2008-05-30

Desertos por escrever

Despertam-me
os vivos e a chuva.
O latejar ardente de cansaço eclodido
repousa arfando
na tua mão,
o peso morto e mirrado
que habita no teu peito
não é pedra,
é coração.

Profetizo as palavras
na pausa de um suspiro,
quando à vida as vidas viro
percorrem tempos e alentos
os momentos angulares,
julgando serem infinitos
são apenas da noite,
esgares.

Tenho-te no centro do que não sou,
augúrios e angustias
e desertos por escrever,
ouço badalos nas montanhas
dos meus olhos a percorrer,
será ali que estou?

Os medos afugentam nuvens
e pessoas,
dilaceram pastos
bastos,
cerro os dias e sorrio
enquanto semeiam temor
e um amanhecer atiçado.
Eu não sou pastor,
sou cajado...

2008-05-29

Fruta fora da época

O que têm em comum a chuva que tenho visto (e sentido) neste mês e as rabanadas que de vez em quando como no Verão? Ambos me sabem melhor fora da época...
Enquanto uns reclamam com mais (agricultores) ou menos (veraneantes ultrajados por causa das suas férias ou da indumentária que não podem utilizar) razão, eu delicio-me com a chuva...

Estou de volta após uma enxaqueca (creio ter sido a primeira a "sério" que tive em 32 anos de vida) na segunda-feira... Mas no meio das alucinantes dores de cabeça e das náuseas, há sempre algo de bom... A meio da tarde, quando o meu estômago deixou que algo entrasse, comi um caldo-verde feito pela D. Amélia (fica mais bonito escrever assim ao invés de sogra), directamente de uma marmita... Chovia, eu de pijama sentado no sofá da sala, com as janelas e as persianas quase fechadas, apenas um pouco de luz para os meus olhos ainda doridos, o vento compunha a banda-sonora de uma tarde de dor, mas de um prazer há muito esquecido, o prazer de uma coisa simples, quente, essencial, na singularidade de um recipiente como uma marmita. Não sou rei, mas tive um banquete.

Até já.

2008-05-22

Sonhos e o caminho para os mesmos


Fica tão fácil ser feliz quando os nossos sonhos são pequenos. E o que dizer daqueles sonhos que se realizam, sem sabermos que eram sonhos?
Não sei o que me fascina no olhar das pessoas, mas escrevo-o, vejo-o, vivo-o e vou acumulando as pequenas centelhas de sonhos e concretizações suspensas, na esperança de lhes dar vida numa ou noutra história.
Não consigo estar estando, só sou presença quando estou ausente, como os sonhos grandes.
Esqueci-me de postar a imagem de um aluno da EB1 Soutelo - Mouriz, que captou aquilo que eu quis transmitir com o conto "Um sonho li(n)do", aqui fica a "homenagem".

2008-05-20

To have or not to have...

Este blog quase que se transforma num repositório de poesia, longe do que inicialmente tinha em mente (até em prosa o raio da poesia teima em surgir). Lembro-me de colocar poemas no blog porque nada tinha para escrever (ou, essencialmente, por falta de vontade) e agora, recentemente, a poesia tem ganho mais dimensão.
O motivo deve estar relacionado com o facto de eu gostar de escrever "à mão". Para poupar tempo vou escrevendo a "prosa" (aquelas coisas estranhas que alguns chamam pensamentos) directo no computador, mas quando chego a casa estou "algo" saturado do PC e não vou escrever (apenas faço outras coisas). Outra das razões é a preguiça, bolas, com um poema e consequente menor número de palavras, digo mais, sinto mais e poupo mais.

Sinto falta de escrever, de inventar histórias, de dar corpo às personagens que me vestem.

Sinto falta do que tenho e este vazio é espesso, preenche tudo o que sou, para me dizer sarcasticamente: tu... tu não tens nada.

(e eu sorrio... sei que é verdade)

2008-05-19

Paredes com alma (II)

Apenas o que escondo é visível,
somente ramos,
nada mais.
Sei de memórias trechos
que a noite nunca avivou,
omito-me ao tempo e aos olhares
que não me procuram
e encontram,
sombras e fuligem.
Desenho-me na bruma
e na paisagem,
habito gentes sem casa
num lar que os ramos conhecem,
percorrem-me ainda rostos
de almas mortas
desconhecendo que vivem.
Sopro brisas
e planto mãos os olhares do entardecer,
cresço-te no sonho sem o saberes
e pernoito na tua imaginação,
porque ainda antes de vos nascer
já os ramos eram semente
e eu de pedra,
feito gente.

2008-05-07

Flavour

Tenho a meta onde outros fazem partida,
a minha verdade
é nos olhos de outrém
mentira.

A noite cai-me
das mãos e dos olhos
(e noutros poemas)
quando nasce o dia.

No sorriso
existiu outrora alegria...

2008-05-06

Ainda há pastores? - Paredes - 17 de Maio!






Olá.
Aceita este convite para um "evento" que irá decorrer no dia 17 de Maio, na Casa de Cultura de Paredes, às 21:00: Apresentação de "Ainda há Pastores?" de Jorge Pelicano.

Este documentário (e a sua banda-sonora), para quem não conhece, é uma obra-prima, divinal!
Galardoado com prémios internacionais e menções honrosas é o reconhecimento não só do trabalho de uma equipa, mas também do que mais puro, genuíno e enriquecedor existe neste país.

Será à "toa" que a maior parte do reconhecimento vem de além-fronteiras?
Não percas a oportunidade de ver este documentário e valorizar o que de bom se faz em Portugal... Poderás igualmente ouvir e questionar o realizador, Jorge Pelicano, naquilo que será, certamente, uma noite agradável e diferente.

Blog
http://aindahapastores.blogspot.com

Alguns trailers:
http://www.youtube.com/watch?v=lZ6ZoezlfN8
http://www.youtube.com/watch?v=Nq4w_gaf560
http://www.youtube.com/watch?v=H6xOWHvcvKk
http://www.youtube.com/watch?v=mxwsW5wp5lI
http://www.youtube.com/watch?v=EexTcbTFO5s

2008-05-05

Gentes nas montanhas do meu olhar

Esqueceram-se as mãos
dos sonhos
sobre a caruma que os dias atiçam,
no leito das almas
correm memórias e fantasmas
vivos
de um futuro presente.

Não estava lá,
nem aqui,
nem onde repousam as medas
e cantam as cristas de pinheiros
moribundos,
percorria curvas e estradas
e pós
e terras calcadas por gentes
diferentes,
ausentes
dos olhares incautos,
como putos sem presenteados anéis,
quase descalços
da vida.

Sou do meu olhar,
refém de paisagens e sorrisos
e dedos que afagam trigos,
sem ver o cascalho rude a queimar
ou a sombra escorregadia de uma nuvem,
permanece cego o meu olhar
filho de ninguém...