Entrudo
Entrudo.
in Crónica do Nada, no Correio do Porto.
(https://www.correiodoporto.pt/prioritario/entrudo)
Esqueço-me da soma dos dias pelo subtrair das preocupações, ainda que alheias, agora que as águas baixaram e passamos os dias a vau.
Ainda ontem era o ano anterior, para hoje estar em meados de Fevereiro sem dar por ela, como se a maré subisse e hoje, em pé, permanecesse num cabeço qualquer numa ilha inexplorada, apenas eu e a fé.
A cada manhã carpintada ou marceneirada em tarefas septuagenárias, pelos diálogos de profundo silêncio ao longo das esburacadas estradas nacionais, novos conhecimentos acumulam a riqueza que outros não conhecem. Ora pela falta de silêncio. Ora pelo silêncio imposto de quem não gosta do silêncio dos outros.
Estaciono como posso, adentro ruas com um credo mudo sem ver onde posso inverter marcha e a ponderar, enfim, retroceder com cuidado. Mas há sempre alguém ao fundo, braço no ar, avental colorido sobre um luto extenso, indicando algo que, deduzo, seja onde possa dar a volta, estacionar, descarregar a primeira prestação e apreciar o sorriso genuíno de quem nem se sabe maior que a vida.
No regresso a casa, à porta do café, quase noventa anos de vida saúdam-me. Um olhar cansado, mas vivaz, diz-me gracejando que não vai ao Carnaval porque não tem paciência. Talvez seja pelo facto de, na ordem inversa da naturalidade da vida, ter feito o funeral de um filho, que o bruxulear dos dias tem vindo a iluminar o cansaço que constato a cada reencontro. Convido-o para um café, que declina alegando já o ter tomado. Despede-se com a mão rugosa sobre o meu ombro e o tradicional sorriso, sem máscara.
Ora hoje as matrafonas retiram a máscara e concedem descanso às vestes rugosas que ornamentam as faces do quotidiano. O corso carnavalesco vai colorindo quem aprecia a pausa das intempéries, ora nos ecrãs televisivos, ora nas ruas das freguesias onde pavoneiam, orgulhosos, másculas pernas em rotas meias de vidro, torneados musculosos abaixo das mini-saias minúsculas, sorrisos escondidos atrás das máscaras de nariz adunco e protuberantes sinais. Nada como se mostrar o que não se é, um dia que seja, entrudando a vida em alegria e jovialidade. Pobres, aqueles, queixosos, ricos, cuja máscara se cinge ao grasnar espesso ao longo dos dias, sobre-erguendo o sobrolho a cada conquista alheia, urdindo o azedume na incapacidade de ser feliz pelos outros e, apenas e enfim porque sim.
Estaciono-me como posso no sofá. Desligo-me e marino-me com a paisagem que não vejo, para lá do Marão ou qualquer outra das serras, calos de uma terra, de um país, que dobra mares de pedras, descobrindo os dias nunca dantes navegados, na placidez de fechar os olhos e fitar o universo que me habita, surpreendendo-me com a face das estrelas que nunca usaram máscara, chocalhando coloridamente as noites e os longos parágrafos, por nada, por tudo, apenas porque hoje, dizem, é entrudo.

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