2009-01-29

Dos desejos
anseio os que ainda não possuo,
o aguardar tumultuoso
pelos dias
que irão banhar os rios
das minhas
utopias.

Chove lá fora,
como pétalas de uma flor não germinada,
queimando tempos e etapas
e quadros rústicos
de quem se atrasa na demora.

Aguardo a espera,
vivo no presente os quotidianos
futuros,
soçobrando prematuramente
antes as fiadas invisíveis
que constroem meus moinhos, muros...

Que da vida se esqueçam meu nome,
um cravo e ferradura
e sonho, um pronome.

Quando acordar o desperto
e sorrir-me o desejo,
serei já do leito, feno e forquilha
sepultado num só beijo...

2009-01-23

Sei-te minha, noite,
no interregno da madrugada
onde uiva a neve,
no afável sorriso
gasto
pelos sonhos que esvoaçam
a quem nada pede.

O cansaço
e a ironia,
a ténue fachada urbanística
que são as dedilhadas
rugas
de um abraço.

Sigo trilhos e caminhos
por onde urdi
no futuro,
entre fugazes
e eternos que teci
pernoitam,
algures do lado de lá do (meu) muro.

(ps.: este sim, deu-me prazer escrever...)

2009-01-21

Vi ontem, na televisão, por terras de meu coração (Alvão), um pastor, cara voltada ao chão, a timidez de se ser grande, respondendo à pergunta da jornalista ("E isto causa-lhe prejuízo?") com "É ao gado, que não tem que comer"...
Eu sou daquilo, de pastos que crescem, mesmo com a neve.

Voto à pobreza

a minha sobriedade,
casto o pasto
em que te deitas
na dureza
da tua idade.

Vento o ar e o trombar
e as cruchas
ébrias
de saudade,
faço-te de mim eu
para que não pare o tempo
em qualquer estrela
que nasceu...

Ah, como te subjugo,
à vontade e vaidade
de rodar
sobre o vácuo!
Que de minhas mãos pende um jugo
e dos olhos algo,
nuns temperam a vida,
em mim saboreiam
as pequenas covas
do teu pranto.

Estou pronto!

2009-01-19

Há tanto tempo que a noite adormeceu e me deixou aqui, desperto, à espera da minha madrugada.

2009-01-15

Tinha algo especial para deixar aqui...
Não é bem especial, era apenas um aglomerado de histórias e estórias que queriam nascer...
Sinto as contracções na alma, sinal que querem sair, mas, paciência, o adiantado da hora (para quem tem que se levantar cedo amanhã) e o facto de só voltar aqui domingo (sábado também vou ter que trabalhar) só me permite desejar-te um bom fim-de-semana, o parto virá depois, talvez em forma de olhares adormecidos nos montes de Valpaços e Chaves

Sei que passas aqui, sinto-o, lês, por vezes comentas e é por isso que agradeço...
Fica bem e até breve.
Canto inebriado a sobriedade da vida,
ondulo como o vazio
repleto de vozes caladas
que cegam meu escrever.

Rotundo o sentido
desnivelado
e a vapor,
claqueando palavras na perceptível noite
para que se inicie
o espectáculo,
degredo vazio
ao público atento
e hirto.

A vida cala-me o sorriso
e eu sorrio à socapa
no esconderijo da tua madrugada,
sou-te do telhado
um Zé
e tu,
acesa,
a clave de Sol
que me conduz em Ré...

2009-01-13

Terias olhos de criança
e eu asas de cedro,
mudas
de escutar
espectros raiadas de um Sol,
esgotadas
e verdejantes
da neve que corre correndo,
enquanto outros vivem
morrendo.

Quadras de versos
e rimas orfãs de mim,
que sou poema
nocturno,
de tacteados sonhos acesos.

Acorda-te em mim,
que adormeço sem te ver,
palpebreando o ardor
e expondo a cru,
o gesto nu
de ser carícia,
a humilhar o azedo meu
chamando-lhe delícia.

2009-01-05

Recantos

Ouço pelo enésima vez o tema "Stand by me" do projecto "Playing for change". Convenci-me que iria escrever hoje e, para acompanhar o ritmo bater dos dedos nas teclas, youtubei a música e fiquei a ouvir... Depois reparei que o GrandPa Elliot tem uma meia de cada cor e, lá ouvi novamente. Depois fui ver se os índios que tocam tambor fazem-no com alguma espécie de pena... E assim sucessivamente até perceber que é quase meia-noite, o sono aguarda-me encostado à ombreira, ansioso por se encontrar com os sonhos da Ana que, a esta hora, vai já saltando de estrela em estrela.
O "mal" de não me permitir escrever com outra cadência, a não ser as palavras que vão cardindo de quando em vez os pixels cinzentos da minha memória, leva a que todos os episódios gravados na alma se acotovelem para sair.
Este nao não fiz qualquer resolução de ano novo, limitei-me a comer as uvas-passas de uma só vez, a beberricar um pouco de champanhe (sem conseguir evitar o esgar de asco que só eu faço quando bebo champanhe), caminhar tacteando o escuro para subir o pequeno morro e ver, ainda com a mesma magia de criança, as ambulâncias a percorrem a rua, com os pirilampos e sirenes ligados... Depois, depois o caminho de poucas centenas de metros até casa dos pais da Ana, para assegurar que todos entraram com pelo menos um pé direito em 2009, mais umas dentadas no bolo-rei, cumprimentar vizinhos e sorrir baixinho, entre mim e as estrelas e alguns que se escondem atrás delas.
Pergunto-me onde está o ano que passou, sinto-me muitas vezes como se hoje vivesse os dias de ontem e amanhã, confortando-me estes three little birds que me respondem.
Tenho as mãos cheias de sonhos, "coisas" avulsas que me nascem há anos, ambições desambicionadas, um sentimento de união, de amizade fraterna, de amor com A, entre todos.
Guardo ainda em mim os sabores de semanas por terras de Chaves, Boticas, Montalegre, Valpaços e Vila Pouca de Aguiar, de pés na neve e a cabeça (oh amigo, quer um barrete?) fria no calor das lareiras que vejo em qualquer recanto vazio... E é para lá que vou agora.

2009-01-01

Paz... Tu, a Paz, em mim, em todos.

Recebi esta jóia, que me emocionou, porque estamos todos acima de crises e conflitos, se quisermos, sermos, Ser a paz, a Paz, em mim, em todos... Estou de volta.