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Musical(mente)

Crónica de Domingo na Bird Maganize . Fico parado, atrás do cortinado, a ver a luminosidade que se vai espreguiçando entre sombras. Os paralelos da rua parecem pequenas teclas de piano, sombreadas pelos vários pés que os pisam sem se aperceberem da música que carregam. Crianças fazem música por elas próprias sem grande necessidades de perceber que é Outono e que as folhas caem, como as pessoas, porque o seu ciclo se soltou das amaras de uma existência pré concebida. Um pouco como as palavras, que se vão moldando e caindo, desacordadamente ortografias que se movimentam por entre interessados indivíduos que se estimulam ao esquecimento. Creio que história evolucionária não permitirá que no nosso ADN se eternize a avareza, no entanto, parece ser, nos dias correntes, a louca tendência do consumismo uma forte componente oncológica da nossa condição de doentes. Talvez seja agora o espectro, o infra humano, a desarmonia de uma sinfonia por não nos sabermos notas musicais ...
Queria contar-te que vi, hoje, o Outono. Estava encostado à sombra de uma folha com seis tons de cores. Sabes, se estivesses aqui, com a tua cor, todas as folhas teriam a cor de um Sol que espreita por entre a neblina e aquece as pálpebras, as mesmas que cerrei para ver nascer do escuro a luminosidade que só se vislumbra quando se vê de olhos fechados a sétima cor do arco-íris.
Cabem no fundo de uma inocente madrugada e, contudo, prostram-se aleatoriamente e tumultuosamente ao longo do dia.

Gaveta abandonada

in Bird Magazine. Faço dos meus dias de ontem, porque hoje não me chega o dia, o fundo da gaveta onde percorro tacteando o fundo de um rascunho. Que me perdoem lascas que não escrevi. Começo a viagem de regresso já a noite empurra o que resta do dia pelas montanhas abaixo. Ganha-lhe posição com umas estrelas mais fortes e, depois, fincada a parca luz da noite, sacode o dia, não sem antes este, numa saída de movimento poético, pincelar um pouco das abas da noite, em tons que só encontro nos meus sonhos ou nos raros momentos em que me deixo acordar entre um sonho e outro. Já a chuva escorreu das nuvens e das resistentes margens verdes que dão o seu lugar a vegetação cor de Outono, para eu deixar que o meu corpo tome as rédeas da viagem, enquanto eu vou dar uma volta, por aí, recordando sonhos que deixei a secar nas eiras perdidas desta minha alma em forma de montanha. Estou cansado, vá-se lá saber porquê, durmo poucas horas para aquilo que preciso... E talvez isto me permita ver rebanh...

Domingo num dia chuvoso

in Bird Magazine. Vou passando por aqui, paro, olho, leio, penso e vou embora. As palavras ainda não estão maduras ou, talvez, eu esteja muito verde ainda. Valha-me este tempo cinzento, a chuva, os eucaliptos a dançarem à minha frente. Há um fascínio neste tempo, sinto-me calmo, mais calmo, com vontade de abraçar sonhos. Ser pastor, trabalhar a terra, escrever e saborear uma chávena de café quente com um pouco de boroa. Por vezes é como se vivesse duas vidas, uma consciente do que sou e outra sendo o que insconscientemente todos somos, pessoas. Pergunto-me, várias vezes, o porquê e fico contente com a minha resposta: porque sim. Poderia despoletar uma dissertação esquisotérica sobre o que andamos cá a fazer, de onde vimos, para onde vamos, etc., mas, na verdade, estes discursos cansam um pouco. Não porque sejam fúteis, mas porque não conduzem a lado algum, são círculos e não espirais, não libertam, criam dependências, gurulatrias, aglutinam energias e, acima de tudo, são discursos cu...

Restolhar da alma

in Bird Magazine . Falta pouco para este ano terminar, ouço-o há alguns dias a arrastar-se pelos recantos da lareira que tenho apagada no peito. Vai raspando, murmurando entre dentes os sonhos e planos, para os trazer aos meus olhos ao som das badaladas que anunciam o dia em que tudo começa, de novo. Trago-os bem presos a mim, em formas de lágrimas, pequenas, luzidias, que se escapam pelas ameias dos passados e reflectem as partes recônditas, polidas pelos que estão para lá do que vejo. Caem em dias e noites, como hoje, sem saberem o porquê, desistem de se agarrem a realidades não palpáveis, sem conhecerem o dia e a noite do acordar lento de um sonho realizado. O nevoeiro faz-me recordar dias em que fui noites, momentos fugazes de uma eternidade contida em gestos e olhares. Momentos em que fui vento e estrela, em que beijei o tudo e abracei o nada. Tenho saudades desses momentos, de ser o tudo e o nada, de ter a liberdade de ser livre com todas as letras e não apenas com a acentuação...
Esvazio os bolsos quando chego a casa. Todos os bocadinhos de nada, ou seja quase tudo, ficam um pouco esquecidos, de lado, até amadurecidos se transformarem nalgo mais que hoje. Depois separo do ruído as pepitas do meu ouro, breves momentos da mais pura simplicidade, ignorância e inocência. Esta é a minha riqueza. Procurar noutros e noutras, no fundo do olhar, a essência do que são ainda que eventualmente possam nem o saber. Há momentos em que o presente se eterniza.