Mensagens

Sei que é Inverno pelo sorriso do frio quando me sobe e encontra as paisagens que me preenchem as mãos.  As mesmas mãos que te abraçam quando adormeço.
Já tinha tomando o tempo quando se virou a mim a noite. "É escuro", surgiu a medo. E eu, tolhido de cansaço, voltei costas à sombra e deixa-a a falar sozinha com o barulho. "É escuro", continuou. Mas já lá eu não estava, voltado de costas ao mundo, segurando ao ombro a manta retalhadas de serapilheira com que me cubro, caminhei até deixar para trás o corpo. "É escuro", murmurou. "Eu sei"... "Abre os olhos"

(a)Manhãs

Questiono-me se és tu quem me quebra o silêncio, se a sombra que se aninha a meus pés possui laivos de infância e sorrisos que ocultam a distância. É ao Sol, ao sul, que as cores do arco-íris rebolam na mão e caem, cansadas, crianças, no odor fresco da Primavera que recordo, com a saudade de não te saber aqui, a meu lado, saciando o silêncio expelido de meu punho calado, sem encontrar a cor que te vê crescer, tropeçando e caindo nas palavras que guardo nos olhos, para mais tarde as dizer.

Val(idade)

A imagem da serenidade e passividade. Um trabalhador dos jardins da C.M.Porto faz uma pausa para o lanche da manhã, ao Sol, sentado numa cabina telefónica enquanto que com um pé balança o carrinho, como que embalando as folhas que apanhou...  Simples.  Valioso.

(tún)eis

Aconchego a noite antes de me deitar, volto as costas à lassidão para languidamente me encostar ao musgo que desponta no muro sem caminho. O cinzento cinzelado do vento frio que se acomete é o calor humano que rodopia errante e desaparece. Há vida nas entrelinhas, são meus túneis os vazios em que habitam nos dias nascidos do crepúsculo, para ornamentar o destino que se escreve grande e se recorda minúsculo.

Des-a-fio

Os versos que desafiei moram nas quadras que me venceram, há um tumulto desafinado no ar pelas vozes murmuradas que açoitaram o ocorrido grito "aqui d'El Rei". Ainda que escreva a correnteza jamais o leito me leva a divagar, que meu barco ancorado no horizonte é bitola difícil de moldar. E é, assim, no arrastar silencioso das gotas que me permito chover às letras, gravando no escuro as idas e voltas, escondendo o mundo para que apareças.

Po(nt)e(s)

Um soluçar, na noite, baixinho, em tons de ponte entre mundos, na amedrontada sombra que prostro, vou galgando dimensões para longe daqui, até me ver, novamente, dentro do soluçar, na noite, baixinho, em tons de mundo entre pontes.