surgiram as primeiras noites da construção, o fogão a lenha debitando o calor com que o amor temperava o rancho, a massa à lavrador, o caldo-verde e, aproximando-se a Páscoa, o pão-de-ló. 

A casa nova, benzida em visita Pascal, ficou como testemunho de um casal agora de uma pessoa só, marido e viúvo, onde as portadas se abrem de manhã e fecham ao final da tarde dando vida aos móveis e paredes sem que sustentem a vida, porque esta leva-se lá fora, no canto do terreno, onde a porta de madeira sempre aberta deixa sair o som da televisão e entrar várias décadas de vida num braçado de lenha. É assim, aliás, que descubro vir o frio ainda com vigor na manhã transmontana, nos cavacos que seguem encostados ao peito debaixo do queixo a arfar, para aquecer e cozinhar.

No dia em que o vi comprar sementes no arraial despido e lúgubre da feira da aldeia, disse-me já à porta da cozinha enquanto afagava a cabeça do cão, que tentava lamber-lhe a mão: 

– Um velho semeia sozinho e cansado, sabes rapaz, só para ver crescer o novo e colher alguma paz.

2021-03-22

Declama dor

 “Declama dor”, mais uma crónica do Nada no Correio do Porto.


As luzes diluem-se no palco escorregando ao longo das paredes alvas, pousando na ansiedade arfante do peito errante, antes de se esbaterem languidamente no chão do auditório. O burburinho anterior da plateia alheia-se e dá agora voz ao silêncio, a expectativa de um olhar ao lado mais luminoso de um sorriso que, por detrás da cortina, ultima a deformação da pessoa para vestir a personagem.

Notas soltas de um piano preso à mão do compositor, pincelam a noite eterna da alma numa toada amordaçadora que, no condão de sublimar, acalma. 

Caminha, paulatinamente, sibilar, carregando nas mãos as folhas virgens de um papel que não seu, a figura de quem se deixa vestir assexuadamente pelo intérprete, urdindo na sua sombra a realidade como figurante, quase a doer, saltando de banco em banco no público, quem sabe, assim exposto, se faça o privado, tal como o actor, amado?

Há em toda a encenação um prenúncio de rogo, versos rasgados à pele num clamor alheio são vestidos em negrume, entrecortado por uma nota saída de uma tecla pressionada, como a noite quase a sair da madrugada. 

A cada passo escorreito, já a luz se envergonhara da sombra, sobressaem os degraus alados de um estrado que se faz estrada. O candeeiro aquece o horizonte, a plateia suspira na cénica miragem de um precipício feito de palavras. Alvitrara no silêncio os pregões que calariam as razões e ganhara o respeito da própria vida, amaciara a tarde ainda que não incólume, porque o poeta cravara a escrita com a subtileza do cardo, mas o declamador fazia-o a sangue vivo, quase calado.

Saída da gutural hora, o olhar traquina da personagem mirava a sua história, avivava a memória nas pausas quando as folhas se deixavam cair extasiadas de serem lidas e dormitavam no colo de quem vestia o que sorria, deixavam-se acariciar, em paz, nas mãos vazias de quem o espírito limpo traz. Na viagem entre o ir e o voltar, no percurso expressivo de um vocábulo que paira e se abate a cada cerrar de olhos da audiência, como se necessária cegueira fosse para vislumbrar o invisível, subsistia uma golfada de éter, uma folha mais é o que peço e procuro, um pouco mais de voz para que não nos sintamos sós, no mundo, no palco.

Nada pode desejar mais, quem escreve, quem respira, do que ter quem saia da penumbra causada pela sombra da noite e, afoite, mirando a maré numa galera vazia, aponte o barco à costa e navegue terra adentro, até sair de seu próprio suspiro, virando costas ao holofote, na lágrima brotada de uma virgula mal colocada, veja descer o pano ondulado, agora que o mundo foi recitado.

Ele, na noite de natureza quase nua, declama dor, sem tempo para viver a sua.



2021-02-27

Soçobro

“Soçobro”, crónica no Canal N, para ler aqui ou aqui.


Badala-se o sino, a liga metálica repercutindo no ar gélido da manhã transmontana as ondas sonoras de um lamento. Sabemo-lo dia de luto pelo número de toques, o braço firme retesado que firma e puxa o arame, contrai e relaxa o arame. Viver é um ir e vir. 

Algures, entre labutas agrícolas, um ancião retira a boina negra, leva o joelho ao chão bolboso, negro e humidamente fértil, e convida ¬– rezemos um Pai-Nosso por este irmão que partiu – e lestamente, no respeito que merece o fim de uma existência terrena para a partida que se quer serena, os restantes lavradores ajoelham-se e guiados pelo mais velho, o que sabe os toques e repiques, aquele da sábia palavra final, como pontuação sensível no final de qualquer diálogo serrano, concluem a oração, solenemente, pacatamente, sabendo que o tempo é de quem o sabe deixar passar de encontro à sua própria existência.

No adro, o musgo, as ervas e as flores crescem entre as frestas das pedras da Igreja que sobra do Mosteiro. 

– Fomos terra de Mouros – confessam vozes que já não se escutam, – Fomos saqueadores do demónio – afoitam encorpados os orgulhos guardiões de um reino que se maravilha. Todos sabem, no íntimo, que são nada mais que uma ilha dentro do grande lago que os ladeia quando olham ao fundo o Sol e este se põe ondulando no final de um dia, por detrás de uma montanha, sobre uma qualquer infantil alegria.

Imunes a tristezas e pandemias, a canalhada alegra-se com a missa campal, percorrem no olhar o céu rasgado das andorinhas, silenciam-se sem saber muito bem o porquê dos requisitos da morte, mas permanecem na vivacidade típica de quem ainda amanhece.  Os fantasmas, adormecidos, vêm animados novamente os familiares que os visitam apenas ao domingo no cemitério e, de repente, precedência e destino imiscuem-se. Uns lamentando a vida, outros vivendo o lamento. 

O choro da viúva sacode um pouco a temperança da cerimónia, de olhares distantes sai um desordeiro, vil, rompendo as regras e ali mesmo, no adro cheio de vida antes da Vida, lança-lhe um abraço num covil humano onde as lágrimas puderam correr sem vergonha.


2021-02-07

À boleia do Sol

“À boleia do Sol”, crónica para ler no Correio do Porto, na secção Crónicas do Nada.

O cemitério aglomera-se de silhuetas difusas que o Sol, errante em meses de Inverno, projecta no chão nesta a que chamam morada eterna. Local de silêncio, porque o amor não faz barulho, resgata à saudade o cuidado com que familiares, amigos ou curiosos, há gostos para tudo, relembram, dependendo da distância da marca lapidada no amarelecido metal á actual, a partida sem regresso visível. 

O portão esverdeado de musgo que teima em crescer até aonde está a vida a morrer, vê-se atravessado, enquanto aberto e de sinaléctica covidiana ornamentado, por senhoras de diversas idades num movimento pendular temporal. Cavaleiras medievais de vassoura e balde armadas, avental padronizado, ei-las guardiãs de um partido, talvez amado, asseando campas.  Há misto de dor e resignação, alívio e compaixão quando prostram o joelho no chão durante o asseio às lajes de granito que vêem passar os tempos sobre o tempo que dormita sob elas. Guardiãs da escuridão, lamparinas, velas, vão sendo substituídas a cada pavio apagado, desgastado, de tanto lhe consumirem a vida. 

Aldeia fiel à vida do lado de cá da Vida, mantém construções diferentes onde vivos lutam por quais mais belos invólucros de mortos. Ou talvez não, agrura minha, talvez tentem apenas dar o melhor que podem a quem por cá já não se tem. Sabe a saudade, a água aspergida, varrida e que corre, depois de bem sacudido o granito ou mármore com a mão – algumas com duas alianças no anelar – pelo rego até à grade onde tudo desaparece. Excepto a saudade. Terá, ela, idade?

Desço os degraus para onde, ao baquear surdo de terra sobre madeira (não o poderíamos fazer doutra maneira?), descerá a semente de memórias, a recordar em serões de silenciosas histórias. 

O viúvo apoia o cotovelo numa cruz de campa alheia resignado, cansado, olhando, ouvindo o som surdo da terra sobre a madeira e dos passos lentos que se dirigem para a saída, “está feito”, ouço.

Chove, uma espécie de choro nublado, como se o ar, rarefeito, se condensasse e tornasse espesso o respirar e antes da progressão efectuada a este local de eterno descanso (poderíamos chamar-lhe “o local de onde partimos para o descanso”?), vejo, à minha direita, o quanto a simplicidade arranca de sublimação existencial, inclusive aqui, onde nem floresce bem ou mal: uma campa rasa, a lápide de cimento e de branco pintada, a ausência de qualquer nome (quando se ama, não é necessário dizê-lo), uma pequeníssima e tosca jarra (quase copo) com flores frescas, a vela quase escondida na lamparina e um envelope plastificado com a frase, numa caligrafia infantil, “para o meu pai”. 

O Sol irrompe por momentos, semicerro os olhos pouco habituados a luminosidades impenetráveis e, também, porque a humildade da inocência infantil inebria a chuva por detrás das pálpebras. A meu lado uma sombra verga-se sobre a alva sepultura e apanha a carta, lê-a e, erguendo-se, olha-me com um sorriso iluminado, partindo de seguida, subindo, à boleia de um raio de Sol. 



2021-01-10

Perene

Perene, crónica no Canal N.tv


O quebrar gélido do solo a cada passo tomado faz da figura transmontana uma espécie de crepitar humano, que acompanha a vida ainda que seja durante esta manhã fria. 

O bafo quente a cada expiração inunda a manhã, como se o percurso sobre a terra coberta de neve fosse um longo, não linear, percurso de um comboio numa paisagem ondular e sibilar, que muitos querem aplanar, findar.

Passo ante passo, rumo ao povoado, sem qualquer queixume além do lacrimejar glacial que se aglomera nos cantos dos olhos e lhe confere uma visão periférica digna duma paisagem polar, as mãos nos bolsos da samarra, o pescoço encolhido e recolhido para o tronco, os ombros alçados ao céu - como as orações, não é por isto que rezámos? para que nos ouçam celestialmente e nos alcem pela espádua a onde nunca deveríamos ter saído –de encontro ao pêlo animal do casaco, a boina cardada que encima a figura alta e alva finda a descrição do indescritível.

Os povoados esvaem-se, a simplicidade não consegue resistir à aridez do esquecimento, os muros estabelecidos entre terrenos de ninguém são a fronteira ténue que separam o litoral do torpor ou interior, vai dar tudo ao mesmo. Resistem, ainda, os que escutam a noite e apascentam o dia como um rebanho de estrelas num céu ora negro, ora ocre, ora sarapintado de verde olival, amendoal ou o mais colorido vinhedo. Não, aqui nada parece meter medo. 

Por tudo isto continua a caminhar, o vapor de água quente que se eleva em névoa ténue faz dele locomotiva, forte, perene, movimentando-se além do tempo em percursos que ninguém permitirá roubar, ainda que furtem caminhos e os afundem sob cimento, pelos terrenos para lá do Marão, onde mandam os que lá estão.


2020-12-24

É segredo

 “É segredo”, ou talvez não seja, para ler aqui ou no Correio do Porto.


É sábado, manhã fresca apesar da proximidade da Primavera e da pandemia dar os primeiros passos. O frio no rosto vence-me apesar do Sol içar já as sombras das árvores que ladeiam esta velha estrada. Fecho a janela, ligo o rádio. É clássica, a música e a estação, o trinado de instrumentos que desconheço, mas que tão profundamente contrastam com as cacofonias típicas de quem nada tem para dizer. 

O medo amordaçador de antigamente amedrontava menos relativamente a este medo gritado que exponencia receios, alastrando-se como um bolor existencial, corroendo onde não se vê, sorrindo azedumes dentro de cada um, na vida que murcha por detrás de um sorriso falho e estilhaça sonhos, por já não sabermos mirar-nos nos olhos.

Encontro o local passado duas curvas e uma figueira grande à esquerda “não tem que enganar” disse-me o meu pai, mas enganei-me. Desço a pequena rua calcetada e estaciono entre duas tangerineiras, “é bom que não me esqueça delas ao fazer marcha-atrás” assinalo mentalmente quando saio. Já esperavam por mim, felizmente. Sai um jovem do pequeno portão de madeira e oferece ajuda. Carregar um móvel, ainda que pequeno, com alguém não habituado a esta nobre arte, é o mesmo que carregar dois móveis, mas toda a ajuda é boa quando de facto ajuda. Não tinha forma de descer os paralelepípedos de cimento com o móvel e comigo.

A cozinha de tecto baixo, falta-me um ou dois palmos para chegar à lâmpada led aparafusada ao painel de sanduiche, tem um aconchego próprio de quem sabe que nem o céu é o limite para quem se sabe voar. Desembrulho o móvel, encosto-o a um canto e ao ver o meu sorriso por quase tocar no telhado a senhora quase que se desculpa, apontando para o prédio de dois andares acima do terreno e 

– Compramos um apartamento só para dormir, mas é aqui que estamos bem e agora com vírus, é melhor assim. – Não me devia desculpas ou explicações, mas não consigo deixar de sorrir na simplicidade que aflora neste sábado de manhã e do comentário do marido

– Não se pode ter medo. Nem de viver. Nem de morrer. – de sorriso bonacheirão remata pausadamente, sentado a saborear uma nesga de Sol por entre as sombras dos prédios.

– Tu também achas que não tens medo de nada! – resmunga do alto de décadas de casamento.

– De mim não tem nada a levar – e pisca-me o olho, ao mesmo tempo que encolhe os ombros e enfia as mãos no casaco de malha. 

Despeço-me e venho embora. Lembrei-me das tangerineiras e suas ramagens a tempo e enquanto vejo no retrovisor a casa de tecto baixo que chegava ao céu, questiono-me. Talvez seja isto que, afinal, nos amortalha, a cadência de um sábado de manhã abandonado pelo medo. 

Chama-me a vida a um canto e sussurra “não escrevas isto, é segredo”.



2020-11-28

Será?

“Será?”, crónica no Canal N, para ler aqui ou ou na página do Canal N.


Na clausura onde apenas habita o medo, o nevoeiro deixa-se descobrir por quem sonha para lá das névoas que emolduram as montanhas vazias. 

O domingo tem um travo vazio, quando ousamos despir a rua de abandono, o macerar das rodas do carro no húmido empedrado que se faz chão, traz-me aos olhos uma torrente em aluvião. O que fazer à solidão? 

Das varandas, timidamente, casais despidos da formalidade dominical auscultam a rua da promovida aldeia em roupão, parecendo preparados para um hibernar forçado e chamando-lhe a isso o seu fado, pacatamente, como o caminhar de um prisioneiro, inocente, não que lhe assine a culpa a vida, mas porque lhes urdiram a existência de sonhos despida.

Calcorreio a tijoleira do alpendre numa antecipação do amanhã, que ainda não existe, ao ver que o chão seca-se da humidade como pode, sem ouvir os corvos num esvoaçar prenunciador de ninho pelas redondezas. A alegria, enfim, do negro que surge ter as pétalas nas asas, brilhantes, apesar das árvores, cortadas, crescerem agora tão distantes.

A turbulência do desvario que é o tempo fugir-nos por entre os dedos, trovoa a fala que abranda apenas quando, num abraço recolhido, uma criança esconde as lágrimas de encontro a mim e eu, na esperança do amanhã voador, questiono-me, quererá o Homem subsistir assim?

Termina o domingo, assim como as minhas mãos, ou os desejos de um futuro além deste muro. A família é o término da solidão, ainda que alguns vivam onde ainda não estamos, todos somos carícia morna e terna da mesma mão. Será isto que me escreve ou não?

2020-11-15

Halloween

Ei-las!
Bruxas!
Nas máscaras que não caem,
Nos dias escondidos,
Das vidas que nos esvaem.

Virulenta,
A placidez de um abraço escondido,
Em sorrisos no olhar
Que o ego apascenta.

Clausura,
A hermética existência imposta
É salubre ditadura?

Não me omitam nos arco-íris!
Desinfectem-me a alma
Com o âmbar, néctar dos Whiskeys!

E ainda que me soçobre em prantos,
Deixem-me pecar arfante pela noite
Pois amanhã acordam os santos!

2020-11-03

As uvas do podador

 “As uvas do podador”, crónica do Nada no Correio do Porto, para ler abaixo ou aqui.


As labaredas tímidas por entre o amontoado de folhas e ramagem verde libertam golfadas de fumo branco, teremos consenso quanto ao que fazer a este final de tarde? Desligo a luz do candeeiro, o cair da noite antecipado de uma hora velha projecta no vidro da janela a minha própria imagem, o reflexo de um corpo que me foge à idade, o esbranquiçar das feições e o reflexo em mim daquilo que escrevo. A recursividade da vida vê-se em toda e qualquer superfície. A companhia do silêncio é apenas interrompida quando os cães, farejadores do que não vemos, ladram ao longe em intermitências caninas que só eles conhecem. 

A noite, na verdade a gasta tarde de sábado, embrulha-se em mim e com ela todos os meus passos errantes no jardim ganham grafia, nem me vale o dia, por tantas palavras caberem em mim sem que as consiga escrever. O medo esconde-se na máscara, na bacteriana forma de vida que se vai acostumando a rostos sem expressão, ocultos agora numa nova prisão. De que nos vale o espectro visível de uma luz que não nos aquece? O que somos saber quando desconhecemos o que nos esquece?

Percorro novamente, na memória titubeante de algumas horas atrás, o irregular empedrado caminho onde alguém descasa a data de finados com os modernos confinados. O balde no antebraço com o detergente e esfregão, a vassoura ao ombro e o ramo de flores na outra mão, acompanham o corpo da mulher que se dirige ao cemitério para, deduzo, assear a campa de um familiar, numa caminhada erma, silenciosa. Por respeito, ao vê-la no cimo do caminho, tiro o som do rádio e abro o vidro para escutar o fumo doutra queimada. Resguardado pelo carro esboço um sorriso em forma de boa tarde (não há muitas diferenças nos trejeitos, mas gosto de pensar que as há), com a mão no volante levanto os dedos num aceno e sou cumprimentado com um aceno de cabeça e o embaciado por detrás dos óculos faz-me deduzir que falou e as pregas da máscara, ainda que ninguém a circunde, rodeia, fisicamente a distancie, repercutiram um “boa tarde!”.

A tímida chuva acomete-se com pudor nas lentes dos meus óculos e na capilarmente desprotegida cabeça, o vizinho levanta-me o braço em cumprimento e permito-me, fisicamente distante como mandam as leis, dois dedos de conversa com ele, tesoura de poda na mão, dois cachos viçosos bem fora do tempo, “São as uvas do podador!” diz-me a sorrir, enquanto com a cabeça alva aponta na direcção da chaminé do anexo, “Já acendi a lareira, vou aquecer a sopa e os pés e já tenho a sobremesa!” sorri enquanto ergue a mão e as apetitosas bagas de americano, luxuriantes.

Venho para aqui, a correr, ligo o computador e, às escuras, com as ainda tímidas labaredas no horizonte, ateio o fogo com duas pinhas abertas e secas no colo, dois episódios noviços de gente cansada, mais perto da vida que da sobrevivência. É mais do mundo a natureza, que a natureza do mundo neste viver de inocência. 


2020-10-12

Sozinho, ainda assim

“Sozinho, ainda assim”, crónica no Canal N.tv


Sozinho. 

Um quarto duplo aumenta a solidão depois de um dia de trabalho. 

Cansado. 

Após um banho e telefonema para casa, o cadeirão ausculta a noite e, cinicamente, a emissora regional transposta os anos 80 para o presente ao som de So far away dos Dire Straits, embora o verso «Here I am again in this mean old town» não seja muito justo com esta aprazível cidade do interior que, como tantas outras neste rectângulo à beira-mar plantado, tentam atrair os incautos sobreviventes da vida confiando-lhes em vários placards a qualidade de vida que aqui se vive. Sem par no País (escrevo país com letra maiúscula ou minúscula?).

Saiu ontem, quarta-feira, no carro da empresa, viagem longa para trabalho curto.

Apreciou a paisagem, as aldeias, vilas e cidades quase sem pessoas, os montes íngremes, os restos de vegetação que resistiram aos incêndios, os carros velhos e os semáforos de controlo de velocidade que não funcionam. 

Adorando Trás-os-Montes, faz-lhe confusão os montes íngremes e agrestes da Serra. Estrela, chamam-lhe.

Chovia lá fora, dentro do quarto chegava o rio murmurando e mais nenhum som, em profundo contraste com outras localidades, incluindo as que trazemos dentro de nós.

O ritmo pachorrento do dia e o silêncio da noite, fazem acreditar que ali, de facto, a qualidade de vida deve ser boa. 

Nada de polícias ou ladrões. Nem amigos ou intrujões. 

Apenas uns cães vadios, um deles com um saco de plástico, verde, na boca.

Agora uns relâmpagos que caem nuns pinheiros e nuvens negras.

Terminou a música num desvanecer harmónico que traz o sono pela serrania.

Sozinho, ainda assim.

2020-09-12

Interlúdio

"Interlúdio" ou a mais recente Crónica do Nada e que pode ser lida no Correio do Porto, clicando aqui.


Socialmente distantes, as pessoas apressam-se na devida separação do que é e do que pode ser. O balcão alonga-se na tentativa de ali caberem mais raspadores, o barulho das moedas, as aparas de uma aflição contida na esperança de ver sair dali o prémio, a ilusão, o desvio saboroso do destino que dali chama, as portas de vidro abertas de par em par, pacientes impacientes no vagaroso apressar.

Sentado NA praça de alimentação, ou de espera, como é o meu caso ou ainda de aflição, as mesas de plástico casualmente desinfectadas por uma impreparada mão, o café no palato oscila-me entre a visualidade e o bom dia apregoado por quem do Rio de Janeiro vem. “Há que tentar a vida, né?”

É cedo, a maior parte dos estabelecimentos comerciais estão ainda encerrados, abrem os usuais, ainda ensonados, o segurança de ar austero, deformação certamente, aponta e pede aos mais despreparados ou aqueles que, preparados, marimbam-se para uma pandemia quando por dentro o corpo lhe avisa que o destino apressa-se à sua revelia, “Coloque a máscara correctamente, por favor”.

Somos todos iguais, doentes que o sabem, doentes que o irão saber, doentes por afinidade e os que vivem para morrer, que são os saudáveis, doentes como todos os outros.

Emociono-me com o homem imaculadamente vestido, garrafa de oxigénio a acompanhar-lhe os passos, as cânulas como extensão de um respirar pesado, o vulto negro que o assombra sobre o pescoço e com a gadanha lhe raspa o folheto da sorte ou, neste caso, a espreitar-lhe a própria morte. Há prémio para a vida?

A meu lado, com a mão bolbosa, inchada devido ao cateter, os dedos torpes e pálidos extremados por umas unhas cor-de-rosa num chamamento primaveril, ajusta o gorro sobre o cabelo doutrem e, de olhos no relógio de parede, mira-se na vitrina onde a vaidade sequiosa sacia a sede, aguardando a hora do tratamento. Não há, em toda a sua postura, um lamento.

Alguém admira a tecnologia, amiga de quem deseja efectuar o pagamento sem se sujar ou contaminar, uma mini torre de Babel suga as notas, dá troco e ainda acende umas luzinhas, sem a saudação ou o sorriso a quem ali chega desterrado após uma centena de quilómetros de viagem e umas dezenas de voltas ao rosário, pedindo ajuda envergonhado, por entre trocados arados na mão rasgada de rugas, para beber uma cevada e um pão com planta.

Erigido entre duas unidades de saúde enormes, não deixa de ser irónico o comércio em torno do desespero, como um interlúdio silencioso, quase venenoso, de todas as palavras que me moldam um comovido silêncio. 

Levanto-me, peço outro café, adverte-me a jovem brasileira, sorridente, que muito café faz mal. “Não se preocupe, sangra-me de cada lado um hospital”.


2020-08-22

O mar de pedras

"O mar de pedras”, crónica mais recente no Canal N.tv (https://www.canaln.tv/artigo-de-opiniao-o-mar-de-pedras/)


A serrania cerca-me e aperta o silêncio de encontro às árvores, as estrelas acentuam o brilho, engalanando-se, para que o incauto seja apanhado sensorialmente desprevenido ao mar de pontos luminosos que se ergue como uma vaga num mar nocturno. 

Sem luzes ao redor, Trás-os-Montes, polvilhado de um picotado de oliveiras, sobreiros, castanheiros e rasantes vagas de erva seca, navega-se na crista de ondas de feno cujo vento, por vezes de uma intensidade que despenteia os sonhos que trago agarrados a mim, tenta marear. 

Oh nunca dantes navegada superfície telúrica, por ti vou de mim até aí, onde cada sulco me rasga a imaginação (ou será recordação?) e o baldio faz-se a mim como um cobertor de serapilheira, com o qual me cubro se o alpendre de telhas estelares rarear-se ou eu, eventualmente, me esquecer de ser corpo, este tição que me amarra ao grilhão corpóreo, eu que tanto desejo o etéreo.

O cão, dormitando à sombra, entretém-se sonhando com o regresso do subalterno dono que deve ser, deduzo, quem por mim passou agarrado a um John Deere na imensidão de um pasto arrebanhado entre muros de granito, cujas mãos rudes, gastas, “entre o lodo e as estrelas”, moldaram para que nunca se separe o que é do que tem, até ao dia onde seremos, felizmente, tudo o que almejamos enquanto vivamos: ninguém.

Os largos, como medusas ondulantes na paisagem esquecida do oásis submerso, regam a vizinhança com matrículas estrangeiras onde os abraços se trocam por cotoveladas mascaradas, até que se perca de novo a humanidade e a vida se troque pela cidade.

Esquecido, nado de costas, flutuando aqui e ali, na paisagem morna dum planalto que me faz viver do físico parto à morte, o mote dum salto de fraga a fraga é o que verdadeiramente a mente nos afaga.


2020-07-31

É menino!

“É menino!” Esta Crónica do Nada pode ser lida no Correio do Porto, clicando aqui.

É fácil esquecer que vai o Verão no pico (chora a sirene dos bombeiros em tom aflito) pela brisa fresca que me entra no carro, sem convite, mergulhando no meu turbilhão raciocinado de uma vida que se prende às nuvens e, sem elas, cai inanimada no meu peito. O dia leva-se assim, sem respirar, a eito.

Aprendi que algumas frequências rádio não transportam no seu espectro a boa nova, ondulam no intuito perverso de nos querer fora do universo. Sintonizo a radiofonia até que o som me refresca como o ar corrente, por vezes ausente, e a leveza do instrumental, desconhecendo eu qual, orquestra-se quase por magia com o borbulhar cansado, anafado, do rio por entre as pedras da levada. Está ali um eu, novo, mais novo, inocente, em pé nas pedras, preparando-se para mergulhar por entre o calor da tarde das férias grandes, o que fizemos às nossas crianças gigantes? 

A profilaxia tem um traçado, o fugir por entre curvas de aldeia com um caminho recortado, o imaginar de um empedrado a caminho do meu entrecortado habitáculo, onde leio das páginas siderais o destino de saber, por mais que viva, o silêncio nunca será demais. Sobra a casa de madeira nascida acompanhada, admirada, rodeada e protegida pelos sobreiros, ganhando cor com os bichos que por ali andam, ordeiros, subindo e descendo um montado nascido das mãos de hábeis oleiros, enquanto uma criança me levanta a mão, acenando a inocência, e eu lhe atiro uma estrela em cadência, é delas o céu ou o que resta do que vislumbro pelo espelho, espelho meu.

A noite acende-se dum tom alaranjado, talvez o tenha feito porque estou na altura de me colher citrino, mas sou trazido ao percurso, físico, e à razão do sentido e direcção tomados, longe da necessidade de uma transcendência, a luz não veio buscar, é o indicador de combustível, vulgo luz de reserva, que me pede afável que a apague.

Indico a mudança de direcção, sei que o serviço é atendido, mas gosto do acto de sair do carro, marcar a quantia desejada, levantar a mangueira de gasolina exalada e, num acto que a minha criança admirava (a mesma que ficou a mergulhar na levada), abastecia-me a mim mesmo, literal e metaforicamente. 
Vou efectuar o pagamento, de máscara mascarado, trocando as palavras necessárias e o tradicional cumprimentar do gasolineiro com um “está tudo bem?”. Ele pisca-me o olho e tenta falar, mas de máscaras alçadas não há dialogar. Saímos ambos, desmascaramo-nos e confidencia-me “está melhor que bom hoje!”. Aceno a cabeça num “então?” e ele, tímido, olhou no horizonte alaranjado que se envergonhou e quase amadrugadecida antes de tempo “fui ao médico com a patroa, vou ter um menino”, escapa-lhe um “fodasse” que ameniza com um “desculpe”. 

“A gente só quer que ele venha perfeitinho, mas eu, se possível, queria menino. Sei que eles fogem paras as mães, mas…”, o Sol punha-se no mar que nascia daqueles seus olhos escuros, ancorado pelo sorriso tímido e orgulhoso “olhe, é um menino!”


2020-07-13

Calor

“Calor”, crónica no Canal N.tv.

A sombra quente do alto Sol transmontano baixa-se ao interior terroso de cada transeunte, independente de se abrigar nas oliveiras, na projecção dos edifícios eirados e beirados, rondando carnivoramente as entradas dos estabelecimentos com ar-condicionado, que transpira, amedrontado, o frio forçado de quem não se sabe inverno.

No olhar de uma tarde febril, as nuvens encobrem, sempre que o podem, a tarde soalheira que escorre das frontes, embebe-se nos lenços de pano colocados sobre a testa, sorve as camisas coladas às costas ou sulca-se no chão poroso, transportado pela freima agrícola de quem se entrega à terra.

A larga tigela de barro é alguidar para côdeas e miolo de boroa, navegando sem mar numa sopa vermelha, tinta, cujas ondas se empurram contra o vidrado cerâmico, deixando a espuma rubra sombras de frescor. O açúcar polvilhado vai escurecendo e, depois, como um corpo entregue ao Pai, deixa-se imiscuir no finito universo carrascão de uma malga de sopas de vinho.

A colher calca a boroa, o vinho transborda para o convexo e Baco sorri nos ramos promissores onde pintalgam promessas de colheita ou, no pior, de desfeita. Uma e outra vez, almiscara-se boroa, vinho e açúcar, sempre a trindade, sagrada então com o que a vinha nos traz do que brota do ventre desta terra quente.

Leva a colher à boca, o calor sôfrego lambe-se no encovado sorriso e matreiro olhar de quem sabe quantos dias são esta vida. Enquanto a mastigação forma um embolado alimentar, de olhos fechados deixa-se descer o mundo do altar, para todo o tempo há um momento e eis que, ainda que fermente, a temperatura encontra a casca do sobreiro e pedindo-lhe guarida que o frio atiça, este estende-lhe a mão e rodeia-o de cortiça.

Tudo o que a Natureza faz, fá-lo bem feito, a preceito, que o diga o carregado negrume púrpura que escorre por dentro do peito e no rebordo da boca, que comeu o pão que o diabo amassou e, neste caso, o barril maturou.

2020-07-06

Clareiras

“Clareiras”, Crónica do Nada no Correio do Porto. Para ler aqui também.

À saída da curva onde, antes, me sustinha o esconderijo de um silêncio verde, vejo agora, ao longe, um aglomerado de paredes, propriamente e comummente, por onde respiram os poluídos rumores de camiões cuja minha visão turvam. 

Abrem-se clareiras onde antes as árvores albergavam um ou outro esquilo, era a surpresa “o que é aquilo?” em rodopio espiral num tronco, ou a barriga encostada ao volante e à sombra se descansava num ronco. 
Faltam-me os ramos, sobram espaços onde antes o lixo se escondia envergonhado, agora paira ao Sol o passado, apenas um sobreiro encortiçado, isolado, faz guarda de honra à tristeza que me clama, apenas porque receio não ter um dia esta cama, a enraizada matiz de restolhos que se abre onde fecham meus olhos.

Desaparecem-me, desaparecem-se, exibem largas peladas os montes, elas, árvores, que de seivas se faziam pontes, caem e jazem mutiladas na carroçaria medieval de uma atrelado, o céu que as fita desolado e eu que do futuro observo aterrorizado, procuro no presente, dentro da ansiedade dormente, a fotossíntese de uma orquídea esbatida no terror de observar ceifada a sua própria vida.

Miramo-nos, mutuamente, incapazmente, no vazio crepuscular de ver a moto-serra chegar, os braços negros musculados, o ganha-pão que se faz em corpos transpirados, a inconsistência da sobrevivência onde se perde o que não se ama, fazendo sem ardil um caminho mais rápido para um destino febril. 

Não tenho mais o horizonte à minha espera, o colorido ramal onde colhia a segurança de um tecto estrelado que fita a criação do ser criado. Pouco mais resta ao que não se sabe ser amado, palavras cortadas rente ao chão, os troncos suados venceram os troncos segados, retalhados, como um talho onde os cadáveres são os haveres do que não poderemos comer e o talhante, porque também ele tem braços, lamenta por detrás da máscara de terra colada à face o suor que ganhou na jorna, encostado à berma, na mão a cerveja morna, o que temos na vida a entardecer, valerá a pena o sustenho pelo que fazemos morrer?

Vi-me ontem na sombra estendida pelo chão, a silhueta do meu invólucro carnal, senciente animal, tapando as clareiras que drago ao peito com o espectro da minha própria mão.

Desvaneço com o vento, no lancil poluído de claridade, lamento, chegou o final da minha galeria verde e nem as lágrimas escorrem desprendidas, porque também crescem as clareiras que irrompem no sofrimento nas invisíveis feridas, agora que trago no peito um bouquet de ramagens abatidas. 



2020-05-29

Arde e ganha

Arde e ganha”, crónica no Canal N.

As tardes de domingo prolongam-se pelos restantes dias da semana nas aldeias onde o tempo parece não habitar. Passo devagar, intriga-me o nome de uma rua mais do que a localidade, assim como os entalhes graníticos nas paredes melancolicamente cultuais cujos capiteis, lentamente, soçobram à passagem dos homens, mas não dos anos.

Uma trindade de idosos, como constelação afastada, perde o brilhar no corpo torpe, moreno, cujos trejeitos capilares esbranquiçados se escondem por debaixo das camisas desabotoadas e das boinas descoloridas.

Aproximo-me no carro e como um sopro assumem uma postura erigida, os nós das mãos esbranquiçam-se pelo esforço com que agarram a retorcida moca, a hombridade da existência não conhece condições e assoma-se ainda mais quando nada veste o corpo, ou a pessoa, além das vestes feitas para proteger o casulo carnal dos elementos circundantes.

- Boa tarde meus senhores – digo-o por respeito, braço de fora da porta do carro, aceno à homem, coisa de tojo que ondula uma só vez ainda que vente e arrepie os crespos secos que digladiam posição nas rusgas de um penedo.

Nenhum deles deixa de me responder e é aqui que a solidão me ataca, sem que eu me aperceba, apenas agora me permito ouvir o cumprimento e calar o comprimento que me ausenta daquela calçada, cujo nome de rua me intrigou e deixa a minha curiosidade saciada.

Cada rua de uma aldeia tem mais vida resoluta que uma alameda de gente fajuta impecavelmente vestida. Dizem-me que é da vida. Mas acredito ser da idade ou por ter nos olhos a fuligem que escapa da paisagem, onde casas abandonadas nascem de forma selvagem, espontânea, por entre pedras como giestas que florescem vestidas de cinzento, a habitação de agora não é mais do que um lamento e é nesta recordação, a tarde esparramada nos longos lagos de um rio atormentado, que limpo a lágrima que se soltou do meu arado.

2020-05-26

A simplicidade florida

“A simplicidade florida”, mais uma crónica do Nada publicada no Correio do Porto.
Para ler a edição online, clique aqui.

Aperto o pão nas mãos, faço um pouco de força e rasgo-o com o respeito que um ancião me merece. As migalhas caem petalamente, rodopiando, separando-se na criação divina e caindo-me, algumas, em cima. Esfrego as pontas dos dedos, solta-se um nevoeiro privado para o qual me faço convidado.
A caneca gasta de uma cerâmica cansada onde o tempo bicou já algumas lascas, acolhe os vórtices que se formam, o do café onde a espuma da sua maré vagueia como que colectando as migalhas e a farinha poeirenta, e o meu vórtice, o desconexo movimento sensorial que me permite redemoinhar em direcção a um escuro, negro, imenso rasurado destino, por onde mergulho e me vejo sair sair do lado de lá do moinho. Claro, sozinho.

Emociono-me com a simplicidade florida de quem nunca se viu viver a vida de espada erguida, saldando-se à consciência sem que Anúbis saiba, sequer, que Deus fez uma Alma sem se aperceber.
A tarde quente pouco acomete ao espírito inquieto, de facto, todo e qualquer pretexto é bom para descer, mergulhar, ensopar, embolar o pedaço de pão, ver o nível escuro descer na chávena, deixando no rebordo interior círculos acastanhados que o calor transforma em linhas de uma maré que me navega. Este esfumado líquido negro é por onde o espírito me sega. O pão impregnado torna-se mais pesado, iço-o com o cuidado necessário para que não se solte e molhe a alva toalha de linho, aqui ainda mora o bibe e o carinho, sacudo-o lentamente e levo-o à boca, comendo e sorvendo a cafezada, ou lá o que queiram chamar ao repasto tardio de uma madrugada que vesti fria, mas me é servida quente, ao longo dia a pique.

Repito o parágrafo da mesma forma que me deixo encostar à calidez de uma parede à sombra, onde o vento sopra e o alforge se alivia de mim. A outra metade do pão, recheado dele mesmo, repousa na linácea rodilha que mãos cuidadosas teceram e cujo respeito me mereceram. Miramo-nos. Eu pedaço, ele naco, quem me dera sermos polvilha do mesmo saco.

O destino quer-se servido frio, como a vingança, ou a chacina para onde nos leva a matança, a mesma que outros chamam vida, mas como no entardecer cabem as horas todas do meu esmaecer, permito que me fechem os olhos, o pão abocanhado e aos golfes a marear os meus sonhos, sem dobrar cabos ou prantos.

Sorvido, comido, o sorriso é uma árvore de folha perene na floresta onde adormecem os trinados, nas eiras e beiras da cabana aquecida pelo braseiro de um cafezeiro, onde caem as migalhas da alegria nossa de cada dia.


2020-05-13

Contra a parede

"Contra a parede", mais uma Crónica do Nada, no Correio do Porto. (online aqui)

A vida não aguarda a vida de ninguém. Talvez por isso saiba que, saídos contrafeitos do confinamento ou não, o monólogo invisível cacofonia-se e tem razão para isso. Todos os dias parecem ser o gaguejar do quotidiano numa tentativa de reiniciar um início que, pasmemo-nos, findou fadado que estava à nascença.

Sem gaiola que nos molde o crescimento, a existência segue, ainda que com algum lamento, o trâmite normal de orbitar os dias. Acolho-me, assim, desde as manhãs frias, na presença que levo sob a redoma onde repousam, esparramadas, as nuvens cinzentas, alvas e as que, pelo pôr-do-sol, alaranjam o crepúsculo onde chego, agora.

Arrasto os pés no cimento empurrando-me e escorregando-me pela amena superfície, a sorrir do que antevejo ser a queda por ter as mãos nos bolsos, mas não, ainda me assiste a capacidade de, tal como as sombras dos eucaliptos que ainda subsistem (ali acima, no som que vem a correr dizer-mo, moto-serras rugem enquanto mastigam o que resta dos pinheiros aqui à volta. Quem disse que as árvores morrem de pé?) ao redor, vir horizonte abaixo, até se encontrar com a dor.

Flicto as pernas, encosto o queixo aos joelhos, o capuz esconde-me do vento que anda por aqui a ventaniar-se a salvo do entardecer. Abraço as canelas e fecho os olhos. Os grilos esgrimem trinares à porta da toca, confiantes, alheios que estão agora os putos, também eles nas suas luras, ao findado, felizmente, tradicional enfiar de qualquer palhinha capaz de os tirar, aos grilos e aos miúdos, do buraco. Perdem-se maus hábitos e ganham-se outros costumes, talvez piores, cabeça enfiada entre os ombros sem que se apercebam eles, catraios, de sobranceiras cores.

Alguém passa por mim e sorri, há coisas que um homem não pode fazer sem criança voltar a ser, mas que quero eu saber? Nada, realmente, a não ser deixar-me embalar pela parede ainda quente, como um abraço dado pelo céu, logo a mim, que não o mereço, mas se para mim vem é meu e assim me esvaneço.

Quando as luzes cederam à escuridão, consegui vislumbrar, ainda, pelo que me resta de aluvião, que caso não me sobrasse vida ou não encontrasse eu a porta de saída, poderia suster-me à parede cujo inusitado cálido dia de Primavera tímida aqueceu.
Caramba, às vezes esqueço-me de ser eu. De tal modo o fiz. Feliz.


2020-05-03

Intemporal

«Intemporal», crónica no Canal N.

Paro antes da passadeira onde um peão sôfrego passa a correr fugido do medo e vejo, no fundo dos degraus do agora vazio Centro Comercial, um casal ao redor de umas seis décadas de semeadura, roupas datadas dum século transacto e sacos plásticos pelo cotovelo.

Ele, no chão, afivela o capacete aberto, cinzento, cinzelado de uso, com uma tira de padrão escocês, puxando com firmeza sob o queixo para que não se solte o casco e vá cair, despencado, ladeiras da estrada abaixo.

O descanso bípede alavancava a motorizada num movimento ondulatório, ora na roda dianteira, ora na roda traseira, que termina quando a esposa, em pé no último degrau, pousa na grade sobre o farolim ciclope semi-esférico vermelho, atrás do banco remendado, uma seira com um losango pintado de verde escuro, onde os vimes partidos confirmam a presença inexorável do tempo. 

Talvez o meu suspiro seja mais lamento que enfado. Acordo com o buzinar ligeiro do carro atrás de mim. Faço sinal para que me ultrapasse simulando que atendo uma chamada telefónica, apenas para admirar este acto duma cena que tem fugido ao meu olhar.

Afivelada a presilha, dá o outro capacete à esposa que com a mão grande, bolbosa, acama os cabelos antes de o enfiar na cabeça. Já o marido passou um esticador na ceira, ergueu a perna esquerda alçando-a sobre o banco da motorizada e, equilibrado, volta a chave na ignição, pé firme no kick e já o azulado fumo, habemus machina!, imprime movimento à atmosfera. 

A esposa sobe para o apoio do passageiro e, pudicamente, com as mãos nos ombros do marido, iça a perna, senta-se e com a cara encosta às costas de napa do blusão curtido, sorri, abraçando-o enquanto o retrovisor mostra-me a estrada vazia.

O equilíbrio cinético de um datado casal confirma-me, apenas o amor é intemporal.

2020-04-20

Nas Tuas mãos

Não te afoita o despreparo,
nem a cálida impressão da vida no seu anteparo.

Rasgas caminho ombreando forças com o vazio dormente,
sorris na ruga desgastada das vidas que,
a teu toque,
amanhecem crianças
novamente.

De teu labor
sorrisos ondulam
nos ribeiros do teu suor.

Da noite iluminada à luz do silêncio apagado,
em leito descansas
sob o céu de um cansaço chorado.

Hoje o aconchego parece-te cru,
mas amanhecerá futuro nos corpos torpes que visitaste
porque tu, és tu!

Não desvaneças a distância dos saudosos abraços,
aos pais e avós como a teus irmãos.

É o próprio Deus,
que, dos teus braços, faz as Suas mãos.

2020-04-13

Quase louco

"Quase louco", crónica no Canal N

Confinamo-nos a viver dentro de nós, próprios e atados, afastados das torrentes vítreas que nos reduzem ao caminho percorrido e à incerteza do que há, ainda, possivelmente, pouco previsivelmente por percorrer.

Dentro de mim habito-me num universo que se confunde com um próprio verso, lavam-se as mãos de um dia onde a consciência sucumbiu ao peso da ignorância, talvez da inocência, aos atropelos próprios de quem não se sabe pedalar para mover o mundo. Ah, se a vida fosse apenas um segundo. 

Mas não é. 

E por isso, talvez tudo se reduza à fé. Religiosa e ateia, cada qual a tem à sua maneira, vai provendo quem nada observa além do clarear do dia na janela tricotada por teias de aranha (e café negro, uma boroa, um capuz, uma gadanha), rendilhada pelo olhar embaçado de quem arfa um orbe cansado, as costas aquecidas nas pedras graníticas do muro, os olhos fechados na visibilidade fotónica de sonhar um Sol a cada dó. 

Há quem leia «só em mim me sinto seguro».

Há quem escreva «faltará muito para chegar a outro lado?»

E a viagem decorre sem vulgar destino, cada curva sua sentença, vergar apenas a Deus num rápido «a sua bênção» e sorrir esguiamente um «mas deixai ficar a tentação».

Catapultados pelo desconhecido, embarcados ao vazio próprio de quem se sabe vestir e sai à rua nu, artilham a existência de terem aquilo que os faz serem e que, invariavelmente, os leva a possuir pouco, muito pouco. 

Talvez por tudo, possa aclamar silenciosamente este inverosímil mantra e me tenha ao fim da tarde rouco, feliz, quase louco.

2020-04-04

Um dia as pessoas serão um lugar bonito

Um dia as pessoas serão um lugar bonito”, crónica do Nada, no Correio do Porto.

Começo a caminhada ao procurar um pouco de paz no vento que passa, resoluto, sem nada me querer dizer, excepto sobre a brevidade do tempo e dele próprio. Três jovens concluem um muro erigido em tijolo, a pá faz escorrer o cimento pelas caneluras, observo com aprovação, enquanto tropeço no piso irregular, como se por baixo de mim brotasse um magma viscoso, frio, que enruga o granito toscamente aplicado. Caminho, parado.

Os dias maiores, hora nova como assim lhe chamam, trazem consigo outras dores. Apesar do confinamento e do frio desencorajador, o conforto da camisola puxada para o pescoço como se me envolvesse a recordação de um adormecer a olhar para a lareira, impele-me a continuar o trajecto pelas ruas cada vez mais desertas, nada beijo, excepto o trio trabalhador de ontem e do parágrafo anterior. Separam-nos as letras, o talento para o trabalho manual e a minha constante indagação. Será que a Sra. Arminda, antiga habitante desta casa pequena, onde o rendilhado adaptado ao quadriculado em que se dividiam as janelas de madeira, aprovaria estas obras? O decapar de memórias para que novas se sucedam e me vejam passar, novamente, por este percurso, talvez mais idoso ou, quem o saberá?, já nem a idade me vista e eu seja espírito, alma ou outra etérea feição de encontro ao destino ou a qualquer distinta ilusão. A noite vai dissipando o dia, escorrega-se pelas frestas onde o tímido astro não chega, imbuído de uma nocturnidade cega, o empedrado limitado ao tempo devolve-me a atenção para os passos. A vida é feita de todos estes nós lassos, excepto os meus, que se desatacam pelas hortênsias. Páro a apreciá-las, a fragilidade falsa de uma planta, ou qualquer outro sonho que nos canta, a bambolear-se porque o vento, senhor do seu próprio lamento, as atira de encontro ao meu olhar. Não fosse a minha alergia, poderia saborear no olfacto, assim, não me resta alternativa além de trazê-las comigo e mostrá-las, de olhos fechados, quando me for entregar ao sono, ainda antes da saudade de casa me adormecer.

Esgueiro-me contra a borda rapada, apoio-me à terra preta que o tractor lavrou e o agricultor de circunstância gradou, à mão, como se deve tratar a pessoa e o torrão. Passa um camião do lixo, as luzes públicas tardam em acordar, levanto a mão ao condutor e aprecio os cavaleiros nocturnos, aos pares (saberás o que ver quando o silêncio amares), cavalgando às costas destes monstros metálicos, salvando o mundo ou os recantos para onde se atiram as superfluidades do que somos e a obscuridade possa acometer-se de uma limpeza, agora que a humanidade está presa.

Encoberto pelo lânguido arrastado nascer nocturno, alguém se esconde da minha saudação acamando uma leira com a soca de madeira, como se a idade o afastasse das tangerinas nascidas mais alto que o braço alçado ou destas frases arrancadas aos golfões, por entre o trinar dos raros veículos, camiões?, e o canto melódico dos meus olhos que se fecham à claridade. O Homem urbano é uma ilha imersa na cidade.

Encontro-me no deambular desta sensação de tristeza, procurando um segredo na frugalidade da minha natureza. Caminho sem palavras enquanto recito, um dia as pessoas serão um lugar bonito.


2020-03-02

Cupido

Cupido, crónica no Canal N.

O largo da Feira ostenta o cinzento reflectido do céu diurno de um qualquer dia invernal, as pequenas cestas alvas evocativas dos tremoceiros contrastam com o vermelho valentinal de uma sexta-feira, poderia ser doutra maneira?, os carros estacionam sobre o cimento partido e as frestas por onde respira a terra rangem como se o dia fosse uma porta velha, forrada a zinco numa imaculada portada onde o tempo fez um vinco.

A ameia do restaurante onde, quase relutante, experimento sabores e sorrio com a aventura de duas sexagenárias a fotografarem a comida, o vinho, o espaço e elas mesmas, concede-me ali mesmo, ao parapeito da emoção, visualizar no à vontade de quem não se prende pelos candelabros, do tecto e do texto, porque a vida é ela mesma um palimpsesto, um quadro vago ou o vime gasto e cego do tremoço para o seu cesto.

A atravessar a praça, passo firme sem opulência, por entre olhares dos que se rodeiam dos bocados invisíveis erguidos a vestes de um rei nu num labirinto de desdém, um trolha segue sorrindo, uma mão no bolso do casaco negro, a outra segurando, direita, cuidadosamente, uma rosa vermelha, o chapéu azul de uma marca esbatida, as calças caiadas e esburacadas por onde respiram a dignidade e simplicidade, caem sobre as botas de trabalho que parecem amaciar o solo que pisam, cobertas de tinta que se desprende a cada passada volvida, na praça, na vida. Segue, mãos nos bolsos, a sorrir. Ah, a vida é tanto do porvir!

O funcionário do restaurante rouba-me a atenção, respondo apressadamente acima da indecisão e volto-me, outra vez, para a praça, mas já não o vi. No chão, começando a desaparecer devido aos pingos de chuva que o céu deixou vir ver, pequenas pegadas de tinta ou nuvens de uma paixão sem cor. Não será isto o amor?

2020-02-09

Invisibilidade

“Invisibilidade”, crónica do Nada, no Correio do Porto, para ler abaixo ou aqui.

A cacofonia desvairada do comentador e o arfar animalesco de quem ao balcão vocifera contra uma decisão do árbitro perturba-me, desvio a contemplação e esbarro na invisibilidade da montra, onde o vidro duplo duplamente protege da amálgama sonora, sem permitir que se imiscuam barulhos e ruídos, a qualquer hora, internos e externos ao café. Por vezes, nem consigo auscultar a minha fé. Sons/somos cada vez mais distantes.

Vejo-o subir o degrau de acesso ao café num cambalear, sem vislumbrar a porta de entrada. Dá um passo atrás e enceta um par doutros arrastando a mão suada na vitrina até cruzar o olhar comigo. Sacode os ombros, ergue as sobrancelhas, aponta para dentro e pergunta fitando-me, a mímica não se faz entender a quem não ouve, ou houve, ao qual respondo apontando a porta onde há segundos tinha estado. Empurra o fino e frio cilíndrico puxador de inox duas vezes, troando como quem bate à porta da vida e ela limita-se, como as pessoas, a não ouvirem  porque só sabem espiar. Com o esgar de quem se envergonha de si mesmo e tenta não exibir uma certa ebriedade, de espírito ou licorosa, puxa a porta, sorri e entra no café. (Por instantes o som do camião parado à entrada da rotunda, os quatro piscas ligados, suscitando um coro de buzinas impacientes, surpreende a audiência que, absorta, mergulhava a vida no televisor e outros, como eu, aliás, só eu, sacudia a atenção para mais um dia somado na subtracção ao que nos falta ainda escutar.) Ao passar por mim, num envergonhado sorriso justificativo de não dar com a entrada diminui-se com um jocoso «estava na horta e não via as couves!». Sorrio insonoramente mais alto do que os sons que me rodeiam. Atrás dele vinha a solidão. Emociono-me.

A porta fecha-se sozinha, como que nos poupando ao esforço de não nos querermos sair, titubeia até ao balcão e pousa o saco de papel no metálico banco de napa vermelha. Tira duas moedas do bolso das calças de bombazina, pousa-as no frio granito rosa monção e sem necessitar de qualquer interlocução, o dono do café e empregado da vida enche-lhe uma caneca de cerveja à pressão. Assim que as moedas são recolhidas, por educação deduzo, sorve a caneca num trago de cinco golfadas, pousando de seguida o recipiente vazio com a espuma a admirar o tecto amarelado. Raspa a boca com a delicadeza possível que as costas das mãos proporcionam e sai, sem um boa tarde, boa noite até, por quem se tolhia ao jogo transmitido ou às conversas circunstanciais dos casais unidos à mesa e separados pelos telemóveis.

Não chegou a descer o patamar de entrada, descobriu mais duas moedas noutro bolso, trilhou um pé para que a porta não fechasse e reentrou, repetindo o procedimento perante o olhar inócuo de quem olha e não vê. Num só hausto adiantou a ebriez como quem se afoga na escolta invisível do que o espera do lado de lá da vidraça, da vida, onde o fragor não reverbera. Atirou-me um «boa noite» e retribuí com vergonha, complacentemente, acompanhando com a vista o percurso irregular de quem parece esgueirar-se aos pingos de chuva que ameaçam precipitarem-se sobre a tristeza. 

Talvez seja preferível a companhia da solidão, à invisibilidade de quem não se sabe viver e está ainda verde, para que o infinito o possa colher.





"Invernoso"

Aceitando o convite enviado pelo Canal N.tv, inicio novo caminho, desta vez com a primeira crónica que pode ser lida abaixo ou aqui.

"Invernoso"

Não obstante ser Inverno, é com nostalgia que olho para os dias de Sol, amenos na face, para quem vive acima das nuvens e para quem o transporta no íntimo onde se aquecem os dias que não sabemos amornar.

A chuva caiu inúmeras vezes sem que se esquecessem os pingos de, esparramados no asfalto, torrentarem-se pelas pregas que a vida vai tricotando nos solos, nos edifícios à minha volta, nos litocerâmicos que se desprendem das paredes, nas rugas que aram as faces de pessoas que outrora foram solo fértil para a vida.

Um guarda-chuva pavoneia-se ainda que ferido no orgulho e no forro, iniciado a desprender-se de uma bolbosa plástica extremidade e a vareta, arqueada, assemelhada a um esgar na face da senhora que, entre segurar o saco de plástico das compras, oferecido apenas se o total do talão das compras o permitir, suster a bolsa negra e escamada de uma pele falsa, ao contrário da que o tempo plantou nas linhas de uma vida por mim augurada de pacífica, ainda que o parco conteúdo do saco de compras faça iludir quem de muito anda, mas de pouco vive, e equilibrar no pescoço de lenço cachecolado (nunca sei onde estas modas param ou começam) a vara fria e húmida e a moca de plástico pegajoso que, com o vento, por vezes oscila e lhe atinge o queixo, ainda ela sem queixume.

A vida é um malabarismo constante, em última instância entre os nossos pensamentos. Como entre o Inverno e a recordação de um dia solarengo, de olhos fechados, na nostalgia de se ver chegar o Inverno, novamente.

2020-01-19

Que farei eu, quando o infinito terminar com a luz dos meus olhos e me descobrir, então, pedaço de terra, aluvião, um vento à sorte sem incomodar os véus, que farei eu, Deus?
Que farei eu, na ternura do amanhecer, quando em cárcere não me vir sobrevoar os montes, eu, sobre barcas e carontes, nada mais aprisionando do que a ilusão, hoje é ontem, amanhã é não.
Que farei eu, terra alcalina da súplica numa hortênsia, casta de cepa sem afluência de seiva bruta, em silêncio de tarde de domingo.
O infinito, a terra que me quer inaudito e eu, sem o saber, planto mundos porque não o sei dizer.

2020-01-14

Sagrada Família

Sagrada Família”, uma Crónica do Nada, no Correio do Porto.

Alheia à periculosidade de caminhar numa estrada nacional de costas para o trânsito, talvez porque o negro das vestes que lhe escorrem do corpo até aos pés não avizinhe nada que se possa perder além do que já foi perdido, como a alma gêmea que se faz já de sentimento erodido, segue lesta pela faixa de asfalto desgastado, no limite entre o traço contínuo, tracejado aqui e ali como locais onde por analogia se possa mudar de destino, e a berma que resvala para um empedrado, musgado, esburacado caminho por onde a água corre apenas por não ter escolha.
Na mão direita, suspensa como uma pequena lamparina a óleo alumiando as noites e os dias desprovidos de luz, dentro e fora de nós próprios, uma pequena casinha de madeira, como todas devem ser, as casas, pequenas e de madeira, onde vivam entre nós e veios mais ou menos encostados aos corpos que nos permitem colmatar a solidão de sermos por vezes ermos, transporta gentilmente uma família, sagrada.
Dentro do cubículo, às escuras pelas portadas fechadas, carinhosamente presas com uma chave minúscula onde uma meia volta chega para que não vá o Pequeno dar de olhos com o estado em que o mundo está, seguem, com um ou outro solavanco, as imagens assentes no soalho. Parecem adormecer no ritmo da caminhada, talvez descansando da última estada ou embevecidas da pobre esmola ofertada, como é oração de pobre que do bolso tira nada e talvez por isso chegue mais depressa ao céu.
Ajeita o lenço negro que, na cabeça, acalenta as cãs, puxando-o para o queixo, não sei se pelo frio que os carros em velocidade acelerada trazem no rasto, se pelo pudor de se ter corpo há muito não afagado, além do borralho e da noite consoada com o Porto e o pão de ló. Continua a caminhada, a sagrada família como companhia, talvez até como único motivo de ver nascer o dia, os carros tangem-lhe os passos, mas nada abala o pé de quem se deixa carregar aos ombros da fé. 
Não há destinatários, nem lares, que acolham tal presença, o mundo já não é de quem em Deus acredita, vale tudo sobre a palavra dita. Por isso, após ronda sobre as casas usuais, chegada a casa, o portão de madeira apodrecida na beira do caminho permanentemente aberto, e é assim que está certo, corre para dentro. Os cavacos secos rapidamente abandonam o estio e estalam escancarando as entranhas secas, ajudados pelas pinhas, abrindo caminho ao fogo que começara a aquecer a cozinha. Assegurado o ar um pouco mais quente, a portinhola aberta com todo o cuidado para a claridade não ferir os olhos dos modestos habitantes, a lamparina acesa em frente ao pequeno oratório, as mãos em concha na malga onde a boroa sorve boiando o negro ascenso café, recita-se a ladainha orada de olhos fechados para que não se distraia a devoção e assim se deixa o dia despedir em paz. Ou talvez seja a solidão a esconder-se na religião, tanto faz.
A noite encarrega-se de nos trazer o frio, os cavacos exaustos desenrubesceram e para que não se constipe o mundo, o menino Jesus, olhando em redor, deixa a mão do Pai e vai, pé ante pé, resguardado no olhar enternecido da Mãe, puxar o xaile que resvalara ao chão da cozinha para as pernas da velhota, que recita no hiato entre o sono adormecido e o profundo «Possamos depois bendizer-vos por toda a eternidade no Céu» e o petiz Jesus, já no portátil oratório remata num sorriso maroto e cândido «Ámen».





2019-12-18

É do futuro o entrelaçado passado que me soçobra, não pelo vento, nem a falta de alento, mas pelo que de mim me ausculta, vitrificado, o outro eu que não meu, teu enfim o infinito calado, como a palavra silenciada o meu cajado.

2019-12-08

Não devia viver assim

Não devia viver assim”, crónica do nada, para ler no Correio do Porto ou aqui.

Sabermos o quão a madrugada nos molda para o dia é adiantarmo-nos ao nosso crepúsculo. Não o imaginei por iniciativa própria, mas por descortinar pelo fumo da chaminé de aço inox ou pela senhora que, agora, passa por mim com uma rodilha no alto da cabeça, o saco de plástico, que ganhou as vezes de uma seira de vime, das compras equilibrado, uma mão sustendo o pacote de bolachas e a outra mão, alavancado a vontade de comer, com bolachas Maria, num acto mariano de alimentar a alma numa manhã fria para o corpo.

As portas ainda não descerradas quando a braseira ou o fogão a lenha parecem já trabalhar, exibem a casa fechada ao tempo, onde os anos se amontoam no corpo regado a vinho tinto, maduro, e panelas de sopa, verde, que são sorvidos em igual quantidade, numa miscelânea apropriada às manhãs, onde os amontoados restos de poda, folhas varridas com o amor que se sabe ter ao Outono em que entramos, na estação e no apeadeiro pequeno e abandonado que somos, descansam derretendo-se derreados pelos primeiros oblíquos raios de Sol que entorpecem os olhos, ainda adormecidos, enquanto não chega a gasolina e os fósforos.

– Disseram-me que não devia viver assim. – foi o que ouvi quando já perto do meio-dia, a porta entreaberta por onde espreitavam a boroa acolchoada pelo saco de pano, o copo e a caneca de vinho, e o prato virado ao contrário para que a fuligem não se abastecesse na sopa e lhe enferrujasse as articulações.

– Mas é assim que eu gosto e prontos. – uma pequena pausa – Já não tenho idade para prestar contas a ninguém. – continuou num desabafo interior que verbalizou sem querer, admirado, olhando para o copo vazio e caneca cheia quando, regra geral, o que lhe dava coragem era copo e caneca ambos vazios.

Quando chegamos à idade de sabermos não ter idade, seja para prestar contas, seja para não nos deixarmos subtrair pelos cálculos doutrem, sabemos que o mantido perto do peito tem o condão de nos avivar por dentro o calor que esquecemos, distante, em braseiro quase apagado. Talvez por isso, escondido entre parágrafos, com as portadas abertas agora, eu olhe para ele, sozinho, feliz, na azáfama de uma vida quase irreal, um paraíso que conhecemos apenas pelo resto de couve que levou a boroa ao forno. Resto-me reduzido à matemática da vida cuja equação, possível e determinada, é solucionada sem término ou adeus, porque a vida dele, e também a minha, é de Deus.


2019-10-02

Órfãos da misericórdia

Órfãos de misericórdia, crónica do Nada no Correio do Porto.

“Órfãos da misericórdia”

Quando me aterram as memórias, pauso-me no hiato entre as vidas que sei ter conquistado à morte. Afinal, a passagem de um mundo para o outro está ao alcance do destapar, paulatinamente, o postigo onde o musgo calafetou os espaços entre as tábuas de madeira toscamente pregadas. A liberdade oscila no espaço a percorrer desde que nos soltamos das amarras do nosso próprios cais, até ao sereno embalar de um homem só, na maré, de frente para o destino, em pé.

Embora me consiga envolver e desenvolver de encontro ao portão de ferro, o arame farpado retorcido e as inscrições germânicas em terras polacas, ostentam tudo o que poderá ter de enganador na palma das mãos de Hades. 

Concentrados num campo estéril onde apenas o sofrimento irrompe, perdidos no caminhar árduo da imemorável história dos pisados, vejo-os oscilar na existência como pequenas marionetas cujos cordéis urdidos foram pelos que, calados, compraram o horror.

Percorro o irregular caminho em terra batida, tento não vê-los encostados às paredes, fantasmas presentes porque além de esquecidos, votados ao lacrimejar turístico cuja próxima boutique fará obliviar a indignação, velam pelas barrentas paredes cujos tijolos alicerçados sonham pela desconstrução do mundo.

Mudo, por entre edifícios, ergo-me pé ante pé, de memória em memória, como se cada mirar me fosse atirar ao chão e, mesmo este, indignamente sentindo-me, jamais poderia caber-me porque quem se deseja viver, não se cabe neste mundo.

O barrote permanece estruturalmente virado para a parede onde prisioneiros de corpo peneirado tombaram, libertos, fuzilados por guerreiros recrutados nas quintas latifundiárias onde, assim esperam, pequenas crianças de cabelo louro e olhos azuis correm, inocentemente, de mãos abertos por entre milho, cevada, trigo, longe de imaginar que os pais, tão amados, escondem os olhos fechados por detrás do fumo do fuzil, aspirando que não lhe vejam o rosto com o trilho húmido de uma lágrima.

Emudecido, com o coração abatido e encostado ao peito, trago os ouvidos arranhados pelos gritos que as paredes gazeadas viram exulcerar. O sofrimento é algo que não se raspa ou caia, permanece cinzento, ermo, ainda que o cobramos de matizes, como nas décadas volvidas no capítulo da história, sem termos abraçado órfãos da misericórdia.



2019-08-23

Pagaria, caso as nuvens fossem dinheiro, o que necessário fosse para ter, sempre, a refracção das gotículas de água num dia de sol tímido. 
Engano o torpor de uma viragem na estrada com a promessa de ser, novamente, o som abafado da surpresa de uma criança a ver pela primeira vez a influência de um sorriso.
Tenho gastado as horas, talvez por isso o tempo ranja quando passa perto de um sentimento e o vento se faz ao caminho, na maior parte das vezes sozinho, para se sentar no colo de alguém que o embale, até ele se recordar daquilo que realmente vale.
Deitado, a noite subiu já até ao meu peito, preparando-se para me cobrir.
Agora sim, é hora de dormir.