2017-05-21

De que vale o silêncio se ninguém o escuta?

Crónica de Domingo, na Bird Magazine.

Seria, provavelmente, capaz de partir a pé por esses caminhos fora. 
Não é à toa que vagabundo rima com mundo. 
Acabo por cobiçar o sorriso desligado da alegria que vejo nalgumas faces, cobertas por barba, em corpos que não se inibem em deitar num banco de uma estação de comboios. 
Indiferentes ou talvez não, ao lixo acumulado na linha, nas metades de tonéis que nunca o ambicionaram, mas são agora recipientes onde descansam em paz acalorada várias garrafas de plástico de líquidos que são caras formas de se beber má água.
O átrio da estação está vazio. 
O calor convida a uma estada prolongada num velho banco de madeira. 
A poltrona amarelada olha de soslaio. 
Coitada, não percebe que aquele tecido empoeirado não convida a que alguém, mais ou menos incauto, se sente ali. 
As horas passam devagar quando olhamos para o relógio, antigo, a olhar com cadência do alto da coluna de madeira. 
Basta desviarmos o olhar para ele desatar a correr de ponteiro em ponteiro, este tempo atribulado.
A vida há muito saiu dali. 
Os azulejos que ornamentam o edifício escorrem saudade. 
Acaricio a face de alguns dos trabalhadores e trabalhadoras retratados. 
Algumas aves fizeram o favor de ornamentar os azulejos, mas isso não me inibe de afagar o dorso de um touro, calculo que esteja cansado, mas afinal parece ser apenas solidão. É normal. 
Outrora vibrante, a estação resume-se a um só funcionário, escondido numa redoma, rodeado de um ecrã, teclas, papeis, códigos QR. 
Longe vai o tempo de o senhor com o balde e a pinça de metal na mão, a apanhar o pouco lixo que existia.
Agora tudo parece ter lixo, restolhos mal cheirosos. 
Até as pessoas mudaram, outrora pessoas bem cheirosas, em corpos mal cheirosos, agora pessoas mal cheirosas, em corpos bem cheirosos.
Tudo muda. 
Até o silêncio, que parece ter descido sobre vários apeadeiros, despindo-os de telhados, partido vidraças, apodrecido vigas de madeira em profunda raiva pelo que de mal nós lhe fizemos. 
De que vale o silêncio se ninguém o escuta? 
Vou percorrendo o caminho com o olhar no trilho, claqueio mentalmente o som das rodas sobre os carris. 
Dói, não sei bem o quê e por isso tão difícil se torna diagnosticar, mas dói sempre e cada vez mais ao observar o abandono de tudo o que foi. 
Acredito que as memórias perduram e resistem abandonadas apenas para que possamos sentir que, de facto, quando ao futuro chegarmos vermos que o que deixamos abandonado encerra a parte de nós que não deveríamos ter esquecido, o reflexo da nossa face na superfície da vida.

2017-05-14

A fé

Crónica de Domingo na Bird Magazine.

Eram as palavras como tenazes folhas de oliveira, as sombras lânguidas paredes que circunscreviam os montes onde o teu sol, como luz que eras, se permitia descolorir para que todos os outros, como nós, cegos, orassem sem saberem versicular. 
Pergunto-me se ponderavas tudo caminhar para isto.
Seria, Cristo?
Sobra-me, enquanto arrumo o que sou, as montanhas ao longe, cercadas por um mar agitado que nunca as banhou. 
Não tenho medo de morrer, mas tenho um medo irracional de não viver.
Sobram-me as estradas sinuosas que, obrigatoriamente, calcorreiam quem não sabe voar. 
Sobra-me a consoada e o anuncio, festivo, de que a neve é azul e o céu, esse, é da cor que eu quiser, porque tenho como parceiro este estranho homem, comido pelo tempo, abrigado sob um alpendre tolhido de fumo, acompanhado de dois santinhos, que irei saber, quando voltar atrás e o ler como quem acorda, serem nossa senhora e o menino jesus. 
Garrincha, na falta de primaveras, é o meu conforto e a certeza profunda, enraizada, do tronco que sou.
É com o vento frio e um calor no ventre, que me dedico a admirar a legumeirada que se banha na corrente quente da sopa na tigela. 
Uma divisão. 
Um colchão. 
Um caderno e um lápis na mão. 
A catadupa dos invernos que fugiram ao verão. 
Há vento, a granel, para quem goste dos sussurros. 
Não me falta o enfeite de um Natal, assim a modos de presépio, com musgo a fazer de reis magos e um menino Jesus que nascerá. Plim! O microondas, perdão, o fogão a lenha, esgravata um grunhido e avisa-me que a caldaria está pronta. 
Os cavacos esbaforidos passam a mão pela fronte limpando o suor, contentes, realizados, deixando-se depois cair de costas para as brasas onde, sabem, serão consumidos, ascendendo a um céu de fuligem, para choverem novamente aos meus olhos, que os levam onde nunca eles agora cavacos, ontem árvores, amanhã cinzas, sonharam, tal como eu, ir.
Assombrado, percorro os caminhos que traço, sem grande cautela, há na vida espaço para nós, eu e ela, a vida. 
O calor transpira-se em mim, hoje sou rio. 
Rio. Levo-me em levada e vou comigo cheio de nada, de bolso prenhe da mão fechada, os nós dos dedos vincados, as rugas anoitecem e acordam-se como os cerrados, ancorados. Felizes os que se portam em porto, rabelizados na maré de uma existência escoada num Cristo Rei, de pé, aguardando pacientemente a vinda de si mesmo. 
Isto é a fé.

2017-05-04

Royal mile

Royal mile, crónica no Correio do Porto.

A Royal mile estende-se preguiçosamente, esquecida quase que está pelo calcorrear maléfico das altezas reais que de gente fez degrau e, abaixo e acima, fazia do povo sina. O vento corre seco e frio, traz-me ao ouvido recordações caledónias e o sussurro de uma gaita-de-foles, espremida no regaço quente dum puto, cara de sonho, sorriso de vida, onde cada libra vale 15% para outros putos cujo cancro coloca cara de dor e sorriso de esperança no dia seguinte e mais 15% para aqueles que não se conseguem lembrar da própria vida.
As paredes dos prédios tornam o negro ainda mais agreste e a multidão faz-se maré de um mar que não parece saber para onde caminhar. Os cheiros oscilam entre o conhecido puritano e o inolvidável sagrado, de vidas distintas e épocas remotas, acometidas para o presente que se imiscua com todos os tempos, agora que o próprio tempo parece deixar de correr para ser sempre hoje.
É quase noite, o cachorro levanta preguiçosamente o sobrolho e fita-me com pena, parece-me. Não o censuro, sobre um solo erguido sobre lava, está deitado junto ao dono, debaixo do que parece ser um saco cama, ou várias camadas de sacos cama. O mendigo parece-me mais novo do que eu. Olha-me a sorrir quando deito umas moedas no copo cheio de nada, ainda com a sombra do logótipo da Starbucks, onde ironicamente está escrito “Dreams”. Pisca-me o olho e segue o seu caminho, sentado, espreitando para dentro da história do grosso volume de “Guerra e Paz”, convidando-me a seguir o meu caminho, Royal mile abaixo, assobiando mentalmente qualquer melodia que penso ser escocesa.
O dia escureceu na totalidade agora que o Sol, a esta latitude, se foi embora cansado e a noite surge com mais esplendor porque a multidão se recolhe e embriaga sob luxuriosas luzes falsas. Sem gente, as ruas tornam-se mais vívidas, habitadas apenas por quem foi esquecido, na vida e na morte e, por isso, sem recordações que sombreiem, iluminam a noctívaga vontade de ser estrela. 
Volto ao local onde o vi, desabrigado, a ler e arrisco um início de conversa. 
– Sem abrigo? – pergunto em inglês, aninhado à sua frente e sob o olhar avaliador do canídeo.
Marca a página com o dedo enluvado, muito perto do fim do livro e ergue-me um olhar sorridente, calmo e compreensivo. Com o braço descreve um arco sobre a cabeça dele e olhando para o céu nocturno, mais visível agora, responde-me com nova pergunta. 
– Que outro abrigo além das estrelas? 
Trocamos um olhar montanhoso. Aponto para a capa do livro e pergunto, sem vontade de ir embora.
– Pronto para a guerra?
– Não amigo, pronto para a paz.
E sorrindo ainda, colocou um recorte de jornal a marcar a página, fechou o livro, aconchegou o cão debaixo do braço, puxou o saco-cama para o pescoço e fechou os olhos alheio ao barulho que vinha do bar duas portas acima.


2017-04-30

A chuva, sempre a chuva

Crónica, na Bird Magazine.

Não pelo frio, que corre lá fora, mas pela memória de ver serpentear a espuma do café sob a negrura do líquido e dos dias, que me aquece as mãos em concha segurando a tigela. 
Não pelo calor, que deslizará a seu tempo pelas paredes exteriores e interiores de um mundo físico, onde cada sombra terá a certeza de sobreviver até nenhum sol mais nascer. 
Por onde, por que, porque, os dias e dias salpicados de cadências rítmicas que não soam, que não são. Há onde tu lá estás algum percalço que faça cair as estrelas quando tropeças nas etéreas obras que criaste? 
Tenho por fundo o fundo, apenas. Está para lá, onde as memórias se enaltecem do futuro que ajudaram a edificar, mas cujo fruto nunca puderam saborear. 
A cada passa um futuro, o potencial gravítico que me agarra ao planeta. 
Como o adoro. O planeta. O futuro. 
Terminarei ainda antes da música, mas mesmo que não tinam as pautas, mesmo que a filosofia me abandone e eu seja apenas um pensamento parado, a sonoridade encontrará a sua própria forma de, pelo frio, pelo calor, se traduzir na tremeluzida vela que dança ao sabor do nevoeiro que os nossos corpos, assim como a água quente do chuveiro, enevoaram. 
Arrefeço, corpo e alma, na esperança da vida pensar que adormeço e o sono se aproxime, chamando o sonho e, assim, eu o capture antes de adormecer e anote todos os segredos que me sussurrou em criança e reinvente a chuva. 
Hoje traz-me a memória do abraço, a ombreira da porta, os pingos que se volatizam quando em contacto com o corpo de um outro ser. A chuva, sempre a chuva, eu, sempre eu. O apagado semáforo que teima em sair do tricolor destino, a rua fechada e um trabalhador abrigado sobre as memórias de dias mais coloridos.
Olhos semicerrados, as gotículas aquosas de uma quimicidade que não se saber ser água. Água, sempre água. As costas encostadas ao húmido vestuário, um autocarro que passa prenhe de passageiros conduzidos pelo destino, o destino, sempre o destino.
Hoje chove, por mim, pelo caderno virtual que abro no deserto com vista para o nada, e por breves momentos, entre água e nevoeiro, juro ter visto um relâmpago e o troar de um trovão que parece chamar por mim. Trovadora, a Natureza canta-me ao ouvido o sussurro de um abrigo sob duas grandes pedras encavalitadas num equilíbrio eterno.
Consegui chamar o frio, novamente, que teima em fugir por entre as minhas recordações de Inverno e de finais de tarde lá de meados de Setembro. 
Abriga-se no meu colo e no olhar aflito de uma dor que não se compreende, penosamente enfia o seu focinho afiado entre o meu braço e o tronco e deixa-se ficar, quase que adormecido, enquanto eu próprio também durmo na esperança de acordar e ver que o dia é ainda dia. 
Se nos teimarem ser Verão, também seremos, verão que das estações só as do comboio, mesmo que alienadas e despojadas sejam, permanecem inalteradas na paisagem, quem as não tem? Paisagens e estações? 
O frio escapa-se-me e segue, por aí, acalentando olhares de soslaio, sonhos de catraio, dois ou três pares de nuvens e um sorrio. São estas as minhas orações.

2017-04-23

Planalto ressuscitado

Crónica de domingo, na Bird Magazine.

O vento soprava quente, mas lá, sob as oliveiras, esse mesmo vento corria sobre nós, tapando e aquecendo-nos como um morno e invisível manto de serenidade. Era fácil ser feliz sem nada. As pequenas azeitonas colhidas pela natureza antes do tempo marcavam o chão, assemelhavam-se a pequenos botões verdes num acolchoado tecido usualmente parco de cores. Ficávamos ali contigo a olhar o céu, calados, o barulho do vento a fazer com que as folhas sussurrassem entre elas, o baque surdo de uma azeitona a cair. 
Já todos nos perguntávamos sobre o que há para lá das estrelas, tu olhavas quem te perguntava com aquela profundidade de nos saber mais do que somos, sorrias e apenas contavas histórias de casa do teu pai. Dizias que havia por lá muitas moradas e que apenas nos sentíamos sozinhos porque não nos sabíamos encontrar ali, ou em qualquer outro olival, no silêncio que deveríamos aprender a calar. Nalguns momentos em que falavas de algo como se todos o soubéssemos previamente, rias-te quando indagávamos o sentido das palavras, sempre gostaste de metáforas, dizias que o significado surgiria quando nos lembrássemos do que te lembraste, ou do que vieste fazer recordar, e tratavas-nos como se fossemos longos irmãos de jornadas sob oliveiras, bodhis ou outras árvores que dizias existirem noutras estrelas. Como tenho saudades desse tempo.
Quando te encontrei sozinho, venci medo, timidez e perguntei-te algo. É curioso, não recordo a pergunta, mas lembro-me da resposta que deste, ainda a possuo em mim apesar do ruído dos iluminismos e medievalismos de todas estas voltas ao sol. Talvez a tenhas passado para mim pelo olhar, a tua típica resposta à cacofonia com que te rodeavam, aquele olhar fundo que parecia penetrar olhos dentro como se olhasses para (ou soubesses que éramos) o infinito que nos habita no interior. Hoje ainda procuro essas respostas, ou por ti, nos olhos de com quem me cruzo.
Quando foste, como disseste que ias, o que mais enfatizaste, nos momentos em que permitias que olhássemos para dentro de ti, era para termos cuidado com o que oportunistas poderiam fazer com as tuas palavras. Por isso cada um que desejasse o silêncio deveria trocar o folclore, a opulência carnavalesca da necessidade egocêntrica de superioridade superlativa pelas verdadeiras palavras inauditas que são um abraço. O silêncio seria sempre o pautar ritmado do amor, como um pêndulo que vai e vem, sem nunca ir e voltar, porque estaria sempre onde o tempo não alcança. Disseste-o, mas talvez ainda não saiba o que significa, por isso continuo no silêncio e o tempo faz-me confusão hoje como fazia antes. Hoje estou por aqui e enquanto não chega amanhã vou trauteando calado as paisagens que encontro no interior de outros. 
Tu, na mais perfeita solidão de seres único com a pluralidade de todos nós, idos e vindos, o universo criado, expandido, implodido, recriado, na infinita miríade de células que habita todo o espaço onde existes e não existes, vais teimando silenciar e encher de beleza até a mais escareada face de quem se esqueceu de ti e se escondeu de si próprio.
Lembras-te quando, chegados a nova terra que não te conhecessem o corpo, além do contado e acrescentado, permitias qualquer um de nós subir no burrico e ser aclamado entre folhas de oliveira, enquanto nos guiavas, burrico e nós como um só pela rédea solta? 
Que saudades tuas meu querido amigo de silêncios, por cá andamos sem nunca dar o salto, cada um de nós uma escarpa que tentamos escalar, única e simplesmente porque não nos sabemos planalto.

2017-04-09

De mãos abertas

Crónica na Bird Magazine, em 09/04/2017.

Olho para os meus pés e vejo-os virados para locais que não conheço, sinto pequenas mãos que me puxam vestes que não trago vestidas e quando eu mesmo olho as minhas mãos, assim, abertas, estendidas, com as palmas viradas para o chão, sinto que a Terra me tenta falar, deixo que o frio tépido me seduza e as pálpebras sucumbam a um sonho qualquer. 
De que são feitas as minhas mãos? Invejo as mãos calejadas e toscas de quem trabalha no campo, na terra, na vida, as que limpam o suor da face quando o Sol lhes leva o cansaço, as que se metem nos bolsos furados e sem fundo, que apertam outras mãos nuas, sem ocasos ou eclipses, as que suportam vidas e cajados e carecem de carícias.
As minhas mãos envelhecem comigo, percorrem teclas como quem salta de pedra em pedra numa lagoa descoberta por acaso. As minhas mãos lacrimejam quando sentem e estão assim, viradas para o mundo, com estrelas e letras, palavras que ainda não nasceram, tacteiam o escuro em que o mundo por vezes penetra, para depois sorrirem comigo, quando, firmes no volante, um odor lembra um sonho que elas moldaram.
As minhas mãos talvez sejam eu mesmo, abertas, viradas para o mundo, agarradas a um corpo que não conseguem fazer voar, correndo desenfreadamente em busca de um solo quente, de mergulhar em águas ainda não passadas, de se sentirem comprimidas a um espelho.
As minhas mãos anseiam tocar almas, respirar fundo e abrir um portão grande, de madeira, que veda a entrada de todas as minhas paisagens sem fronteiras.
De quanto precisarei para ser do tamanho daquilo que não alcanço?
O vidro embacia, os faróis dos outros carros ofuscam-me a visão apesar dos meus olhos verem as pessoas e as almas que por lá habitam. O limpa-vidros dança numa pequena tentativa de me seduzir, mas na verdade sou eu quem o comanda. A paisagem vai-se deslocando enquanto me guio pelas curvas do destino. Não há pequena eira abandonada que não me queira secar ao Sol. Não há fraga alguma que não me queira abrigar da chuva.
Todos os campos, com os seus cereais, convidam-me a percorrer lentamente, de olhos fechados, com as mãos abertas, sentindo o frio e o quente, o prazer e o êxtase de germinar enquanto anoiteço encostado aos meus sonhos.
Gosto de estar aqui, a contrariar os olhos que teimam em fechar, sinto o sono escorregar por mim, envolver-me no seu manto quente de noite transmontana, mas, no final, sou eu que o adormeço. 
Acena-me com todos os sonhos que me aguardam, serve-mos como se fosse a sobremesa recompensadora de um dia servido mal temperado.
No entardecer das minhas mãos os meus dedos percorrem as últimas e efémeras linhas dos horizontes dos meus mundos, alcançam ainda as sombras longas de pinheiros que nunca subi, para serem também um pouco de sombra e trevas na crista das minhas vidas.
Eu sou grande, fisicamente, mas quando me amparo na sombra de um murmúrio vejo o quanto de crescimento tenho para minguar.

2017-04-05

Fruta engomada

Crónica do nada, no Correio do Porto.

É dia de feira, como sempre é quando não sei que é. Subo a avenida principal, a mesma que tantas vezes quis saber o nome e, ainda agora, não o sei. Creio não ser importante o nome pelo qual catalogámos, as ruas ou as pessoas, embora ache curioso que esta travessa se chame “Rua do Souto” e, do nome, apenas a minha imaginação pode andar por ali abrigada pelas sombras de uns castanheiros que nunca soube darem mais do que terrenos e casas miscíveis.
Paredes tem nome de casa, de terreno entre lareiras de uma mesma brasa e, por isso, talvez me acolha quando decido deixar-me levar pela mão de quem me aquece o coração. A avenida, qualquer avenida, é feita de pessoas e eu que as tento colar à retina, vou atento a tudo o que seja gente e vento. Sorrio pela vaidade que se esvai e esfumaça quando se tenta ser o que as revistas trazem agarradas às folhas. Este mundo não parece ser para esfomeados de espírito. 
As travessas parecem conduzir ao recinto da feira, vejo os carros estacionados, presos, onde antes se deixavam os animais, arfantes, com a laça na argola de ferro. A lateral da igreja não escapa, poucos crentes se atrevem a sair da viatura sem se benzerem, não vá um cristo estar atento e nos julgar cristãos sem grande alento.
O cheiro do posto de gasolina, os carros guardados que espreitam pela nesga do portão aberto e sorriem, as vozes que falam alto o que as pessoas pensam baixo “estava mesmo a pensar em ti caralho!”, o tinir das chaves penduradas na presilha das calças, a boina gasta, o tacão que esgrime passos com o chão. Há poesia que se incute e em mim repercute. Ousasse eu ser menos cego e talvez conseguisse, ainda que por momentos, ver mais além de um mundo que se enche de velhice.
A cada porta cogito sobre o negócio, correrá bem? “Olhe, por cá se rasteja”, as montras parecem adormecidas, as prateleiras enchem-se de tudo aquilo que não faz falta e, do que faz, vive-se empurrando com o esquecimento para trás. Eis que transpiro e sorriso, duas janelas sorriem de cada lado de uma porta aberta, os autocolantes de velhos sumos gaseificados, a fruta não envernizada sobre caixotes de pinho, a prateleira de madeira, a maçã encarnada que olha para mim e se ri por tudo e por nada e a dona, velha, loja própria de quem nunca comercializou vontades, ou saudades, ou lá o que é que me faz parar e olhar para dentro, de mim e do que o comércio é, vê-la ela mesma prateleira no labor de uma geira, a tábua de engomar aberta, a camisa quadriculada de azul e preto, o ferro nas mãos a vaporizar a manhã de sábado e o cheiro fresco a roupa lavada, ou seria fruta engomada?


2017-04-04

Não sei se me emerges no preciso momento em que atravessas de vento soprado o caminho que nem sei trilhar. 
A vida intrínseca ao viver apresenta-se labutada, entre regos estendida, como entregue a si mesma e, por isso, mais vida.
Eis-me saltado no coaxar nocturno das pedras que ainda crocitam mornas, de regresso ao percurso onde as estrelas vêm beber à Terra a loucura dos dias que vamos semeando.
O lento ressoar das escoras que sustentam o dia têm nome de serra, como um mar gigante, Marão.

2017-04-03

Nada sucumbe mais.
As encostas do Douro precipitam-se de amarelo polinizado e eu deixo de me surpreender.
Cada curva sua sentença.
A facilidade do desaprendido cultiva-me a paz.
Talvez hoje, que não chove, surjas por detrás do tempo e arrastes contigo tudo o que ele traz.
Mas agora, agora mesmo, no silenciado universo meu leito, escorrem-se as sombras veraneantes.
Nada é como dantes.
Os encimados claustros sem caminho.
Vais longe, oh peregrino?
A loucura pratica-se na paciência, a certeza de uma polaridade que se esconde sob um capitel,
as valetas valetam gente
a multidão sobre o demente,
teremos em nós ainda uma divindade que se sente?
Quis-me Deus homem e não fraga,
e que faça eu, oh eterno,
se me ausculto no enrugado granito que te pariu
e te afianço pelos reflexos
onde ninguém te viu?

2017-04-02

O sorriso alimenta-se a si mesmo

“O sorriso alimenta-se a si mesmo”, ao domingo, na Bird Magazine.

Gosto de ser surpreendido quando a surpresa se esgueira e me levanta a pálpebra da atenção trazendo o que muito bem entende, pensando que me vai fazer sorrir. 
Gosto de ser surpreendido com boa música, com conteúdo, bem longe do que querem que ouça. 
Só assim é possível alcançar alguma lucidez e calma. 
Chamemos-lhe idade, crise, inconsistência, mas cansa, estou cansado, as pessoas dizem-se cansadas. 
Ainda procuramos no cimo do caminho de terra, com a bola debaixo do braço ou a boneca presa ao peito, a chegada de amigos para jogarem e brincarem connosco.
Agora, no final da rua, está apenas uma bicicleta e eu ainda espero, um dia, pelas gargalhadas e travessuras, por tempos em que nascia um sorriso a cada vento, um abraço a cada golo.
Crescemos, sei-o, levo 41 voltas ao Sol e todos os dias me lembro que cresço, no entanto, a cada vez que olho para a bicicleta pergunto-me se crescemos nas direcções correctas, se vale a pena a maior parte deixar de lado a inocência, o sorriso, a confiança e a garantia de um "juro!"
Antes, como agora, comovo-me pela simplicidade, pelo olhar de júbilo aquando de uma vitória, pela forma mais inusitada de uma nuvem, pelo sorriso de uma cumplicidade. 
Embora todo o mediatismo e as redes sociais façam parecer o contrário, caminhamos todos em direcções diferentes, indiferentes ao que fazer, mandados por uma sociedade que, ao longo de gerações, tem conseguido que todos, quase invariavelmente, sejam aquilo que se espera deles.
Vale a pena ser mais, Mais. Como o grupo de amigos, um verão azul, o vento na cara e todos, sem excepção, a assobiar, por estradas diferentes com um destino único, nós mesmos.
Bastaria sermos amigos de nós próprios, sem necessidade de hashtags, no sossego ameno das nuvens que se atropelam na pressa de saírem da frente do Sol. No entanto vivemos ao sabor do vento, não do que sopra, mas do que nos sopram, como se fossemos pequenos barcos de papel, frágeis, nas mãos de gigantes que, ajoelhados no chão, sopram-nos ao sabor das suas mais asquerosas intenções. 
Crescei e multiplicai-vos rasurado sobre o crescei e amai-vos.
Nós, à deriva, derivando, vamos de vela levantada para onde nos dizem para ir. 
E quando a diversão termina ou o papel está já encardido, espetam um dedo indiferentes a quem por lá navega, com um sorriso cínico no rosto e ficam jocosamente a observar afundar-se um barco.
A liberdade nunca teria que ser conquistada, nasce connosco ainda antes de sermos corpo. 
Como o sorriso. 
E o sorriso é tudo o que basta para aquecer uma noite ou florir um mundo. 
Gratuito, sem depender do que temos, o sorriso alimenta-se a si mesmo e ganha vida, saltando de rosto em rosto, até, cansado, mas feliz, se deixar cair nos braços da amizade e ali ficar enquanto houver quem o escreva.
Era hoje, o dia, em que caminharia por todas as costas até perder de vista os meus passos para passar a ser areia, lavada, levada, pelas ondas do mar e, aí, ser água em todas as costas e descobrir que de terra e água todos temos um pouco, mesmo quem nunca viu o mar.
E o mar, que me tem, sabe-me a mar.

2017-03-26

Que me lembre, sempre, eu, de ser pobre,
adormecer desnudado de mim,
de não distinguir ouro de cobre,
mundano
contra o vil, espartano,
cair por olhar as estrelas
e seguir adiante, ainda que ignorante
do brilho soçobrante das velas,
no meu destino pelo infinito, 
errante.

Livros do que somos

Crónica de domingo, na Bird Magazine.

Faço-me de conta, sentado, banco de madeira, jardim, chuva, guarda-chuva, caderno, caneta, gotejar, pássaros, árvores, livro.
Roubo à vida todos os episódios dos filmes com que me cruzo.
Mais do que um guião, as pessoas, suas expressões, sorrisos, choros, conversas e silêncio são a sua própria legenda.
Eu (coitadito, diz a cigarra), apenas queria ser espécie de personagem, talvez por isso me encontre enfiado no meio de páginas amarelecidas de livros antigos, saído, talvez fugido, de histórias onde moram pessoas, gentes embebidas em fumo e que me acompanham onde quer que a imaginação me queira levar.
Cada narrativa uma vida, provavelmente por isso não me saiam dos dedos histórias, apenas palavras solitárias, casulos de uns quaisquer sentimentos que, acredito, raiam o toque que se quer do amor, Amor.
O Inverno acabou de sair , mas ainda me traz no frio o refúgio escrito na lombada do livro que me olha.
Que pena não me sobejar ambição quanta me brota em desejo de ser apenas o corpo onde repousa uma mão.
Amanhã nascerá dia, luta uns dirão, o corropio de correr atrás de uma falsidade e descansar, talvez cair, quando já o Sol se cansou de esperar por nós e ordena à Lua que nos venha deitar os olhos enquanto descansa.
Mais umas quantas palavras e tenho já o meu abrigo completo.
O vento passa já ao largo, assobiando nas esquinas daquilo que não encontra, um pouco mais e até a chuva se limita a deixar pingar o som das águas no telhado.
Poucas letras mais.
Faço a última fiada com aquilo que sonharei, sobrará espaço para o fumo sair e o lume, esse, que aquece, apenas crepitará já quando de olhos fechados, e talvez molhados, um dos personagens que me vestem de humanidade trouxer um braçado de sonhos em forma de lenha e perguntar:
- Consegues ouvir o quadro com as paisagens que te chamam?
Mas eu sou surdo também, mudo, mudo de sentido e de posição, porque o tempo não se intimida (nem eu).
O bater do relógio sabe forjar o tempo sem fogo.
É trôpego o nascer do dia, sem cansaço que o adormeça, diverte-se a pintar, minuto a minuto, cor a cor, o horizonte.
O que te chama, entre molduras, da chama ao café, do monte ao livro?

2017-03-23

Sorrisos grátis

In Correio do Porto.

Sentir e ver momentos de carinho despojado é raro, talvez por não estar com os olhos sempre sintonizados na frequência certa ou, simplesmente, porque nem sempre eles saltam à vista.
Estou na fila para a caixa da Staples (Constituição), na caixa três meninas, uma funcionária e duas pré-funcionárias (estagiárias).
A funcionária mais velha explica às duas meninas o que devem fazer, como fazer, aponta todos os detalhes, creio que alguns detalhes nem ela se lembrava.
Ensina com um carinho e sorriso na face, com uma sinceridade que desmancha o egocentrismo, uma autenticidade despojada de quem dá de si, para que outros sejam mais do que ela mesma.
Sem medo de se ver ultrapassada.
Parece-me tão raro.
Na vida e na escola.
Quantos de nós ensinamos de facto tudo o que sabemos a outros, sem medo que nos ultrapassem?
Ser professor, de escola e de vida, deve ser isto mesmo.
Sermos degrau para mais altos voos.
Paguei.
As estagiárias, atentas a todos os procedimentos, nem reparam que a monitora escreve incorrectamente o nome da empresa na factura, mas que interessa este pormenor?
No meio disto tudo, recebo as duas sacas e a resma de papel e levo comigo três sorrisos.
Sim, os sorrisos foram grátis.


2017-03-19

Pai

Crónica, na Bird Magazine, a respeito deste 19 de Março.

Aperto as mãos e faço força para que os braços não me escorreguem. 

Encosto a cara ao blusão velho, cujo cheiro consigo distinguir na memória e fecho os olhos. O barulho da mota soluça pela noite, tenho uma lágrima presa pelo frio e o sorriso congelado na felicidade de imaginar, ainda hoje, a mota negra a ribombar por uma estrada imaginária em direção ao céu.

Nada há que prenda mais à vida do que as mãos calosas de um pai, o cheiro a barba desfeita, o pegar no pincel às escondidas e imitar o gesto paternal, afagar a face barbeada e olhar, de baixo para cima, a imensidão de um ser que, saberemos depois, imitamos os gestos mesmo quando, muito mais tarde, nos confundem como irmãos. O tempo encarrega-se de nos parir para a vida, vamos subindo os dias como que se fossem ainda aqueles muros de pedras mal amanhadas e musgosas, cuja integridade se dilui um pouco como a espuma da barba quando a água se esvai pelo lavatório. 

“Ali ao fundo, vês?” Pergunto-te como se estivesses ali mesmo ao meu lado. Não o estás da mesma forma que os outros transeuntes, mas para mim é como se estivesses, ali e em todo o lado, porque me habituei a ver esta irrealidade que nos tenta içar ao infinito como se pelos teus olhos vislumbrasse e, mesmo assim, como os pequenos presentes de Natal ou os sacos de amêndoas de chocolate que escondias nas mangas do sobretudo, todo o insondável mistério da vida se augura como uma longa, por vezes lenta, caminhada de descoberta das nossas próprias mãos, das nossas próprias mães, dos nossos próprios pais. Sei bem a que sais, nas cãs e no silêncio em que pronuncias todas as milhares de páginas que leste e eu, filho, que nem sei como entrar nesta coisa a que chamam vida, ainda tímido sou a tarde de sábado que te convida: “Como é, vamos ao café?”

“Ali ao fundo, vês?” Pergunto de novo. Há um pai com os pés na água fria do mar, um sorriso que oscila na maré deste sábado de manhã, uma criança, talvez eu, que experimenta a areia fina cujo tempo depositou com carinho e caminha, não com medo, talvez curiosidade de sentir entre os dedos dos pés a facilidade com que foge de nós o momento em que juntos, pela cumplicidade, parecemos sós.

Sabes o quão estreita parece a vida, mas é por isso mesmo que, no crepitar sôfrego da vela sobre o pavio onde ouvíamos as noites sem electricidade, me faço mais homem. 

De eterno temo-lo a Ele e d’Ele, os olhos, os teus, são a porta de entrada para a recordação do que serei quando a vida me vier trazer mais Vida e, como tu, me pegar ao colo e me deixar adormecer porque a noite caiu e a maré terminou. É agora que sei quem sou, os dias ásperos de quem a própria transpiração suou, a terna carícia que surgia quando me fazia adormecido. Este mundo é pequeno demais para sermos pai e filho.

“Sem nada para falar, para tudo te dizer”, escreveste um dia como se todo o conhecimento se resumisse às vezes em que olhamos juntos, ainda hoje, páginas distintas de um só livro. De quanto vazio precisaremos todos para apenas assim sentirmos, sabermos, que é de facto desta forma que temos tudo?

Assiste-me a circular tendência de me ver família de mim mesmo. Sei que no início era o verbo e este, no infinitivo, conjuga-se assim pai: eu amo. Eu, pai, amo-te.

2017-03-12

Não saíram de mim as estrelas

Crónica de domingo, na Bird Magazine.

A campânula treme assustada pelo silêncio que se inclina sobre o vale. 
Aqui, as caminhadas nocturnas são feitas por entre o nevoeiro que se liberta da terra, quente ainda, porque os dias se fazem mais corados, estendidos no esverdeado pasto. 
O sino repenica pelo valado, cansado de subir encostas que só vêm eucaliptal e fogo, quando ao homem interessa tal.
As pessoas acumulam-se na multidão de pares, teremos seis ou sete casais, viúvas de gente feita, feitas de gente que jamais abraçou outra cor além do negro. O padre chegará e falará, do alto do seu catolicismo, muitas das vezes separado dos iniciais capítulos (e por isso mesmo, mais virginais) do evangelho e por entre o medo da vida e o terror da morte, cá se pecamina apenas e só por respirar.
O dia folcloriza-se, jazem ferramentas térreas, suadas de suor alheio, pelejadas de calos, caídas como sulfato aspergido ou como a estrela cadente que vi pousada num cabo eléctrico à espera que alguém a visse e se precipitasse horizonte abaixo, porque o horizonte não é onde a vista alcança, é onde os olhos descansam, a meros metros de distância, para lá do infinito ou, comummente, para cá do olhar, dentro da galáxia de células que dominam o meu olhar. 
Será sempre um caminho, percorrido ou por percorrer, um abraço ou uma bolacha de um velho sortido engalanado como presente de aniversário. 
Vou-me contando pelos dias, sabendo que quando os vivo transformam-se em mim mesmo, dia 12 de mim, de 2017 ou de 1935, um ano bastará para saber que contados os 365 dias e as 6 horas, não sobraram minutos ou segundos por viver, vendo paisagens e horizontes sem nunca se tocarem, como duas mãos de um mesmo corpo que nunca se juntaram, em oração, em exaltação, em carpintarização.
As mãos formam, cada uma a seu estilo, linhas disformes que afluem nos rios em que toco, sem lhes competir saber se o dono do composto químico baseado em carbono sabe, ou não, nadar.
Não saíram de mim as estrelas. 
Pelo contrário. 
Continuam desenhadas no interior de mim mesmo, para que as veja mesmo quando a nebulosidade de um dia cinzento ou a cinzenticidade de pessoas sem dias se sobrepõem ao facto de, para mim, o dia ser o momento em que procuro a sombra e a percorro, da cabeça aos pés, para me ver nascer da crepuscilidade ao desnivelado mirar trepidado pelo percurso altibaixado que faz vibrar cada letra que me compõe.
Há dias em que me vejo acordar ainda antes de abrir os olhos, acomodo-me a este invólucro e levanto-me como se o dia existisse mesmo, palpável, como um copo entre dedos, um corpo entre braços, para depois me ver adormecer, ainda antes de fechar os olhos, levantar-me e olhar para trás, para o milagre quântico que jaz apaziguado com o lençol e Eu continuo, de noite, ao encontro do verdadeiro Sol.

2017-03-10

Fascínios

Fascínios, no Correio do Porto.

Por vezes viver é isto mesmo, com letra pequena, perdido nos ses da vida, assim mesmo, com letra pequena, para me descobrir, sempre, com letra grande, sem me fazer escrever, porque também não sei viver muito bem.

Há algo de mágico que me fascina, sempre, as côdeas duras, o resto dos cereais no fundo do saco de pano que foi útero de pão que me alimentou, um casal de idosos que aguarda no separador central de uma avenida um carro que lhes dê passagem (e a passadeira a dez metros), o levantar do chapéu em saudação, o avental azul-escuro com um bolso central de alguém que traz um “puxo” de cabelo grisalho, uma cara vermelha que exibe o conteúdo de um saco plástico, um par de botas novas, marca feirex como usualmente ouço dizer em tom trocista, um puto que transporta um carro de bombeiros, de plástico, como há muito não via.

Serei feliz apenas com o meu olhar no fundo de uma chávena de cevada, quente, em que me vejo rodopiar no sentido dos ponteiros do relógio, envolto em mim e na espuma.

Serei feliz apenas com os olhares que encontro na vida e me recordam de mim.

Olhares fundos que procuram e encontram, nas pessoas e nos mundos, nas paisagens e nos encantos que as letras me trazem.

Não sei ser mais nada, além do que sou, e isto emociona-me.



2017-03-05

Olhares

Crónica de domingo, na Bird Magazine.

Vou redireccionando o sono para regiões recônditas do meu ser, mas onde quer que vá acabo por me encontrar. Amanhã suceder-se-á a este momento e lá me encontrarei, não sei com que estado de espírito, mas estarei. Fico a percorrer caminhos que trilhei apenas na mente, não são palpáveis, mas saboreiam-se, como o sabor de uma guloseima que cobiçámos, embora hoje em dia a oferta seja tanta, que os nossos gostos são moldados pelo que nos chega aos sentidos e não ao contrário. E por ser tanta a oferta e tão inusitado o gesto de escolher, que me retenho na recordação de um dia, ou noite, como outro ou outra qualquer, num corredor igual a tantos outros, que pena pecarem pelo mesmo as grandes superfícies. 
Seriam quase 22 horas, hora de fecho ou próximo, percorro sem olhar as prateleiras das guloseimas com um misto de saudade pelos tempos em que algo doce era um rebuçado da tosse ou uma bomboca, quando muito um pacote de bolachas alfa ou, o top dos tops, um gelado.
Fico no final do corredor, rodeado de delícias, quando vejo um adulto, mais velho que eu, com um pacote de gomas na mão e a olhar para os restantes pacotes, com imensas variedades de sabores, dezenas de cores cuidadosamente seleccionadas para atrair os pobres insectos em que nos tornamos, quando não moscas atraídos pelos excrementos que nos tentam impingir. 
Chama-me a atenção para o rosto do rapaz (e o aspecto singelo e puro que possuem aqueles que a sociedade cataloga de deficientes), o penteado, as calças de ganga desbotadas e curtas, as meias brancas e as sapatilhas uns números acima do que certamente calça. 
O pacote de gomas na mão, o olhar nas outras, a indecisão, a certeza de um sabor conhecido pela aventura de um pacote mais colorido e com múltiplos sabores. Eu, disfarçando, demorando mais tempo que o necessário em torno de umas bolachas que não tenciono comprar. 
Olhou para mim, cruzou o olhar comigo, apercebeu-se que estaria a admirar a cena e, num movimento rápido, trocou o pacote por outro, não sem antes baixar a cabeça e me olhar, pela última vez, com uma expressão que se assemelhou a mescla de vergonha com tristeza. 
No final, enquanto relembrava esta imagem, vá-se lá saber porquê, surgiam-me lágrimas nos olhos, um misto de alegria e tristeza, um rememorar de momentos em que eu, talvez, em frente a uma prateleira com duas ou três sacas de rebuçados, decidia pela que mais se adequava à minha carteira, consciente que, tal como na vida, alguns doces estão caros de mais para o que desejamos, mas no final, nenhum dos desejados serviria para a nossa fome de Ser.
São estes olhares que me mantêm vivo.
Sempre os olhares.

2017-02-26

Eu só sei ser calado

Crónica na Bird Magazine, em 26/02/2017.

Percorri as prosas rimadas que tinha esculpido. Há um sentimento de partilha comigo quando leio do que me escreveram as mãos, sinto um pouco de orgulho, havia ali uma sílaba que me fez sorrir, dizia-me: “Olha, era isto que estava a sentir”.
O vento bate na porta da igreja, encosto-me por instinto e por escassez de lugar nas últimas filas que ladeiam o corredor, lousado, irregular, que guia ao altar. Há a distância que se quer do sagrado. Sequer ousasse sacralizado.
Bate leve, levemente. Eu não sou, será gente? Era gente sim, que se escorre de frio e fecha o guarda-chuva no silêncio possível, deixando-o encostado a espremer-se de água caída e a dormitar orgulhoso de vareta curvado. Tudo na vida faz sentido, até o silêncio que trago comigo, arado.
Deu-se início à cerimónia, a natureza conspira contra o solene acto de mnemonizar grafias antigas que outros urdiram em sacralizar, o barulho da porta a bater nas minhas costas, o desequilíbrio e o bater de ambos, porta e eu na ladeira granítica. O olhar ríspido, altivo, inocente e sem sacralidade sobre os óculos para mim faz-me confundir com a porta. Encosto-me e finco os pés. Se alguém bater, por leve que seja, não entrará hoje aqui, na igreja.
Tu estás encostado à esquerda de toda a gente, quando nos disseram que estarias à direita do pai. Sei o que isso é, também eu ia à sua direita, imitando os gestos do volante com um velho livro do Lucky Luke. 
Lembraste quando me disseste onde ias estar dali a uns anos? Rimo-nos. E choramos. De quantos sois precisaria o olhar humano para sentir a imaginação sequer do ameno calor daquilo que nem a realidade te soube contar? Pelo teu acordar valeu a pena adormecer, de vela oscilando de sono no pavio retorcido, esmorecido.
Há uma cacofonia que teimo em não escutar. A pedra onde assentaste, sabia-lo, iria trazer a aridez plutónica do que arrefeceu na profundidade de cada um que se seguiu. 
Uns que entram e saem, admirados por me verem ali, de porta fechado, eu no futuro, eles no passado.
Confundem-me com a porta, saem todos no remoinho de gente no inverno, folhas que um vento levou porque rezaram, mas ninguém de ti se lembrou. 
As luzes desligam-me, fecham-me como porta, o ferrolho corre preguiçoso no áspero ferro. 
Há agora espaço de manobra, bancos de sobra, coincido-me com o andor e fecho os olhos quase como quem se acorda. Em espaços de madeira onde se ajoelham as saliências de quem se fez terra entre leira, também eu soçobro e deixo cair baixinho duas gotas de saudade. 
Tu surges. Ris-te. Eu choro, envergonhado, não lacrimejado. 
Há meia dúzia de palavras que nunca soube proferir, o ruído do ferro que se rangeu quando os pregavam, nós escondidos, eu com medo e tu senhor, em segredo, sabias já, sei-o agora, do bafiento agreste inodoro arrastar de sotainas por quem te chama em sussurro, para que não venhas. 
O vento bate com mais força. Eu nem sei porque me demoro, nem por que acordo, mas tu alças o braço sobre o meu corpo carregado de ignorância e desambição. 
“Eu só sei ser calado”, desabafo em torpor, mas dizes-me que “isso é o amor”. 
Eu chamo-lhe silêncio e tu, sorrindo: “Sim, por acaso me viste gritar?”

2017-02-19

O caminho não é senão o que fazemos imóveis

Crónica, na Bird Magazine.

Nada atemoriza tanto, nem cativa de forma igual face a tudo o que encerra, que uma folha branca num caderno onde sonhei depositar sonhos.
Não me parece existirem montes suficientes onde eu possa desfrutar, na mão cheia de dias de vida que me restem, de um pôr-do-Sol empoleirado numa rocha.
O colorido Sol que se aninha por trás de uma colina adivinha um tolde cinzento salpicado por cinzas pequenas, trazidas pelo vento, para que ao longe todos se apercebam da tragédia que são estas labaredas. Talvez seja um desesperado acto de consciencialização, as árvores, flores, vegetação e talvez até animais, que se deixam consumir em carvão e farrapos cinzentos, a cinza que se respira, que se aloja no nosso corpo e se transforma ou reforma dentro de nós, encostadas ao nosso âmago, aconchegando-se àquilo que nem nos lembramos de possuir, um coração, para que possam sobreviver mais um pouco.
Acredito que sejam estas cinzas que choram quando o meu corpo as leva, sem saber previamente, ao local onde elas próprias se cinzelaram. Não queimaram ali, mas a cinza (ao contrário do ser humano, sente e por isso sabe-o sem dar lugar a incertezas) vê no negrume do queimado as suas próprias mãos, ramos e sonhos. Uma árvore é-o aqui como é num outro monte, não há duas árvores, nem tão pouco uma floresta, uma árvore é a mesma árvore onde quer que esteja e não será, parece-me, por nós não o sabermos ou acreditarmos, que ela deixará de o ser e de sentir sua a perda de outras, assim o pensámos, árvores. Temos tanto a aprender com elas…
Vamos aprendendo o que outros sabem, sem grande margem para aprendermos o que nós próprios nos ensinamos, parece-me que corroborar algo escrito se torna o caminho mais fácil quando o escrito está já institucionalizado.
Percorremos as estradas que outros, a seu tempo, traçaram e, convenhamos, bem o fizeram, mas não será este o tempo de nos cansarmos dos mesmos caminhos e dar azo a que novos trilhos surjam, aqui e ali, primeiro como indeléveis percursos de vegetação calcada, gravilha depositada, serpentados atalhos daqui até ali, para darem origem a alamedas que, depois de abertas, surgem tão óbvias que nos fazem indagar, como raio é que não vi isto antes?
Até aqui a vegetação, as árvores, nos prestam o seu legado ao serem elas mesmas a dizer, vem por aqui, olha como me prostro, para que vejas este caminho. Serão elas, brevemente, a dizerem, perguntarem, não estás farto desse caminho? E a indicarem, a quem as quiser ler, que não sobram espaço nos livros para os mesmos caminhos, que há necessidade de mais, ou menos, e à medida que nos libertamos do peso daquilo que conhecemos vamos subindo, descendo, em espiral até ao momento em que este corpo será forro para o caminho que as árvores percorrerão e nós perderemos as dezenas de gramas que alguém pensou serem o peso da alma, mas a alma não tem peso ou massa. Estas dezenas de gramas são o correspondente às cinzas das árvores que nos fizeram caminho e estavam, há muito, alojadas no nosso coração.
Dia virá, como o vento, como as pessoas que passam neste trilho, em que saberemos o caminho para casa e as árvores não tenham a necessidade e quase obrigação, como espécie mais inteligente, de se sacrificarem e em cinza subirem connosco para que aprendamos: o caminho não é senão o que fazemos imóveis.

2017-02-12

Quando nada se vê é aí que tudo se tem

in Bird Magazine.

Não espero encontrar ninguém, no entanto, quando acabo de me desfazer da curva apertada à esquerda, enfrentando o calor, eu, a subida, o carro, um bordão alto e retorcido, negro como a ambição, apoiava-se a um homem hirto, senhor da sua idade, com uma boina sem qualquer padrão, contrastando com a indumentária quotidiana de quem se veste para proteger o corpo. A figura parece-me saída de uma encenação, acrescentando (e daí a riqueza) a pobreza de nada ter além da pose, o bordão, a mão sobre o nódulo da madeira e o queixo sobre a mão, deixando as costas da mão direita, como pude ver depois, com o picotado profundo da marca da barba rasteira como urzes e persistente como o amor.
Soluço, eu e o carro, subimos o alcatrão negro imaculado, não fosse esta estrada caminho para terras de ninguém, aqui nada deve passar além do que vai para além, entendam-se os defuntos, no último cortejo cujo negro cerrado contrasta com o colorido disperso de romarias em honra de santa qualquer coisa que Deus lhe valeu, a todos, menos eu. 
Em terras de cegos, todos vêm o que necessitam e por aqui, quando passo pelo homem que facilmente se confundiria com espantalho, abrando e lanço um educado boa tarde. A natureza traz-me silêncio e parcas narrativas à nascença, mas nunca falta de desenvoltura no bom “o que quer que seja”. Uma ligeira curva à direita e um pequeno largo antes do portão fechado à fé e aos ladrões. Ajeito o carro e o olhar para ficar voltado para o vale e fico ali, a ver o verde que se estendeu retalhado aqui e acolá por um pouco de castanho, pintalgado de branco, negro e castanho da vaquicidade que pasta. Ouço o cascalho ranger, uns passos. 
- O senhor vem por causa do terreno?
- Não, não venho, vim só ver as vistas.
- Olhe que vem ao melhor. Quem comprar ali a cavada não vai saber aproveitar.
Ficamos ali. Eu a fazer o que sei de melhor, calado, o vidro aberto, o calor abafado, o suor nos braços. Ele a olhar para o mesmo horizonte que eu, o corpo abafado ao calor habituado, o bordão a completar esta santíssima trindade.
- Se não chegam, vou eu, tenho ali uma estufa dos tempos da minha mulher, todos os anos dá morangos e agora desde que ela partiu, dá-os fora de época. Sabe o que é saudade? Oh pá, isto enfia-se pela gente e dá às vezes um nó tão grande que se ainda tivesse forças, mandava-me a pé até ao Ermelo e arremessava-me de lá de cima só para ir ter com ela. Mas, olhe, depois vem a consciência sabe, a consciência é coisa de Deus, a gente matuta nas coisas e pensa que se o tempo não nos colheu ainda é porque não é tempo de colhedura. Não acha? - não tenho tempo para pensar em nada. - E depois, quem ia tratar dos morangos fora de época? Já viu? Vêm os inocentes a este mundo, ainda lhes pus o prástico por cima e em dias de vento ainda calco com um pau grosso. Olhe, vê este? - é o bordão onde se apoia – Estava por lá hoje, mas como estou meio cansado do calor e num há vento, trouxe-o comigo. – O bordão impassível parece piscar-me o olho – Se eu lhes faltar, coitados dos morangos, nascem e morrem sem conhecerem ninguém.
O silêncio cai novamente e instala-se entre nós mais uns minutos, a olhar também para o horizonte.
- Olhe, aquilo do Ermelo, é a gente a falar sabe, eu não faria isso. Um homem se não fala não vive e se num manda isto para fora, ainda arrebenta.
Olhei-o, cruzamos o olhar por momentos e antes de eu me despedir apertando a minha mão esquerda na sua bolbosa mão, sem entender que a tarde quente me tinha feito mais homem, ainda rematou.
- A gente habitua-se a estar sozinho, mas nunca está sozinho, tem amor de Deus, sabe o que isso é? Foi ela quem mo disse. Amor de Deus, é como dizia o Cristo quando ninguém o escrevia, quando nada se vê é aí que tudo se tem.

2017-02-11

Moradas

in Correio do Porto.

Percorro atalhos com a visão enquanto permaneço no caminho usual. Não há plano, apenas uma curva a seguir à outra. Tenho tempo e distração suficiente para ver um pequeno triângulo de terra tratado, lavrado, plantado e florido, tudo num só retalho. Uma miragem real num solitário canto entre eucaliptos, pedras e matagal abandonado. Dou por mim em pé, descalço porque a situação assim o exige e também porque assim é que em nós entra aquilo que pariu. Olho para uma pequena planta. Tenho gosto a mais e conhecimento a menos. Não lhe sei o nome, não interessa, serviria apenas para a catalogar, assim liberto-me de identificar e dedico-me a desfrutar. Vejo-a crescer lentamente, mas ainda mais rápido do que poderia supor, enquanto passam por mim ascendentemente flores, folhas e suas nervuras, caule. Quase ouço a seiva bruta sugada à terra em forma de água sais minerais, só quando vejo o chão percebo que não era a planta que crescia, mas sim eu que diminuía. Descalço, minúsculo, começo a entrar pela terra até não ser mais eu, mas sim um pequeno torrão de terra, húmus, mineral e seiva. Vou diminuindo estranhamente, mas consciente, mais consciente agora que me sinto toda a terra, água e lava. Ascendo enquanto impludo, como se de mim crescesse algo que só se pode manifestar quando de tão pequeno se faz mais ínfimo. Rapidamente sou partícula, qualquer uma, esqueçamos nomes, que ancorou neste aglomerado, irmão e irmã de todas as outras partículas e não partículas e quando me vejo ser e não ser, com todos os infinitos como sendo meus, pergunto-me: será assim que se sente deus?
Estaciono o carro, olho pelo retrovisor e aguardo ao som de Ragcpickers Dream, passam poucos segundos quando me vejo correr saído da curva, sorridente, até chegar ao carro, entrar como se não existissem barreiras físicas, olhar-me extasiado e dizer-me, com o brilho de um puto que descobre algo inteiramente novo: sabes que descobri? E antes que eu argumentasse com o tempo que perco comigo e o preço do combustível, já eu me dizia: rezam sem o toque do chão nos pés descalços, encomendam milagres e resguardo de problemas seus, sem conhecerem que dentro delas também ele mora, quem? Deus.

2017-02-05

Tempos

in Bird Magazine.

Aquele adensar de cinzento leva-a a meter os imaginários, mas não menos reais, braços para abrir caminho, como quem se separa da multidão e abre espaços para passar, muitas das vezes sem saber para onde, o que é já o melhor dos motivos. 
O céu escurece, as nuvens querem-nos vedar o acesso às estrelas e a lua rompe por segundos o cerco, para olhar para mim muito séria, talvez, como eu, desconhecendo o que se está a passar. Pisca-me o olho, metaforicamente claro, e desaparece lentamente. Primeiro ainda acompanhei a luminosidade, depois vi-a diluir-se nas nuvens, como um sonho que tentamos recordar de manhã ao acordar e o mesmo se vai escondendo para dentro de nós próprios. 

Tenho os sonhos a espreitarem, timidamente, por entre as palhas do ninho. Que céus voar se o ar respirado esvoaça dentro de nós e nos expira de encontro ao mundo? Alguém se aperceberá da prisão com que nos cercam diariamente? Dão-nos o colorido papel de embrulho com o qual nos envolvemos, felizes por ter aquilo que disseram que queríamos, dizem-nos para dizer que assim se diz, assim se embrulha. Vai e ensina, sê um bom produto. Não tardará até nos darem o laço, a bruxuleante fita que ornamentará o pacote fechado onde dizem que te podes exprimir desde que digas o que te disseram para dizer. Um dia quererás chegar ao céu e conseguirás faze-lo, sem te aperceberes que tocas a tampa do teu invólucro e morrerás feliz, com f pequenininho, porque atingiste aquilo que te disseram que é suposto atingir. 
Atingirás algum dia quem és?

A noite está bem instalada, um cão ladra, ninguém responde. 
Acabará por cansar-se e, volta e meia depois, deitar-se-à e vai adormecer, entrando no sonho sem pedir licença e usufruindo da lua que o nevoeiro me roubou. 
Só por hoje, ouço, e embora sinta e saiba que muitas outras noites se seguirão, há algo nesta noite que me diz que a lua está à minha espera nos céus por onde voo quando acordo do lado de lá da minha vida.
Sabes quando desligo a luz e ao som da tímida chuva imagino o grosso cobertor de tiras, a camisola de lã, o resto das brasas a adormecerem, sombras invisíveis no prolongamento da noite pelas paredes. 
Arfas ao meu ouvido enquanto descansas a cabeça no meu ombro, farto de vagabundear em mundo sem árvores nem Outono. 
Desiludido, dizes-te cansado. 
Pergunto-te, porque corres tu tempo?

2017-01-29

Agora, que todo o tempo morreu

in Bird Magazine, em 29/01/2017.

Vou caminhando por entre as palavras, há um labirinto imenso de onde não quero sair, a dimensão onde tridimensionalmente me acometo às letras e as guardo, para mim, apenas, sem saber delas onde pousar lesto o pé e devagar o olhar. 
Cá dentro, na caixa onde se inspira um bater compassado, vou tecendo de olhos no céu um arco de volta perfeita, cabendo na palma das mãos a luz que invoco à gravidade do astro que um dia sonhei brilhar. 
Não há pausas na vida quando ela se senta ao sol, parada, contente, como um punhado de flores que se sabe feliz por não ser gente. 
Floresça a realidade por fruto de imaginação, quando nada há a dizer tudo se escreve pois infla soma e esvai-se psicose no direito a ser-se mesmice. 
Quem nunca pesadelou no que já disse? 
Esqueço-me de vós, mãos, porque vos trago em concha na tentativa de vos encontrar pousadas sobre os meus ombros.
Quantas palavras da nebulosidade condensaram os pensamentos ascensos? 
O Sol permite-se descansar no meu colo e enquanto tomo conta dele, passando-lhe, com cuidado, a mão sobre a cabeça cujos cabelos labaredam no final da manhã, o dia vai madrugando ainda que se faça noite dentro dele, do Sol ou do mim.
Olho o céu que me permite sonhar com dias sob um céu de todas as cores.
Acordo estupefacto e na ironia do despertador, cuja passividade horária me abala, sinto-me mais nuvem e menos cal, onde se abrasem água e terra, mineral e sal, tu e eu.
Da minha janela não vejo nada. 
Sonho com o descerrar da cortina que me permita ver o que sonho. 
Há-de haver a encosta, que a minha alma tanto gosta, e um cantinho de terra onde nascem as sementes que me plantaram. 
Há-de acabar por fim o vítreo do futuro que oscila entre ontem e hoje, para deixar que a tarde desensolarada se permita estender a sombra pelo meu corpo abrigado e vá, pé ante pé, aquecendo-me de dentro para fora.
Fecho-as, mãos, agora, que todo o tempo morreu e vou, caminhando, do silêncio semeado ao canteiro de onde me plantei, quase por acaso, quando por mim mesmo, ingenuamente, sonhei.

2017-01-22

Onde o ribeiro passava

Crónica de domingo na Bird Magazine.

É sob as estrelas que me confesso senhor da criança em mim. Longe dela, alcanço-a sentada a ler num qualquer valado. Lê campos de trigo, pomares e estuda ao pormenor as grainhas das uvas que imprudentemente trinca.
Chego a perguntar-lhe o que lê, mas afasta o livro e o pequeno bloco onde anota os shares e os custos das suas acções preferidas, as boas acções.
Desenha caras, episódios, gentes e momentos que parecem saídos dos tempos de escola, sentimentos, sensações, passos semipassados e alguns empurrões.
Tudo ganha forma de disformidade imaginada, existem poucas letras na beira da estrada, apenas passos a descansar, refúgios, não vá um dia o mundo acabar!
Consigo erguer-me à altura do ombro enquanto dormita embalado por alguma recordação.
Hoje não.
Amanhã talvez.
As palavras que este outro eu redige são as lembranças de criança adulta, poderia eu saber que estas frases mal confeccionadas são na realidade toda a minha, avulsa?
Cada passo imprevisível hoje traçado, estava há muito escrito pela criança que fui e sou.
Ontem não foi passado.
É um presente arrastado, que irá desaguar quando as primeiras chuvadas fizerem desfolhar caoticamente uns organizados trilhos e lembranças, que são minhas estradas no futuro.
Foi-se embora. Caderno em cima do muro.
Terá terminado o som do meu caminhar ou estará apenas a dar-me uma oportunidade para da vida descansar?
De uma passada passo, passivamente, de um momento para outro. Cada calçada sua sombra, cada sombra seu pavimento. Assim me disse ele antes de teimosamente zarpar numa forma de navegar a pé pela ondulação encrespada que rodeia o vau. Avisei-o do mau tempo, de promessa de vento, da noite que não tardaria e do perigo das estrelas geladas em terra fria. Ele sorriu, rejeitou a minha oferta, uma noite no meu coração, disse-me que precisava chegar a mais, assim lhe dita do alto um Adolfo com nome de arbusto ou flor, o mesmo que lhe prometera guarida caso a noite se fizesse ameaça à vida.
E partiu, encontrei-o anos mais tarde, ao dobrar uma folha, na aventura de um conto, pareceu-me novo, destes da montanha. Como invejo a liberdade de ver o mundo pelos olhos verdadeiros, sentar-me na margem de rios, ribeiros, esperando maré, vaza, e escutar o murmúrio do silêncio dizer-me:
sentem falta de ti, lá onde o ribeiro passava.

2017-01-20

Eu e tu, noite.

Crónica no Correio do Porto.

Pouso a saudade no cimento frio. Nestas noites, até de mim rio. Deixo-me a olhar o céu, a claridade do dia a desaparecer, sombras de um sol já a esmaecer, as estrelas começam timidamente a cintilar, parecem mais envergonhadas do que eu, ganham força contra o próprio céu e, de este para oeste, de oeste para este meu mundo, formam as constelações que eu quero. Fazia-me já falta, o deitar no chão, o calor da terra como cama, o frio que se desprende até à madrugada. Eu e tu, noite. Eu e tu.
Sibilantes correntes telúricas impelem-me a içar parte de mim, sou já folha de livro por ler, a esvoaçar, sem já me ter. Saio leve e sem prisão, sem fulgor ou religião, ascendo sem o saber, apenas puxado pelos sorrisos e aromas que mora em cada uma das estrelas. Sem lei, apenas uma, bem sei, gravada num olhar fechado sem cor, Amor.
Olho para trás, já só eu no chão jaz, passo para o lado de lá da noite e espreito por cada uma das estrelas para este pequeno mundo (que percorro feliz e vagabundo), quão pequenos, insignificantes, raros e preciosos, quão sobejamente subjugados por meia dúzia de perniciosos. Espreito por outra estrela, e por outra e mais outra! E tantos mundos e galáxias, estrelas e pulsares, tantos sonhos iluminados, tantas mãos para Amares... Rio-me da cadência das estrelas, do rasgar dos céus em sinfonia caótica, tudo tem ritmo próprio e propriedade sinfónica, tudo cintila em reverência, tudo tenho eu, até a presença da tua ausência.
Daqui, nunca as distâncias profundas que separam os quotidianos pareceram tão infames e ínfimas... De página em página folheio-me de regresso, caindo, amparado pelas invisíveis mãos de outros nomes já não proferidos, até por fim o calor do chão já frio me fazer sentir carne, ínfimo, infame.
Abro os olhos.
Sou maior que os meus sonhos.
Consagro-me ao silêncio, não fosse esta timidez de existir, dir-te-ia que tens bem perto no céu, uma estrela por ti a sorrir.

2017-01-17

Tu que me ouves o silêncio,
entrando
a noite sem cais,
um mar inteiro náufrago
pergunta à espuma baça da maré
onde vais?
Nem me sei escrito
eu que confundo o silêncio com a montanha
grito
onde me cais?
E soçobro à singularidade matinal
a vida na manhã sacia
o arado
o sonho
o Deus
dá-me vontade de outros tantos eus,
no olhado semeado
a inocência infantil aspira
reflexo apaixonado que partira
ausculta
em que nota amais?

2017-01-15

Caminhos

Crónica na Bird Magazine, 15/01/2017

Chego a um caminho que percorri de sacola às costas durante os anos da escola primária (saudades e reconhecimento à professora Eugénia e à Srª Rosalina, cujo sorriso ainda me cativa). Os campos tímidos e nus. Resta a presa de água, o rio e um pescador. Parece-me ver os marmeleiros do lado de lá do rio, os mesmos aos quais puxávamos os ramos na ânsia de apanhar algum marmelo. O caminho está mais largo, ainda de terra batida, rasgado para dar passagem a qualquer carro que deseje levar o seu dono pelo meu caminho da escola.
O sol cobre os campos saciados e convida a parar um pouco. Pergunto-me se a mina ainda está no mesmo sítio, se ainda tem rãs e quase me convenço a ir lá, tirar as ervas, afugentar as rãs e beber. É engraçado, não é? Não há nenhum caminho por onde tenhamos passado que não possua ainda os nossos passos. Tenho vontade de ficar sentado ali, a ver-me passar para a escola, neste caminho onde o passado e o presente se cruza, onde os meus olhos ficam rasos de água, apenas porque sou feliz.
Grande parte do caminho está tapado, o mato, silvas, eucaliptos e fetos cobrem o que antes era um carreiro de terra e onde se via passar uma ou outra raposa. Pergunto-me se a descida tem ainda a pedra em forma de V, onde eu passava rapidamente com a bicicleta e os pedais alinhados na horizontal, para que não batessem nas faces da pedra. As vezes que falhei e caí!
Poderia jurar que ainda por lá andava, eu e os meus amigos, de bicicleta ou a correr, com a mochila a empurrar-nos perigosamente na descida pensando sermos os "Heróis da esquadrilha", o "Justiceiro" ou "Os soldados da fortuna". Existe ainda o aqueduto de pedras rudes e frias, que levava a água de uns campos para outros e onde bebíamos água ou nos aventurávamos, qual "MacGyver", a saltar de pedra em pedra, desejando não meter um pé na água. Ou os dois.
Um muro com menos uma pedra que o habitual deixa verter um fio de água limpa. A sede convida-me, mas a prudência social da ténue linha da sanidade mental impede que eu pare o carro e beba.
Um marco coberto de musgo. Se tivesse o meu bloco sentar-me-ia ali. Depois começava a olhar para as folhas pautadas e brancas, convidando-as a mirarem a paisagem, para que pudessem ver o que vejo e não apenas umas letras aleatórias, para que depois de fechado o caderno conversassem entre elas, narrassem e comentassem o que cada uma delas viu, à sua maneira, as diferentes visões do mesmo horizonte.
Chego ao fim do caminho e com este outro se inicia e novas personagens já lá moram. Eu mesmo, mais velho, e outros, alguns que já nem neste presente estão, observam-me e sorriem.
Creio que também eles vêm o mesmo que eu não vejo.

2017-01-08

Nasceu a constelação

Crónica na Bird Magazine (08/01/2017).

Não havia muito por onde estar, estendia-se o olhar pelo horizonte e onde alcançássemos com a vista era onde poderíamos estar, por isso o que se via era o que existia. 
Ainda que se constasse que se sonhava, tal poderia ser apenas possível em jeitos de profecia, de vozes inacabadas que o tempo ia empurrando para a frente, de gerações em gerações.
O silêncio abalava-se apenas e só quando um badalo, que pendia nos muitos pescoços das pequenas nuvens que pastavam, mais pelo arrepio de frio ou por um ajuste necessário ao melhor conforto do corpo que pelo movimento. De noite todos dormem. Melhor assim, no silêncio, onde o desnível colorido entre o negrume noturno e a paisagem árida tornam possível olhar o céu na complacência ao alcance de quem, pastor, se deixa ver nas tremeluzentes estrelas que não se sabe ainda serem moradas celestes, apenas gigantes desenhos separados por um pequeno gesto de unir pontos, indicador em riste, até a imaginação deixar desenhar nos lábios um sorriso no exacto instante em que a noite nos pega no braço e o acomoda sobre o nosso peito.
Já o teriam avisado, os mais velhos, que no árido terreno onde até as cabras se queixam, balindo, de tão inóspito horizonte, sonhar tinha o caro preço de deixar fugir a sobriedade para terras de onde dificilmente voltariam, mas a juventude, sempre surda a vozes mais experientes, transforma todo e qualquer deserto em local fértil de miragens. Por isso, quando de repente, ainda de noite, se levanta sobressaltado e sobressaltando os demais alertando para o que uma voz lhe tinha dito, pouco crédito lhe atribuíram, deixando-o apenas com as faces que se voltaram para o outro lado da fogueira e os impropérios de quem já não se sonha. 
Levantou-se, cheirou um pouco da geada que caía sobre os penedos já frios e foi, acompanhado pelas fiéis pastoreantes que pareciam saber já da nova, caminhando pé ante casco, até aquele andar se transformar numa espécie de claquear, um ondular ritmado das grandes teias de ferro que percorreriam um dia as planícies, assim o diriam outros que não daquelas paragens, guardiões serenos de outras miragens.
Chegaram. Os animais, sem permissão, entraram, rodearam e aconchegaram-se aos que já lá estavam numa reverência selvagem a quem das profecias em homem se saiu da miragem. Olhou-os nos olhos, baixou a cabeça, deu dois passos encostando o bordão ao cancelo, a natividade eram ainda os três, o pai entre assustado e defensor, a mãe ainda cansada, serena e o terceiro, nas palhas deitado, sossegava da descida ao mundo irreal, aquecido pelo bafejar dos animais, pelo abanar da manjedoura manca que mostrava ainda restos secos de comida animal. 
Colocou-lhe a mão na fronte, afagou o curto cabelo, passou levemente e com cuidado o dedo na fronte trémula e amena. 
Ao mesmo tempo que pousava os lábios nas mãos do bebé, aquele novo pastor velho, o tal que diziam nem ter todas as luas, a seguir a uma lágrima que lhe nasceu dos olhos fechados, sussurrou: Tinha tantas saudades tuas.

2017-01-01

Folhas caídas de um mar

in Correio do Porto.

Não deves ter visto, quando certamente tiveste oportunidade já o que desenhei no céu da noite tinha desaparecido com a luz madrugadora do Sol ainda este vinha a barbear-se pelo monte acima.
Passei a noite de queixo encostado ao corrimão do alpendre, a olhar para o céu, a arrumar as constelações a meu jeito.
Diria que seria escrita, mas as palavras têm uma certa tendência para se aninharem no meu colo e quando as quero usar lançam-me o olhar mortiço e preguiçoso de quem está entre sonos e pede um pouco mais de descanso.
Acredito que hoje, a caminha de casa, quando for a imaginar os caminhos que gostaria de percorrer, surjam perenes e sem demandas se aninhem no banco do passageiro, criando paisagens que conheço apenas de antes de nascer.
Talvez logo, quando o cansaço da noite mal dormida me puxar o calção-pijama, eu sinta que as palavras que me fazem falta sejam o conforto que encontro na ausência piramidal de um futuro onde se falaram vozes que jamais ousei ouvir.
Deixo para o horizonte as imagens de paisagens que serão destino, viagens, sei lá, de quem se augure parir e partir.
Por aqui tudo sobe, sobra, desejo mil de desejar urdir por entre grossos aguaceiros o cubículo onde habita o que sou, sem ser mais que o menos.
É no nada que me cabem as histórias que teimosamente não escrevo, talvez egoísmo, talvez medo. Olho para dentro e procuro as mesmas estrelas que o único céu que conheci me mostrou. Sei lá, nem cá, encontrando aquilo que sou em cada localização onde não me encontro.
E não me expresso, sei-me hipérbole, feliz pela pacificidade encontrada na tua face, onde mais?, de sonhar com as palavras que são ensinadas por quem aprende, de quem se soltam as amaras, no casulo de uma folha em branca porque não se sabe, o papel, ventre imaculado, silêncio, o sagrado.
Talvez me canse, um dia, uma noite, de me ter labirintizado e percorrido com as mãos nas sebes todas as fronteiras entre este lado e as bandas de lá, onde se move o tempo como quem espalha as correntes pelos rios, subindo e descendo a horizontalidade e na verticalidade do sentir se deita cansado, cansada, quem à vida se deixar fazer inocência ancorada.
Olho o tempo, perdi segundos a pensar sobre ele, olho para mim e vejo-me navegado num rio que se vai esvaindo sem que necessite de o naufragar.
Afinal, estas águas são folhas caídas de um mar.



2016-12-28

Fito-o mais uma vez, mestre Torga, a lombada amarelada de um livro branco sujo, como a neve que se derrete cansada de ser alva. 
Não permito que o sono me tombe sem, antes, talhar na retina com a mesma paciência do meu velho Garrinchas o caminho de volta para a terra. 
A cacofonia da ausência de verde vai-se desfazendo à medida que ondulo montes abaixo até uma encosta de simplicidade me permitir escutar o bater do bordão nas pedras gastas por serem caminho de ninguém. 
Quando este mundo me começa a fechar os olhos, faço-lhe a vontade, estico o braço ao frio o essencial apenas para alcançar o interruptor e, sereno, adormeço corpo e tosse na certeza de estar quase a acordar.

2016-12-23

Feliz Natal

No regaço ameno da família, onde se soltam as máscaras, que te brilhe o interior adormecido e te sintas, também, deus menino.
Recebe o calor da simplicidade nos braços abertos ao que és, escuta o silêncio
que se apodera desta noite em bicos de pés.
E se o universo te escuta e na voz encontras solução, saibas que em todo o estranho habita um irmão.
Que te brinde e aconchegue o meu pedido, desembrulhado, para que a saúde te vista, a paz seja a tua conquista e embora humilde, atiro os desejos ao ar para que se precipitem em ti, mesmo sem nevar.
Feliz Natal.
Miguel