2013-08-29

Já todos fomos al(gu)ém. De repente, como quem pisca o olho, 20 anos transformam-se em traves de cimento, gares tecnológicas, pessoas vestidas de botões e cristais líquidos, pregões substituídos por vozes maquinais e toda uma tarde cravada em cinzas, com que prenunciando a erupção de um vulcão que, paradoxalmente, apesar de parecer volátil e prestes a expelir a camada bafienta do outro nós, está ainda tão enraizado em tanta falta de nós no outro.

2013-08-27

As letras têm sal e e a quinta nota faz-se música, apenas para ouvir o sussurro do vento morno de verão a namorar com a persiana do meu quarto.
A falta que me faz uma noite goticulada em telhado de zinco ou chão de estanho, estranho, a cair pela atmosfera como quem se veda ao céu.

2013-08-26

Pela janela do meu quarto
espreitam cortinas descerradas
lá entre vidraças que se fazem postigo
alcançaram a custo as saídas erradas.

Jamais o horizonte,
a faixa de vida que se espreguiça ao longe,
nasceu para deixar viver
entrelaçado, nas agruras do fado
lá entre os postigos que se fazem vidraça
as saídas, erradas, que a custo alcança.

2013-08-24

O encontro surge a meio caminho do Eu Tenho.
Desagregado do que me agregam, do ter ao parecer, enfermo ou são.
Acima do que caracteriza, incaracterístico, um verbo.
Sou.
Tenho-me a mim, nao este que manuseia dedos, mas quem aos dedos amavelmente solicita colaboração, entre mundos e universos, para grafar um desacordo ortográfico, porque eu Sou e serei, além, aquém, Eu, porém.

2013-08-18

Ao calor,
que me liberta da roupa folgada que teimo vestir,
estou nu,
sem haver que vista ou repare
a minha escrita desnuda,
nos passos trôpegos
no silêncio,
no vazio,
nu, vazio.
Inebriado resisto
ao chamado
às vozes que ninguém ouve,
à prisão em que meu corpo se transforma
e a todos os que as pupilas reflectiram.
As palavras tive-as,
eram esquissos das obras que sonhei fazer,
resistiram dias, creio que meses
ao chamado de um cantar inaudível,
irresponsável até, 
que faz de meus braços eu mesmo
e de mim, uma pálida pirâmide
cujos hieróglifos suspiro
por não os saber decifrar.

2013-08-11

Caro planeta, sei que te ardem as entranhas por sentires, na tua pele, o craquejar de um fogo que teimamos atiçar. Em meu nome, desculpa. Os outros 7 biliões decidirão o que fazer.

2013-08-10

Quando deixam de repousar as maravilhas que aguardam o momento de florir, nascem pelas frinchas de uma parede de madeira pequenos rebentos de sementes curtidas pelo tempo. Assim seremos nós, futuro, enquanto descobrimos o nosso caminho agrilhoados ao medo que nem sabemos estar a sentir.

2013-08-08

Ensurdece-me, já, o eco de todas as paisagens que vislumbrei, continuamente a restolhar, entre papéis gastos e sujos, as palavras que se ataram de letra em letra.

2013-08-01

Gostava que o atravessado de um arame pelas folhas de uma videira trespasse também, em mim, a vontade de ser bago, deixar-me pintar pelo tempo, sem que suassem em mim sombras de dias que se vivem apenas ao anoitecer. Louve-se o céu transmontano, que me deixa mais perto de ser estrela.