Tenho uma profunda admiração pelos jardineiros, pela simplicidade de se sentarem num canteiro, com uma navalha a descascar uma laranja, comerem e afagarem a Natureza... Um dia destes...
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Os dias escorregam-me pela noite, há uma loucura que se ausenta e dos meus sonhos a liberdade que se afugenta, um cansaço que transpira, uma mão nas costas, fria. Dilui-se a vida na paisagem e a voz, sem preço, que se desfaz em viagem pelo silencioso suspiro da terra fria urdida, agora é a chuva que uiva à ausência da alma do transmontano por eles vendida. www.almatua.com
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Embarca no horizonte, longe as sombras do sustento, a lavoura que se faz com um lamento, a mão poeirenta no som da cancela rangida, aqui só a morte parece ganhar vida. Olhos embaçados, nublados, tolhidos pela recordação que se quer presente sobre os dias que se avançam quase de forma demente. Nasce um quotidiano ou uma criança, as fragas enviúvam caladas, ao redor da solidão um negrume que dança veste a noite que dura um ano. Um passo imóvel, o tempo chove tão lentamente que até a novidade, quando surge, vem em aguaceiros. Forma de gente à soleira entrecortada num postigo semicerrado, uma mão, um cachaço, a loucura abraçada pelo amor num sussurro calado. Ao destino da partida a voz que pergunta “onde vais?”, mas já os movimentos crepuscularam caindo arfando num futuro que não volta mais…
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De todos os bocadinhos que sou, uns são meus, do granito, do solo que me foge, do musgo na parede, dos degraus toscos, de uma boa amizade, de meia dúzia de olhares trocados, do que se sabe ser, do que se desconhece não ser, das palavras que nunca escrevi, das crianças, dos sorrisos, da boroa com café quente, do riso, do choro. De todos os bocadinhos que sou, sou o mais calado, sem letras. Feliz. À minha maneira.
This was a big river
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O tempo dirá, não a nós, talvez às gerações futuras, as vossas, que a minha já o tempo ma levou, se as cicatrizes que não curamos em forma de biodiversidade perdida, a troco de umas discussões egoístas e egóicas, de uns interesses camuflados, de uns emaranhados caminhos retorcidos e austeros, de umas pacificadas águas em torno de um frio muro de betão, semi-erguido por homens, terá sido o nosso caminho... Temo que, tal como hoje, sem sabermos para onde vamos, todo e qualquer caminho não construído a pensar no bem maior será, irremediavelmente, uma cova mais profunda, da qual não saberemos sair. Saberemos que a paisagem era bela porque depois, cegos, lhe sentiremos a falta, da cor, do cheiro, das mãos agrestes que se perderam.