2020-05-29

“Arde e ganha”

Arde e ganha”, crónica no Canal N.

As tardes de domingo prolongam-se pelos restantes dias da semana nas aldeias onde o tempo parece não habitar. Passo devagar, intriga-me o nome de uma rua mais do que a localidade, assim como os entalhes graníticos nas paredes melancolicamente cultuais cujos capiteis, lentamente, soçobram à passagem dos homens, mas não dos anos.

Uma trindade de idosos, como constelação afastada, perde o brilhar no corpo torpe, moreno, cujos trejeitos capilares esbranquiçados se escondem por debaixo das camisas desabotoadas e das boinas descoloridas.

Aproximo-me no carro e como um sopro assumem uma postura erigida, os nós das mãos esbranquiçam-se pelo esforço com que agarram a retorcida moca, a hombridade da existência não conhece condições e assoma-se ainda mais quando nada veste o corpo, ou a pessoa, além das vestes feitas para proteger o casulo carnal dos elementos circundantes.

- Boa tarde meus senhores – digo-o por respeito, braço de fora da porta do carro, aceno à homem, coisa de tojo que ondula uma só vez ainda que vente e arrepie os crespos secos que digladiam posição nas rusgas de um penedo.

Nenhum deles deixa de me responder e é aqui que a solidão me ataca, sem que eu me aperceba, apenas agora me permito ouvir o cumprimento e calar o comprimento que me ausenta daquela calçada, cujo nome de rua me intrigou e deixa a minha curiosidade saciada.

Cada rua de uma aldeia tem mais vida resoluta que uma alameda de gente fajuta impecavelmente vestida. Dizem-me que é da vida. Mas acredito ser da idade ou por ter nos olhos a fuligem que escapa da paisagem, onde casas abandonadas nascem de forma selvagem, espontânea, por entre pedras como giestas que florescem vestidas de cinzento, a habitação de agora não é mais do que um lamento e é nesta recordação, a tarde esparramada nos longos lagos de um rio atormentado, que limpo a lágrima que se soltou do meu arado.

2020-05-26

A simplicidade florida

“A simplicidade florida”, mais uma crónica do Nada publicada no Correio do Porto.
Para ler a edição online, clique aqui.

Aperto o pão nas mãos, faço um pouco de força e rasgo-o com o respeito que um ancião me merece. As migalhas caem petalamente, rodopiando, separando-se na criação divina e caindo-me, algumas, em cima. Esfrego as pontas dos dedos, solta-se um nevoeiro privado para o qual me faço convidado.
A caneca gasta de uma cerâmica cansada onde o tempo bicou já algumas lascas, acolhe os vórtices que se formam, o do café onde a espuma da sua maré vagueia como que colectando as migalhas e a farinha poeirenta, e o meu vórtice, o desconexo movimento sensorial que me permite redemoinhar em direcção a um escuro, negro, imenso rasurado destino, por onde mergulho e me vejo sair sair do lado de lá do moinho. Claro, sozinho.

Emociono-me com a simplicidade florida de quem nunca se viu viver a vida de espada erguida, saldando-se à consciência sem que Anúbis saiba, sequer, que Deus fez uma Alma sem se aperceber.
A tarde quente pouco acomete ao espírito inquieto, de facto, todo e qualquer pretexto é bom para descer, mergulhar, ensopar, embolar o pedaço de pão, ver o nível escuro descer na chávena, deixando no rebordo interior círculos acastanhados que o calor transforma em linhas de uma maré que me navega. Este esfumado líquido negro é por onde o espírito me sega. O pão impregnado torna-se mais pesado, iço-o com o cuidado necessário para que não se solte e molhe a alva toalha de linho, aqui ainda mora o bibe e o carinho, sacudo-o lentamente e levo-o à boca, comendo e sorvendo a cafezada, ou lá o que queiram chamar ao repasto tardio de uma madrugada que vesti fria, mas me é servida quente, ao longo dia a pique.

Repito o parágrafo da mesma forma que me deixo encostar à calidez de uma parede à sombra, onde o vento sopra e o alforge se alivia de mim. A outra metade do pão, recheado dele mesmo, repousa na linácea rodilha que mãos cuidadosas teceram e cujo respeito me mereceram. Miramo-nos. Eu pedaço, ele naco, quem me dera sermos polvilha do mesmo saco.

O destino quer-se servido frio, como a vingança, ou a chacina para onde nos leva a matança, a mesma que outros chamam vida, mas como no entardecer cabem as horas todas do meu esmaecer, permito que me fechem os olhos, o pão abocanhado e aos golfes a marear os meus sonhos, sem dobrar cabos ou prantos.

Sorvido, comido, o sorriso é uma árvore de folha perene na floresta onde adormecem os trinados, nas eiras e beiras da cabana aquecida pelo braseiro de um cafezeiro, onde caem as migalhas da alegria nossa de cada dia.


2020-05-13

Contra a parede

"Contra a parede", mais uma Crónica do Nada, no Correio do Porto. (online aqui)

A vida não aguarda a vida de ninguém. Talvez por isso saiba que, saídos contrafeitos do confinamento ou não, o monólogo invisível cacofonia-se e tem razão para isso. Todos os dias parecem ser o gaguejar do quotidiano numa tentativa de reiniciar um início que, pasmemo-nos, findou fadado que estava à nascença.

Sem gaiola que nos molde o crescimento, a existência segue, ainda que com algum lamento, o trâmite normal de orbitar os dias. Acolho-me, assim, desde as manhãs frias, na presença que levo sob a redoma onde repousam, esparramadas, as nuvens cinzentas, alvas e as que, pelo pôr-do-sol, alaranjam o crepúsculo onde chego, agora.

Arrasto os pés no cimento empurrando-me e escorregando-me pela amena superfície, a sorrir do que antevejo ser a queda por ter as mãos nos bolsos, mas não, ainda me assiste a capacidade de, tal como as sombras dos eucaliptos que ainda subsistem (ali acima, no som que vem a correr dizer-mo, moto-serras rugem enquanto mastigam o que resta dos pinheiros aqui à volta. Quem disse que as árvores morrem de pé?) ao redor, vir horizonte abaixo, até se encontrar com a dor.

Flicto as pernas, encosto o queixo aos joelhos, o capuz esconde-me do vento que anda por aqui a ventaniar-se a salvo do entardecer. Abraço as canelas e fecho os olhos. Os grilos esgrimem trinares à porta da toca, confiantes, alheios que estão agora os putos, também eles nas suas luras, ao findado, felizmente, tradicional enfiar de qualquer palhinha capaz de os tirar, aos grilos e aos miúdos, do buraco. Perdem-se maus hábitos e ganham-se outros costumes, talvez piores, cabeça enfiada entre os ombros sem que se apercebam eles, catraios, de sobranceiras cores.

Alguém passa por mim e sorri, há coisas que um homem não pode fazer sem criança voltar a ser, mas que quero eu saber? Nada, realmente, a não ser deixar-me embalar pela parede ainda quente, como um abraço dado pelo céu, logo a mim, que não o mereço, mas se para mim vem é meu e assim me esvaneço.

Quando as luzes cederam à escuridão, consegui vislumbrar, ainda, pelo que me resta de aluvião, que caso não me sobrasse vida ou não encontrasse eu a porta de saída, poderia suster-me à parede cujo inusitado cálido dia de Primavera tímida aqueceu.
Caramba, às vezes esqueço-me de ser eu. De tal modo o fiz. Feliz.


2020-05-03

Intemporal

«Intemporal», crónica no Canal N.

Paro antes da passadeira onde um peão sôfrego passa a correr fugido do medo e vejo, no fundo dos degraus do agora vazio Centro Comercial, um casal ao redor de umas seis décadas de semeadura, roupas datadas dum século transacto e sacos plásticos pelo cotovelo.

Ele, no chão, afivela o capacete aberto, cinzento, cinzelado de uso, com uma tira de padrão escocês, puxando com firmeza sob o queixo para que não se solte o casco e vá cair, despencado, ladeiras da estrada abaixo.

O descanso bípede alavancava a motorizada num movimento ondulatório, ora na roda dianteira, ora na roda traseira, que termina quando a esposa, em pé no último degrau, pousa na grade sobre o farolim ciclope semi-esférico vermelho, atrás do banco remendado, uma seira com um losango pintado de verde escuro, onde os vimes partidos confirmam a presença inexorável do tempo. 

Talvez o meu suspiro seja mais lamento que enfado. Acordo com o buzinar ligeiro do carro atrás de mim. Faço sinal para que me ultrapasse simulando que atendo uma chamada telefónica, apenas para admirar este acto duma cena que tem fugido ao meu olhar.

Afivelada a presilha, dá o outro capacete à esposa que com a mão grande, bolbosa, acama os cabelos antes de o enfiar na cabeça. Já o marido passou um esticador na ceira, ergueu a perna esquerda alçando-a sobre o banco da motorizada e, equilibrado, volta a chave na ignição, pé firme no kick e já o azulado fumo, habemus machina!, imprime movimento à atmosfera. 

A esposa sobe para o apoio do passageiro e, pudicamente, com as mãos nos ombros do marido, iça a perna, senta-se e com a cara encosta às costas de napa do blusão curtido, sorri, abraçando-o enquanto o retrovisor mostra-me a estrada vazia.

O equilíbrio cinético de um datado casal confirma-me, apenas o amor é intemporal.

2020-04-20

Nas Tuas mãos

Não te afoita o despreparo,
nem a cálida impressão da vida no seu anteparo.

Rasgas caminho ombreando forças com o vazio dormente,
sorris na ruga desgastada das vidas que,
a teu toque,
amanhecem crianças
novamente.

De teu labor
sorrisos ondulam
nos ribeiros do teu suor.

Da noite iluminada à luz do silêncio apagado,
em leito descansas
sob o céu de um cansaço chorado.

Hoje o aconchego parece-te cru,
mas amanhecerá futuro nos corpos torpes que visitaste
porque tu, és tu!

Não desvaneças a distância dos saudosos abraços,
aos pais e avós como a teus irmãos.

É o próprio Deus,
que, dos teus braços, faz as Suas mãos.

2020-04-13

Quase louco

"Quase louco", crónica no Canal N

Confinamo-nos a viver dentro de nós, próprios e atados, afastados das torrentes vítreas que nos reduzem ao caminho percorrido e à incerteza do que há, ainda, possivelmente, pouco previsivelmente por percorrer.

Dentro de mim habito-me num universo que se confunde com um próprio verso, lavam-se as mãos de um dia onde a consciência sucumbiu ao peso da ignorância, talvez da inocência, aos atropelos próprios de quem não se sabe pedalar para mover o mundo. Ah, se a vida fosse apenas um segundo. 

Mas não é. 

E por isso, talvez tudo se reduza à fé. Religiosa e ateia, cada qual a tem à sua maneira, vai provendo quem nada observa além do clarear do dia na janela tricotada por teias de aranha (e café negro, uma boroa, um capuz, uma gadanha), rendilhada pelo olhar embaçado de quem arfa um orbe cansado, as costas aquecidas nas pedras graníticas do muro, os olhos fechados na visibilidade fotónica de sonhar um Sol a cada dó. 

Há quem leia «só em mim me sinto seguro».

Há quem escreva «faltará muito para chegar a outro lado?»

E a viagem decorre sem vulgar destino, cada curva sua sentença, vergar apenas a Deus num rápido «a sua bênção» e sorrir esguiamente um «mas deixai ficar a tentação».

Catapultados pelo desconhecido, embarcados ao vazio próprio de quem se sabe vestir e sai à rua nu, artilham a existência de terem aquilo que os faz serem e que, invariavelmente, os leva a possuir pouco, muito pouco. 

Talvez por tudo, possa aclamar silenciosamente este inverosímil mantra e me tenha ao fim da tarde rouco, feliz, quase louco.

2020-04-04

Um dia as pessoas serão um lugar bonito

Um dia as pessoas serão um lugar bonito”, crónica do Nada, no Correio do Porto.

Começo a caminhada ao procurar um pouco de paz no vento que passa, resoluto, sem nada me querer dizer, excepto sobre a brevidade do tempo e dele próprio. Três jovens concluem um muro erigido em tijolo, a pá faz escorrer o cimento pelas caneluras, observo com aprovação, enquanto tropeço no piso irregular, como se por baixo de mim brotasse um magma viscoso, frio, que enruga o granito toscamente aplicado. Caminho, parado.

Os dias maiores, hora nova como assim lhe chamam, trazem consigo outras dores. Apesar do confinamento e do frio desencorajador, o conforto da camisola puxada para o pescoço como se me envolvesse a recordação de um adormecer a olhar para a lareira, impele-me a continuar o trajecto pelas ruas cada vez mais desertas, nada beijo, excepto o trio trabalhador de ontem e do parágrafo anterior. Separam-nos as letras, o talento para o trabalho manual e a minha constante indagação. Será que a Sra. Arminda, antiga habitante desta casa pequena, onde o rendilhado adaptado ao quadriculado em que se dividiam as janelas de madeira, aprovaria estas obras? O decapar de memórias para que novas se sucedam e me vejam passar, novamente, por este percurso, talvez mais idoso ou, quem o saberá?, já nem a idade me vista e eu seja espírito, alma ou outra etérea feição de encontro ao destino ou a qualquer distinta ilusão. A noite vai dissipando o dia, escorrega-se pelas frestas onde o tímido astro não chega, imbuído de uma nocturnidade cega, o empedrado limitado ao tempo devolve-me a atenção para os passos. A vida é feita de todos estes nós lassos, excepto os meus, que se desatacam pelas hortênsias. Páro a apreciá-las, a fragilidade falsa de uma planta, ou qualquer outro sonho que nos canta, a bambolear-se porque o vento, senhor do seu próprio lamento, as atira de encontro ao meu olhar. Não fosse a minha alergia, poderia saborear no olfacto, assim, não me resta alternativa além de trazê-las comigo e mostrá-las, de olhos fechados, quando me for entregar ao sono, ainda antes da saudade de casa me adormecer.

Esgueiro-me contra a borda rapada, apoio-me à terra preta que o tractor lavrou e o agricultor de circunstância gradou, à mão, como se deve tratar a pessoa e o torrão. Passa um camião do lixo, as luzes públicas tardam em acordar, levanto a mão ao condutor e aprecio os cavaleiros nocturnos, aos pares (saberás o que ver quando o silêncio amares), cavalgando às costas destes monstros metálicos, salvando o mundo ou os recantos para onde se atiram as superfluidades do que somos e a obscuridade possa acometer-se de uma limpeza, agora que a humanidade está presa.

Encoberto pelo lânguido arrastado nascer nocturno, alguém se esconde da minha saudação acamando uma leira com a soca de madeira, como se a idade o afastasse das tangerinas nascidas mais alto que o braço alçado ou destas frases arrancadas aos golfões, por entre o trinar dos raros veículos, camiões?, e o canto melódico dos meus olhos que se fecham à claridade. O Homem urbano é uma ilha imersa na cidade.

Encontro-me no deambular desta sensação de tristeza, procurando um segredo na frugalidade da minha natureza. Caminho sem palavras enquanto recito, um dia as pessoas serão um lugar bonito.


2020-03-02

Cupido

Cupido, crónica no Canal N.

O largo da Feira ostenta o cinzento reflectido do céu diurno de um qualquer dia invernal, as pequenas cestas alvas evocativas dos tremoceiros contrastam com o vermelho valentinal de uma sexta-feira, poderia ser doutra maneira?, os carros estacionam sobre o cimento partido e as frestas por onde respira a terra rangem como se o dia fosse uma porta velha, forrada a zinco numa imaculada portada onde o tempo fez um vinco.

A ameia do restaurante onde, quase relutante, experimento sabores e sorrio com a aventura de duas sexagenárias a fotografarem a comida, o vinho, o espaço e elas mesmas, concede-me ali mesmo, ao parapeito da emoção, visualizar no à vontade de quem não se prende pelos candelabros, do tecto e do texto, porque a vida é ela mesma um palimpsesto, um quadro vago ou o vime gasto e cego do tremoço para o seu cesto.

A atravessar a praça, passo firme sem opulência, por entre olhares dos que se rodeiam dos bocados invisíveis erguidos a vestes de um rei nu num labirinto de desdém, um trolha segue sorrindo, uma mão no bolso do casaco negro, a outra segurando, direita, cuidadosamente, uma rosa vermelha, o chapéu azul de uma marca esbatida, as calças caiadas e esburacadas por onde respiram a dignidade e simplicidade, caem sobre as botas de trabalho que parecem amaciar o solo que pisam, cobertas de tinta que se desprende a cada passada volvida, na praça, na vida. Segue, mãos nos bolsos, a sorrir. Ah, a vida é tanto do porvir!

O funcionário do restaurante rouba-me a atenção, respondo apressadamente acima da indecisão e volto-me, outra vez, para a praça, mas já não o vi. No chão, começando a desaparecer devido aos pingos de chuva que o céu deixou vir ver, pequenas pegadas de tinta ou nuvens de uma paixão sem cor. Não será isto o amor?

2020-02-09

Invisibilidade

“Invisibilidade”, crónica do Nada, no Correio do Porto, para ler abaixo ou aqui.

A cacofonia desvairada do comentador e o arfar animalesco de quem ao balcão vocifera contra uma decisão do árbitro perturba-me, desvio a contemplação e esbarro na invisibilidade da montra, onde o vidro duplo duplamente protege da amálgama sonora, sem permitir que se imiscuam barulhos e ruídos, a qualquer hora, internos e externos ao café. Por vezes, nem consigo auscultar a minha fé. Sons/somos cada vez mais distantes.

Vejo-o subir o degrau de acesso ao café num cambalear, sem vislumbrar a porta de entrada. Dá um passo atrás e enceta um par doutros arrastando a mão suada na vitrina até cruzar o olhar comigo. Sacode os ombros, ergue as sobrancelhas, aponta para dentro e pergunta fitando-me, a mímica não se faz entender a quem não ouve, ou houve, ao qual respondo apontando a porta onde há segundos tinha estado. Empurra o fino e frio cilíndrico puxador de inox duas vezes, troando como quem bate à porta da vida e ela limita-se, como as pessoas, a não ouvirem  porque só sabem espiar. Com o esgar de quem se envergonha de si mesmo e tenta não exibir uma certa ebriedade, de espírito ou licorosa, puxa a porta, sorri e entra no café. (Por instantes o som do camião parado à entrada da rotunda, os quatro piscas ligados, suscitando um coro de buzinas impacientes, surpreende a audiência que, absorta, mergulhava a vida no televisor e outros, como eu, aliás, só eu, sacudia a atenção para mais um dia somado na subtracção ao que nos falta ainda escutar.) Ao passar por mim, num envergonhado sorriso justificativo de não dar com a entrada diminui-se com um jocoso «estava na horta e não via as couves!». Sorrio insonoramente mais alto do que os sons que me rodeiam. Atrás dele vinha a solidão. Emociono-me.

A porta fecha-se sozinha, como que nos poupando ao esforço de não nos querermos sair, titubeia até ao balcão e pousa o saco de papel no metálico banco de napa vermelha. Tira duas moedas do bolso das calças de bombazina, pousa-as no frio granito rosa monção e sem necessitar de qualquer interlocução, o dono do café e empregado da vida enche-lhe uma caneca de cerveja à pressão. Assim que as moedas são recolhidas, por educação deduzo, sorve a caneca num trago de cinco golfadas, pousando de seguida o recipiente vazio com a espuma a admirar o tecto amarelado. Raspa a boca com a delicadeza possível que as costas das mãos proporcionam e sai, sem um boa tarde, boa noite até, por quem se tolhia ao jogo transmitido ou às conversas circunstanciais dos casais unidos à mesa e separados pelos telemóveis.

Não chegou a descer o patamar de entrada, descobriu mais duas moedas noutro bolso, trilhou um pé para que a porta não fechasse e reentrou, repetindo o procedimento perante o olhar inócuo de quem olha e não vê. Num só hausto adiantou a ebriez como quem se afoga na escolta invisível do que o espera do lado de lá da vidraça, da vida, onde o fragor não reverbera. Atirou-me um «boa noite» e retribuí com vergonha, complacentemente, acompanhando com a vista o percurso irregular de quem parece esgueirar-se aos pingos de chuva que ameaçam precipitarem-se sobre a tristeza. 

Talvez seja preferível a companhia da solidão, à invisibilidade de quem não se sabe viver e está ainda verde, para que o infinito o possa colher.





"Invernoso"

Aceitando o convite enviado pelo Canal N.tv, inicio novo caminho, desta vez com a primeira crónica que pode ser lida abaixo ou aqui.

"Invernoso"

Não obstante ser Inverno, é com nostalgia que olho para os dias de Sol, amenos na face, para quem vive acima das nuvens e para quem o transporta no íntimo onde se aquecem os dias que não sabemos amornar.

A chuva caiu inúmeras vezes sem que se esquecessem os pingos de, esparramados no asfalto, torrentarem-se pelas pregas que a vida vai tricotando nos solos, nos edifícios à minha volta, nos litocerâmicos que se desprendem das paredes, nas rugas que aram as faces de pessoas que outrora foram solo fértil para a vida.

Um guarda-chuva pavoneia-se ainda que ferido no orgulho e no forro, iniciado a desprender-se de uma bolbosa plástica extremidade e a vareta, arqueada, assemelhada a um esgar na face da senhora que, entre segurar o saco de plástico das compras, oferecido apenas se o total do talão das compras o permitir, suster a bolsa negra e escamada de uma pele falsa, ao contrário da que o tempo plantou nas linhas de uma vida por mim augurada de pacífica, ainda que o parco conteúdo do saco de compras faça iludir quem de muito anda, mas de pouco vive, e equilibrar no pescoço de lenço cachecolado (nunca sei onde estas modas param ou começam) a vara fria e húmida e a moca de plástico pegajoso que, com o vento, por vezes oscila e lhe atinge o queixo, ainda ela sem queixume.

A vida é um malabarismo constante, em última instância entre os nossos pensamentos. Como entre o Inverno e a recordação de um dia solarengo, de olhos fechados, na nostalgia de se ver chegar o Inverno, novamente.

2020-01-19

Que farei eu, quando o infinito terminar com a luz dos meus olhos e me descobrir, então, pedaço de terra, aluvião, um vento à sorte sem incomodar os véus, que farei eu, Deus?
Que farei eu, na ternura do amanhecer, quando em cárcere não me vir sobrevoar os montes, eu, sobre barcas e carontes, nada mais aprisionando do que a ilusão, hoje é ontem, amanhã é não.
Que farei eu, terra alcalina da súplica numa hortênsia, casta de cepa sem afluência de seiva bruta, em silêncio de tarde de domingo.
O infinito, a terra que me quer inaudito e eu, sem o saber, planto mundos porque não o sei dizer.

2020-01-14

Sagrada Família

Sagrada Família”, uma Crónica do Nada, no Correio do Porto.

Alheia à periculosidade de caminhar numa estrada nacional de costas para o trânsito, talvez porque o negro das vestes que lhe escorrem do corpo até aos pés não avizinhe nada que se possa perder além do que já foi perdido, como a alma gêmea que se faz já de sentimento erodido, segue lesta pela faixa de asfalto desgastado, no limite entre o traço contínuo, tracejado aqui e ali como locais onde por analogia se possa mudar de destino, e a berma que resvala para um empedrado, musgado, esburacado caminho por onde a água corre apenas por não ter escolha.
Na mão direita, suspensa como uma pequena lamparina a óleo alumiando as noites e os dias desprovidos de luz, dentro e fora de nós próprios, uma pequena casinha de madeira, como todas devem ser, as casas, pequenas e de madeira, onde vivam entre nós e veios mais ou menos encostados aos corpos que nos permitem colmatar a solidão de sermos por vezes ermos, transporta gentilmente uma família, sagrada.
Dentro do cubículo, às escuras pelas portadas fechadas, carinhosamente presas com uma chave minúscula onde uma meia volta chega para que não vá o Pequeno dar de olhos com o estado em que o mundo está, seguem, com um ou outro solavanco, as imagens assentes no soalho. Parecem adormecer no ritmo da caminhada, talvez descansando da última estada ou embevecidas da pobre esmola ofertada, como é oração de pobre que do bolso tira nada e talvez por isso chegue mais depressa ao céu.
Ajeita o lenço negro que, na cabeça, acalenta as cãs, puxando-o para o queixo, não sei se pelo frio que os carros em velocidade acelerada trazem no rasto, se pelo pudor de se ter corpo há muito não afagado, além do borralho e da noite consoada com o Porto e o pão de ló. Continua a caminhada, a sagrada família como companhia, talvez até como único motivo de ver nascer o dia, os carros tangem-lhe os passos, mas nada abala o pé de quem se deixa carregar aos ombros da fé. 
Não há destinatários, nem lares, que acolham tal presença, o mundo já não é de quem em Deus acredita, vale tudo sobre a palavra dita. Por isso, após ronda sobre as casas usuais, chegada a casa, o portão de madeira apodrecida na beira do caminho permanentemente aberto, e é assim que está certo, corre para dentro. Os cavacos secos rapidamente abandonam o estio e estalam escancarando as entranhas secas, ajudados pelas pinhas, abrindo caminho ao fogo que começara a aquecer a cozinha. Assegurado o ar um pouco mais quente, a portinhola aberta com todo o cuidado para a claridade não ferir os olhos dos modestos habitantes, a lamparina acesa em frente ao pequeno oratório, as mãos em concha na malga onde a boroa sorve boiando o negro ascenso café, recita-se a ladainha orada de olhos fechados para que não se distraia a devoção e assim se deixa o dia despedir em paz. Ou talvez seja a solidão a esconder-se na religião, tanto faz.
A noite encarrega-se de nos trazer o frio, os cavacos exaustos desenrubesceram e para que não se constipe o mundo, o menino Jesus, olhando em redor, deixa a mão do Pai e vai, pé ante pé, resguardado no olhar enternecido da Mãe, puxar o xaile que resvalara ao chão da cozinha para as pernas da velhota, que recita no hiato entre o sono adormecido e o profundo «Possamos depois bendizer-vos por toda a eternidade no Céu» e o petiz Jesus, já no portátil oratório remata num sorriso maroto e cândido «Ámen».





2019-12-18

É do futuro o entrelaçado passado que me soçobra, não pelo vento, nem a falta de alento, mas pelo que de mim me ausculta, vitrificado, o outro eu que não meu, teu enfim o infinito calado, como a palavra silenciada o meu cajado.

2019-12-08

Não devia viver assim

Não devia viver assim”, crónica do nada, para ler no Correio do Porto ou aqui.

Sabermos o quão a madrugada nos molda para o dia é adiantarmo-nos ao nosso crepúsculo. Não o imaginei por iniciativa própria, mas por descortinar pelo fumo da chaminé de aço inox ou pela senhora que, agora, passa por mim com uma rodilha no alto da cabeça, o saco de plástico, que ganhou as vezes de uma seira de vime, das compras equilibrado, uma mão sustendo o pacote de bolachas e a outra mão, alavancado a vontade de comer, com bolachas Maria, num acto mariano de alimentar a alma numa manhã fria para o corpo.

As portas ainda não descerradas quando a braseira ou o fogão a lenha parecem já trabalhar, exibem a casa fechada ao tempo, onde os anos se amontoam no corpo regado a vinho tinto, maduro, e panelas de sopa, verde, que são sorvidos em igual quantidade, numa miscelânea apropriada às manhãs, onde os amontoados restos de poda, folhas varridas com o amor que se sabe ter ao Outono em que entramos, na estação e no apeadeiro pequeno e abandonado que somos, descansam derretendo-se derreados pelos primeiros oblíquos raios de Sol que entorpecem os olhos, ainda adormecidos, enquanto não chega a gasolina e os fósforos.

– Disseram-me que não devia viver assim. – foi o que ouvi quando já perto do meio-dia, a porta entreaberta por onde espreitavam a boroa acolchoada pelo saco de pano, o copo e a caneca de vinho, e o prato virado ao contrário para que a fuligem não se abastecesse na sopa e lhe enferrujasse as articulações.

– Mas é assim que eu gosto e prontos. – uma pequena pausa – Já não tenho idade para prestar contas a ninguém. – continuou num desabafo interior que verbalizou sem querer, admirado, olhando para o copo vazio e caneca cheia quando, regra geral, o que lhe dava coragem era copo e caneca ambos vazios.

Quando chegamos à idade de sabermos não ter idade, seja para prestar contas, seja para não nos deixarmos subtrair pelos cálculos doutrem, sabemos que o mantido perto do peito tem o condão de nos avivar por dentro o calor que esquecemos, distante, em braseiro quase apagado. Talvez por isso, escondido entre parágrafos, com as portadas abertas agora, eu olhe para ele, sozinho, feliz, na azáfama de uma vida quase irreal, um paraíso que conhecemos apenas pelo resto de couve que levou a boroa ao forno. Resto-me reduzido à matemática da vida cuja equação, possível e determinada, é solucionada sem término ou adeus, porque a vida dele, e também a minha, é de Deus.


2019-10-02

Órfãos da misericórdia

Órfãos de misericórdia, crónica do Nada no Correio do Porto.

“Órfãos da misericórdia”

Quando me aterram as memórias, pauso-me no hiato entre as vidas que sei ter conquistado à morte. Afinal, a passagem de um mundo para o outro está ao alcance do destapar, paulatinamente, o postigo onde o musgo calafetou os espaços entre as tábuas de madeira toscamente pregadas. A liberdade oscila no espaço a percorrer desde que nos soltamos das amarras do nosso próprios cais, até ao sereno embalar de um homem só, na maré, de frente para o destino, em pé.

Embora me consiga envolver e desenvolver de encontro ao portão de ferro, o arame farpado retorcido e as inscrições germânicas em terras polacas, ostentam tudo o que poderá ter de enganador na palma das mãos de Hades. 

Concentrados num campo estéril onde apenas o sofrimento irrompe, perdidos no caminhar árduo da imemorável história dos pisados, vejo-os oscilar na existência como pequenas marionetas cujos cordéis urdidos foram pelos que, calados, compraram o horror.

Percorro o irregular caminho em terra batida, tento não vê-los encostados às paredes, fantasmas presentes porque além de esquecidos, votados ao lacrimejar turístico cuja próxima boutique fará obliviar a indignação, velam pelas barrentas paredes cujos tijolos alicerçados sonham pela desconstrução do mundo.

Mudo, por entre edifícios, ergo-me pé ante pé, de memória em memória, como se cada mirar me fosse atirar ao chão e, mesmo este, indignamente sentindo-me, jamais poderia caber-me porque quem se deseja viver, não se cabe neste mundo.

O barrote permanece estruturalmente virado para a parede onde prisioneiros de corpo peneirado tombaram, libertos, fuzilados por guerreiros recrutados nas quintas latifundiárias onde, assim esperam, pequenas crianças de cabelo louro e olhos azuis correm, inocentemente, de mãos abertos por entre milho, cevada, trigo, longe de imaginar que os pais, tão amados, escondem os olhos fechados por detrás do fumo do fuzil, aspirando que não lhe vejam o rosto com o trilho húmido de uma lágrima.

Emudecido, com o coração abatido e encostado ao peito, trago os ouvidos arranhados pelos gritos que as paredes gazeadas viram exulcerar. O sofrimento é algo que não se raspa ou caia, permanece cinzento, ermo, ainda que o cobramos de matizes, como nas décadas volvidas no capítulo da história, sem termos abraçado órfãos da misericórdia.



2019-08-23

Pagaria, caso as nuvens fossem dinheiro, o que necessário fosse para ter, sempre, a refracção das gotículas de água num dia de sol tímido. 
Engano o torpor de uma viragem na estrada com a promessa de ser, novamente, o som abafado da surpresa de uma criança a ver pela primeira vez a influência de um sorriso.
Tenho gastado as horas, talvez por isso o tempo ranja quando passa perto de um sentimento e o vento se faz ao caminho, na maior parte das vezes sozinho, para se sentar no colo de alguém que o embale, até ele se recordar daquilo que realmente vale.
Deitado, a noite subiu já até ao meu peito, preparando-se para me cobrir.
Agora sim, é hora de dormir.

2019-08-16

Dás-me um brinquedo?

Dás-me um brinquedo?”, crónica para a secção Crónicas do Nada, no Correio do Porto.

- Dás-me um brinquedo?

É impossível perceber onde terá ele visto o brinquedo e qual terá sido, as roulottes de bebidas e comidas sacudidas pelo ribombar das colunas que, ritmicamente, soltam decibéis de uma verbalização cacofónica muitas vezes ignóbil, orlam a avenida onde, longe agora da passividade das caminhadas diárias, se deslocam afobadas pessoas, infantis, adultas e indefinidas em busca do que é que quer que seja que lhes sacie a ansiedade que ladeia a ida à festa.

- Dás-me um brinquedo? – retorquiu.

Virei a cabeça, o puto cavalgava os ombros do pai, talvez antecipando uma ida ao carrossel infantil, trotear num cavalo tosco, rodar um volante a medo para a roda não sair do trilho, tocar na sineta do camião de bombeiros ou cintilar num unicórnio rumo ao arco-íris, destino final da fantasia pueril que, em adulto, não passará de um risco colorido no céu, longínquo, apesar das tentativas do infinito trazer à razão a ameninada escapada do mundo (de)crescido. Pedia um brinquedo qualquer. Seguindo-lhe o olhar percebi que mirava em desejo um carro que se destacava por entre uns caniches horríveis, de olhos iluminados como possuídos cachorros saídos de um pesadelo, que ciganos vendiam ao mesmo tempo que premiam com força o gatilho da pistola fazendo disparar bolinhas de sabão, estas sim bonitas reflectindo a iluminada noite barulhenta. O carro, a exemplo do restante, fazia mais barulho (o barulho não faz bem e o bem não faz barulho) do que propriamente exibia funcionalidades que o destacassem. De plástico com a reconhecida qualidade duvidosa, içava-se e transformava-se num robot, para depois agachar e voltar a ser carro. Encostada à caixa do carro, o resto de um cartão ostentava o preço, cinco euros, rabiscado em caligrafia que me fez duvidar se seria, de facto cinco euros ou, então, um “s” e um “e” num trocadilho entre o preço e o valor, 5 € ou SE?

- Dás-me um brinquedo? – com um pequeno puxão virou a cabeça do pai na direcção do carro, fazendo-o desequilibrar um pouco e cabecear um balão de um homem-aranha em pose pouco máscula e com o cordel amarrado ao local onde estaria a masculinidade do aranhiço, caso este a tivesse.

O pai já lhe tinha avizinhado a intenção, enquanto o braço esquerdo lhe segurava o equilíbrio com a mão no joelho do miúdo, a mão direita contara os trocados em três moedas de euro.

- Estes não, filho, não prestam. Queres antes um gelado de morando e chiclete? – propôs o pai olhando para o preçário da máquina azul-claro da sorveteria, equilibrando rapidamente o orçamento com aquilo que a necessidade poderia comprar, escondendo de si mesmo a vergonha de apenas ter nas mãos a ternura para o abraçar.

O pequenito, grande na compreensão e lesto na álgebra simples do amor, contrapropôs:

- Prefiro um só de chocolate e tu compras o de baunilha. É o que gostas, não é?

E eu, de borla, esqueci o preço e compreendi o valor numa noite contrafeita na ida à festa, ganhando a vida a fazer-me festas no coração.


2019-08-08

Dentro do teu olhar habita a visão do que vislumbrei antes de saber observar.
Viste?

2019-07-24

Os que têm tudo e não são felizes com nada.
Os que não têm nada e são felizes com tão pouco.

2019-06-20

Serafim

"Serafim", uma Crónica do Nada no Correio do Porto.

Foi com surpresa que numa das incursões pelo miasma social deslizei a cara do Serafim. Era uma fotografia simples, na expressividade artística e no sorriso aberto, puro e monocromático, colorindo o passado que, grande parte das vezes, se sobressalta na minha mente, transportando-me para os locais onde, policromaticamente, sonhava com um futuro matizado. Estava, afinal, errado. O Serafim morreu e nada acresce em mim, além da falta de rememorações que sustentem o seu sorrir. Esta vida é, por vezes, um dia no aguardado porvir.
Preciso voltar quase 30 anos, encostado à orla plástica da máquina de vídeo-jogos, a música da placa de som, arcaica agora, debitando os acordes desacordados de “1942” ou qualquer outro jogo, falha-me a memória, o barulho ao balcão, o tilintar dos talheres, um copo que se esvazia, o marulhar seco da espuma na cerveja à pressão a deslizar sem qualquer maré ou fé que naufrague a secura de um dia de calor. Era o Zangão, ainda é, diferente agora certamente, mais pequeno já depois de eu crescer, como tudo o que me acompanhou na infância e adolescência e, agora, no mundo adulto se metamorfoseou. Estava quente e naquelas tardes joviais, onde os minutos permaneciam inalterados durante largos períodos, o Serafim saía do parque de estacionamento. Em pé, entre dois carros, levantou a mão esquerda, a palma da mão virada para si como se um espelho invisível ali tivesse surgido, a mão direita, fechada, doseava um acelerador imaginário e ele, com os lábios tremendo pelo imitar do barulho da mota intercalados pelo pi-pi-pi da marcha-atrás. Consentaneamente, todas as pessoas do restaurante olharam pela vitrine, ninguém esboçou o menor riso ou o mais displicente olhar. Havia solenidade, compreensão, carinho e, aqui e ali, um olhar de amor e admiração. Era o que o Serafim era. Aglutinador de bondades.
O Serafim morreu e agora, com vergonha, não me vejo correr por aí como quem conduz um veículo motorizado ao ritmo de uma existência calma, infantil, conduzindo o destino numa mão enquanto a outra, se chover, mimetizará o limpa para-brisas e os salpicos de uma vida que não sabemos viver na plenitude.
O Serafim morreu e nada acresce em mim, pelo contrário, falta-me algo indistinguível à visão, ao sensorial desvairado que nos sustém deste lado da realidade.
O Serafim morreu e com ele foram centenas, talvez milhares de centelhas de simplicidade genuína, inocência gratuita, arrancadas a quem por ele não ficou indiferente, na felicidade empobrecida pela claridade de um sorriso, exaurida da sua fronte deixando a aba do chapéu vermelho molhada, transpirada.
O Serafim morreu, ascendeu em eterna criança levando consigo tudo o que de bom em nós florescia quando a inocência e o amor passavam por nós a conduzir um invisível camião dos bombeiros.
O Serafim renasceu, mas não o vemos, somos apenas o que em nós finda e, tristemente, estamos cegos ainda.


2019-06-19

O ser é ser-se, ainda que não se seja, talvez, pela falta de conhecimento sobre o desconhecido que se É.

2019-05-20

Desaguando

"Desaguando", ou nova Crónica do Nada no Correio do Porto.

Com o mesmo semblante de quando o horário atravessava uma ou duas aulas sem professores, pela inexistência ainda de portaria, na escola e no mundo, saíamos portão fora, descíamos contra a corrente da estrada nacional e mergulhávamos, inocentes, por debaixo da ponte, para construirmos pequenos lagos no rio areado, esgravatando represas imaginárias e rindo dos girinos aos quais, erradamente, chamávamos caganatos.
O que aprendi na escola fi-lo sem o saber, orbitando pavilhões erraticamente, experimentando pequenas rimas mentais, escapando ao som dos futuros que se plantavam, para me saber de volta a mim quando a matemática se lembrava de espreitar o universo e encontrar-se sozinha, porque não o compreendia.
Hoje as ruas percorrem-me sem que eu me aperceba ser asfalto. Paro o carro ao lado do tanque, o som das rãs e os seus pequenos olhos perscrutando e analisando a ameaça que eu lhes possa coaxar. A água brota da parede como um choro eterno ou uma torrente de vida, dependendo da maresia que eu traga no olhar, hipnotizam-me as eiras, beirais, as lojas ou cortes e os seus lagares graníticos que soluçam uma fermentação agora inexistente, as lajes negras abandonadas, convidam-me a caminhar pela infância, cumprimentar os mesmos rostos que comigo partilharam a catequese, levantar a mão a um velho mais velho do que quando eu era mais novo. Eis que acaricia a terra, escrutina o local onde cravar a enxada, limpa o suor com as costas das mãos para que a palma não se saiba cansada, ergue o corpo e a mão que se agarra à cintura, o olhar ao alto na penitência de não se ter raízes e a libertação de não se saber raiz. A escavadora amarela descansa ao longe, aglutinando descanso para, na próxima segunda-feira, voltar a libertar dos arreios humanos as enormes pedras que susterão a terra e o alargar do caminho. Com que facilidade nos transportamos ao redor de tudo, sem que saibamos o percurso para nós mesmos.
Desligo o carro, já não me alcança o coaxar das rãs, pela distância ou pela ausência de ameaça (ou curiosidade?) que poderia representar. Cumprimento-o, a ele e ao cansaço de sete décadas vividas e um punhado de anos ausentes, a horta sorri-me de volta e ele, que me confidenciara ter pensado em acabar-se depois da morte da mulher, levanta a beira da boina em saudação. Que monumento nos construímos à sombra dos anos que capitulamos em sincronia com o Sol? O homem, a mulher?
Digo-lhe para não se preocupar com a terra, que sempre tratou bem de si mesma, ainda antes que a soubéssemos plantar e ele ri-se, diz-me que está é a tratar dele mesmo, as couves, cebolas, nabos, cenouras e tomates são a vida a conversar com ele. E isto a escola não me ensinou ou talvez o tenha feito nas vezes em que fui para debaixo da ponte da pedra ver os girinos.
“Tem razão”, rio enquanto levanto o braço e esboço um acenar despedindo-me, “esta vida são dois dias, um a seguir ao outro” e antes que conseguisse baixar a despedida e novos acordes soassem no rádio trôpego do carro, respondeu-me,
“Para ti sim rapaz, mas para mim não, eu já cá não estou.”


2019-04-04

Quiromancia

“Quiromancia”, crónica do nada, no Correio do Porto.

Quando o vento oscila no percurso como um puto feliz num baloiço improvisado, deixo-me traquinar e deixar que o casaco desapertado flutue a seu bel prazer. Os muros, menores agora, escalam a geografia de um destino que se faz cada vez mais depressa num percurso onde me perdi porque saberia onde me encontrar. Tenciono permanecer aqui, na medida que me procuro por entre as barítonas noites altas de um tempo que se faz mais baixo. Já não se espremem as casas, nos ferrolhos orgulhosos gravetados por mãos austeras cuja calosidade amansava no rebordo quente de uma tijela de caldo. Agora, qualquer sonho é um escaldo, de solidão e imensidão, ou solidimensidão, vertendo vapores aqui e ali porque o lume com que se tempera a simplicidade tende a tremeluzir e deixar, também aqui e ali, pequeníssimos fios de uma aletria amarelada por alturas do Natal. Dir-me-iam que agora ninguém leva a mal. Talvez seja verdade, mas olhando o desnudado pulso onde não cabem heranças mais do que erguer o peito num inspirado cálido anoitecer alaranjado, quase que a vida nos faz pensar sermos pobres.
É aqui mesmo que me deixo descansar no alto da noite, sobre a pedra falheira que me viu crescer a caminho da escola, a caminho de casa, a caminho do caminho, olhando-me ascendido a um sonho em rota de rendilhado estelar que me tacteia como se fosse, algures, ser alguém. Assim, sentado, pés no argiloso gretado que o tempo comeu, como me comerá a mim, cotovelos assentes nos joelhos, ergo a cabeça enquanto um insecto nocturno cujo nome desconheço, nome e raça, gravita a minha cabeça. Está morna a pedra, ainda, ou talvez esteja eu ainda morno, parado, saboreando lentamente o ar nocturno e aproveitando que poucos passos aqui passeiam, poucas vozes aqui volteiam, apenas eu a escutar os meus risos inocentes de criança, sacola ao ombro, pontapés na poeira de um caminho desempedrado e crocitares que aprendi a desmistificar. É aqui ainda que estou, anotando mentalmente tudo aquilo que escreveria num bloco assim que pudesse, não fosse o caso de me esquecer, o que veio, sempre, a acontecer. Do outro lado mira-me bonacheirão o antes gigantesco inclinado muro, a meus pés, as ervas dispostas em circular, quase espiral, exibem o que parece ter sido o ninho de um animal, envolto em si mesmo, coberto pelo estelar edredão que o universo brinda a quem se sabe ser animal, o focinhito encostado às patas traseiras, ou ao ventre, ou a outro animal que com ele se possa ter apoderado do que sabem eles não ter pertença, ou não o saibam, por serem animais ou, por feliz acaso, não serem hominais.
Desço quando me parece ouvir alguém vindo no caminho, acelero o passo e sacudo das calças, enquanto ando, o musgo e algumas pedras que pretendem fazer o caminho comigo. Ao longe pequenos tremeluzentes led’s iluminam a noite, brancos e vermelhos, coletes reflectem caminhantes irreflectidos ou talvez reflexos da saudade que sinto de ver um pirilampo.
O meu caminho é agora de todos os que caminham e, talvez por isso, me sinta saudoso de ter na mão o percurso para a escola, a linha da vida que me olhava, de soslaio, como se fosse esquecer-me dela.


2019-03-07

À sombra da fé

À sombra da fé, a crónica do nada, para ler no Correio do Porto.

O Sol, ainda que não a pique, cauteriza a tarde esvaída e o meu impreparado caminhar até onde quer que o destino me leve permite-me ver, abrigado pelo muro de pedras irregulares no regular poligonal erigido à força de mãos que, há muito, o pó não provou, a sibilar certeza do quanto infrutífero é o respirar apenas para satisfação da hematose.
À sombra do nicho mariano, onde Nossa Senhora se encosta por vezes um vulto negro descansa. Ei-lo negro, não da tradicional matizada maldade, mas porque o caminho desde a estação é-o subindo, andando e, nestes dias, arfando, pelo cansaço de caminhada e jornada, agora sem boleia, nem marido.
Para trás o comboio, que em verdade o diga vai já lá à frente, silvando, o saco de plástico prenhe de compras feitas de palma da mão aberta na contagem dos cêntimos, centenas deles, esbate-se no empedrado chão, prenhe, exibindo à giza de um busto envergonhado o pacote de bolacha maria, dourada, com que, aqui imagino eu, à lareira se saciará enquanto o feminino negro enlutado se balança no banco feito de cepo de eucalipto, já rachado pelo gume afiado do tempo.
Vai aquecendo a tarde. O muro sacode-me dali para fora, as folhas espessas do limoeiro zurzem atrás de mim e a imaginação, filha única da solidão, envia-me de volta ao meu caminho, sozinho, olhando para trás o que na esquina da fé se sacia, a doce harmoniosa fluência do dia para que depressa chegue a noite, de inverno, bem longe deste calor de inferno.
A viuvez carrega-se de solidão, cegos que estamos vemo-nos pouco do lado de lá, mau grado para quem parte, saciado, descansado, sem conseguir estender para o lado de cá mais do que um esbaforido sentimento, um arrepio inusitado que nos assalta sem nada do nosso lado. Respondendo à carta emocionada toscamente escrevinhada por entre erros linguísticos, sem grandes subterfúgios gramaticais, o marido já sacudido da vida terrestre (e pesada) sentou-se ao lado dela, ali à sombra da fé, com a mão de vento na sua fronte afastando um grisalho cabelo pendido, perdido, permitindo que a proximidade da distância dimensional se esfume por entre o suor e a saudade de quem não vê a eternidade.
Ela, mulher sempre, viúva recente, preparada que estava e na ausência de transeuntes ou crentes que ali fosse depositar a fé, nas costas do talão da mercearia começou a escrever a meio sorriso, “Senhor meu Deus, criador do céu e da terra, tu todo poderoso e sempre eterno santo, pai de todos nós, leva por favor estas palavras ao meu marido. Meu amor querido, faz hoje um ano desde que partiste e eu, aqui, nesta tarde quente, sinto tanta falta tua que peço a Deus todo poderoso, me leve para teu encontro, onde possa sentir novamente o teu amor”. Findas as palavras pelo talão ser curto, ergueu-se e no incensário onde muitos colocavam velas coloridas, deixou arder o papel e as palavras, que ascenderam até onde a vista pode saborear. A seu lado, o marido etéreo sorria, havia algum tempo que o sabia.
Hoje à noite, à lareira, o cepo cairá para o lado oposto onde tombará o pacote das bolachas maria, o peso do luto erguerá ao céu o reencontro da saudade com a alegria.


2019-02-13

Sempre

“Sempre” a crónica do Nada, no Correio do Porto.

Pouca importância nutre aquilo que nos alimenta, seja o floculado céu invernal, que assombra o horizonte com os fantasmas vestidos de cinzento ou qualquer que seja a cor que nos amedronta, o sonho e a vida.
Quando a chuva nada mais faz que nos atirar, humidamente, as espessas gotas de água contra o para-brisas, paramos ainda que nos movamos um pouco sem rumo, que é a forma como se desloca quem não sabe para onde ir.
Há uma infinitude de caminhos onde nos podemos escrever, desde o carteiro à chuva, entregando cartas por entre as espessas bolbosas gotas de chuva na viseira do capacete, ou as gotas que mecanicamente se repercutem nas poças do chão, as mesmas que aspergem saudade do rio que corre ali abaixo do armazém onde colhi parafusos de cacofonias milimétricas que nem sabia existirem. Hoje nada mais sobra além de mim e dos meus medos, enquanto as tuas mãos finas caem nos seixos rombudos e colorem o cinzento prosaico com que me pinto, tudo envolto em labirínticos domingos por onde escorre a etilizada sobriedade, ou sombria idade, sem me saber eterno, quando me esqueço do fraterno, almejando nada mais que o lampejo do farol a pender sobre o mar, em ilhas de arcanjos, comp quem se procure estrela num céu universal ainda não metamorfoseado pelos perscrutadores olhares de uma criança, inocente, presa ao feixe de uma lanterna nocturna, incandescente.
Até hoje, nada me acompanha melhor que a saudade, a mesma que escorre no inverno dos brotos graníticos da aldeia que sonha em ser cidade. Deus nos livre, tal sina, eu como aluno que a mim mesmo ensina, sem me caber, sobriamente etilizado, construo ao redor da imensidão uma espécie de tição, aquela madeixa dourada sobre os campos que nunca colhi por não me saber semear ou as crónicas onde me prostro e solicito ajuda, porque embora me digam que a quem muda Deus ajuda, nunca me sabendo sólido me procuro molecularmente nas órbitas onde nunca me excitei electronicamente sucumbindo, anião ou catião, quem me soube eu longe de mim, gigante, anão, sem caber nas milimétricas fronteiras de um arquivo digital em catatónica crónica.
Agora que as folhas permanecem simples, ordeiras, ao lado deste digital balbuciar do que escondo, remato as linhas com a linha que me soube urdir, a mesma que me lanças, Deus, sem saber fugir porque me procuro nas faces de quem nunca soube existir e na existência conjugada de uma realidade que me foge, a cada dia, de um sucumbido latejar do lado esquerdo do peito, a felicidade, a feliz, idade, onde me sei não existir ontem, hoje, sempre e, talvez por isso, me lamente, escondido por detrás da granítica expressividade na esperança que me saibam ler. Ah, como me saberia bem estender as folhas alvas e sem qualquer expressividade gramatical me deixar soletrar, pé ante pé, sem garatujar o verborreico gramatical, até a próxima linha ser a minha mais recente crónica.


2018-12-24

Natal ou se Deus assim me quiser

Crónica do Nada, sobre o "Natal ou se Deus assim me quiser", para ler no Correio do Porto, aqui.

A porta do bar do móvel da sala abre-se, o cheiro característico emana e preenche-me o horizonte das memórias. O Natal podia ser apenas isto, abrir a porta com as suas quadrículas envidraçadas, deixando ver os pequenos panos rendados e bordados que pendem das prateleiras onde velhas tachas enferrujadas sustêm o tempo. Mas mais do que o tilintar dos copos ou da velha garrafa de rótulo personalizado, onde se degusta o valor que a mesma custou, o rendado branco apazigua-me o que me habita. Fecho a porta do bar, a televisão lamuria-se das notícias trágicas, entre uma ou outra golfada comenta-se o destino. Eis o meu desatino.
O domingo, tal como a vida, segue o seu curso. Caminho na tarde curta ao encontro de um Sol tímido, espreitando, ele e eu, por entre as nuvens cinzentamente coloridas, hoje mais espartanas abrindo caminho ao frio que se precipita. Afinal é Natal e traz-me consigo o futuro que me habita.
Em épocas, seria suficiente o olhar inocente do jardineiro municipal que, para se abrigar da chuva, sentava-se na cabine telefónica desprovida de telefone, desembrulhava o lanche da manhã enquanto com um pé balançava o carrinho, como que embalando carinhosamente as folhas que esgravatando apanhara do chão.
Em épocas, seria suficiente o olhar sorridente do amigo que, ruidosamente, ainda que sem intencionalidade, parava o tractor verde, velho, para dar boleia ao amigo que se desloca a pé no empedrado irregular da rua que me viu pedalar imaginando-me um herói da esquadrilha. E o amigo, entre o apertar de mão em cumprimento e o puxar de mão para apeamento, pendura a moca do guarda-chuva na gola da camisa desbotada.
Em épocas, seria suficiente o olhar compassivo, mas hoje, porque estás quase a nascer, cabe-me apenas a conversa com o viticultor amador, porque ama nas palavras e gestos com que poda as vides verdes e despidas, de onde pendem os cachos que o calor abrasou e secou, a esperança no futuro se deus assim quiser, amarrando as fiteiras e prendendo a despenteada e desregrada videira para que o tempo não a pode, usando termos que desconheço, pois parei apenas para que a viuvez não o deixe sozinho na negritude de uma veste invisível e a horta, o recreio animado de quem à terra se aporta, traga frutos que florem em mim e que nunca vi, quando ao fechar o vidro do carro o ouço clamar “tudo de bom para ti!”.
Nesta época, talvez me torne pessoa, melhor, ou torga, se deus assim me quiser e puder, ocupado que está agora, pois estás quase a nascer.



2018-12-23

Recebe-o. é tudo o que tenho

“Recebe-o. é tudo o que tenho”, crónica na Bird Magazine, para ler aqui.

Obrigo-me a desligar o rádio, o silêncio súbito orvalha a noite e ascende à abóbada escura que encima o horizonte. Quanto mais o circense barulho me veste no dia, mais a noite se acomete ao meu regaço, passando-me a mão pelo ombro e convidando-me a erguer o meu zénite. A estrada e seus afluentes, os quais rapidamente perscruto enquanto conduzo, descoloriram-me a íris. Por entre um outro minuto, uma saca de dióspiros coroa a tarde na sua indumentária real e um desejo sincero de felizes festas traduz ainda o que sobra da natividade. O desenfreado galopar movendo pernas apressadas, aprisionadas, percorrem galerias que vendem tudo o que não preciso. Talvez por tudo não querer, tudo me saiba a ter o nada que tanta falta me faz, a inexistente alva veste, cujos padrões coloro com dedos finos, rechonchudos, gretados e infantis, que já não possuo. Aguardo as vésperas da véspera do Teu aniversário. Tal como criança, olhando o estrelado horizonte ascendido, quando te cantava os parabéns e sorria com o fumo singelo que via sair das chaminés que pareciam nublar a noite para te aquecer na manjedoura, onde quer que estivesses. (agora a sério, onde estás?) Como ficava surpreendido quando conseguias fazer passar pela estreita chaminé a lanterna que timidamente pedira aos meus pais e colocaras dentro da minha bota ortopédica. Sempre pensei que ma desses porque gostavas da simbiose: quando não chovia eu vinha cá fora, com a lanterna em punho, fazer-te sinais de luz (obrigado pela tua). Sorrio, agora, talvez como antes. A inocência alavanca o eixo que nos permite, com uma certa incolumidade, permanecer por aqui mais umas rondas ao astro. 
Com o rádio desligado, a porta do carro aberta, o orvalho a marear-me a cabeça capilarmente desprovida, as gotículas de saudade das memórias que me constroem encontraram pouso calmo. Volto a atenção para este mundo e vejo outra porta metálica semi-aberta, o cheiro a madeira lixada, o pousar de um grampo metálico no chão, a solenidade de um pai, qualquer um, mesmo sendo mãe, na missão de construir presentes que serão entregues em forma de escrivaninha, comprada no esforço prestacional de uma taxa de juro que, juro, vale por ser apalavrada com um rectangular pedaço de cartão e um firme aperto de mão. Talvez pelo frio, arrepia-se a mim a saudade do nada, quando sem faustas luzes, mas em cintilo superior, cá dentro e no exterior, galgava os degraus depois de fechada a porta da carrinha, sacudia as mãos de serrim nas calças, olhava feliz (sem que o soubesse) para o lado e seguíamos a entregar móveis, a receber sorrisos, sacas de tronchudas, um ou outro nabo, a pequena moeda desprovida de valor por me ser dada com amor, a garrafa de Velhotes e o despreparado travo, tudo cabendo num colorido cabaz de sortes. O sortido viria depois, o sobejo do aniversário, as pratas coloridas libertas da tarefa de envolver as raras baunilhas envolviam pinhas e enfeitavam o presépio sobre musgo erigido. Não me sobram pratas, ao contrário das memórias que me vestem, tento amortalhar tudo no tamanho de uma folha de papel, em forma de crónica de uma vida (quantas terei acumulado, já?), mas de crónica apenas a festividade, o acordar lesto no dia o desejo que nunca se apagasse a chama que em mim ardia, este bafejo de uma tarde vespertina, o advento que sopra a quem de si se desatina, uma pérola que nos ofusca sem brilho ou luz, um puto nascido sem nome ou outro, a quem chamam Jesus. 
Acordo-me no tempo, o rádio ainda desligado, a vida que se encosta a mim, de lado. A natividade encima-se de um vazio que preenche e sem nada nas mãos entrega-me tudo o que peço que recebas, é o meu amor, foi-mo também oferecido há tempos, pelo meu criador.

2018-12-16

Feito cão

Eu "feito cão" em Crónica do Nada, no Correio do Porto, aqui.

Há cães feitos gente, reviram lixo. 
Assentes nas patas traseiras, abocanham as sacas de lixo que, ao infalível olfacto deles, lhes parece ter algo de alimentar. 
Não que os cães saibam o que é alimentação, roda dos alimentos, caviar ou bacalhau, fastfood ou food propriamente dita. 
Eles, cães, têm o seu sentido de preservação, que não inclui obviamente desviarem-se de grandes veículos em movimento ou de certas e determinadas pessoas, os desumanos, mas é este sentido de preservação do seu canídeo corpo que lhes faz percorrer distâncias até encontrar um aleatório maná. 
São eles gente, despojada, transportando nos olhos ainda sonhos, seja em forma de roda gigante a abocanhar, seja no símbolo universal do osso, branco, cheiinho de tutano. 
De cabeça baixa, vejo-os mastigar o plástico, a roer cartão da caixa da pizza, e depois imagino-os rindo sorrateiramente, enquanto a noite se espreguiça pelo dia fora, a deitarem-se num local de erva quente ou num buraco de terra que o sol aqueceu. 
Acredito que lhes faça falta uma mão a deslizar pelo pelo, a coçar atrás das orelhas, a acariciar o ventre quando eles, confiança ganha, se viram de patas no ar para nós, como quem diz, aqui está um amigo. 
Há uma certa simpatia, minha, pelos canitos vadios, bem tratados pelo tempo e afagados pela Natureza. 
Alguns imitam bem o homem, matreiros e alcoviteiros, parecem farejar o medo e a ingenuidade e, zás, rasgadela na carne que do barro se fez pessoa. 
O vento serrano açoita o próprio frio e um cão da serra, enjaulado, dorme alheio à avalanche de turistas, a pessoas que, com o dedo por entre as grades, o tentam acordar. 
Deve haver algo em nós, inumanos humanos, que faz de tudo o que não é bípede sem inteligência subespécie, como se todos os que habitam este planeta fossem como eles, nós, desprovidos de sentimento e emoção, sem qualquer direito a andar por aí apenas por andar.
Dentro de momentos, já eu sou cão ou, melhor ainda, faço uma lareira, abrigada do vento, pode ser num buraco de terra que o sol aqueceu, e deito-me no chão, barriga para o ar, feito cão.


2018-12-13

Outono multiplicado

“Outono multiplicado”, mais uma crónica do Nada, no Correio do Porto, aqui.

Av. Marechal Gomes da Costa, Porto, uma cidade num qualquer desígnio Outonal que não nos pende das tonalidades com que estas árvores imponentes (qualquer árvore é imponente, o Homem é apenas indiferente) urdem a paisagem.
Não sei o que me atrai mais, se o brilho oponente e invisível do orgulho com que as árvores ainda seguram algumas das suas folhas, se o desamparado abraço com que umas boas décadas de gente seguram um outro corpo desengonçado, se pelo vício, se por doença, não o sei.
Apenas o seu íntimo, se por um acaso calhar, hoje em dia raro, de o seu, o íntimo, ser coisa transparente e dotada de honestidade, o saberá. Ele e Deus, que tudo sabe (e por isso me apazigua, nesta e em qualquer rua).
Pára uma e outra ambulância, Amarante, Felgueiras e outras proveniências, distantes demais para a proximidade desejada de quem se vê agarrado a uma incapacidade, momentânea ou permanente. Os piscas vão trazendo um pouco de urgência já não urgente, assinalam a brevidade da paragem e colorem, intermitentemente, a tarde que se arrasta languidamente, pressentindo talvez que a quadra Natalícia se aproxima.
De dentro do carro, as gotículas gordas, roliças, sustêm a respiração para escapar à gravidade e multiplicam as cores alaranjadas, obrigando-me a focar o olhar fora do para-brisas.  
A porta lateral da ambulância rubra anima-se e sai em primeiro lugar, parecendo animado de vida, um andarilho, as raízes metálicas, inoxidáveis, de uma árvore de seiva viva em caule morto. 
Ainda não me tinha emocionado, havia de acontecer agora. 
Um Bombeiro, gente dos seus cinquentas, cara austera, sai da ambulância, pousa o andarilho no passeio desnivelado e com um carinho que as ruas da cidade me desabituaram a ver amiúde, alça a perna, a bota militar de um soldado apaziguador calca com veemência o degrau de plástico, entra na ambulância, passa o braço em redor de um peito feminino, abraçando com força a alma de um corpo que não se levanta, içando à vida quem a ela ainda se agarra. 
O resto veio depois, mas eu tinha já ali o meu quociente, dividendo e divisor na equação de dividir a bondade pelas pessoas e, não fosse estar atento ao horizonte, quase passava despercebida a folha que se tinha desprendido dela própria, caindo dentro de mim.



2018-12-09

Podes entrar

"Podes entrar" na Crónica de Domingo na Bird Magazine.

Os domingos colorem-se, na ausência das vicissitudes profissionais, pessoais e existenciais, de vários sonhos que me alimentam desde que, bem, desde que me conheço. 
Podes entrar.
Convido-te a afastares o portão, feito de cordas bamboleantes, que servem apenas para assinalar o local onde começa a privacidade. Construí-o há énios, entre vi(n)das e partidas, como o sítio onde começa a vi(n)da e termina a ausência. 
Vais encontrar um pequeno caminho, aqui e ali com pedras toscas no chão, mas na essência feito com gravilha, cascalho e alguns pedaços de pele de crianças que se atropelam enquanto tentam voar como borboletas. 
Não te sei dizer como vim aqui parar, talvez pelo cansaço e aventura.
És bem vindo(a), traz-te e também os teus sonhos. 
Escolhe um local, escava um caminho, acomoda-te e faz de ti o que sabes ser, não o que te ensinaram, mas o que aprendeste. 
O caminho segue por entre clareiras e para por momentos, tu, não o caminho, debaixo de carvalhos. 
De noite tudo se ilumina, maravilhas da energia solar, mas essencialmente tudo reluz porque é de noite que, fechados os olhos, outros se abrem e vêm o que tudo existe. 
Vais encontrar tudo o que precisas, porque nada cá tens, apenas eu, outros, abraços e responsabilidades. 
Ficas cá enquanto quiseres, enquanto te sentires afim, longe de tudo e perto de todos. 
O teu talento é mais um caminho e uma ponderada conta a saldar, tudo se conquista com esforço e dedicação, em troca de todo o amor que possas receber e, um dia, cansado(a) vais subir aquelas pedras, não essas, aquelas, ali, atrás de tudo, em que as urzes parecem nunca perder a cor de Miguel Torga, e vais sentir-te livre e, quem sabe, talvez também tu ilumines este mundo, estes carvalhos ou, então, te deixes subir num jogo de luzes boreais para onde já moram todos, inclusive a parte de ti que é nada. 
Vais descobrir, lentamente, que a sinceridade tem pingo de suor, que o dia amanhece não pelo sol, mas por ti, que sentes a responsabilidade de seres mais que alguém e te descobres, também. 
Acomoda-te, livre, onde pensas a terra ter o teu nome. 
Escolhe uma árvore, senta-te e descansa, o dia será grande e o país ainda o é maior. 
As ferramentas estão ali no barracão e as tuas ideias, não as que pensas, mas as que trazes no coração, são manejadas por ti, para que onde quer que lavres, nasça um fruto do que melhor sabes.
Aceito inscrições para o local de todos nós. 
Só faltas tu, traz no teu silêncio a tua voz.
Sorri.

2018-11-25

Sulcos

"Sulcos", crónica de Domingo na Bird Magazine, para ler neste link ou aqui.

Caminho nesta tarde cinzenta e húmida de Outono.
Há momentos em que ao invés de calcar as folhas dos plátanos, arrasto os pés e vou deixando dois sulcos, como lentos carris, atrás de mim. Existe em nós algo narcisista, de cunho histórico, a presença que gosta de percorrer caminhos e deixá-los assinalados, como quem afirma:
- Passei aqui.
Algo semelhante ao que encontramos em todos os parques e locais públicos, mais ou menos frequentados, as vulgares frases “Eu estive aqui” ou o usual “Amor para sempre, de Joaquim e Joana”. Os nomes são inventados, não por mim, mas por alguém, eu apenas escolhi dois aleatoriamente e juntei-os naquela pequena frase, cicatrizada tumefactamente na face de uma madeira que já se cresceu árvore.
Falava, ali acima, dos sulcos. Percorri uns metros e olhei para trás, o vento tinha levado já algumas folhas para tapar os sulcos, meus e de outros, há várias manias com os mesmos malucos. Senti empatia com o vento, teria pena, mas do vento que se liberta até da própria liberdade nada se tem além de empatia, simpatia e apatia quando eles nos silencia a fala entreposto entre dois olhares. Quando passou por mim novamente agarrei-o por um braço, levava a cabeça baixa e ofegava. Passei-lhe o braço pelo ombro e fui com ele, devagar, deitar e acamar as folhas que eu próprio tinha levantado.
O trabalho em equipa é mais lento, mas bem mais produtivo.
Acabei, parámos os dois ao mesmo tempo, a última folha foi colocada por nós ambos simultaneamente. Olhámos um para o outro e sorrimos, ele seguiu o caminho dele e eu, enquanto o via disparar em direcção ao horizonte, segui o meu caminho a pensar que é provável ser mais fácil, digo eu, pararmos um pouco, erguermos os pés e voltarmos atrás, cravando-os na terra e arrastando-os, escrevendo cicatrizes na vida, parar e voltar, ir e viver, nesta ou noutra vida, percorrer os mesmos sulcos, e lá, no início, onde calcámos a vida, ou alguém, talvez nós mesmos, mirar o local e dizer:
- Desculpa.
Facilitaríamos o trabalho ao vento.
E à vida.
Pensava nas folhas, nos sulcos, nos caminhos percorridos, nos que sulcam caminhos e só vêem os seus mesmos passos, onde passam tanto tempo contemplando o caminho que nem o sabem percorrer, os que pensam que caminhos não existem que não os que os seus próprios pés calcaram e que nos dizem:
- Não vás por aí.
O súbito esmaecer da luz diz-me que devo acordar, o carro da frente já arrancou e eu, que gosto dos meus caminhos com neblina, por vezes apenas no embaciado da retina, faço o mesmo, piso a embraiagem, engreno a primeira velocidade, levanto o pé levemente e arranco.
Já não tenho tempo de rever o meu pensamento impresso.
Chego a casa.
Deito-me, fecho os olhos, levanto o meu outro eu levemente e arranco, para lá da vida.