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Shabat

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Shabat , a minha Crónica do Nada , para ler no Correio do Porto.   É dia do Senhor. Faz sentido. O mundo pára e descansa, o Criador espreguiça-se da laboriosa, embora fastidiosa, tarefa de olhar a sua obra, o momento profano em que criou o humano. Galgo as margens do Douro, enveredo nas serpentinas alcatroadas que ladeiam as veredas esverdeadas onde, em tempos de limpeza de valetas, na ausência de cantoneiros, outros de roçadora na mão ou debaixo do sobreiro protegido à escondida da chuva, atrás do suor e da viseira de rede, abrem alas à procissão quotidiana e incógnita. É sábado e é isto que me pede o meu pai. Pai. Ambos. Várias dúzias de curvas e chegamos. Portas abertas de par em par, a corda da roupa que se iça para que a manobra permita aproximar da porta de entrada e afastar do esforço de descarregar. Sem o saber anoto-me, fitando ao longe os montes de costas voltadas ao Douro, o Sol a escorrer-se na manhã fria, a vizinha provocadora que assoma à janela com testos de alum

Interioridades

“Interioridades”, ou mais uma crónica no Canal N.tv ( https://www.canaln.tv/cronica-interioridades/ ). Quando há alguns anos, após anúncio de cortes nas reformas, vi numa reportagem de um canal de televisão uma repórter perguntar a uma senhora, numa qualquer aldeia do interior, se não a preocupava os anunciados cortes, não esperava o verdadeiro sentimento de interioridade. A menina do microfone perguntava com insistência se não amedrontava a senhora, de negro carregado, lenço debruado a prender o cabelo, duas madeixas alvas a espreitar o dia sobre a testa, o tão aclamado corte na pensão. E a senhora, de uma compleição nobre, como só o consegue o verdadeiro pobre, respondia com educado sorriso a cada investida jornalística. Foi no meio da enésima insistência que, finalmente, despindo a vestimenta a que doutos engravatados teimam em fazer vestir a ignorância, s senhora reformada de uma vida de labuta agrícola, vivendo uma longevidade pautada pelo pão nosso de cada dia, respondeu num tom

A guerra

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“A guerra”, a Crónica do Nada, no Correio do Porto, pode ser lida também aqui . Sem muito mais companhia em mim do que a estrada a murmurar os quilómetros em jeito de balada distanciada, percorro o horizonte sem nunca o alcançar, pincelando o céu com algodão doce e nuvens disformes, senhoras do firmamento. A viagem é, por vezes, servida com um lamento. Com maior ou menor dificuldade, os corpos curvados alinham-se como na formatura, saídos da recruta, moçoilos enviados para um serviço militar obrigatório ultramarino ditatorial, arrancados à parvónia e a uma vida polvilhada de centeio, cereais, madrugadas gélidas e noites musicadas por ais, crescida pelo que a parca informação trazia em forma de boletim. Há quem viva apenas porque sim. Recordam números e apelidos, identificados pelas terras que os pariram, sem patentes agora, apenas o tempo iguala o homem e corta rente os minutos antes que perfaçam a final hora. As cadeiras arrastam-se, o burburinho no ar reúne os sons das armas semi-aut

Queimada

“Queimada”, a crónica de um povo que arde, no Canal N . O pôr-do-sol traz de novo o bailar nocturno dos pirilampos azuis, as intermitências de um socorro enquanto a morte se encosta a um sobreiro recém despido, protegido pelo morno ar que a terra abafa quando cai a vida em trás-os-montes. Colunas de ajuda posicionam-se. A guerra combate-se com a paz. Ei-los, soldados, negros, cinzentos, alvos voluntários. A mão aflita da mãe sobre o ombro do filho ao toque da sirene, “não vás”. Atrás de cada elevação um novo ocaso. A noite caiu há muito, com ela o peso abafado de um calor que colhemos sem, sequer, o termos plantado. A culpa é dos que manietam, mas nada há a fazer além de desenrolar mangueiras, encher baldes e garrafões, erguer em riste as enxadas, ancinhos e pás. Exaurido, o povo apenas quer paz. Não é rubor de um astro que mergulha feliz no firmamento e deixa, inconsequente, um povo no seu lamento. É o fogo que ruge como fera ronronante ao sabor das presas que tombam.   A torga queima

Paz

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“Paz”, a minha Crónica do Nada no Correio do Porto e que também pode ser lida clicando aqui . A manhã vai cedo ainda, tal como estas linhas. Temo não me chegar diuturnidade, nem vida, para poder esculpir todas as palavras que me brotam do granítico silêncio a que me voto. Estacionado contra a mão na margem esquerda do Douro, quase consigo ouvir Egas Moniz a gritar ao catraio Afonso Henriques “não vás por aí, ainda resvalas e lá se vai a nação” e de seguida no desabafo “a criançada não tem noção”. Apenas um pai tem o condão de telefonar e, timidamente, rematar “só se puderes, eu compreendo, não te sintas na obrigação, não te prendas por mim”. Nada mais nos ata à vida como o amor de quem telefona e liberta com um “tens a tua vida”. Claro que tenho. E a minha vida é Tua. Absorto, vejo ao longe no litoral uma neblina cinzenta assemelhada a um lençol puído. Peço silenciosamente ao Artesão destas paisagens, para o estender até o interior e abafar os jorros de fogo e como transformam o mundo

Término

"Término"  ou o prenúncio dum fim de caminhada. Crónica no Canal N. Ligação aqui . Não é necessário transpor montanhas para nos encontrarmos por trás dos montes. A cada passada podemos galgar socalcos que, mesmo atrás de uma curva que o destino colocou no caminho, nos transportam para lá daquilo que pensamos já não encontrar. Como um casal de velhotes, à sombra tórrida de um coberto de zinco, mão na mão, a namorar. A tarde abrasadora chama incendiário ao Verão, no eucaliptal duvidoso a certeza de um madraço de isqueiro na mão. O fumo negro traz tonalidades de Inverno, caem folhas queimadas, secas, quebradas, negras. A comunicação social não é por aqui bajulada. Toca música clássica. – Olhe, eu nem tocar castanholas! Mas que a música é bonita, lá isso é! – diz-me o velhote, enquanto abana a perna cruzada sobre o joelho e a esposa, sorridente – Não chateies os senhores que vieram trabalhar. – repreende-o, piscando-me um olho que brilha do fundo de uma órbita bastante enrugada.

De partida

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 “De partida”, mais uma crónica do Nada, no Correio do Porto ( aqui ). Creio nunca termos sabido de antemão a hora certa de um comboio que chega adiantado. Terá sido assim, também, na chegada à vida. Ou na morte aquando da partida. Ainda não me desabituei de estacionar o carro, dar uma olhadela para a esquerda e acenar ao Sr. José (Francês, que é como o conhecia, talvez para o diferenciar de entre a miríade de emigrantes, retornados ou pré-retornados, de férias ou francofonamente estabelecidos). Ele olhava-me sobre o jornal, baixava o jornal e acenava e, de vez em quando, lá saía um sorriso. Quando as casas se enchem de visitas temos baixas as guaritas. Se não for pelo aniversário, pelo velório será. Foi assim há mais de meia dúzia de meses. Embora não se estranhe a arrivée e a sortie das matrículas francesas em épocas de Natal e Ano Novo, a permanência além destes períodos traz consigo um cunho maior que a mera visita. Era a doença que tinha vindo. E ficado. Não sei ao certo a data de