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Pagaria, caso as nuvens fossem dinheiro, o que necessário fosse para ter, sempre, a refracção das gotículas de água num dia de sol tímido.  Engano o torpor de uma viragem na estrada com a promessa de ser, novamente, o som abafado da surpresa de uma criança a ver pela primeira vez a influência de um sorriso. Tenho gastado as horas, talvez por isso o tempo ranja quando passa perto de um sentimento e o vento se faz ao caminho, na maior parte das vezes sozinho, para se sentar no colo de alguém que o embale, até ele se recordar daquilo que realmente vale. Deitado, a noite subiu já até ao meu peito, preparando-se para me cobrir. Agora sim, é hora de dormir.

Dás-me um brinquedo?

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“ Dás-me um brinquedo? ”, crónica para a secção Crónicas do Nada , no Correio do Porto . - Dás-me um brinquedo? É impossível perceber onde terá ele visto o brinquedo e qual terá sido, as roulottes de bebidas e comidas sacudidas pelo ribombar das colunas que, ritmicamente, soltam decibéis de uma verbalização cacofónica muitas vezes ignóbil, orlam a avenida onde, longe agora da passividade das caminhadas diárias, se deslocam afobadas pessoas, infantis, adultas e indefinidas em busca do que é que quer que seja que lhes sacie a ansiedade que ladeia a ida à festa. - Dás-me um brinquedo? – retorquiu. Virei a cabeça, o puto cavalgava os ombros do pai, talvez antecipando uma ida ao carrossel infantil, trotear num cavalo tosco, rodar um volante a medo para a roda não sair do trilho, tocar na sineta do camião de bombeiros ou cintilar num unicórnio rumo ao arco-íris, destino final da fantasia pueril que, em adulto, não passará de um risco colorido no céu, longínquo, apesar das tentativas ...
Dentro do teu olhar habita a visão do que vislumbrei antes de saber observar. Viste?
Os que têm tudo e não são felizes com nada. Os que não têm nada e são felizes com tão pouco.

Serafim

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" Serafim ", uma Crónica do Nada no Correio do Porto . Foi com surpresa que numa das incursões pelo miasma social deslizei a cara do Serafim. Era uma fotografia simples, na expressividade artística e no sorriso aberto, puro e monocromático, colorindo o passado que, grande parte das vezes, se sobressalta na minha mente, transportando-me para os locais onde, policromaticamente, sonhava com um futuro matizado. Estava, afinal, errado. O Serafim morreu e nada acresce em mim, além da falta de rememorações que sustentem o seu sorrir. Esta vida é, por vezes, um dia no aguardado porvir. Preciso voltar quase 30 anos, encostado à orla plástica da máquina de vídeo-jogos, a música da placa de som, arcaica agora, debitando os acordes desacordados de “1942” ou qualquer outro jogo, falha-me a memória, o barulho ao balcão, o tilintar dos talheres, um copo que se esvazia, o marulhar seco da espuma na cerveja à pressão a deslizar sem qualquer maré ou fé que naufrague a secura de um dia de calo...
O ser é ser-se, ainda que não se seja, talvez, pela falta de conhecimento sobre o desconhecido que se É.

Desaguando

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"Desaguando", ou nova Crónica do Nada no Correio do Porto. Com o mesmo semblante de quando o horário atravessava uma ou duas aulas sem professores, pela inexistência ainda de portaria, na escola e no mundo, saíamos portão fora, descíamos contra a corrente da estrada nacional e mergulhávamos, inocentes, por debaixo da ponte, para construirmos pequenos lagos no rio areado, esgravatando represas imaginárias e rindo dos girinos aos quais, erradamente, chamávamos caganatos. O que aprendi na escola fi-lo sem o saber, orbitando pavilhões erraticamente, experimentando pequenas rimas mentais, escapando ao som dos futuros que se plantavam, para me saber de volta a mim quando a matemática se lembrava de espreitar o universo e encontrar-se sozinha, porque não o compreendia. Hoje as ruas percorrem-me sem que eu me aperceba ser asfalto. Paro o carro ao lado do tanque, o som das rãs e os seus pequenos olhos perscrutando e analisando a ameaça que eu lhes possa coaxar. A água brota da ...