2019-12-18

É do futuro o entrelaçado passado que me soçobra, não pelo vento, nem a falta de alento, mas pelo que de mim me ausculta, vitrificado, o outro eu que não meu, teu enfim o infinito calado, como a palavra silenciada o meu cajado.

2019-12-08

Não devia viver assim

Não devia viver assim”, crónica do nada, para ler no Correio do Porto ou aqui.

Sabermos o quão a madrugada nos molda para o dia é adiantarmo-nos ao nosso crepúsculo. Não o imaginei por iniciativa própria, mas por descortinar pelo fumo da chaminé de aço inox ou pela senhora que, agora, passa por mim com uma rodilha no alto da cabeça, o saco de plástico, que ganhou as vezes de uma seira de vime, das compras equilibrado, uma mão sustendo o pacote de bolachas e a outra mão, alavancado a vontade de comer, com bolachas Maria, num acto mariano de alimentar a alma numa manhã fria para o corpo.

As portas ainda não descerradas quando a braseira ou o fogão a lenha parecem já trabalhar, exibem a casa fechada ao tempo, onde os anos se amontoam no corpo regado a vinho tinto, maduro, e panelas de sopa, verde, que são sorvidos em igual quantidade, numa miscelânea apropriada às manhãs, onde os amontoados restos de poda, folhas varridas com o amor que se sabe ter ao Outono em que entramos, na estação e no apeadeiro pequeno e abandonado que somos, descansam derretendo-se derreados pelos primeiros oblíquos raios de Sol que entorpecem os olhos, ainda adormecidos, enquanto não chega a gasolina e os fósforos.

– Disseram-me que não devia viver assim. – foi o que ouvi quando já perto do meio-dia, a porta entreaberta por onde espreitavam a boroa acolchoada pelo saco de pano, o copo e a caneca de vinho, e o prato virado ao contrário para que a fuligem não se abastecesse na sopa e lhe enferrujasse as articulações.

– Mas é assim que eu gosto e prontos. – uma pequena pausa – Já não tenho idade para prestar contas a ninguém. – continuou num desabafo interior que verbalizou sem querer, admirado, olhando para o copo vazio e caneca cheia quando, regra geral, o que lhe dava coragem era copo e caneca ambos vazios.

Quando chegamos à idade de sabermos não ter idade, seja para prestar contas, seja para não nos deixarmos subtrair pelos cálculos doutrem, sabemos que o mantido perto do peito tem o condão de nos avivar por dentro o calor que esquecemos, distante, em braseiro quase apagado. Talvez por isso, escondido entre parágrafos, com as portadas abertas agora, eu olhe para ele, sozinho, feliz, na azáfama de uma vida quase irreal, um paraíso que conhecemos apenas pelo resto de couve que levou a boroa ao forno. Resto-me reduzido à matemática da vida cuja equação, possível e determinada, é solucionada sem término ou adeus, porque a vida dele, e também a minha, é de Deus.


2019-10-02

Órfãos da misericórdia

Órfãos de misericórdia, crónica do Nada no Correio do Porto.

“Órfãos da misericórdia”

Quando me aterram as memórias, pauso-me no hiato entre as vidas que sei ter conquistado à morte. Afinal, a passagem de um mundo para o outro está ao alcance do destapar, paulatinamente, o postigo onde o musgo calafetou os espaços entre as tábuas de madeira toscamente pregadas. A liberdade oscila no espaço a percorrer desde que nos soltamos das amarras do nosso próprios cais, até ao sereno embalar de um homem só, na maré, de frente para o destino, em pé.

Embora me consiga envolver e desenvolver de encontro ao portão de ferro, o arame farpado retorcido e as inscrições germânicas em terras polacas, ostentam tudo o que poderá ter de enganador na palma das mãos de Hades. 

Concentrados num campo estéril onde apenas o sofrimento irrompe, perdidos no caminhar árduo da imemorável história dos pisados, vejo-os oscilar na existência como pequenas marionetas cujos cordéis urdidos foram pelos que, calados, compraram o horror.

Percorro o irregular caminho em terra batida, tento não vê-los encostados às paredes, fantasmas presentes porque além de esquecidos, votados ao lacrimejar turístico cuja próxima boutique fará obliviar a indignação, velam pelas barrentas paredes cujos tijolos alicerçados sonham pela desconstrução do mundo.

Mudo, por entre edifícios, ergo-me pé ante pé, de memória em memória, como se cada mirar me fosse atirar ao chão e, mesmo este, indignamente sentindo-me, jamais poderia caber-me porque quem se deseja viver, não se cabe neste mundo.

O barrote permanece estruturalmente virado para a parede onde prisioneiros de corpo peneirado tombaram, libertos, fuzilados por guerreiros recrutados nas quintas latifundiárias onde, assim esperam, pequenas crianças de cabelo louro e olhos azuis correm, inocentemente, de mãos abertos por entre milho, cevada, trigo, longe de imaginar que os pais, tão amados, escondem os olhos fechados por detrás do fumo do fuzil, aspirando que não lhe vejam o rosto com o trilho húmido de uma lágrima.

Emudecido, com o coração abatido e encostado ao peito, trago os ouvidos arranhados pelos gritos que as paredes gazeadas viram exulcerar. O sofrimento é algo que não se raspa ou caia, permanece cinzento, ermo, ainda que o cobramos de matizes, como nas décadas volvidas no capítulo da história, sem termos abraçado órfãos da misericórdia.



2019-08-23

Pagaria, caso as nuvens fossem dinheiro, o que necessário fosse para ter, sempre, a refracção das gotículas de água num dia de sol tímido. 
Engano o torpor de uma viragem na estrada com a promessa de ser, novamente, o som abafado da surpresa de uma criança a ver pela primeira vez a influência de um sorriso.
Tenho gastado as horas, talvez por isso o tempo ranja quando passa perto de um sentimento e o vento se faz ao caminho, na maior parte das vezes sozinho, para se sentar no colo de alguém que o embale, até ele se recordar daquilo que realmente vale.
Deitado, a noite subiu já até ao meu peito, preparando-se para me cobrir.
Agora sim, é hora de dormir.

2019-08-16

Dás-me um brinquedo?

Dás-me um brinquedo?”, crónica para a secção Crónicas do Nada, no Correio do Porto.

- Dás-me um brinquedo?

É impossível perceber onde terá ele visto o brinquedo e qual terá sido, as roulottes de bebidas e comidas sacudidas pelo ribombar das colunas que, ritmicamente, soltam decibéis de uma verbalização cacofónica muitas vezes ignóbil, orlam a avenida onde, longe agora da passividade das caminhadas diárias, se deslocam afobadas pessoas, infantis, adultas e indefinidas em busca do que é que quer que seja que lhes sacie a ansiedade que ladeia a ida à festa.

- Dás-me um brinquedo? – retorquiu.

Virei a cabeça, o puto cavalgava os ombros do pai, talvez antecipando uma ida ao carrossel infantil, trotear num cavalo tosco, rodar um volante a medo para a roda não sair do trilho, tocar na sineta do camião de bombeiros ou cintilar num unicórnio rumo ao arco-íris, destino final da fantasia pueril que, em adulto, não passará de um risco colorido no céu, longínquo, apesar das tentativas do infinito trazer à razão a ameninada escapada do mundo (de)crescido. Pedia um brinquedo qualquer. Seguindo-lhe o olhar percebi que mirava em desejo um carro que se destacava por entre uns caniches horríveis, de olhos iluminados como possuídos cachorros saídos de um pesadelo, que ciganos vendiam ao mesmo tempo que premiam com força o gatilho da pistola fazendo disparar bolinhas de sabão, estas sim bonitas reflectindo a iluminada noite barulhenta. O carro, a exemplo do restante, fazia mais barulho (o barulho não faz bem e o bem não faz barulho) do que propriamente exibia funcionalidades que o destacassem. De plástico com a reconhecida qualidade duvidosa, içava-se e transformava-se num robot, para depois agachar e voltar a ser carro. Encostada à caixa do carro, o resto de um cartão ostentava o preço, cinco euros, rabiscado em caligrafia que me fez duvidar se seria, de facto cinco euros ou, então, um “s” e um “e” num trocadilho entre o preço e o valor, 5 € ou SE?

- Dás-me um brinquedo? – com um pequeno puxão virou a cabeça do pai na direcção do carro, fazendo-o desequilibrar um pouco e cabecear um balão de um homem-aranha em pose pouco máscula e com o cordel amarrado ao local onde estaria a masculinidade do aranhiço, caso este a tivesse.

O pai já lhe tinha avizinhado a intenção, enquanto o braço esquerdo lhe segurava o equilíbrio com a mão no joelho do miúdo, a mão direita contara os trocados em três moedas de euro.

- Estes não, filho, não prestam. Queres antes um gelado de morando e chiclete? – propôs o pai olhando para o preçário da máquina azul-claro da sorveteria, equilibrando rapidamente o orçamento com aquilo que a necessidade poderia comprar, escondendo de si mesmo a vergonha de apenas ter nas mãos a ternura para o abraçar.

O pequenito, grande na compreensão e lesto na álgebra simples do amor, contrapropôs:

- Prefiro um só de chocolate e tu compras o de baunilha. É o que gostas, não é?

E eu, de borla, esqueci o preço e compreendi o valor numa noite contrafeita na ida à festa, ganhando a vida a fazer-me festas no coração.


2019-08-08

Dentro do teu olhar habita a visão do que vislumbrei antes de saber observar.
Viste?

2019-07-24

Os que têm tudo e não são felizes com nada.
Os que não têm nada e são felizes com tão pouco.

2019-06-20

Serafim

"Serafim", uma Crónica do Nada no Correio do Porto.

Foi com surpresa que numa das incursões pelo miasma social deslizei a cara do Serafim. Era uma fotografia simples, na expressividade artística e no sorriso aberto, puro e monocromático, colorindo o passado que, grande parte das vezes, se sobressalta na minha mente, transportando-me para os locais onde, policromaticamente, sonhava com um futuro matizado. Estava, afinal, errado. O Serafim morreu e nada acresce em mim, além da falta de rememorações que sustentem o seu sorrir. Esta vida é, por vezes, um dia no aguardado porvir.
Preciso voltar quase 30 anos, encostado à orla plástica da máquina de vídeo-jogos, a música da placa de som, arcaica agora, debitando os acordes desacordados de “1942” ou qualquer outro jogo, falha-me a memória, o barulho ao balcão, o tilintar dos talheres, um copo que se esvazia, o marulhar seco da espuma na cerveja à pressão a deslizar sem qualquer maré ou fé que naufrague a secura de um dia de calor. Era o Zangão, ainda é, diferente agora certamente, mais pequeno já depois de eu crescer, como tudo o que me acompanhou na infância e adolescência e, agora, no mundo adulto se metamorfoseou. Estava quente e naquelas tardes joviais, onde os minutos permaneciam inalterados durante largos períodos, o Serafim saía do parque de estacionamento. Em pé, entre dois carros, levantou a mão esquerda, a palma da mão virada para si como se um espelho invisível ali tivesse surgido, a mão direita, fechada, doseava um acelerador imaginário e ele, com os lábios tremendo pelo imitar do barulho da mota intercalados pelo pi-pi-pi da marcha-atrás. Consentaneamente, todas as pessoas do restaurante olharam pela vitrine, ninguém esboçou o menor riso ou o mais displicente olhar. Havia solenidade, compreensão, carinho e, aqui e ali, um olhar de amor e admiração. Era o que o Serafim era. Aglutinador de bondades.
O Serafim morreu e agora, com vergonha, não me vejo correr por aí como quem conduz um veículo motorizado ao ritmo de uma existência calma, infantil, conduzindo o destino numa mão enquanto a outra, se chover, mimetizará o limpa para-brisas e os salpicos de uma vida que não sabemos viver na plenitude.
O Serafim morreu e nada acresce em mim, pelo contrário, falta-me algo indistinguível à visão, ao sensorial desvairado que nos sustém deste lado da realidade.
O Serafim morreu e com ele foram centenas, talvez milhares de centelhas de simplicidade genuína, inocência gratuita, arrancadas a quem por ele não ficou indiferente, na felicidade empobrecida pela claridade de um sorriso, exaurida da sua fronte deixando a aba do chapéu vermelho molhada, transpirada.
O Serafim morreu, ascendeu em eterna criança levando consigo tudo o que de bom em nós florescia quando a inocência e o amor passavam por nós a conduzir um invisível camião dos bombeiros.
O Serafim renasceu, mas não o vemos, somos apenas o que em nós finda e, tristemente, estamos cegos ainda.


2019-06-19

O ser é ser-se, ainda que não se seja, talvez, pela falta de conhecimento sobre o desconhecido que se É.

2019-05-20

Desaguando

"Desaguando", ou nova Crónica do Nada no Correio do Porto.

Com o mesmo semblante de quando o horário atravessava uma ou duas aulas sem professores, pela inexistência ainda de portaria, na escola e no mundo, saíamos portão fora, descíamos contra a corrente da estrada nacional e mergulhávamos, inocentes, por debaixo da ponte, para construirmos pequenos lagos no rio areado, esgravatando represas imaginárias e rindo dos girinos aos quais, erradamente, chamávamos caganatos.
O que aprendi na escola fi-lo sem o saber, orbitando pavilhões erraticamente, experimentando pequenas rimas mentais, escapando ao som dos futuros que se plantavam, para me saber de volta a mim quando a matemática se lembrava de espreitar o universo e encontrar-se sozinha, porque não o compreendia.
Hoje as ruas percorrem-me sem que eu me aperceba ser asfalto. Paro o carro ao lado do tanque, o som das rãs e os seus pequenos olhos perscrutando e analisando a ameaça que eu lhes possa coaxar. A água brota da parede como um choro eterno ou uma torrente de vida, dependendo da maresia que eu traga no olhar, hipnotizam-me as eiras, beirais, as lojas ou cortes e os seus lagares graníticos que soluçam uma fermentação agora inexistente, as lajes negras abandonadas, convidam-me a caminhar pela infância, cumprimentar os mesmos rostos que comigo partilharam a catequese, levantar a mão a um velho mais velho do que quando eu era mais novo. Eis que acaricia a terra, escrutina o local onde cravar a enxada, limpa o suor com as costas das mãos para que a palma não se saiba cansada, ergue o corpo e a mão que se agarra à cintura, o olhar ao alto na penitência de não se ter raízes e a libertação de não se saber raiz. A escavadora amarela descansa ao longe, aglutinando descanso para, na próxima segunda-feira, voltar a libertar dos arreios humanos as enormes pedras que susterão a terra e o alargar do caminho. Com que facilidade nos transportamos ao redor de tudo, sem que saibamos o percurso para nós mesmos.
Desligo o carro, já não me alcança o coaxar das rãs, pela distância ou pela ausência de ameaça (ou curiosidade?) que poderia representar. Cumprimento-o, a ele e ao cansaço de sete décadas vividas e um punhado de anos ausentes, a horta sorri-me de volta e ele, que me confidenciara ter pensado em acabar-se depois da morte da mulher, levanta a beira da boina em saudação. Que monumento nos construímos à sombra dos anos que capitulamos em sincronia com o Sol? O homem, a mulher?
Digo-lhe para não se preocupar com a terra, que sempre tratou bem de si mesma, ainda antes que a soubéssemos plantar e ele ri-se, diz-me que está é a tratar dele mesmo, as couves, cebolas, nabos, cenouras e tomates são a vida a conversar com ele. E isto a escola não me ensinou ou talvez o tenha feito nas vezes em que fui para debaixo da ponte da pedra ver os girinos.
“Tem razão”, rio enquanto levanto o braço e esboço um acenar despedindo-me, “esta vida são dois dias, um a seguir ao outro” e antes que conseguisse baixar a despedida e novos acordes soassem no rádio trôpego do carro, respondeu-me,
“Para ti sim rapaz, mas para mim não, eu já cá não estou.”


2019-04-04

Quiromancia

“Quiromancia”, crónica do nada, no Correio do Porto.

Quando o vento oscila no percurso como um puto feliz num baloiço improvisado, deixo-me traquinar e deixar que o casaco desapertado flutue a seu bel prazer. Os muros, menores agora, escalam a geografia de um destino que se faz cada vez mais depressa num percurso onde me perdi porque saberia onde me encontrar. Tenciono permanecer aqui, na medida que me procuro por entre as barítonas noites altas de um tempo que se faz mais baixo. Já não se espremem as casas, nos ferrolhos orgulhosos gravetados por mãos austeras cuja calosidade amansava no rebordo quente de uma tijela de caldo. Agora, qualquer sonho é um escaldo, de solidão e imensidão, ou solidimensidão, vertendo vapores aqui e ali porque o lume com que se tempera a simplicidade tende a tremeluzir e deixar, também aqui e ali, pequeníssimos fios de uma aletria amarelada por alturas do Natal. Dir-me-iam que agora ninguém leva a mal. Talvez seja verdade, mas olhando o desnudado pulso onde não cabem heranças mais do que erguer o peito num inspirado cálido anoitecer alaranjado, quase que a vida nos faz pensar sermos pobres.
É aqui mesmo que me deixo descansar no alto da noite, sobre a pedra falheira que me viu crescer a caminho da escola, a caminho de casa, a caminho do caminho, olhando-me ascendido a um sonho em rota de rendilhado estelar que me tacteia como se fosse, algures, ser alguém. Assim, sentado, pés no argiloso gretado que o tempo comeu, como me comerá a mim, cotovelos assentes nos joelhos, ergo a cabeça enquanto um insecto nocturno cujo nome desconheço, nome e raça, gravita a minha cabeça. Está morna a pedra, ainda, ou talvez esteja eu ainda morno, parado, saboreando lentamente o ar nocturno e aproveitando que poucos passos aqui passeiam, poucas vozes aqui volteiam, apenas eu a escutar os meus risos inocentes de criança, sacola ao ombro, pontapés na poeira de um caminho desempedrado e crocitares que aprendi a desmistificar. É aqui ainda que estou, anotando mentalmente tudo aquilo que escreveria num bloco assim que pudesse, não fosse o caso de me esquecer, o que veio, sempre, a acontecer. Do outro lado mira-me bonacheirão o antes gigantesco inclinado muro, a meus pés, as ervas dispostas em circular, quase espiral, exibem o que parece ter sido o ninho de um animal, envolto em si mesmo, coberto pelo estelar edredão que o universo brinda a quem se sabe ser animal, o focinhito encostado às patas traseiras, ou ao ventre, ou a outro animal que com ele se possa ter apoderado do que sabem eles não ter pertença, ou não o saibam, por serem animais ou, por feliz acaso, não serem hominais.
Desço quando me parece ouvir alguém vindo no caminho, acelero o passo e sacudo das calças, enquanto ando, o musgo e algumas pedras que pretendem fazer o caminho comigo. Ao longe pequenos tremeluzentes led’s iluminam a noite, brancos e vermelhos, coletes reflectem caminhantes irreflectidos ou talvez reflexos da saudade que sinto de ver um pirilampo.
O meu caminho é agora de todos os que caminham e, talvez por isso, me sinta saudoso de ter na mão o percurso para a escola, a linha da vida que me olhava, de soslaio, como se fosse esquecer-me dela.


2019-03-07

À sombra da fé

À sombra da fé, a crónica do nada, para ler no Correio do Porto.

O Sol, ainda que não a pique, cauteriza a tarde esvaída e o meu impreparado caminhar até onde quer que o destino me leve permite-me ver, abrigado pelo muro de pedras irregulares no regular poligonal erigido à força de mãos que, há muito, o pó não provou, a sibilar certeza do quanto infrutífero é o respirar apenas para satisfação da hematose.
À sombra do nicho mariano, onde Nossa Senhora se encosta por vezes um vulto negro descansa. Ei-lo negro, não da tradicional matizada maldade, mas porque o caminho desde a estação é-o subindo, andando e, nestes dias, arfando, pelo cansaço de caminhada e jornada, agora sem boleia, nem marido.
Para trás o comboio, que em verdade o diga vai já lá à frente, silvando, o saco de plástico prenhe de compras feitas de palma da mão aberta na contagem dos cêntimos, centenas deles, esbate-se no empedrado chão, prenhe, exibindo à giza de um busto envergonhado o pacote de bolacha maria, dourada, com que, aqui imagino eu, à lareira se saciará enquanto o feminino negro enlutado se balança no banco feito de cepo de eucalipto, já rachado pelo gume afiado do tempo.
Vai aquecendo a tarde. O muro sacode-me dali para fora, as folhas espessas do limoeiro zurzem atrás de mim e a imaginação, filha única da solidão, envia-me de volta ao meu caminho, sozinho, olhando para trás o que na esquina da fé se sacia, a doce harmoniosa fluência do dia para que depressa chegue a noite, de inverno, bem longe deste calor de inferno.
A viuvez carrega-se de solidão, cegos que estamos vemo-nos pouco do lado de lá, mau grado para quem parte, saciado, descansado, sem conseguir estender para o lado de cá mais do que um esbaforido sentimento, um arrepio inusitado que nos assalta sem nada do nosso lado. Respondendo à carta emocionada toscamente escrevinhada por entre erros linguísticos, sem grandes subterfúgios gramaticais, o marido já sacudido da vida terrestre (e pesada) sentou-se ao lado dela, ali à sombra da fé, com a mão de vento na sua fronte afastando um grisalho cabelo pendido, perdido, permitindo que a proximidade da distância dimensional se esfume por entre o suor e a saudade de quem não vê a eternidade.
Ela, mulher sempre, viúva recente, preparada que estava e na ausência de transeuntes ou crentes que ali fosse depositar a fé, nas costas do talão da mercearia começou a escrever a meio sorriso, “Senhor meu Deus, criador do céu e da terra, tu todo poderoso e sempre eterno santo, pai de todos nós, leva por favor estas palavras ao meu marido. Meu amor querido, faz hoje um ano desde que partiste e eu, aqui, nesta tarde quente, sinto tanta falta tua que peço a Deus todo poderoso, me leve para teu encontro, onde possa sentir novamente o teu amor”. Findas as palavras pelo talão ser curto, ergueu-se e no incensário onde muitos colocavam velas coloridas, deixou arder o papel e as palavras, que ascenderam até onde a vista pode saborear. A seu lado, o marido etéreo sorria, havia algum tempo que o sabia.
Hoje à noite, à lareira, o cepo cairá para o lado oposto onde tombará o pacote das bolachas maria, o peso do luto erguerá ao céu o reencontro da saudade com a alegria.


2019-02-13

Sempre

“Sempre” a crónica do Nada, no Correio do Porto.

Pouca importância nutre aquilo que nos alimenta, seja o floculado céu invernal, que assombra o horizonte com os fantasmas vestidos de cinzento ou qualquer que seja a cor que nos amedronta, o sonho e a vida.
Quando a chuva nada mais faz que nos atirar, humidamente, as espessas gotas de água contra o para-brisas, paramos ainda que nos movamos um pouco sem rumo, que é a forma como se desloca quem não sabe para onde ir.
Há uma infinitude de caminhos onde nos podemos escrever, desde o carteiro à chuva, entregando cartas por entre as espessas bolbosas gotas de chuva na viseira do capacete, ou as gotas que mecanicamente se repercutem nas poças do chão, as mesmas que aspergem saudade do rio que corre ali abaixo do armazém onde colhi parafusos de cacofonias milimétricas que nem sabia existirem. Hoje nada mais sobra além de mim e dos meus medos, enquanto as tuas mãos finas caem nos seixos rombudos e colorem o cinzento prosaico com que me pinto, tudo envolto em labirínticos domingos por onde escorre a etilizada sobriedade, ou sombria idade, sem me saber eterno, quando me esqueço do fraterno, almejando nada mais que o lampejo do farol a pender sobre o mar, em ilhas de arcanjos, comp quem se procure estrela num céu universal ainda não metamorfoseado pelos perscrutadores olhares de uma criança, inocente, presa ao feixe de uma lanterna nocturna, incandescente.
Até hoje, nada me acompanha melhor que a saudade, a mesma que escorre no inverno dos brotos graníticos da aldeia que sonha em ser cidade. Deus nos livre, tal sina, eu como aluno que a mim mesmo ensina, sem me caber, sobriamente etilizado, construo ao redor da imensidão uma espécie de tição, aquela madeixa dourada sobre os campos que nunca colhi por não me saber semear ou as crónicas onde me prostro e solicito ajuda, porque embora me digam que a quem muda Deus ajuda, nunca me sabendo sólido me procuro molecularmente nas órbitas onde nunca me excitei electronicamente sucumbindo, anião ou catião, quem me soube eu longe de mim, gigante, anão, sem caber nas milimétricas fronteiras de um arquivo digital em catatónica crónica.
Agora que as folhas permanecem simples, ordeiras, ao lado deste digital balbuciar do que escondo, remato as linhas com a linha que me soube urdir, a mesma que me lanças, Deus, sem saber fugir porque me procuro nas faces de quem nunca soube existir e na existência conjugada de uma realidade que me foge, a cada dia, de um sucumbido latejar do lado esquerdo do peito, a felicidade, a feliz, idade, onde me sei não existir ontem, hoje, sempre e, talvez por isso, me lamente, escondido por detrás da granítica expressividade na esperança que me saibam ler. Ah, como me saberia bem estender as folhas alvas e sem qualquer expressividade gramatical me deixar soletrar, pé ante pé, sem garatujar o verborreico gramatical, até a próxima linha ser a minha mais recente crónica.


2018-12-24

Natal ou se Deus assim me quiser

Crónica do Nada, sobre o "Natal ou se Deus assim me quiser", para ler no Correio do Porto, aqui.

A porta do bar do móvel da sala abre-se, o cheiro característico emana e preenche-me o horizonte das memórias. O Natal podia ser apenas isto, abrir a porta com as suas quadrículas envidraçadas, deixando ver os pequenos panos rendados e bordados que pendem das prateleiras onde velhas tachas enferrujadas sustêm o tempo. Mas mais do que o tilintar dos copos ou da velha garrafa de rótulo personalizado, onde se degusta o valor que a mesma custou, o rendado branco apazigua-me o que me habita. Fecho a porta do bar, a televisão lamuria-se das notícias trágicas, entre uma ou outra golfada comenta-se o destino. Eis o meu desatino.
O domingo, tal como a vida, segue o seu curso. Caminho na tarde curta ao encontro de um Sol tímido, espreitando, ele e eu, por entre as nuvens cinzentamente coloridas, hoje mais espartanas abrindo caminho ao frio que se precipita. Afinal é Natal e traz-me consigo o futuro que me habita.
Em épocas, seria suficiente o olhar inocente do jardineiro municipal que, para se abrigar da chuva, sentava-se na cabine telefónica desprovida de telefone, desembrulhava o lanche da manhã enquanto com um pé balançava o carrinho, como que embalando carinhosamente as folhas que esgravatando apanhara do chão.
Em épocas, seria suficiente o olhar sorridente do amigo que, ruidosamente, ainda que sem intencionalidade, parava o tractor verde, velho, para dar boleia ao amigo que se desloca a pé no empedrado irregular da rua que me viu pedalar imaginando-me um herói da esquadrilha. E o amigo, entre o apertar de mão em cumprimento e o puxar de mão para apeamento, pendura a moca do guarda-chuva na gola da camisa desbotada.
Em épocas, seria suficiente o olhar compassivo, mas hoje, porque estás quase a nascer, cabe-me apenas a conversa com o viticultor amador, porque ama nas palavras e gestos com que poda as vides verdes e despidas, de onde pendem os cachos que o calor abrasou e secou, a esperança no futuro se deus assim quiser, amarrando as fiteiras e prendendo a despenteada e desregrada videira para que o tempo não a pode, usando termos que desconheço, pois parei apenas para que a viuvez não o deixe sozinho na negritude de uma veste invisível e a horta, o recreio animado de quem à terra se aporta, traga frutos que florem em mim e que nunca vi, quando ao fechar o vidro do carro o ouço clamar “tudo de bom para ti!”.
Nesta época, talvez me torne pessoa, melhor, ou torga, se deus assim me quiser e puder, ocupado que está agora, pois estás quase a nascer.



2018-12-23

Recebe-o. é tudo o que tenho

“Recebe-o. é tudo o que tenho”, crónica na Bird Magazine, para ler aqui.

Obrigo-me a desligar o rádio, o silêncio súbito orvalha a noite e ascende à abóbada escura que encima o horizonte. Quanto mais o circense barulho me veste no dia, mais a noite se acomete ao meu regaço, passando-me a mão pelo ombro e convidando-me a erguer o meu zénite. A estrada e seus afluentes, os quais rapidamente perscruto enquanto conduzo, descoloriram-me a íris. Por entre um outro minuto, uma saca de dióspiros coroa a tarde na sua indumentária real e um desejo sincero de felizes festas traduz ainda o que sobra da natividade. O desenfreado galopar movendo pernas apressadas, aprisionadas, percorrem galerias que vendem tudo o que não preciso. Talvez por tudo não querer, tudo me saiba a ter o nada que tanta falta me faz, a inexistente alva veste, cujos padrões coloro com dedos finos, rechonchudos, gretados e infantis, que já não possuo. Aguardo as vésperas da véspera do Teu aniversário. Tal como criança, olhando o estrelado horizonte ascendido, quando te cantava os parabéns e sorria com o fumo singelo que via sair das chaminés que pareciam nublar a noite para te aquecer na manjedoura, onde quer que estivesses. (agora a sério, onde estás?) Como ficava surpreendido quando conseguias fazer passar pela estreita chaminé a lanterna que timidamente pedira aos meus pais e colocaras dentro da minha bota ortopédica. Sempre pensei que ma desses porque gostavas da simbiose: quando não chovia eu vinha cá fora, com a lanterna em punho, fazer-te sinais de luz (obrigado pela tua). Sorrio, agora, talvez como antes. A inocência alavanca o eixo que nos permite, com uma certa incolumidade, permanecer por aqui mais umas rondas ao astro. 
Com o rádio desligado, a porta do carro aberta, o orvalho a marear-me a cabeça capilarmente desprovida, as gotículas de saudade das memórias que me constroem encontraram pouso calmo. Volto a atenção para este mundo e vejo outra porta metálica semi-aberta, o cheiro a madeira lixada, o pousar de um grampo metálico no chão, a solenidade de um pai, qualquer um, mesmo sendo mãe, na missão de construir presentes que serão entregues em forma de escrivaninha, comprada no esforço prestacional de uma taxa de juro que, juro, vale por ser apalavrada com um rectangular pedaço de cartão e um firme aperto de mão. Talvez pelo frio, arrepia-se a mim a saudade do nada, quando sem faustas luzes, mas em cintilo superior, cá dentro e no exterior, galgava os degraus depois de fechada a porta da carrinha, sacudia as mãos de serrim nas calças, olhava feliz (sem que o soubesse) para o lado e seguíamos a entregar móveis, a receber sorrisos, sacas de tronchudas, um ou outro nabo, a pequena moeda desprovida de valor por me ser dada com amor, a garrafa de Velhotes e o despreparado travo, tudo cabendo num colorido cabaz de sortes. O sortido viria depois, o sobejo do aniversário, as pratas coloridas libertas da tarefa de envolver as raras baunilhas envolviam pinhas e enfeitavam o presépio sobre musgo erigido. Não me sobram pratas, ao contrário das memórias que me vestem, tento amortalhar tudo no tamanho de uma folha de papel, em forma de crónica de uma vida (quantas terei acumulado, já?), mas de crónica apenas a festividade, o acordar lesto no dia o desejo que nunca se apagasse a chama que em mim ardia, este bafejo de uma tarde vespertina, o advento que sopra a quem de si se desatina, uma pérola que nos ofusca sem brilho ou luz, um puto nascido sem nome ou outro, a quem chamam Jesus. 
Acordo-me no tempo, o rádio ainda desligado, a vida que se encosta a mim, de lado. A natividade encima-se de um vazio que preenche e sem nada nas mãos entrega-me tudo o que peço que recebas, é o meu amor, foi-mo também oferecido há tempos, pelo meu criador.

2018-12-16

Feito cão

Eu "feito cão" em Crónica do Nada, no Correio do Porto, aqui.

Há cães feitos gente, reviram lixo. 
Assentes nas patas traseiras, abocanham as sacas de lixo que, ao infalível olfacto deles, lhes parece ter algo de alimentar. 
Não que os cães saibam o que é alimentação, roda dos alimentos, caviar ou bacalhau, fastfood ou food propriamente dita. 
Eles, cães, têm o seu sentido de preservação, que não inclui obviamente desviarem-se de grandes veículos em movimento ou de certas e determinadas pessoas, os desumanos, mas é este sentido de preservação do seu canídeo corpo que lhes faz percorrer distâncias até encontrar um aleatório maná. 
São eles gente, despojada, transportando nos olhos ainda sonhos, seja em forma de roda gigante a abocanhar, seja no símbolo universal do osso, branco, cheiinho de tutano. 
De cabeça baixa, vejo-os mastigar o plástico, a roer cartão da caixa da pizza, e depois imagino-os rindo sorrateiramente, enquanto a noite se espreguiça pelo dia fora, a deitarem-se num local de erva quente ou num buraco de terra que o sol aqueceu. 
Acredito que lhes faça falta uma mão a deslizar pelo pelo, a coçar atrás das orelhas, a acariciar o ventre quando eles, confiança ganha, se viram de patas no ar para nós, como quem diz, aqui está um amigo. 
Há uma certa simpatia, minha, pelos canitos vadios, bem tratados pelo tempo e afagados pela Natureza. 
Alguns imitam bem o homem, matreiros e alcoviteiros, parecem farejar o medo e a ingenuidade e, zás, rasgadela na carne que do barro se fez pessoa. 
O vento serrano açoita o próprio frio e um cão da serra, enjaulado, dorme alheio à avalanche de turistas, a pessoas que, com o dedo por entre as grades, o tentam acordar. 
Deve haver algo em nós, inumanos humanos, que faz de tudo o que não é bípede sem inteligência subespécie, como se todos os que habitam este planeta fossem como eles, nós, desprovidos de sentimento e emoção, sem qualquer direito a andar por aí apenas por andar.
Dentro de momentos, já eu sou cão ou, melhor ainda, faço uma lareira, abrigada do vento, pode ser num buraco de terra que o sol aqueceu, e deito-me no chão, barriga para o ar, feito cão.


2018-12-13

Outono multiplicado

“Outono multiplicado”, mais uma crónica do Nada, no Correio do Porto, aqui.

Av. Marechal Gomes da Costa, Porto, uma cidade num qualquer desígnio Outonal que não nos pende das tonalidades com que estas árvores imponentes (qualquer árvore é imponente, o Homem é apenas indiferente) urdem a paisagem.
Não sei o que me atrai mais, se o brilho oponente e invisível do orgulho com que as árvores ainda seguram algumas das suas folhas, se o desamparado abraço com que umas boas décadas de gente seguram um outro corpo desengonçado, se pelo vício, se por doença, não o sei.
Apenas o seu íntimo, se por um acaso calhar, hoje em dia raro, de o seu, o íntimo, ser coisa transparente e dotada de honestidade, o saberá. Ele e Deus, que tudo sabe (e por isso me apazigua, nesta e em qualquer rua).
Pára uma e outra ambulância, Amarante, Felgueiras e outras proveniências, distantes demais para a proximidade desejada de quem se vê agarrado a uma incapacidade, momentânea ou permanente. Os piscas vão trazendo um pouco de urgência já não urgente, assinalam a brevidade da paragem e colorem, intermitentemente, a tarde que se arrasta languidamente, pressentindo talvez que a quadra Natalícia se aproxima.
De dentro do carro, as gotículas gordas, roliças, sustêm a respiração para escapar à gravidade e multiplicam as cores alaranjadas, obrigando-me a focar o olhar fora do para-brisas.  
A porta lateral da ambulância rubra anima-se e sai em primeiro lugar, parecendo animado de vida, um andarilho, as raízes metálicas, inoxidáveis, de uma árvore de seiva viva em caule morto. 
Ainda não me tinha emocionado, havia de acontecer agora. 
Um Bombeiro, gente dos seus cinquentas, cara austera, sai da ambulância, pousa o andarilho no passeio desnivelado e com um carinho que as ruas da cidade me desabituaram a ver amiúde, alça a perna, a bota militar de um soldado apaziguador calca com veemência o degrau de plástico, entra na ambulância, passa o braço em redor de um peito feminino, abraçando com força a alma de um corpo que não se levanta, içando à vida quem a ela ainda se agarra. 
O resto veio depois, mas eu tinha já ali o meu quociente, dividendo e divisor na equação de dividir a bondade pelas pessoas e, não fosse estar atento ao horizonte, quase passava despercebida a folha que se tinha desprendido dela própria, caindo dentro de mim.



2018-12-09

Podes entrar

"Podes entrar" na Crónica de Domingo na Bird Magazine.

Os domingos colorem-se, na ausência das vicissitudes profissionais, pessoais e existenciais, de vários sonhos que me alimentam desde que, bem, desde que me conheço. 
Podes entrar.
Convido-te a afastares o portão, feito de cordas bamboleantes, que servem apenas para assinalar o local onde começa a privacidade. Construí-o há énios, entre vi(n)das e partidas, como o sítio onde começa a vi(n)da e termina a ausência. 
Vais encontrar um pequeno caminho, aqui e ali com pedras toscas no chão, mas na essência feito com gravilha, cascalho e alguns pedaços de pele de crianças que se atropelam enquanto tentam voar como borboletas. 
Não te sei dizer como vim aqui parar, talvez pelo cansaço e aventura.
És bem vindo(a), traz-te e também os teus sonhos. 
Escolhe um local, escava um caminho, acomoda-te e faz de ti o que sabes ser, não o que te ensinaram, mas o que aprendeste. 
O caminho segue por entre clareiras e para por momentos, tu, não o caminho, debaixo de carvalhos. 
De noite tudo se ilumina, maravilhas da energia solar, mas essencialmente tudo reluz porque é de noite que, fechados os olhos, outros se abrem e vêm o que tudo existe. 
Vais encontrar tudo o que precisas, porque nada cá tens, apenas eu, outros, abraços e responsabilidades. 
Ficas cá enquanto quiseres, enquanto te sentires afim, longe de tudo e perto de todos. 
O teu talento é mais um caminho e uma ponderada conta a saldar, tudo se conquista com esforço e dedicação, em troca de todo o amor que possas receber e, um dia, cansado(a) vais subir aquelas pedras, não essas, aquelas, ali, atrás de tudo, em que as urzes parecem nunca perder a cor de Miguel Torga, e vais sentir-te livre e, quem sabe, talvez também tu ilumines este mundo, estes carvalhos ou, então, te deixes subir num jogo de luzes boreais para onde já moram todos, inclusive a parte de ti que é nada. 
Vais descobrir, lentamente, que a sinceridade tem pingo de suor, que o dia amanhece não pelo sol, mas por ti, que sentes a responsabilidade de seres mais que alguém e te descobres, também. 
Acomoda-te, livre, onde pensas a terra ter o teu nome. 
Escolhe uma árvore, senta-te e descansa, o dia será grande e o país ainda o é maior. 
As ferramentas estão ali no barracão e as tuas ideias, não as que pensas, mas as que trazes no coração, são manejadas por ti, para que onde quer que lavres, nasça um fruto do que melhor sabes.
Aceito inscrições para o local de todos nós. 
Só faltas tu, traz no teu silêncio a tua voz.
Sorri.

2018-11-25

Sulcos

"Sulcos", crónica de Domingo na Bird Magazine, para ler neste link ou aqui.

Caminho nesta tarde cinzenta e húmida de Outono.
Há momentos em que ao invés de calcar as folhas dos plátanos, arrasto os pés e vou deixando dois sulcos, como lentos carris, atrás de mim. Existe em nós algo narcisista, de cunho histórico, a presença que gosta de percorrer caminhos e deixá-los assinalados, como quem afirma:
- Passei aqui.
Algo semelhante ao que encontramos em todos os parques e locais públicos, mais ou menos frequentados, as vulgares frases “Eu estive aqui” ou o usual “Amor para sempre, de Joaquim e Joana”. Os nomes são inventados, não por mim, mas por alguém, eu apenas escolhi dois aleatoriamente e juntei-os naquela pequena frase, cicatrizada tumefactamente na face de uma madeira que já se cresceu árvore.
Falava, ali acima, dos sulcos. Percorri uns metros e olhei para trás, o vento tinha levado já algumas folhas para tapar os sulcos, meus e de outros, há várias manias com os mesmos malucos. Senti empatia com o vento, teria pena, mas do vento que se liberta até da própria liberdade nada se tem além de empatia, simpatia e apatia quando eles nos silencia a fala entreposto entre dois olhares. Quando passou por mim novamente agarrei-o por um braço, levava a cabeça baixa e ofegava. Passei-lhe o braço pelo ombro e fui com ele, devagar, deitar e acamar as folhas que eu próprio tinha levantado.
O trabalho em equipa é mais lento, mas bem mais produtivo.
Acabei, parámos os dois ao mesmo tempo, a última folha foi colocada por nós ambos simultaneamente. Olhámos um para o outro e sorrimos, ele seguiu o caminho dele e eu, enquanto o via disparar em direcção ao horizonte, segui o meu caminho a pensar que é provável ser mais fácil, digo eu, pararmos um pouco, erguermos os pés e voltarmos atrás, cravando-os na terra e arrastando-os, escrevendo cicatrizes na vida, parar e voltar, ir e viver, nesta ou noutra vida, percorrer os mesmos sulcos, e lá, no início, onde calcámos a vida, ou alguém, talvez nós mesmos, mirar o local e dizer:
- Desculpa.
Facilitaríamos o trabalho ao vento.
E à vida.
Pensava nas folhas, nos sulcos, nos caminhos percorridos, nos que sulcam caminhos e só vêem os seus mesmos passos, onde passam tanto tempo contemplando o caminho que nem o sabem percorrer, os que pensam que caminhos não existem que não os que os seus próprios pés calcaram e que nos dizem:
- Não vás por aí.
O súbito esmaecer da luz diz-me que devo acordar, o carro da frente já arrancou e eu, que gosto dos meus caminhos com neblina, por vezes apenas no embaciado da retina, faço o mesmo, piso a embraiagem, engreno a primeira velocidade, levanto o pé levemente e arranco.
Já não tenho tempo de rever o meu pensamento impresso.
Chego a casa.
Deito-me, fecho os olhos, levanto o meu outro eu levemente e arranco, para lá da vida.

2018-11-22

Golo!

"Golo!", mais uma Crónica do Nada no Correio do Porto, para ler aqui.

Valorizo imensamente as conquistas do dia-a-dia, as coisas complexamente simples, como a pessoa que, à minha frente, para comprar uma sande-almoço vai olhando o preçário e as moedas que tem espalhadas na mão como uma constelação de estrelas baças refletindo a escassez, contando e escolhendo a sande-almoço à medida da carteira e não à medida da fome e da sua necessidade. Recordo outra vitória quotidiana que a vida me fez o favor de embrulhar e trazer na maré do horizonte abaixo do meu olhar, o mar salgado por onde entram as histórias não naufragadas.
Há vários anos – pelas escolas primárias verdadeiras e térreas, brancas, espalhadas pelo país como ovelhas tresmalhadas nos prados, pastoreadas por nómadas professoras, antes de ordinais ciclos – enquanto trabalhava num projecto que me fez caiar a vida e o corpo no calor ameno de uma salamandra na sala de aula, onde se aqueciam botas, casacos molhados e leites achocolatados – conheci e estive com centenas de crianças de meios supostamente desfavorecidos, alinhados etariamente entre seis e dez anos.
Na escola, depois de estar com os alunos de duas turmas do quarto ano, a professora de apoio veio pedir-me se eu estava um pouco com um aluno NEE – sigla pomposa e urdida certamente em encíclicas educativas onde se discute o que fazer aos que se tresmalham, mas nem assim, infelizmente na maioria, abria as portas da ajuda, da compreensão e educação. Felizmente, o carinho era assegurado independentemente da sigla com que se baptizam e catalogam as diferenças. Assim fiz, a professora chamou-o e ele, timidamente, espreitou à porta e perguntou:
– Posso entrar? – o aspecto da sala não seria dos melhores, pequena, mas acolhedora, uma arrecadação transformada (com bastante gosto e cuidado) em biblioteca, um ligeiro travo a mofo.
– Sim. – Respondi, e ele atravessou a porta, sorriso permanente, diferente, movia-se coxeando, bamboleando, uma dança desconexa nalgum tipo de deficiência física que, sinceramente, não sei o nome. Convidei-o a sentar-se e ela fê-lo caindo e sorrindo sobre a cadeira. Comigo a entremear perguntas, ele, a medo, mexia no rato e via animado o cursor mover-se no monitor, não olhando para mim enquanto eu tentava criar um ambiente mais relaxado e que me permitisse encontrar pontos de interesse, até que, na sofreguidão padronizada de adulto perguntei o que gostaria de fazer quando fosse maior. Ele parou, olhou-me e naquele corpo franzino e retorcido, do meio daquela cara miúda sorridente, com olhos cansados, disse-me:
– Quero ser jogador de futebol! – Desarmou-me, fintou-me e pontapeou-me aquela manhã de uma vida distante. O que dizer? Não poderia, nunca, à luz de uma razão crescida dizer que não o conseguiria e, até hoje, permaneço sem resposta dada e recordo a humildade, o olhar, o sonho naqueles olhos a brilhar.
Sem bater na barra, rematando com assertividade própria de quem ama a existência independentemente da fisicalidade que nos traz o mundo pelos relvados que sonhamos pisar.
Foi o melhor golo que vi na vida.