Caudal
Caudal, crónica do Nada, no Correio do Porto.
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ao destino, ainda que pela ignorância nos caminhemos no matutino saturno, percorremos as curvas que sucedem a outros curvilíneos percursos por entre as espaçadas rectas. A manhã aconselha alguma prudência na indumentária, mas que frio teremos nós, reconhecendo-nos filhos do Sol? A torrefacção da manhã auxilia as forças no despreparado corpo, há que descarregar seis armários, três tampos de granito. Não preparado, entretanto, para serrar os barrotes de eucalipto que sustentam a torpe tábua prateleira onde repousavam, poeirentos, todo o tipo de artefactos electrónicos; raspo as mãos na parede tosca como rugas na face de qualquer vulto inocente e adulto.
A louça do pequeno-almoço mira-me a descer os socalcos durienses que são os desnivelados degraus em cimento. O tecto baixo obriga-me a caminhar em vénia constante. Tudo respira a pobreza, no entanto, esta santíssima trindade ao abandono votada, muito além do que os leilões online de roupas que cobrem corpos e mentes nuas, carrega no olhar a mais alta nobreza. A divisão renovada em cozinha tem no centro uma mesa rectangular. A cada canto um pouco de velhice e cansaço conquistam a manhã a seu próprio custo. A caneta da insulina, os comprimidos do “caustrole” misturados com “os da cabeça”, a louça que acabo de retirar dos velhos armários de fórmica, tudo abalaustrado sob velhos panos de cozinha numa construção de Gaudi, inacabada, perfeita na imperfeição, que culminam nas calças velhas polares que tapavam o respiro recém-aberto por onde o exaustor irá respirar dos ares dos fritos da velha frigideira.
A decana relata-me, entre agradecimentos pelo desmontar da velha banca e o cuidado com a medalha do pequeno, da associação de apoio ao cidadão diminuído mental, pomposos nomes no insubstituível trabalho e conforto de vozes inaudíveis no labor voluntário designado pelo divino; ou consciência. Um retrato quadrado, pobre, iluminava o espaço com o grande sorriso infantil, a mandíbula saída num esgar constante de quem nunca viu o mal nem compreenderá metáforas sobre o tempero dos dias ou apenas ser, de tudo, o sal; a dentição rara e espaçada, o olhar celestialmente azul e as saídas orelhas em abano numa desconcertante candura existencial cujos vocábulos se diminuíam a esgares de contrariedade quando a matriarca o mandava levar o lixo ao contentor. O pai, por detrás das grossas lentas e entre o silêncio da surdez a quem nem os aparelhos auditivos ajudam a reverter, desculpava-se, a cada sorver do café frio, com as dores das articulações e o não ajudar na tarefa que nos move, hoje, matutina manhã -saturnina.
Obra feita, labor concluído, escuto o queixar das dores dos ossos, metáfora para um queixume de uma vida dolorida, manhãs sonolentas, futuros tolhidos há trinta e dois anos, “desde que ele nasceu”, quando deixou de trabalhar para fora, para laborar para dentro; um menino Jesus homem, esquecido por Herodes, mas também por outras odes; “’inda esta semana andamos pelo pió”. Compreendi a dificuldade linguística com a sigla IPO e despeço-me com um escondido lacrimejar que a viagem para casa fará esquecer, mas não o aperto de mão firme, surpreendido, que lhe dei e me fez sentir, uma vez mais, ter tanto por onde fluir, ainda que as pessoas sem caudal ou as barragens, como as do Douro ali ao fundo, nos pareçam impedir.

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