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Olho para o fruto, caiu-me colhido na mão aberta. Ficaria o resto deste tempo limitado neste pé de laranjeira somente a e para te ver crescer, para que também tu me vejas semeado na vida sem contudo frutar, porque as palavras germinam, mas jamais o fruto colhe o que polinizou. Olho para mim, nascente a poente, com o desejo de emancipar almejado diário de tudo o que serpenteia no céu, ainda que nele sobre apenas desejo, meu.
Guardei o melhor para agora, que tudo dorme, para abrir os braços e deixar-me levar ao colo pela noite, que tudo acorda.
Trago já de longe o barulho característico do metal das rodas do comboio a zunirem no ferro do carril. Ouvir é-me deixar escorregar pelas imagens de uma paisagem que me olhava quando puto me colocava em pé, sobre os radiadores, e espreitava o vento a correr do lado de lá da janela, o cheiro a cigarro, o pregão intermitente do rebuçadinho da Régua, a lentidão do trajecto na rapidez da aventurança de catraio a tentar descobrir o que era o sonho de vir a ser carruagem com locomotiva de ronco forte e áspero. Paro, escuto, olho. O que vejo faz-me levar a mão aos olhos, não vá o vento, o calor da linha e o cheiro de óleo queimado deitar fora o sal que ainda me tempera a visão.

A liberdade de escrever

in Bird Magazine . É comigo que o silêncio fala, escuto ainda que não o ouçam os pobres olhares que dizem nada terem a ver. Vidradas as luzes bruxuleiam-se ao tecto para se derramarem sem cuidado nas noites que tentam iluminar. Enquanto na caverna temem a vida vivendo cá fora acautela-se e emoldura-se o vento e até a estupidez se cala, porque ao longe vem o silêncio e é comigo que ele fala… Ainda que me doa o acordar é pelo sonho que me vivo, no momento de me ter escrito separar o vulgar de um sopro inaudito cá te almejo por entre mim fugindo do destino que soçobra altivo, és planeta que se expande num botão de Universo que plantei no meu jardim. Intriga-me a quietude do silêncio o amadurecer do êxtase a órbita orbitada inefável pela noite (sempre, sempre a noite) que se desliga do mundo para se ligar à vida (sempre, sempre a vida) enquanto as perolazitas a que chamam estrelas rebolam e se enfiam olhos adentro como se os dias chorassem para dentro de nós. Que me lembre, sempre,...
Vou não indo, a decisão toma-se quando não se decide. Por crer, creio que o amanhã poderá querer ser diferente, trazer o que se faz ausente, permitir que floresça um caminho do qual se sente apenas o odor, a certeza da incerteza, a volatilidade do infinito em constante mutação. Estão-nos a parir, vamos nascer com olhos nas estrelas, mas por enquanto o mais próximo de lá é o olhamento de uma brisa ténue, quase sem vento.
Acredito, um dia, dois que sejam, a indiferença pese menos que a diferença e por esta o trigo possa seguir adiante, sementeira e seco na eira e até o joio alimente, não a bolsa de quem semeia fome, mas quem no fundo do esquecimento nos olha, de frente.
Oh alicerce, pinta-se o monumento e as mãos do Homem e tudo se perde se além do amor nada perece, façam-se as vozes caladas canção a sombra onde se esconde  tempo e visão guardada a sete almas  a chave, toma-te criança habitada por quem se sabe perdida, aí jamais a morte alcança.