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Término

"Término"  ou o prenúncio dum fim de caminhada. Crónica no Canal N. Ligação aqui . Não é necessário transpor montanhas para nos encontrarmos por trás dos montes. A cada passada podemos galgar socalcos que, mesmo atrás de uma curva que o destino colocou no caminho, nos transportam para lá daquilo que pensamos já não encontrar. Como um casal de velhotes, à sombra tórrida de um coberto de zinco, mão na mão, a namorar. A tarde abrasadora chama incendiário ao Verão, no eucaliptal duvidoso a certeza de um madraço de isqueiro na mão. O fumo negro traz tonalidades de Inverno, caem folhas queimadas, secas, quebradas, negras. A comunicação social não é por aqui bajulada. Toca música clássica. – Olhe, eu nem tocar castanholas! Mas que a música é bonita, lá isso é! – diz-me o velhote, enquanto abana a perna cruzada sobre o joelho e a esposa, sorridente – Não chateies os senhores que vieram trabalhar. – repreende-o, piscando-me um olho que brilha do fundo de uma órbita bastante enrugada. ...

De partida

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 “De partida”, mais uma crónica do Nada, no Correio do Porto ( aqui ). Creio nunca termos sabido de antemão a hora certa de um comboio que chega adiantado. Terá sido assim, também, na chegada à vida. Ou na morte aquando da partida. Ainda não me desabituei de estacionar o carro, dar uma olhadela para a esquerda e acenar ao Sr. José (Francês, que é como o conhecia, talvez para o diferenciar de entre a miríade de emigrantes, retornados ou pré-retornados, de férias ou francofonamente estabelecidos). Ele olhava-me sobre o jornal, baixava o jornal e acenava e, de vez em quando, lá saía um sorriso. Quando as casas se enchem de visitas temos baixas as guaritas. Se não for pelo aniversário, pelo velório será. Foi assim há mais de meia dúzia de meses. Embora não se estranhe a arrivée e a sortie das matrículas francesas em épocas de Natal e Ano Novo, a permanência além destes períodos traz consigo um cunho maior que a mera visita. Era a doença que tinha vindo. E ficado. Não sei ao certo a dat...

Outeiros

“Outeiros”. a crónica tresmalhada no Canal N . Nas viagens que se fazem pelo silêncio em nós sei-o nunca estarmos sós.  Na neblina que se agita e nos cobre os pés de orvalho há todo um muro coberto de musgo ou as folhas de um carvalho.  O cajado respeita-se pelo sustento, literal e metafórico, com que ordena o bastonário, a existência e as vidas, de olhos semi-cerrados, cercando o cercal em toada firme, não perdendo de vista a clareira onde o rebanho se torna como uma massa única de algodão doce, como nuvem a levitar no prado acinzentado de um verde que teima em não despontar.  O respeito pelas profissões é urdido ao redor de um selo carimbado, os socalcos latinizados, o lacre de uma ruga que um casco selvagem de garrano gravou na face, os créditos de um labor que debita a cada dia, sem pudor, as gotas espessas de um esquecido e ostracizado suor. Pelos montes onde velejam náufragos de um mar ausente, no redemoinho do vento nas urzes paira a semente, o piscar das altas tor...

Alecrim

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 “Alecrim”, para ler no Correio do Porto, a minha crónica na secção "Crónicas do Nada". ( https://www.correiodoporto.pt/prioritario/alecrim ) Conto os quilómetros que ficaram para trás e mesmo com o planalto talhado a sombras de nuvens disformes, não deixo de pensar que o caminho faz-se sem sair do local. No monte disseste que basta a cada dia seu mal. Compreendo-te. Torno a atenção para o tracejado da rodovia e aos nós dos dedos no volante, alvos, enquanto passa por mim uma auto-caravana onde na traseira putos desenharam um cartaz: “se é feliz, buzine”. Buzinei. Sou feliz e nem eu próprio o sei. Existo e, mesmo assim, não hei. Não havia nada para ver no ermo passageiro onde os estrepes, cortados de fresco, eram a única coisa que arrefecia a paisagem. (só a metáfora nos permite sobreviver ao que chove da ágora). As viagens pelas terras que não florescem gentes ganham um cunho de visita ao abandono, as paredes que ainda não caíram são lápides onde estão inscritas os quilómetro...

Alma Tua

"Alma Tua” ou a crónica da última caminhada, para ler no Canal N . O senso comum leva-me a questionar o Norberto se aquele seria o melhor local para estacionar. Está certo que garagem de portas fechadas ou guarda ou não permite entrar, mas mesmo assim, o carro na entrada, o Sol a calcorrear os cumes dos pinheiros mansos, as sombras fugidias sobre as oliveiras, não me deixavam na calmaria de ostentar local à porta de alguém. O Tua ia-se afogando pelas margens sem escape além do que vislumbravam nas fragas do lado de lá da corrente. Sem carris, o ocre soçobrava no cascalho cuja função era, agora, sem mais nem menos, preparar-se leito de uma barrigada de água parada, onde apenas o orvalho vinha beber restos de reflexos que o céu gravou. Os últimos passos em liberdade, sei-o agora, foram dados naquela tarde, a bicharada a grasnar e crocitar uma melodia fúnebre, a sombra de um sobreiro que mirava, sozinho, a curva do Douro penteado pelo vinhedo arquitectonicamente esculpido ao olhar ma...

“Paternidade

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 “ Paternidade ”, crónica na minha secção "Crónicas do Nada", no Correio do Porto. O granito cinzento e azul escuro traça a perpendicular com o sorver do porto que escorre pachorrento, alcoolizado, pelas bermas interiores do copo e se evapora ascendendo ao céu da boca. Quando está cheio, cotovelos e antebraços sobre o frio aglomerado de minerais, a estante de vidro que serve de montra à pastelaria variada, bolos, rebuçados e sumos, ganha honras de balcão, onde a chávena pousada com diligência faz tilintar o café. Não, não é café, é outro porto. O ruído do moinho contrasta com a conversa aleatória que se mantém com quem não se conhece ou, neste caso, um monólogo de alguém que nunca conheci, mas que me dirige a palavra. Não há fio condutor e o teor ébrio do homem, simpático, não é o suficiente para me fazer embrenhar nas típicas históricas que me cativam e, normal geral, se encostam ao meu palato e, depois de as saborear à minha própria maneira, me escrevem em aglomerados de pa...

Ao Pai

“Ao Pai”, a crónica do dia, no Canal N . Quando saiu da curva e a estrada lhe pareceu mais curta, sabia que tinha chegado onde deveria. Há uma espécie de limite na cercania, o 19 de Março haveria de ser o limite para a aventura forasteira, de agora em diante a miragem seria a pastagem forrageira. Calculava com atenção os dias que faltavam, não fosse um fugir à rebeldia dos tempos recentes e deixar passar prazo ao qual se tinha acometido. Tinha saído da sua aldeia quase como foragido, à guarda do futuro calcorreara quilómetros em carrinha alheia, sem que a carteira comportasse a vida no montado, a mulher a cuidar da casa e do filho, o filho a cuidar de crescer e das brincadeiras. Chega-se rápido ao fim do mês, quando ainda que fugidos ao balcão do café, se troquem as moedas e de duas sobrem três, a conta é fácil de fazer, não é?   Atravessados montes, conhecidos e desconhecidos, sulcara a saudade entremeada com trabalhos, aqui e ali, nas consultas ao saldo bancário, pelas noites em ...