2012-05-31

Pouco resta da noite que o sono das flores que se fecham ao dia para beberem das memórias do que viram. Os suspiros que me chegam são as vozes que calei ao não escrever, também, o que me susteram. Uma rima vale pela vida. E eu trocava todas as minhas por uma noite ao relento, assobiada pela lareira a amortalhar, a adormecer sobre o meu caderno, vazio.

2012-05-25

É por entre os dedos que se vê um mundo do tamanho de um sorriso, escondido.

2012-05-24

Vesti os dias como quem se almoça de sorrisos, abracei os orvalhos sem me molhar, apenas para sentir a seiva de um mundo e as lágrimas de nuvens que resvalam por montanhas. O mundo foi feito, um dia, de amizades sinceras e desprovidas de interesses, de alegrias em tons de pôr-do-sol. O mundo foi já um cercado de erva e flores, carvalhos e cores, onde se abraçam sonhos e se pulam anos e anos até uma nova vida, feita de tábuas e pregos enferrujados, de toldos de plástico e ramagens de giestas ou mimosas, de vira-ventos em cascas de eucaliptos. Houve tempo, ouve, para viver apenas por viver, sucumbir ao doce sabor de uma lareira. Hoje, hoje somos bons demais, honestos demais, humanos demais. O mundo foi simples, um dia, antes de nascer.

2012-05-23


Durmo, enfim, no fino acordar de um mundo
enquanto afugento auroras que te acordem
esqueço as vidas que afundo
pelos músculos que me sorvem.

2012-05-21

É no recôndito de mim que te procuro, que ausculto nas minhas veias o sangue que te deveria correr no corpo. Não há maior ausência que uma estrela, invisível, no céu que me cresce nos olhos.

2012-05-19


Deixem-me tirar ao sonho a noite
e, ao dia, o lamento,
porque a vida chove-me entre colmos
e o som que me pinta é o silêncio que falo,
sem auscultar verdadeiramente que o momento em que respiro
é o infinito
em que me embalo.

2012-05-16


Almejo do céu
estrelas
do chão
o cajado perdido
do rebanho que construo
com as migalhas
do meu pão.

2012-05-10

Sonhei, agora, que as palavras escondidas tinham a força de mil olhares e o céu, cansado do azul, desceu à terra em tons de laranja, longe das fronteiras e da liberdade, sorrindo pelos lábios de um jardineiro que, aproveitando o primeiro dia de sol depois de um outro dia, sorvia às golfadas água, que escorria pela face e, ao cair, olhava como criança para as calças e botas caldoverdeadas da relva recém ceifada.

2012-05-08

Ouvir a chuva é ler urzes, enquanto os olhos não se habituam à claridade do fumo que uns tojos secos tentam içar, enquanto o pão há muito desceu pelo corpo e a água ardente arde, languidamente, enquanto viro a página de mais um dia.

2012-05-04

Rodeia-me todo este silêncio
da noite que caiu
sobre um universo
que teimo em não orbitar.
A música da voz ribombava
e as paredes, literalizadas,
tremiam com medo do escuro
sem compreenderem que a vida
é um trago sem gelo,
agreste,
puro.

2012-05-03

Salpicam-se, de nuvem em nuvem, 
as cores que ao acaso se vestem 
de dias e de noites idas, 
no silêncio de agora, odor 
da chuva, lá fora, em poses caídas, 
porque o chão é feito de urzes 
e encharcado de amor.

2012-05-01

Mãe

Mãe,
chamo-te,
quem me teve e quem me tem,
ser do mundo e ter-te,
ser eu
e, sem ti, ser ninguém...