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Cinzas

“Cinzas” ou o que sobra de uma crónica Natalícia. No Canal N. Aqui . As cinzas dormem esquecidas do fulgor da noite anterior, repousadas na espessa pedra cujos pés das panelas negras fizeram as covas onde se acumulam as memórias do que não se sabe cozinhar. Por cima, o presunto defuma-se e as teias de aranha ondulam sob o peso da fuligem que o vento, aproveitando as telhas mal sobrepostas, anima.   A noite de Natal, ao contrário das outras, traz consigo o barulho bater das portas do automóvel de cilindrada elevada cuja toponímia automobilística ostenta brasões de cantões difíceis de pronunciar. Depois da velha porta de madeira abrir e se ouvir o tilintar da pequena persiana que serve de coberto para a caixa de correio, ouvem-se os miúdos descerem chapinando o tempo e a chuva que se infiltra por onde quer que se olhe.   A aldeia ilumina-se de alegria, não há pinheiro que resista aos cavaleiros perdidos que regressam ao lar que os viu parir. Os gorros sobre as orelhas e as felpu...

Milagre

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“Milagre” ou a forma de viver a vida numa crónica do Nada , o Correio do Porto. Na base da estrada, junto ao desnivelado passeio, vejo a escadaria alva piramidalmente subindo e lamento o meu despreparo físico. Suspiro e inspiro a ideia de que percorrerei aqueles degraus várias vezes até, por fim, cansado, sobrar tempo para rematar o trabalho, ou ajudar a rematá-lo, pois sou tão amador nesta arte, como a deitar uma mão cheia de palavras à terra e ver nascer uma frase.   A simpatia usual acolhe-nos abrindo a porta do coração, pedindo-nos desculpa pela casa estar desarrumada. Há pessoas que vivem e quase pedem desculpa por viver. (é deles o reino dos céus) Olhando-me do fundo de uma altura que a vida não deixou crescer, sorri. Diz-me irmão de meu pai, o que desperta na fisiológica versão mais velha de mim um sorriso. E volvido o engano, desculpa-se novamente. No meu proverbial silêncio respondo com um encolher de ombros sorridente. Ao fundo do corredor, do canto da sala, uma Nossa Sen...

Nascente

Eis a crónica mais recente no Canal N ( https://www.canaln.tv/cronica-nascente/ ) Nascente . Tinha estado virado para o mar, catraio entretido com o avançar e recuar das ondas a meus pés alvos, desconhecendo que nas minhas costas o ondular marinho dobrara terras, criara serras, eriçara pinheiros, sobreiros, oliveiras, carvalhos, castanheiros.   Ao ritmado canto das ondas caindo sobre elas mesmas, sobre o olhar ladino de um ou outro seixo, nas minhas costas a vida fazia-me frente. Eu apenas não sabia, inocente.   A maresia sobrava presa nas dunas, enterrava-me na areia, o mar como traquina borbulhara nos dedos a arfar. Pensara eu que me convidava a navegar.   Quando o Sol se pôs nas águas que pareciam ondular acima do próprio oceano, piscou-me o olho a saudade. Afogava a cidade. Quase caído ao firmamento, convida-me Febo em inusitado lamento, voltar costas à maré, sulcar novos horizontes e, eis, imponente, Trás-os-Montes.   Havia toda uma ilha imensa rodeada de um mar...

Shabat

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Shabat , a minha Crónica do Nada , para ler no Correio do Porto.   É dia do Senhor. Faz sentido. O mundo pára e descansa, o Criador espreguiça-se da laboriosa, embora fastidiosa, tarefa de olhar a sua obra, o momento profano em que criou o humano. Galgo as margens do Douro, enveredo nas serpentinas alcatroadas que ladeiam as veredas esverdeadas onde, em tempos de limpeza de valetas, na ausência de cantoneiros, outros de roçadora na mão ou debaixo do sobreiro protegido à escondida da chuva, atrás do suor e da viseira de rede, abrem alas à procissão quotidiana e incógnita. É sábado e é isto que me pede o meu pai. Pai. Ambos. Várias dúzias de curvas e chegamos. Portas abertas de par em par, a corda da roupa que se iça para que a manobra permita aproximar da porta de entrada e afastar do esforço de descarregar. Sem o saber anoto-me, fitando ao longe os montes de costas voltadas ao Douro, o Sol a escorrer-se na manhã fria, a vizinha provocadora que assoma à janela com testos de ...

Interioridades

“Interioridades”, ou mais uma crónica no Canal N.tv ( https://www.canaln.tv/cronica-interioridades/ ). Quando há alguns anos, após anúncio de cortes nas reformas, vi numa reportagem de um canal de televisão uma repórter perguntar a uma senhora, numa qualquer aldeia do interior, se não a preocupava os anunciados cortes, não esperava o verdadeiro sentimento de interioridade. A menina do microfone perguntava com insistência se não amedrontava a senhora, de negro carregado, lenço debruado a prender o cabelo, duas madeixas alvas a espreitar o dia sobre a testa, o tão aclamado corte na pensão. E a senhora, de uma compleição nobre, como só o consegue o verdadeiro pobre, respondia com educado sorriso a cada investida jornalística. Foi no meio da enésima insistência que, finalmente, despindo a vestimenta a que doutos engravatados teimam em fazer vestir a ignorância, s senhora reformada de uma vida de labuta agrícola, vivendo uma longevidade pautada pelo pão nosso de cada dia, respondeu num tom ...

A guerra

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“A guerra”, a Crónica do Nada, no Correio do Porto, pode ser lida também aqui . Sem muito mais companhia em mim do que a estrada a murmurar os quilómetros em jeito de balada distanciada, percorro o horizonte sem nunca o alcançar, pincelando o céu com algodão doce e nuvens disformes, senhoras do firmamento. A viagem é, por vezes, servida com um lamento. Com maior ou menor dificuldade, os corpos curvados alinham-se como na formatura, saídos da recruta, moçoilos enviados para um serviço militar obrigatório ultramarino ditatorial, arrancados à parvónia e a uma vida polvilhada de centeio, cereais, madrugadas gélidas e noites musicadas por ais, crescida pelo que a parca informação trazia em forma de boletim. Há quem viva apenas porque sim. Recordam números e apelidos, identificados pelas terras que os pariram, sem patentes agora, apenas o tempo iguala o homem e corta rente os minutos antes que perfaçam a final hora. As cadeiras arrastam-se, o burburinho no ar reúne os sons das armas semi-aut...

Queimada

“Queimada”, a crónica de um povo que arde, no Canal N . O pôr-do-sol traz de novo o bailar nocturno dos pirilampos azuis, as intermitências de um socorro enquanto a morte se encosta a um sobreiro recém despido, protegido pelo morno ar que a terra abafa quando cai a vida em trás-os-montes. Colunas de ajuda posicionam-se. A guerra combate-se com a paz. Ei-los, soldados, negros, cinzentos, alvos voluntários. A mão aflita da mãe sobre o ombro do filho ao toque da sirene, “não vás”. Atrás de cada elevação um novo ocaso. A noite caiu há muito, com ela o peso abafado de um calor que colhemos sem, sequer, o termos plantado. A culpa é dos que manietam, mas nada há a fazer além de desenrolar mangueiras, encher baldes e garrafões, erguer em riste as enxadas, ancinhos e pás. Exaurido, o povo apenas quer paz. Não é rubor de um astro que mergulha feliz no firmamento e deixa, inconsequente, um povo no seu lamento. É o fogo que ruge como fera ronronante ao sabor das presas que tombam.   A torga qu...