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É do futuro o entrelaçado passado que me soçobra, não pelo vento, nem a falta de alento, mas pelo que de mim me ausculta, vitrificado, o outro eu que não meu, teu enfim o infinito calado, como a palavra silenciada o meu cajado.

Não devia viver assim

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“ Não devia viver assim ”, crónica do nada , para ler no Correio do Porto ou aqui. Sabermos o quão a madrugada nos molda para o dia é adiantarmo-nos ao nosso crepúsculo. Não o imaginei por iniciativa própria, mas por descortinar pelo fumo da chaminé de aço inox ou pela senhora que, agora, passa por mim com uma rodilha no alto da cabeça, o saco de plástico, que ganhou as vezes de uma seira de vime, das compras equilibrado, uma mão sustendo o pacote de bolachas e a outra mão, alavancado a vontade de comer, com bolachas Maria, num acto mariano de alimentar a alma numa manhã fria para o corpo. As portas ainda não descerradas quando a braseira ou o fogão a lenha parecem já trabalhar, exibem a casa fechada ao tempo, onde os anos se amontoam no corpo regado a vinho tinto, maduro, e panelas de sopa, verde, que são sorvidos em igual quantidade, numa miscelânea apropriada às manhãs, onde os amontoados restos de poda, folhas varridas com o amor que se sabe ter ao Outono em que entramos, na e...

Órfãos da misericórdia

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Órfãos de misericórdia , crónica do Nada no Correio do Porto. “Órfãos da misericórdia” Quando me aterram as memórias, pauso-me no hiato entre as vidas que sei ter conquistado à morte. Afinal, a passagem de um mundo para o outro está ao alcance do destapar, paulatinamente, o postigo onde o musgo calafetou os espaços entre as tábuas de madeira toscamente pregadas. A liberdade oscila no espaço a percorrer desde que nos soltamos das amarras do nosso próprios cais, até ao sereno embalar de um homem só, na maré, de frente para o destino, em pé. Embora me consiga envolver e desenvolver de encontro ao portão de ferro, o arame farpado retorcido e as inscrições germânicas em terras polacas, ostentam tudo o que poderá ter de enganador na palma das mãos de Hades.  Concentrados num campo estéril onde apenas o sofrimento irrompe, perdidos no caminhar árduo da imemorável história dos pisados, vejo-os oscilar na existência como pequenas marionetas cujos cordéis urdidos foram pelos que, ca...
Pagaria, caso as nuvens fossem dinheiro, o que necessário fosse para ter, sempre, a refracção das gotículas de água num dia de sol tímido.  Engano o torpor de uma viragem na estrada com a promessa de ser, novamente, o som abafado da surpresa de uma criança a ver pela primeira vez a influência de um sorriso. Tenho gastado as horas, talvez por isso o tempo ranja quando passa perto de um sentimento e o vento se faz ao caminho, na maior parte das vezes sozinho, para se sentar no colo de alguém que o embale, até ele se recordar daquilo que realmente vale. Deitado, a noite subiu já até ao meu peito, preparando-se para me cobrir. Agora sim, é hora de dormir.

Dás-me um brinquedo?

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“ Dás-me um brinquedo? ”, crónica para a secção Crónicas do Nada , no Correio do Porto . - Dás-me um brinquedo? É impossível perceber onde terá ele visto o brinquedo e qual terá sido, as roulottes de bebidas e comidas sacudidas pelo ribombar das colunas que, ritmicamente, soltam decibéis de uma verbalização cacofónica muitas vezes ignóbil, orlam a avenida onde, longe agora da passividade das caminhadas diárias, se deslocam afobadas pessoas, infantis, adultas e indefinidas em busca do que é que quer que seja que lhes sacie a ansiedade que ladeia a ida à festa. - Dás-me um brinquedo? – retorquiu. Virei a cabeça, o puto cavalgava os ombros do pai, talvez antecipando uma ida ao carrossel infantil, trotear num cavalo tosco, rodar um volante a medo para a roda não sair do trilho, tocar na sineta do camião de bombeiros ou cintilar num unicórnio rumo ao arco-íris, destino final da fantasia pueril que, em adulto, não passará de um risco colorido no céu, longínquo, apesar das tentativas ...
Dentro do teu olhar habita a visão do que vislumbrei antes de saber observar. Viste?
Os que têm tudo e não são felizes com nada. Os que não têm nada e são felizes com tão pouco.