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Havemos de voltar ao que fomos, pássaros. Aproveito uma longa viagem de carro para colocar alguns devaneios em dia, jogar scrable com as nuvens é um deles. Alinho nuvens, primeiro por cores, depois por formatos e acabo por ter um mosaico retalhado que fica muito bem até o vento, aquele desajeitado, vir espreitar e me baralhar tudo. Não adianta ficar chateado com ele, com aquela cara de desalinhado, num misto de vergonha e confusão, é impossível ficar de candeiras às avessas. A estrada vai gemendo debaixo do carro, range aqui e ali enquanto os pneus, enroladitos neles mesmos, vão desafiando o tempo de chegada previsto com o tempo que eles pensam conseguir fazer. Acabo de subir a Serra dos Candeeiros, já com a cabeça bem longe das nuvens, quando vejo a surpresa que me prepararam. Um longo tapete, uma estrada no céu, feita por nuvens, grandes e pequenas, com todas as cores distintas existentes no espectro do cinzento, laranja, rosa, branco, preto e um je ne sais quoi de lilás. É um ...
A chuva... Ah, a chuva, a bater nas persianas, a deixar-se cair do telhado do alpendre para as poças. Ah, a chuva e todas as memórias... Chover é como viver, só se saboreia depois de se provar.
Há uma profunda solidão nos olhares dos que se abandonam, sem nunca saberem que o vazio é o todo cheio de nada... There's a slow train coming...

Era noite, que dia seria?

Era noite, que dia seria?, e as movimentadas estrelas apressavam-se para receber o sonho, ainda que pálido, de erguer ao céu uns braços cálidos. É de quem a madrugada, do silêncio que se alimenta de mim, das vozes que pousam num despido jardim, das pessoas sem gente dentro que gravitam num vácuo sem fim? Seria dia, que noite era.
Cerrou-se o monte sobre a sombra, já a torga se recolhe ao Miguel, o vento aninha-se de encontro à Lua e deixa cair o suor de uma vida de trabalho, que passa num dia ainda por nascer. Os dias são clausuras de liberdade, momentos nos quais as estradas que serpenteiam sibilam e aplaudem o lauto esforço de quem se faz trajecto, para que outros tenham caminho.
Sinto falta de escrever como se de água me esvaísse na sede dos meus dias... A necessidade da palavra, garatujada, na palma das mãos, que me conhecem tão bem. Vai-te vida, na felicidade que se contém, que não te prenda eu à barra, no cais musgado do inverno que a mim se amarra. Só a noite sussurra. O silêncio que me cura. Boa noite.
É com as folhas que me batem na janela que desperto para a necessidade gratuita de ser árvore, de ancorar no universo porque me fogem as estrelas das pétalas.