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Alecrim

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 “Alecrim”, para ler no Correio do Porto, a minha crónica na secção "Crónicas do Nada". ( https://www.correiodoporto.pt/prioritario/alecrim ) Conto os quilómetros que ficaram para trás e mesmo com o planalto talhado a sombras de nuvens disformes, não deixo de pensar que o caminho faz-se sem sair do local. No monte disseste que basta a cada dia seu mal. Compreendo-te. Torno a atenção para o tracejado da rodovia e aos nós dos dedos no volante, alvos, enquanto passa por mim uma auto-caravana onde na traseira putos desenharam um cartaz: “se é feliz, buzine”. Buzinei. Sou feliz e nem eu próprio o sei. Existo e, mesmo assim, não hei. Não havia nada para ver no ermo passageiro onde os estrepes, cortados de fresco, eram a única coisa que arrefecia a paisagem. (só a metáfora nos permite sobreviver ao que chove da ágora). As viagens pelas terras que não florescem gentes ganham um cunho de visita ao abandono, as paredes que ainda não caíram são lápides onde estão inscritas os quilómetro

Alma Tua

"Alma Tua” ou a crónica da última caminhada, para ler no Canal N . O senso comum leva-me a questionar o Norberto se aquele seria o melhor local para estacionar. Está certo que garagem de portas fechadas ou guarda ou não permite entrar, mas mesmo assim, o carro na entrada, o Sol a calcorrear os cumes dos pinheiros mansos, as sombras fugidias sobre as oliveiras, não me deixavam na calmaria de ostentar local à porta de alguém. O Tua ia-se afogando pelas margens sem escape além do que vislumbravam nas fragas do lado de lá da corrente. Sem carris, o ocre soçobrava no cascalho cuja função era, agora, sem mais nem menos, preparar-se leito de uma barrigada de água parada, onde apenas o orvalho vinha beber restos de reflexos que o céu gravou. Os últimos passos em liberdade, sei-o agora, foram dados naquela tarde, a bicharada a grasnar e crocitar uma melodia fúnebre, a sombra de um sobreiro que mirava, sozinho, a curva do Douro penteado pelo vinhedo arquitectonicamente esculpido ao olhar ma

“Paternidade

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 “ Paternidade ”, crónica na minha secção "Crónicas do Nada", no Correio do Porto. O granito cinzento e azul escuro traça a perpendicular com o sorver do porto que escorre pachorrento, alcoolizado, pelas bermas interiores do copo e se evapora ascendendo ao céu da boca. Quando está cheio, cotovelos e antebraços sobre o frio aglomerado de minerais, a estante de vidro que serve de montra à pastelaria variada, bolos, rebuçados e sumos, ganha honras de balcão, onde a chávena pousada com diligência faz tilintar o café. Não, não é café, é outro porto. O ruído do moinho contrasta com a conversa aleatória que se mantém com quem não se conhece ou, neste caso, um monólogo de alguém que nunca conheci, mas que me dirige a palavra. Não há fio condutor e o teor ébrio do homem, simpático, não é o suficiente para me fazer embrenhar nas típicas históricas que me cativam e, normal geral, se encostam ao meu palato e, depois de as saborear à minha própria maneira, me escrevem em aglomerados de pa

Ao Pai

“Ao Pai”, a crónica do dia, no Canal N . Quando saiu da curva e a estrada lhe pareceu mais curta, sabia que tinha chegado onde deveria. Há uma espécie de limite na cercania, o 19 de Março haveria de ser o limite para a aventura forasteira, de agora em diante a miragem seria a pastagem forrageira. Calculava com atenção os dias que faltavam, não fosse um fugir à rebeldia dos tempos recentes e deixar passar prazo ao qual se tinha acometido. Tinha saído da sua aldeia quase como foragido, à guarda do futuro calcorreara quilómetros em carrinha alheia, sem que a carteira comportasse a vida no montado, a mulher a cuidar da casa e do filho, o filho a cuidar de crescer e das brincadeiras. Chega-se rápido ao fim do mês, quando ainda que fugidos ao balcão do café, se troquem as moedas e de duas sobrem três, a conta é fácil de fazer, não é?   Atravessados montes, conhecidos e desconhecidos, sulcara a saudade entremeada com trabalhos, aqui e ali, nas consultas ao saldo bancário, pelas noites em reti

Dias ao Pai

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 Crónica na minha secção "Crónica do Nada", no Correio do Porto . “Dias ao Pai” A paisagem tira-nos o fôlego na mesma proporção com que a amplitude da paisagem nos faz debruçar cada passada ao tornar de todas as placas com a toponímia característica dos locais que não conhecemos. Em terra alheia somos estranhos a nós mesmos. O vento empurra-se bonacheirão da margem direita para a esquerda do Douro, abana-me a carrinha, o puxo grisalho de uma idosa desprende-se do pente e ondula em movimentos livres de solteira. Lugar de estrepe não é na eira.   Gotas grossas caem no pára-brisas, um céu fecundo em tons de cinzento anuncia a chegada pelos latidos do cão em cima do seu castelo minúsculo, sob a guarda de honra de um limoeiro com dois limões amarelos. Ladra à chuva, para a chuva, o canídeo e não sei se poderá algum dia senti-la livre, correndo nos socalcos abandonados onde os líquenes colonizaram o que sobrou após o Inverno dos proprietários.   Nos dias em que a guerra ganhou, saí

Votar no abandono

“Votar no abandono”, a mais recente crónica no Canal N . – A minha promessa eleitoral é não votar no que nos vota ao abandono. – Terminou a frase com um baque surdo no balcão do minúsculo copo onde tinha sido servido o Favaios, o que está debaixo do balcão, por detrás do Favaios com rótulo. Como em tudo na vida, quando algo nos chega sem a etiquetagem do que se pretende publicitar traz em si a originalidade do sabor autêntico do que se é. E, nas pessoas, de quem se É. Pousadas as moedas no zinco, virou costas ao dono no café que olhava as sondagens encomendadas na televisão, todas similares, nas percentagens que representam as permilagens de quem vota, e nas cores dos partidos. – Basta chamarem-se partidos, para sabermos o que aí vem. – antes de sair pela porta de alumínio baço encimada por uma torradeira de moscas que bailam reluzentes antes de caírem inanimadas no tabuleiro. Boa sorte tem a quem boa morte vem. Nas mesas escuta-se – Este é sempre do contra. Se eles ganharem, agora é q

Carrajó

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 “Carrajó”, a mais recente crónica na secção Crónicas do Nada , no Correio do Porto. Nada como fazer variar os passos nas direcções que nem eles sabem seguir. Talvez por isso, deduzo, daí nasça a expressão “o caminho faz-se caminhando”. Há a cada restolhar da vegetação o desconhecido animal que se esconde nas sombras que os meus olhos não iluminam. É a noite, felizmente, na pardez do passeio que orla o ribeiro alcatroado onde a pressa se apressa e o claquear das tampas de saneamento parecem o esgrimir das agulhas com que a minha mãe fazia pequenas indumentárias de lã para crianças, e um dedo por cima a colocar mais fio, em troca de um trocado que tanto valia como sentimento de independência, como de migalhinhas se faz pão, acumulando ao que a vida simples nunca precisou. Desisto de caminhar pela estrada, até porque esta constante rememoração do que habita em mim e de certa forma constrói o meu passado neste hiato de tempo, está a tornar-me desleixado e a velocidade com que a pressa pas