2019-03-07

À sombra da fé

À sombra da fé, a crónica do nada, para ler no Correio do Porto.

O Sol, ainda que não a pique, cauteriza a tarde esvaída e o meu impreparado caminhar até onde quer que o destino me leve permite-me ver, abrigado pelo muro de pedras irregulares no regular poligonal erigido à força de mãos que, há muito, o pó não provou, a sibilar certeza do quanto infrutífero é o respirar apenas para satisfação da hematose.
À sombra do nicho mariano, onde Nossa Senhora se encosta por vezes um vulto negro descansa. Ei-lo negro, não da tradicional matizada maldade, mas porque o caminho desde a estação é-o subindo, andando e, nestes dias, arfando, pelo cansaço de caminhada e jornada, agora sem boleia, nem marido.
Para trás o comboio, que em verdade o diga vai já lá à frente, silvando, o saco de plástico prenhe de compras feitas de palma da mão aberta na contagem dos cêntimos, centenas deles, esbate-se no empedrado chão, prenhe, exibindo à giza de um busto envergonhado o pacote de bolacha maria, dourada, com que, aqui imagino eu, à lareira se saciará enquanto o feminino negro enlutado se balança no banco feito de cepo de eucalipto, já rachado pelo gume afiado do tempo.
Vai aquecendo a tarde. O muro sacode-me dali para fora, as folhas espessas do limoeiro zurzem atrás de mim e a imaginação, filha única da solidão, envia-me de volta ao meu caminho, sozinho, olhando para trás o que na esquina da fé se sacia, a doce harmoniosa fluência do dia para que depressa chegue a noite, de inverno, bem longe deste calor de inferno.
A viuvez carrega-se de solidão, cegos que estamos vemo-nos pouco do lado de lá, mau grado para quem parte, saciado, descansado, sem conseguir estender para o lado de cá mais do que um esbaforido sentimento, um arrepio inusitado que nos assalta sem nada do nosso lado. Respondendo à carta emocionada toscamente escrevinhada por entre erros linguísticos, sem grandes subterfúgios gramaticais, o marido já sacudido da vida terrestre (e pesada) sentou-se ao lado dela, ali à sombra da fé, com a mão de vento na sua fronte afastando um grisalho cabelo pendido, perdido, permitindo que a proximidade da distância dimensional se esfume por entre o suor e a saudade de quem não vê a eternidade.
Ela, mulher sempre, viúva recente, preparada que estava e na ausência de transeuntes ou crentes que ali fosse depositar a fé, nas costas do talão da mercearia começou a escrever a meio sorriso, “Senhor meu Deus, criador do céu e da terra, tu todo poderoso e sempre eterno santo, pai de todos nós, leva por favor estas palavras ao meu marido. Meu amor querido, faz hoje um ano desde que partiste e eu, aqui, nesta tarde quente, sinto tanta falta tua que peço a Deus todo poderoso, me leve para teu encontro, onde possa sentir novamente o teu amor”. Findas as palavras pelo talão ser curto, ergueu-se e no incensário onde muitos colocavam velas coloridas, deixou arder o papel e as palavras, que ascenderam até onde a vista pode saborear. A seu lado, o marido etéreo sorria, havia algum tempo que o sabia.
Hoje à noite, à lareira, o cepo cairá para o lado oposto onde tombará o pacote das bolachas maria, o peso do luto erguerá ao céu o reencontro da saudade com a alegria.


2019-02-13

Sempre

“Sempre” a crónica do Nada, no Correio do Porto.

Pouca importância nutre aquilo que nos alimenta, seja o floculado céu invernal, que assombra o horizonte com os fantasmas vestidos de cinzento ou qualquer que seja a cor que nos amedronta, o sonho e a vida.
Quando a chuva nada mais faz que nos atirar, humidamente, as espessas gotas de água contra o para-brisas, paramos ainda que nos movamos um pouco sem rumo, que é a forma como se desloca quem não sabe para onde ir.
Há uma infinitude de caminhos onde nos podemos escrever, desde o carteiro à chuva, entregando cartas por entre as espessas bolbosas gotas de chuva na viseira do capacete, ou as gotas que mecanicamente se repercutem nas poças do chão, as mesmas que aspergem saudade do rio que corre ali abaixo do armazém onde colhi parafusos de cacofonias milimétricas que nem sabia existirem. Hoje nada mais sobra além de mim e dos meus medos, enquanto as tuas mãos finas caem nos seixos rombudos e colorem o cinzento prosaico com que me pinto, tudo envolto em labirínticos domingos por onde escorre a etilizada sobriedade, ou sombria idade, sem me saber eterno, quando me esqueço do fraterno, almejando nada mais que o lampejo do farol a pender sobre o mar, em ilhas de arcanjos, comp quem se procure estrela num céu universal ainda não metamorfoseado pelos perscrutadores olhares de uma criança, inocente, presa ao feixe de uma lanterna nocturna, incandescente.
Até hoje, nada me acompanha melhor que a saudade, a mesma que escorre no inverno dos brotos graníticos da aldeia que sonha em ser cidade. Deus nos livre, tal sina, eu como aluno que a mim mesmo ensina, sem me caber, sobriamente etilizado, construo ao redor da imensidão uma espécie de tição, aquela madeixa dourada sobre os campos que nunca colhi por não me saber semear ou as crónicas onde me prostro e solicito ajuda, porque embora me digam que a quem muda Deus ajuda, nunca me sabendo sólido me procuro molecularmente nas órbitas onde nunca me excitei electronicamente sucumbindo, anião ou catião, quem me soube eu longe de mim, gigante, anão, sem caber nas milimétricas fronteiras de um arquivo digital em catatónica crónica.
Agora que as folhas permanecem simples, ordeiras, ao lado deste digital balbuciar do que escondo, remato as linhas com a linha que me soube urdir, a mesma que me lanças, Deus, sem saber fugir porque me procuro nas faces de quem nunca soube existir e na existência conjugada de uma realidade que me foge, a cada dia, de um sucumbido latejar do lado esquerdo do peito, a felicidade, a feliz, idade, onde me sei não existir ontem, hoje, sempre e, talvez por isso, me lamente, escondido por detrás da granítica expressividade na esperança que me saibam ler. Ah, como me saberia bem estender as folhas alvas e sem qualquer expressividade gramatical me deixar soletrar, pé ante pé, sem garatujar o verborreico gramatical, até a próxima linha ser a minha mais recente crónica.


2018-12-24

Natal ou se Deus assim me quiser

Crónica do Nada, sobre o "Natal ou se Deus assim me quiser", para ler no Correio do Porto, aqui.

A porta do bar do móvel da sala abre-se, o cheiro característico emana e preenche-me o horizonte das memórias. O Natal podia ser apenas isto, abrir a porta com as suas quadrículas envidraçadas, deixando ver os pequenos panos rendados e bordados que pendem das prateleiras onde velhas tachas enferrujadas sustêm o tempo. Mas mais do que o tilintar dos copos ou da velha garrafa de rótulo personalizado, onde se degusta o valor que a mesma custou, o rendado branco apazigua-me o que me habita. Fecho a porta do bar, a televisão lamuria-se das notícias trágicas, entre uma ou outra golfada comenta-se o destino. Eis o meu desatino.
O domingo, tal como a vida, segue o seu curso. Caminho na tarde curta ao encontro de um Sol tímido, espreitando, ele e eu, por entre as nuvens cinzentamente coloridas, hoje mais espartanas abrindo caminho ao frio que se precipita. Afinal é Natal e traz-me consigo o futuro que me habita.
Em épocas, seria suficiente o olhar inocente do jardineiro municipal que, para se abrigar da chuva, sentava-se na cabine telefónica desprovida de telefone, desembrulhava o lanche da manhã enquanto com um pé balançava o carrinho, como que embalando carinhosamente as folhas que esgravatando apanhara do chão.
Em épocas, seria suficiente o olhar sorridente do amigo que, ruidosamente, ainda que sem intencionalidade, parava o tractor verde, velho, para dar boleia ao amigo que se desloca a pé no empedrado irregular da rua que me viu pedalar imaginando-me um herói da esquadrilha. E o amigo, entre o apertar de mão em cumprimento e o puxar de mão para apeamento, pendura a moca do guarda-chuva na gola da camisa desbotada.
Em épocas, seria suficiente o olhar compassivo, mas hoje, porque estás quase a nascer, cabe-me apenas a conversa com o viticultor amador, porque ama nas palavras e gestos com que poda as vides verdes e despidas, de onde pendem os cachos que o calor abrasou e secou, a esperança no futuro se deus assim quiser, amarrando as fiteiras e prendendo a despenteada e desregrada videira para que o tempo não a pode, usando termos que desconheço, pois parei apenas para que a viuvez não o deixe sozinho na negritude de uma veste invisível e a horta, o recreio animado de quem à terra se aporta, traga frutos que florem em mim e que nunca vi, quando ao fechar o vidro do carro o ouço clamar “tudo de bom para ti!”.
Nesta época, talvez me torne pessoa, melhor, ou torga, se deus assim me quiser e puder, ocupado que está agora, pois estás quase a nascer.



2018-12-23

Recebe-o. é tudo o que tenho

“Recebe-o. é tudo o que tenho”, crónica na Bird Magazine, para ler aqui.

Obrigo-me a desligar o rádio, o silêncio súbito orvalha a noite e ascende à abóbada escura que encima o horizonte. Quanto mais o circense barulho me veste no dia, mais a noite se acomete ao meu regaço, passando-me a mão pelo ombro e convidando-me a erguer o meu zénite. A estrada e seus afluentes, os quais rapidamente perscruto enquanto conduzo, descoloriram-me a íris. Por entre um outro minuto, uma saca de dióspiros coroa a tarde na sua indumentária real e um desejo sincero de felizes festas traduz ainda o que sobra da natividade. O desenfreado galopar movendo pernas apressadas, aprisionadas, percorrem galerias que vendem tudo o que não preciso. Talvez por tudo não querer, tudo me saiba a ter o nada que tanta falta me faz, a inexistente alva veste, cujos padrões coloro com dedos finos, rechonchudos, gretados e infantis, que já não possuo. Aguardo as vésperas da véspera do Teu aniversário. Tal como criança, olhando o estrelado horizonte ascendido, quando te cantava os parabéns e sorria com o fumo singelo que via sair das chaminés que pareciam nublar a noite para te aquecer na manjedoura, onde quer que estivesses. (agora a sério, onde estás?) Como ficava surpreendido quando conseguias fazer passar pela estreita chaminé a lanterna que timidamente pedira aos meus pais e colocaras dentro da minha bota ortopédica. Sempre pensei que ma desses porque gostavas da simbiose: quando não chovia eu vinha cá fora, com a lanterna em punho, fazer-te sinais de luz (obrigado pela tua). Sorrio, agora, talvez como antes. A inocência alavanca o eixo que nos permite, com uma certa incolumidade, permanecer por aqui mais umas rondas ao astro. 
Com o rádio desligado, a porta do carro aberta, o orvalho a marear-me a cabeça capilarmente desprovida, as gotículas de saudade das memórias que me constroem encontraram pouso calmo. Volto a atenção para este mundo e vejo outra porta metálica semi-aberta, o cheiro a madeira lixada, o pousar de um grampo metálico no chão, a solenidade de um pai, qualquer um, mesmo sendo mãe, na missão de construir presentes que serão entregues em forma de escrivaninha, comprada no esforço prestacional de uma taxa de juro que, juro, vale por ser apalavrada com um rectangular pedaço de cartão e um firme aperto de mão. Talvez pelo frio, arrepia-se a mim a saudade do nada, quando sem faustas luzes, mas em cintilo superior, cá dentro e no exterior, galgava os degraus depois de fechada a porta da carrinha, sacudia as mãos de serrim nas calças, olhava feliz (sem que o soubesse) para o lado e seguíamos a entregar móveis, a receber sorrisos, sacas de tronchudas, um ou outro nabo, a pequena moeda desprovida de valor por me ser dada com amor, a garrafa de Velhotes e o despreparado travo, tudo cabendo num colorido cabaz de sortes. O sortido viria depois, o sobejo do aniversário, as pratas coloridas libertas da tarefa de envolver as raras baunilhas envolviam pinhas e enfeitavam o presépio sobre musgo erigido. Não me sobram pratas, ao contrário das memórias que me vestem, tento amortalhar tudo no tamanho de uma folha de papel, em forma de crónica de uma vida (quantas terei acumulado, já?), mas de crónica apenas a festividade, o acordar lesto no dia o desejo que nunca se apagasse a chama que em mim ardia, este bafejo de uma tarde vespertina, o advento que sopra a quem de si se desatina, uma pérola que nos ofusca sem brilho ou luz, um puto nascido sem nome ou outro, a quem chamam Jesus. 
Acordo-me no tempo, o rádio ainda desligado, a vida que se encosta a mim, de lado. A natividade encima-se de um vazio que preenche e sem nada nas mãos entrega-me tudo o que peço que recebas, é o meu amor, foi-mo também oferecido há tempos, pelo meu criador.

2018-12-16

Feito cão

Eu "feito cão" em Crónica do Nada, no Correio do Porto, aqui.

Há cães feitos gente, reviram lixo. 
Assentes nas patas traseiras, abocanham as sacas de lixo que, ao infalível olfacto deles, lhes parece ter algo de alimentar. 
Não que os cães saibam o que é alimentação, roda dos alimentos, caviar ou bacalhau, fastfood ou food propriamente dita. 
Eles, cães, têm o seu sentido de preservação, que não inclui obviamente desviarem-se de grandes veículos em movimento ou de certas e determinadas pessoas, os desumanos, mas é este sentido de preservação do seu canídeo corpo que lhes faz percorrer distâncias até encontrar um aleatório maná. 
São eles gente, despojada, transportando nos olhos ainda sonhos, seja em forma de roda gigante a abocanhar, seja no símbolo universal do osso, branco, cheiinho de tutano. 
De cabeça baixa, vejo-os mastigar o plástico, a roer cartão da caixa da pizza, e depois imagino-os rindo sorrateiramente, enquanto a noite se espreguiça pelo dia fora, a deitarem-se num local de erva quente ou num buraco de terra que o sol aqueceu. 
Acredito que lhes faça falta uma mão a deslizar pelo pelo, a coçar atrás das orelhas, a acariciar o ventre quando eles, confiança ganha, se viram de patas no ar para nós, como quem diz, aqui está um amigo. 
Há uma certa simpatia, minha, pelos canitos vadios, bem tratados pelo tempo e afagados pela Natureza. 
Alguns imitam bem o homem, matreiros e alcoviteiros, parecem farejar o medo e a ingenuidade e, zás, rasgadela na carne que do barro se fez pessoa. 
O vento serrano açoita o próprio frio e um cão da serra, enjaulado, dorme alheio à avalanche de turistas, a pessoas que, com o dedo por entre as grades, o tentam acordar. 
Deve haver algo em nós, inumanos humanos, que faz de tudo o que não é bípede sem inteligência subespécie, como se todos os que habitam este planeta fossem como eles, nós, desprovidos de sentimento e emoção, sem qualquer direito a andar por aí apenas por andar.
Dentro de momentos, já eu sou cão ou, melhor ainda, faço uma lareira, abrigada do vento, pode ser num buraco de terra que o sol aqueceu, e deito-me no chão, barriga para o ar, feito cão.


2018-12-13

Outono multiplicado

“Outono multiplicado”, mais uma crónica do Nada, no Correio do Porto, aqui.

Av. Marechal Gomes da Costa, Porto, uma cidade num qualquer desígnio Outonal que não nos pende das tonalidades com que estas árvores imponentes (qualquer árvore é imponente, o Homem é apenas indiferente) urdem a paisagem.
Não sei o que me atrai mais, se o brilho oponente e invisível do orgulho com que as árvores ainda seguram algumas das suas folhas, se o desamparado abraço com que umas boas décadas de gente seguram um outro corpo desengonçado, se pelo vício, se por doença, não o sei.
Apenas o seu íntimo, se por um acaso calhar, hoje em dia raro, de o seu, o íntimo, ser coisa transparente e dotada de honestidade, o saberá. Ele e Deus, que tudo sabe (e por isso me apazigua, nesta e em qualquer rua).
Pára uma e outra ambulância, Amarante, Felgueiras e outras proveniências, distantes demais para a proximidade desejada de quem se vê agarrado a uma incapacidade, momentânea ou permanente. Os piscas vão trazendo um pouco de urgência já não urgente, assinalam a brevidade da paragem e colorem, intermitentemente, a tarde que se arrasta languidamente, pressentindo talvez que a quadra Natalícia se aproxima.
De dentro do carro, as gotículas gordas, roliças, sustêm a respiração para escapar à gravidade e multiplicam as cores alaranjadas, obrigando-me a focar o olhar fora do para-brisas.  
A porta lateral da ambulância rubra anima-se e sai em primeiro lugar, parecendo animado de vida, um andarilho, as raízes metálicas, inoxidáveis, de uma árvore de seiva viva em caule morto. 
Ainda não me tinha emocionado, havia de acontecer agora. 
Um Bombeiro, gente dos seus cinquentas, cara austera, sai da ambulância, pousa o andarilho no passeio desnivelado e com um carinho que as ruas da cidade me desabituaram a ver amiúde, alça a perna, a bota militar de um soldado apaziguador calca com veemência o degrau de plástico, entra na ambulância, passa o braço em redor de um peito feminino, abraçando com força a alma de um corpo que não se levanta, içando à vida quem a ela ainda se agarra. 
O resto veio depois, mas eu tinha já ali o meu quociente, dividendo e divisor na equação de dividir a bondade pelas pessoas e, não fosse estar atento ao horizonte, quase passava despercebida a folha que se tinha desprendido dela própria, caindo dentro de mim.



2018-12-09

Podes entrar

"Podes entrar" na Crónica de Domingo na Bird Magazine.

Os domingos colorem-se, na ausência das vicissitudes profissionais, pessoais e existenciais, de vários sonhos que me alimentam desde que, bem, desde que me conheço. 
Podes entrar.
Convido-te a afastares o portão, feito de cordas bamboleantes, que servem apenas para assinalar o local onde começa a privacidade. Construí-o há énios, entre vi(n)das e partidas, como o sítio onde começa a vi(n)da e termina a ausência. 
Vais encontrar um pequeno caminho, aqui e ali com pedras toscas no chão, mas na essência feito com gravilha, cascalho e alguns pedaços de pele de crianças que se atropelam enquanto tentam voar como borboletas. 
Não te sei dizer como vim aqui parar, talvez pelo cansaço e aventura.
És bem vindo(a), traz-te e também os teus sonhos. 
Escolhe um local, escava um caminho, acomoda-te e faz de ti o que sabes ser, não o que te ensinaram, mas o que aprendeste. 
O caminho segue por entre clareiras e para por momentos, tu, não o caminho, debaixo de carvalhos. 
De noite tudo se ilumina, maravilhas da energia solar, mas essencialmente tudo reluz porque é de noite que, fechados os olhos, outros se abrem e vêm o que tudo existe. 
Vais encontrar tudo o que precisas, porque nada cá tens, apenas eu, outros, abraços e responsabilidades. 
Ficas cá enquanto quiseres, enquanto te sentires afim, longe de tudo e perto de todos. 
O teu talento é mais um caminho e uma ponderada conta a saldar, tudo se conquista com esforço e dedicação, em troca de todo o amor que possas receber e, um dia, cansado(a) vais subir aquelas pedras, não essas, aquelas, ali, atrás de tudo, em que as urzes parecem nunca perder a cor de Miguel Torga, e vais sentir-te livre e, quem sabe, talvez também tu ilumines este mundo, estes carvalhos ou, então, te deixes subir num jogo de luzes boreais para onde já moram todos, inclusive a parte de ti que é nada. 
Vais descobrir, lentamente, que a sinceridade tem pingo de suor, que o dia amanhece não pelo sol, mas por ti, que sentes a responsabilidade de seres mais que alguém e te descobres, também. 
Acomoda-te, livre, onde pensas a terra ter o teu nome. 
Escolhe uma árvore, senta-te e descansa, o dia será grande e o país ainda o é maior. 
As ferramentas estão ali no barracão e as tuas ideias, não as que pensas, mas as que trazes no coração, são manejadas por ti, para que onde quer que lavres, nasça um fruto do que melhor sabes.
Aceito inscrições para o local de todos nós. 
Só faltas tu, traz no teu silêncio a tua voz.
Sorri.

2018-11-25

Sulcos

"Sulcos", crónica de Domingo na Bird Magazine, para ler neste link ou aqui.

Caminho nesta tarde cinzenta e húmida de Outono.
Há momentos em que ao invés de calcar as folhas dos plátanos, arrasto os pés e vou deixando dois sulcos, como lentos carris, atrás de mim. Existe em nós algo narcisista, de cunho histórico, a presença que gosta de percorrer caminhos e deixá-los assinalados, como quem afirma:
- Passei aqui.
Algo semelhante ao que encontramos em todos os parques e locais públicos, mais ou menos frequentados, as vulgares frases “Eu estive aqui” ou o usual “Amor para sempre, de Joaquim e Joana”. Os nomes são inventados, não por mim, mas por alguém, eu apenas escolhi dois aleatoriamente e juntei-os naquela pequena frase, cicatrizada tumefactamente na face de uma madeira que já se cresceu árvore.
Falava, ali acima, dos sulcos. Percorri uns metros e olhei para trás, o vento tinha levado já algumas folhas para tapar os sulcos, meus e de outros, há várias manias com os mesmos malucos. Senti empatia com o vento, teria pena, mas do vento que se liberta até da própria liberdade nada se tem além de empatia, simpatia e apatia quando eles nos silencia a fala entreposto entre dois olhares. Quando passou por mim novamente agarrei-o por um braço, levava a cabeça baixa e ofegava. Passei-lhe o braço pelo ombro e fui com ele, devagar, deitar e acamar as folhas que eu próprio tinha levantado.
O trabalho em equipa é mais lento, mas bem mais produtivo.
Acabei, parámos os dois ao mesmo tempo, a última folha foi colocada por nós ambos simultaneamente. Olhámos um para o outro e sorrimos, ele seguiu o caminho dele e eu, enquanto o via disparar em direcção ao horizonte, segui o meu caminho a pensar que é provável ser mais fácil, digo eu, pararmos um pouco, erguermos os pés e voltarmos atrás, cravando-os na terra e arrastando-os, escrevendo cicatrizes na vida, parar e voltar, ir e viver, nesta ou noutra vida, percorrer os mesmos sulcos, e lá, no início, onde calcámos a vida, ou alguém, talvez nós mesmos, mirar o local e dizer:
- Desculpa.
Facilitaríamos o trabalho ao vento.
E à vida.
Pensava nas folhas, nos sulcos, nos caminhos percorridos, nos que sulcam caminhos e só vêem os seus mesmos passos, onde passam tanto tempo contemplando o caminho que nem o sabem percorrer, os que pensam que caminhos não existem que não os que os seus próprios pés calcaram e que nos dizem:
- Não vás por aí.
O súbito esmaecer da luz diz-me que devo acordar, o carro da frente já arrancou e eu, que gosto dos meus caminhos com neblina, por vezes apenas no embaciado da retina, faço o mesmo, piso a embraiagem, engreno a primeira velocidade, levanto o pé levemente e arranco.
Já não tenho tempo de rever o meu pensamento impresso.
Chego a casa.
Deito-me, fecho os olhos, levanto o meu outro eu levemente e arranco, para lá da vida.

2018-11-22

Golo!

"Golo!", mais uma Crónica do Nada no Correio do Porto, para ler aqui.

Valorizo imensamente as conquistas do dia-a-dia, as coisas complexamente simples, como a pessoa que, à minha frente, para comprar uma sande-almoço vai olhando o preçário e as moedas que tem espalhadas na mão como uma constelação de estrelas baças refletindo a escassez, contando e escolhendo a sande-almoço à medida da carteira e não à medida da fome e da sua necessidade. Recordo outra vitória quotidiana que a vida me fez o favor de embrulhar e trazer na maré do horizonte abaixo do meu olhar, o mar salgado por onde entram as histórias não naufragadas.
Há vários anos – pelas escolas primárias verdadeiras e térreas, brancas, espalhadas pelo país como ovelhas tresmalhadas nos prados, pastoreadas por nómadas professoras, antes de ordinais ciclos – enquanto trabalhava num projecto que me fez caiar a vida e o corpo no calor ameno de uma salamandra na sala de aula, onde se aqueciam botas, casacos molhados e leites achocolatados – conheci e estive com centenas de crianças de meios supostamente desfavorecidos, alinhados etariamente entre seis e dez anos.
Na escola, depois de estar com os alunos de duas turmas do quarto ano, a professora de apoio veio pedir-me se eu estava um pouco com um aluno NEE – sigla pomposa e urdida certamente em encíclicas educativas onde se discute o que fazer aos que se tresmalham, mas nem assim, infelizmente na maioria, abria as portas da ajuda, da compreensão e educação. Felizmente, o carinho era assegurado independentemente da sigla com que se baptizam e catalogam as diferenças. Assim fiz, a professora chamou-o e ele, timidamente, espreitou à porta e perguntou:
– Posso entrar? – o aspecto da sala não seria dos melhores, pequena, mas acolhedora, uma arrecadação transformada (com bastante gosto e cuidado) em biblioteca, um ligeiro travo a mofo.
– Sim. – Respondi, e ele atravessou a porta, sorriso permanente, diferente, movia-se coxeando, bamboleando, uma dança desconexa nalgum tipo de deficiência física que, sinceramente, não sei o nome. Convidei-o a sentar-se e ela fê-lo caindo e sorrindo sobre a cadeira. Comigo a entremear perguntas, ele, a medo, mexia no rato e via animado o cursor mover-se no monitor, não olhando para mim enquanto eu tentava criar um ambiente mais relaxado e que me permitisse encontrar pontos de interesse, até que, na sofreguidão padronizada de adulto perguntei o que gostaria de fazer quando fosse maior. Ele parou, olhou-me e naquele corpo franzino e retorcido, do meio daquela cara miúda sorridente, com olhos cansados, disse-me:
– Quero ser jogador de futebol! – Desarmou-me, fintou-me e pontapeou-me aquela manhã de uma vida distante. O que dizer? Não poderia, nunca, à luz de uma razão crescida dizer que não o conseguiria e, até hoje, permaneço sem resposta dada e recordo a humildade, o olhar, o sonho naqueles olhos a brilhar.
Sem bater na barra, rematando com assertividade própria de quem ama a existência independentemente da fisicalidade que nos traz o mundo pelos relvados que sonhamos pisar.
Foi o melhor golo que vi na vida.




2018-11-11

Pluviis

“Pluviis”, a crónica de Domingo, na Bird Magazine.

Reinvento a chuva. Hoje traz-me a memória do abraço, a ombreira da porta, os pingos que se volatizam quando em contacto com o corpo de um outro ser. A chuva, sempre a chuva, eu, sempre eu.
O apagado semáforo que teima em sair do tricolor destino, a rua fechada e um trabalhador abrigado sobre as memórias de dias mais coloridos. Olhos semicerrados, as gotículas aquosas de uma quimicidade que não se saber ser água. As costas encostadas ao húmido vestuário, um autocarro que passa prenhe de passageiros conduzidos pelo destino. O destino, sempre o destino.
Sem que me deite ou levante, vou colidindo com os dias que teimam em chover. Um fio depois do outro, tal como os dias, um quadrado congruente com o ecrã onde são projectadas as imagens que desejam que conheçamos. Fútil, assim chamo à mediocridade de carácter, plausível de construir dias e eras de escravidão. Por isso, vou levando a vida empurrando este carrinho de mão, onde transporto argamassa, tijolos e pequenos instrumentos que me permitam construir um quotidiano sem fronteiras, um muro invisível, um recanto semi-sofrível onde se possam abandonar as camisas lavadas e deixar apodrecer a um canto, na esperança que as fungicidades brotem, as acritudes amargas de quem se mede pelo modelo sem se aperceber que o modelo vai nu. Oh, tu, que nos carregas em braços, desde quando a vida te passou a ser disciplina de curto curso curtido em papirescos tecidos de um ténue entrelaçado que são as tuas mãos unidas em oração? Que pedes mais, meu pobre, além de um pouco de pão? Que pedes mais? Quem te ouça, cansado de te ouvir, saberá que tua fome vem de dentro, apercebida que está da insaciedade do ser, esse, que nunca nasceu, vê-se agora a morrer.
Descansa assim em paz, caro companheiro de viagem, dispo-me de ti, para me vestir em tons de barro e argila, não voltarei ao pó, que se desvanece e transforma em vácuo, mas pernoitarei na companhia de mim mesmo, o que sonha e não adormece, porque mesmo no frio o que sou me aquece.
E tu, quem de ramos se brota e embrutece. Saberás classificar o final do dia em meia dúzia de horas, quando o que se amanhece manhã adentro tem restos ainda de ontens e agoras?
Vai, volitai, entre uns quantos uis, um ai, bastará, verás, para te saboreares a cada nota que chova e colida contigo, de mim, tua pluviosidade, teu amigo.
Hoje chove, por mim, pelo caderno virtual que abro no deserto com vista para o nada, e por breves momentos, entre água e nevoeiro, juro ter visto um relâmpago e o troar de um trovão que parece chamar por mim. Trovadora, a Natureza canta-me ao ouvido o sussurro de um abrigo sob duas grandes pedras encavalitadas num equilíbrio eterno, assim adormeço.
No dia que acordei, pouco sobrava da chuva que se escondeu atrás da porta que dá para o mundo.
Dormito para sonhar baixinho com todos os recantos que a vida se encarrega de aconchegar no interior de cada um de nós. Fico com a respiração suspensa porque atrás de um vocábulo vem sempre a frase que ficou por dizer. E eu não digo, nem respiro.

2018-11-06

Anagramas

Anagramas”, Crónica do Nada no Correio do Porto.

São 23:32 e a capicua, o frio, o regresso a casa depois de vários passos pelo frio, junto com o barulho abafado do açúcar a cair na cevada traz-me a súmula de dias que, idos, de mim paridos, fazem-me sentir mais velho, acumulado no final de uma labuta que, quase nos finados, me relembra que quem apazigua não se pode dar à luta.
Distraidamente, o céu permitiu-se a um momento de apaziguamento, quando se despregava o Sol pela parede do firmamento e o céu adquiria uma tonalidade rasgada em cor-de-laranja do lado do litoral e, lá para bandas dos montes e deles detrás, já noite, uma Lua grande, cheia, requeijada, com estrelas a cintilarem.
Estes momentos, aliás, todos os momentos, mesmos os mais petrificados na eternidade passam rápido, amanhã o Sol fará o mesmo trajecto e eu, com os pés noutros solos, a solo, a cabeça, a soldo, no mesmo sítio, onde as nuvens são sorrisos claros, límpidos e puros, impolutos e eternos porque não existem, o mesmo que alguns poetas chamam de sonhos.
A vantagem das aldeias, e talvez do mundo, é que para onde quer que vá encontro pessoas conhecidas. Um amigo de infância parou na estrada quando eu caminhava, a meu lado, baixou o vidro e perguntou-me se queria boleia. Ri-me. Recusei o convite apesar do embaciado vidro fazer prever que lá dentro estaria bem mais quente, disse que estava a caminhar para a barriga, rimo-nos.
O grupo folclórico ensaiava e o frio espesso transportava por centenas de metros, no ar, ao desafio, por entre a neblina que se começava a acumular no ribeiro, os cantares a serem ensaiados para que, entre socos e viras, no dia da colecta de aplausos tudo saia um brinco.
A noite adquiriu outro colorido, na velha escola primária a banda de música solfeja e golpeia frequências de diferentes naipes, tão sublimemente ritmados que até os meus passos na noite sulcavam mar, calados.
A casa aproximava-se num instante, comigo a procurar os poucos locais com terra para caminhar, de forma a fugir àqueles pedregulhos disformes que compõe o piso e me descompõe as costas, quando o encontrei no monte, vagueando por entre os agora raros pinheiros, calcando a caruma, folhas e ramos que ficaram da última limpeza e não foram, ainda queimados.
Fui atrás dele, enterrei-me nesta manta morta, molhada, chamei-o
– Ei!
Perguntou-me se os sonhos andavam longe e eu, que já os vi vagos e difusos, menti e disse
– Não, estão perto – e voltou as costas, correndo contente, desaparecendo do meu olhar semicerrado pelo frio que começa a apertar. Felizmente estou quase a chegar.
Nem todos escolhem o caminho, há alguns que o próprio caminho escolhe, tal como os rios nesta viagem pelos empedrados da vida, vendo quem se preocupe com o barco, enquanto outros se preocupam com a maré.




2018-10-28

Pessoas com gente no olhar

Pessoas com gente no olhar, a crónica de Domingo, na Bird Magazine.

Há pessoas que transportam no olhar aquilo que são. 

Levam gente delas mesmas, sonhos e cansaços que almejam subir a um patamar que vai aquém daquilo que os olhos vislumbram.

Não há local onde passe que não me pertença e ao qual eu pertenço.

A vegetação. As pessoas. Tudo, assemelha-se a um respirar, a inspiração e expiração do que me habita e permite afirmar, ainda que inocentemente: estou em casa.

O vento, amigo de há longos anos, tem-me levado para locais onde posso observar um pouco mais, onde posso fechar os olhos e ver a paisagem, as gentes, os sons dos grilos, a água fria e límpida, as sombras dos pinheiros retorcidos pelo vento da montanha e a montanha dentro de mim cujo cume nunca atingi(rei).

Cogito sobre as pessoas que passam por mim na estrada, paradas, em movimento, o seu dia-a-dia é de facto um quotidiano, um dia de cada vez.

O domingo da missa pela manhã, outra qualquer diuturnidade que somamos sem que saibamos auferir o que não vence, porque o valor com que me pagam vale pouco do que me comprar, retomando, o chegar a casa comer uma bucha e depois sair para o campo ainda que as raízes nos queiram no recobro da existência.

O meu fascínio pelo aperto de mão fica fortalecido quando a minha mão encontra mãos de gente de labuta – de apaziguadora luta contra o inimigo ignorante que golpeia as vestes com medo de se despir do que não é – gente do campo, do Campo, mãos retorcidas como cepas, caras curtidas pelo Sol que vale 30 € por um dia de trabalho no Douro ou noutro património não unesquificado.

A bucha a meio da manhã é composta por uma chávena de café, um bocado de boroa caseira com um par de dias na côdea e um naco de bicho morto, nascido para morrer na força da idade, para que a fraqueza esfomeada dele se possa conspurcar, tudo se aproveita.

A mão segura um pedaço de carne gorda, a sola, o couro ainda com pelos que resistiram ao chamusco com os pedaços de palha, quase nem dá para cortar com os dentes, chupa-se enquanto se tritura aquele pão dourado e pelo meio, entre duas mastigadelas na alimentícia, o transístor roufenho toca uma música para alguém do lado de lá da coluna telefunken, um golfada de tosse desentope a via faladora, atira-me uns perdigotos sem moléstias, e sobre a cantoria a serenata dos ricos pobres ecoa:
- Há-de ser o que Deus quiser.


Tento recortar toda a paisagem e guardá-la no olhar, para mais tarde contar-te o que vejo.
Vou fotografando tudo com o olhar, falo baixinho como se estivesses lá, vou empurrando os sonhos para todo o corpo e, muitas das vezes, tenho até que tirar os meus sonhos do coração, para caberem lá outros sonhos, que não os meus. Quando, mais tarde, menos cedo, chego a casa fecho os olhos. As imagens que me rodeiam surgem à minha frente, vou distribuindo os sonhos por ti, enquanto fico à espera que outros sonhos surjam junto a mim e subam, saltando de lágrima em lágrima, para dentro do meu coração, outra vez.

2018-10-14

Vai tocar para dentro!

Vai tocar para dentro!”, crónica de Domingo na Bird Magazine.

O ano lectivo começou há semanas e continua a surpreender-me pela facilidade com que me transporta para algumas órbitas atrás, quando o cosmos parecia menos caótico e as pessoas bebiam do quotidiano apenas pela necessária sede. Ao ver putos espalharem com desprezo os materiais sobre a superfície de madeira, remeto-me para os corredores superpovoados de crianças ávidas e embriagadas pela oferta. Nesta miscigenada cascata de futilidades e porque as minhas mãos se transportam vazias, para que abracem quando assim tiver que ser, deixo descair o corpo para que me embale a memória e me transporte para os primeiros dias de escola, quando aprendíamos sem saber e o recreio dividia o protagonismo com o Universo, qual deles senhor do melhor e mais vasto horizonte. Quando a brisa acima do umbigo trazia também o entardecer arrefecido do início de Setembro, assinalava-se o sinal inequívoco que as férias ficavam agora a estagiar nas aparas de madeira, nas curvas moldadas pela áspera superfície da lixa grão sessenta, no anoitecer ameno sobre os degraus avermelhados das traseiras da casa dos meus pais, o paraíso voltado, votado, ao silvado que se fazia refúgio de ruídos nocturnos cujos protagonistas nunca soube descodificar e que, por isso, permanecem até hoje baptizados de bichos, assim me perdoe Mestre Torga.
As prateleiras da loja traziam com maior ou menor vistosidade material como canetas, cadernos, lisos ou com padrões que me habituei a associar a latas de bolachas de manteiga, tão boas, tão raras. As capas (agora dossiers) traziam de quando em vez um motivo e eu, na minha feliz indecisão, nunca soube qual o melhor para me suster as grafiadas desenvolturas das matérias para as quais não via utilidade (era jovem, inocente, ignorante e, por isso, puro). Pouca importância teria a decoração da capa ou do caderno, dali a semanas começaria a colar uns autocolantes trocados no recreio, uns desenhos abstratos porque não sei ser objectivo na minha subjectividade e nomes escondidos entre nomes rabiscados tão voláteis eram paixões de criança.
Vejo-me, hoje, na montra da papelaria, sem me reconhecer ao reflexo porque me procuro na estatura própria dos petizes. Vejo os lápis na sua feliz existência preta e amarela, coloridos. As canetas de uma só cor e tampas multi-colores que anunciam o traço fino e sucessivo das linhas paralelas tricolores, azul, vermelho, preto, o porta-lápis com fecho magnético e espaço para arrumar o que nunca consegui conter, entre lápis, canetas e borrachas vermelhas e azuis. Na felicidade da pobreza, nunca houve espaço para comprar o não necessário, o cheiro inaltera-se, e se ainda resistia aquela pueril ânsia de novas coisas, tudo se dissiparia quando o medo do novo no dia ansioso a raiar o primeiro toque de entrada, as mães de braços cruzados no suster da emoção ao seio, as lágrimas bolideiras a orvalharem a manhã, sem sequer avistarem, ainda, os intervalos, as mães no transporte à vez da seira com o almoço embrulhado em jornais e cobertores, como se a comida lhe viesse embalada direta do coração. Pauso-me. Respiro-me.
Começo a não caber nas minhas próprias palavras e memórias agora que moro no silêncio.
Por entre cansaço e indagação filosófica deixo que, como em criança, o fim do dia venha ter comigo, pouse a mão no meu ombro, espreite para a digitalidade e, sorrindo, deixe-me adormecer à luz do candeeiro da cabeceira dos meus pais, sobre os deveres, cálculos aprendidos nas frases repetidas, variações de sonhos e algumas lágrimas iteradas.
Hoje, desaprendendo-me, faço do desconhecido caminho por onde indo nunca tinha ido.

2018-10-07

The answer is blowing in the wind

The answer is blowing in the wind”, Crónica do Nada no Correio do Porto.

O dia amanhece alvoraçado, não insistisse o Sol em nascer a este donde estou, diria que o crepúsculo se fazia anunciar pelas nuvens negras de fuligem. Vai quente Outubro e certamente algum provérbio popular terá resposta ao amordaçado bafio que se encosta a mim numa lânguida provocação.
De costas para mim, para o perigo diria, também, trajando verde tropa, uma espécie de soldado apetrechado no ofício de desimpedir a golpes de fios grossos de plástico, uma catanada aqui, uma cavadela ali, o soprador encostado esbaforido à borda onde o penedo se protubera na mimificação expressiva e clássica de quem afaga a barriga, camisa aberta, o baraço ardente a pender dos lábios encarnados e encardidos de cieiro e cerveja seca.
Desligo o carro, a manhã de sábado, fresca ainda, espera por mim como eu espero pelo regresso resplandecente da minha ignorância infantil de pensar que o céu nocturno é um esburacado lençol a tapar o paraíso, por ondem passam as luzes a que, erradamente, chamamos estrelas. À minha frente, num movimento similar a uma dança coreografa na perfeição, porque dançada sozinha, da direita para e esquerda, volvendo, da esquerda para a direita, o homem com os sonhos silenciados pelos auscultadores laranjas e abafados pelo capacete de viseira enredada em si mesma, vai torneando e esculpindo a estrada pelo lixo, levando consigo restos de erva, restolhos de vidas que se vão escapando ao alcatrão, paralelos, escarpas graníticas dos montes de Penafiel, copos de plástico, garrafas de cerveja, e outros dejetos expurgados da devassa aptidão do Homem em ser-se ralé e tentar fazer raízes assim mesmo.
Quando pausa por momentos a máquina, este moderno cantoneiro olha para trás e vê-me, parado, vidro aberto, o braço pendurado na janela do condutor. Ergo a mão em cumprimento e meço o comprimento de mim a ele, o sorriso tímido e envergonhado por não ter ouvido, pede-me desculpa, recolhe a máquina, mede os passos até ao início do resvalo e manda-me prosseguir. Ligo o carro, destravo-o e sigo lentamente, silencio o rádio, a música que brota deste silêncio matinal, maior agora sem o rugir da traquineta, é-me o essencial para deixar-me seguir até ele, levantar o braço e estender-lhe a mão. Retira a luva e a transpirada mão encontra-se com a minha, este aperto firme escora o que separa a matéria do que somos daquela que nunca seremos, a essencialidade simples de se ser simplesmente essencial. O diálogo terminou rápido, outra viatura surge de frente e a estreita estrada obriga a atenção e cruzamento medido com os espelhos recolhidos. Depois de rápida troca de via, endireito o espelho e olho para trás, ele, ancorado ao aparelhómetro que facilita a tarefa sobremaneira, ergue a mão, o cigarro ao canto da boca despedaça-se em cinza, as palavras ficaram-lhe também presas no pigarro, da mesma forma que as minhas se escondem por detrás do silêncio que me fala.
Engreno a primeira velocidade, o desnível facilita o arranque, vou seguindo em frente olhando pelo retrovisor a dança, o cheiro a verdura cortada vai-me dentro do carro e os sonhos, de cantoneiro, como ele disse, estão ali ao virar da esquina romba, transportados pelo vento quando o soprador se enche de vácuo e cospe-se indiferente, sonoramente, varrendo para longe as conversas voláteis entre interlocutores fúteis.





2018-09-30

“Artesanalmente vivido"

“Artesanalmente”, crónica de Domingo, na Bird Magazine, para ler ou aqui.

Em todas as feiras artesanais questiono-me sobre a desprendida, livre e selvagem, porque pura, vida dos artesãos. Nestes momentos vou vivendo aquilo que não estou, como se por momentos a vida sofreasse e eu resvalasse noutra existência, minha ainda, desenrolando-se noutros sucalcos eras e locais, passados de menos e futuros de mais.
Sou já eu atrás dum balcão, eu quem dorme embrulhado, o fruto do trabalho almofadadamente sob a cabeça, estômago reconfortado pela chávena metálica com café e uma fogaça ainda quente. 
Durmo, confortavelmente mal instalado no saco-cama, ouvindo os barulhos da noite que se transformam em canções de embalar cujo compasso apenas o grande Compositor conhece. Acordo com o raiar do dia, o caderno ainda aberto e a caneta perdida dentro do saco-cama, trocando o susto de ver um insecto a centímetros de mim pelo riso de alguém ter partilhado um sonho comigo. Levanto-me, cruzo os braços atrás da nuca, encho o peito de ar ainda frio, cravo firme os pés na terra como quem se desterra e fecho os olhos, até o frio abraçar-me para mais um dia de vida. 
Talho condores visíveis apenas do céu, na madeira e por entre tufos de nuvens. Escrevo segredos em pequenas aparas de madeira, escondo-as em várias estatuetas que vendo, apenas pelo prazer de saber que alguém, algures, decifrará um segredo meu que não existe. Destapo a banca, alguém me roubou um artefacto, precisamente um que tinha um segredo guardado. Rio e afasto algum pó que se acumula. Coloco alguns dos coloridos piões mágicos à frente, carrinhos de brincar, feitos em madeira e cascas de pinheiro, um vira-vento de tonas de eucalipto, pulseiras mágicas e cadernos normalíssimos onde desenhei gravuras iguais às das planícies de Nazca (hão-de seguramente chamar a atenção dos miúdos, o primeiro que se sentir atraído pela banca vai levar com ele, gratuitamente, um caderno destes). Os dias desenrolam-se, assim, compassadamente, compassivamente, entre vilas e aldeias, faces conhecidas e outras que se dão a conhecer. 
Tudo termina após final do dia, noite alta, nas amenas conversas com tantos como eu e outros ainda, saindo das sombras, de mãos aquecidas em torno da chávena metálica, o café escuro onde leio o meu passado nas colinas em que a espuma se desenha. 
Esvaem-se na página seguinte, vida e espuma, quando num longo piscar de olhos me inebria o aroma a café, e vejo-me agora, aqui, em frente ao computador, o sono calcando as histórias imensas que afincadamente se atiram às pernas para que as desenhe, mas as minha mãos, intemporais, só sabem observar e, ocasionalmente, chorar. 
A luz trémula do monitor envolve o espaço. já sem café, espuma, passado porvir e futuro vestuto, olho sem compreender este artefacto em madeira a meu lado, a forma de condor e a tira de couro que sustém um pergaminho, como voou até aqui? Pego nele. Cheira a café e não estava aqui há escassos minutos. O futuro presenteia do passado seus frutos. Sorrio. Sou rio.

2018-09-25

“De onde nunca deveria ter saído”

Mais uma Crónica do Nada no Correio do Porto, para ler aqui ou mais abaixo.

Uma das várias vantagens de quando andava de comboio era permitir-me passar em locais onde as árvores me viram crescer.


Ainda ensonado passava em frente à rua onde morei vinte e cinco anos, no beco para lá de uma curva que, em criança, não me permitia ver a pequena casa azul do fundo, a minha, o casulo de onde nunca deveria ter saído, amparado que estava pelas silvas, pessegueiros selvagens, pinheiros, eucaliptos e o apaziguante curioso latir das raposas bebés que procuravam comida nos restos que deixávamos no monte. Antes, sem nome, possuía a identidade de cada um que lá vivia, agora possui apenas o longo e descaracterizado nome de Travessa da Avenida de um Barão que nunca conheci. A mata que a ladeava, antes com mimosas, austrálias, fetos, mato e giestas, está agora despida, apenas com tocos de eucaliptos, resistentes, mantidos a troco de questões humanas que, sinceramente, não entendo, com as suas raízes que antes moldavam o caminho de terra onde brincava com os carrinhos improvisados e que, agora, elevam paralelos e continuam a decorar as antigas habitações com sulcos nas paredes.


Ao ver o monte despido, com um aspecto limpo, tal como deveria estar todos os montes deste país, não conseguia deixar de questionar-me como foram capazes de caber tantos sonhos num espaço tão pequeno?


A vantagem de sermos crianças é que somos coreógrafos sem o sabermos, moldamos com a imaginação cenários tão distintos quanto reais e, o curioso, é que apesar de tão distintos os putos amigos, o cenário construído era apenas um.


Naquele espaço couberam constantes seis putos a brincar, com participações esporádicas de outros miúdos, mais novos e mais velhos. Naquele pequeno pedaço de terra fomos heróis e vilões, índios e cowboys, polícias e ladrões e toda uma panóplia de interpretações que mesmo versando na trivial luta do bem contra o mal, tinha como conclusão a amizade sincera que só putos sabem cultivar.


A voz metálica do comboio anunciava a próxima estação e eu sabia que era tempo de fechar o caderno, guardá-lo no saco e fazer sinal aos sonhos, os mesmos que me abandonaram, para que saltassem de novo para o meu bolso.



2018-09-16

Caminho alheio à caminhada

“Caminho alheio à caminhada”, crónica de Domingo na Bird Magazine, para ler aqui ou ali.

O que fazer quando as palavras já não se colam aos braços nos dias de calor?
Esmiúça-se na vontade o ínfimo detalhe para que uma história nasça e seja recebida, acarinhada, amada até!, para depois ser depositada no quotidiano com o desejo íntimo de se ser mais palavra do que frase, mais letra do que palavra e, por fim, mais silêncio proferido do que todas as palavras cacofoniadas sem conteúdo num bafiento bocejo de quem se dorme.
A chuva adormeceu e enquanto tarda acordar fecho os olhos e o café ondula em aroma até me cobrir o fim da manhã com a tenacidade dos sonhos.
Nas poças de chuva corre-me o Douro ou o Tua ou o Sousa, cheios!, criando ilhas desprevenidas onde me socorro náufrago.
Não será sempre Inverno, nem Verão, não terei sonhos eternos, nem sempre razão e é pela volatilidade da maré que aspiro ser Açores, deitar-me numa colina e hortensiar-me em tons de azul e lilás e quando não me souber retalhar que venha outrem e sussurre baixinho e a sorrir: está na hora de partir.
Mas para onde me corre a vida, atarefada, no regato de água doce, nas poças em que salto quando não estão a olhar? Torga, que tão facilmente, agradecido prostro-me, me afugentas a sobriedade, para onde me escreveste tu?
Sabes que o tempo não existe quando te deixas levar pelos minutos e te encontras segundos atrás.
Pergunto-me muitas vezes sobre quanto pó se pode acumular no olhar, quantas poeirentas madrugadas se inclinam pelo dia, arrastando consigo o invólucro dos sonhos e dos futuros, um semi-aberto baú onde não cabem caminhos por percorrer, porque não existem ainda.
Será pelo mar? A ondulação que respira, compassadamente, a meus pés enterrados na ânsia de navegar para que me oceaneie e me sorria a maré dourada que se estende pelas sombras do que o Sol não cobre.
Será pelas ondas de lavoura e espuma de milheirais, na irregular costa da simplicidade de amar a terra, eis os despojos sem guerra.
É lá que descem as alegorias e o palco esfumaça-se por onde caminhei, não me calçam os passos nas encostas onde por entre xistos o frio se resguarda encostado ao meu corpo.
Um arado que se verte pelo olhar, eu e as nuvens a suspirar, o texto que teima em falar e eu, navegante, calado, sem me saber sequer vocalizar, porque há um hiato entre as vagas das vidas onde não sei nadar.
Há caminho alheio à caminhada, será por aí a minha estrada.

2018-09-13

Para o colateral onde me viro em oração, entrego todo os dias iguais, sem mais, sem menos, ouvindo apenas o que me entrega o labor de silenciar o vento, nesta surdina abafada de um metal em brasa a expelir-se porque não me sei falar.
E, porque, digamos, pensando... (pausando)... sem me saber dizer e por isso solicitado em oral, sorrio o fim da tarde e deixo-me crepuscular de olhos fechados para que me auscultes na ausência de uma reticência. Foi distracção, andava a escutar uma lágrima tombada ao interior de um mundo apenas e só porque aquela nuvem me fez lembrar o céu, e de lá, donde vim, também a vida foi eu, nesta e noutras idades. E porque, enfim, também de mim sinto saudades.

2018-09-06

Imutabilidade

“Imutabilidade”, mais uma crónica do nada, no Correio do Porto.

Para ler no Correio do Porto, clique aqui.


Pagaria, pudessem as nuvens serem dinheiro, o que necessário fosse para ter sempre a refracção das gotículas de água num dia de sol tímido, enganando o torpor de uma viragem na estrada com a promessa de ser, novamente, o som abafado da surpresa de uma criança a ver pela primeira vez a influência de um sorriso.

Tenho gasto as horas, talvez por isso o tempo ranja quando passa perto de um sentimento e o vento se faz ao caminho, na maior parte das vezes sozinho, para se sentar no colo de alguém que o embale, até ele se recordar daquilo que realmente vale.


Deitado, a noite subiu já até ao meu peito, preparando-se para me cobrir e eis-me na gare do sonho. Vão passando entusiasmados por mim, atropelando-se, correndo para novos horizontes, fazem-se assim aqui, aos montes. Em frente a mim param vários, adensam-se para que entre, mas apenas sorrio e declino timidamente. O meu sonho faz-se devagar, com a paciência do tempo e a implosão das estrelas.


Lá seguem eles, elas, indistintos e constritos, novos, velhos, entrando e saindo, trocando abraços, beijos, sorrisos, daqui e dali. Ouço, incrédulo e triste, quando a alguém é negada entrada, apenas por não ter bilhete para viajar, com o destino irónico das passagens serem obrigatoriamente grátis, mas mesmo assim exigíveis para exibir aos que, pesadelados, desconhecem sonhar-se pobre, para se acordar rico.


O meu sonho é imutável, inocente, inócuo e desambicionado, passar pela vida devagarinho, em silêncio e com o peso das questões que me responderam apenas quando eu me transformar em resposta, ter a postura de um velho banco de jardim, virado para o mar ou para onde me queiram olhar e, assim, ao de leve, beber amor em cada passo a dar, para que, um dia, seja o sonho de acordar.


Vejo-te aí sentado, penando umas horas até madrugada, rindo e chorando, até que umas calçadas te percorram no sussurro de umas noites iluminadas. Não sabes quantos anos te viveram, no entanto, achas-te numa infância envelhecida, onde as caricas com cera de vela são recordações breves dos longos dias que salgaste, percorridos por uma neblina ténue, como se o dia se recusasse a acordar, onde os sonhos se propagam rapidamente, sem defesas ou ameaças, apenas nadando de encontro às águas de quem os bebem. 


São dias assim, onde descansas e eu, sem dares por isso, me encosto a ti dizendo: não sou um sonho. Agora sim, é hora de dormir.

2018-09-02

Não sei porquê

Não sei porquê”, crónica de Domingo, na Bird Magazine.

Perco alguns minutos a pensar num título, muito por culpa de não saber o que escrever depois do mesmo.
Até onde poderá ir o questionamento? Em todos os cantos do ser, há desejo de partir, de viver mais do que aquilo que a vida permite. Continuo a ser mais do que me dizem ser possível, a sonhar mais do que durmo, continuo a ser astronauta num dia e lavrador noutro, para depois voltar a ser aquele a quem chamam pelo meu nome, entre indústrias e paisagens, entre crentes e ateus, entre os abraços e um adeus.
"Um dia também irás crescer", foi-me dito em mais do que uma ocasião, por entre sorrisos nervosos de quem não via os meus sonhos ou o riso, meu, quando ouço o que sou e me ausculto ao espelho.
Somos doutrinados para crescermos e sermos alguém. Não nos incutem a palavra sonho, apenas crescer e ser alguém. Não falam em desbulhar um talento, em ser-se quem se É, em auscultar o que nossas mãos urdem quando estamos de olhos fechados. Não. Todos devem ser alguém, o que invariavelmente significa alguma projecção, ou seja, ou estuda e doutrina estatuto, ou ganha dinheiro e compra estatuto, ou vira celebridade e esmaece estatuto. Ah, a santíssima trindade. Entristece a falta de motivação para as pessoas serem quem são. Entristece não saber porque razão isto me entristece.
Um badalar ecoa no quarto vazio, talvez trazido pelo inusitado vento fresco desta noite de Verão, pastoreia-me imaginários esverdeados onde, sem perceber, fascino-me quando, em casa dos meus pais, a Farrusca deitada no chão, o desejo de me desfolhar sobre erva, terra e pedras e os condicionalismos vários que adquirimos quando "crescemos" e que nos levam a não fazer aquilo que desejaríamos, mas, invariavelmente, sacudo dos ombros o peso dos olhares e deito-me junto a ela, feliz, felizes, animais de um mundo só.
Concedo-me ao exercício de olhar para mim, o que faço, o que sou? Sou quem quero ser? Ou apenas quem devo ser? E é aqui, neste momento, por vezes taciturno, por vezes eufórico, que rio e choro, que me olho e me escondo, onde concedo à vida desfolhar algumas frases, ainda sem título, mas com vários prólogos no final de cada palavra.
Enquanto escrevo sinto que não sou mais do que uma garatuja, um poema escrito por mim próprio, além, onde ainda não cheguei e já os meus dias são linhas, linhas que não rimam, linhas que saltam de página em página, até que o livro me morra e eu nasça, sem saber porquê e sem imaginar sequer sobre o que fazer com as ideias.
Silenciosamente nascem-me várias histórias, estórias, poemas e contos e obliteram-se ilustrações e agradecimentos finais de livros que ainda não escrevi e não o quero fazer, se me desmontar em frases, palavras, em que tomo poderei eu habitar? E a vida? A vida não me deixa sentar no mesmo local duas vezes, leva-me para onde quer e quando quer, deixando-me com a dilaceração dos relógios e das pessoas, das nuvens e enseadas que moram em mim e me murmuram o barulho do mar.
Não sei porquê (eis o título!), talvez sejam as histórias e as paisagens e a minha ânsia de ser personagem e vislumbrar moinhos quixoteanos em todas as encostas, mas gostava de ser vento, de estar em todos os locais ao mesmo tempo. Enquanto não o sou, perco-me nas identidades do que cogito e escrevo nos ramos despidos das pessoas nuas que passam pelas minhas folhas enquanto escrevo.

2018-08-20

Apenas o silêncio

Crónica de Domingo, na Bird Magazine ou como ficar apenas o silêncio.

É com as memórias tumefactas que me irei deitar, na cama, talvez na terra, e deixar que a argila se molde a mim e eu renasça por obra de um sopro, órfão de costela.
Talvez assim, semi-enraizado, me surjam das mãos pequenos galhos que floresçam um dia quando desfolhar um conto qualquer de Miguel Torga e me adopte, o conto, como cedro, vinha, apeadeiro de abandonos abandonado ou, até, como fraga perpetuamente admiradora de uma paisagem que por imutável me obrigue a descobrir novas pétalas nas mesmas flores.
Carregarei valados acima os cestos das minhas palavras e tentarei semear, com meus parcos conhecimentos de semeadura e agricultura, as palavras que gostaria ver desenhadas nas encostas onde espero acordar quando pousar este corpo e me erguer, livre, pelo infinito que primeiro me envolver.
Mas agora, resta-me pouco mais que o silêncio e o calor do corpo.
Tenho as palavras a latejar no chão, dispersas, sem saber como as agregar e elas, abandonadas, sem se saberem soletrar.
Nada mais que atropelos, dedadas fugidias no vidro do autocarro, corpos habitados por gente demente, que esbracejam e falam, vociferam, com fantasmas que, acredito, nem elas conseguem ver.
Cansa-me o cansaço, correr sem sequer levantar os pés, aprisionados pela calçada que, até ela, foge debaixo de quem se quer ser chão.
Mas esse, chão, solo, litosfera, chamem-lhe o que quiserem, é-o apenas para lá, lá, longe, atrás da última colina, escondida sob um nevoeiro cerrado, onde não estou.
Que nuvem torpe desce sobre nós?
Há apenas uma criança, a cantarolar na paragem do autocarro, uma letra que desconheço, creio que apenas ela a conhece, nunca ouvi ou houve alguém a agregar sílabas daquela forma.
Faz-se tarde, para dormir, descansar, para viver.
Sinto por vezes que tropecei algures, entre uma raiz de eucalipto ou numa pedra mais elevada naquele caminho que não cheguei, ainda, a percorrer e, trôpego, deixei cair a bandeja onde trazia as letras prontas já, agrupadas em palavras que gostaria de deixar gravadas, senão no papel, pelo menos em mim, ou em ti, para que nunca me esqueça que fomos servidos em bandeja e não de bandeja, para que esta máquina grotesca, ferrugenta, crispada, liderada pela escumalha, pela escroquicidade do ser humano, funcionasse e se alimentasse dos nossos dedos gastos, de nós feridos, de sonhos, creio que perdidos.
Arrefece.
O calor dilui-se na sonoridade.
Resta-me apenas o silêncio.

2018-08-05

Nu, vem

“Nu, vem”, crónica do nada, no Correio do Porto.

É fácil perceber que, hoje, estamos em véspera de feriado num dia posterior a um Domingo, o trânsito é bem menor comparado a outros dias e as pessoas, que não passeiam na estação, deixam espaço suficiente, nem mais, nem menos, para eu transportar os meus sonhos. O calendário tem destas coisas, uns feriados estrategicamente colocados, uns dias de férias no bolso e um descanso da lufa-lufa diária na algibeira, transformando o labor num movimento menos laboral, quase como se o dia surgisse por inteiro num quotidiano a part-time.
Faltam mais de 20 minutos para o próximo comboio e vou fazendo da voz abafada, nasalada, metálica, desligada, inumana que anuncia os comboios em cada linha, a minha companhia, no final deste dia por metade.
Coloco-me estrategicamente virado para o Sol, obrigo-me a semicerrar os olhos para poder ver melhor, às 19:34 o astro-rei fita-me de frente e é das poucas vezes que um olhar faz desviar o meu. Enquanto fecho os olhos por momentos continuo a ver a minha mão e a caneta, ambos a arrastarem-se pelo bloco, uma sem a outra são nada. A caneta sem a minha mão não se ergue e a minha mão sente-se nua sem a caneta e eu, ainda alma num mecanismo biológico, sem a conjunção das duas não me ergo.
O comboio para a Régua levou as últimas vozes da gare, resto eu e as duas senhoras, idosas, do lado de lá da linha e da vida. O destino destinado não me serviu o trajecto, causou estranheza a quem me viu sentado no perfurado metal ondulado, fosse eu menos baço e tomariam a minha presença como fantasmagórica. Mas assim, sou apenas alegórica.
Antes de chegar, retrospectivando, fui brindado com uma viagem de autocarro calma. A partir de determinado momento eramos reflexos nos vidros movidos e oscilados no irregular piso, restava eu, motorista e alguns que pensam que ainda o são.
Talvez o vazio do silêncio da estação, a viagem seca e amena no autocarro, umas quantas faces sonhadoras na estrada e um banco de metal, frio, na estação, com uns abrigos desabrigados ao vento frio do final da tarde me tenham feito divagar, na realidade ficcionada, e as minhas mãos tenham agarrado canetas ilusórias que escreveram histórias que olhos não vêm.
Observo momentaneamente à direita uma nuvem, inusitadamente em forma de degrau flocado. Vou fechar o bloco, metê-lo na mochila juntamente com a caneta e deixar que outras nuvens me levem para junto de outras histórias, resquícios do futuro em memórias. Sempre assim, até ao próximo que, nu, vem.



2018-08-04

“Quando chegar a hora”

“Quando chegar a hora”, crónica na Bird Magazine (04/08/2018).

A lareira crepita e o bailar das pequenas chamas inunda este espaço com uma luminosidade fugidia. As crianças brincam, alheias à apreensão, animando ainda que fugazmente os adultos que, pensativos, aguardam que eu lhes diga algo. E que hei-de eu dizer? Ter encontrado este local foi sorte, ou talvez não, talvez estivesse escrito algures que isto me seria cedido, a título de empréstimo vitalício, com a intenção clara de não deixar morrer a terra, a casa e os animais.
Chamá-los para virem comigo foi o mais complicado e trabalhoso, houve quem não acreditasse e ainda não acredite, mas vieram ao ver-me resolutamente abandonar tudo e voltar-me para aqui, convicto de que estariam para chegar. Os mais próximos, incluindo os mais cépticos, confiaram em mim e trouxeram algumas pessoas da mesma forma que eu os trouxe, porque tinha que ser, porque alguns tinham-se já predisposto a isto e porque, acima de tudo, a convicção profunda, serena, de ser o passo lógico, ainda que ilógico à luz do nosso conhecimento actual.
E cá estou, cá estamos. Esta casa e os restantes anexos são grandes o suficiente para todos e também para os animais. A comida é suficiente e a terra, ainda que tratada por nós que pouco sabemos destas lides, brinda-nos com frutos, tubérculos, vegetais e toda uma variedade de comida que nos obriga, quase, a fazermos dieta (ainda bem!) forçada, mas saudável.
Agora alguma impaciência se levanta, chove há semanas, sem parar. Algo faz-me levantar e ir para a varanda. Fico lá, em pé, encostado ao pilar de madeira, sem saber muito bem porquê, olhando a chuva cair, escorrer pelas telhas, cair no chão e cavar pequenos buracos que estão já cheios de água. Tenho o pressentimento que chegam, devagar, quando tem que ser e não quando eu pensei que seria. Das nuvens, ainda escuras, vejo formar-se um pequeno ponto de luz, foco a minha vista nele e ele parece aumentar. Aumenta, sim, exponencialmente, é luminoso, no entanto não ilumina, tem um brilho próprio que não ofusca, não se propaga. Ainda chove, sem parar.
Volto para dentro, sorrio, chamo-os para que saiam lá fora. Alguns, com medo petrificaram, outros de admiração pararam, aquela luz, a qual não é mais do que luz, possui algo que atemoriza e que nos torna pequenos, como será possível ter estado sempre cá e não termos visto? Eles não apareceram, nós é que apenas agora os conseguimos visualizar.
Vão caminhando uns e outros, agora sem medo, em direcção àquela luz, atraídos por vultos que parecem murmurar memórias de gentes partidas. Ouço um ou outro suspiro, um ou outro murmúrio de medo, um ou outro pequeno choro abafado à medida que os que se aventuraram primeiro desapareciam, aos nossos olhos, quando entravam naquela luz enevoeirada e esbranquiçada, como se mergulhassem num grande algodão doce salpicado de neblina.
Um a um, lentamente, pareciam desvanecer à medida que se aproximavam daquela luminosidade. Foram todos, apenas eu permaneço aqui. Esperam por mim, tal como esperei por eles, ou talvez por mim mesmo. Vou fechar este livro e deixá-lo apenas com uma marca, hei-de continuar a história com outras letras, outros contos, com relatos desta viagem aos confins de nós mesmos. 
Mas agora... agora vou. Até breve.

2018-07-22

Homem, casta de tristeza, espécie que tudo lesa

“Homem, casta de tristeza, espécie que tudo lesa”, crónica de Domingo na Bird Magazine.

Os escombros estão a florir em cinzentas tardes, as partículas agremiam-se e fogem apavoradas em pó leve, castanho e ligeiro, como se chovesse solo em polvilho quando as calco inadvertidamente. 
[Até o pó que a terra come agora tem sentimento, alimentado pelo lamento.] 
Os restos da poda e da monda desbastada ao desbarato naqueles fracos braços de gente que, para sobreviver, ignorante, ruminante, sem o saberem de vida arfante, assassina com dó, mas sem  piedade, no ritmo metalizado e etanolizado da serra motorizada, fazendo à máquina aquilo que as mãos não mecanizam: a industrialização da morte. 
[“Era isto ou outra sorte”, ouço]. 
Deixam para o fim o mais frondoso pinheiro onde, à sombra, pousam as garrafas de plástico com água mineralizada por uma terra que os há-de comer, um isqueiro vermelho, as luvas de borracha, o machado para o que se racha e o funil para dar de beberrico à maquineta. Este pinheiro, o qual me habituei a afagar a casca grossa, a mesma que usava para construir barcos que navegavam apenas para satisfação da inocente criancice, observou na cegueira moribunda o cair lento, oscilado, [oscilento], o baque forte, grave, soturno, cavernoso, de outros pinheiros grossos, finos, altos, baixos, caídos desamparados no solo lacrimoso. 
[Deus pariu um filho criminoso.]
Vou com menos cuidado, percorro o campo de batalha e é já a memória que me falha. Onde estão as sombras projectadas propositadamente para que não me transpirasse em demasia a vida e pudesse eu, de costas ao destino, galgar os fetos e o mato sem me aperceber que sou o meu próprio desiderato? 
[Valia-me apenas admirar o literal frondar para me habitar de Torga e ficar calado, sob os vossos ramos, amado.] 
Tropeço pelas poucas pinhas que saltaram 
[ou se esconderam]
dos sacos de serapilheira dos passageiros da existência, espectadores insipientes de um extermínio orquestrado, malicioso, que assomem no pós-guerra com aura vulturina. Antes sacudidas salomonicamente pelo vento, 
[havia deleite em atempar o iluminar da lenha, também esta jorrada em equilíbrio] 
hoje jazem fechadas, lacradas, sem pinhão nem tição, amedrontadas e resignadas, mirando de soslaio restos de ramos dos amos, caruma verde colhida para ser queimada no desprezo avaro de quem nunca fitou os olhos fundos de um braseiro que crepita, a quem o escuta, o silêncio que nos agita. 
[Ao contrário dos lírios, não nos deixou, deles, Cristo um registo]. 
Aninho-me lentamente, a tristeza sopesa a vida, enterro o joelho numa cicatriz de mato seco, verde, cujos picos se vingam na minha pele, pouso os dedos no tronco dilacerado que emerge do solo e as raízes, aterradas, tentam adentrar sofregamente na litosfera. 
A céu aberto arde a angústia. O silêncio vem em golfadas vomitadas pela ansiedade, convulsiono-me e deixo que me sequem as tardes de Verão nos olhos. A resina lacrimeja uma ausência desbravada, uma indulgência perene e digna, que perdoa a quem tanto mal faz e continua a suspirar o ar que respiramos. Sem suster a comoção, deixo-me lacrimejar, sem pranto, no silêncio. 
[Já terá passado uma eternidade?]
Taciturna sina de destruir a árvore que arde, apenas porque um humano a queima. 
Este homem, casta de tristeza, é espécie que tudo lesa.

2018-07-09

Poesia na Garganta (30-06-2018)

Texto publicado para o evento "Poesia na Garganta", no dia 30-06-2018, na Garganta do Salto (Aguiar de Sousa), no Parque das Serras do Porto.

Vejo o local, o salto, como uma metáfora entre o salto para o vazio, o despertar para uma natureza física e moral, no respeito do que é pelo simples acto de se ser como é, tal como a fé. Assim, criei este texto que é apenas a minha visão, o despertar que surgiu pelo homem correr atrás dos seus medos, saltando com a ajuda animal, que nunca nos quer mal, para um vazio onde a natureza nos acolhe, assistindo entristecida ao nosso esquecimento de civilização em civilização e permanecendo imóvel, como a garganta do Salto, a assistir aos desvarios mundanos, na esperança que, metaforicamente, possamos dar novo salto de encontro a nós mesmos.

Garganta
(09-06-2018)

Apenas o borbulhar pachorrento da água, às cambalhotas por entre os godos, fazia o dia correr de um lado para o outro, coisa sábia de se fazer, daqui para ali, dali para aqui, até que a natureza se encarregue de esculpir no silêncio a voz de todos os homens sós. 
De boca aberta como quem arfa o ar que não sorve, proscrito pelos homens, reverenciado por deus, o inferno, cujo camoniano linguístico faz rimar, e bem, com Inverno, trespassava a naturalidade da pacatez de quem vive na polaridade de um mundo bipolar, atravancado entre o metamorfismo que o ventre da terra foi deixando passar, ribeiro ante ribeiro, odor ante cheiro, até que gretado e erodido, talvez um pouco perdido, caminhou-lhe por entre as fragas o fino tenor de águas suplicantes, como quem a vida ousa, nascente a montante, a jusante soante Sousa.
Desencantado com o verdejar agreste, a força do homem cipreste, sentado numa pedra bolideira sem eira, apenas com beira, fazia do tapete de musgo o pasto sonhado, sem planalto, com o rebanho de fantasmas animais que na periclitância do desconhecido, caindo no vazio, saciavam o apetite ardente de um demónio no cio.
Olhar o céu dardejando o destino é forma rápida e certa de um ser perder o tino, mas não cabe ao homem, ao animal, ainda que a vista lhe chame ali jamais Iria, porque quem pedra nasce, de salto não reza a história, apenas a lenda e pouca glória.
Ainda antes de escarpar a face, como quem nasce, escanhoa uma leira no terreno baço e rugoso, apenas por arrelio do tempo, esse teimoso. Esquecido pelos panteões onde se traçaram, ignobilmente, os destinos pastoreados de quem se julga gente, foi-se jardinando como pôde, agarrando junto a si as vidas que cabiam num alforge, ora edenizando a humidade cristalina de fetos sem sina, nascidos da juvenil mocidade, na silenciosa intimidade, os corpos arfantes, ardentes e depois ausentes, ora cultivando sob as suas carícias inacessíveis ao sal da existência, o salgueiro, o amieiro, o loureiro e todo o tipo de cabrestos que mais tarde varreriam o chão onde ardia a lareira da morte, sem tição. 
Ali, naquele paraíso achado onde se perdiam incautos animais, quadrupedes ou bípedes, ostentava-se a beleza inacessível do esbelto, no olhar interior de quem se resguarda em comunhão com a natureza, como quem reza, na oração florestal onde nunca habitou o mal.
Era noite pegada, as estrelas deixavam o seu trilho leitoso no negro e de costas viradas à terra, com quem nunca se ganhou guerra, o seu guardião no escutar do crepúsculo a nascer onde se põem as estrelas a arrefecer, ouviu as margens do silêncio repercutirem cavalgadas de equino montado, na ânsia de fugir à demência de cavalgador a perseguir os seus próprios medos. Num esgar de tempo que passa no hiato entre as sílabas do momento, vê o cavalo alvo fixar patas na margem enterrando-se na rocha firme que a garganta amaciara, soltando arreio, estribo, sela e cavaleiro que, sem montada, se transforma apenas num corpo amorfo cuja terra deglute sem grande satisfação, caindo no abismo da cegueira de se querer mais colheita que sementeira.
A eternidade dá ordem ao tempo, abranda-se o firmamento e soltando-se pela vereda da imaginação, a raridade selvagem faz do abismo margem, acolhe o corpo tosco do homem depositando-o calmamente, como sempre faz com as folhas das árvores, sobre um monte de tojos. 
Acorda o dia adormecido pelo susto, a cabeça oscila no delírio do despertar e antes do corpo enraizar o silêncio faz-se perene, a névoa da existência já não o contém. Ali entre escarpas tinha-o acolhido, nos alvos braços, a própria Mãe.
De tumefacta alma sarada, o homem desperto adormecerá, esquecer-se-á e, na cronologia intemporal do lamento, imaginará que não foi o salto o salvador, plantará um inferno amedrontador e clamará para si próprio o paraíso. O homem sempre foi bicho de pouco juízo. Chamará à divindade que o criara diabo, adorará o verão penando o inverno, esculpindo à sua imagem um inferno, penitenciando-se à sua margem como povo devoto, bebendo de si mesmo quando ainda mosto.
Aguardando o salto raso do Homem ainda hoje o dia acorda nu, sem frio, adormecera sozinho o rio com o céu estrelado por manta, na voz mistificada que o silêncio canta. A vida sorve-se por ti, garganta.

2018-06-24

Silêncio tonitruante

“Silêncio tonitruante”, crónica de Domingo, na Bird Magazine.

Habituamo-nos ao silêncio e quando este deixa de se fazer ouvir, a sua ausência é ensurdecedora. Felizmente, as gotas que se esbatem na soleira, quente pelo ensolarado nevoeiro que cobriu o primeiro dia de Verão, e no ferro, também quente, empoeirado, musgado, corroído às sardas, ondulam a sonoridade, mecanicamente trazendo na sua transversalidade o que vibrará no meu tímpano e na miríade de ossos minúsculos com que Deus me votou ao mundo, e à surdez.
Sem grande roteiro, o caminho faz-se rotineiro, como mencionei atrás, habituamo-nos ao silêncio de tal forma que é nele, pelo menos para mim, que encontro a voz inaudível e, por isso, verosímil, que vai sussurrando a chuva e o céu raiado, onde aleatórios relâmpagos percorrem como sôfregos cavalos selvagens, indomáveis, irregíveis, e deixando no rasto o ribombar da liberdade e que me cai pelos ombros abaixo como um jugo. 
Começo a degustar a pálida timidez de tudo o que me chove, gosto da aridez das palavras que ouço, permitem-me camuflar o silêncio e apreciar ainda mais os valorosos momentos em que me despeço das despedidas e as deixo serenas, em paz, à espera de um outro capataz. 
Os dias parecem querer ocupar duas rotações de uma só vez e, talvez por isso, os anos pareçam encurtarem-se à medida que nos aproximamos da distância que nos separe de nós a nós mesmos. 
Sem que me vejam, descerro a cortina, mas não completamente. Há sempre um pouco de silêncio que permanece, ou um pouco de silêncio onde permaneço, uma penumbra auditiva na qual permito falar-me sem que me ausculte o pressuposto.
Por isso o caminho está para mim como eu estou para o caminho, pendente de cadência e cadente de pendências, como estrelas num céu diurno, lá, sem se verem, a brilharem um lusco-fusco que ninguém poderá admirar. Há uma promessa no ar. Deduzo serem passos de um novo silêncio a chegar. 
Assim, por clemência divina, em quem não creio acreditar, voto-me à simplicidade da pobreza para sentir que envolta no silêncio é onde mora a riqueza.
É por tudo e por nada que não ouço, mas escuto, a frequência de universo impoluto, entregando-me à harmonia deste fim de dia, caindo-me na precipitação de um solstício, eu e comigo em armistício, na paz tumultuosa de uma guerra travada no adiantamento do passado que corre e tropeça no tempo. 
Gostava, enfim, que as palavras não me metaforizassem e se limitassem a escrever que, do lado de cá da atmosfera, há quem se preocupe se as estrelas brilham por brilhar ou se as palavras são como o silêncio e em silêncio tonitruante devam ficar.