2018-11-11

Pluviis

“Pluviis”, a crónica de Domingo, na Bird Magazine.

Reinvento a chuva. Hoje traz-me a memória do abraço, a ombreira da porta, os pingos que se volatizam quando em contacto com o corpo de um outro ser. A chuva, sempre a chuva, eu, sempre eu.
O apagado semáforo que teima em sair do tricolor destino, a rua fechada e um trabalhador abrigado sobre as memórias de dias mais coloridos. Olhos semicerrados, as gotículas aquosas de uma quimicidade que não se saber ser água. As costas encostadas ao húmido vestuário, um autocarro que passa prenhe de passageiros conduzidos pelo destino. O destino, sempre o destino.
Sem que me deite ou levante, vou colidindo com os dias que teimam em chover. Um fio depois do outro, tal como os dias, um quadrado congruente com o ecrã onde são projectadas as imagens que desejam que conheçamos. Fútil, assim chamo à mediocridade de carácter, plausível de construir dias e eras de escravidão. Por isso, vou levando a vida empurrando este carrinho de mão, onde transporto argamassa, tijolos e pequenos instrumentos que me permitam construir um quotidiano sem fronteiras, um muro invisível, um recanto semi-sofrível onde se possam abandonar as camisas lavadas e deixar apodrecer a um canto, na esperança que as fungicidades brotem, as acritudes amargas de quem se mede pelo modelo sem se aperceber que o modelo vai nu. Oh, tu, que nos carregas em braços, desde quando a vida te passou a ser disciplina de curto curso curtido em papirescos tecidos de um ténue entrelaçado que são as tuas mãos unidas em oração? Que pedes mais, meu pobre, além de um pouco de pão? Que pedes mais? Quem te ouça, cansado de te ouvir, saberá que tua fome vem de dentro, apercebida que está da insaciedade do ser, esse, que nunca nasceu, vê-se agora a morrer.
Descansa assim em paz, caro companheiro de viagem, dispo-me de ti, para me vestir em tons de barro e argila, não voltarei ao pó, que se desvanece e transforma em vácuo, mas pernoitarei na companhia de mim mesmo, o que sonha e não adormece, porque mesmo no frio o que sou me aquece.
E tu, quem de ramos se brota e embrutece. Saberás classificar o final do dia em meia dúzia de horas, quando o que se amanhece manhã adentro tem restos ainda de ontens e agoras?
Vai, volitai, entre uns quantos uis, um ai, bastará, verás, para te saboreares a cada nota que chova e colida contigo, de mim, tua pluviosidade, teu amigo.
Hoje chove, por mim, pelo caderno virtual que abro no deserto com vista para o nada, e por breves momentos, entre água e nevoeiro, juro ter visto um relâmpago e o troar de um trovão que parece chamar por mim. Trovadora, a Natureza canta-me ao ouvido o sussurro de um abrigo sob duas grandes pedras encavalitadas num equilíbrio eterno, assim adormeço.
No dia que acordei, pouco sobrava da chuva que se escondeu atrás da porta que dá para o mundo.
Dormito para sonhar baixinho com todos os recantos que a vida se encarrega de aconchegar no interior de cada um de nós. Fico com a respiração suspensa porque atrás de um vocábulo vem sempre a frase que ficou por dizer. E eu não digo, nem respiro.

2018-11-06

Anagramas

Anagramas”, Crónica do Nada no Correio do Porto.

São 23:32 e a capicua, o frio, o regresso a casa depois de vários passos pelo frio, junto com o barulho abafado do açúcar a cair na cevada traz-me a súmula de dias que, idos, de mim paridos, fazem-me sentir mais velho, acumulado no final de uma labuta que, quase nos finados, me relembra que quem apazigua não se pode dar à luta.
Distraidamente, o céu permitiu-se a um momento de apaziguamento, quando se despregava o Sol pela parede do firmamento e o céu adquiria uma tonalidade rasgada em cor-de-laranja do lado do litoral e, lá para bandas dos montes e deles detrás, já noite, uma Lua grande, cheia, requeijada, com estrelas a cintilarem.
Estes momentos, aliás, todos os momentos, mesmos os mais petrificados na eternidade passam rápido, amanhã o Sol fará o mesmo trajecto e eu, com os pés noutros solos, a solo, a cabeça, a soldo, no mesmo sítio, onde as nuvens são sorrisos claros, límpidos e puros, impolutos e eternos porque não existem, o mesmo que alguns poetas chamam de sonhos.
A vantagem das aldeias, e talvez do mundo, é que para onde quer que vá encontro pessoas conhecidas. Um amigo de infância parou na estrada quando eu caminhava, a meu lado, baixou o vidro e perguntou-me se queria boleia. Ri-me. Recusei o convite apesar do embaciado vidro fazer prever que lá dentro estaria bem mais quente, disse que estava a caminhar para a barriga, rimo-nos.
O grupo folclórico ensaiava e o frio espesso transportava por centenas de metros, no ar, ao desafio, por entre a neblina que se começava a acumular no ribeiro, os cantares a serem ensaiados para que, entre socos e viras, no dia da colecta de aplausos tudo saia um brinco.
A noite adquiriu outro colorido, na velha escola primária a banda de música solfeja e golpeia frequências de diferentes naipes, tão sublimemente ritmados que até os meus passos na noite sulcavam mar, calados.
A casa aproximava-se num instante, comigo a procurar os poucos locais com terra para caminhar, de forma a fugir àqueles pedregulhos disformes que compõe o piso e me descompõe as costas, quando o encontrei no monte, vagueando por entre os agora raros pinheiros, calcando a caruma, folhas e ramos que ficaram da última limpeza e não foram, ainda queimados.
Fui atrás dele, enterrei-me nesta manta morta, molhada, chamei-o
– Ei!
Perguntou-me se os sonhos andavam longe e eu, que já os vi vagos e difusos, menti e disse
– Não, estão perto – e voltou as costas, correndo contente, desaparecendo do meu olhar semicerrado pelo frio que começa a apertar. Felizmente estou quase a chegar.
Nem todos escolhem o caminho, há alguns que o próprio caminho escolhe, tal como os rios nesta viagem pelos empedrados da vida, vendo quem se preocupe com o barco, enquanto outros se preocupam com a maré.




2018-10-28

Pessoas com gente no olhar

Pessoas com gente no olhar, a crónica de Domingo, na Bird Magazine.

Há pessoas que transportam no olhar aquilo que são. 

Levam gente delas mesmas, sonhos e cansaços que almejam subir a um patamar que vai aquém daquilo que os olhos vislumbram.

Não há local onde passe que não me pertença e ao qual eu pertenço.

A vegetação. As pessoas. Tudo, assemelha-se a um respirar, a inspiração e expiração do que me habita e permite afirmar, ainda que inocentemente: estou em casa.

O vento, amigo de há longos anos, tem-me levado para locais onde posso observar um pouco mais, onde posso fechar os olhos e ver a paisagem, as gentes, os sons dos grilos, a água fria e límpida, as sombras dos pinheiros retorcidos pelo vento da montanha e a montanha dentro de mim cujo cume nunca atingi(rei).

Cogito sobre as pessoas que passam por mim na estrada, paradas, em movimento, o seu dia-a-dia é de facto um quotidiano, um dia de cada vez.

O domingo da missa pela manhã, outra qualquer diuturnidade que somamos sem que saibamos auferir o que não vence, porque o valor com que me pagam vale pouco do que me comprar, retomando, o chegar a casa comer uma bucha e depois sair para o campo ainda que as raízes nos queiram no recobro da existência.

O meu fascínio pelo aperto de mão fica fortalecido quando a minha mão encontra mãos de gente de labuta – de apaziguadora luta contra o inimigo ignorante que golpeia as vestes com medo de se despir do que não é – gente do campo, do Campo, mãos retorcidas como cepas, caras curtidas pelo Sol que vale 30 € por um dia de trabalho no Douro ou noutro património não unesquificado.

A bucha a meio da manhã é composta por uma chávena de café, um bocado de boroa caseira com um par de dias na côdea e um naco de bicho morto, nascido para morrer na força da idade, para que a fraqueza esfomeada dele se possa conspurcar, tudo se aproveita.

A mão segura um pedaço de carne gorda, a sola, o couro ainda com pelos que resistiram ao chamusco com os pedaços de palha, quase nem dá para cortar com os dentes, chupa-se enquanto se tritura aquele pão dourado e pelo meio, entre duas mastigadelas na alimentícia, o transístor roufenho toca uma música para alguém do lado de lá da coluna telefunken, um golfada de tosse desentope a via faladora, atira-me uns perdigotos sem moléstias, e sobre a cantoria a serenata dos ricos pobres ecoa:
- Há-de ser o que Deus quiser.


Tento recortar toda a paisagem e guardá-la no olhar, para mais tarde contar-te o que vejo.
Vou fotografando tudo com o olhar, falo baixinho como se estivesses lá, vou empurrando os sonhos para todo o corpo e, muitas das vezes, tenho até que tirar os meus sonhos do coração, para caberem lá outros sonhos, que não os meus. Quando, mais tarde, menos cedo, chego a casa fecho os olhos. As imagens que me rodeiam surgem à minha frente, vou distribuindo os sonhos por ti, enquanto fico à espera que outros sonhos surjam junto a mim e subam, saltando de lágrima em lágrima, para dentro do meu coração, outra vez.

2018-10-14

Vai tocar para dentro!

Vai tocar para dentro!”, crónica de Domingo na Bird Magazine.

O ano lectivo começou há semanas e continua a surpreender-me pela facilidade com que me transporta para algumas órbitas atrás, quando o cosmos parecia menos caótico e as pessoas bebiam do quotidiano apenas pela necessária sede. Ao ver putos espalharem com desprezo os materiais sobre a superfície de madeira, remeto-me para os corredores superpovoados de crianças ávidas e embriagadas pela oferta. Nesta miscigenada cascata de futilidades e porque as minhas mãos se transportam vazias, para que abracem quando assim tiver que ser, deixo descair o corpo para que me embale a memória e me transporte para os primeiros dias de escola, quando aprendíamos sem saber e o recreio dividia o protagonismo com o Universo, qual deles senhor do melhor e mais vasto horizonte. Quando a brisa acima do umbigo trazia também o entardecer arrefecido do início de Setembro, assinalava-se o sinal inequívoco que as férias ficavam agora a estagiar nas aparas de madeira, nas curvas moldadas pela áspera superfície da lixa grão sessenta, no anoitecer ameno sobre os degraus avermelhados das traseiras da casa dos meus pais, o paraíso voltado, votado, ao silvado que se fazia refúgio de ruídos nocturnos cujos protagonistas nunca soube descodificar e que, por isso, permanecem até hoje baptizados de bichos, assim me perdoe Mestre Torga.
As prateleiras da loja traziam com maior ou menor vistosidade material como canetas, cadernos, lisos ou com padrões que me habituei a associar a latas de bolachas de manteiga, tão boas, tão raras. As capas (agora dossiers) traziam de quando em vez um motivo e eu, na minha feliz indecisão, nunca soube qual o melhor para me suster as grafiadas desenvolturas das matérias para as quais não via utilidade (era jovem, inocente, ignorante e, por isso, puro). Pouca importância teria a decoração da capa ou do caderno, dali a semanas começaria a colar uns autocolantes trocados no recreio, uns desenhos abstratos porque não sei ser objectivo na minha subjectividade e nomes escondidos entre nomes rabiscados tão voláteis eram paixões de criança.
Vejo-me, hoje, na montra da papelaria, sem me reconhecer ao reflexo porque me procuro na estatura própria dos petizes. Vejo os lápis na sua feliz existência preta e amarela, coloridos. As canetas de uma só cor e tampas multi-colores que anunciam o traço fino e sucessivo das linhas paralelas tricolores, azul, vermelho, preto, o porta-lápis com fecho magnético e espaço para arrumar o que nunca consegui conter, entre lápis, canetas e borrachas vermelhas e azuis. Na felicidade da pobreza, nunca houve espaço para comprar o não necessário, o cheiro inaltera-se, e se ainda resistia aquela pueril ânsia de novas coisas, tudo se dissiparia quando o medo do novo no dia ansioso a raiar o primeiro toque de entrada, as mães de braços cruzados no suster da emoção ao seio, as lágrimas bolideiras a orvalharem a manhã, sem sequer avistarem, ainda, os intervalos, as mães no transporte à vez da seira com o almoço embrulhado em jornais e cobertores, como se a comida lhe viesse embalada direta do coração. Pauso-me. Respiro-me.
Começo a não caber nas minhas próprias palavras e memórias agora que moro no silêncio.
Por entre cansaço e indagação filosófica deixo que, como em criança, o fim do dia venha ter comigo, pouse a mão no meu ombro, espreite para a digitalidade e, sorrindo, deixe-me adormecer à luz do candeeiro da cabeceira dos meus pais, sobre os deveres, cálculos aprendidos nas frases repetidas, variações de sonhos e algumas lágrimas iteradas.
Hoje, desaprendendo-me, faço do desconhecido caminho por onde indo nunca tinha ido.

2018-10-07

The answer is blowing in the wind

The answer is blowing in the wind”, Crónica do Nada no Correio do Porto.

O dia amanhece alvoraçado, não insistisse o Sol em nascer a este donde estou, diria que o crepúsculo se fazia anunciar pelas nuvens negras de fuligem. Vai quente Outubro e certamente algum provérbio popular terá resposta ao amordaçado bafio que se encosta a mim numa lânguida provocação.
De costas para mim, para o perigo diria, também, trajando verde tropa, uma espécie de soldado apetrechado no ofício de desimpedir a golpes de fios grossos de plástico, uma catanada aqui, uma cavadela ali, o soprador encostado esbaforido à borda onde o penedo se protubera na mimificação expressiva e clássica de quem afaga a barriga, camisa aberta, o baraço ardente a pender dos lábios encarnados e encardidos de cieiro e cerveja seca.
Desligo o carro, a manhã de sábado, fresca ainda, espera por mim como eu espero pelo regresso resplandecente da minha ignorância infantil de pensar que o céu nocturno é um esburacado lençol a tapar o paraíso, por ondem passam as luzes a que, erradamente, chamamos estrelas. À minha frente, num movimento similar a uma dança coreografa na perfeição, porque dançada sozinha, da direita para e esquerda, volvendo, da esquerda para a direita, o homem com os sonhos silenciados pelos auscultadores laranjas e abafados pelo capacete de viseira enredada em si mesma, vai torneando e esculpindo a estrada pelo lixo, levando consigo restos de erva, restolhos de vidas que se vão escapando ao alcatrão, paralelos, escarpas graníticas dos montes de Penafiel, copos de plástico, garrafas de cerveja, e outros dejetos expurgados da devassa aptidão do Homem em ser-se ralé e tentar fazer raízes assim mesmo.
Quando pausa por momentos a máquina, este moderno cantoneiro olha para trás e vê-me, parado, vidro aberto, o braço pendurado na janela do condutor. Ergo a mão em cumprimento e meço o comprimento de mim a ele, o sorriso tímido e envergonhado por não ter ouvido, pede-me desculpa, recolhe a máquina, mede os passos até ao início do resvalo e manda-me prosseguir. Ligo o carro, destravo-o e sigo lentamente, silencio o rádio, a música que brota deste silêncio matinal, maior agora sem o rugir da traquineta, é-me o essencial para deixar-me seguir até ele, levantar o braço e estender-lhe a mão. Retira a luva e a transpirada mão encontra-se com a minha, este aperto firme escora o que separa a matéria do que somos daquela que nunca seremos, a essencialidade simples de se ser simplesmente essencial. O diálogo terminou rápido, outra viatura surge de frente e a estreita estrada obriga a atenção e cruzamento medido com os espelhos recolhidos. Depois de rápida troca de via, endireito o espelho e olho para trás, ele, ancorado ao aparelhómetro que facilita a tarefa sobremaneira, ergue a mão, o cigarro ao canto da boca despedaça-se em cinza, as palavras ficaram-lhe também presas no pigarro, da mesma forma que as minhas se escondem por detrás do silêncio que me fala.
Engreno a primeira velocidade, o desnível facilita o arranque, vou seguindo em frente olhando pelo retrovisor a dança, o cheiro a verdura cortada vai-me dentro do carro e os sonhos, de cantoneiro, como ele disse, estão ali ao virar da esquina romba, transportados pelo vento quando o soprador se enche de vácuo e cospe-se indiferente, sonoramente, varrendo para longe as conversas voláteis entre interlocutores fúteis.





2018-09-30

“Artesanalmente vivido"

“Artesanalmente”, crónica de Domingo, na Bird Magazine, para ler ou aqui.

Em todas as feiras artesanais questiono-me sobre a desprendida, livre e selvagem, porque pura, vida dos artesãos. Nestes momentos vou vivendo aquilo que não estou, como se por momentos a vida sofreasse e eu resvalasse noutra existência, minha ainda, desenrolando-se noutros sucalcos eras e locais, passados de menos e futuros de mais.
Sou já eu atrás dum balcão, eu quem dorme embrulhado, o fruto do trabalho almofadadamente sob a cabeça, estômago reconfortado pela chávena metálica com café e uma fogaça ainda quente. 
Durmo, confortavelmente mal instalado no saco-cama, ouvindo os barulhos da noite que se transformam em canções de embalar cujo compasso apenas o grande Compositor conhece. Acordo com o raiar do dia, o caderno ainda aberto e a caneta perdida dentro do saco-cama, trocando o susto de ver um insecto a centímetros de mim pelo riso de alguém ter partilhado um sonho comigo. Levanto-me, cruzo os braços atrás da nuca, encho o peito de ar ainda frio, cravo firme os pés na terra como quem se desterra e fecho os olhos, até o frio abraçar-me para mais um dia de vida. 
Talho condores visíveis apenas do céu, na madeira e por entre tufos de nuvens. Escrevo segredos em pequenas aparas de madeira, escondo-as em várias estatuetas que vendo, apenas pelo prazer de saber que alguém, algures, decifrará um segredo meu que não existe. Destapo a banca, alguém me roubou um artefacto, precisamente um que tinha um segredo guardado. Rio e afasto algum pó que se acumula. Coloco alguns dos coloridos piões mágicos à frente, carrinhos de brincar, feitos em madeira e cascas de pinheiro, um vira-vento de tonas de eucalipto, pulseiras mágicas e cadernos normalíssimos onde desenhei gravuras iguais às das planícies de Nazca (hão-de seguramente chamar a atenção dos miúdos, o primeiro que se sentir atraído pela banca vai levar com ele, gratuitamente, um caderno destes). Os dias desenrolam-se, assim, compassadamente, compassivamente, entre vilas e aldeias, faces conhecidas e outras que se dão a conhecer. 
Tudo termina após final do dia, noite alta, nas amenas conversas com tantos como eu e outros ainda, saindo das sombras, de mãos aquecidas em torno da chávena metálica, o café escuro onde leio o meu passado nas colinas em que a espuma se desenha. 
Esvaem-se na página seguinte, vida e espuma, quando num longo piscar de olhos me inebria o aroma a café, e vejo-me agora, aqui, em frente ao computador, o sono calcando as histórias imensas que afincadamente se atiram às pernas para que as desenhe, mas as minha mãos, intemporais, só sabem observar e, ocasionalmente, chorar. 
A luz trémula do monitor envolve o espaço. já sem café, espuma, passado porvir e futuro vestuto, olho sem compreender este artefacto em madeira a meu lado, a forma de condor e a tira de couro que sustém um pergaminho, como voou até aqui? Pego nele. Cheira a café e não estava aqui há escassos minutos. O futuro presenteia do passado seus frutos. Sorrio. Sou rio.

2018-09-25

“De onde nunca deveria ter saído”

Mais uma Crónica do Nada no Correio do Porto, para ler aqui ou mais abaixo.

Uma das várias vantagens de quando andava de comboio era permitir-me passar em locais onde as árvores me viram crescer.


Ainda ensonado passava em frente à rua onde morei vinte e cinco anos, no beco para lá de uma curva que, em criança, não me permitia ver a pequena casa azul do fundo, a minha, o casulo de onde nunca deveria ter saído, amparado que estava pelas silvas, pessegueiros selvagens, pinheiros, eucaliptos e o apaziguante curioso latir das raposas bebés que procuravam comida nos restos que deixávamos no monte. Antes, sem nome, possuía a identidade de cada um que lá vivia, agora possui apenas o longo e descaracterizado nome de Travessa da Avenida de um Barão que nunca conheci. A mata que a ladeava, antes com mimosas, austrálias, fetos, mato e giestas, está agora despida, apenas com tocos de eucaliptos, resistentes, mantidos a troco de questões humanas que, sinceramente, não entendo, com as suas raízes que antes moldavam o caminho de terra onde brincava com os carrinhos improvisados e que, agora, elevam paralelos e continuam a decorar as antigas habitações com sulcos nas paredes.


Ao ver o monte despido, com um aspecto limpo, tal como deveria estar todos os montes deste país, não conseguia deixar de questionar-me como foram capazes de caber tantos sonhos num espaço tão pequeno?


A vantagem de sermos crianças é que somos coreógrafos sem o sabermos, moldamos com a imaginação cenários tão distintos quanto reais e, o curioso, é que apesar de tão distintos os putos amigos, o cenário construído era apenas um.


Naquele espaço couberam constantes seis putos a brincar, com participações esporádicas de outros miúdos, mais novos e mais velhos. Naquele pequeno pedaço de terra fomos heróis e vilões, índios e cowboys, polícias e ladrões e toda uma panóplia de interpretações que mesmo versando na trivial luta do bem contra o mal, tinha como conclusão a amizade sincera que só putos sabem cultivar.


A voz metálica do comboio anunciava a próxima estação e eu sabia que era tempo de fechar o caderno, guardá-lo no saco e fazer sinal aos sonhos, os mesmos que me abandonaram, para que saltassem de novo para o meu bolso.



2018-09-16

Caminho alheio à caminhada

“Caminho alheio à caminhada”, crónica de Domingo na Bird Magazine, para ler aqui ou ali.

O que fazer quando as palavras já não se colam aos braços nos dias de calor?
Esmiúça-se na vontade o ínfimo detalhe para que uma história nasça e seja recebida, acarinhada, amada até!, para depois ser depositada no quotidiano com o desejo íntimo de se ser mais palavra do que frase, mais letra do que palavra e, por fim, mais silêncio proferido do que todas as palavras cacofoniadas sem conteúdo num bafiento bocejo de quem se dorme.
A chuva adormeceu e enquanto tarda acordar fecho os olhos e o café ondula em aroma até me cobrir o fim da manhã com a tenacidade dos sonhos.
Nas poças de chuva corre-me o Douro ou o Tua ou o Sousa, cheios!, criando ilhas desprevenidas onde me socorro náufrago.
Não será sempre Inverno, nem Verão, não terei sonhos eternos, nem sempre razão e é pela volatilidade da maré que aspiro ser Açores, deitar-me numa colina e hortensiar-me em tons de azul e lilás e quando não me souber retalhar que venha outrem e sussurre baixinho e a sorrir: está na hora de partir.
Mas para onde me corre a vida, atarefada, no regato de água doce, nas poças em que salto quando não estão a olhar? Torga, que tão facilmente, agradecido prostro-me, me afugentas a sobriedade, para onde me escreveste tu?
Sabes que o tempo não existe quando te deixas levar pelos minutos e te encontras segundos atrás.
Pergunto-me muitas vezes sobre quanto pó se pode acumular no olhar, quantas poeirentas madrugadas se inclinam pelo dia, arrastando consigo o invólucro dos sonhos e dos futuros, um semi-aberto baú onde não cabem caminhos por percorrer, porque não existem ainda.
Será pelo mar? A ondulação que respira, compassadamente, a meus pés enterrados na ânsia de navegar para que me oceaneie e me sorria a maré dourada que se estende pelas sombras do que o Sol não cobre.
Será pelas ondas de lavoura e espuma de milheirais, na irregular costa da simplicidade de amar a terra, eis os despojos sem guerra.
É lá que descem as alegorias e o palco esfumaça-se por onde caminhei, não me calçam os passos nas encostas onde por entre xistos o frio se resguarda encostado ao meu corpo.
Um arado que se verte pelo olhar, eu e as nuvens a suspirar, o texto que teima em falar e eu, navegante, calado, sem me saber sequer vocalizar, porque há um hiato entre as vagas das vidas onde não sei nadar.
Há caminho alheio à caminhada, será por aí a minha estrada.

2018-09-13

Para o colateral onde me viro em oração, entrego todo os dias iguais, sem mais, sem menos, ouvindo apenas o que me entrega o labor de silenciar o vento, nesta surdina abafada de um metal em brasa a expelir-se porque não me sei falar.
E, porque, digamos, pensando... (pausando)... sem me saber dizer e por isso solicitado em oral, sorrio o fim da tarde e deixo-me crepuscular de olhos fechados para que me auscultes na ausência de uma reticência. Foi distracção, andava a escutar uma lágrima tombada ao interior de um mundo apenas e só porque aquela nuvem me fez lembrar o céu, e de lá, donde vim, também a vida foi eu, nesta e noutras idades. E porque, enfim, também de mim sinto saudades.

2018-09-06

Imutabilidade

“Imutabilidade”, mais uma crónica do nada, no Correio do Porto.

Para ler no Correio do Porto, clique aqui.


Pagaria, pudessem as nuvens serem dinheiro, o que necessário fosse para ter sempre a refracção das gotículas de água num dia de sol tímido, enganando o torpor de uma viragem na estrada com a promessa de ser, novamente, o som abafado da surpresa de uma criança a ver pela primeira vez a influência de um sorriso.

Tenho gasto as horas, talvez por isso o tempo ranja quando passa perto de um sentimento e o vento se faz ao caminho, na maior parte das vezes sozinho, para se sentar no colo de alguém que o embale, até ele se recordar daquilo que realmente vale.


Deitado, a noite subiu já até ao meu peito, preparando-se para me cobrir e eis-me na gare do sonho. Vão passando entusiasmados por mim, atropelando-se, correndo para novos horizontes, fazem-se assim aqui, aos montes. Em frente a mim param vários, adensam-se para que entre, mas apenas sorrio e declino timidamente. O meu sonho faz-se devagar, com a paciência do tempo e a implosão das estrelas.


Lá seguem eles, elas, indistintos e constritos, novos, velhos, entrando e saindo, trocando abraços, beijos, sorrisos, daqui e dali. Ouço, incrédulo e triste, quando a alguém é negada entrada, apenas por não ter bilhete para viajar, com o destino irónico das passagens serem obrigatoriamente grátis, mas mesmo assim exigíveis para exibir aos que, pesadelados, desconhecem sonhar-se pobre, para se acordar rico.


O meu sonho é imutável, inocente, inócuo e desambicionado, passar pela vida devagarinho, em silêncio e com o peso das questões que me responderam apenas quando eu me transformar em resposta, ter a postura de um velho banco de jardim, virado para o mar ou para onde me queiram olhar e, assim, ao de leve, beber amor em cada passo a dar, para que, um dia, seja o sonho de acordar.


Vejo-te aí sentado, penando umas horas até madrugada, rindo e chorando, até que umas calçadas te percorram no sussurro de umas noites iluminadas. Não sabes quantos anos te viveram, no entanto, achas-te numa infância envelhecida, onde as caricas com cera de vela são recordações breves dos longos dias que salgaste, percorridos por uma neblina ténue, como se o dia se recusasse a acordar, onde os sonhos se propagam rapidamente, sem defesas ou ameaças, apenas nadando de encontro às águas de quem os bebem. 


São dias assim, onde descansas e eu, sem dares por isso, me encosto a ti dizendo: não sou um sonho. Agora sim, é hora de dormir.

2018-09-02

Não sei porquê

Não sei porquê”, crónica de Domingo, na Bird Magazine.

Perco alguns minutos a pensar num título, muito por culpa de não saber o que escrever depois do mesmo.
Até onde poderá ir o questionamento? Em todos os cantos do ser, há desejo de partir, de viver mais do que aquilo que a vida permite. Continuo a ser mais do que me dizem ser possível, a sonhar mais do que durmo, continuo a ser astronauta num dia e lavrador noutro, para depois voltar a ser aquele a quem chamam pelo meu nome, entre indústrias e paisagens, entre crentes e ateus, entre os abraços e um adeus.
"Um dia também irás crescer", foi-me dito em mais do que uma ocasião, por entre sorrisos nervosos de quem não via os meus sonhos ou o riso, meu, quando ouço o que sou e me ausculto ao espelho.
Somos doutrinados para crescermos e sermos alguém. Não nos incutem a palavra sonho, apenas crescer e ser alguém. Não falam em desbulhar um talento, em ser-se quem se É, em auscultar o que nossas mãos urdem quando estamos de olhos fechados. Não. Todos devem ser alguém, o que invariavelmente significa alguma projecção, ou seja, ou estuda e doutrina estatuto, ou ganha dinheiro e compra estatuto, ou vira celebridade e esmaece estatuto. Ah, a santíssima trindade. Entristece a falta de motivação para as pessoas serem quem são. Entristece não saber porque razão isto me entristece.
Um badalar ecoa no quarto vazio, talvez trazido pelo inusitado vento fresco desta noite de Verão, pastoreia-me imaginários esverdeados onde, sem perceber, fascino-me quando, em casa dos meus pais, a Farrusca deitada no chão, o desejo de me desfolhar sobre erva, terra e pedras e os condicionalismos vários que adquirimos quando "crescemos" e que nos levam a não fazer aquilo que desejaríamos, mas, invariavelmente, sacudo dos ombros o peso dos olhares e deito-me junto a ela, feliz, felizes, animais de um mundo só.
Concedo-me ao exercício de olhar para mim, o que faço, o que sou? Sou quem quero ser? Ou apenas quem devo ser? E é aqui, neste momento, por vezes taciturno, por vezes eufórico, que rio e choro, que me olho e me escondo, onde concedo à vida desfolhar algumas frases, ainda sem título, mas com vários prólogos no final de cada palavra.
Enquanto escrevo sinto que não sou mais do que uma garatuja, um poema escrito por mim próprio, além, onde ainda não cheguei e já os meus dias são linhas, linhas que não rimam, linhas que saltam de página em página, até que o livro me morra e eu nasça, sem saber porquê e sem imaginar sequer sobre o que fazer com as ideias.
Silenciosamente nascem-me várias histórias, estórias, poemas e contos e obliteram-se ilustrações e agradecimentos finais de livros que ainda não escrevi e não o quero fazer, se me desmontar em frases, palavras, em que tomo poderei eu habitar? E a vida? A vida não me deixa sentar no mesmo local duas vezes, leva-me para onde quer e quando quer, deixando-me com a dilaceração dos relógios e das pessoas, das nuvens e enseadas que moram em mim e me murmuram o barulho do mar.
Não sei porquê (eis o título!), talvez sejam as histórias e as paisagens e a minha ânsia de ser personagem e vislumbrar moinhos quixoteanos em todas as encostas, mas gostava de ser vento, de estar em todos os locais ao mesmo tempo. Enquanto não o sou, perco-me nas identidades do que cogito e escrevo nos ramos despidos das pessoas nuas que passam pelas minhas folhas enquanto escrevo.

2018-08-20

Apenas o silêncio

Crónica de Domingo, na Bird Magazine ou como ficar apenas o silêncio.

É com as memórias tumefactas que me irei deitar, na cama, talvez na terra, e deixar que a argila se molde a mim e eu renasça por obra de um sopro, órfão de costela.
Talvez assim, semi-enraizado, me surjam das mãos pequenos galhos que floresçam um dia quando desfolhar um conto qualquer de Miguel Torga e me adopte, o conto, como cedro, vinha, apeadeiro de abandonos abandonado ou, até, como fraga perpetuamente admiradora de uma paisagem que por imutável me obrigue a descobrir novas pétalas nas mesmas flores.
Carregarei valados acima os cestos das minhas palavras e tentarei semear, com meus parcos conhecimentos de semeadura e agricultura, as palavras que gostaria ver desenhadas nas encostas onde espero acordar quando pousar este corpo e me erguer, livre, pelo infinito que primeiro me envolver.
Mas agora, resta-me pouco mais que o silêncio e o calor do corpo.
Tenho as palavras a latejar no chão, dispersas, sem saber como as agregar e elas, abandonadas, sem se saberem soletrar.
Nada mais que atropelos, dedadas fugidias no vidro do autocarro, corpos habitados por gente demente, que esbracejam e falam, vociferam, com fantasmas que, acredito, nem elas conseguem ver.
Cansa-me o cansaço, correr sem sequer levantar os pés, aprisionados pela calçada que, até ela, foge debaixo de quem se quer ser chão.
Mas esse, chão, solo, litosfera, chamem-lhe o que quiserem, é-o apenas para lá, lá, longe, atrás da última colina, escondida sob um nevoeiro cerrado, onde não estou.
Que nuvem torpe desce sobre nós?
Há apenas uma criança, a cantarolar na paragem do autocarro, uma letra que desconheço, creio que apenas ela a conhece, nunca ouvi ou houve alguém a agregar sílabas daquela forma.
Faz-se tarde, para dormir, descansar, para viver.
Sinto por vezes que tropecei algures, entre uma raiz de eucalipto ou numa pedra mais elevada naquele caminho que não cheguei, ainda, a percorrer e, trôpego, deixei cair a bandeja onde trazia as letras prontas já, agrupadas em palavras que gostaria de deixar gravadas, senão no papel, pelo menos em mim, ou em ti, para que nunca me esqueça que fomos servidos em bandeja e não de bandeja, para que esta máquina grotesca, ferrugenta, crispada, liderada pela escumalha, pela escroquicidade do ser humano, funcionasse e se alimentasse dos nossos dedos gastos, de nós feridos, de sonhos, creio que perdidos.
Arrefece.
O calor dilui-se na sonoridade.
Resta-me apenas o silêncio.

2018-08-05

Nu, vem

“Nu, vem”, crónica do nada, no Correio do Porto.

É fácil perceber que, hoje, estamos em véspera de feriado num dia posterior a um Domingo, o trânsito é bem menor comparado a outros dias e as pessoas, que não passeiam na estação, deixam espaço suficiente, nem mais, nem menos, para eu transportar os meus sonhos. O calendário tem destas coisas, uns feriados estrategicamente colocados, uns dias de férias no bolso e um descanso da lufa-lufa diária na algibeira, transformando o labor num movimento menos laboral, quase como se o dia surgisse por inteiro num quotidiano a part-time.
Faltam mais de 20 minutos para o próximo comboio e vou fazendo da voz abafada, nasalada, metálica, desligada, inumana que anuncia os comboios em cada linha, a minha companhia, no final deste dia por metade.
Coloco-me estrategicamente virado para o Sol, obrigo-me a semicerrar os olhos para poder ver melhor, às 19:34 o astro-rei fita-me de frente e é das poucas vezes que um olhar faz desviar o meu. Enquanto fecho os olhos por momentos continuo a ver a minha mão e a caneta, ambos a arrastarem-se pelo bloco, uma sem a outra são nada. A caneta sem a minha mão não se ergue e a minha mão sente-se nua sem a caneta e eu, ainda alma num mecanismo biológico, sem a conjunção das duas não me ergo.
O comboio para a Régua levou as últimas vozes da gare, resto eu e as duas senhoras, idosas, do lado de lá da linha e da vida. O destino destinado não me serviu o trajecto, causou estranheza a quem me viu sentado no perfurado metal ondulado, fosse eu menos baço e tomariam a minha presença como fantasmagórica. Mas assim, sou apenas alegórica.
Antes de chegar, retrospectivando, fui brindado com uma viagem de autocarro calma. A partir de determinado momento eramos reflexos nos vidros movidos e oscilados no irregular piso, restava eu, motorista e alguns que pensam que ainda o são.
Talvez o vazio do silêncio da estação, a viagem seca e amena no autocarro, umas quantas faces sonhadoras na estrada e um banco de metal, frio, na estação, com uns abrigos desabrigados ao vento frio do final da tarde me tenham feito divagar, na realidade ficcionada, e as minhas mãos tenham agarrado canetas ilusórias que escreveram histórias que olhos não vêm.
Observo momentaneamente à direita uma nuvem, inusitadamente em forma de degrau flocado. Vou fechar o bloco, metê-lo na mochila juntamente com a caneta e deixar que outras nuvens me levem para junto de outras histórias, resquícios do futuro em memórias. Sempre assim, até ao próximo que, nu, vem.



2018-08-04

“Quando chegar a hora”

“Quando chegar a hora”, crónica na Bird Magazine (04/08/2018).

A lareira crepita e o bailar das pequenas chamas inunda este espaço com uma luminosidade fugidia. As crianças brincam, alheias à apreensão, animando ainda que fugazmente os adultos que, pensativos, aguardam que eu lhes diga algo. E que hei-de eu dizer? Ter encontrado este local foi sorte, ou talvez não, talvez estivesse escrito algures que isto me seria cedido, a título de empréstimo vitalício, com a intenção clara de não deixar morrer a terra, a casa e os animais.
Chamá-los para virem comigo foi o mais complicado e trabalhoso, houve quem não acreditasse e ainda não acredite, mas vieram ao ver-me resolutamente abandonar tudo e voltar-me para aqui, convicto de que estariam para chegar. Os mais próximos, incluindo os mais cépticos, confiaram em mim e trouxeram algumas pessoas da mesma forma que eu os trouxe, porque tinha que ser, porque alguns tinham-se já predisposto a isto e porque, acima de tudo, a convicção profunda, serena, de ser o passo lógico, ainda que ilógico à luz do nosso conhecimento actual.
E cá estou, cá estamos. Esta casa e os restantes anexos são grandes o suficiente para todos e também para os animais. A comida é suficiente e a terra, ainda que tratada por nós que pouco sabemos destas lides, brinda-nos com frutos, tubérculos, vegetais e toda uma variedade de comida que nos obriga, quase, a fazermos dieta (ainda bem!) forçada, mas saudável.
Agora alguma impaciência se levanta, chove há semanas, sem parar. Algo faz-me levantar e ir para a varanda. Fico lá, em pé, encostado ao pilar de madeira, sem saber muito bem porquê, olhando a chuva cair, escorrer pelas telhas, cair no chão e cavar pequenos buracos que estão já cheios de água. Tenho o pressentimento que chegam, devagar, quando tem que ser e não quando eu pensei que seria. Das nuvens, ainda escuras, vejo formar-se um pequeno ponto de luz, foco a minha vista nele e ele parece aumentar. Aumenta, sim, exponencialmente, é luminoso, no entanto não ilumina, tem um brilho próprio que não ofusca, não se propaga. Ainda chove, sem parar.
Volto para dentro, sorrio, chamo-os para que saiam lá fora. Alguns, com medo petrificaram, outros de admiração pararam, aquela luz, a qual não é mais do que luz, possui algo que atemoriza e que nos torna pequenos, como será possível ter estado sempre cá e não termos visto? Eles não apareceram, nós é que apenas agora os conseguimos visualizar.
Vão caminhando uns e outros, agora sem medo, em direcção àquela luz, atraídos por vultos que parecem murmurar memórias de gentes partidas. Ouço um ou outro suspiro, um ou outro murmúrio de medo, um ou outro pequeno choro abafado à medida que os que se aventuraram primeiro desapareciam, aos nossos olhos, quando entravam naquela luz enevoeirada e esbranquiçada, como se mergulhassem num grande algodão doce salpicado de neblina.
Um a um, lentamente, pareciam desvanecer à medida que se aproximavam daquela luminosidade. Foram todos, apenas eu permaneço aqui. Esperam por mim, tal como esperei por eles, ou talvez por mim mesmo. Vou fechar este livro e deixá-lo apenas com uma marca, hei-de continuar a história com outras letras, outros contos, com relatos desta viagem aos confins de nós mesmos. 
Mas agora... agora vou. Até breve.

2018-07-22

Homem, casta de tristeza, espécie que tudo lesa

“Homem, casta de tristeza, espécie que tudo lesa”, crónica de Domingo na Bird Magazine.

Os escombros estão a florir em cinzentas tardes, as partículas agremiam-se e fogem apavoradas em pó leve, castanho e ligeiro, como se chovesse solo em polvilho quando as calco inadvertidamente. 
[Até o pó que a terra come agora tem sentimento, alimentado pelo lamento.] 
Os restos da poda e da monda desbastada ao desbarato naqueles fracos braços de gente que, para sobreviver, ignorante, ruminante, sem o saberem de vida arfante, assassina com dó, mas sem  piedade, no ritmo metalizado e etanolizado da serra motorizada, fazendo à máquina aquilo que as mãos não mecanizam: a industrialização da morte. 
[“Era isto ou outra sorte”, ouço]. 
Deixam para o fim o mais frondoso pinheiro onde, à sombra, pousam as garrafas de plástico com água mineralizada por uma terra que os há-de comer, um isqueiro vermelho, as luvas de borracha, o machado para o que se racha e o funil para dar de beberrico à maquineta. Este pinheiro, o qual me habituei a afagar a casca grossa, a mesma que usava para construir barcos que navegavam apenas para satisfação da inocente criancice, observou na cegueira moribunda o cair lento, oscilado, [oscilento], o baque forte, grave, soturno, cavernoso, de outros pinheiros grossos, finos, altos, baixos, caídos desamparados no solo lacrimoso. 
[Deus pariu um filho criminoso.]
Vou com menos cuidado, percorro o campo de batalha e é já a memória que me falha. Onde estão as sombras projectadas propositadamente para que não me transpirasse em demasia a vida e pudesse eu, de costas ao destino, galgar os fetos e o mato sem me aperceber que sou o meu próprio desiderato? 
[Valia-me apenas admirar o literal frondar para me habitar de Torga e ficar calado, sob os vossos ramos, amado.] 
Tropeço pelas poucas pinhas que saltaram 
[ou se esconderam]
dos sacos de serapilheira dos passageiros da existência, espectadores insipientes de um extermínio orquestrado, malicioso, que assomem no pós-guerra com aura vulturina. Antes sacudidas salomonicamente pelo vento, 
[havia deleite em atempar o iluminar da lenha, também esta jorrada em equilíbrio] 
hoje jazem fechadas, lacradas, sem pinhão nem tição, amedrontadas e resignadas, mirando de soslaio restos de ramos dos amos, caruma verde colhida para ser queimada no desprezo avaro de quem nunca fitou os olhos fundos de um braseiro que crepita, a quem o escuta, o silêncio que nos agita. 
[Ao contrário dos lírios, não nos deixou, deles, Cristo um registo]. 
Aninho-me lentamente, a tristeza sopesa a vida, enterro o joelho numa cicatriz de mato seco, verde, cujos picos se vingam na minha pele, pouso os dedos no tronco dilacerado que emerge do solo e as raízes, aterradas, tentam adentrar sofregamente na litosfera. 
A céu aberto arde a angústia. O silêncio vem em golfadas vomitadas pela ansiedade, convulsiono-me e deixo que me sequem as tardes de Verão nos olhos. A resina lacrimeja uma ausência desbravada, uma indulgência perene e digna, que perdoa a quem tanto mal faz e continua a suspirar o ar que respiramos. Sem suster a comoção, deixo-me lacrimejar, sem pranto, no silêncio. 
[Já terá passado uma eternidade?]
Taciturna sina de destruir a árvore que arde, apenas porque um humano a queima. 
Este homem, casta de tristeza, é espécie que tudo lesa.

2018-07-09

Poesia na Garganta (30-06-2018)

Texto publicado para o evento "Poesia na Garganta", no dia 30-06-2018, na Garganta do Salto (Aguiar de Sousa), no Parque das Serras do Porto.

Vejo o local, o salto, como uma metáfora entre o salto para o vazio, o despertar para uma natureza física e moral, no respeito do que é pelo simples acto de se ser como é, tal como a fé. Assim, criei este texto que é apenas a minha visão, o despertar que surgiu pelo homem correr atrás dos seus medos, saltando com a ajuda animal, que nunca nos quer mal, para um vazio onde a natureza nos acolhe, assistindo entristecida ao nosso esquecimento de civilização em civilização e permanecendo imóvel, como a garganta do Salto, a assistir aos desvarios mundanos, na esperança que, metaforicamente, possamos dar novo salto de encontro a nós mesmos.

Garganta
(09-06-2018)

Apenas o borbulhar pachorrento da água, às cambalhotas por entre os godos, fazia o dia correr de um lado para o outro, coisa sábia de se fazer, daqui para ali, dali para aqui, até que a natureza se encarregue de esculpir no silêncio a voz de todos os homens sós. 
De boca aberta como quem arfa o ar que não sorve, proscrito pelos homens, reverenciado por deus, o inferno, cujo camoniano linguístico faz rimar, e bem, com Inverno, trespassava a naturalidade da pacatez de quem vive na polaridade de um mundo bipolar, atravancado entre o metamorfismo que o ventre da terra foi deixando passar, ribeiro ante ribeiro, odor ante cheiro, até que gretado e erodido, talvez um pouco perdido, caminhou-lhe por entre as fragas o fino tenor de águas suplicantes, como quem a vida ousa, nascente a montante, a jusante soante Sousa.
Desencantado com o verdejar agreste, a força do homem cipreste, sentado numa pedra bolideira sem eira, apenas com beira, fazia do tapete de musgo o pasto sonhado, sem planalto, com o rebanho de fantasmas animais que na periclitância do desconhecido, caindo no vazio, saciavam o apetite ardente de um demónio no cio.
Olhar o céu dardejando o destino é forma rápida e certa de um ser perder o tino, mas não cabe ao homem, ao animal, ainda que a vista lhe chame ali jamais Iria, porque quem pedra nasce, de salto não reza a história, apenas a lenda e pouca glória.
Ainda antes de escarpar a face, como quem nasce, escanhoa uma leira no terreno baço e rugoso, apenas por arrelio do tempo, esse teimoso. Esquecido pelos panteões onde se traçaram, ignobilmente, os destinos pastoreados de quem se julga gente, foi-se jardinando como pôde, agarrando junto a si as vidas que cabiam num alforge, ora edenizando a humidade cristalina de fetos sem sina, nascidos da juvenil mocidade, na silenciosa intimidade, os corpos arfantes, ardentes e depois ausentes, ora cultivando sob as suas carícias inacessíveis ao sal da existência, o salgueiro, o amieiro, o loureiro e todo o tipo de cabrestos que mais tarde varreriam o chão onde ardia a lareira da morte, sem tição. 
Ali, naquele paraíso achado onde se perdiam incautos animais, quadrupedes ou bípedes, ostentava-se a beleza inacessível do esbelto, no olhar interior de quem se resguarda em comunhão com a natureza, como quem reza, na oração florestal onde nunca habitou o mal.
Era noite pegada, as estrelas deixavam o seu trilho leitoso no negro e de costas viradas à terra, com quem nunca se ganhou guerra, o seu guardião no escutar do crepúsculo a nascer onde se põem as estrelas a arrefecer, ouviu as margens do silêncio repercutirem cavalgadas de equino montado, na ânsia de fugir à demência de cavalgador a perseguir os seus próprios medos. Num esgar de tempo que passa no hiato entre as sílabas do momento, vê o cavalo alvo fixar patas na margem enterrando-se na rocha firme que a garganta amaciara, soltando arreio, estribo, sela e cavaleiro que, sem montada, se transforma apenas num corpo amorfo cuja terra deglute sem grande satisfação, caindo no abismo da cegueira de se querer mais colheita que sementeira.
A eternidade dá ordem ao tempo, abranda-se o firmamento e soltando-se pela vereda da imaginação, a raridade selvagem faz do abismo margem, acolhe o corpo tosco do homem depositando-o calmamente, como sempre faz com as folhas das árvores, sobre um monte de tojos. 
Acorda o dia adormecido pelo susto, a cabeça oscila no delírio do despertar e antes do corpo enraizar o silêncio faz-se perene, a névoa da existência já não o contém. Ali entre escarpas tinha-o acolhido, nos alvos braços, a própria Mãe.
De tumefacta alma sarada, o homem desperto adormecerá, esquecer-se-á e, na cronologia intemporal do lamento, imaginará que não foi o salto o salvador, plantará um inferno amedrontador e clamará para si próprio o paraíso. O homem sempre foi bicho de pouco juízo. Chamará à divindade que o criara diabo, adorará o verão penando o inverno, esculpindo à sua imagem um inferno, penitenciando-se à sua margem como povo devoto, bebendo de si mesmo quando ainda mosto.
Aguardando o salto raso do Homem ainda hoje o dia acorda nu, sem frio, adormecera sozinho o rio com o céu estrelado por manta, na voz mistificada que o silêncio canta. A vida sorve-se por ti, garganta.

2018-06-24

Silêncio tonitruante

“Silêncio tonitruante”, crónica de Domingo, na Bird Magazine.

Habituamo-nos ao silêncio e quando este deixa de se fazer ouvir, a sua ausência é ensurdecedora. Felizmente, as gotas que se esbatem na soleira, quente pelo ensolarado nevoeiro que cobriu o primeiro dia de Verão, e no ferro, também quente, empoeirado, musgado, corroído às sardas, ondulam a sonoridade, mecanicamente trazendo na sua transversalidade o que vibrará no meu tímpano e na miríade de ossos minúsculos com que Deus me votou ao mundo, e à surdez.
Sem grande roteiro, o caminho faz-se rotineiro, como mencionei atrás, habituamo-nos ao silêncio de tal forma que é nele, pelo menos para mim, que encontro a voz inaudível e, por isso, verosímil, que vai sussurrando a chuva e o céu raiado, onde aleatórios relâmpagos percorrem como sôfregos cavalos selvagens, indomáveis, irregíveis, e deixando no rasto o ribombar da liberdade e que me cai pelos ombros abaixo como um jugo. 
Começo a degustar a pálida timidez de tudo o que me chove, gosto da aridez das palavras que ouço, permitem-me camuflar o silêncio e apreciar ainda mais os valorosos momentos em que me despeço das despedidas e as deixo serenas, em paz, à espera de um outro capataz. 
Os dias parecem querer ocupar duas rotações de uma só vez e, talvez por isso, os anos pareçam encurtarem-se à medida que nos aproximamos da distância que nos separe de nós a nós mesmos. 
Sem que me vejam, descerro a cortina, mas não completamente. Há sempre um pouco de silêncio que permanece, ou um pouco de silêncio onde permaneço, uma penumbra auditiva na qual permito falar-me sem que me ausculte o pressuposto.
Por isso o caminho está para mim como eu estou para o caminho, pendente de cadência e cadente de pendências, como estrelas num céu diurno, lá, sem se verem, a brilharem um lusco-fusco que ninguém poderá admirar. Há uma promessa no ar. Deduzo serem passos de um novo silêncio a chegar. 
Assim, por clemência divina, em quem não creio acreditar, voto-me à simplicidade da pobreza para sentir que envolta no silêncio é onde mora a riqueza.
É por tudo e por nada que não ouço, mas escuto, a frequência de universo impoluto, entregando-me à harmonia deste fim de dia, caindo-me na precipitação de um solstício, eu e comigo em armistício, na paz tumultuosa de uma guerra travada no adiantamento do passado que corre e tropeça no tempo. 
Gostava, enfim, que as palavras não me metaforizassem e se limitassem a escrever que, do lado de cá da atmosfera, há quem se preocupe se as estrelas brilham por brilhar ou se as palavras são como o silêncio e em silêncio tonitruante devam ficar.

2018-06-19

Altar

Altar, uma crónica do nada, no Correio do Porto.

O chão descomprimido em pó é o único entrave no caminho de um homem só. O calor agarra-se com força aos braços, a transpiração escorre-se na ânsia de se desprender da térmica sensação de se encostar a mim, compreendo-a, até eu me desejo descolar de mim.
Por entre resilientes árvores, desmultiplicadas em pinheiros e eucaliptos, um sobreiro aqui e dois ali, os paralelepípedos separados pelo musgo verde que a humidade dos últimos tempos tem deixado no chão, no ar e em mim, carregam-me no esforço de encosta acima chegar ao local onde acaba a última fiada de promessa política, rematada com um baque surdo e seco, assinalando o final dum lugar e o início de outro, menos civilizado, onde os estores das casas adormeceram para não acordarem, na esperança de uma janela melhor. Em trago difícil de engolir, a paisagem vai ondulando em montes como vagas litológicas gigantes que acabam apenas onde a minha parca visão alcança, ali ao fundo do monte, onde quem não sonha chama de horizonte.
A placa da rua está mastigada pelo Sol e pela chuva, a pobreza veste-se de amarelo pelo barrento pólen que se eleva impulsionado pelos pneus dos poucos veículos que por aqui se aventuram. O desnivelado chão pelas poças de água evaporada entorta-me as costas e as portas da carrinha e tolda-me a visão quando tento perceber o nome antes ostentado orgulhosamente na placa toponímica. 
- Há-de ser aqui – diz-me o meu pai, com a sabedoria que a vida dá a quem se trabalha no corpo e torneia, com mãos de marceneiro, as milhares de histórias lidas em folhas de papel, todas gravadas na memória, afinal a vida é apenas mais uma estória.
Viro o grande volante de borracha carcomida, as mãos escorregam-se, quando a carrinha, de vidros abertos, muda de direção sinto o bafo quente que vem, ladeira acima, espreitar quem lá vem. Subimos mais um trilho, tratado a lajes de mármores calcadas cuja vegetação rasteiríssima reclamou para si, abraçando-a na pureza que a terra possui, não fosse ela nome de lar, aquele ao qual o corpo vai voltar quando eu me cansar de mim mesmo.
Puxo a pequena corrente que faz abalar a sineta, aqui sempre são boas horas de chegar. O portão abre-se e um rosto desdentado sorri, entrecortado por uns bons dias, a cara de quem se acordou à força do vibrar do ferro, o pijama riscado, alvo, a camisola ondulada pelos restos dos vincos que a cama, sozinha, reclamará quando me for embora, apesar da hora levantada, quem trabalha de noite, de dia fará o seu descanso, melhor assim, que este dia quente não vai manso.
O calor encosta-se ao celofane, gruda-se aos braços e mãos transpiradas, sinto já a camisola colada às costas, vamos subindo os vários degraus, feitos em momentos e de materiais distintos, as pernas arquejam, os braços solfejam, sopra-se aqui e ali e, pela porta apertada onde espiraladas fitas de plástico se deixam chover da padieira, entramos no estreito corredor, caminhando lentamente até o local nos dizer “É mesmo aqui”.
Quando a estante é erguida numa espécie de bailado a que estamos bem habituados, o que nos vale uma piscadela de olho síncrona e o sorriso cúmplice de pai e filho, nesta e noutras vidas, a senhora sorri e comenta “Vai sentir-se mesmo bem aí”. Entra no quarto onde a cama, envergonhada, se tenta cobrir no pudor de um leito vazio, puxa a fita que enrola a persiana até a claridade exterior entrar e prolongar a luz empurrando o crepúsculo de baixo para cima, deixando iluminado, ainda que não luminoso, o espaço da estante onde deduzi ser local para se colocar uma planta. 
- Se me ajudarem aqui se faz favor… - e apontou para uma imagem de Nossa Senhora de alguma coisa, não as sei distinguir por entre tantas virtudes e enfeites, que parecia esperar no chão a proclamada ascensão. Ficamos a olhar um para o outro, pai e filho, baixámo-nos e pela base das nuvens, onde a Senhora parecia flutuar, erguemo-La e colocamo-La na estante, iluminada pela claridade e pelo sorriso genuíno, ingénuo, daquela matriarca de um lar vazio, num altar pago a prestações de gente séria, a que outros ignorantes chamam miséria.


2018-06-15

Entre Paredes

Texto para momento/evento em Paredes (declamação de Fernando Soares).

Entre paredes, o que nos segura? O tempo em tudo perdura. Nas raízes de um abraço na natureza rendida a um românico ascendido. A paisagem envidraçada do tudo que nunca esteve perdido.

Os degraus cambaleiam enquanto ascendemos, jovens, moldados pelos nós que em nós nos identificam. Dominámos montes, vales, escarpas, o passado vislumbrado num momento, o quanto de cada um se transforma monumento.

No ouro cravamos o trilho, minando o leito de um mundo. Entre os braços boleados e aplainados cabe um conselho, cabe um segundo.

O Sol inclina-se e debulha-se, há caminhos a percorrer de olhos cerrados, cumes, arquivoltas voltadas ao íntimo de um reduto. Aqui, cada um é de si mesmo fruto.

O sorriso amassa-se numa regueifa, a romaria traz da fé a sua ceifa, o bastão caminha o romeiro, o céu suspira-se o dia inteiro, arfando-se ao abismo, inspirando-se ao misticismo.

Um harmónio escuta-se a cada dedilhar nas paredes do património, quem nos disse que o passado não seduz? Saberia de que lado da vida pende a sombra da luz?

A juventude prostra-se num salto, há um limbo escondido no alto. Uma tranquilidade que inebria, um sorriso na esquina romba de cada dia. A sagaz admiração da toponímia talhada e debruada nos olhos de gente, que nos olha de frente, na contemporânea medieval do ido, na alma de um povo urdido. As paredes que ensombrecem os passos romanos, as pontes onde ao silêncio se confessam os divinos profanos.

O subterrâneo doura o perfil, um pormenor o divino ousa, o universo reflecte-se hedonisticamente em águas de sousa, sem temporizar a temporalidade, apenas a paisagem irregular de tudo o que faz respirar. Onde mil ergueram muros, cá nascem sem paredes, puros.

Agora, o braço ascende e a trémula claridade no gume de um formão adormece sob serrim, um beijo cândido e inocente entre o não e o sim. O suor que se prende ao braço, o abraço ancestral entre a lâmina e o banco abandonado que o passado ilumina, o percurso bruxuleante de uma goiva que entalha a saudade numa flor, escreve-se bem a direito a linha de um destino, final da tarde anunciada pelo sino, dobrado, na alvorada de um futuro chegado.

Entre paredes habita-se a liberdade do que se sente, porque cá há mais, muito mais do que gente.

2018-06-10

Aqui jaz o amor

“Aqui jaz o amor”, crónica de Domingo na Bird Magazine.

Ao abrigo desta sombra, no meio de um dia quente de Verão, como o são todos os dias dos três meses de inferno em Trás-os-Montes, bafiados e acalorentos de tal gradação que me fazem trocar sílabas numa disgrafia quotidiana, como este dia, nascido ao contrário, onde descemos pelas ruas de Alijó (só consigo recordar este nome, os restantes são todos guardados no saco grande e ligeiro, uma espécie de merendeiro, onde cabem as palavras e as letras amassadas pegadas à crosta da boroa que comprei ali acima, ao balcão do café/mercearia/drogaria/padaria/oásis comercial) ao encontro do Tua, agora pachorrento, gordo e opulento, contrariando a imagem anterior da selvajaria e discurso gradativo por entre as fragas, saltando juncos imaginários, onde a linha do caminho-de-ferro, erguida por gentes de ouro nas paisagens de pedra, concorria com o fluir líquido de um fio de água agreste. 
Tudo ficou para trás, até a sombra, que enquanto me perco nestas cogitações na ânsia de me encontrar já pensado de cima abaixo, pôs-se em marcha para fazer as vontades a Galileu, não vá agora o homem, além de estúpido, regredir às medievalidades e tornar-se o centro do Universo novamente.
Do meu lado esquerdo o muro de granito espreme-se para suster a terra. Ser cemitério aqui é luxo ao alcance apenas dos que são erguidos em ligeiros planaltos, com vista para o mar de cumes e colinas, rasgados aqui e ali pelo penteado arame dos postes de alta tensão. De costas voltadas à encosta, o olhar sereno de quem resguarda os resquícios dos imortais que não habitam já féretro com limitado prazo de validade, o cemitério parece ceder ao peso da tristeza de olhar, ali ao fundo, o encher de águas que jamais se romperão e nunca sairá dali filho algum, apenas a bisarma descomunal em pleonasmo que se enterra cada vez mais na ambição humana. 
As campas, sem qualquer lápide, testemunham o amor e respeito verdadeiro, sem qualquer luxuosidade. Entra-se pelo portão de ferro forjado entreaberto, sob a data retorcida em ferro amassado por mãos de ofícios cujos praticantes habitam, já, os muros que ajudaram a erguer. Este, sem excepção, de tamanho reduzido, vê montículos de terra sem o habitual granito a orlar a campa, apenas um ou outro crucifixo relembra o carácter religioso de onde estamos, aqui e acolá uma lápide ergue-se com os tradicionais assinalados, a data de nascimento e de morte, a eterna saudade dos familiares (a ignorância faz-nos cegos à eternidade) e uma ou outra fotografia de rosto cavado, sério, sem que se desabotoem flores secas, murchas, dentro dos copos trabalhados por vidreiros ou, como também ali ao fundo, um copo de refrigerante faz as vezes à solenidade. Vi-o subir os degraus de granito, com amontoados de alguma terra e papéis que o progresso trouxe da cidade, primeiro os passos até à campa do pai, o sorriso trazido por uma lembrança mais adocicada, depois como minotauro arfante pela tristeza, contorna as pequenas campas e vai ao montículo da mãe, a lápide mais recente força um pequeno torcer de cabeça, não subiu o sorriso, olha cabisbaixo a película ovalizada onde se gravou a imagem, mãe é mãe. Leva o indicador e o médio aos lábios, beija-os para depois os encostar à fotografia da mãe, num gesto que poderia ser amor, mas cuja proximidade pelo abandono carnal se faz ainda dor e, como tal, sente-se ausente o presente. Virou costas, a pressa de sair faz de fio de Ariadne, o caminho de regresso ao carro é rápido para que as saudades não ganhem raiz naquela terra fértil, onde a cada féretro nasce um eterno. Vejo tudo calado, por vezes ser amigo é isto mesmo, deixar calar o silêncio e não dizer que, no momento em que os dedos, que levavam aquele beijo tantas vezes imaginado em vida, tocaram a fotografia de metal, as mãos da sua mãe, etéreas, passeavam pelo cabelo agrisalhado e o seu pai, orgulhoso, trazia do céu os sonhos revelados para que a cada claqueado momento o amor possa ser superior ao sofrimento.

2018-06-04

As árvores morrem tombadas, assassinadas.

As árvores morrem tombadas, assassinadas. A Crónica do Nada, no Correio do Porto.

O vento apanha-me de surpresa, sopra-me arfante na nuca e atrás da orelha direita, assobia como se pretendesse assustar-me pelo impreparo, como aquela palmada amiga que afaga abrutalhadamente o cachaço do comparsa que há muito não se via.
Há na forma rude de cumprimento não um distanciamento, mas a proximidade caseira de quem foi criado a pau, o carinho e candura é coisa ausente para quem a vida foi dura, como quando à boca do caminho silvado, com restos de maços de tabaco vazios que exibem o futuro doentio de quem também se faz vazio, me diziam olhos que viram já demasiadas órbitas sobre estes feitos, “saía-se de casa com um bocado de pão e meia cebola com sal e ala para o campo”. Dias que se calcavam como os torrões e uma criançada que se fazia adulta em meses, aos tropeções.
Viro-me, o vento rodopia e sorri-me, a gola da camisa oscila momentaneamente, gaba-se de poder agora soprar-me de forma diferente e eis, infelizmente, o porquê. Antes encontrava-o de frente, apanhado ele à socapa por mim que entrado na rua irregular onde os paralelos tapam agora as raízes dos velhos imponentes eucaliptos, que uivavam e agitavam amedrontadores os ramos e as tonas, atiravam bugalhos e enchiam o ar com o seu odor mentolado nos dias de ventania, quando o Inverno se vestia de rigor e a cada sacudidela mais forte a electricidade ausentava-se durante um par ou ímpar de dias.
Voltaria depois repostas as ligações, içados postes de madeira ao som do “ó-iça”, celebrados com as calças do macacão no taipal da carrinha e umas sandes de mortadela ou linguiça. 
Não cogito sobre a comparação incomparável entre hoje e ontem, ou ontem e antes de ontem, ou amanhã e o antes de mim, mas o vento, volúvel, volátil, voluptuoso, cujo volume se estreitava para entrar gélido pelo pescoço abaixo, esgueirando-se entre o pescoço com os pelos eriçados e o cachecol de lã, manualmente tricotado sem etiquetas que ostentem aos olhares doutrem o quão de outro tenho em mim, que acabava, invariavelmente quando os dias se despiam um pouco mais de nuvens e deixavam o senhor Sol espreitar a canalhada chegar da escola, no esteio que separava o caminho do monte, enquanto jogávamos futebol desmedido de vaidades e de talento, fintando canelas quando possível, raízes, por vezes o monte e sempre, sempre o tempo.
Chega-me hoje volvidos algumas dezenas de anos, tristemente, por mim e por ele, que sendo vento não é estúpido, de diversas direcções porque criticaram, julgaram, deliberaram e acusaram, condenando à falsa fé as árvores, as giestas, o mato, as silvas, as raízes, os estrepes, as mimosas, as flores e todo o tipo de verdura que dali em terras delas, ainda que o registo notarial humano se vanglorie de possuir, terra, imagine-se, a mesma terra que o receberá féretro, certamente com asco, mastigando-o, vermeziando-o, até que não se confunda corpo e terra, carne e húmus. Graças a Deus.
Ardem as florestas porque a culpa é das árvores, derrubadas ao lado de onde fazíamos as cabanas e, lá dentro, intocados pela adultilidade, fechávamos pactos de amizade que se foram apagando pela idade. 
Paro no início da rua que já não é a minha, nem os pactos são ou foram meus e acredito que já nem eu sou eu, habituado que estou a este silêncio e esquecimento mediado por mim e pelo tempo. Permaneço parado, sem qualquer expressão que não a usual mudez e o peso esbatido que os anos foram pintando na esperança, o vento assoma-se, silencia-se, encosta-se a mim e ficamos a olhar, eu embaçado, ele amedrontado, a rua silenciosa, as raízes ainda a empurrarem os paralelos em direcção ao céu, os tocos resinados e resignados onde se colam pólenes invisíveis, porque cortaram tudo. O vento vem-me apuridar a recordação desmemoriada da cabana já ruída, feita com ramos secos de mimosas e tecto de caruma e que nunca abandonei porque guardei lá o mapa de um tesouro que não sei onde escondi e, por isso, o vou procurando em mim e talvez em ti.
Despedimo-nos sem uma palavra ou suspiro, ambos sabemos o que nos espera, o ostracismo ventará e eu irei esquecer-me, porque não tenho qualquer cartograma de onde tenha sido Eu para chegar ao sítio onde me encontrei e, por isso, apanho uma caruma isolada que o vento trouxe aos meus pés, limpo-a, coloco-a no bolso. Viro costas, adenso-me à estrada, triste pelo futuro despreparado, mas com um certo brio em ser agora, eu, simples ermo, a cabana de uma caruma órfã por as árvores morrerem tombadas, derrubadas, assassinadas.

2018-05-27

Obliviamente

Obliviamente, crónica de Domingo, na Bird Magazine.

Quando se sentam nas cadeiras, cinzentas, encolhem-se numa implosão existencial e entre napa esburacada e suja encontram forma de acolher a ansiedade. Se o cansaço afirma, a cabeça descai e pende para trás, encostando-se ao vidro manchado de onde se decalca tristeza e a palavra Urgências passivamente substantiva o local. O despreparo do vidro para a solidão fá-lo oscilar e ir ao encontro de corpos que lá se encostam, dando espaço ao descanso ainda que parco ou as cabeças de cabelo oleoso por onde o tempo teima em pentear preocupação. Abro um olho, a preguiça e a timidez assim obrigam, os nomes ritmados pausadamente sonorizados fazem fila para uma triagem de uma cidade que conhecem apenas os mais idosos e os subscritores de desviantes canais desportivos da caixa enclausurante. Novo nome, novo lamurio, um andar coxeado como se o mundo fosse feito de dois degraus desconexos e irregulares, onde caminhamos pé ante passada, falheira, entre eira e beira. A porta desliza, de lá espreita um segurança inseguro, aponta sisudo um gabinete numeralmente baptizado e o murmúrio doloroso, cavalgado na dor, suspira por uma cor lesta.

Hipnotizo-me propositadamente com os faróis movediços no tejadilho e na grelha frontal dos grandes furgões vermelhos e brancos que transportam sofrimento e alguma desconexão, a palavra aicnâlubma tatuada no capot parece pronta a ser desvendada num códice em reflexo, tudo me assalta para que a cabeça e a mente saia dali. Tudo é melhor do que ali. Provisoriamente, o sofrimento entra por portas onde antes saíam, apressados, alívios em busca de farmacêuticos que lhes vendessem o prescrito, longe de almejarem proscritos, à toa entre corridas de macas e cadeiras de rodas com suporte para apenas um pé, onde as finas rodas de borracha sulcam caminho sobre os chinelos de um qualquer velhiente, mistura de velhote com paciente, que os deixou cair e exibe uma meia rota, talvez como a alma que se diminui em vergonha pela falácia de um corpo que teima em dar parte fraca, por onde espreita um dedo mirrado, escurecido, com uma grande, grossa e curva unha, o resquício de uma garra de quem se foi agarrando ao chão como uma torga, de forma rasteira e olhos de fuligem a semicerrar os anos à força da vida que venta, cada vez mais, para quem se faz de choupo e giesta. Para aqui, nunca a vida foi uma festa. Aliás, a vida aqui parece ser o oásis escondido numa pedreira, o granito que se solta da fresta, o arfar de um peito que se eleva, sustem e depois esbate, um fole gasto e acaboclado do pó que se foi meteorizando, transportado pelos anos de desgaste a arrancar aos petardos as entranhas das montanhas, a polir tampos de cozinhas e, salve ironia, cortar, moldar e irrigar aos olhos lápides de quem ainda vivo encomenda a morte. Não o inventei, disse-mo ele, o braço retesado ao peito, num olhar cruzado com a minha vergonha, o pedido de ajuda num grito silencioso por entre suspiros de quem não se sabe sofrer, aquele velho solicita-me a morte. O familiar senta-se a meu lado depois de fazer a inscrição no guichet e o computador abocanhar a informação e andar ali a cogitar, de bit em bit, de onde conhecerá esta trama de informação, pousa-lhe o amarelado bilhete de identidade na perna e rosna, talvez porque não o ensinaram a ronronar, que tarda nada chamam por ele e há-de ficar melhor, mas entretanto tem que ir à roulotte beber uma cerveja. A vir da mesma cepa, o malte sobre o pó de pedra azul e amaciado pelo fumo do tabaco fará bela mistela de um futuro adivinhado, numa cadeira de rodas de um serviço de urgência, com suporte para apenas um pé, a atropelar o chinelo de um pé que exibirá uma meia rota.
Um clique e uma interferência no sistema sonoro, o som indistinto de um auscultador a levantar, um nome e o número do gabinete de triagem mastigados entre duas mascadelas na chiclete. O próprio som ouve-se mentolado. Olho para o bilhete de identidade na sua perna, o nome igual ao declamado sem qualquer emoção – há que manter a distância e o pensamento no ginásio onde, daqui a horas, na volta de turno, folgará a mente no trabalhar do corpo – a cara séria e um sorriso tímido debaixo do bigode entre duas longas e farfalhudas patilhas, a cara queimada pelo Sol e pela má qualidade da película. Quando a porta se arrasta vagarosamente numa banda sonora que não deixa memória grata, o segurança assoma, não o sisudo, um outro, e faço-lhe sinal com a cabeça apontando para o velhiente, já sem bigode e as patilhas caídas sem orgulho, o braço hirto num jogo sincopado entre hemisférios, uma lateral esquecida ironicamente por quem a uma totalidade obliviamente foi votado.
A porta fechou-se no sentido oposto a abrir-se, literalmente abriu para um fecho que no íntimo imploro, a degradação das existências, as vidas resumidas a um resumo de um rascunhado rasurado e sem vigor nas mangas fajutas de um sobretudo virado do avesso para que se aproveite o tecido. Voltam os faróis azuis iridescentes, a noite acabrunha-se, o peso de um sono ausente faz-se sentir e volta-me o olhar para o chão. Vejo o bilhete de identidade do velho e cai a cortina sobre o acto, o número que somos impresso por agulhas que tatuaram para a sociedade o cidadão numeral, aqui, onde principia o bem, mas onde ainda reina o mal.

2018-05-18

Cobre-se a vida na candura
o branco
e o invisível que perdura,
sagrado
o dia espreguiça-se pela tarde
e é Deus
(de quem tudo tive)
que sussurra:
a vida é o que em nós Vive.

2018-05-13

mas Deus é grande

“mas Deus é grande”, mais uma crónica do nada, no Correio do Porto.

Tímida, aproxima-se do balcão. Educadamente aguarda que as senhoras dentro do casulo se apercebam da sua presença. Quando o fazem, dão as boas noites com um sorriso e um aceno de cabeça e escondem o sorriso ao discurso despreparado da senhora, que tenta saber quando abre a sala, para as pulseiras, a que tem as cadeiras azuis. Entre o tentar perceber, o conter do riso e os desvios da posição a cada vez que o bailado de uma maré de luzes azuis anuncia a chegada de nova ambulância, tentava a senhora perceber a que horas poderia estar com o marido que estava doente e devia sentir-se sozinho sem ela. Às 8:00, respondem-lhe. Virando-lhes costas, vem sentar-se ao meu lado direito. Cruzando as mãos, os dedos torpes e grossos como cascas de pinheiros, encostou a cabeça ao vidro e espreitou o relógio que austeramente, quase sincopemente, apontava as 2:00. A roupa minimalista, o blazer quadriculado, a mala de mão velha e negra, a camisa de flanela, o cabelo negro e oleoso, o cheiro a lixívia que servira certamente para lavar as mãos depois de uma labuta dura, mas correcta, com a enxada na mão a amaciar os torrões negros, como os olhos, grandes e fundos, tudo casava perfeitamente com o ar simples e o olhar puro de quem se tem na vida como um murmúrio e isso, por si só, basta-lhe. O efeminado ar resulta apenas da conversa de mãe, quando à pergunta se lá ia ficar toda a noite à espera das 8:00 e não tinha transporte ou filhos para a buscarem, responde que os meninos estavam em Espanha e as meninas no Porto. Porto… a distância de 30 km. Um porto inseguro. E as lágrimas cuja tristeza não conseguiu conter, soltaram-se emboladas para um lenço de mão, bordado com motivos vermelhos e azuis, com o murmúrio “a gente chora, mas não é de tristeza, é para tirar isto cá de dentro”. Uma fungadela. “mas Deus é grande”. Outra fungadela. “Deus é grande”. Não há telemóvel nem ninguém a quem telefonar. (Preocupo-me, a folha é curta de mais para esta vida de menos, tenho metáforas e pleonasmos propositados para plantar, mas terão que aguardar novo estio). A casa fica longe, o carro de praça transporta 40 € para cada lado. A carreira vai, dá a volta no cruzeiro da aldeia e volta, sem dar tempo para ir a casa ver a bicharada. “mas Deus é grande”. Sugerem que vá ao supermercado assim que abra, para comer qualquer coisinha, o olhar baixa timidamente, o lenço é dobrado cuidadosamente e arrumado entrando pelo pulso por baixa da camisa de flanela, diz-lhes que sim, que vai, apenas para a conversa ficar por ali.
Cruza o olhar comigo, assusta-me o medo dela, o estar fora do terreiro, a janela enorme que se assemelha a uma porta, o descerrar automático a cada passa próximo do vidro, as luzes das ambulâncias, o marchar descompassado dos soldados da paz. Pigarreio, pisco os olhos e sinto-os arder, o estômago ronca, molho os lábios com a língua e penso em meter conversa. São 2:30. Esta crónica começa-se a escrever deitada à mão cheia à terra, vou guardando referências visuais para não me esquecer dos pormenores, mas apenas o “Deus é grande” se cola às memórias pequenas. Pergunto se estava ali pelo marido, ela anui, sentiu uma dor que o impedia de andar no terreno quando andavam a tratar das batatas, ainda queria ir para casa, mas ela foi a correr ao café para chamar uma ambulância, diz-me que só teve tempo de se vestir melhor e lavar as mãos com lixívia (afinal tinha razão o cheiro anterior) e veio com ele, sentada na ambulância.
A conversa é cortada por um utente esbaforido saindo porta fora, praguejando, injuriando toda a comunidade hospitalar. “A gente não gosta, sabe, mas ainda bem que há estes sitiozinhos para a gente se tratar.” Faz uma pausa. “Custa, mas Deus é grande”. Ofereço-me para levá-la a casa, mas rejeita, vai quando ele for e isto é o recipiente secreto que tempera o amor. Juntos na saúde. Juntos na doença. Literalmente. Conto-lhe o que me leva lá, à sala de espera das urgências, ela sorri compassivamente e empaticamente, esboçando o raiar da madrugada num mar negro tumultuoso em forma de sorriso de gente simples, Gente, anunciando “Deus é grande”.
Encontro-a ao outro dia, eu razoavelmente fresco depois dum banho, ela na mesma indumentária e no ar cansado de quem o tempo se põe às costas e cavalga na dureza característica de quem masca um povo e, quando nada se segrega, o cospe. Pergunto pelo marido, ela sorri genuinamente pela primeira, já tinha estado com ele e afinal não era nada de grave, “Deus é grande”, e assegura-me que uma vizinha os leva para casa ao final da tarde. Pergunta-me pela minha causa, explico como posso e ela toca-me no braço muito timidamente, pudicamente olha-me por detrás da cortina e afiança-me “não se preocupe, Deus é grande, a gente é que não entende”.
Olho-a a sorrir num agradecimento mudo, voltei costas mais leve, mas ainda trago o abraço que lhe queria dar. Sim, Deus é grande, e cabe todinho nos infinitos universos olhos cansados de uma pura pessoa simples e sem letras.



2018-04-29

Em passos de gigante

"Em passos de gigante", a crónica de Domingo, na Bird Magazine.
 
Era dia 22 de Julho de 2007 e estava pacientemente à espera que chovesse.
Por vezes é a única forma que encontro de tirar-me as memórias, porque os sonhos que estão no fundo de mim brotam quando chove, impelindo tudo o que esteja por cima deles. Está vento, o céu ameaça chover, brinca comigo, ouço música e procuro, desesperadamente, preencher todos os meus recantos com vida.
Vejo os eucaliptos, as nuvens cinzentas atípicas de Verão, alguns telhados ao longe e nada mais. Sem chuva os sonhos não nascem e, assim sendo, as memórias não me vêm aos olhos.
Consulto o meu caderno, o pequeno livro de memórias que muitas das vezes não são minhas. Encontro um ou outro episódio e tento vivê-lo novamente. Começo a ver-me percorrer as estradas de Valpaços, percorrer freguesias como Lameirão, Vassal, Rio Bom, Alto de Penalva, Argemil, Argeriz, Possacos, Fornos do Pinhal, Vilarandelo, com um mapa na mão e a tentar perceber o porquê das comunicações não funcionarem. O telemóvel ficou sem bateria e mesmo que a tivesse de nada valia, pois não há rede que penetre a limpidez daquelas paisagens. Olho ao longe e vejo as nuvens que parecem pousadas sobre um vidro, invisível, com os seus cumes majestosos. Venta e eu sorrio, levo o vidro do carro aberto, passa um tractor por mim, com um cavalo amarrado, o som do motor com o trotar do cavalo cria uma música que não me canso de ouvir.
As faces parecem muito mais límpidas e sãs e só me apercebo o quanto gosto delas quando retorno ao Porto e percorro, de autocarro, as ruas desta cidade que adoro. As conversas, os olhares, os gestos, as pessoas parecem envolvidas por uma neblina cinzenta, sem vida ou brilho e isto causa-me mais impacto porque ainda trago comigo os sorrisos das pessoas do interior.
Lá em cima, até o Sol parece brindar a paisagem com algumas pinceladas de génio. Vejo a forma como o Sol ilumina alguns pormenores de casas abandonadas, mas apercebendo-me que poderia estar melhor, saio do carro e com cuidado, para não me queimar, mudo um pouco o Sol da posição em que se encontrava, et voilá, o toque que faltava! Entro novamente no carro e continuo na estrada. Por vezes imagino-me gigante, só assim conseguiria preencher e saciar esta vontade de estar em vários locais ao mesmo tempo. Olho para uma montanha e vejo-a mexer, começar a erguer-se como se fosse um gigante adormecido. Começo a caminhar, com cuidado para não pisar as casas, ajoelho-me para ver se a água de um rio está frio e sorvo alguma. Vejo uma ou outra pessoa cansada, com calor, num campo árido e erguendo o braço arrasto uma nuvem que passava, para dar um pouco de sombra àquela criatura. Quando cansado deito-me junto de outros gigantes e adormeço, para acordar de seguida com as cócegas que os pinheiros me fazem no nariz e se acordo e uma estrela me olha nos olhos, levanto-me com cuidado para não fazer tremer a terra e salto para lá, para outros mundos.
Hoje é 27 de Abril de 2018. Há vento. Apenas. Nem palavras. Nem silêncio. Nem chuva. Nem eu.

2018-04-27

Pessach

“Pessach”

Crónica do Nada, no Correio do Porto.

O puto abana-se uno com a sineta que trina, o braço cansado pende como um ramo seco de árvore que sonha ser galho, anunciando vem aí o compasso!, a opa alva dança e as nuvens riem-se quando o vento lhe atira o resto da brancura pelas costas acima, embrulhando-se na cabeça. Não se demove, continua a badalar num esforço contínuo apenas vencido pela zelosa missão de, além de adolescente, ver chegar ao fim a madrugada procissão, solitária, a cruz acima e abaixo de caminhos, os verdes ao chão, as flores na mão, de cara fechada, uma madeixa dourada rivaliza com o sino zonzo já de tanta sacudidela firme. O vento desiste soturnamente, as nuvens deixam de joeirar a cena e dispersam num certo tom de desprezo, a opa solta-se e cai harmoniosamente sobre as costas arqueadas, mas não sucumbidas, tudo sem que o sino deixasse de tocar.
A solenidade foi-se perdendo, sobra agora uma espécie de desejo que tudo termine e possa seguir viagem, arrancar um pouco de pão-de-ló com a mão, beber um ou dois cálices de vinho fino às escondidas e suspirar enquanto o foguetório anuncia o fim da cerimónia. Tanto rebentamento só pode ter explicação na necessidade de se fazer calar o som que chove destes dias soalheiros e canta aos ouvidos surdos de quem se faz pessach daqui para onde quer que nos deveremos escutar. Silêncio, Deus vai-se calar.
Entrou sala adentro, a mão no rebordo da sineta a afagar o silêncio e a refrescar o rubor de uma mão cansada, não vencida, trazendo ao redor de si uma aura de episódios que deixou serenar quando cruzou o olhar comigo. Deve ser isto o significado de amigo. Não se escutaram lamúrias sobre o atraso do compasso, aqui Jesus pode ressuscitar com a complacência de quem anda cá há tanto tempo como Ele, na ânsia de um aleluia e um abraço sentido, que vale o mesmo. O envelope fechado não ostentava qualquer nome, aqui confia-se na contabilidade divina, ao contrário do chefe das coisas, que puxou o saco preto e num certo desmazelo o amarrotou, talvez para mais tarde anotar o nome e a quantia. A cruz chega a mim numa roda de devoção que muitos transformaram em religião, sem intenção de religar o que quer que seja. A fé é coisa que não se veja, mas beijo, ficando para o fim por pudor, e dor, sustendo um pequeno emaranhado de ondas que teimam em assomar à praia das pálpebras, encosto a boca aos joelhos frios e afasto-me, com saudades Tuas.
Espreito-os por cima do muro. Seguem caminho abaixo, a sineta badala silêncio, o âmago de um cansaço suado. Fico sozinho, comigo a meu lado.
Quando a solidão se prepara para barricar-se no sobejar de palavras onde em silêncio afogo a minha voz, sinto uma mão no ombro, viro a cabeça. A olhar para mim, além do mar que me cresce por dentro quando me lembro das oliveiras, uns amendoados castanhos pequenos luzeiros orbitam-me e por dentro do que sou alcançam-me numa espécie de luz. És tu, Jesus?