2017-06-25

Pontão

Crónica de Domingo, na Bird Magazine.

Aguardo a chegada das estrelas sentado desapropriadamente nesta espécie de caminho de madeira que termina sobranceiro ao areal, esperando que a noite me venha cobrir com o frio latejar que só ela sabe. Só ela.
Atrás de mim as dunas parecem bailar com o vento que faz roçar os cardos, abanando com fervor remanescências plásticas de sacos cheios de nada, apenas incúria de uns poucos seres andantes, autointitulados inteligentes, ainda presos nos espinhos e na vegetação rasteira.
Não fosse a maresia, diria estar no sopé de uma colina, pernas bamboleantes como um puto qualquer a olhar para o fundo no vale, esperando com um olhar de genuína traquinice que uma das sapatilhas se deixe desatar e vá cair ribombando em silêncio, colina abaixo.
O marulhar das ondas, o escorrer lânguido da água pela areia ainda morna depois de um dia ensopado em calor, a praia a sorver o resto de tarde que teima ainda, pelo alaranjado céu, manter-se desperta sem contudo tentar roubar qualquer protagonismo à velha actriz que aguarda atrás, no pinhal onde as árvores se agrilhoam ao solo como garras de bicho quase enterradas na pele dura de um animal. Mas o tempo sucede-se como um palco onde o cenário se confunde com as paredes e o telhado se mescla com o céu, deixando de se perceber onde termina um e começa outro. 
A passos pequenos, mas firmes, vem já trajando o frio fino que se vai compor em orvalho daqui a umas horas, arrastando um manto de estrelas titubeantes como uma rainha que embora não o queira ser, por obrigação desempenha o papel e por caridade o grafia bem, o papel e o reinado. Louvo e invejo, confesso, o seu papel de errante caminheira, o périplo pelo reino, as pequenas passadas com que, no cuidado maternal para não acordar um filho no berço, vai percorrendo todo o horizonte sem que saibamos sequer dos afagos que deixa ficar nos sonhos de cada um de nós. Os confessos, quase sós.
Por hoje, sem que eu perceba o porquê, longe de merecer qualquer honraria em forma de sua companhia, detém-se de pé a meu lado. Apercebi-me apenas quando ao sentir o pousar de uma mão no ombro me assustei e, olhando para o lado, a vejo de pé, sorrindo para mim como se por magias que apenas ela, a noite, conhece soubesse ver os pensamentos que vou deixando presos nos cardos das dunas. 
Enquanto o céu estranha a pausa no anoitecer ela senta-se a meu lado, o manto comprido sobre o resto do passadiço, os cardos e as dunas, o pinhal e todas as cidades, vilas, aldeias, planícies e os planaltos, os meus planaltos. Uns dormem cientes que o dia nascerá quando voltados ao corpo, outros ruborizam esforços em braçais trabalhos, subjugados, os apóstolos que limpam o lixo nosso de cada dia.
A noite deteve-se a meu lado. Parece conhecer-me bem e no olhar fundo que trocamos, soçobro no silêncio e um orvalho cai-me dos olhos. Passiva, serena, com uma ponta do manto limpa-me o canto orbital onde muitas vezes me batem à porta os mundos que nem sabia existirem. A claridade do dia que não cai faz brilhar o resto das estrelas que se desprenderam do manto e sulcam, secando, o caminho na minha cara por onde nebulei.
Levanta o braço esquerdo e parte do manto. Olho para trás assustado, todo o firmamento parece sacudido, as estrelas ondulam como se fossem simples espuma na crista da maré, do interior da noite o sorriso manso por entre as madeixas negras da noite abre-me a porta para o lado de lá do céu e, cansado, agradecido, surpreso, deixo-me cair sobre o seu regaço e adormeço, sem me aperceber que amanhã, quando acordar, a noite terá partido e de mim apenas a lembrança no pontão, pés suspensos a abanar com o vento, as mãos com as marcas das tábuas e o sorriso, salgado, de ter em mim todos os dias passados, presentes e futuros e, ainda assim, querer viver para lá do vivido.

2017-06-22

Dez-níveis

Crónica no Correio do Porto.

Vejo-os desarrumados, nos passeios latrinados que ladeiam as calçadas, agora sem pátria, a arrumar, em movimento sincronizados (aqui chefe!), as pessoas veiculizadas das cidades.

Os olhares de tais indivíduos são plurais, habitam neles legiões de idos, de sombras sarjetadas de quem não se sabe, ainda, arrumado.

Se um carro aponta na curva, o assobio, a corrida cambaleada, o olhar esbugalhado na dose antecipada.

– Uma ajudinha chefe, para um caldinho.

Como se lhe servissem sopa, às tantas da tarde, a quem se assemelha a um vegetal desenraizado de uma terra qualquer que o pariu.

A mão estendida, mão aberta que não fala, não ouve, apenas se estende e amortalha para, aos poucos, ir consumindo o corpo, primeiro de esperança, depois de mentiras e, finalmente, de tão vão e oco, o vazio.

É vulgar o vestuário, que nunca regra geral, ser de cor das noites geadificadas, esfarrapadas, onde o frio faz morada e habita onde quem o acolha.

O cheiro vagueia pelo ar, acredito que ele mesmo nauseado, dos tempos e tempos abandonados.

É difícil imaginar, sequer ver, qualquer horizonte emparelhado, seja com a solidão, seja com alguém, onde se acalentam os dias adormecidos e se partilham cartões, canelados, cobertores, vãos de escadas, esquinas capitais e, quando a noite se permite aquecer, um banco de jardim.

Pergunto-me o que me separa disto, deles, do cartão canelado?

Que mundos tão desnivelados existem dentro de uma só vida?

Tenho sede, vontade de orvalhar pelo mudo, pelos caminhos e estações de comboio desta vida.

2017-06-18

Fainas

A faina da crónica, ao Domingo, na Bird Magazine.

A doca atarefa-se como sempre o faz quando os barcos, já depois de ancorados à esperança da faina tormentosa se transformar em palpável gratificação, descarregam o peixe que, sem culpa alguma, se vê enredado na rede e no pleonasmo. Os olhos vítreos são a janela para o local vazio onde um dia, ainda que inexplicavelmente, nadou uma alma. A correção diria que os peixes não tem alma. A introspeção diria que a alma não tem peixes. E eu, que transporto ao etéreo as vontades blimundanas, deixo-me ficar encostado à sombra do prédio, fitando o chão e as letras desenhadas pela trajetória retilínea da luz.
Teremos tanta fome assim que nos obrigue, dia após dia, a voltar a cavalgar um mar que se espuma de forma salgada, ver confiada a sorte nos ventos e marés, ter os dedos gastos de rodopiar contas de um rosário invisível? 
Indiferente a toda a azáfama e também a mim, que me apoiava à sombra e me imiscuía pela penumbra, a Terra vai andando de terra em terra que é o vácuo orbital onde permanece, sem direção ou sentido, mudando de posição e estendo sombras onde antes eram penumbras, penumbrando novas pedras, azulejos, calçadas, asfalto, grelhas de esgoto, velhas beatas inanimadas e o tradicional lixo, ornamentalmente bordado a qualquer solo que pisemos. 
Viro a cara ao ouvir e, depois, ver uma pequena carrinha soluçar, tossindo um fumo branco e, depois, parar quase ao meu lado. Acredito que a sua cor já tenha sido branca, no entanto, salpica-se de ocre como velhas sardas a quem o tempo se incumbiu de tatuar profundamente na carenagem. Imobiliza-se com um saltinho, como um soluço, como se pedisse perdão por parar sobre a grelha em ferro fundido. O polícia, em bicicleta, deita um olhar reprovador ao aspecto, mas o olhar rápido pelo canto inferior confirma a validade dos dísticos e, a espreitar pela porta podada na parede cinzento amarelada da taberna, o piscar de olho do taberneiro confirma que esta é situação para dispensar.
A porta abre-se, um pé grande calçado por uma moderna sandália réptil verde com olhos cinzentos. Outro pé no chão e o levantar abraçado à ombreira. Bate a porta com delicadeza viril, como se o tempo (e eram certamente oitentas medidas de tempo naquele corpo grande) tivesse perdido a acutilância do toque com conta, peso e medida. Vai lesto na vagareza do corpo que parece habituar-se ainda à posição vertical depois de, deduzo, longa viagem ou tempo sentado, alcança o outro lado, encolhe-se entre si mesmo e o autocarro azul e branco enquanto este passa apressado para, agora, abrir a porta com o cuidado pueril de quem em noite de núpcias eternas, como sucede com quem se permite amar todos os dias. As mãos gastas e enrugadas encontram-se e a custo ele, no esforço de puxar, e ela, no esforço de erguer, içam em esforço de faina a vontade de ir à doca encher as brancas cuvetes de alguns, deduzo, quarteirões de peixe variado. 
Quando voltaram, de mão dada, saio da sombra para visualizar melhor o palco onde se desenrolava a peça. Vejo que o polícia, embora parecesse preocupado em não o mostrar, apreciava a cena com um sorriso. A porta traseira da velha Renault Express abre-se na horizontal, não sem antes um bom abanão desprender a ferrugem das dobradiças ou, aqui é apenas a insolação a divagar, a acordar do sono a que parecem pertencer todos os que envelhecem de bem com a vida. O jovem que lhes trouxe as cuvetes, já depois de as pousar na carrinha, recebe animadamente uma gorjeta em forma de moeda, a mesma moeda que, sem que os velhotes reparassem, deixou cair no bolso do avental azul da idosa menos idosa do casal. 
Do lado da lota, algumas pessoas, perdão Pessoas, fitavam com um sorriso enternecido a cena que deduzo ser usual, tal o grau de cumplicidade e facilidade de gestos entre os intervenientes, as mulheres acotovelavam os maridos e apontavam com a cabeça, os homens encolhiam os ombros, um ou outro passava o braço sobre a mulher e a ternura que também veste quem nos gestos despe gestos cuidados para puder abraçar melhor as redes que puxa para bordo.
A porta da carrinha fecha-se, ele, novamente, abre a porta para que a companheira e companhia entre. Fá-lo a custo, deixando-se cair primeiro com cuidado e, já quando a distância ao banco o permite, com a força que a idade parece exercer nos corpos que acumularam trabalhos, fazendo a carrinha abanar. O estremecer da porta ao fechar faz cair um pouco mais de ferrugem. Quando ele entra, um pouco mais aligeirado que a esposa, agarra o volante com as duas mãos e sorri. Ela coloca a mão sobre a mão dele, fechando-a sobre a mão e o volante. Com a cumplicidade que só se atinge quando os dois corpos são parte integrante de um corpo apenas, e já nem este corpo se sente, fita-a. Levanta a mão esquerda e leva-a à face rosada, enrugada, quase curtida da esposa. Retira-lhe da frente da cara uma madeixa da cor do nevoeiro que se habituaram (invento) a sentir nas manhãs de faina. Com o grosso e torpe indicador raspa uma escama que luzia na bochecha já descaída. Dá-lhe um beijo tímido com o pudor de quem ama na inocência, liga a carrinha e arranca e é neste momento que me arrependo de não ter trazido o caderno para escrever a história.

2017-06-13

Hoje sou eu

Crónica no "Correio do Porto".

Descalço-me
Sinto a terra, quente, nos meus pés.
Algures pelo Universo, este berlinde rodopia e rodopia-se, incessantemente, durante anos e segundos.
Não consigo deixar de me sentir rodopiar, agora, no portátil, numa lagoa do Alvão ou num dos muitos recantos do Gerês.
Quantas partes de mim se escondem num tronco, num animal faminto, numa cereja amadurecida, numa chuva quente de Primavera, num olhar pelo horizonte, num meridiano qualquer que me acolha como voluntário?
Lentamente, a minha unidade e identidade separam-se para percorrerem todas as dimensões que desconheço.
Vou construindo as frases como quem se recorda do útero, como quem tenta, entre pinceladas, o traço fino com que desenho o dia de amanhã.
A poesia, a prosa, tudo o que seja escrever, pensar, verbalizar, contextualizar, tudo me foge das mãos para se esconder e partilhar com o vento, esse sim, viajante eterno que se esconde onde todos o encontram.
Faz-me falta a caminhada, o sentir descontraído do vento e do sol, da chuva e do frio, pelos caminhos que vou percorrendo.
Sem rumo, mas com destino, enchendo o peito de feno, de pólen, de uma ou outra lágrima que se desprende para molhar o pensamento.
Não caibo em mim.
Hoje, sou tu e tu, e tu, e tu!
Hoje sou todos nós, pelos quadros que nunca pintei, pelos muros que nunca saltei com medo do lado de lá.
Se um dia as minhas mãos se calarem, que não se esqueçam meus olhos do caminho que me leva até mim, ainda que distante.
E hoje, que não sou eu, é quando verdadeiramente me sinto em mim, sem riso ou lágrima, apenas brisa ou ar gélido, ou eu.


2017-06-11

O céu

Crónica de Domingo, na Bird Magazine.

Quando o dia amanhece cinzento, por precaução sai à rua com uma boina cinzenta riscada, padronizada. Fá-lo apenas por reflexo, como se ainda reverberasse no espaço entre ele e a boca da esposa as palavras granizadas, quase sopro, de quem no leito de morte se preocupa cada vez mais com os vivos, especialmente com os que se amam há décadas, como por obrigação ou cuidado, não vá o descuido da idade passar em esquecimento e, assim, por pressão da vida, fazer esquecer a melhor parte de nós próprios.
- Olha que o Sol está lá na mesma, leva a boina! – era o que ouvia antes de sair, depois de lhe acomodar a almofada e dar uma carícia em forma de beijo, levemente, na testa. Depois colocava a chave debaixo do tapete da entrada, local combinado com as cuidadoras aladas do serviço de apoio domiciliário que, diariamente, lhe cuidavam da higiene e variavam a companhia. Era a estas que a mulher, de forma cada vez mais suspirada, agradecia o carinho e pedia que tomassem conta dele.
- Ele anda cá por andar, se não o lembrar de respirar nem isso faz por iniciativa própria!
Elas sorriam, ao mesmo tempo que a esponja molhada com cheiro a leite de coco e mel lhe humedecia um corpo seco, quase a ser colhido.
- Tomem-me conta dele.
Dia houve em que ao aconchegar a almofada a sentiu mais leve, a cabeça pendeu para o lado direito, os olhos não se abriram cansados e o braço, geralmente sobre o peito, escorregou por baixo do lençol e ficou suspenso. Confuso, o seu peito sacudiu e engasgou-se com o ar morno que a braseira aqueceu durante a noite.
Respirava sozinho pela primeira vez em muitos anos, tantos que já nem se lembrava. Saberia serem mais de meia centena, o anelar ostentava a recordação de um dia dourado. Ficou imóvel durante alguns minutos, depois pegou-lhe na mão e colocou-a com cuidado sobre o peito. Deixou-lhe a cabeça tal como estava, tirando apenas uma madeixa branca e enquanto o seu corpo arrefecia, foi à janela e ficou a olhar o céu.
- O senhor fica bem?
Foi a pergunta das cuidadoras quando já depois de chamados os bombeiros e a funerária, após os trâmites usuais, levantar o corpo.
- Não sei. Acho que sim.
Não usou mais a boina. Tenho-o visto à janela e envelhece a cada dia que passa, sessenta vezes por minuto.
Barbeia-se com o mesmo cuidado de sempre, mas pela cada vez mais flácida face é fácil que o gume da lâmina escanhoe nova ruga. Um pequeno fio de sangue escorre. No espelho embaciado parece-lhe vê-la, amada, esposa, a passar-lhe uma ponta da toalha molhada no corte e o sangue a estancar. Sorri inocente e embevecido, como se as mãos de quem já cá não está se permitissem galgar a distância infinitesimal que nos separa do corpo à alma. Ao ver novamente a cara no espelho, ainda lá está o corte, o fio de sangue que se deixa cair no lavatório e escorre, por entre espuma branca, até se deixar de ver.
Há um dia, porque no passado não se escreve de quem fala no futuro, em que se levanta da cama de forma ligeira, na respiração leve e instintiva vê que o ar se solta em finíssimos cordéis de prata e todas as partículas no ar se assemelham a dentes de leão que a vida soprou, só para si.
Virou-se e viu-se, ainda na cama, cabeça sobre o lado direito e uma feição sorridente, a mão aberta sobre o lado vazio da cama, o leito seco da vida de onde se colhem as noites sós. Sorriu. Via-se mal barbeado, despenteado. Esteve por ali vários minutos ou vários sei lá o que é que chamam ao tempo onde não existe tempo, até ver surgir, como uma figura esculpida em nevoeiro matinal pelas mãos de um artesão a quem não se vê a face, a mulher, em feições que só se vislumbram com os olhos que a terra não irá comer.
- Estava a ver que nunca mais vinhas.
Ela sorriu, passou-lhe a mão na face, o calor de se ser quem é.
- Estive a procurar umas pantufas quentes para ti. Sei que é o céu, mas nunca gostaste de andar descalço.

2017-06-04

Se um dia puder ser mãos, quero ser as tuas.

Crónica de Domingo, na Bird Magazine.

Não me pede. Fala. Eu é que peço para ir. É esta cumplicidade. O pouco diálogo. 
Cortar o silêncio com um comentário sobre futebol, uma nova teoria de conspiração ou o livro novo que estás a ler. É falar sobre tudo e sobre nada. O trabalho que dá fazer um parafuso. O mistério que é o Universo, o seu início, o seu fim, o nosso fim. Experimentar um novo troço de autoestrada para te ver como eu era em criança, maravilhado com algo novo. 
Ainda guardo um cubo de madeira, é a letra Z curiosamente, sobrou-me a última letra de todos os cubos que fizeste com todas as letras e com as quais aprendi, sozinho, a ler e a escrever ao copiar o que via escrito nos livros que lias na altura. É estar sentado no escuro, nos Invernos com trovoadas que levavam a electricidade, sob um cobertor cor-de-laranja, contigo a mostrar-me a magia, ao soprares e só passados uns segundos a vela oscilar.
Quando conduzo, é como se fosse ainda a olhar para ti, a segurar com as mãos um livro de banda desenhada e a imitar todos os teus movimentos no volante.
É entrar agora contigo no café, ser mais alto uns bons centímetros, dizerem-te "estão a chegar os Casagrande", ou tu sorrires e dizeres "atenção que hoje trago guarda-costas!". É ver-te sentado no sofá a dormir e eu apagar a televisão ou baixar o volume e tu responderes "eu estava a ver".
Ainda continuas maravilhado com ela, com a magia da vida, a acreditar na bondade das pessoas, a seres bom, ainda que nem o saibas que és.
Penso ainda, por vezes, condicionado por esta sociedade, que deveria ser riquíssimo, dar-te tudo o que me dás, mas vejo agora que não há riqueza maior que esta, de nos rirmos com as piadas que só nós conhecemos.
Ainda vou abraçado a ti, com os olhos fechados, a sentir o vento nas pernas e nas mãos, com o capacete a bambolear, sentado na traseira da barulhenta Java.
A certeza de sentir que aconteça o que acontecer, sempre nos teremos uns aos outros, a família, os verdadeiros amigos, enquanto houver pontes, grutas, erva, sol, noite, rios, enquanto houver um universo nada poderá existir que nos tire a liberdade de sermos quem somos, de nos rirmos quando mordemos uma extremidade de um cachorro especial, desses que se compra nas rulotes, e ver cair da outra extremidade um monte de batatas fritas ao mesmo tempo que fugimos com os pés para trás para não nos cair a maré de molhos que pedimos para colocar sobre aquela saborosa mixórdia. Se um dia eu puder ser mãos, quero ser as tuas.
E o mais fantástico é que nada é novo, é cíclico, já o tinha comigo antes de nascer, continuará comigo e apesar de não saber porque razão escrevo isto agora, faço-o. Porque sim. Porque estas coisas não se explicam e eu estou a aprender que nem preciso de escrever bem, de ser fiel às minhas memórias ou sonhos, porque na verdade e embora me entristeça, porque gostava de poder transmitir tudo aquilo que sinto, tudo já foi escrito, tudo já existe em cada um de nós, em cada uma das pessoas, porque somos felizes com nada e o Universo está cheio dele. Virá o dia em que não precisaremos escrever (e tudo o que se perde do que vem do etéreo para o cérebro e deste para as mãos) e aí sim, todos saberão o que é escrever com o olhar.
Até lá, vou perdendo o olhar em tudo o que me rodeia, na tentativa de, um dia, as minhas mãos serem um pouco a extensão do que Sou.

2017-05-31

Sorriu-me a maré dourada que se estendia pelas sombras do que o Sol não cobria. 
Ondas de lavoura e espuma de milheirais, na irregular costa da simplicidade de amar a terra, eis os despojos sem guerra.
Um arado que se verte pelo olhar, eu e as nuvens a suspirar, o texto que teima em falar e eu, navegante, calado, sem me saber sequer vocalizar, porque há um hiato entre as vagas das vidas onde não sei nadar.

2017-05-29

Dois relâmpagos e três trovoadas

Crónica, no Correio do Porto.

O tempo, apesar de não existir, vai fazendo de cada um de nós o modelo para as suas pinturas. Crava uma ruga aqui, uma saudade ali, um qualquer padrão que nos embrulhe e entrega-nos à vida, apesar de não existir, para que ela se encarregue de nos unir num gigantesco mosaico, um dodecaedro cujas faces internas são o caleidoscópio das memórias.

De todas as ambiguidades, a dualidade da vida vs tempo parece levar em si, bem escondida, todas as palavras que teimo em tentar compreender antes de escrever.

Troco dois relâmpagos por três trovoadas murmurantes a quilómetros de distância. Ou, então, por um segundo de imortalidade nas rugas pintadas pelo tempo, esculpidas por mim, artesão de mim mesmo.

Entro pelo sono abraçado à noite, na esperança de ela mesma, quando se cruzar no horizonte com o dia que nasce, lhe passe os sonhos que se diluem quando acordo.

Nunca acontece.

Acordo com o despertador e, nesse momento, tudo e todos que me rodeavam se assustam com o início do desenrolar de mais um dia que se vai parir e morrer cedo.

Só quando a claridade me deixa torpe suficiente, consigo, ainda que fugazmente, ver levantarem-se da minha beira os meus zeladores, deitando-me com o carinho que, acredito, dedicam a cada um de nós ignorantes.

Nascem dias todos os dias, muitas vezes mais do que uma vez por dia, mas continuamos, apesar de esforços invisíveis, adormecidos anos e anos enquanto aquilo que pensamos ser vida passa por nós, fatigada.

Que tudo procuramos nós, se tudo o que necessitamos é nada?


2017-05-28

Quando o sonho chegar a voar e me estender a mão

Crónica na Bird Magazine.

No momento, neste, em que sinto o vazio de não escrever, ter palavras agarradas à alma, frases inteiras entrelaçadas num emaranhado novelo, é quando desejo a simplicidade de olhar o céu estrelado, ainda que me separe dele alguns pisos e uns quantos quilómetros.
Hoje, na ausência de filosofias, vou escolher retirar do forno da vida as noites mais frias, para que possa imaginar sentar-me na beira da cama, pendendo os pés para um vazio luminoso e adormecer nesta posição, para me levantar rapidamente quando o sonho chegar a voar e me estender a mão.

Poucas luzes brilham mais que uma noite sem lua. Enquanto o vento abana as lâmpadas no coreto, há uma musica tua, que se toca, corpo e sinfonia, para lá do frio que começa a cair desamparado, entre os ombros e o cigarro. 
Sou o lume que apago, pelos degraus da justiça, ascendo à boleia, literal, da compaixão metamorfoseada em casulo, hoje a vida nasceu ao contrário, não te preocupes, novo olhar poderá ter-te, novamente, nesse lugar de ninguém onde se encontram vidas passadas, há séculos, ontem.

De onde vens tu, amálgama de gente, pelo calor acima com todo este serrado às costas? 
Quererás deslocar o mundo, para que passem por ele, sobre ele, os ecos de uma morte enunciada, enumerada, designada? 
Vales pouco mais que uma rima de gado, por isso mesmo te querem submisso, parcamente alimentado, na esperança vã de um dia despires o suor e descansares sentado na beira da cova, reles buraco que tiveste que comprar, à espera de adormeceres, de tédio, solidão ou, simplesmente, até te empurrarem com um pontapé ou uma palmadinha nas costas. 
Vai que vais tarde. 
O teu tributo será o húmus que alimentará as pastagens ainda antes de serem sementes.
Se te soubesses eterno, perene, unicidade da multiplicidade, poderias virar costas e voar, sem medo e sem olhar para trás, o teu maior segredo é seres rei e fazerem de ti cravo, com que prendem a ferradura nesse teu cavalgar de equídeo bravo, selvagem.
Não... Não acredites em mim, estou cá de passagem, sem alforge, sem bordão, sem roupa, sem viagem.

Do calor faço imaginação, pelas curvas o destino, a paisagem sobe-me à mão, a palavra instrumento que desafino. 
Pudesse o Sol subir tão alto e prolongar a sombra do futuro na fachada da minha morada, mas a minha morada é pousio que habito sem dormir, as paredes do meu quarto são as luas reunidas quando por entre serenamente movimentadas plantas te vejo sorrir.
Sigo o traço da minha mão, chamam-lhe linha da vida, por ela um ribeiro secou quando Dezembro terminou sem nunca ter Primaverado. E, pelo entardecer tardio, não tarda vou dormir, sem nunca ter acordado.

2017-05-21

De que vale o silêncio se ninguém o escuta?

Crónica de Domingo, na Bird Magazine.

Seria, provavelmente, capaz de partir a pé por esses caminhos fora. 
Não é à toa que vagabundo rima com mundo. 
Acabo por cobiçar o sorriso desligado da alegria que vejo nalgumas faces, cobertas por barba, em corpos que não se inibem em deitar num banco de uma estação de comboios. 
Indiferentes ou talvez não, ao lixo acumulado na linha, nas metades de tonéis que nunca o ambicionaram, mas são agora recipientes onde descansam em paz acalorada várias garrafas de plástico de líquidos que são caras formas de se beber má água.
O átrio da estação está vazio. 
O calor convida a uma estada prolongada num velho banco de madeira. 
A poltrona amarelada olha de soslaio. 
Coitada, não percebe que aquele tecido empoeirado não convida a que alguém, mais ou menos incauto, se sente ali. 
As horas passam devagar quando olhamos para o relógio, antigo, a olhar com cadência do alto da coluna de madeira. 
Basta desviarmos o olhar para ele desatar a correr de ponteiro em ponteiro, este tempo atribulado.
A vida há muito saiu dali. 
Os azulejos que ornamentam o edifício escorrem saudade. 
Acaricio a face de alguns dos trabalhadores e trabalhadoras retratados. 
Algumas aves fizeram o favor de ornamentar os azulejos, mas isso não me inibe de afagar o dorso de um touro, calculo que esteja cansado, mas afinal parece ser apenas solidão. É normal. 
Outrora vibrante, a estação resume-se a um só funcionário, escondido numa redoma, rodeado de um ecrã, teclas, papeis, códigos QR. 
Longe vai o tempo de o senhor com o balde e a pinça de metal na mão, a apanhar o pouco lixo que existia.
Agora tudo parece ter lixo, restolhos mal cheirosos. 
Até as pessoas mudaram, outrora pessoas bem cheirosas, em corpos mal cheirosos, agora pessoas mal cheirosas, em corpos bem cheirosos.
Tudo muda. 
Até o silêncio, que parece ter descido sobre vários apeadeiros, despindo-os de telhados, partido vidraças, apodrecido vigas de madeira em profunda raiva pelo que de mal nós lhe fizemos. 
De que vale o silêncio se ninguém o escuta? 
Vou percorrendo o caminho com o olhar no trilho, claqueio mentalmente o som das rodas sobre os carris. 
Dói, não sei bem o quê e por isso tão difícil se torna diagnosticar, mas dói sempre e cada vez mais ao observar o abandono de tudo o que foi. 
Acredito que as memórias perduram e resistem abandonadas apenas para que possamos sentir que, de facto, quando ao futuro chegarmos vermos que o que deixamos abandonado encerra a parte de nós que não deveríamos ter esquecido, o reflexo da nossa face na superfície da vida.

2017-05-14

A fé

Crónica de Domingo na Bird Magazine.

Eram as palavras como tenazes folhas de oliveira, as sombras lânguidas paredes que circunscreviam os montes onde o teu sol, como luz que eras, se permitia descolorir para que todos os outros, como nós, cegos, orassem sem saberem versicular. 
Pergunto-me se ponderavas tudo caminhar para isto.
Seria, Cristo?
Sobra-me, enquanto arrumo o que sou, as montanhas ao longe, cercadas por um mar agitado que nunca as banhou. 
Não tenho medo de morrer, mas tenho um medo irracional de não viver.
Sobram-me as estradas sinuosas que, obrigatoriamente, calcorreiam quem não sabe voar. 
Sobra-me a consoada e o anuncio, festivo, de que a neve é azul e o céu, esse, é da cor que eu quiser, porque tenho como parceiro este estranho homem, comido pelo tempo, abrigado sob um alpendre tolhido de fumo, acompanhado de dois santinhos, que irei saber, quando voltar atrás e o ler como quem acorda, serem nossa senhora e o menino jesus. 
Garrincha, na falta de primaveras, é o meu conforto e a certeza profunda, enraizada, do tronco que sou.
É com o vento frio e um calor no ventre, que me dedico a admirar a legumeirada que se banha na corrente quente da sopa na tigela. 
Uma divisão. 
Um colchão. 
Um caderno e um lápis na mão. 
A catadupa dos invernos que fugiram ao verão. 
Há vento, a granel, para quem goste dos sussurros. 
Não me falta o enfeite de um Natal, assim a modos de presépio, com musgo a fazer de reis magos e um menino Jesus que nascerá. Plim! O microondas, perdão, o fogão a lenha, esgravata um grunhido e avisa-me que a caldaria está pronta. 
Os cavacos esbaforidos passam a mão pela fronte limpando o suor, contentes, realizados, deixando-se depois cair de costas para as brasas onde, sabem, serão consumidos, ascendendo a um céu de fuligem, para choverem novamente aos meus olhos, que os levam onde nunca eles agora cavacos, ontem árvores, amanhã cinzas, sonharam, tal como eu, ir.
Assombrado, percorro os caminhos que traço, sem grande cautela, há na vida espaço para nós, eu e ela, a vida. 
O calor transpira-se em mim, hoje sou rio. 
Rio. Levo-me em levada e vou comigo cheio de nada, de bolso prenhe da mão fechada, os nós dos dedos vincados, as rugas anoitecem e acordam-se como os cerrados, ancorados. Felizes os que se portam em porto, rabelizados na maré de uma existência escoada num Cristo Rei, de pé, aguardando pacientemente a vinda de si mesmo. 
Isto é a fé.

2017-05-04

Royal mile

Royal mile, crónica no Correio do Porto.

A Royal mile estende-se preguiçosamente, esquecida quase que está pelo calcorrear maléfico das altezas reais que de gente fez degrau e, abaixo e acima, fazia do povo sina. O vento corre seco e frio, traz-me ao ouvido recordações caledónias e o sussurro de uma gaita-de-foles, espremida no regaço quente dum puto, cara de sonho, sorriso de vida, onde cada libra vale 15% para outros putos cujo cancro coloca cara de dor e sorriso de esperança no dia seguinte e mais 15% para aqueles que não se conseguem lembrar da própria vida.
As paredes dos prédios tornam o negro ainda mais agreste e a multidão faz-se maré de um mar que não parece saber para onde caminhar. Os cheiros oscilam entre o conhecido puritano e o inolvidável sagrado, de vidas distintas e épocas remotas, acometidas para o presente que se imiscua com todos os tempos, agora que o próprio tempo parece deixar de correr para ser sempre hoje.
É quase noite, o cachorro levanta preguiçosamente o sobrolho e fita-me com pena, parece-me. Não o censuro, sobre um solo erguido sobre lava, está deitado junto ao dono, debaixo do que parece ser um saco cama, ou várias camadas de sacos cama. O mendigo parece-me mais novo do que eu. Olha-me a sorrir quando deito umas moedas no copo cheio de nada, ainda com a sombra do logótipo da Starbucks, onde ironicamente está escrito “Dreams”. Pisca-me o olho e segue o seu caminho, sentado, espreitando para dentro da história do grosso volume de “Guerra e Paz”, convidando-me a seguir o meu caminho, Royal mile abaixo, assobiando mentalmente qualquer melodia que penso ser escocesa.
O dia escureceu na totalidade agora que o Sol, a esta latitude, se foi embora cansado e a noite surge com mais esplendor porque a multidão se recolhe e embriaga sob luxuriosas luzes falsas. Sem gente, as ruas tornam-se mais vívidas, habitadas apenas por quem foi esquecido, na vida e na morte e, por isso, sem recordações que sombreiem, iluminam a noctívaga vontade de ser estrela. 
Volto ao local onde o vi, desabrigado, a ler e arrisco um início de conversa. 
– Sem abrigo? – pergunto em inglês, aninhado à sua frente e sob o olhar avaliador do canídeo.
Marca a página com o dedo enluvado, muito perto do fim do livro e ergue-me um olhar sorridente, calmo e compreensivo. Com o braço descreve um arco sobre a cabeça dele e olhando para o céu nocturno, mais visível agora, responde-me com nova pergunta. 
– Que outro abrigo além das estrelas? 
Trocamos um olhar montanhoso. Aponto para a capa do livro e pergunto, sem vontade de ir embora.
– Pronto para a guerra?
– Não amigo, pronto para a paz.
E sorrindo ainda, colocou um recorte de jornal a marcar a página, fechou o livro, aconchegou o cão debaixo do braço, puxou o saco-cama para o pescoço e fechou os olhos alheio ao barulho que vinha do bar duas portas acima.


2017-04-30

A chuva, sempre a chuva

Crónica, na Bird Magazine.

Não pelo frio, que corre lá fora, mas pela memória de ver serpentear a espuma do café sob a negrura do líquido e dos dias, que me aquece as mãos em concha segurando a tigela. 
Não pelo calor, que deslizará a seu tempo pelas paredes exteriores e interiores de um mundo físico, onde cada sombra terá a certeza de sobreviver até nenhum sol mais nascer. 
Por onde, por que, porque, os dias e dias salpicados de cadências rítmicas que não soam, que não são. Há onde tu lá estás algum percalço que faça cair as estrelas quando tropeças nas etéreas obras que criaste? 
Tenho por fundo o fundo, apenas. Está para lá, onde as memórias se enaltecem do futuro que ajudaram a edificar, mas cujo fruto nunca puderam saborear. 
A cada passa um futuro, o potencial gravítico que me agarra ao planeta. 
Como o adoro. O planeta. O futuro. 
Terminarei ainda antes da música, mas mesmo que não tinam as pautas, mesmo que a filosofia me abandone e eu seja apenas um pensamento parado, a sonoridade encontrará a sua própria forma de, pelo frio, pelo calor, se traduzir na tremeluzida vela que dança ao sabor do nevoeiro que os nossos corpos, assim como a água quente do chuveiro, enevoaram. 
Arrefeço, corpo e alma, na esperança da vida pensar que adormeço e o sono se aproxime, chamando o sonho e, assim, eu o capture antes de adormecer e anote todos os segredos que me sussurrou em criança e reinvente a chuva. 
Hoje traz-me a memória do abraço, a ombreira da porta, os pingos que se volatizam quando em contacto com o corpo de um outro ser. A chuva, sempre a chuva, eu, sempre eu. O apagado semáforo que teima em sair do tricolor destino, a rua fechada e um trabalhador abrigado sobre as memórias de dias mais coloridos.
Olhos semicerrados, as gotículas aquosas de uma quimicidade que não se saber ser água. Água, sempre água. As costas encostadas ao húmido vestuário, um autocarro que passa prenhe de passageiros conduzidos pelo destino, o destino, sempre o destino.
Hoje chove, por mim, pelo caderno virtual que abro no deserto com vista para o nada, e por breves momentos, entre água e nevoeiro, juro ter visto um relâmpago e o troar de um trovão que parece chamar por mim. Trovadora, a Natureza canta-me ao ouvido o sussurro de um abrigo sob duas grandes pedras encavalitadas num equilíbrio eterno.
Consegui chamar o frio, novamente, que teima em fugir por entre as minhas recordações de Inverno e de finais de tarde lá de meados de Setembro. 
Abriga-se no meu colo e no olhar aflito de uma dor que não se compreende, penosamente enfia o seu focinho afiado entre o meu braço e o tronco e deixa-se ficar, quase que adormecido, enquanto eu próprio também durmo na esperança de acordar e ver que o dia é ainda dia. 
Se nos teimarem ser Verão, também seremos, verão que das estações só as do comboio, mesmo que alienadas e despojadas sejam, permanecem inalteradas na paisagem, quem as não tem? Paisagens e estações? 
O frio escapa-se-me e segue, por aí, acalentando olhares de soslaio, sonhos de catraio, dois ou três pares de nuvens e um sorrio. São estas as minhas orações.

2017-04-23

Planalto ressuscitado

Crónica de domingo, na Bird Magazine.

O vento soprava quente, mas lá, sob as oliveiras, esse mesmo vento corria sobre nós, tapando e aquecendo-nos como um morno e invisível manto de serenidade. Era fácil ser feliz sem nada. As pequenas azeitonas colhidas pela natureza antes do tempo marcavam o chão, assemelhavam-se a pequenos botões verdes num acolchoado tecido usualmente parco de cores. Ficávamos ali contigo a olhar o céu, calados, o barulho do vento a fazer com que as folhas sussurrassem entre elas, o baque surdo de uma azeitona a cair. 
Já todos nos perguntávamos sobre o que há para lá das estrelas, tu olhavas quem te perguntava com aquela profundidade de nos saber mais do que somos, sorrias e apenas contavas histórias de casa do teu pai. Dizias que havia por lá muitas moradas e que apenas nos sentíamos sozinhos porque não nos sabíamos encontrar ali, ou em qualquer outro olival, no silêncio que deveríamos aprender a calar. Nalguns momentos em que falavas de algo como se todos o soubéssemos previamente, rias-te quando indagávamos o sentido das palavras, sempre gostaste de metáforas, dizias que o significado surgiria quando nos lembrássemos do que te lembraste, ou do que vieste fazer recordar, e tratavas-nos como se fossemos longos irmãos de jornadas sob oliveiras, bodhis ou outras árvores que dizias existirem noutras estrelas. Como tenho saudades desse tempo.
Quando te encontrei sozinho, venci medo, timidez e perguntei-te algo. É curioso, não recordo a pergunta, mas lembro-me da resposta que deste, ainda a possuo em mim apesar do ruído dos iluminismos e medievalismos de todas estas voltas ao sol. Talvez a tenhas passado para mim pelo olhar, a tua típica resposta à cacofonia com que te rodeavam, aquele olhar fundo que parecia penetrar olhos dentro como se olhasses para (ou soubesses que éramos) o infinito que nos habita no interior. Hoje ainda procuro essas respostas, ou por ti, nos olhos de com quem me cruzo.
Quando foste, como disseste que ias, o que mais enfatizaste, nos momentos em que permitias que olhássemos para dentro de ti, era para termos cuidado com o que oportunistas poderiam fazer com as tuas palavras. Por isso cada um que desejasse o silêncio deveria trocar o folclore, a opulência carnavalesca da necessidade egocêntrica de superioridade superlativa pelas verdadeiras palavras inauditas que são um abraço. O silêncio seria sempre o pautar ritmado do amor, como um pêndulo que vai e vem, sem nunca ir e voltar, porque estaria sempre onde o tempo não alcança. Disseste-o, mas talvez ainda não saiba o que significa, por isso continuo no silêncio e o tempo faz-me confusão hoje como fazia antes. Hoje estou por aqui e enquanto não chega amanhã vou trauteando calado as paisagens que encontro no interior de outros. 
Tu, na mais perfeita solidão de seres único com a pluralidade de todos nós, idos e vindos, o universo criado, expandido, implodido, recriado, na infinita miríade de células que habita todo o espaço onde existes e não existes, vais teimando silenciar e encher de beleza até a mais escareada face de quem se esqueceu de ti e se escondeu de si próprio.
Lembras-te quando, chegados a nova terra que não te conhecessem o corpo, além do contado e acrescentado, permitias qualquer um de nós subir no burrico e ser aclamado entre folhas de oliveira, enquanto nos guiavas, burrico e nós como um só pela rédea solta? 
Que saudades tuas meu querido amigo de silêncios, por cá andamos sem nunca dar o salto, cada um de nós uma escarpa que tentamos escalar, única e simplesmente porque não nos sabemos planalto.

2017-04-09

De mãos abertas

Crónica na Bird Magazine, em 09/04/2017.

Olho para os meus pés e vejo-os virados para locais que não conheço, sinto pequenas mãos que me puxam vestes que não trago vestidas e quando eu mesmo olho as minhas mãos, assim, abertas, estendidas, com as palmas viradas para o chão, sinto que a Terra me tenta falar, deixo que o frio tépido me seduza e as pálpebras sucumbam a um sonho qualquer. 
De que são feitas as minhas mãos? Invejo as mãos calejadas e toscas de quem trabalha no campo, na terra, na vida, as que limpam o suor da face quando o Sol lhes leva o cansaço, as que se metem nos bolsos furados e sem fundo, que apertam outras mãos nuas, sem ocasos ou eclipses, as que suportam vidas e cajados e carecem de carícias.
As minhas mãos envelhecem comigo, percorrem teclas como quem salta de pedra em pedra numa lagoa descoberta por acaso. As minhas mãos lacrimejam quando sentem e estão assim, viradas para o mundo, com estrelas e letras, palavras que ainda não nasceram, tacteiam o escuro em que o mundo por vezes penetra, para depois sorrirem comigo, quando, firmes no volante, um odor lembra um sonho que elas moldaram.
As minhas mãos talvez sejam eu mesmo, abertas, viradas para o mundo, agarradas a um corpo que não conseguem fazer voar, correndo desenfreadamente em busca de um solo quente, de mergulhar em águas ainda não passadas, de se sentirem comprimidas a um espelho.
As minhas mãos anseiam tocar almas, respirar fundo e abrir um portão grande, de madeira, que veda a entrada de todas as minhas paisagens sem fronteiras.
De quanto precisarei para ser do tamanho daquilo que não alcanço?
O vidro embacia, os faróis dos outros carros ofuscam-me a visão apesar dos meus olhos verem as pessoas e as almas que por lá habitam. O limpa-vidros dança numa pequena tentativa de me seduzir, mas na verdade sou eu quem o comanda. A paisagem vai-se deslocando enquanto me guio pelas curvas do destino. Não há pequena eira abandonada que não me queira secar ao Sol. Não há fraga alguma que não me queira abrigar da chuva.
Todos os campos, com os seus cereais, convidam-me a percorrer lentamente, de olhos fechados, com as mãos abertas, sentindo o frio e o quente, o prazer e o êxtase de germinar enquanto anoiteço encostado aos meus sonhos.
Gosto de estar aqui, a contrariar os olhos que teimam em fechar, sinto o sono escorregar por mim, envolver-me no seu manto quente de noite transmontana, mas, no final, sou eu que o adormeço. 
Acena-me com todos os sonhos que me aguardam, serve-mos como se fosse a sobremesa recompensadora de um dia servido mal temperado.
No entardecer das minhas mãos os meus dedos percorrem as últimas e efémeras linhas dos horizontes dos meus mundos, alcançam ainda as sombras longas de pinheiros que nunca subi, para serem também um pouco de sombra e trevas na crista das minhas vidas.
Eu sou grande, fisicamente, mas quando me amparo na sombra de um murmúrio vejo o quanto de crescimento tenho para minguar.

2017-04-05

Fruta engomada

Crónica do nada, no Correio do Porto.

É dia de feira, como sempre é quando não sei que é. Subo a avenida principal, a mesma que tantas vezes quis saber o nome e, ainda agora, não o sei. Creio não ser importante o nome pelo qual catalogámos, as ruas ou as pessoas, embora ache curioso que esta travessa se chame “Rua do Souto” e, do nome, apenas a minha imaginação pode andar por ali abrigada pelas sombras de uns castanheiros que nunca soube darem mais do que terrenos e casas miscíveis.
Paredes tem nome de casa, de terreno entre lareiras de uma mesma brasa e, por isso, talvez me acolha quando decido deixar-me levar pela mão de quem me aquece o coração. A avenida, qualquer avenida, é feita de pessoas e eu que as tento colar à retina, vou atento a tudo o que seja gente e vento. Sorrio pela vaidade que se esvai e esfumaça quando se tenta ser o que as revistas trazem agarradas às folhas. Este mundo não parece ser para esfomeados de espírito. 
As travessas parecem conduzir ao recinto da feira, vejo os carros estacionados, presos, onde antes se deixavam os animais, arfantes, com a laça na argola de ferro. A lateral da igreja não escapa, poucos crentes se atrevem a sair da viatura sem se benzerem, não vá um cristo estar atento e nos julgar cristãos sem grande alento.
O cheiro do posto de gasolina, os carros guardados que espreitam pela nesga do portão aberto e sorriem, as vozes que falam alto o que as pessoas pensam baixo “estava mesmo a pensar em ti caralho!”, o tinir das chaves penduradas na presilha das calças, a boina gasta, o tacão que esgrime passos com o chão. Há poesia que se incute e em mim repercute. Ousasse eu ser menos cego e talvez conseguisse, ainda que por momentos, ver mais além de um mundo que se enche de velhice.
A cada porta cogito sobre o negócio, correrá bem? “Olhe, por cá se rasteja”, as montras parecem adormecidas, as prateleiras enchem-se de tudo aquilo que não faz falta e, do que faz, vive-se empurrando com o esquecimento para trás. Eis que transpiro e sorriso, duas janelas sorriem de cada lado de uma porta aberta, os autocolantes de velhos sumos gaseificados, a fruta não envernizada sobre caixotes de pinho, a prateleira de madeira, a maçã encarnada que olha para mim e se ri por tudo e por nada e a dona, velha, loja própria de quem nunca comercializou vontades, ou saudades, ou lá o que é que me faz parar e olhar para dentro, de mim e do que o comércio é, vê-la ela mesma prateleira no labor de uma geira, a tábua de engomar aberta, a camisa quadriculada de azul e preto, o ferro nas mãos a vaporizar a manhã de sábado e o cheiro fresco a roupa lavada, ou seria fruta engomada?


2017-04-04

Não sei se me emerges no preciso momento em que atravessas de vento soprado o caminho que nem sei trilhar. 
A vida intrínseca ao viver apresenta-se labutada, entre regos estendida, como entregue a si mesma e, por isso, mais vida.
Eis-me saltado no coaxar nocturno das pedras que ainda crocitam mornas, de regresso ao percurso onde as estrelas vêm beber à Terra a loucura dos dias que vamos semeando.
O lento ressoar das escoras que sustentam o dia têm nome de serra, como um mar gigante, Marão.

2017-04-03

Nada sucumbe mais.
As encostas do Douro precipitam-se de amarelo polinizado e eu deixo de me surpreender.
Cada curva sua sentença.
A facilidade do desaprendido cultiva-me a paz.
Talvez hoje, que não chove, surjas por detrás do tempo e arrastes contigo tudo o que ele traz.
Mas agora, agora mesmo, no silenciado universo meu leito, escorrem-se as sombras veraneantes.
Nada é como dantes.
Os encimados claustros sem caminho.
Vais longe, oh peregrino?
A loucura pratica-se na paciência, a certeza de uma polaridade que se esconde sob um capitel,
as valetas valetam gente
a multidão sobre o demente,
teremos em nós ainda uma divindade que se sente?
Quis-me Deus homem e não fraga,
e que faça eu, oh eterno,
se me ausculto no enrugado granito que te pariu
e te afianço pelos reflexos
onde ninguém te viu?

2017-04-02

O sorriso alimenta-se a si mesmo

“O sorriso alimenta-se a si mesmo”, ao domingo, na Bird Magazine.

Gosto de ser surpreendido quando a surpresa se esgueira e me levanta a pálpebra da atenção trazendo o que muito bem entende, pensando que me vai fazer sorrir. 
Gosto de ser surpreendido com boa música, com conteúdo, bem longe do que querem que ouça. 
Só assim é possível alcançar alguma lucidez e calma. 
Chamemos-lhe idade, crise, inconsistência, mas cansa, estou cansado, as pessoas dizem-se cansadas. 
Ainda procuramos no cimo do caminho de terra, com a bola debaixo do braço ou a boneca presa ao peito, a chegada de amigos para jogarem e brincarem connosco.
Agora, no final da rua, está apenas uma bicicleta e eu ainda espero, um dia, pelas gargalhadas e travessuras, por tempos em que nascia um sorriso a cada vento, um abraço a cada golo.
Crescemos, sei-o, levo 41 voltas ao Sol e todos os dias me lembro que cresço, no entanto, a cada vez que olho para a bicicleta pergunto-me se crescemos nas direcções correctas, se vale a pena a maior parte deixar de lado a inocência, o sorriso, a confiança e a garantia de um "juro!"
Antes, como agora, comovo-me pela simplicidade, pelo olhar de júbilo aquando de uma vitória, pela forma mais inusitada de uma nuvem, pelo sorriso de uma cumplicidade. 
Embora todo o mediatismo e as redes sociais façam parecer o contrário, caminhamos todos em direcções diferentes, indiferentes ao que fazer, mandados por uma sociedade que, ao longo de gerações, tem conseguido que todos, quase invariavelmente, sejam aquilo que se espera deles.
Vale a pena ser mais, Mais. Como o grupo de amigos, um verão azul, o vento na cara e todos, sem excepção, a assobiar, por estradas diferentes com um destino único, nós mesmos.
Bastaria sermos amigos de nós próprios, sem necessidade de hashtags, no sossego ameno das nuvens que se atropelam na pressa de saírem da frente do Sol. No entanto vivemos ao sabor do vento, não do que sopra, mas do que nos sopram, como se fossemos pequenos barcos de papel, frágeis, nas mãos de gigantes que, ajoelhados no chão, sopram-nos ao sabor das suas mais asquerosas intenções. 
Crescei e multiplicai-vos rasurado sobre o crescei e amai-vos.
Nós, à deriva, derivando, vamos de vela levantada para onde nos dizem para ir. 
E quando a diversão termina ou o papel está já encardido, espetam um dedo indiferentes a quem por lá navega, com um sorriso cínico no rosto e ficam jocosamente a observar afundar-se um barco.
A liberdade nunca teria que ser conquistada, nasce connosco ainda antes de sermos corpo. 
Como o sorriso. 
E o sorriso é tudo o que basta para aquecer uma noite ou florir um mundo. 
Gratuito, sem depender do que temos, o sorriso alimenta-se a si mesmo e ganha vida, saltando de rosto em rosto, até, cansado, mas feliz, se deixar cair nos braços da amizade e ali ficar enquanto houver quem o escreva.
Era hoje, o dia, em que caminharia por todas as costas até perder de vista os meus passos para passar a ser areia, lavada, levada, pelas ondas do mar e, aí, ser água em todas as costas e descobrir que de terra e água todos temos um pouco, mesmo quem nunca viu o mar.
E o mar, que me tem, sabe-me a mar.

2017-03-26

Que me lembre, sempre, eu, de ser pobre,
adormecer desnudado de mim,
de não distinguir ouro de cobre,
mundano
contra o vil, espartano,
cair por olhar as estrelas
e seguir adiante, ainda que ignorante
do brilho soçobrante das velas,
no meu destino pelo infinito, 
errante.

Livros do que somos

Crónica de domingo, na Bird Magazine.

Faço-me de conta, sentado, banco de madeira, jardim, chuva, guarda-chuva, caderno, caneta, gotejar, pássaros, árvores, livro.
Roubo à vida todos os episódios dos filmes com que me cruzo.
Mais do que um guião, as pessoas, suas expressões, sorrisos, choros, conversas e silêncio são a sua própria legenda.
Eu (coitadito, diz a cigarra), apenas queria ser espécie de personagem, talvez por isso me encontre enfiado no meio de páginas amarelecidas de livros antigos, saído, talvez fugido, de histórias onde moram pessoas, gentes embebidas em fumo e que me acompanham onde quer que a imaginação me queira levar.
Cada narrativa uma vida, provavelmente por isso não me saiam dos dedos histórias, apenas palavras solitárias, casulos de uns quaisquer sentimentos que, acredito, raiam o toque que se quer do amor, Amor.
O Inverno acabou de sair , mas ainda me traz no frio o refúgio escrito na lombada do livro que me olha.
Que pena não me sobejar ambição quanta me brota em desejo de ser apenas o corpo onde repousa uma mão.
Amanhã nascerá dia, luta uns dirão, o corropio de correr atrás de uma falsidade e descansar, talvez cair, quando já o Sol se cansou de esperar por nós e ordena à Lua que nos venha deitar os olhos enquanto descansa.
Mais umas quantas palavras e tenho já o meu abrigo completo.
O vento passa já ao largo, assobiando nas esquinas daquilo que não encontra, um pouco mais e até a chuva se limita a deixar pingar o som das águas no telhado.
Poucas letras mais.
Faço a última fiada com aquilo que sonharei, sobrará espaço para o fumo sair e o lume, esse, que aquece, apenas crepitará já quando de olhos fechados, e talvez molhados, um dos personagens que me vestem de humanidade trouxer um braçado de sonhos em forma de lenha e perguntar:
- Consegues ouvir o quadro com as paisagens que te chamam?
Mas eu sou surdo também, mudo, mudo de sentido e de posição, porque o tempo não se intimida (nem eu).
O bater do relógio sabe forjar o tempo sem fogo.
É trôpego o nascer do dia, sem cansaço que o adormeça, diverte-se a pintar, minuto a minuto, cor a cor, o horizonte.
O que te chama, entre molduras, da chama ao café, do monte ao livro?

2017-03-23

Sorrisos grátis

In Correio do Porto.

Sentir e ver momentos de carinho despojado é raro, talvez por não estar com os olhos sempre sintonizados na frequência certa ou, simplesmente, porque nem sempre eles saltam à vista.
Estou na fila para a caixa da Staples (Constituição), na caixa três meninas, uma funcionária e duas pré-funcionárias (estagiárias).
A funcionária mais velha explica às duas meninas o que devem fazer, como fazer, aponta todos os detalhes, creio que alguns detalhes nem ela se lembrava.
Ensina com um carinho e sorriso na face, com uma sinceridade que desmancha o egocentrismo, uma autenticidade despojada de quem dá de si, para que outros sejam mais do que ela mesma.
Sem medo de se ver ultrapassada.
Parece-me tão raro.
Na vida e na escola.
Quantos de nós ensinamos de facto tudo o que sabemos a outros, sem medo que nos ultrapassem?
Ser professor, de escola e de vida, deve ser isto mesmo.
Sermos degrau para mais altos voos.
Paguei.
As estagiárias, atentas a todos os procedimentos, nem reparam que a monitora escreve incorrectamente o nome da empresa na factura, mas que interessa este pormenor?
No meio disto tudo, recebo as duas sacas e a resma de papel e levo comigo três sorrisos.
Sim, os sorrisos foram grátis.


2017-03-19

Pai

Crónica, na Bird Magazine, a respeito deste 19 de Março.

Aperto as mãos e faço força para que os braços não me escorreguem. 

Encosto a cara ao blusão velho, cujo cheiro consigo distinguir na memória e fecho os olhos. O barulho da mota soluça pela noite, tenho uma lágrima presa pelo frio e o sorriso congelado na felicidade de imaginar, ainda hoje, a mota negra a ribombar por uma estrada imaginária em direção ao céu.

Nada há que prenda mais à vida do que as mãos calosas de um pai, o cheiro a barba desfeita, o pegar no pincel às escondidas e imitar o gesto paternal, afagar a face barbeada e olhar, de baixo para cima, a imensidão de um ser que, saberemos depois, imitamos os gestos mesmo quando, muito mais tarde, nos confundem como irmãos. O tempo encarrega-se de nos parir para a vida, vamos subindo os dias como que se fossem ainda aqueles muros de pedras mal amanhadas e musgosas, cuja integridade se dilui um pouco como a espuma da barba quando a água se esvai pelo lavatório. 

“Ali ao fundo, vês?” Pergunto-te como se estivesses ali mesmo ao meu lado. Não o estás da mesma forma que os outros transeuntes, mas para mim é como se estivesses, ali e em todo o lado, porque me habituei a ver esta irrealidade que nos tenta içar ao infinito como se pelos teus olhos vislumbrasse e, mesmo assim, como os pequenos presentes de Natal ou os sacos de amêndoas de chocolate que escondias nas mangas do sobretudo, todo o insondável mistério da vida se augura como uma longa, por vezes lenta, caminhada de descoberta das nossas próprias mãos, das nossas próprias mães, dos nossos próprios pais. Sei bem a que sais, nas cãs e no silêncio em que pronuncias todas as milhares de páginas que leste e eu, filho, que nem sei como entrar nesta coisa a que chamam vida, ainda tímido sou a tarde de sábado que te convida: “Como é, vamos ao café?”

“Ali ao fundo, vês?” Pergunto de novo. Há um pai com os pés na água fria do mar, um sorriso que oscila na maré deste sábado de manhã, uma criança, talvez eu, que experimenta a areia fina cujo tempo depositou com carinho e caminha, não com medo, talvez curiosidade de sentir entre os dedos dos pés a facilidade com que foge de nós o momento em que juntos, pela cumplicidade, parecemos sós.

Sabes o quão estreita parece a vida, mas é por isso mesmo que, no crepitar sôfrego da vela sobre o pavio onde ouvíamos as noites sem electricidade, me faço mais homem. 

De eterno temo-lo a Ele e d’Ele, os olhos, os teus, são a porta de entrada para a recordação do que serei quando a vida me vier trazer mais Vida e, como tu, me pegar ao colo e me deixar adormecer porque a noite caiu e a maré terminou. É agora que sei quem sou, os dias ásperos de quem a própria transpiração suou, a terna carícia que surgia quando me fazia adormecido. Este mundo é pequeno demais para sermos pai e filho.

“Sem nada para falar, para tudo te dizer”, escreveste um dia como se todo o conhecimento se resumisse às vezes em que olhamos juntos, ainda hoje, páginas distintas de um só livro. De quanto vazio precisaremos todos para apenas assim sentirmos, sabermos, que é de facto desta forma que temos tudo?

Assiste-me a circular tendência de me ver família de mim mesmo. Sei que no início era o verbo e este, no infinitivo, conjuga-se assim pai: eu amo. Eu, pai, amo-te.

2017-03-12

Não saíram de mim as estrelas

Crónica de domingo, na Bird Magazine.

A campânula treme assustada pelo silêncio que se inclina sobre o vale. 
Aqui, as caminhadas nocturnas são feitas por entre o nevoeiro que se liberta da terra, quente ainda, porque os dias se fazem mais corados, estendidos no esverdeado pasto. 
O sino repenica pelo valado, cansado de subir encostas que só vêm eucaliptal e fogo, quando ao homem interessa tal.
As pessoas acumulam-se na multidão de pares, teremos seis ou sete casais, viúvas de gente feita, feitas de gente que jamais abraçou outra cor além do negro. O padre chegará e falará, do alto do seu catolicismo, muitas das vezes separado dos iniciais capítulos (e por isso mesmo, mais virginais) do evangelho e por entre o medo da vida e o terror da morte, cá se pecamina apenas e só por respirar.
O dia folcloriza-se, jazem ferramentas térreas, suadas de suor alheio, pelejadas de calos, caídas como sulfato aspergido ou como a estrela cadente que vi pousada num cabo eléctrico à espera que alguém a visse e se precipitasse horizonte abaixo, porque o horizonte não é onde a vista alcança, é onde os olhos descansam, a meros metros de distância, para lá do infinito ou, comummente, para cá do olhar, dentro da galáxia de células que dominam o meu olhar. 
Será sempre um caminho, percorrido ou por percorrer, um abraço ou uma bolacha de um velho sortido engalanado como presente de aniversário. 
Vou-me contando pelos dias, sabendo que quando os vivo transformam-se em mim mesmo, dia 12 de mim, de 2017 ou de 1935, um ano bastará para saber que contados os 365 dias e as 6 horas, não sobraram minutos ou segundos por viver, vendo paisagens e horizontes sem nunca se tocarem, como duas mãos de um mesmo corpo que nunca se juntaram, em oração, em exaltação, em carpintarização.
As mãos formam, cada uma a seu estilo, linhas disformes que afluem nos rios em que toco, sem lhes competir saber se o dono do composto químico baseado em carbono sabe, ou não, nadar.
Não saíram de mim as estrelas. 
Pelo contrário. 
Continuam desenhadas no interior de mim mesmo, para que as veja mesmo quando a nebulosidade de um dia cinzento ou a cinzenticidade de pessoas sem dias se sobrepõem ao facto de, para mim, o dia ser o momento em que procuro a sombra e a percorro, da cabeça aos pés, para me ver nascer da crepuscilidade ao desnivelado mirar trepidado pelo percurso altibaixado que faz vibrar cada letra que me compõe.
Há dias em que me vejo acordar ainda antes de abrir os olhos, acomodo-me a este invólucro e levanto-me como se o dia existisse mesmo, palpável, como um copo entre dedos, um corpo entre braços, para depois me ver adormecer, ainda antes de fechar os olhos, levantar-me e olhar para trás, para o milagre quântico que jaz apaziguado com o lençol e Eu continuo, de noite, ao encontro do verdadeiro Sol.

2017-03-10

Fascínios

Fascínios, no Correio do Porto.

Por vezes viver é isto mesmo, com letra pequena, perdido nos ses da vida, assim mesmo, com letra pequena, para me descobrir, sempre, com letra grande, sem me fazer escrever, porque também não sei viver muito bem.

Há algo de mágico que me fascina, sempre, as côdeas duras, o resto dos cereais no fundo do saco de pano que foi útero de pão que me alimentou, um casal de idosos que aguarda no separador central de uma avenida um carro que lhes dê passagem (e a passadeira a dez metros), o levantar do chapéu em saudação, o avental azul-escuro com um bolso central de alguém que traz um “puxo” de cabelo grisalho, uma cara vermelha que exibe o conteúdo de um saco plástico, um par de botas novas, marca feirex como usualmente ouço dizer em tom trocista, um puto que transporta um carro de bombeiros, de plástico, como há muito não via.

Serei feliz apenas com o meu olhar no fundo de uma chávena de cevada, quente, em que me vejo rodopiar no sentido dos ponteiros do relógio, envolto em mim e na espuma.

Serei feliz apenas com os olhares que encontro na vida e me recordam de mim.

Olhares fundos que procuram e encontram, nas pessoas e nos mundos, nas paisagens e nos encantos que as letras me trazem.

Não sei ser mais nada, além do que sou, e isto emociona-me.



2017-03-05

Olhares

Crónica de domingo, na Bird Magazine.

Vou redireccionando o sono para regiões recônditas do meu ser, mas onde quer que vá acabo por me encontrar. Amanhã suceder-se-á a este momento e lá me encontrarei, não sei com que estado de espírito, mas estarei. Fico a percorrer caminhos que trilhei apenas na mente, não são palpáveis, mas saboreiam-se, como o sabor de uma guloseima que cobiçámos, embora hoje em dia a oferta seja tanta, que os nossos gostos são moldados pelo que nos chega aos sentidos e não ao contrário. E por ser tanta a oferta e tão inusitado o gesto de escolher, que me retenho na recordação de um dia, ou noite, como outro ou outra qualquer, num corredor igual a tantos outros, que pena pecarem pelo mesmo as grandes superfícies. 
Seriam quase 22 horas, hora de fecho ou próximo, percorro sem olhar as prateleiras das guloseimas com um misto de saudade pelos tempos em que algo doce era um rebuçado da tosse ou uma bomboca, quando muito um pacote de bolachas alfa ou, o top dos tops, um gelado.
Fico no final do corredor, rodeado de delícias, quando vejo um adulto, mais velho que eu, com um pacote de gomas na mão e a olhar para os restantes pacotes, com imensas variedades de sabores, dezenas de cores cuidadosamente seleccionadas para atrair os pobres insectos em que nos tornamos, quando não moscas atraídos pelos excrementos que nos tentam impingir. 
Chama-me a atenção para o rosto do rapaz (e o aspecto singelo e puro que possuem aqueles que a sociedade cataloga de deficientes), o penteado, as calças de ganga desbotadas e curtas, as meias brancas e as sapatilhas uns números acima do que certamente calça. 
O pacote de gomas na mão, o olhar nas outras, a indecisão, a certeza de um sabor conhecido pela aventura de um pacote mais colorido e com múltiplos sabores. Eu, disfarçando, demorando mais tempo que o necessário em torno de umas bolachas que não tenciono comprar. 
Olhou para mim, cruzou o olhar comigo, apercebeu-se que estaria a admirar a cena e, num movimento rápido, trocou o pacote por outro, não sem antes baixar a cabeça e me olhar, pela última vez, com uma expressão que se assemelhou a mescla de vergonha com tristeza. 
No final, enquanto relembrava esta imagem, vá-se lá saber porquê, surgiam-me lágrimas nos olhos, um misto de alegria e tristeza, um rememorar de momentos em que eu, talvez, em frente a uma prateleira com duas ou três sacas de rebuçados, decidia pela que mais se adequava à minha carteira, consciente que, tal como na vida, alguns doces estão caros de mais para o que desejamos, mas no final, nenhum dos desejados serviria para a nossa fome de Ser.
São estes olhares que me mantêm vivo.
Sempre os olhares.

2017-02-26

Eu só sei ser calado

Crónica na Bird Magazine, em 26/02/2017.

Percorri as prosas rimadas que tinha esculpido. Há um sentimento de partilha comigo quando leio do que me escreveram as mãos, sinto um pouco de orgulho, havia ali uma sílaba que me fez sorrir, dizia-me: “Olha, era isto que estava a sentir”.
O vento bate na porta da igreja, encosto-me por instinto e por escassez de lugar nas últimas filas que ladeiam o corredor, lousado, irregular, que guia ao altar. Há a distância que se quer do sagrado. Sequer ousasse sacralizado.
Bate leve, levemente. Eu não sou, será gente? Era gente sim, que se escorre de frio e fecha o guarda-chuva no silêncio possível, deixando-o encostado a espremer-se de água caída e a dormitar orgulhoso de vareta curvado. Tudo na vida faz sentido, até o silêncio que trago comigo, arado.
Deu-se início à cerimónia, a natureza conspira contra o solene acto de mnemonizar grafias antigas que outros urdiram em sacralizar, o barulho da porta a bater nas minhas costas, o desequilíbrio e o bater de ambos, porta e eu na ladeira granítica. O olhar ríspido, altivo, inocente e sem sacralidade sobre os óculos para mim faz-me confundir com a porta. Encosto-me e finco os pés. Se alguém bater, por leve que seja, não entrará hoje aqui, na igreja.
Tu estás encostado à esquerda de toda a gente, quando nos disseram que estarias à direita do pai. Sei o que isso é, também eu ia à sua direita, imitando os gestos do volante com um velho livro do Lucky Luke. 
Lembraste quando me disseste onde ias estar dali a uns anos? Rimo-nos. E choramos. De quantos sois precisaria o olhar humano para sentir a imaginação sequer do ameno calor daquilo que nem a realidade te soube contar? Pelo teu acordar valeu a pena adormecer, de vela oscilando de sono no pavio retorcido, esmorecido.
Há uma cacofonia que teimo em não escutar. A pedra onde assentaste, sabia-lo, iria trazer a aridez plutónica do que arrefeceu na profundidade de cada um que se seguiu. 
Uns que entram e saem, admirados por me verem ali, de porta fechado, eu no futuro, eles no passado.
Confundem-me com a porta, saem todos no remoinho de gente no inverno, folhas que um vento levou porque rezaram, mas ninguém de ti se lembrou. 
As luzes desligam-me, fecham-me como porta, o ferrolho corre preguiçoso no áspero ferro. 
Há agora espaço de manobra, bancos de sobra, coincido-me com o andor e fecho os olhos quase como quem se acorda. Em espaços de madeira onde se ajoelham as saliências de quem se fez terra entre leira, também eu soçobro e deixo cair baixinho duas gotas de saudade. 
Tu surges. Ris-te. Eu choro, envergonhado, não lacrimejado. 
Há meia dúzia de palavras que nunca soube proferir, o ruído do ferro que se rangeu quando os pregavam, nós escondidos, eu com medo e tu senhor, em segredo, sabias já, sei-o agora, do bafiento agreste inodoro arrastar de sotainas por quem te chama em sussurro, para que não venhas. 
O vento bate com mais força. Eu nem sei porque me demoro, nem por que acordo, mas tu alças o braço sobre o meu corpo carregado de ignorância e desambição. 
“Eu só sei ser calado”, desabafo em torpor, mas dizes-me que “isso é o amor”. 
Eu chamo-lhe silêncio e tu, sorrindo: “Sim, por acaso me viste gritar?”

2017-02-19

O caminho não é senão o que fazemos imóveis

Crónica, na Bird Magazine.

Nada atemoriza tanto, nem cativa de forma igual face a tudo o que encerra, que uma folha branca num caderno onde sonhei depositar sonhos.
Não me parece existirem montes suficientes onde eu possa desfrutar, na mão cheia de dias de vida que me restem, de um pôr-do-Sol empoleirado numa rocha.
O colorido Sol que se aninha por trás de uma colina adivinha um tolde cinzento salpicado por cinzas pequenas, trazidas pelo vento, para que ao longe todos se apercebam da tragédia que são estas labaredas. Talvez seja um desesperado acto de consciencialização, as árvores, flores, vegetação e talvez até animais, que se deixam consumir em carvão e farrapos cinzentos, a cinza que se respira, que se aloja no nosso corpo e se transforma ou reforma dentro de nós, encostadas ao nosso âmago, aconchegando-se àquilo que nem nos lembramos de possuir, um coração, para que possam sobreviver mais um pouco.
Acredito que sejam estas cinzas que choram quando o meu corpo as leva, sem saber previamente, ao local onde elas próprias se cinzelaram. Não queimaram ali, mas a cinza (ao contrário do ser humano, sente e por isso sabe-o sem dar lugar a incertezas) vê no negrume do queimado as suas próprias mãos, ramos e sonhos. Uma árvore é-o aqui como é num outro monte, não há duas árvores, nem tão pouco uma floresta, uma árvore é a mesma árvore onde quer que esteja e não será, parece-me, por nós não o sabermos ou acreditarmos, que ela deixará de o ser e de sentir sua a perda de outras, assim o pensámos, árvores. Temos tanto a aprender com elas…
Vamos aprendendo o que outros sabem, sem grande margem para aprendermos o que nós próprios nos ensinamos, parece-me que corroborar algo escrito se torna o caminho mais fácil quando o escrito está já institucionalizado.
Percorremos as estradas que outros, a seu tempo, traçaram e, convenhamos, bem o fizeram, mas não será este o tempo de nos cansarmos dos mesmos caminhos e dar azo a que novos trilhos surjam, aqui e ali, primeiro como indeléveis percursos de vegetação calcada, gravilha depositada, serpentados atalhos daqui até ali, para darem origem a alamedas que, depois de abertas, surgem tão óbvias que nos fazem indagar, como raio é que não vi isto antes?
Até aqui a vegetação, as árvores, nos prestam o seu legado ao serem elas mesmas a dizer, vem por aqui, olha como me prostro, para que vejas este caminho. Serão elas, brevemente, a dizerem, perguntarem, não estás farto desse caminho? E a indicarem, a quem as quiser ler, que não sobram espaço nos livros para os mesmos caminhos, que há necessidade de mais, ou menos, e à medida que nos libertamos do peso daquilo que conhecemos vamos subindo, descendo, em espiral até ao momento em que este corpo será forro para o caminho que as árvores percorrerão e nós perderemos as dezenas de gramas que alguém pensou serem o peso da alma, mas a alma não tem peso ou massa. Estas dezenas de gramas são o correspondente às cinzas das árvores que nos fizeram caminho e estavam, há muito, alojadas no nosso coração.
Dia virá, como o vento, como as pessoas que passam neste trilho, em que saberemos o caminho para casa e as árvores não tenham a necessidade e quase obrigação, como espécie mais inteligente, de se sacrificarem e em cinza subirem connosco para que aprendamos: o caminho não é senão o que fazemos imóveis.