Votar no abandono

“Votar no abandono”, a mais recente crónica no Canal N.


– A minha promessa eleitoral é não votar no que nos vota ao abandono. – Terminou a frase com um baque surdo no balcão do minúsculo copo onde tinha sido servido o Favaios, o que está debaixo do balcão, por detrás do Favaios com rótulo. Como em tudo na vida, quando algo nos chega sem a etiquetagem do que se pretende publicitar traz em si a originalidade do sabor autêntico do que se é. E, nas pessoas, de quem se É. Pousadas as moedas no zinco, virou costas ao dono no café que olhava as sondagens encomendadas na televisão, todas similares, nas percentagens que representam as permilagens de quem vota, e nas cores dos partidos. – Basta chamarem-se partidos, para sabermos o que aí vem. – antes de sair pela porta de alumínio baço encimada por uma torradeira de moscas que bailam reluzentes antes de caírem inanimadas no tabuleiro. Boa sorte tem a quem boa morte vem.

Nas mesas escuta-se – Este é sempre do contra. Se eles ganharem, agora é que vai ser! – ou – Quando cá estiveram falaram na estrada, alcatroá-la, é bem preciso! – E os turistas? Vêm por aí ver isto tudo, pode ser quem venda aquela terra que dá para o rio. Agora que subiu, quase que se pode pescar da varanda! – Riram-se os presentes. 

A cada espaço entre legislaturas, munidos das cores que mais bonés e canetas lhes traziam aquando das comitivas, bajuladoras e coloridas, passando pelas estradas e caminhos, pelos acenos e abraços enojados a quem crava o suor na camisa quando o tractor, cansado da jorna, se encosta à sombra e é a enxada que tem que terminar a leira. De lacoste descem os crocodilos à feira e fingem ouvir as dores de quem realmente sofre enobrecidamente, carpem promessas para tudo, deixam máscaras com sorrisos como se neste pré-orgástico período todas as volúpias fossem possíveis e, no final, pudesse casar a fina nobre moça com o bordão.

É dia de jogo, ontem a equipa era uma só, sentados à porta das agremiações, das sedes de bombeiros ou clubes de caça e pesca, discutiam o que era necessário e todos, invariavelmente, anuíam ao que de facto fazia falta para o bem de todos. Mas é dia de jogo, entram em campo as cores, o ego infla, há que torcer por uma equipa. São agora as preocupações outras, pouco interessa o muro a cair, o posto dos CTT fechado, a luz pouca, o médico que só lá vai à caridade ou os preços pagos aos senhores que andam a comprar as uvas todas e a proibição de fazer seu com o que é seu. Hoje defende o que ontem achou errado, apenas e só porque é assim que lhe manda o deputado, pertença de campanha de um partido e não de outro. Vai terminar o jogo em breve, resultados conhecidos trazem motivo para garrafa abrir, em tempos modernos não há vencedores nem vencidos, brinda-se à vitória, afoga-se a derrota e o povo amanhã volta à larota. Uma terra em vazia tem como solidão o seu dia-a-dia.

Esquecidos das promessas, enchendo cadeiras na capital, longe dos bancos em que cresceram dão razão ao pessimista que dizia – A minha promessa eleitoral é não votar no que nos vota ao abandono.


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