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A fotografia

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“A fotografia”, crónica para ler no Correio do Porto .   O calor começa a surgir como se estivesse na sua hora de recreio, o Inverno dentro das paredes cinzentas onde as portas de madeira se encolhem encimadas pelos números alfabéticos que identificam as salas onde, pacientes, professores professam o futuro. O final do ano lectivo parecia moldar o emaranhado quântico adivinhando a ligação que, com pena minha, nunca se verificou. Longe de saber que cada qual seguiria o seu caminho, mantive-me percorrendo os anos em torno de mim, experimentando, soltando, prendendo, ganhando, perdendo, ensinando, aprendendo, olhando para o lado sobre as montanhas como quem mira sobre o ombro e os vê ali, os amigos, na sua própria órbita, separados por um intervalo grande a caminho do bufete ou do campo de desporto, a trautear uma música da adolescência, a olhar timidamente numa fugaz paixoneta típica da juventude. Aproximava-se o término de um ciclo, a aula de Matemática termina num intervalo de núme...

Semeadura

"Semeadura", crónica no Canal N . O sonho de um lugar novo para o lar tinha nascido ao mesmo tempo em que as mãos descobriram o afago da redonda redoma do útero maternal, em conversas crepusculares quando nascem e se põe as ideias conjugais, à cabeceira de uma cama em casa emprestada, entre paredes idosas de pedra e corações juvenis de ouro. No final do dia, quando o cansaço de uma jorna ainda não despertara, os braços bronzeados misturavam areia, cimento e água, vertida depois na cofragem de madeira, dia após dia, para que no fim-de-semana outros braços, familiares e amigos, surgissem para o matutino auxílio tão típico quanto o orvalho suado pelas noites frias e, tijolo a tijolo, sangue a sangue, suor a suor, ganhasse forma a habitação.  A cozinha exterior foi a primeira edificação, um pequeno assentar de um arraial num terreno ganho à tenacidade das oliveiras. Ali surgiram as primeiras noites da construção, o fogão a lenha debitando o calor com que o amor temperava o rancho...

Declama dor

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 “Declama dor”, mais uma crónica do Nada no Correio do Porto . As luzes diluem-se no palco escorregando ao longo das paredes alvas, pousando na ansiedade arfante do peito errante, antes de se esbaterem languidamente no chão do auditório. O burburinho anterior da plateia alheia-se e dá agora voz ao silêncio, a expectativa de um olhar ao lado mais luminoso de um sorriso que, por detrás da cortina, ultima a deformação da pessoa para vestir a personagem. Notas soltas de um piano preso à mão do compositor, pincelam a noite eterna da alma numa toada amordaçadora que, no condão de sublimar, acalma.  Caminha, paulatinamente, sibilar, carregando nas mãos as folhas virgens de um papel que não seu, a figura de quem se deixa vestir assexuadamente pelo intérprete, urdindo na sua sombra a realidade como figurante, quase a doer, saltando de banco em banco no público, quem sabe, assim exposto, se faça o privado, tal como o actor, amado? Há em toda a encenação um prenúncio de rogo, versos rasg...

Soçobro

“Soçobro”, crónica no Canal N, para ler aqui ou aqui . Badala-se o sino, a liga metálica repercutindo no ar gélido da manhã transmontana as ondas sonoras de um lamento. Sabemo-lo dia de luto pelo número de toques, o braço firme retesado que firma e puxa o arame, contrai e relaxa o arame. Viver é um ir e vir.  Algures, entre labutas agrícolas, um ancião retira a boina negra, leva o joelho ao chão bolboso, negro e humidamente fértil, e convida ¬– rezemos um Pai-Nosso por este irmão que partiu – e lestamente, no respeito que merece o fim de uma existência terrena para a partida que se quer serena, os restantes lavradores ajoelham-se e guiados pelo mais velho, o que sabe os toques e repiques, aquele da sábia palavra final, como pontuação sensível no final de qualquer diálogo serrano, concluem a oração, solenemente, pacatamente, sabendo que o tempo é de quem o sabe deixar passar de encontro à sua própria existência. No adro, o musgo, as ervas e as flores crescem entre as frestas das ped...

À boleia do Sol

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“À boleia do Sol”, crónica para ler no Correio do Porto , na secção Crónicas do Nada. O cemitério aglomera-se de silhuetas difusas que o Sol, errante em meses de Inverno, projecta no chão nesta a que chamam morada eterna. Local de silêncio, porque o amor não faz barulho, resgata à saudade o cuidado com que familiares, amigos ou curiosos, há gostos para tudo, relembram, dependendo da distância da marca lapidada no amarelecido metal á actual, a partida sem regresso visível.  O portão esverdeado de musgo que teima em crescer até aonde está a vida a morrer, vê-se atravessado, enquanto aberto e de sinaléctica covidiana ornamentado, por senhoras de diversas idades num movimento pendular temporal. Cavaleiras medievais de vassoura e balde armadas, avental padronizado, ei-las guardiãs de um partido, talvez amado, asseando campas.  Há misto de dor e resignação, alívio e compaixão quando prostram o joelho no chão durante o asseio às lajes de granito que vêem passar os tempos sobre o temp...

Perene

Perene, crónica no Canal N.tv O quebrar gélido do solo a cada passo tomado faz da figura transmontana uma espécie de crepitar humano, que acompanha a vida ainda que seja durante esta manhã fria.  O bafo quente a cada expiração inunda a manhã, como se o percurso sobre a terra coberta de neve fosse um longo, não linear, percurso de um comboio numa paisagem ondular e sibilar, que muitos querem aplanar, findar. Passo ante passo, rumo ao povoado, sem qualquer queixume além do lacrimejar glacial que se aglomera nos cantos dos olhos e lhe confere uma visão periférica digna duma paisagem polar, as mãos nos bolsos da samarra, o pescoço encolhido e recolhido para o tronco, os ombros alçados ao céu - como as orações, não é por isto que rezámos? para que nos ouçam celestialmente e nos alcem pela espádua a onde nunca deveríamos ter saído –de encontro ao pêlo animal do casaco, a boina cardada que encima a figura alta e alva finda a descrição do indescritível. Os povoados esvaem-se, a simpli...

É segredo

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 “É segredo”, ou talvez não seja, para ler aqui ou no Correio do Porto . É sábado, manhã fresca apesar da proximidade da Primavera e da pandemia dar os primeiros passos. O frio no rosto vence-me apesar do Sol içar já as sombras das árvores que ladeiam esta velha estrada. Fecho a janela, ligo o rádio. É clássica, a música e a estação, o trinado de instrumentos que desconheço, mas que tão profundamente contrastam com as cacofonias típicas de quem nada tem para dizer.  O medo amordaçador de antigamente amedrontava menos relativamente a este medo gritado que exponencia receios, alastrando-se como um bolor existencial, corroendo onde não se vê, sorrindo azedumes dentro de cada um, na vida que murcha por detrás de um sorriso falho e estilhaça sonhos, por já não sabermos mirar-nos nos olhos. Encontro o local passado duas curvas e uma figueira grande à esquerda “não tem que enganar” disse-me o meu pai, mas enganei-me. Desço a pequena rua calcetada e estaciono entre duas tangerineiras,...