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Vozes que não abracei

Nascem-me os mundos pelo olhar, não suporto as vozes que não abracei, porque se me calam os acordes das letras com que à vida brindei? Há um cruzeiro de pedra quatro esquinas cinzeladas a granito e um corpo abandonado pela solidão que saúda os ventos, uma fonte seca por onde vertem terras inférteis e o cabelo desgrenhado das vinhas por não haver ninguém que lhes penteie as podas. É mato urdido num rosto encardido sob a Lua, sob o céu, um naco de vida de fugida que é tu, que sou eu.
Chega a doer ter as palavras escritas em mim e não as ter no vocabulário, estar do lado de lá enquanto me espreito do lado de cá. Escrever o que não ser, é falar ao ouvido do silêncio. Estou mudo.

Timing

No papel que me ausculto embalo a Primavera ao resguardo da tua vida onde morava o amanhã. Dou-me ao silêncio ascendente até aos limites do infinito que circundo e trovejo no teu abafado grito. Rego meu próprio medo e floresço por entre o céu e a terra, porque hoje já é tarde e ontem era cedo.

Adiado

O teu silêncio acolhe o trovão, a água salpica na noite e o musgo seco adormece na minha mão, serpenteiam-me as estradas que não conheço em busca de um eu que faz falta um tu, é um pinheiro eucaliptado no relâmpago que ascende em longas sombras de imaginação. Tenho meio cobertor, metros quadrados de um calor que não me chove na madrugada em falta à prova dos nove. É um acordar adiado e um adeus num corpo contorcido inerte, assim ecoa o arrastado gotejar da nuvem da vida que nos meus olhos verte.

Pendo

Tenho a memória completa das viagens que não escrevi, um vagão sonhador sulcando o vento que não vivi. Pendo no sobressalto meus braços para que agarrados ao vago possam suster as nuvens que ainda afago. Sou da noite porque não anoiteço inclino-me à força da esquina no pó em que me tornei na pauta que me solfeja no olhar que vertigina o sabor do beijo que te sonhei.

Distantes

É para ti (que moras em mim) as páginas tantas do que fui rasgadas vida que de meus olhos flui. Tocando-te vida de mundos distantes que me tocam vivo as recordações do que serei quando as nuvens que me suportam chovem no silêncio do que nunca te falei.
Sei que Deus escreve direito por linhas tortas, mas tem cá uma caligrafia difícil de entender...