Uma colina, onde o Sol brilha durante todo o dia, desde o dissipar do nevoeiro de manhã, até ao local onde se espreguiçam as sombras do final da tarde. É tudo o que quero. Um sítio onde possa ver o Garrincha aquecer-se em todas as noites de Natal. Enquanto não encontro, aconchego e protejo a família no coração e, subindo e descendo montanhas, vou fazendo o caminho, procurando olhares e sorrisos, gentes com pessoas dentro, que me falem palavras com letras pelo meio, aliás, que nem precisem de falar para eu as entender. Até lá, todos os dias são os dias antes da véspera de Natal.
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E correram, com medo de morrerem, sem perceberem que estavam mortos, condenados desde cedo, por uns longos fios de quem os manietava, sorvendo como quem respira a necessidade que lhe faziam necessitar, corroendo almas e dias com a vida dos outros, olhando e não vendo, agarrando-se à sombra de um sistema que nunca se preocupou em educar, fazer crescer, ensinando a viver apenas por viver, apenas para ser. Por isso, quando chegou o fim, era apenas o esforço de outros, que devagar abriam a porta do contentor sujo e conspurcado e deixavam entrar a luz do dia, descolando das paredes frágeis paisagens que pensavam serem janelas, e recolhiam do chão as assustadas, selvagens, malévolas, frígidas e frágeis crias que somos.
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Quando chegares ao final do infinito acorda. Lembra-te que nem ele existe. Serás livre. E quanto te vires livre, conhecerás outros igualmente livres. Pára. Lembra-te que nem tu nem os outros existem separados. Serás Um. E quando te vires Um perceberás que nem aí, Único, te chegará o universo ou o infinito, nem toda a infinitude de universos, multiversos, hemisférios e equadores, que tudo é uma pequena estrela que vai, junto com todas as outras do teu firmamento, iluminando a noite da tua infância. Quando te souberes não saberes quem és chegarás a Casa.
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Senti a tua falta, um dia, porque me esqueci de mim, e de sonhar, também, com todas as estrelas que vidrei na superfície de uma vida que não artesanaste. Saberás a chuva, de um dia frio, enquanto eu vou esgrafiando na pele uns poemas à força, como quem cicatriza, sorvendo e aguardando, ao som do fontanário, que o tempo faça a mim o que fez às vides. Vinho e néctar, entre comas, entre e coma, que tudo é deglutido entre cada por-do-sol, como quem nos pincela da mesma forma, sem se aperceber aguarela, ele e ela. Um dia a estrada não terá fim, o tempo conduzirá o silêncio até se cansar de estar calado, com e ao lado de um entardecer que, também cansado, vai tardando que se faz cedo, demais, para voltar no tempo e ser, de um cais, o sentimento. Saberás o saber. Por isso, apenas e só, valerá a pena.