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Cubos de todas as cores

Chego à tua beira, tens os olhos cansados e nublados por sonhos que nunca viveste e que teimam em bailar na tua retina. Olho-te de cima, como há nunca o fazia, e conto-te coisas simples, como a finta do Quaresma ou a primeira final do Porto na Taça dos Campeões. Ou as novas descobertas sobre o ADN e a Física Quântica, falo-te das teorias de conspiração e ris-te, é capaz, é capaz. Conto-te novos sonhos e projectos, como quando me ensinaste a ler com os cubos em madeira, onde desenhaste letras de várias fontes e tamanhos. E nestes momentos já os teus olhos brilham e as sombras que nublam os teus sonhos dispersam-se. Nada mais te faço que semear a mesma alegria com que me ensinaste, mesmo sem o saberes. E assim sou feliz.

Caronte's sons

Vestia de preto a noite quando morreu nos meus olhos. As escadas cadentes acompanham o ritmo das sombras e sorriem, os ruídos do silêncio ficam impunes enquanto os punhos, cerrados em raiva, adormecem os sonhos no ameno travo do malte. A distância, feliz, recolhe-se à falsidade verosímil que amputa o horizonte, para que os que nascem na barca sejam os filhos da vida perfilhados por Caronte. Petrifica-me a mão que não vejo, porque morreu-me nos olhos o desejo...

Das palavras que vibram

Enquanto os sons ecoam voam e molham-me a alma, a ternura da noite que me abraça adormece o calor nas costas da vida, onde sonha. Longe as mãos e o dourado deambular, de um sorriso que outro eu quer abraçar, das palavras que vibram apenas no palato, da frase que codifica o amplo deserto, das passadas águas sob pontes tantas, resta apenas o sal que água leva, e vai à sílaba afluente de cristalina...

Esquecimento

Há muito minhas mãos esqueceram e meus olhos voaram, dos caminhos nublados às estradas, então, desconhecidas outros sentidos acordaram. Nada do que vagueie é vago, nem as sombras fugidias que dançam nas mãos, tão pouco a memória que sorri na calada da noite, quão distantes os senãos. As metáforas subjugam o sentido do olhar, enquanto as mãos ainda afagam os acasos da vida, os ocasos esmaecidos bailam no compasso lento do deambular no infinito, deste segundo um momento...

Feather theme

Títulos e linhas, palavras e sentidos, tudo armazenado em vários ficheiro de texto que, invariavelmente, morrem sozinhos, esquecidos no computador. Isto é fruto de padecer de um mal, o de falar comigo mesmo, o que faz com que aquilo que gostaria de escrever fosse dito e, assim, já não escrito. Chego perto da Farrusca, deitada ao Sol, pouco faz além de abanar o rabo contra a parede, à espera de um afago. Falo-lhe e ela levanta a cabeça, à espera da habitual carícia no pescoço. Por vezes nem falo, fico a olhar para ela a sorrir e ela, sem que eu me mexa, levanta-se e encosta a cabeça às minhas pernas e fico, assim, ainda a sorrir, com os olhos fechados, partilhando com ela o prazer de estar ao Sol num dia de Inverno. Esta minha característica contemplativa, faz com que me veja a passar por locais e olhar, reviver situações e emoções, como ontem. Apesar das mudanças impostas pelo tempo e o progresso em forma de asfalto de auto-estrada, encontrei uma escola primária onde vi o futuro e...

Feliz Natal

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Quem não está na minha lista de email, não recebeu o email, por isso aqui vai. Que este Natal e Novo Ano que inicia, acima do consumismo tradicional, independentemente da nossa religião ou falta dela, possamos parar um pouco e perceber que os nossos passos na vida só fazem sentido se ecoarem noutros passos, que as nossas palavras podem ser mais que fonética, mas sim amizade sincera e despojada e que os nossos gestos podem reverberar de facto aquilo que somos. Não estamos sozinhos… Estamos uns com os outros. Então que tal fazer do nosso interior um local melhor para habitarmos e também recebermos? Desejo-vos tudo de bom, Miguel Gomes

Ameaça mortal

É de mim ou nós, seres-humanos (escrevo propositadamente com hífen, para não se confundir com o ser de existir, pois nós até existimos enquanto humanos, mas parece-me que somos menos humanos) vivemos a defendermo-nos de nós mesmos? Escudamo-nos perante os outros, como se eles, os outros, nossos semelhantes em mais do que aparência física, mas em essência, fossem uma outra espécie mortal e mortífera (embora não pareça, são coisas diferentes, mortal pode ou não matar, mas mortífera mata mesmo, alguns só com o olhar), sanguinária e incompatível com a nossa presença neste mesmo cubículo a que uns chamam mundo… É de mim ou parece que vivemos em realidades diferentes? Não existe um único projecto para preservação deste planeta e de nós mesmos, enquanto habitantes da mesma “aldeia”. Cá por mim, gosto de descobrir tempo para algumas coisas, como parar perto de um senhor com cara assustada, num Multibanco, ajudá-lo e ouvi-lo dizer: “não percebo muito destas coisas”, ou ainda “e porqu...