Matizes
"Matizes", a mais recente crónica no Correio do Porto: https://www.correiodoporto.pt/prioritario/matizes . A luz opaca e despreparada iluminava a sombra projectada pelo vulto sentado à mesa circular. A solidão teve sempre o condão de marcar presença junto de quem se despede, em vida, do que já partiu, mas ainda se senta, em espectro, velando o luto de si mesmo. A música repetitiva, cansativa, propositadamente hipnótica, guia os ávidos consumidores do desnecessário. Um dia que tudo falte, não sobrará nada para comprar e aí o que será do excesso? Estas questões não perturbam a sexagenária, sentada com a cabeça apoiada na mão, o cotovelo na mesa, um candeeiro de escuridão ilumina o horizonte estarrecido de uma existência que não se sabe infinita e procura, nos outros, a continuidade de si mesma. Talvez pelo aproximar da idade, a morte vai rondando aqueles que em criança conheci sendo já velhos. Quando dei por mim, o café já estava frio. Sorvi-o e guardei o pacote de açúcar que ...