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É menino!

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“É menino!” Esta Crónica do Nada pode ser lida no Correio do Porto, clicando aqui . É fácil esquecer que vai o Verão no pico (chora a sirene dos bombeiros em tom aflito) pela brisa fresca que me entra no carro, sem convite, mergulhando no meu turbilhão raciocinado de uma vida que se prende às nuvens e, sem elas, cai inanimada no meu peito. O dia leva-se assim, sem respirar, a eito. Aprendi que algumas frequências rádio não transportam no seu espectro a boa nova, ondulam no intuito perverso de nos querer fora do universo. Sintonizo a radiofonia até que o som me refresca como o ar corrente, por vezes ausente, e a leveza do instrumental, desconhecendo eu qual, orquestra-se quase por magia com o borbulhar cansado, anafado, do rio por entre as pedras da levada. Está ali um eu, novo, mais novo, inocente, em pé nas pedras, preparando-se para mergulhar por entre o calor da tarde das férias grandes, o que fizemos às nossas crianças gigantes?  A profilaxia tem um traçado, o fugir por entre c...

Calor

“Calor”, crónica no Canal N.tv. A sombra quente do alto Sol transmontano baixa-se ao interior terroso de cada transeunte, independente de se abrigar nas oliveiras, na projecção dos edifícios eirados e beirados, rondando carnivoramente as entradas dos estabelecimentos com ar-condicionado, que transpira, amedrontado, o frio forçado de quem não se sabe inverno. No olhar de uma tarde febril, as nuvens encobrem, sempre que o podem, a tarde soalheira que escorre das frontes, embebe-se nos lenços de pano colocados sobre a testa, sorve as camisas coladas às costas ou sulca-se no chão poroso, transportado pela freima agrícola de quem se entrega à terra. A larga tigela de barro é alguidar para côdeas e miolo de boroa, navegando sem mar numa sopa vermelha, tinta, cujas ondas se empurram contra o vidrado cerâmico, deixando a espuma rubra sombras de frescor. O açúcar polvilhado vai escurecendo e, depois, como um corpo entregue ao Pai, deixa-se imiscuir no finito universo carrascão de uma malg...

Clareiras

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“Clareiras”, Crónica do Nada no Correio do Porto. Para ler aqui também. À saída da curva onde, antes, me sustinha o esconderijo de um silêncio verde, vejo agora, ao longe, um aglomerado de paredes, propriamente e comummente, por onde respiram os poluídos rumores de camiões cuja minha visão turvam.  Abrem-se clareiras onde antes as árvores albergavam um ou outro esquilo, era a surpresa “o que é aquilo?” em rodopio espiral num tronco, ou a barriga encostada ao volante e à sombra se descansava num ronco.  Faltam-me os ramos, sobram espaços onde antes o lixo se escondia envergonhado, agora paira ao Sol o passado, apenas um sobreiro encortiçado, isolado, faz guarda de honra à tristeza que me clama, apenas porque receio não ter um dia esta cama, a enraizada matiz de restolhos que se abre onde fecham meus olhos. Desaparecem-me, desaparecem-se, exibem largas peladas os montes, elas, árvores, que de seivas se faziam pontes, caem e jazem mutiladas na carroçaria medieval de uma atrelado...

Arde e ganha

“ Arde e ganha ”, crónica no Canal N. As tardes de domingo prolongam-se pelos restantes dias da semana nas aldeias onde o tempo parece não habitar. Passo devagar, intriga-me o nome de uma rua mais do que a localidade, assim como os entalhes graníticos nas paredes melancolicamente cultuais cujos capiteis, lentamente, soçobram à passagem dos homens, mas não dos anos. Uma trindade de idosos, como constelação afastada, perde o brilhar no corpo torpe, moreno, cujos trejeitos capilares esbranquiçados se escondem por debaixo das camisas desabotoadas e das boinas descoloridas. Aproximo-me no carro e como um sopro assumem uma postura erigida, os nós das mãos esbranquiçam-se pelo esforço com que agarram a retorcida moca, a hombridade da existência não conhece condições e assoma-se ainda mais quando nada veste o corpo, ou a pessoa, além das vestes feitas para proteger o casulo carnal dos elementos circundantes. - Boa tarde meus senhores – digo-o por respeito, braço de fora da porta do car...

A simplicidade florida

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“A simplicidade florida”, mais uma crónica do Nada publicada no Correio do Porto. Para ler a edição online, clique aqui . Aperto o pão nas mãos, faço um pouco de força e rasgo-o com o respeito que um ancião me merece. As migalhas caem petalamente, rodopiando, separando-se na criação divina e caindo-me, algumas, em cima. Esfrego as pontas dos dedos, solta-se um nevoeiro privado para o qual me faço convidado. A caneca gasta de uma cerâmica cansada onde o tempo bicou já algumas lascas, acolhe os vórtices que se formam, o do café onde a espuma da sua maré vagueia como que colectando as migalhas e a farinha poeirenta, e o meu vórtice, o desconexo movimento sensorial que me permite redemoinhar em direcção a um escuro, negro, imenso rasurado destino, por onde mergulho e me vejo sair sair do lado de lá do moinho. Claro, sozinho. Emociono-me com a simplicidade florida de quem nunca se viu viver a vida de espada erguida, saldando-se à consciência sem que Anúbis saiba, sequer, que Deus fez u...

Contra a parede

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"Contra a parede", mais uma Crónica do Nada , no Correio do Porto. (online aqui ) A vida não aguarda a vida de ninguém. Talvez por isso saiba que, saídos contrafeitos do confinamento ou não, o monólogo invisível cacofonia-se e tem razão para isso. Todos os dias parecem ser o gaguejar do quotidiano numa tentativa de reiniciar um início que, pasmemo-nos, findou fadado que estava à nascença. Sem gaiola que nos molde o crescimento, a existência segue, ainda que com algum lamento, o trâmite normal de orbitar os dias. Acolho-me, assim, desde as manhãs frias, na presença que levo sob a redoma onde repousam, esparramadas, as nuvens cinzentas, alvas e as que, pelo pôr-do-sol, alaranjam o crepúsculo onde chego, agora. Arrasto os pés no cimento empurrando-me e escorregando-me pela amena superfície, a sorrir do que antevejo ser a queda por ter as mãos nos bolsos, mas não, ainda me assiste a capacidade de, tal como as sombras dos eucaliptos que ainda subsistem (ali acima, no som que...

Intemporal

«Intemporal», crónica no Canal N . Paro antes da passadeira onde um peão sôfrego passa a correr fugido do medo e vejo, no fundo dos degraus do agora vazio Centro Comercial, um casal ao redor de umas seis décadas de semeadura, roupas datadas dum século transacto e sacos plásticos pelo cotovelo. Ele, no chão, afivela o capacete aberto, cinzento, cinzelado de uso, com uma tira de padrão escocês, puxando com firmeza sob o queixo para que não se solte o casco e vá cair, despencado, ladeiras da estrada abaixo. O descanso bípede alavancava a motorizada num movimento ondulatório, ora na roda dianteira, ora na roda traseira, que termina quando a esposa, em pé no último degrau, pousa na grade sobre o farolim ciclope semi-esférico vermelho, atrás do banco remendado, uma seira com um losango pintado de verde escuro, onde os vimes partidos confirmam a presença inexorável do tempo.  Talvez o meu suspiro seja mais lamento que enfado. Acordo com o buzinar ligeiro do carro atrás de...