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Abraço

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"Abraço" ou a crónica inevitável no Correio do Porto, para ler na minha secção "Crónicas do Nada", clique aqui . Sou arrancado do estado de hipnapompia, quando tento reter o que a noite me quis dizer, pelo toque ritmado do telemóvel.  Um amigo, quando nos contacta a horas matutinas, principalmente quando muitos de nós já atravessamos as horas vespertinas de uma existência terrena, só pode significar um abjecto motivo (para fugir à palavra triste). A serenidade na voz, entrecortada com as falhas típicas da emoção a enrolar-se entre o que as cordas vocais vibram e o coração, descompassado, a tremer de sentimento. Acredito que nestas situações, o cardíaco queira morar fora de nós, na gravidade típica de um plano que não nos deixa volitar de encontro ao que ascendeu. “O meu pai partiu”, ouvi. Por momentos nada me sai do peito. Valha-nos a fala como percursora de uma telepatia que acompanha crianças adultas a quem basta um olhar para reviver a inocente alegria. Não há mu
Tragam as castas, o mosto colhe-se perene ao fundo de cada sonho, tenho Torga às candeias da escuridão que me alumia.  Ah, a vida, que bela seria.

Tempestade

 “Tempestade”, a minha crónica de uma tarde quente e abafada, no Canal N . As nuvens negras, azuladas, incutem uma certa apreensão devido ao ribombar lento que sobe a encosta e traz novos pedidos a Santa Bárbara. Percorre-se o olhar pela vinha e no coração surge o temor pelo que se avizinha. Pé ante pé escuta o borbulhar da vida nos verdes bagos fetais, crescem alheios à natureza ou à voz surda da reza, as mãos ondulam na folhagem, detêm-se aqui e além num cacho maior, mede-se o sonho na promessa de uma boa colheita, afasta-se o pesadelo da tempestade e sua maleita.  O tempo foi sempre senhor de si mesmo, jamais ficou a dever a ele próprio uma estação, se não é agora é depois o tição. Caso o frio se arrolhe tardiamente, virá mais cedo o Verão. É isto, a vida, tudo se paga neste mundo. Ou no outro, mas de lá poucos retornam com as novas, ficamos por cá com as nossas sovas e eles, além, com o que aos dos céus lhes convém.  O vento aligeira-se, a tarde inebria-se de uma brisa morna, a ter

Itinerância

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"Itinerância", a Crónica do Nada, no Correio do Porto . Sentado na viagem, em pé na vida, conduzia a carrinha adaptada em biblioteca móvel numa estrada inapta ao calcorrear de pneus alcatroados sobre o piso de terra. O safanão que um buraco a meio de uma curva atirava como uma gralha num parágrafo inacabado, alavancava os livros na traseira que, apesar de devidamente acomodados, sulcavam no ar páginas abertas por onde escapavam palavras de quem os leu e, no íntimo, as calou como sonhos vívidos quando, à sombra de um toldo, viveu uma aventura erigida de palavra em palavra, até o sorriso e o mirar da contracapa findar o dia como um novo recomeço. A vida lê-se, escreve-se e, nos entretantos, para quem o sabe fazer, vive-se. O largo empedrado onde o granito galgava as ervas por entre as frestas estava habitado, agora, pelo andejar de diversas pessoas que, qual espuma de uma maré inócua, povoava o mar de pedras à sombra de um carvalho central, numa praça descentralizada onde um êx

Demografia

 “Demografia”, crónica no Canal N . Trás-os-Montes faz-se à estrada quando a demografia, por não saber que todos somos um e, ao mesmo tempo, nenhum, e fruto das necessidades nos fazemos nós próprios lugares, tem que seguir em veículos alvos, com listas vermelhas, vulgos táxis de saúde, descendo o Marão em inclinações suavizadas que o progresso, tarde, mas ainda a tempo, veio adicionar, desviando a viagem dos esses sucessivos que um itinerário de montanha sequioso de olhares perscrutadores exigia.  Imagino os olhares das mentes indagadoras, a contas com uma doença qualquer que as unidades locais de saúde enviam para a especialidade de um hospital de uma cidade, são-nas poucas, grandes em toponímia, mas parcas em serviços que a todos sirvam. Os olhares, repito, vendo a paisagem sorver o medo e o Sol que nasce no retrovisor do condutor, o reflexo da face como testemunho de um torpor que ficou para trás, junto das migalhas de boroa caseira ao redor da marca circular da caneca de café, no z

A fotografia

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“A fotografia”, crónica para ler no Correio do Porto .   O calor começa a surgir como se estivesse na sua hora de recreio, o Inverno dentro das paredes cinzentas onde as portas de madeira se encolhem encimadas pelos números alfabéticos que identificam as salas onde, pacientes, professores professam o futuro. O final do ano lectivo parecia moldar o emaranhado quântico adivinhando a ligação que, com pena minha, nunca se verificou. Longe de saber que cada qual seguiria o seu caminho, mantive-me percorrendo os anos em torno de mim, experimentando, soltando, prendendo, ganhando, perdendo, ensinando, aprendendo, olhando para o lado sobre as montanhas como quem mira sobre o ombro e os vê ali, os amigos, na sua própria órbita, separados por um intervalo grande a caminho do bufete ou do campo de desporto, a trautear uma música da adolescência, a olhar timidamente numa fugaz paixoneta típica da juventude. Aproximava-se o término de um ciclo, a aula de Matemática termina num intervalo de números

Semeadura

"Semeadura", crónica no Canal N . O sonho de um lugar novo para o lar tinha nascido ao mesmo tempo em que as mãos descobriram o afago da redonda redoma do útero maternal, em conversas crepusculares quando nascem e se põe as ideias conjugais, à cabeceira de uma cama em casa emprestada, entre paredes idosas de pedra e corações juvenis de ouro. No final do dia, quando o cansaço de uma jorna ainda não despertara, os braços bronzeados misturavam areia, cimento e água, vertida depois na cofragem de madeira, dia após dia, para que no fim-de-semana outros braços, familiares e amigos, surgissem para o matutino auxílio tão típico quanto o orvalho suado pelas noites frias e, tijolo a tijolo, sangue a sangue, suor a suor, ganhasse forma a habitação.  A cozinha exterior foi a primeira edificação, um pequeno assentar de um arraial num terreno ganho à tenacidade das oliveiras. Ali surgiram as primeiras noites da construção, o fogão a lenha debitando o calor com que o amor temperava o rancho