2017-02-24

Eram as palavras como tenazes folhas de oliveira, as sombras lânguidas paredes que circunscreviam os montes onde o teu sol, como luz que eras, se permitia descolorir para que todos os outros, como nós, cegos, orassem sem saberem versicular. 
Pergunto-me se ponderavas tudo caminhar para isto.
Seria, Cristo?

2017-02-19

O caminho não é senão o que fazemos imóveis

Crónica, na Bird Magazine.

Nada atemoriza tanto, nem cativa de forma igual face a tudo o que encerra, que uma folha branca num caderno onde sonhei depositar sonhos.
Não me parece existirem montes suficientes onde eu possa desfrutar, na mão cheia de dias de vida que me restem, de um pôr-do-Sol empoleirado numa rocha.
O colorido Sol que se aninha por trás de uma colina adivinha um tolde cinzento salpicado por cinzas pequenas, trazidas pelo vento, para que ao longe todos se apercebam da tragédia que são estas labaredas. Talvez seja um desesperado acto de consciencialização, as árvores, flores, vegetação e talvez até animais, que se deixam consumir em carvão e farrapos cinzentos, a cinza que se respira, que se aloja no nosso corpo e se transforma ou reforma dentro de nós, encostadas ao nosso âmago, aconchegando-se àquilo que nem nos lembramos de possuir, um coração, para que possam sobreviver mais um pouco.
Acredito que sejam estas cinzas que choram quando o meu corpo as leva, sem saber previamente, ao local onde elas próprias se cinzelaram. Não queimaram ali, mas a cinza (ao contrário do ser humano, sente e por isso sabe-o sem dar lugar a incertezas) vê no negrume do queimado as suas próprias mãos, ramos e sonhos. Uma árvore é-o aqui como é num outro monte, não há duas árvores, nem tão pouco uma floresta, uma árvore é a mesma árvore onde quer que esteja e não será, parece-me, por nós não o sabermos ou acreditarmos, que ela deixará de o ser e de sentir sua a perda de outras, assim o pensámos, árvores. Temos tanto a aprender com elas…
Vamos aprendendo o que outros sabem, sem grande margem para aprendermos o que nós próprios nos ensinamos, parece-me que corroborar algo escrito se torna o caminho mais fácil quando o escrito está já institucionalizado.
Percorremos as estradas que outros, a seu tempo, traçaram e, convenhamos, bem o fizeram, mas não será este o tempo de nos cansarmos dos mesmos caminhos e dar azo a que novos trilhos surjam, aqui e ali, primeiro como indeléveis percursos de vegetação calcada, gravilha depositada, serpentados atalhos daqui até ali, para darem origem a alamedas que, depois de abertas, surgem tão óbvias que nos fazem indagar, como raio é que não vi isto antes?
Até aqui a vegetação, as árvores, nos prestam o seu legado ao serem elas mesmas a dizer, vem por aqui, olha como me prostro, para que vejas este caminho. Serão elas, brevemente, a dizerem, perguntarem, não estás farto desse caminho? E a indicarem, a quem as quiser ler, que não sobram espaço nos livros para os mesmos caminhos, que há necessidade de mais, ou menos, e à medida que nos libertamos do peso daquilo que conhecemos vamos subindo, descendo, em espiral até ao momento em que este corpo será forro para o caminho que as árvores percorrerão e nós perderemos as dezenas de gramas que alguém pensou serem o peso da alma, mas a alma não tem peso ou massa. Estas dezenas de gramas são o correspondente às cinzas das árvores que nos fizeram caminho e estavam, há muito, alojadas no nosso coração.
Dia virá, como o vento, como as pessoas que passam neste trilho, em que saberemos o caminho para casa e as árvores não tenham a necessidade e quase obrigação, como espécie mais inteligente, de se sacrificarem e em cinza subirem connosco para que aprendamos: o caminho não é senão o que fazemos imóveis.

2017-02-12

Quando nada se vê é aí que tudo se tem

in Bird Magazine.

Não espero encontrar ninguém, no entanto, quando acabo de me desfazer da curva apertada à esquerda, enfrentando o calor, eu, a subida, o carro, um bordão alto e retorcido, negro como a ambição, apoiava-se a um homem hirto, senhor da sua idade, com uma boina sem qualquer padrão, contrastando com a indumentária quotidiana de quem se veste para proteger o corpo. A figura parece-me saída de uma encenação, acrescentando (e daí a riqueza) a pobreza de nada ter além da pose, o bordão, a mão sobre o nódulo da madeira e o queixo sobre a mão, deixando as costas da mão direita, como pude ver depois, com o picotado profundo da marca da barba rasteira como urzes e persistente como o amor.
Soluço, eu e o carro, subimos o alcatrão negro imaculado, não fosse esta estrada caminho para terras de ninguém, aqui nada deve passar além do que vai para além, entendam-se os defuntos, no último cortejo cujo negro cerrado contrasta com o colorido disperso de romarias em honra de santa qualquer coisa que Deus lhe valeu, a todos, menos eu. 
Em terras de cegos, todos vêm o que necessitam e por aqui, quando passo pelo homem que facilmente se confundiria com espantalho, abrando e lanço um educado boa tarde. A natureza traz-me silêncio e parcas narrativas à nascença, mas nunca falta de desenvoltura no bom “o que quer que seja”. Uma ligeira curva à direita e um pequeno largo antes do portão fechado à fé e aos ladrões. Ajeito o carro e o olhar para ficar voltado para o vale e fico ali, a ver o verde que se estendeu retalhado aqui e acolá por um pouco de castanho, pintalgado de branco, negro e castanho da vaquicidade que pasta. Ouço o cascalho ranger, uns passos. 
- O senhor vem por causa do terreno?
- Não, não venho, vim só ver as vistas.
- Olhe que vem ao melhor. Quem comprar ali a cavada não vai saber aproveitar.
Ficamos ali. Eu a fazer o que sei de melhor, calado, o vidro aberto, o calor abafado, o suor nos braços. Ele a olhar para o mesmo horizonte que eu, o corpo abafado ao calor habituado, o bordão a completar esta santíssima trindade.
- Se não chegam, vou eu, tenho ali uma estufa dos tempos da minha mulher, todos os anos dá morangos e agora desde que ela partiu, dá-os fora de época. Sabe o que é saudade? Oh pá, isto enfia-se pela gente e dá às vezes um nó tão grande que se ainda tivesse forças, mandava-me a pé até ao Ermelo e arremessava-me de lá de cima só para ir ter com ela. Mas, olhe, depois vem a consciência sabe, a consciência é coisa de Deus, a gente matuta nas coisas e pensa que se o tempo não nos colheu ainda é porque não é tempo de colhedura. Não acha? - não tenho tempo para pensar em nada. - E depois, quem ia tratar dos morangos fora de época? Já viu? Vêm os inocentes a este mundo, ainda lhes pus o prástico por cima e em dias de vento ainda calco com um pau grosso. Olhe, vê este? - é o bordão onde se apoia – Estava por lá hoje, mas como estou meio cansado do calor e num há vento, trouxe-o comigo. – O bordão impassível parece piscar-me o olho – Se eu lhes faltar, coitados dos morangos, nascem e morrem sem conhecerem ninguém.
O silêncio cai novamente e instala-se entre nós mais uns minutos, a olhar também para o horizonte.
- Olhe, aquilo do Ermelo, é a gente a falar sabe, eu não faria isso. Um homem se não fala não vive e se num manda isto para fora, ainda arrebenta.
Olhei-o, cruzamos o olhar por momentos e antes de eu me despedir apertando a minha mão esquerda na sua bolbosa mão, sem entender que a tarde quente me tinha feito mais homem, ainda rematou.
- A gente habitua-se a estar sozinho, mas nunca está sozinho, tem amor de Deus, sabe o que isso é? Foi ela quem mo disse. Amor de Deus, é como dizia o Cristo quando ninguém o escrevia, quando nada se vê é aí que tudo se tem.

2017-02-11

Moradas

in Correio do Porto.

Percorro atalhos com a visão enquanto permaneço no caminho usual. Não há plano, apenas uma curva a seguir à outra. Tenho tempo e distração suficiente para ver um pequeno triângulo de terra tratado, lavrado, plantado e florido, tudo num só retalho. Uma miragem real num solitário canto entre eucaliptos, pedras e matagal abandonado. Dou por mim em pé, descalço porque a situação assim o exige e também porque assim é que em nós entra aquilo que pariu. Olho para uma pequena planta. Tenho gosto a mais e conhecimento a menos. Não lhe sei o nome, não interessa, serviria apenas para a catalogar, assim liberto-me de identificar e dedico-me a desfrutar. Vejo-a crescer lentamente, mas ainda mais rápido do que poderia supor, enquanto passam por mim ascendentemente flores, folhas e suas nervuras, caule. Quase ouço a seiva bruta sugada à terra em forma de água sais minerais, só quando vejo o chão percebo que não era a planta que crescia, mas sim eu que diminuía. Descalço, minúsculo, começo a entrar pela terra até não ser mais eu, mas sim um pequeno torrão de terra, húmus, mineral e seiva. Vou diminuindo estranhamente, mas consciente, mais consciente agora que me sinto toda a terra, água e lava. Ascendo enquanto impludo, como se de mim crescesse algo que só se pode manifestar quando de tão pequeno se faz mais ínfimo. Rapidamente sou partícula, qualquer uma, esqueçamos nomes, que ancorou neste aglomerado, irmão e irmã de todas as outras partículas e não partículas e quando me vejo ser e não ser, com todos os infinitos como sendo meus, pergunto-me: será assim que se sente deus?
Estaciono o carro, olho pelo retrovisor e aguardo ao som de Ragcpickers Dream, passam poucos segundos quando me vejo correr saído da curva, sorridente, até chegar ao carro, entrar como se não existissem barreiras físicas, olhar-me extasiado e dizer-me, com o brilho de um puto que descobre algo inteiramente novo: sabes que descobri? E antes que eu argumentasse com o tempo que perco comigo e o preço do combustível, já eu me dizia: rezam sem o toque do chão nos pés descalços, encomendam milagres e resguardo de problemas seus, sem conhecerem que dentro delas também ele mora, quem? Deus.

2017-02-05

Tempos

in Bird Magazine.

Aquele adensar de cinzento leva-a a meter os imaginários, mas não menos reais, braços para abrir caminho, como quem se separa da multidão e abre espaços para passar, muitas das vezes sem saber para onde, o que é já o melhor dos motivos. 
O céu escurece, as nuvens querem-nos vedar o acesso às estrelas e a lua rompe por segundos o cerco, para olhar para mim muito séria, talvez, como eu, desconhecendo o que se está a passar. Pisca-me o olho, metaforicamente claro, e desaparece lentamente. Primeiro ainda acompanhei a luminosidade, depois vi-a diluir-se nas nuvens, como um sonho que tentamos recordar de manhã ao acordar e o mesmo se vai escondendo para dentro de nós próprios. 

Tenho os sonhos a espreitarem, timidamente, por entre as palhas do ninho. Que céus voar se o ar respirado esvoaça dentro de nós e nos expira de encontro ao mundo? Alguém se aperceberá da prisão com que nos cercam diariamente? Dão-nos o colorido papel de embrulho com o qual nos envolvemos, felizes por ter aquilo que disseram que queríamos, dizem-nos para dizer que assim se diz, assim se embrulha. Vai e ensina, sê um bom produto. Não tardará até nos darem o laço, a bruxuleante fita que ornamentará o pacote fechado onde dizem que te podes exprimir desde que digas o que te disseram para dizer. Um dia quererás chegar ao céu e conseguirás faze-lo, sem te aperceberes que tocas a tampa do teu invólucro e morrerás feliz, com f pequenininho, porque atingiste aquilo que te disseram que é suposto atingir. 
Atingirás algum dia quem és?

A noite está bem instalada, um cão ladra, ninguém responde. 
Acabará por cansar-se e, volta e meia depois, deitar-se-à e vai adormecer, entrando no sonho sem pedir licença e usufruindo da lua que o nevoeiro me roubou. 
Só por hoje, ouço, e embora sinta e saiba que muitas outras noites se seguirão, há algo nesta noite que me diz que a lua está à minha espera nos céus por onde voo quando acordo do lado de lá da minha vida.
Sabes quando desligo a luz e ao som da tímida chuva imagino o grosso cobertor de tiras, a camisola de lã, o resto das brasas a adormecerem, sombras invisíveis no prolongamento da noite pelas paredes. 
Arfas ao meu ouvido enquanto descansas a cabeça no meu ombro, farto de vagabundear em mundo sem árvores nem Outono. 
Desiludido, dizes-te cansado. 
Pergunto-te, porque corres tu tempo?

2017-01-29

Agora, que todo o tempo morreu

in Bird Magazine, em 29/01/2017.

Vou caminhando por entre as palavras, há um labirinto imenso de onde não quero sair, a dimensão onde tridimensionalmente me acometo às letras e as guardo, para mim, apenas, sem saber delas onde pousar lesto o pé e devagar o olhar. 
Cá dentro, na caixa onde se inspira um bater compassado, vou tecendo de olhos no céu um arco de volta perfeita, cabendo na palma das mãos a luz que invoco à gravidade do astro que um dia sonhei brilhar. 
Não há pausas na vida quando ela se senta ao sol, parada, contente, como um punhado de flores que se sabe feliz por não ser gente. 
Floresça a realidade por fruto de imaginação, quando nada há a dizer tudo se escreve pois infla soma e esvai-se psicose no direito a ser-se mesmice. 
Quem nunca pesadelou no que já disse? 
Esqueço-me de vós, mãos, porque vos trago em concha na tentativa de vos encontrar pousadas sobre os meus ombros.
Quantas palavras da nebulosidade condensaram os pensamentos ascensos? 
O Sol permite-se descansar no meu colo e enquanto tomo conta dele, passando-lhe, com cuidado, a mão sobre a cabeça cujos cabelos labaredam no final da manhã, o dia vai madrugando ainda que se faça noite dentro dele, do Sol ou do mim.
Olho o céu que me permite sonhar com dias sob um céu de todas as cores.
Acordo estupefacto e na ironia do despertador, cuja passividade horária me abala, sinto-me mais nuvem e menos cal, onde se abrasem água e terra, mineral e sal, tu e eu.
Da minha janela não vejo nada. 
Sonho com o descerrar da cortina que me permita ver o que sonho. 
Há-de haver a encosta, que a minha alma tanto gosta, e um cantinho de terra onde nascem as sementes que me plantaram. 
Há-de acabar por fim o vítreo do futuro que oscila entre ontem e hoje, para deixar que a tarde desensolarada se permita estender a sombra pelo meu corpo abrigado e vá, pé ante pé, aquecendo-me de dentro para fora.
Fecho-as, mãos, agora, que todo o tempo morreu e vou, caminhando, do silêncio semeado ao canteiro de onde me plantei, quase por acaso, quando por mim mesmo, ingenuamente, sonhei.

2017-01-22

Onde o ribeiro passava

Crónica de domingo na Bird Magazine.

É sob as estrelas que me confesso senhor da criança em mim. Longe dela, alcanço-a sentada a ler num qualquer valado. Lê campos de trigo, pomares e estuda ao pormenor as grainhas das uvas que imprudentemente trinca.
Chego a perguntar-lhe o que lê, mas afasta o livro e o pequeno bloco onde anota os shares e os custos das suas acções preferidas, as boas acções.
Desenha caras, episódios, gentes e momentos que parecem saídos dos tempos de escola, sentimentos, sensações, passos semipassados e alguns empurrões.
Tudo ganha forma de disformidade imaginada, existem poucas letras na beira da estrada, apenas passos a descansar, refúgios, não vá um dia o mundo acabar!
Consigo erguer-me à altura do ombro enquanto dormita embalado por alguma recordação.
Hoje não.
Amanhã talvez.
As palavras que este outro eu redige são as lembranças de criança adulta, poderia eu saber que estas frases mal confeccionadas são na realidade toda a minha, avulsa?
Cada passo imprevisível hoje traçado, estava há muito escrito pela criança que fui e sou.
Ontem não foi passado.
É um presente arrastado, que irá desaguar quando as primeiras chuvadas fizerem desfolhar caoticamente uns organizados trilhos e lembranças, que são minhas estradas no futuro.
Foi-se embora. Caderno em cima do muro.
Terá terminado o som do meu caminhar ou estará apenas a dar-me uma oportunidade para da vida descansar?
De uma passada passo, passivamente, de um momento para outro. Cada calçada sua sombra, cada sombra seu pavimento. Assim me disse ele antes de teimosamente zarpar numa forma de navegar a pé pela ondulação encrespada que rodeia o vau. Avisei-o do mau tempo, de promessa de vento, da noite que não tardaria e do perigo das estrelas geladas em terra fria. Ele sorriu, rejeitou a minha oferta, uma noite no meu coração, disse-me que precisava chegar a mais, assim lhe dita do alto um Adolfo com nome de arbusto ou flor, o mesmo que lhe prometera guarida caso a noite se fizesse ameaça à vida.
E partiu, encontrei-o anos mais tarde, ao dobrar uma folha, na aventura de um conto, pareceu-me novo, destes da montanha. Como invejo a liberdade de ver o mundo pelos olhos verdadeiros, sentar-me na margem de rios, ribeiros, esperando maré, vaza, e escutar o murmúrio do silêncio dizer-me:
sentem falta de ti, lá onde o ribeiro passava.

2017-01-20

Eu e tu, noite.

Crónica no Correio do Porto.

Pouso a saudade no cimento frio. Nestas noites, até de mim rio. Deixo-me a olhar o céu, a claridade do dia a desaparecer, sombras de um sol já a esmaecer, as estrelas começam timidamente a cintilar, parecem mais envergonhadas do que eu, ganham força contra o próprio céu e, de este para oeste, de oeste para este meu mundo, formam as constelações que eu quero. Fazia-me já falta, o deitar no chão, o calor da terra como cama, o frio que se desprende até à madrugada. Eu e tu, noite. Eu e tu.
Sibilantes correntes telúricas impelem-me a içar parte de mim, sou já folha de livro por ler, a esvoaçar, sem já me ter. Saio leve e sem prisão, sem fulgor ou religião, ascendo sem o saber, apenas puxado pelos sorrisos e aromas que mora em cada uma das estrelas. Sem lei, apenas uma, bem sei, gravada num olhar fechado sem cor, Amor.
Olho para trás, já só eu no chão jaz, passo para o lado de lá da noite e espreito por cada uma das estrelas para este pequeno mundo (que percorro feliz e vagabundo), quão pequenos, insignificantes, raros e preciosos, quão sobejamente subjugados por meia dúzia de perniciosos. Espreito por outra estrela, e por outra e mais outra! E tantos mundos e galáxias, estrelas e pulsares, tantos sonhos iluminados, tantas mãos para Amares... Rio-me da cadência das estrelas, do rasgar dos céus em sinfonia caótica, tudo tem ritmo próprio e propriedade sinfónica, tudo cintila em reverência, tudo tenho eu, até a presença da tua ausência.
Daqui, nunca as distâncias profundas que separam os quotidianos pareceram tão infames e ínfimas... De página em página folheio-me de regresso, caindo, amparado pelas invisíveis mãos de outros nomes já não proferidos, até por fim o calor do chão já frio me fazer sentir carne, ínfimo, infame.
Abro os olhos.
Sou maior que os meus sonhos.
Consagro-me ao silêncio, não fosse esta timidez de existir, dir-te-ia que tens bem perto no céu, uma estrela por ti a sorrir.

2017-01-17

Tu que me ouves o silêncio,
entrando
a noite sem cais,
um mar inteiro náufrago
pergunta à espuma baça da maré
onde vais?
Nem me sei escrito
eu que confundo o silêncio com a montanha
grito
onde me cais?
E soçobro à singularidade matinal
a vida na manhã sacia
o arado
o sonho
o Deus
dá-me vontade de outros tantos eus,
no olhado semeado
a inocência infantil aspira
reflexo apaixonado que partira
ausculta
em que nota amais?

2017-01-15

Caminhos

Crónica na Bird Magazine, 15/01/2017

Chego a um caminho que percorri de sacola às costas durante os anos da escola primária (saudades e reconhecimento à professora Eugénia e à Srª Rosalina, cujo sorriso ainda me cativa). Os campos tímidos e nus. Resta a presa de água, o rio e um pescador. Parece-me ver os marmeleiros do lado de lá do rio, os mesmos aos quais puxávamos os ramos na ânsia de apanhar algum marmelo. O caminho está mais largo, ainda de terra batida, rasgado para dar passagem a qualquer carro que deseje levar o seu dono pelo meu caminho da escola.
O sol cobre os campos saciados e convida a parar um pouco. Pergunto-me se a mina ainda está no mesmo sítio, se ainda tem rãs e quase me convenço a ir lá, tirar as ervas, afugentar as rãs e beber. É engraçado, não é? Não há nenhum caminho por onde tenhamos passado que não possua ainda os nossos passos. Tenho vontade de ficar sentado ali, a ver-me passar para a escola, neste caminho onde o passado e o presente se cruza, onde os meus olhos ficam rasos de água, apenas porque sou feliz.
Grande parte do caminho está tapado, o mato, silvas, eucaliptos e fetos cobrem o que antes era um carreiro de terra e onde se via passar uma ou outra raposa. Pergunto-me se a descida tem ainda a pedra em forma de V, onde eu passava rapidamente com a bicicleta e os pedais alinhados na horizontal, para que não batessem nas faces da pedra. As vezes que falhei e caí!
Poderia jurar que ainda por lá andava, eu e os meus amigos, de bicicleta ou a correr, com a mochila a empurrar-nos perigosamente na descida pensando sermos os "Heróis da esquadrilha", o "Justiceiro" ou "Os soldados da fortuna". Existe ainda o aqueduto de pedras rudes e frias, que levava a água de uns campos para outros e onde bebíamos água ou nos aventurávamos, qual "MacGyver", a saltar de pedra em pedra, desejando não meter um pé na água. Ou os dois.
Um muro com menos uma pedra que o habitual deixa verter um fio de água limpa. A sede convida-me, mas a prudência social da ténue linha da sanidade mental impede que eu pare o carro e beba.
Um marco coberto de musgo. Se tivesse o meu bloco sentar-me-ia ali. Depois começava a olhar para as folhas pautadas e brancas, convidando-as a mirarem a paisagem, para que pudessem ver o que vejo e não apenas umas letras aleatórias, para que depois de fechado o caderno conversassem entre elas, narrassem e comentassem o que cada uma delas viu, à sua maneira, as diferentes visões do mesmo horizonte.
Chego ao fim do caminho e com este outro se inicia e novas personagens já lá moram. Eu mesmo, mais velho, e outros, alguns que já nem neste presente estão, observam-me e sorriem.
Creio que também eles vêm o mesmo que eu não vejo.

2017-01-08

Nasceu a constelação

Crónica na Bird Magazine (08/01/2017).

Não havia muito por onde estar, estendia-se o olhar pelo horizonte e onde alcançássemos com a vista era onde poderíamos estar, por isso o que se via era o que existia. 
Ainda que se constasse que se sonhava, tal poderia ser apenas possível em jeitos de profecia, de vozes inacabadas que o tempo ia empurrando para a frente, de gerações em gerações.
O silêncio abalava-se apenas e só quando um badalo, que pendia nos muitos pescoços das pequenas nuvens que pastavam, mais pelo arrepio de frio ou por um ajuste necessário ao melhor conforto do corpo que pelo movimento. De noite todos dormem. Melhor assim, no silêncio, onde o desnível colorido entre o negrume noturno e a paisagem árida tornam possível olhar o céu na complacência ao alcance de quem, pastor, se deixa ver nas tremeluzentes estrelas que não se sabe ainda serem moradas celestes, apenas gigantes desenhos separados por um pequeno gesto de unir pontos, indicador em riste, até a imaginação deixar desenhar nos lábios um sorriso no exacto instante em que a noite nos pega no braço e o acomoda sobre o nosso peito.
Já o teriam avisado, os mais velhos, que no árido terreno onde até as cabras se queixam, balindo, de tão inóspito horizonte, sonhar tinha o caro preço de deixar fugir a sobriedade para terras de onde dificilmente voltariam, mas a juventude, sempre surda a vozes mais experientes, transforma todo e qualquer deserto em local fértil de miragens. Por isso, quando de repente, ainda de noite, se levanta sobressaltado e sobressaltando os demais alertando para o que uma voz lhe tinha dito, pouco crédito lhe atribuíram, deixando-o apenas com as faces que se voltaram para o outro lado da fogueira e os impropérios de quem já não se sonha. 
Levantou-se, cheirou um pouco da geada que caía sobre os penedos já frios e foi, acompanhado pelas fiéis pastoreantes que pareciam saber já da nova, caminhando pé ante casco, até aquele andar se transformar numa espécie de claquear, um ondular ritmado das grandes teias de ferro que percorreriam um dia as planícies, assim o diriam outros que não daquelas paragens, guardiões serenos de outras miragens.
Chegaram. Os animais, sem permissão, entraram, rodearam e aconchegaram-se aos que já lá estavam numa reverência selvagem a quem das profecias em homem se saiu da miragem. Olhou-os nos olhos, baixou a cabeça, deu dois passos encostando o bordão ao cancelo, a natividade eram ainda os três, o pai entre assustado e defensor, a mãe ainda cansada, serena e o terceiro, nas palhas deitado, sossegava da descida ao mundo irreal, aquecido pelo bafejar dos animais, pelo abanar da manjedoura manca que mostrava ainda restos secos de comida animal. 
Colocou-lhe a mão na fronte, afagou o curto cabelo, passou levemente e com cuidado o dedo na fronte trémula e amena. 
Ao mesmo tempo que pousava os lábios nas mãos do bebé, aquele novo pastor velho, o tal que diziam nem ter todas as luas, a seguir a uma lágrima que lhe nasceu dos olhos fechados, sussurrou: Tinha tantas saudades tuas.

2017-01-01

Folhas caídas de um mar

in Correio do Porto.

Não deves ter visto, quando certamente tiveste oportunidade já o que desenhei no céu da noite tinha desaparecido com a luz madrugadora do Sol ainda este vinha a barbear-se pelo monte acima.
Passei a noite de queixo encostado ao corrimão do alpendre, a olhar para o céu, a arrumar as constelações a meu jeito.
Diria que seria escrita, mas as palavras têm uma certa tendência para se aninharem no meu colo e quando as quero usar lançam-me o olhar mortiço e preguiçoso de quem está entre sonos e pede um pouco mais de descanso.
Acredito que hoje, a caminha de casa, quando for a imaginar os caminhos que gostaria de percorrer, surjam perenes e sem demandas se aninhem no banco do passageiro, criando paisagens que conheço apenas de antes de nascer.
Talvez logo, quando o cansaço da noite mal dormida me puxar o calção-pijama, eu sinta que as palavras que me fazem falta sejam o conforto que encontro na ausência piramidal de um futuro onde se falaram vozes que jamais ousei ouvir.
Deixo para o horizonte as imagens de paisagens que serão destino, viagens, sei lá, de quem se augure parir e partir.
Por aqui tudo sobe, sobra, desejo mil de desejar urdir por entre grossos aguaceiros o cubículo onde habita o que sou, sem ser mais que o menos.
É no nada que me cabem as histórias que teimosamente não escrevo, talvez egoísmo, talvez medo. Olho para dentro e procuro as mesmas estrelas que o único céu que conheci me mostrou. Sei lá, nem cá, encontrando aquilo que sou em cada localização onde não me encontro.
E não me expresso, sei-me hipérbole, feliz pela pacificidade encontrada na tua face, onde mais?, de sonhar com as palavras que são ensinadas por quem aprende, de quem se soltam as amaras, no casulo de uma folha em branca porque não se sabe, o papel, ventre imaculado, silêncio, o sagrado.
Talvez me canse, um dia, uma noite, de me ter labirintizado e percorrido com as mãos nas sebes todas as fronteiras entre este lado e as bandas de lá, onde se move o tempo como quem espalha as correntes pelos rios, subindo e descendo a horizontalidade e na verticalidade do sentir se deita cansado, cansada, quem à vida se deixar fazer inocência ancorada.
Olho o tempo, perdi segundos a pensar sobre ele, olho para mim e vejo-me navegado num rio que se vai esvaindo sem que necessite de o naufragar.
Afinal, estas águas são folhas caídas de um mar.



2016-12-28

Fito-o mais uma vez, mestre Torga, a lombada amarelada de um livro branco sujo, como a neve que se derrete cansada de ser alva. 
Não permito que o sono me tombe sem, antes, talhar na retina com a mesma paciência do meu velho Garrinchas o caminho de volta para a terra. 
A cacofonia da ausência de verde vai-se desfazendo à medida que ondulo montes abaixo até uma encosta de simplicidade me permitir escutar o bater do bordão nas pedras gastas por serem caminho de ninguém. 
Quando este mundo me começa a fechar os olhos, faço-lhe a vontade, estico o braço ao frio o essencial apenas para alcançar o interruptor e, sereno, adormeço corpo e tosse na certeza de estar quase a acordar.

2016-12-23

Feliz Natal

No regaço ameno da família, onde se soltam as máscaras, que te brilhe o interior adormecido e te sintas, também, deus menino.
Recebe o calor da simplicidade nos braços abertos ao que és, escuta o silêncio
que se apodera desta noite em bicos de pés.
E se o universo te escuta e na voz encontras solução, saibas que em todo o estranho habita um irmão.
Que te brinde e aconchegue o meu pedido, desembrulhado, para que a saúde te vista, a paz seja a tua conquista e embora humilde, atiro os desejos ao ar para que se precipitem em ti, mesmo sem nevar.
Feliz Natal.
Miguel

2016-12-18

Está a chegar o verbo

in Bird Magazine em 18/12/2016

Não sei como medir as palavras que vejo e, depois, escrevo.
A distância que me separa de agora à letra é preenchida por inúmeros pensamentos, tantos que quando penso no pensamento sobre eles já eu sou rememoração.
Será possível eu ser uma parte, um resultado retornado a meio da recursividade que é uma vida entre vidas?
Já deitei o Universo, aconcheguei-lhe o colorido manto de estrelas enquanto ele me pedia uma história. Sem me lembrar de nenhuma, contei-lhe a vida de uma estrela que tentou brilhar por duas vezes:
- Duas vezes? - perguntou-me.
Eu lá lhe expliquei, com modos de eternidade, que era uma metáfora para algo que existiu sem ter acontecido.
Não me pareceu convencido, não o censuro, é ainda um universo em expansão, uma criança.
Entre perguntas e respostas, saltando recursos expressivos, cansou-se e antes de fechar os olhos de nebulosas, perguntou-me já meio adormecido:
- Essa história é sobre amor?
Disse-lhe que sim, era o Amor.
Bastou-lhe a explicação, virou a cara, sorriu e adormeceu de imediato.
Fica ligada uma pequena luz de presença, projecta no tecto flocos de neve multicolores. Foi ele que os escolheu, disse que só sabia fazer neve branca e gostava de a ver colorida.
Por fim, enfim, adormece.
Estremece no momento em que me levanto.
Terá sonhado com um buraco negro?
Noutra cama outro universo, de cabeça levantada pergunta se ainda lá vou.
Respondo afirmativamente e apenas isso bastou para se virar para o lado e adormecer.
Tudo dorme, agora.
Gravito-me até encontrar novas palavras que me levem a outras órbitas, vendo crescer infinitos a cada madrugada em que o olhar se cruza com o teu e tu, creio que sem o saberes, levas contigo o pouco que não sei criar.
Está a chegar o verbo, o início vai começar.

2016-12-13

Etéreas obras

in Correio do Porto.

Não pelo frio, que corre lá fora, mas pela memória de ver serpentear a espuma do café sob a negrura do líquido e dos dias, que me aquece as mãos em concha segurando a tigela.
Não pelo calor, que há-de deslizar a seu tempo pelas paredes exteriores e interiores de um mundo físico, onde cada sombra terá a certeza de sobreviver até nenhum sol mais nascer.
Por onde, por quê, porquê, os dias e dias salpicados de cadências rítmicas que não soam, que não são.
Há onde tu lá estás algum percalço que faça cair as estrelas quando tropeças nas etéreas obras que criaste?
Tenho por fundo o fundo, apenas.
Está para lá, onde as memórias se enaltecem do futuro que ajudaram a edificar, mas cujo fruto nunca puderam saborear.
A cada passa um futuro, o potencial gravítico que me agarra ao planeta.
Como o adoro.
O planeta.
O futuro.
Terminarei ainda antes da música, mas mesmo que não trinem as pautas, mesmo que a filosofia me abandone e eu seja apenas um pensamento parado, a sonoridade encontrará a sua própria forma de, pelo frio, pelo calor, se traduzir na tremeluzinda vela que dança ao sabor do nevoeiro que os nossos corpos, assim como a água quente do chuveiro, enevoaram.
Arrefeço agora, corpo e alma, na esperança da vida pensar que adormeço e o sono se aproxime, chamando o sonho e, assim, eu o capture antes de adormecer e anote todos os segredos que me sussurrou em criança.

2016-12-11

Advento

Crónica de Domingo na Bird Magazine em 11/12/2016.

O vento arrepia um pouco a noite. Os Clérigos erguem-se sem grande preocupação pelos tempos que se descem ou se sobem mediante a montra mais ou menos colorida. Por entre a escuridão perene de montras onde se compram pessoas pela suprema desnecessariedade, há luminosas escarpas onde se deitam cedo os estivadores dos sonhos, nos seus apartamentos de cartão com camas de jornal e tectos de velhos cobertores que a caridade alheia se lembrou de ali construir. Há um odor a abandono que se mistura com as fachadas lavadas (e as crianças cinzeladas a tinta colorida e olhares inocentes nos azulejos por cima da porta), aqui parece florir a prosperidade da solidão e desvio do normal. Ou seria o normal desvio da solidão prosperificada?
Esbarro os meus olhos em olhos negros e tristes de quem se vê gente, mas é vista pela gente como calçada. Desliza o dedo nos sulcos da cara como seus trilhos de eléctrico e apeia-se por momentos da memória, esquecendo as vezes, tantas!, vendida nas ruas, escuras, a transmorfeados chefes de família acabados de deixar os filhos a brincar no alcatifado chão da sala e a esposa, de quem se despede com o pousar suave dos lábios na sua testa suada de um dia de labuta. O corpo roliço e abandonado na ombreira faz a vez das luzes coloridas e o olhar parece querer agora, depois de vendido sexo, comprar amor. Há vida nas ruas e nunca me pareceu tudo tão morto. Claro que de toda a rectidão, mesmo na prosa, como na vida, sou torto.
A noite caiu sem grandes pressas, mas mesmo assim deixou-se escorregar, como é seu costume no advento do Inverno, sobre o dia de forma bem aligeirada. Ao olhar para trás apercebo-me que a sombra do meu inconsciente se encosta ao ardina e afia conversa, rindo-se acarinhadamente dos velhos fantasmas que por cá ficaram e ainda tentam descer a fajuta escadaria que dá acesso ao túnel, onde soavam saltos altos, escarros e pontas de guarda-chuva no chão húmido e pegajoso.
A cidade ganhou o cheiro dos cegos tocadores de concertina e acordeão, acompanhados pelo torpor caminhar de um suplicado pregão que não ouvia há tempos. Talvez me tenha feito surdo com o passar dos anos. Talvez a surdez me faça também cego. Talvez eu partilhe a memória do padre que, nos Congregados, celebra uma missa acelerada a uma pequena maré de cabeças alvas saltando o “saudai-vos na paz de Cristo” porque o respeito, a amizade, enfim o Amor, parecem ser fugidios estados sociais de redes onde se esperneiam a arfar os cardumes de pessoas que não se sabem estar a afogar.
Faço de conta que olho para o vendedor de castanhas com as mãos afiadas a rachar, atender, embrulhar e contar trocos lambendo as pontas dos dedos para tactear. Para lá, encostado à sua própria sombra na parede de São Bento, um mendigo vê reflectido na sua cara as tricolores luminosidades natalícias que o semáforo proporciona. Ele é-o vermelho. Ele é-o verde. Ele é-o amarelo. Ele é-o laranja e verde intermitente quando as luzes para os peões se cintilam e lhe dão à cara a solenidade de um menino Jesus grande e sujo, com o frio a reluzir na ponta do nariz e a cara sofrida de quem nem se sabe vivo. Finto as pessoas, a minha sombra, os fantasmas e as duas ambulâncias do INEM e passo por ele, para me encostar depois, em cima de um degrau, a uma das entradas de São Bento, a fitá-lo. Tem os olhos quase fechados para que (aqui deduzo apenas) por entre as pestanas lhe sobre um caleidoscópio de noites cinzentas e a sopa servida no tupperware quente lhe faça aquecer as mãos e abrir o apetite para mais uma noite no presépio citadino, onde nos falta a sobriedade e solenidade dos animais que O aqueceram quando cá esteve.
Sei que é Natal porque quando me decido ir à vida, a lutar contra a maré cheia nos meus olhos, vejo-o encostar os lábios gretados ao plástico azul e antes de sorver ruidosamente a argamassa de legumes ouço-o “Obrigado meu Deus”.

2016-12-04

Vai dar entrada na linha número dois…

in Bird Magazine, 04/12/2016.

Puxo o mais que posso as mangas da camisola para os pulsos. Tento evitar o contacto da pele com o frio inox do balcão do bar da estação de comboios.
Saboreio, ainda antes de sorver, o cheiro quente do café em espuma misturada com o leite.
- Está muito quente?
Respondo que não com a cabeça, apenas por educação, pois já a língua me ardia e doía e os lábios, de gretados, passaram a uma espécie de carne mal passada num braseiro de noite de Natal.
Um senhor titubeia até ao meu lado, parece uma folha que cai e não sabe que já é Outono.
- Esta merda de doença.
Tem Parkinson, fala comigo ao mesmo tempo que tenta controlar o corpo.
- Já está pronta?
O senhor do outro hemisfério do balcão responde afirmativamente e diz-lhe para trazer a outra. De repente pára, olha-me e encolhe os ombros um pouco envergonhado, parece apenas agora reflectir sobre o que disse.
- Deixe estar, eu vou buscá-la.
E dirige-se para a cadeira/veículo eléctrico, levando a bateria que tinha desligado da alimentação. Esta exibia orgulhosamente vários led's verdes, numa pujança electrónica que só os indivisíveis parecem mostrar. Regressa o produto de uma dúzia com cinco segundos depois já com a bateria que tirou da cadeira/veículo e liga-a a uma tomada.
Com a face a tremer, a voz oscilante soluça algo para mim, a meio de um sorriso vencedor, de quem não se resigna ao corpo.
- Está sem bateria. – E aponta com o queixo para a cadeira/veículo. – A cadeira e eu também.
Deixo escorregar, do fundo da chávena para a boca, a espuma da meia de leite e com ela tento limpar internamente a boca, massajando as queimaduras que me vão custar alguns tempos de ardor.
Recordo com alguma saudade o colorido dos painéis de azulejos, os tectos baixos, os bancos de madeira e as caras estranhas, quase amedrontadoras, que se moviam sobre corpos quase humanos.
Desço as escadas, deixo os degraus seguirem o seu percurso sobre os meus pés e continuo, mãos nos bolsos, a percorrer com não menos indiferença as dezenas de passos que me distanciam da escada rolante que me levará à linha dois.
Faço um esforço para não fechar os olhos e vou oscilando entre o olhar em frente e a fuga dos obstáculos em que se tornam as pessoas quando saem do comboio a correr, talvez com pressa de serem obstáculo noutro local.
As paredes mortas, sem vida.
As lojas soturnas ostentam orgulhosas pequenos papéis pendurados nas vitrines cegas.
"Fechado", dizem-me e a quem quer ler.
Lá dentro, pó, pequenos pedaços de plástico, escuro e semi-escuro, luzes onde não entra a luminosidade.
Em tempos em que se vende tudo, até as memórias parecem querer ser vendidas, pedindo que alguém as compre e as leve para outro local, uma galeria com luz, sol, pessoas e não obstáculos.
De que tanto necessitamos? Porque nos dizemos ainda mercadores quando de mercado conhecemos apenas o pregão e esse, coitado, vai caindo como as folhas de papel amarelecidas, sozinhas, no chão:
- Vai dar entrada na linha número dois…

2016-11-27

Sem dimensão ou universo

in Bird Magazine, 27/11/2016

Porventura e por ventura, o silêncio do que falo é tudo o que consigo fazer ouvir.
Lamento que o quanto de tudo que recolho na vida seja inaudito, fica a bailar nos olhos, nalguma contracção muscular que faça erguer um sorriso ou na maré que, momentaneamente, possa trazer uma ondícula salgada até onde a minha parca vista alcança.
Habito-me sem me sentir em casa, habituo-me sem me fazer quotidiano, os dias rimam apenas porque tombam e se penduram na armação invisível que se ergue em redor do que escrevo.
Coroam-se as palavras, porque lhes louvo a ventura e ousadia de lavrarem o espaço que separa o meu sopro dos teus campos férteis, no entanto, nem bom vento, nem bom advento provém da atmosférica fronteira que me separa do que habito e de onde moro.
Calcorreio por entre estrepes aguçadas o percurso, desencantado, por não saber de cor o nome das estrelas embora me faça por estrelar a cada sorriso de uns petizes, esses, sim, que não o sabem e por isso são felizes.
Há um e outro, ao redor de uma e outra, gravitando as tardes porque o que educam não é o que aprendem, mas sim o que desencontram quando se soltam da pederneira as pequenas faíscas que os fazem arder brandamente no acampamento da vida.
Um dia, quando não me calar, vou levar alforge onde caibam os estilhaços dos espelhos que fui partindo, porque no reflexo de uma taça deve luzir o nome de quem à vida e na vida se alcança.
Todos clamam pelo sol, esquecendo o imenso calor que irrompe do esforço da chuva em se fazer sentir.
Pouco mais que o dinheiro, deixo a pobreza acompanhar-me.
Só assim consigo ter os bolsos suficientemente vazios para lá caberem todos os sonhos em formas de maias floridas que não colho.
Em tudo há o valor, inavaliado, de se ser uma pequena fragmentada porção de pó cósmico aglomerado num só corpo, num só pensamento, com saudades de ser praia e areal, terra e pinhal.
Acredito que um dia, um momento, possamos ver-nos como uma frágil fatia de um elaborado bolo cujo condimento é o sorriso que podemos fazer crescer numa outra fatia.
Todos parte de um e um que se parte quando nos esquecemos de nos abraçar de encontro ao que somos, um corpo de cada vez, até não sabermos distinguir por livre e espontânea vontade a etiqueta que nos separa do que nós somos do que nos fazem.
Tenho as mãos cansadas de tanto procurarem, no espaço que permeia a distância que me separa de amanhã, aquele momento em que me sei semeado pelo sol, colhido pela chuva.
Que me desculpem as palavras se as obrigo a serem aquilo apenas que sei ser, enfim, criança homem sem dimensão ou universo onde nascer.

2016-11-22

São nuvens

in Correio do Porto, em 23/11/2016.

Saberemos sorrir, porque nos turva o céu, mas entre o sorrir e o caminhar sobram espaços onde se escondem caminhos que por nunca percorridos, jamais foram trilhos.
São uma espécie de meio termo entre a partida e a chegada.
Um pouco como o silêncio a que nos remete a ausência, seja ela qual for ou de que espécie desejar.
Vai-se sendo, ausente, até se desaparecer.
Para mim qualquer final de recta de um par de carris bastaria, ou uma pequena ermida, erigida saberá deus a quem, bem longe das pequenas serpenteadas estradas por íngremes socalcos e gentes socalcadas, poderia até ser sempre noite, para vivermos para sempre maravilhados pela luzidia e trémula claridade que fica gravada na íris quando olhamos para uma estrela.
Saboreio, ainda, cada sentimento que consigo compactar numa letra.
Não fico admirado pelas palavras parecerem desconexas, não conseguiria fazer uma letra com apenas um sentimento, cada uma, letra, traz com ela várias impressões subjacentes, assemelham-se à ponta do icebergue, um pequeno estilete que tem raízes profundas na profundidade máxima de mim até onde consigo mergulhar sem respirar, como poderia uma palavra falar por si se por mim apenas o silêncio se manifesta?
Agradeço a cada sentido que me faz, redundantemente, sentir.
Por eles vou fazendo de conta que o fim de tarde é passado com os pés enfiados numa poça de água quente enquanto um ou outro caranguejo me faz cócegas, por eles o Sol fica ali pendurado e periclitante entre o horizonte e o vácuo do espaço sideral, pendendo à minha vontade de ser peixe e dar um sermão à água, que vai falando comigo também nas suas formas imensas quando se deixa cair de costas, feliz, em espuma na praia.
Consegues ouvir?
Um dia virá, talvez, em que o que aprendemos será o que seremos, letra a letra, palavra a palavra e o dia cairá em nós como túnicas num fantasma já sem rememoração de corpo, até sem sentidos, para que nasçam outros, sentidos e corpos, dignos mais de mundano menos.
E, já agora, em que o tempo fale por nós e se reflicta num longo lago seco com um fundo de terra gretada. E se alguém, por descuido, perguntar pela água, que outrem possa responder, são nuvens.
Por entre as folhas de tília
onde os teus passos molhados saciavam a tarde
havia um vazio musicado,
as goteiras solitárias cantavam no misto de silêncio
de tudo que não vejo,
talvez me tenha cultivado na cegueira
e as raízes que o solo sustenta me levem devagar,
devagarinho,
para que não me ouçam
no grito escuro de um sonho,
sozinho.

2016-11-20

Possivelmente possível

 in BirdMagazine, 20/11/2016

Possivelmente possível”

Por entre os pingos da chuva, na infinidade de espaços onde a água não se liquidificava, raiava o silêncio como se a estrada que nos levava lá fosse toda ela feita de soluços, como as sandálias a comprimirem o cascalho ou a túnica sacudida num vai e vem de gotículas a salpicar todas as outras que caíam.
Quando o tempo se sobra e se permite a veleidades veladas a quem não se dispõe ao acaso, tudo sobra para que até as tardes de Outono saboreiem sossegadas o aroma tépido de uma mão cheia de castanhas e, depois, o enfarruscado abanar das palmas, uma na outra, a modos de corpos de gente que se degusta.
Não há muito a redigir para quem, talvez como eu, uma ensolarada crepuscular idade basta para enternecer a visão gasta e os sentidos desapurados.
Talvez por isso me perca um pouco a saborear o ruído do solo que se esmigalha a cada passo que dou pelo monte.
Desconstruo as estradas por onde passo, faço por nem piscar os olhos, não me vá fugir paisagem quando as pálpebras se dedicam a claquear o horizonte como dando ordem ao cérebro gritando “acção!”.
Desconstruo, também, o futuro.
Voto-me à solidão como se apenas no calar da voz ouvisse e houvesse aquela miríade de possibilidades que se soltam de uma inspiração, de uma expiração, onde a sinceridade e honestidade típica do vazio prevalecesse.
Rio-me com o desequilibrar típico de quem se desvia de carreiros de formigas ou de gafanhotos que, garbosamente, exibem diferentes tonalidades como tontos e desconexos arco-íris monocolores precipitando-se entre mim e o verde acastanhado das folhas que se deixam outonar.
Há uma ou outra sardanisca, osga para os leigos, que corre assustada por entre dois ou três restos de ramos de pinheiros, pedras, por debaixo da caruma quem sabe imaginando-se de onde tal adamastoreidade possa surgir.
Detenho-me num ou noutro pinheiro, sem as histórias que me suportam ou as palavras retratadas nos olhares de quem não se lê, para por momentos sentir na face a aspereza subtil e cuidada da casca resinada e resignada de quem vê o tempo passar e sorri, caruma ao vento, pelas intempéries que assolam a orla marítima de quem se observa por entre o mar e o mundo.
Os dias pequenos correm lestos, primeiro pela madrugada madrugadora, depois ao subir do calor possível que o Universo catatónico permite, para vir depois por aí abaixo até se deter no alaranjado atonado céu, onde as nuvens brincam aos padrões e se esgrimam em rendilhados pedaços de imaginação que me fazem, agora com frio, sentir que o dia se vive quando se deixa ser, dentro da possibilidade, possivelmente possível ou, matematicamente falando, reciprocidade de uma hipótese sem tese.
A Lua viu-se e desejou-se para nascer a poente de um horizonte, mas destinou-se que, como o caos, as palavras se permitam orbitar o cerne de um parágrafo crucificado.
Assim foi o desfocado ocaso, na cruz ou apedrejado, por entre pares e ímpares. mantenho-me aquecido no istmo que separa o falado e o calado.
Não havia espaço para mais, a metáfora terá que servir para o espaço incólume que deixou pendente porque, como sempre, não se sabia escrever e quem o poderia fazer, não o sabia ler.

2016-11-13

O corpo come, mas é a alma que se alimenta.

Crónica na Bird Magazine 13/11/2016

Escondi-me sem grande necessidade, não me viu chegar acorrentado que estava à pressa de fugir dos pingos que engrossavam a cada passo. Encostou-se ao primeiro muro que lhe deu garantia de protecção adicional contra este aguaceiro de chuva caduca e aninhou-se no chão, puxou dois renegados paralelos soltos da escravatura do solo e improvisou um banco. Abriu o enorme colorido guarda-chuva que lhe amparava os passos e, nestes dias farruscos, o abrigavam da sublimação que é caminhar em estado sólido sem se saber gasoso.
Sentado, o guarda-chuva preso entre os joelhos, as varetas a tinirem quando o vendo se lembrava de açoitar um braço em redor de um vazio ainda não soprado. Todo ele, agora, parecia um acampamento, lateral à margem da morte ou da vida, aqui ao lado do portão forjado com letras de arcaísmos e números agrupados na memória de outras temporadas vazam já em dois séculos atrás. Quando o vento soprava, ao abrigo da distração da chuva, e o guarda-chuva oscilava em pequenos arcos, na vaidade de ser ser visto de cima como um arco-íris rotativo de centro o e raio r, ele fazia por alinhar as varetas nos espaços de terra por entre o granito dos paralelos, prendendo-o.
Sorrindo, inclinou-se sobre o seu lado direito e espreitou a chuva que caía, agora, copiosamente na despreocupação de ser outra coisa que não a chuva.

[Ah, a liberdade de se ser quem se é.]

Fechou os olhos, molhou o rosto, sorriu agora um pouco mais e endireitou-se no chão, sentado degustando, deduzo eu, a alcalinidade líquida das moléculas que, apenas porque sim, se agrupam aos pares de hidrogénio e aos ímpares de oxigénio.

[Não me bastasse a inquietação das respostas para as quais não tenho perguntas, ainda me perco a comiserar porque razão a água é água e não poesia que se acumula na goteira do que não vejo.]

Inclina-se para a frente, encosta a testa ao frio metal do guarda-chuva e abre a mochila (era de cor azul, já o tinha dito?) tirando um saco grande de plástico. Senta-se hirto, como a chuva que teima em não abrandar de intensidade e pousa a saca no chão. Pareceu-me ouvir um tilintar. Quando começa a tirar o conteúdo sorrio.

[Aqui a narrativa apressa-se e com ela surgem as falhas na grafia, próprias de quem se inventa entre dois aguaceiros ou, vá, duas vidas. Talvez deva abrigar-me melhor, a chuva parece cair-me na cara ou, talvez não, não me deva emocionar com o simples que se abriga na complexidade de se ser o dia, presente.]

Começa por desembrulhar com cuidado os jornais que envolvem e conservam o calor desde a madrugada, quando a esposa (ou ele, como o poderei saber?) cozinhou o que quer que seja que o tacho conserva. Embrulhou os jornais, encostou-os à cara e sorriu, deveriam estar ainda quentes e talvez da celulose se soltasse ainda o carinho com que alguém lhe preparou o almoço.

[O corpo come, mas é a alma que se alimenta.]

O naperon azul pariu um par de pães alvos e farinhentos, cujos vestígios são agora as poeiras brancas no canto da boca e, logo de seguida, nas costas da mão que usou como guardanapo. O raspar da colher no metal contrasta com o burburinho da chuva e do vento a atirar um arame que serviu, certamente, de estendal. Arrumou na mochila jornais, naperon e tacho, partiu a maçã verde em duas metades, comeu uma metade por inteiro e a outra metade comeria inteira a meio da tarde, deduzo. Na falta do calor negro a rodopiar entre as bordas do universo que é uma caneca de metal, deixou-se encostado ao muro, ainda a segurar o guarda-chuva e a ouvir as grossas gotas que batiam no tecido transformando o som em embaciados óculos, salpicados por memórias secas de quando a vida poderia ser mais húmida, como as cavacas mergulhadas no leite.
Quando terminou o céu parecia já saciado, passara de um cinzento para vários cinzentos, ostentando aqui e ali uma gotícula de azul celeste e o branco que timidamente se anunciava abaixo da atmosfera que é o intervalo sagrado de quem respira para se viver.

2016-11-10

Quando a sombra se dissipa
na sombra do que visto
já não é visto
o calado rubor do que não sei dizer.
As paredes caiam-se de silêncio
a estrada arfa sob o estio
e a palavra
semeada
soluça-me:
tenho frio.

2016-11-04

Soçobro com a pacatez da ausência, cada um de nós essencial na essência.
Os caminhos onde me escondo percorrem-me como se a cada curva latejada fosse possível emergir o bojador, logo a mim, que nem em qual das mãos perdi a cor.

2016-10-30

Ausente sente

Crónica de domingo na Bird Magazine, em 30/10/2016.

Arredo-me das letras como de mim. 
Deixo-as desencavadas e encostadas na leira, ao frio e à chuva que tem caído lá fora e cá dentro. 
A sementeira não se faz pela noite e, contudo, é nela que encontro terreno fértil para, como bicho, me aninhar em mim ao chegar ao ninho, ombreando força com as sombras ondulantes e erráticas que a vela projecta na sua dança sobre o pavio. 
Já nem sei do que me rio. 
Descansa o resto do pão ao meu lado e nesta côdea amarelada dou por mim fortuna de áureos nunca tidos, que não me pesam, e, talvez assim, por isso, por mim, me sinto afortunado.
Saga de quem se abriga num qualquer beirado.
O dia passa a cavalgar por mim, literalmente, graciosamente e cavalarmente, adverbiando as palavras para que possa saltar os obstáculos que se ausentam e, como tal, não se vislumbram ou percebem. 
Um pouco como eu.
O frio começa a sorrir, vem subindo as pernas da cadeira, torneando os veios da madeira e encavalitando-se nos meus pés cobre lentamente o meu corpo, como só as mães sabem, levando-me a adormecer hipotermicamente.
É neste semi-estado, desacordado e desadormecido, que me empoleiro em mim e me deixo de procurar estrelas onde elas sempre brilham para as encontrar debaixo deste bocado de pão, no isqueiro que me queima os dedos, no som do vento que se faz canção, no velho sussurrado adormecido no jardim, como o valado brotado do relógio que tiquetaqueia em mim. 
Hoje estou adiantado em relação ao meu atraso, eis a razão de chegar, agora, ao fim.

2016-10-26

Aguardo-me
vindo
vivo
do restolho que o verso colheu
porque brota das mãos
o regadio
nalguém
talvez eu
.

2016-10-23

Balada da voz lengalengada

Crónica na Bird Magazine em 23/10/2016.

Os gatos, pequenitos, enrolam-se uns aos outros no meio da erva verde, enquanto os mais afoitos cedem ao medo do desconhecido ronronar deste animal grande, negro, que segue de motor enfurecido com os pneus a baterem furiosamente nos paralelos cinzentos, e se esgueiram de encontro aos irmãos que semicerram o olhar felino, inocente, como o acordar matutino da mente.
De repente a própria erva parece, além de húmida e fumegante pelos raios inclinados do finado Verão, parda e salpicada com tons de branco, laranja, castanho, preto, pantufas dobradas sobre o corpo, bigodes, pequenos narizes cor-de-rosa e olhos esbugalhados de espanto.
A erva, essa, não se assusta nem quando apelidada de daninha e, assim, ao corpo arrancada, segue compenetrada, em foto-síntese atenta no namoro pendular entre o que se inspira e expira.
As casas, velhas, são vistas do alto como se pendessem sempre sobre uma encosta invisível, mas tangível, como o são todos os esquecimentos.
Os telhados, as paredes, as pedras emparedadas, as viúvas que permanecem casadas.
O fontanário escorre água num lacrimal choro de saudade mineralizada, a saudade do fumeiro esvaído em prateleiras de néon, há todo um manancial de superficialidades para vender a quem se pensa ser o que pode vir a ter.
Há um avental que ondula no caminho, vai preso ao pescoço que se enruga sozinho, porque o tempo é implacável para quem não sabe falar.
Implacabilidade é para quem se fala por que não vocaliza os pensamentos que ascendem directamente do soçobrar ao infinito e, chegado lá, se descobre em encruzilhada porque do menos ao mais se entras nos escombros do que não perece, de lá nunca mais sais.
Ondulam agarradas a umas pernas esbranquiças umas calças com fuligem, uns pés sem meias nuns sapatos desapertados que bailam para a frente e para trás a cada passo, a casa passo.
Um acenar lento e tímido quando agradece a cedência de passagem na cadência da passadeira e os idosos que se acotovelam com cuidado junto à grade que separa a actividade quotidiana da actividade laboral dos funcionários que, de pá e pica sobejam à terra que se deixa perfurar mais por desdém do que por necessidade, a terra clama-os já com saudade.
Se soubesse pensar, a fuligem deixaria de questionar, teria o homem forjado algum ferro endurecido, como as mãos do que é esquecido, ou seriam sobras de uma vida que o forjou a ele mesmo e a uma sombra desaparecida, um pouco mais de carne, um pouco mais do medo, um pouco de desmame da saciedade do segredo.
Vejo o som do Sol após a chuva, a neutralidade positiva da vida sua, a paisagem queimada mais pelos olhos indiferentes do que pelas labaredas carentes do fogo fajuto atiçado por homem que, certamente, nunca foi puto.
E quem se sabe puto, nunca mais quererá ser homem.
Ouço o vergasto indiferente de alguém queimado pelo álcool, quase demente.
O arrastar da ramagem seca pelo que o alpendre não cobre, a felicidade de se ser pobre, os chinelos de dedo, calções e pés molhados no rego para a água escoar, do riso ao chorar.
Há que dar passagem à água mole, que se escorra e aflija na entrada de outrem que não a minha, coitada, que cai já triste e molhada.
Findo no vento que toca a cara, sei que o universo é fonte que jorra e não para, mas quem se quer a ser voz, porque a rotação de um planeta faz calar a voz, a vida cai inanimada sem dó, ao colo de quem sabe que o universo foi bocejo de um Deus só.

2016-10-19

Nos alísios madrugadores onde vento
os socalcos aram-se a eles próprios,
a mão pende sobre o sentimento
e os sons do dia cultivam-se
sem que o mar se agite.

A páginas tantas
desfolho-me sem capítulo por entre os pinheiros,
as florestas em torno do pensamento
talham-me os passos braseiros,
sigo afogueado encapelado
emaranhado no adimensionado,
afogado.

Quando ausculto a ausência do som
os regatos escoam-se abaixo do meu horizonte
e eu próprio sou inerte,
húmus,
de regresso ao ventre,
à fonte.

A terra cultiva-me as mãos,
na aridez o plantio da eira
onde secam o grão que afago
e, germinando,
serenamente
naufrago.
Cuida desta estreita faixa
onde guio o sonho
à deriva,
a vida é fogo que se aviva
no crepúsculo da brasa
como os dias protegidos
de mim,
debaixo da asa.

E se voas,
ainda que amarre em mim,
creia-te o destino alado
a bordo de umas cores inodoras,
aquelas que não sei pintar.

Algures a distância é um arfar
e o solo saturado de chuva
traz regadio bastante a viver.

Não o nego,
apenas não o vejo florido
porque o Outono que sou é cego.

2016-10-16

Cãesjos

Crónica de 16/10/2016 na Bird Magazine.

Os braços arderam, secou-se a seiva que pendia dos dedos de quem nasce verde e morre cinzento, inglório.
A cinza agrilhoa-se aos olhos, não há urgência que se torne neblina, apenas se calam os murmúrios e os chilreados trinidos de quem vive num sopro.
Os estrepes forçados de umas quantas armações de vida sobram de uma noite que se faz dia, de um nascer forçado do Sol embraseado que outros chamam Lua.
Os meus pés afundam-se no escuro, os passos que não dei deixaram pegadas à frente da minha sombra, porque, simplesmente, o horizonte que se estendia tombou e desistiu de ser verde.
Há uma sombra negra na estrada que obriga a longa e desajeitada fila dominical de condutores e suas extensões motoras serpentear. Um cão jaz na beira da estrada. Grande. Negro. Fusco.
A cabeça encostada a um pequeno e inclinado bloco de betão, como se dormisse.
Amedrontado, confuso, pensando o que os cães pensam, um outro, do lado de lá do bloco, fita-o, com as patas dianteiras pousadas no betão. E já em pé, maior ainda, menos preto fusco e mais negro brilhante, confuso e amedrontado, sendo o que os cães são, olha para o seu próprio corpo e, depois, para mim que calhei, coisas do destino, de passar ali naquele exacto momento.
Num olhar cruzam-se, sempre, pessoas e por vezes, como agora, animais.
Ali, naquela fracção de segundo, ele saltou-me para o colo e eu trouxe-o para longe da sombra que foi. Intermitente, surge e desaparece do banco do carro, ele próprio confuso, eu rindo-me.
Páro o carro. A estrada continua a passar por mim. Abro a porta, mas já ele a tinha atravessado.
Olha para mim, olhando com os cães olham.
Há um latir, surdo, que vai batendo à porta da noite como se vento se tratasse. Vai surripiando arrepios às sombras que se amedrontam com o emaranhado de emoções que as árvores coscuvilham.
Habituei-me a ouvi-los, primeiro longe, depois abrindo-lhes a porta e deixando-os falar o que lhes vai na alma. Primeiro olham em redor e, quando se apercebem que mais ninguém os fita, perdem o ar bonacheirão para se sentarem cavalheirescamente e começarem a contar histórias de patas nuas nas calçadas, sorvidelas de águas em fontanários e a inexplicável tentação de correr atrás da própria cauda.
Outro latido, grave, ergue as orelhas, olha-me e ali, longe do que ambos somos, desata a correr pelo monte acima, desaparecendo no preciso momento em que começou a chover e era como se as gotas de chuva lhe turvassem aquela pintura brilhante, para o tornar transparente, lentamente, totalmente, até ser aquilo que nasceu para ser, chuva.
Acho que os cães são como os anjos, transparentes ao olhar opaco que possuímos e lamento o prévio desalento dele, que me confidenciava em desabafo, nunca terem conseguido domesticar-nos porque não sabemos chover.

- É chuva senhor.
- Isto?
- Sim, senhor.
- Mas cai assim, sem mais nem menos?
- Sim, senhor.
- E porque me faz sentir assim?
- Porque é a chuva, senhor.

2016-10-09

Isto é apenas o vento

Crónica na Bird Magazine em 09/10/2016

À semelhança do climatérico dia, acordo sem saber muito bem onde estou, ao que vim, para onde vou e porque me escrevo na primeira pessoa, que me encontra.
Apetece-me deixar dormente o despertar, ver os restos de noite fugirem das frestas luminosas que assomam por entre os buracos da persiana, tapar-me com o lençol até ao queixo, como se estivesse sobre a caruma do monte a dois passos donde estou e tivesse medo do cair do dia.
Consigo levantar-me, a custo, a muito custo. Espera-me a tarefa de nebular a manhã e anima-me, pelo menos por enquanto, a volatilidade da mediocridade que promete terminar quando todos se vestirem de lírios. 
Pouso a caneca negra na banca, deixei a flutuar o resto da espuma branca já fria da maré que tomei quente e, agora a custo, cinjo o cinto, abotoo o pano velho ao corpo, enfio os pés nos largos sapatos frios e preparo-me para sair de casa. 
Coloco um pé na soleira, a porta rangeu menos hoje, olho para trás e rio-me de mim e do tão pouco que necessito para ser eu mesmo. 
Fecho a porta, desloco o ferrolho e nem fecho à chave, limitando-me a esconder dentro do espanta espíritos o meu tesouro. 
Visto o nevoeiro e saio para a rua. 
O estômago ronca um pouco, receoso que não o trate tão bem hoje, mas a corpusculidade que volita traz odores de pão quente, e isto parece bastar para lhe apaziguar a dor no odor. 
Umas mãos cheias de passos levam-me rápido à entrada da padaria. 
Vejo que há funcionária nova atrás do balcão, bato à montra, ela olha em redor e sem nada ver fita perplexa a porta à espera de alguém que entre. Nada.
Bato novamente, desta vez dando um pouco mais de força aos nós dos dedos, a rapariga assusta-se e pelo postigo que separa o balcão da cozinha espreita uma senhora, mais velha, que sorri. 
Dá-lhe um toque nas costas e pede-lhe, que é como fala quem manda, que prepare um café curto, duas tostas pequenas e a vassoura grande de ramos de giestas secas.
“Agora leva isso lá fora”, sem que a rapariga percebesse para quê e para quem ia levar um pires com uma chávena de café, duas tostas pequenas e aquele travesso pequeno de vassoura velha que nunca encontrava no mesmo sítio.
Quando a porta automática se abre ao sentir a presença da funcionária, dispo o nevoeiro que me escondia do olhar dos outros, deixo-o pendurado no ar e é aí que, coitada, a rapariga dá um grito e do repentino gesticular sobram apenas as tostas na minha mão, a vassoura que evito cair com o pé no ar e um pires e chávena partidas, com o café fumegante a arrefecer chateado nas pequenas pedras de calçada portuguesa.
Há risos, meus e da senhora lá dentro do postigo que, vista agora, parece ser um troféu de caça animado, sorridente, e mais vivo, como vivos ficam os que são caçados e pescados no desporto pueril da humanidade cingida à egosfera.
Peço-lhe desculpa, as brincadeiras são engraçadas apenas e quando todos riem, mas no susto despreparado da moça custa-me o agora soluçar pela chávena partida e o café derramado, a meus pés. Ofereço-lhe ajuda ao tapar com o nevoeiro os cacos e o café e a permitir-me colocar-lhe a mão no ombro e dizer “pronto, não chores, não é nada, volta para dentro”, um pouco entristecido pela falta do café, quente e envolvente, a rilhar as tostas pequenas que durarão uma manhã inteira, pelo menos até o Sol romper a neblina e vier dar luz à luz que se esconde por detrás de mim.
Agarro a vassoura, começo a varrer as mesmas folhas de sempre, Outonos diferentes, mas árvores iguais. Mantenho o cuidado de, ao ver alguém, cobrir-me com o nevoeiro para que não me vejam e pensem ser normal, este frio, este calor, a palete de cores mornas e arrefecidas pelo silêncio, pela solidão, pelos cantares confusos dos pensamentos não sabidos pensar e ao verem admiradas o volitar sereno das folhas multicoloridas pensem, porque o ser humano é desatento: “isto é apenas o vento”.