2013-05-30

Creio nas palavras, ainda que silenciosas, que escorrem pelos olhos de quem não precisa ver.
Creio no que vejo, ainda que cego, que entra pelos poros das histórias que não sei escrever.
Creio e por querer crer sei que em cada frase há letras que desenhei e não abracei.
Sinto falta de me sentar na beira do Universo, debruçar-me, balançar as pernas e lançar uma mão cheia de estrelas para o firmamento. Saltar depois e aterrar num planeta qualquer, apenas pelo prazer de olhar para cima e tentar descobrir, ou escrever, os pequenos pontos cintilantes que foram eu num momento.
É quando sinto ser necessário não crer que sei que existo.

2013-05-29

Gosto de gostar e pelo acto de as estrelas brilharem porque sim. 
Afinal, a vida é um corropio, um novelo que se desenlaçou sabendo que não tem fim.
É a conclusão a que chego,
por entre estes dias onde me esfrego,
que ser-se para viver é gostar 
pelos quadros todos 
mesmo querendo estrelas almejar,
é nos dementes e nas suas quietudes a rodos
que sei a luz exaurida
cheguei há uns meses cá desenlaçando-me
por saber que não me tenho fim
e por nascer, estou já de partida.

2013-05-21


É Outono no Universo,
estrelas soltam-se dos meus braços
por ter os ramos secos,
444 ventos cósmicos acesos
fogem à pequenez do infinito
por sentirem chegar o fim dos seus medos.

2013-05-19


Oh futuro, 
quem se separa de ti por um muro,
longe pelo abrigo
que se faz a cada cavernosa ausência
que se busca, num suspiro.

2013-05-09


Iniciei esta peregrinação ainda não sabia andar. 
Do ventre ao mundo, do mundo a mim, uma vida inteira de caminho.
Percorro todos estes passos em forma de dia, um a seguir ao outro, na consciência que deixo para trás no caminho vários dias em forma de passos só meus.
Nada tenho. 
O que me caiu no regaço seria do vento ou da vida, de peregrinos que marcham ou de peregrinos que mesmo sem darem um passo terminaram o seu caminho, ainda antes de o partilharem com outros peregrinos. Ou comigo.
A minha dormida é uma casa móvel, de tão pequena e simples cabem todos os que lá desejam pernoitar ou descansar, não a levarei comigo, nem o caminho, apenas os abraços e os acenos, os olhares e as noites de Setembro com seus sabores amenos.
Chegarei ao final do caminho não muito longe do início, apenas para cair nos braços das minhas memórias, despojado de casas, bens e males, levando comigo apenas a peregrinação de quatro pegadas.
Entregarei o cajado à terra, que se encarregará de o transformar em paisagem, para seguir caminho novamente, já sem saber andar, junto a outros peregrinos, passados e futuros, que o tempo desloca-se de forma assíncrona para quem chega à sua catedral.
É, assim, sem vestes ou alimento, que suporto o cajado e faço rota por mais um dia, até o caminho ser caminho.
Deixo-te a paisagem, a companhia, as letras escritas e todas aquelas que nunca soube pronunciar, talvez as recebas quando o teu caminho escrever os meus passos.

2013-05-08


É pelo quebrantado aspecto da chuva
que vou subindo,
emparelhado com a vida,
até encontrar do alto de um sopro
todo o mundo que se fez pelo que não disse,
soubesse eu, 
entre mim, 
ser todo o silêncio que ouvisse.

2013-05-01

A procura é a busca do motivo pelo qual procuramos.
(pudesse a filosofia ser a solução para tudo)