2007-03-29

Spring tales

Há coisas que faço todo o ano, mas apenas reparo nelas na Primavera, têm uma magia que aflora apenas com o pólen verde que os pinheiros deixam.
As manhãs frias trazem orvalho, local de namoro entre a noite e o pó verde que voa nestas alturas.
O meu pai apanha-me em casa e vem, com aquela cara de meu pai, cabeça baixa, corpo novo para a idade que tem e pergunta: "vais estar em casa?" Eu rio-me, "já estou em casa". Enquanto não digo mais nada ele fica calado, até eu perguntar "queres que vá a algum lado?" e aí ele fala, lentamente "se me fosses buscar umas placas..." e eu, que até nem me apetece, vou.
E revivo, nestes momentos, coisas que só afloram nesta altura, como as flores, talvez por ser Primavera.
Deixo o computador ligado, como sempre, mudo o estado do messenger, digo "até já" a quem quer que estivesse a falar comigo e saio.
A Farrusca fica sempre a olhar para mim, com olhar de perguntar e eu, em tom de desafio, simulo o movimento de correr e ela, doida, começa aos saltos, à espera que eu corra. Não me apetece, vou andando lentamente, com ela a saltar à minha frente e a morder-me as mãos.

As poças que tiveram água têm agora pólen, o vento agita um pequeno pinheiro no caminho e é giro ver o pólen bailar na esteira do vento.

A oficina está igual, apesar de não ser (muito) apegado às coisas, não consigo deixar de pensar que todos os tijolos que ali estão passaram pelas minhas mãos, em tardes de Verão, quando os vinham descarregar e eu, com a força dos 17 anos e os mesmos 1,90 mt, ia colocando-os em pilhas, mais ou menos alinhadas e sem disposição, até me ensinarem que existem regras para os alinhar, ainda antes de juntos com cimento nas paredes. Estamos sempre a aprender, não é mesmo?
E arranco, com um pequeno papel no bolso, que diz "2 faia 3 mm 1 face + barata", não, não é iniciação ao Código Da Vinci, é mesmo para comprar duas placas de faia.
Há algum tempo que não conduzia a carrinha do meu pai. Lá, sinto-me como há uns 12/13 anos atrás, no topo do mundo, a ver os carros e a estrada de cima, com a diferença de não me imaginar num camião dos bombeiros ou da protecção civil. Sonho de criança.

Entretanto, sonhos à frente, paro a meio da recta da escola preparatória, onde andei uns 5 anos, para meter combustível (são 10 € fáxavor), mas tenho que aguardar que um senhor, de canadianas, passe no passeio (redundância), pé ante pé ante canadiana. 

Ele passa e eu acelero, parando mais à frente e aí sim, são 10 euro fáxavor, não, não é preciso chave. 
Enquanto o gasolineiro mete gasóleo (deveria ser gasoleeiro?), olho o senhor, idoso, de canadianas, que me olhe, um olhar penetrante, quente e naqueles segundos percorro as suas memórias de mão dado com ele, onde me mostra os tempos de criança, as comunhões, o casamento, os filhos idos que amparam menos que as velhas canadianas, as estradas de pó, as apanhas de milho, os regadios, as festas populares, os coretos coloridos com as bandas de música como coração, as noites escuras e os candeeiros a petróleo. 
Em segundos, apenas em segundos alguém me mostra a vida, que carrega agora em duas fracas pernas, em segundos apenas. 
Abanei lentamente a cabeça para sair daquele cenário e ele, que me viu de novo no presente, deitou um sorriso rasgado e piscou-me o olho. Acordei apenas ao "quer recibo?", "sim fáxavor". 
Fui e vim buscar as placas, acabei por comprar dois rolos de folha de faia. Passei pela Ana, sem ela contar, coisas de adolescente, que ainda ficam bem agora. Deito um olhar ao pequeno ouriço-cacheiro morto na estrada e continuo viagem.
Há coisas que me acontecem todo o ano, mas apenas reparo nelas na Primavera.

2007-03-22

Circle of love

O que fazemos

Para quem conhece o filme "Contacto" e sentiu o mesmo impacto que eu, sabe do que falo... Para quem nunca viu, aconselho ver e depois ler o livro homónimo do Carl Sagan... A determinada altura, David Drumlin (Tom Skerritt) tem um diálogo com Ellie Arroway (Jodie Foster) que, para mim, exprime bastante o estado actual do mundo ou da humanidade.
O filme foca em parte algumas personagens reais, que fazem parte do projecto SETI.

"Ellie, sei que deve achar tudo isto muito injusto. Para não dizer mais. O que não sabe é... que estou de acordo... Oxalá o mundo fosse mais justo e recompensasse o idealismo que manifestou, em vez de o explorarem... Infelizmente o mundo não é assim..." (David Drumlin)

"Que engraçado! Sempre julguei que o mundo era o que fazíamos dele..." (Ellie)

Singularidade vs Pluralidade

Procurar e viver a singularidade é fonte de dualidade. 
Não há poema, crónica ou conto que me permita exprimir o assombro e o espanto, o desespero e o êxtase de viver, de sentir, de permitir procurar-me e encontrar-me, para me perder em seguida e descobrir-me agora ou ao virar desta página, amanhã ao espelho ou após vidas no olhar de outra pessoa que não eu.
Neste encolher de ombros, que é a vírgula no conto de uma vida, fica a pairar a incapacidade de narrar o que as palavras ainda não sabem ler e o sorriso de um breve instante que dura apenas a distância que vai da primeira linha desta folha até o momento em que paro, levanto a caneta e sorrio para a mão que a sustenta.

2007-03-14

Back to the Future

Depois de olhar por entre os dedos e ver o futuro, longínquo e dependente ainda de passos vagarosos e firmes, torna-se difícil acordar e respirar a neblina que arde nos olhos.

2007-03-06

Rain man... away

Era capaz de ficar para sempre a ouvir a chuva cair no telhado, com os olhos fechados, tremendo até que a roupa secasse no corpo com a ajuda de uma lareira e sentindo, arrepiado, as gotas que caíam do cabelo molhado.
Eu e a chuva. 
Dá-me conforto os dias de chuva e vento, como hoje, talvez de forma egoísta, aceito, porque muitas e muitas pessoas não têm abrigo.
Era capaz de ficar sempre feliz, sem me submeter ao que chamam de vida e aos seus caprichos, aos seus ventos de agoiro que trazem na lapela sorrisos falsos.
Era capaz de ser capaz de sorrir quando me dessem palmadinhas nas costas depois de eu contar um sonho absurdo de realização pessoal.
Era capaz de ficar a olhar despreocupado à injustiça que varre a humanidade de uma ponta à outra da sua divisão maior, a sinceridade.
Tantas e tantas coisas que eu era capaz de ser e fazer, mas que não faço, porque nem sempre chove, nem sempre tenho alpendres e ventos uivantes, nem sempre me pedem carinho os animais com que me cruzo, nem sempre os meus sonhos afloram nadando na retina.
Não era capaz de ser capaz de sorrir no quotidiano de quem labuta por uma côdea, porque os olhos de quem não sorri pesam-me na face e na alma.
Naquilo que chamam de viver, sou eu a nascer.

2007-03-04

Poemas

A Miosotis comentou, há pouco tempo, que era a primeira vez que se lembrava de ver poesia neste blog... Pois... Há mais, muito mais, neste blog e em cadernos vários, fragmentados em cadeias de bits e bytes...

Curiosamente talvez por ser, na maior parte das vezes, pessoa de poucas falas gosto de escrever poesia... Ou algo parecido... Gosto de deixar as palavras suspensas, paradas numa encruzilhada de uma qualquer estrada de montanha, para que quem lê possa levá-las em qualquer sentido e direcção...

Também já deixei por aqui ensaios para contos desconexos, que têm um sequência apenas porque os escrevi sequentemente e não consecutivamente...
Estes ficam antes dos poemas porque são menos:
(I) O chapéu
(II) O Carteiro
(III) A estrela

Deixo links para alguns poemas que estão neste blog (pelo menos até 14 de Setembro de 2005)

Cold night blues
Caronte's sons
Das palavras que vibram
Esquecimento
Porque não sou
Rugas do dia
Respirar
Em olhos de sonhar
Suspiros na noite
Let me be
Até já
Quatro de um
Hipnagogia
Náufragos
Os sons de quando chove
Mais
Sorrisos suspensos
Sorrisos escorpiões
Sorrisos amordaçados
Tardes diluídas
Pause
Canoa doutra imensidão
De nossa alma (texto e poema)
Noites tresmalhadas
Folhas vagas
Acordar
As últimas palavras
14:16 PM
2:16 PM
Sorrisos de gente simples
Dourado
Ocaso
A aguardar
Para quê um título
Formas de olhar
Repouso
Pedras revoltas
Menina quanto custa isto?
Palavras incolores
Um palmo apenas
Sobre os rostos de fantasmas solitários
Visão de vivos e idos fantasmas
Quando o tempo morre em mim
Quantos sorrisos mais?
Brando e benevolente
Teu pai, teu filho
As mentes mortiças
Adormeço
Estrias na alma
Enquanto a vida te rodeia
Quando não eram pequenos
Do que voltou
O facto do nada
Ser onde não estar
Um desenho da alma
Vitrina embaciada pelo fumo do cigarro

Se, eventualmente, conheceres algum editor, mostra-lhe isto, ok? Pode ser que goste :)

Fica bem.