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A mostrar mensagens de Agosto, 2005

Fria noite no corpo

Dorme a fria noite, ao longe trémulas estrelas resistem a este meu açoite, ao orvalho que brota da alma num soluço de ninguém. Ao tacto é gélida a pele e os dedos refugiam-se, o tempo que seria exacto é, afinal, dele o vulto do Sol que dorme em mim. Amparo pétaldas de rosas e flores mortas, hirtas e sombrias de sangue manchadas e isentas de dores, absortas. O jardim que plantei é um canteiro de almas, jazentes e dormentes, fugazes e ardentes, espinhos que se cravam na mão perfurando o sonho, aniquilando a ilusão. Quando o trevo me cobrir e eu não for mais que húmus, deixa que me regue o orvalho que cair dos espinhos da vida que se segue... Se eu nascer de novo e o veneno brotar, ainda, desta alma que não finda, foge para longe e cobre-me com terra negra, antes que meus olhos possam matar e minhas mãos, sujas e gastas, possam tocar o triste mundo que são teus olhos a chorar...

Para lá

Espantadas com o meu silêncio as palavras vêm até mim... Empunham um espelho onde me encontro reflectido, longe dos olhares e dizeres, das falsidades e fúteis afazeres... A imagem chama-me, para lá...

Marés do tempo

Momentaneamente ouço o tempo passar, sim, vai e vem, lambe-me os sentidos ou os pés como uma onda prenhe de espuma a rebentar, chama por mim, invoca os amigos, mas não, obrigado, é sempre a mesma resposta. Prefiro o vazio à viagem. De vez em quando molha-me, convida-me a mergulhar, nadar e sabes que mais? aceito, ganho corpo, forma, sexo, sou um pequeno pensamento numa matéria sem nexo, tenho idade, régua e esquadro à relatividade, taça de néctar envenenada no peito. A onda ou tempo, traz-me de volta, e estou novamente na praia em pé ou deitado, não, não estou, apenas sou, e entre ondas, ou marés, vem o tempo buscar-me com carinho. Caio na água ou vida, tenho mágoa ou um bilhete só de ida, e sou agora outra forma, outra matéria, sou um réptil venenoso, sangue na artéria. Invoco tropas das guaritas corro a quatro pés ou dois, sou corpo esquisito. Estou cansado e a Lua ou o Mar, traz-me de volta como a rima num poema, e leva o corpo consigo na rotaçã

Mal estar...

Ó Lua cai sobre mim, dilacera todo o meu corpo, transforma-me em pó, grão fino de areia, vaporiza-me em nada e devolve-me o vazio, enche-me de frio, sê de ti apenas mais uma candeia. Que frio é este no respirar? Porque razão fogem estas linhas às palavras? Vem, assim devagarinho, segura-me as pálpebras por um momento, deixa-me escrever a palavra carinho, fica mais um pouco ao pé de mim, ampara-me a cabeça difusa neste tormento, que pensas destas palavras, são belas? É bonito o teu sorrir, diz-me, Lua, és tu quem canta? talvez sejam meus ouvidos, ou a imaginação vagueando…

É sim senhora

As pessoas comovem-me, a sinceridade e a bondade ingénua, pura, intocável... Este tipo de bondade que, por vezes, se vê apenas nos "coitadinhos" e "bons rapazinhos"... Vi a cena há uns dias, talvez semanas, quando um senhor, humilde, tão humilde, era entrevistado por uma jornalista... A casa tinha ardido e, como tal, todo o seu recheio, o senhor, vou chamá-lo "coitadinho", que é assim que é visto, coitadinho, se calhar nunca viu a Quinta das Celebridades, deve ser de outro planeta (já estou a fugir do tema...), regressando, o senhor olhava para a jornalista, com um sorriso na face e um olhar estremecedor de tanta ingenuidade... - Então o senhor, ardeu-lhe a casa? - É sim senhora... (respondia com um sorriso e muito educadamente) A câmara mostrava, ao fundo, desfocando a cara do senhor, a casa ainda fumegante... A jornalista esperava que o senhor falasse mais, mas teve que tomar a iniciativa novamente... - E o senhor, salvou alguma coisa? - Só a roup

Cinzento

Sento-me no sonho à espera que as sombras das árvores imponentes devorem a minha, este banco de jardim foi frio na noite quando as gotas que caem não são lágrimas mas partes de um mar solitário. Uma barreira ergue-se no olhar onde formas disformes dançam depois do real formando o horizonte imaginário do vaguear, que vento abana os cabelos do destino, que sussurro clama a alma à solidão que é este vulto que me estende a mão? Enterro histórias, descansam em palavras proferidas por um céu juntinhas ao abandono das memórias, agora que não vivo porque dizem que o poema morreu? Se eu fosse o que sou, abandonado pela paisagem onde o sorriso voou, talvez a brisa que ondula o verde brilhar do sorrir sentisse que o amor que dá faz todo o tempo que me circunda cair…

Finalmente...

Finalmente vivo! Respiro o mais que consigo, a caneta toca no papel e derrama tinta, é o rasto visível do meu pulsar. Pouso em todas as flores para obter mel, apenas agora, neste momento, sinto o sangue correr nas veias, as estrelas salpicam e caem do firmamento e a sua poeira camufla os sentimentos, derramam sobre os buracos da alma um pouco de luz e azul celeste, infundem em mim a calma, soltam do mais recôndito ângulo um sorriso agreste e aí, nas estrelas, ou no poema, sei que vivo em dias não medidos, pauto a existência em sentimento, talvez amor, talvez medo, e por entre rimas de poemas ou fluxos de prosa fecho as mãos em concha e, sorrindo, guardo para mim este segredo.

Puta

(o título deste poema foi, inicialmente, "sugerido" alterar para outro... Dei-lhe o nome "vestido branco", mas este é o verdadeiro nome dela... e da personagem) A soleira é fria e dura, como aquela estátua no jardim, entretanto aparece um qualquer estranho, timidamente dizes-lhe que sim e os sonhos, murmuras entre dois flocos de neve, onde estão?, transformam-se agora em nada, o escudo do granito que te chama solidão. Tens cabelos sujos, longos e pretos, envolvidos em neblina branda, o corpo abraçando o próprio corpo, a mão pequena e fina apertando a esperança, uma insignificante sombra a teu lado, a imagem nítida que a luz do candeeiro te dá, em tons de pastel, serão os meus olhos, ou és tu ideia do que já não há? Passam vultos por ti, não olham, tu dizes que precisas de ajuda, carinho e eles chamam-te puta, batem-te, cospem, olha! Aquele pedinte deu-te uma garrafa de vinho! Sai desse mundo, deixa-me dar-te a mão, não é oportunidade é sinceridade, ma

Velas

A neve pousa suave mansamente sobre a paisagem, com flocos infinitos na frustração da miragem. entre xistos e granitos, solos flácidos de nuvem. Vê o macio do lençol pela mão de uma criança triste empunhando na mão, em riste, o calor humano da luz do sol. O vento forma remoinhos, espirais de fúria em brasa pela aridez de uma ruga. O sal acumula-se na cicatriz, carne tumefacta brota de uma flor e nasce um bebé, ser de luz, para a vida em dor. Beatas incandescentes imperam, sendo esmagadas por meus próprios pés, caindo na noite como cristais, onde só os sentidos os visionam. Cambaleando vêm ter comigo estremecendo o solo, em passos hesitantes. São visões de um passado recente esbatidas por lágrimas que afluem à minha nascente, no choro da despedida, de alguém que é mais que alguém. E eu sou nada, a consciência do vazio que ocamente vem ter comigo, quando a luz se apaga sucumbindo a vela no pavio...

Vazio na alma

Paro no tempo, busco algo que não conheço ou talvez já tenha visto, sonhado em qualquer momento, o véu de prazer que me ama quando adormeço. Quero que venha até mim, acordar numa cama alheia numa face minha, num olhar de água, amor e jasmim, o toque suave do amor no sorriso que impulsiona o sangue nesta veia. Amo-vos, perspectivas angulares da realidade abandonada, o caminho não percorrido ou mais curto, na contenção de esforços para sobejarem as forças, os braços longos e frios na pele macia, morena, clara, de cores várias desfragmentadas de alegria, o erotismo da troca de olhares no espelho ou num corpo, o torpor da juventude é a compreensão de um gesto gasto de velho. Um banco de jardim, ou uma paragem de autocarro... Espero que passe algo, alguém, talvez eu, a parte de mim mesmo que se conhece e, com caridade ou através de um escarro, me ice para a vida ou aniquile, definitivamente, ao sono que sinto, ao sorriso que minto, ou talvez não, talvez o fum

Universo mutando

Corro pela vida, um pé no mundo, um pé no sonho, onde cada porta é um ponto de partida, respirando o tempo numa fracção de segundo, descansando num lago onde incauto me exponho. Vai alto o luar, cravejado de estrelas o céu cogita. Pendem as rédeas de meu corcel, ofegante o vento corre para me avisar, cai o real sobre a fantasia num mar que se agita e galopeio entre quadros da tela para o pincel. Se o horizonte aos olhos falta, fruto do calor ou consequência do olhar onde cada pensamento sugere uma gralha e as penas ondulam dentro de mim em fervor, o Sol explode anti-matéria e eu continuo a brincar.

Trovejar

Saúdam-me os trovões, gritam arrastando nuvens alegres. O vento tropeça nas rugas do tempo e sopra o rastilho dos canhões, o caustico sorriso vazado em lúgubres casebres é apenas uma figura de estilo, talvez um sentimento… Quando brilha o Sol, ou meus olhos de luz inundados pela manhã, as réstias da noite são migalhas de pão amassado. Ficou a marca quente da escuridão que amou o lençol e as pegadas na neve de um escarlate quente, a espuma dobrada pelo sorridente pausado faz sonhar o presente com o ventre que lá, no alto da imaginação, projecta entre rochas abandonadas o frio que a solidão me dá...

When the Sun rises...

Passos Que passos são estes? Qual a direcção que toma o destino, num torpor desconcertante de divagações Onde o andar é incerto, intangível, ao ondular da matriz que me rodeia, será o sorrir mais um resigno das prisões talvez o calor dos lábios que estão perto, não, vejo agora que o movimento é sofrível... Acompanho o corpo, vagueio em vidas inúmeras por tempos que me fazem morto, linearidade de movimento que traz o infinito, o olhar é o começo do que foram amaras de doce sal que corre desse labirinto. Tocar, sentir o que a alma seduz em danças exóticas de bailados de luz, limpar o húmido do Inverno com o calor e deixar, talvez amar, que o simples respirar apague a dor... O sorriso antes que partas para mim Escrevo o sorriso antes que partas para mim, creio que nas mediatrizes do sonho em meandros da irreal sentença que cava fundo o olhar tenho nos visíveis esgares o término de uma epopeia sem fim. Quantas horas, momentos, agora ou sempre, sombras qu

Nuvem escura

Gosto de ti… Quando vens de mansinho, arrastando contigo o soar dos trovões, a luz irrompe no dia e salpica de estrelas a noite, atinge-me com a candura do abandono o primeiro voo do pardal fora do ninho. Gosto de ti… Trazes no regaço uma promessa, o cheiro a terra molhada acorda-me, é ainda uma miragem e eu peço-te: Vem depressa! Ó minha nuvem escura, preta de água, prenhe de temporal, onde relâmpagos anunciam o Inverno ou o súbito marejar e a fuga dos grilos à toca, Que se calem os homens! O próprio Sol esmaece e as árvores curvam-se a ti, Rainha, que nem toda a Natureza atinge a graciosidade que tens. Vejo-te chegar e tu, ainda antes de me vislumbrares, trazes o analgésico para este dia sufocante, não sabendo que és a caneta no poema, choves, mas eu gosto de ti.,, Possuis a calma que nunca vi, trazes-me à memória pequenos riscos, traços que surgem no papel ou na mente como as gotas que caem no chão levantando gloriosas pequenas nuvens de poeiras

Tales from August

O cão Cão Quem nunca teve o seu fiel amigo? Jazes na estrada, na berma, como se fosses um reles vadio e olho-te, pela última vez, com olhos de neblina molhada. Tens aquele sorriso na cara, sim, cara, para mim és mais que animal. Sorrio porque sei que o tempo pára e se antes acariciava o teu pelo engrenhado surge agora húmus e dás vida à vida, nasce de ti um vale e visito-te num não muito longínquo passado. Baptizo-te de cão, és isso mesmo, uma forma de voar quando agarrado ao teu pescoço descolava do chão, apareces ainda atrás de mim, saltando, tentas segurar a minha mão, lambes-me para que te acaricie, para que sintas o amor que alguém já te deu e somente agora, quando te vejo morto, compreendo que quem pedia carinho era eu. Inveja hipócrita A hipocrisia tem rosto... Escondida nos sorrisos de simpatia que amordaçam o belo cântico em pedras frias. Sim, tem cara desbravada, movimentos que parecem ser de cortesia e são, no íntimo, acenos de falsas mor