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Presépio de uma pessoa só

“Presépio de uma pessoa só”, crónica no Canal N . A neblina cinzenta filtra os sentimentos de Inverno e alavanca as recordações envoltas em fuligem, os montes abatidos e os dias de advento na ventania que abana a vidraça descalçada e tilinta num carrilhão de luto negro e enraizado.  As curvas da estrada asfaltada serpenteiam sem saírem do local trazendo no regresso as marcas dos pneus na neve, as folhas das árvores e pequenos passos de socos arrastados pelo solo, pela vida. Na alva tarde rural há uma senhora no contrastante luto com a natureza, habitante de montes abatidos, recebendo os filhos emigrados na Suíça, que fugiram de Trás-os-Montes para irem viver por detrás de outros montes albinos, escarpados na distância entre o conforto e a raiz que se esvai a cada Natal ou férias grandes. Sem pressa, guarda pacotes de papel que embrulham nacos de presunto, algumas batatas, cebolas, nabo, nabiças, repolhos e cenouras, empoleirada na traseira alta do ostensivo carro de matrícula em língua

A quem mais precisa

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 “A quem mais precisa”, crónica no Canal do Porto , na secção Crónicas do Nada. O aproximar da véspera de Natal traz consigo uma urgência em conjugar o Filho do Verbo em forma de tempo Presente. As encomendas atropelam-se no fornecedor da pintura que mistura cores brancas com frisos vermelhos num cinzento aclareado ou um preto chocolate preto, não muito branco ou acastanhado. O que é a cor? O último sábado antes da véspera de Natal traz um rebuliço entre embrulhar a mobília no celofane, para proteger e fixar a carga de forma a que, pelas curvas da margem esquerda do Douro, não se contraponham e misturem o puzzle previamente delineado, e o ajustar do assento da carrinha, o procurar uma máscara limpa e sorver um café quente, torrado, e um aperto de mão amedrontado pelas variantes que pululam em diversos noticiários.  A tolerância acompanha o advento quando, a cada cruzamento, um sinal de máximos permite anuir a passagem perpendicular doutros que, num também adventista humor, agradecem co

Tresmalhados

“Tresmalhados”, a minha crónica no Canal N . – Mas você nunca quis sair daqui? – era a pergunta que muitas vezes lhe faziam e que, nas inúmeras respostas acima da quietude tradicional de quem se habitua a falar com o tempo, em amena cavaqueira nos serões à lareira na companhia do silêncio, soçobrava com um – Eu não sou daqui, de que me adianta sair de onde não sou? A pandemia tinha trazido, além do isolamento espacial, uma certa distância temporal para quem sempre se habituou a viver a umas dezenas de quilómetros do maior, mais aconchegante e, também, mais confortável em termos de companhia de outros corpos, envoltos muitas vezes numa ausência sofrida de falar com quem tão perto está e, concomitantemente, tão afastado se vê do coração. Era caso para dizer, perto da vista, mas longe do coração.  No percurso por entre as árvores as botas calcavam com cuidado os ouriços, esfregando-os entre os pés e fazendo saltar as castanhas, libertas de um útero protector, escondido dentro de uma espin

Felicidade

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 “ Felicidade ”, a minha crónica na secção Crónicas do Nada , no Correio do Porto . – Hoje sou eu que pago os cafés! – Ainda não tinha acabado de beberricar o negro, torrado, quente néctar que me habituei a ter na boca, já me tinha batido no ombro a sorrir. Agradeço e pergunto o porquê de tanta generosidade, mas tinha sido a simpatia que realmente me tinha cativado – Faço hoje 50 anos! 50! Passa num instante! Há uma genuinidade na simplicidade que me desarma. Não é pelo café, sessenta cêntimos não são nada (ao mesmo tempo são seis pães), na verdade foi um euro e vinte cêntimos, era o meu café e o do meu pai, mas a alegria de uma data que, caso não fosse ele a recordar e celebrar dificilmente alguém o faria, pelo desconhecimento da mesma, pela ausência da família, pela rapidez com que acrescentamos dias à vida e nos esquecemos de os viver. Era dia de festa! Por entre a clientela, lá surge um pedido diferente, um copo de Porto, um sujo, uma cerveja, um favaios, e tudo ele pagava pousando

Saldo positivo

"Saldo positivo", a minha crónica no Canal N, para ler aqui . Já só se deslocava à agência bancária a custo, não pela idade que, inexoravelmente, se encostava a si com o prenúncio temporizado de um encontro com os limites da Natureza, a mesma que sempre lhe foi benéfica, na monda, na ronda e na parceria nos pastos de montanha, mas pelo cada vez mais tecnológico discurso dos funcionários. Para lá do balcão tinham ido já os que, reformados, a gosto ou a suplício, o recebiam e por entre palavras, prolongadas depois no balcão de madeira pegajosa da tasca, entre copos que deixavam impressas e imprimidas os bojões redondos por onde a vida se emborca, lá lhe preenchiam um impresso, ora no papel, ora no computador, com o barulho das teclas, tac, tac, tac, tac, a fazerem a vez dos dedos grossos e gretados a rodearem a caneta como quem coloca um cavaco na lareira. Nunca necessitara da impressão digital, agora chamavam-lhe dados biométricos, nem de comprar um telemóvel daqueles que se m

Visitas

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“Visitas”, crónica do Nada, no Correio do Porto, para ler aqui . A campainha por detrás do tudo metálico da salamandra não ajuda a anunciar a chegada. Felizmente, sendo frio não está frio, a salamandra desligada permite que encoste o dedo ao botão sem medo de me queimar. Primo duas vezes e começo a subir a escadaria de pedra, agarrado ao corrimão de ferro, pintado de preto, apenas para recordar o passado pela textura irregular, como fora de regular é já a minha memória das folhas de vinho americano no chão a tingirem o pavimento e a encher-me, sei-o agora, a memória de um cheiro a mosto e o barulho do ralador no seu movimento final, solto, com quando em puto me entretinha a imitar os mais velhos. A porta de madeira é aberta, celebramos o final de uma pandemia, ou do final deste dia, ainda levo a máscara na mão, mas sobrepõe-se os dois beijos e o abraço e o cheiro a massa de rissol. Os passos são menos, agora, que me levam à sala de estar, mas na estatura maior, é a tempo que inclino a

Pinceladas da vida sobre a morte

“Pinceladas da vida sobre a morte", crónica no Canal N. Pode ser lido aqui . O caminho, nem sempre tortuoso, leva-me sob um calor abafado, o qual as vinhas agradecem e os bagos, roliços, pintalgados, prenhes de um rubor anunciador de grau, se deliciam. Consultei o GPS de véspera, há que preparar antecipadamente qualquer empreitada, ainda que para um funeral. Correcção, ainda por cima para um funeral. Somente a vida, perdão, a morte, não requer preparação prévia, basta umas boas golfadas de ar puro, meia dúzia de gargalhadas, um bom punho fechado sobre o horizonte, o tilintar de dois copos de whiskey e uma parelha de sonhos concluídos em forma de tela pintada a borras de vinho. A vida é uma paisagem, do Douro, apaixonada por um rio onde o céu se vem espelhar, os socalcos alicerçados no suor galego, venha ele donde vier, regados no sangue que se esvai a cada partida deste mundo ilusório. Diria que do lado de lá a vinha somos nós e os nós com que nos cingem ao arame, para que despont