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Vou frio ao caminho pela noite que se aninha no meu bolso e me entra enregelada quando me encontro sozinho. Perdi, as letras, quando as pensei, deixam de serem minhas para se transfor(mar)em legenda do que sou. Ouvira que o tempo acabou, mas o som de uns passos no descampado  que é o céu, estrelado, traz-me lembranças de sonhos, de água à margem de um quadro cansado. Nem toda a mão tem solo arado. Escudo-me à vida, ao seleccionado acto de no mundo jogar em equipa de um elemento só. As minhas quadras delimitam-se por letras que ousam viver, entre o abraço e o cansaço, de todos os olhares que não conseguiste ver.
Encosto a cabeça a esta luz mortiça e deixo-me adormecer pelas palavras, enquanto o amanhã não se espreguiça saboreio a sombra da caneta a vela apagada (o que sonha?) e o som da erva molhada que se deixa cegar. Nomeio-te, simplicidade, meu lar, um leito de folhas amarelas o corpo quente de encontro a mim o baldio dos meus pensamentos por arar. Sim, é apenas sem nada, que consigo viver sem respirar.
Há um rio de água salgada a percorrer um leito sentado. Vai do que vê a paisagem até por fim cair num cabo arredondado, onde dobram os sorrisos. Não traz força nem tumulto. Apenas frases curtas. Um pouco de vidro embaciado. Fumo no ambiente, que nem nevoeiro na nascente. Falta gente. Falta gente. Propositadamente duplicado, para que um dia, quando a torrente indelével, inócua e invisível cessar, possam de ausente dizer, que aquele por dois valia. Não hoje, noutro dia.
Vai vida, pelo tempo que te some, atrás de ti o destino e mesmo esse, fadado a nunca te ver. Vai.
Rodeia-me todo espaço inóspito, de fragas apenas os pilares da estação cinzentos, cinzelados, corpos que nunca souberam ser amados. Rubor apenas do tecido que me cobre, exaurido, talvez ferido, de parte de mim já não há o que sobre, uma espécie de invólucro perdido, estrepe em Outono de fruto não colhido, existirá espaço para um segundo de Inverno nestes doze meses de inferno? É chão, dizem-me, o mundo que piso e caminhando se faz caminho, o sustento que se degladia com o sorriso aufere a companhia de mim enquanto este eu, aqui, neste banco sozinho.
Um dia será, hoje, não amanhã, que finalizarei as palavras a olhos que não meus, para que saibas é este o meu adeus.
Resta-me pouco mais que o silêncio e o calor do corpo. Tenho as palavras a latejar no chão, dispersas, sem saber como as agregar e elas, abandonadas, sem se saberem soletrar.  Nada mais que atropelos, dedadas fugidias no vidro do autocarro, corpos habitados por gente demente, que esbracejam e falam, vociferam, com fantasmas que, acredito, nem elas consigam ver.  Cansa-me o cansaço, correr sem sequer levantar os pés, aprisionados pela calçada que, até ela, foge debaixo de quem se quer ser chão. Mas esse, chão, solo, litosfera, chamem-lhe o que quiserem, é-o apenas para lá, lá, longe, atrás da última colina, escondida sob um nevoeiro cerrado, onde não estou.  Que nuvem torpe desce sobre nós?  Há apenas uma criança, a cantarolar na paragem do autocarro, uma letra que desconheço, creio que apenas ela a conhece, nunca ouvi ou houve alguém a agregar sílabas daquela forma.  Faz-se tarde, para dormir, descansar, para viver.  Sinto por vezes que tropece...