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Fria noite no corpo

Dorme a fria noite, ao longe trémulas estrelas resistem a este meu açoite, ao orvalho que brota da alma num soluço de ninguém. Ao tacto é gélida a pele e os dedos refugiam-se, o tempo que seria exacto é, afinal, dele o vulto do Sol que dorme em mim. Amparo pétaldas de rosas e flores mortas, hirtas e sombrias de sangue manchadas e isentas de dores, absortas. O jardim que plantei é um canteiro de almas, jazentes e dormentes, fugazes e ardentes, espinhos que se cravam na mão perfurando o sonho, aniquilando a ilusão. Quando o trevo me cobrir e eu não for mais que húmus, deixa que me regue o orvalho que cair dos espinhos da vida que se segue... Se eu nascer de novo e o veneno brotar, ainda, desta alma que não finda, foge para longe e cobre-me com terra negra, antes que meus olhos possam matar e minhas mãos, sujas e gastas, possam tocar o triste mundo que são teus olhos a chorar...

Para lá

Espantadas com o meu silêncio as palavras vêm até mim... Empunham um espelho onde me encontro reflectido, longe dos olhares e dizeres, das falsidades e fúteis afazeres... A imagem chama-me, para lá...

Marés do tempo

Momentaneamente ouço o tempo passar, sim, vai e vem, lambe-me os sentidos ou os pés como uma onda prenhe de espuma a rebentar, chama por mim, invoca os amigos, mas não, obrigado, é sempre a mesma resposta. Prefiro o vazio à viagem. De vez em quando molha-me, convida-me a mergulhar, nadar e sabes que mais? aceito, ganho corpo, forma, sexo, sou um pequeno pensamento numa matéria sem nexo, tenho idade, régua e esquadro à relatividade, taça de néctar envenenada no peito. A onda ou tempo, traz-me de volta, e estou novamente na praia em pé ou deitado, não, não estou, apenas sou, e entre ondas, ou marés, vem o tempo buscar-me com carinho. Caio na água ou vida, tenho mágoa ou um bilhete só de ida, e sou agora outra forma, outra matéria, sou um réptil venenoso, sangue na artéria. Invoco tropas das guaritas corro a quatro pés ou dois, sou corpo esquisito. Estou cansado e a Lua ou o Mar, traz-me de volta como a rima num poema, e leva o corpo consigo na rotaçã...

Mal estar...

Ó Lua cai sobre mim, dilacera todo o meu corpo, transforma-me em pó, grão fino de areia, vaporiza-me em nada e devolve-me o vazio, enche-me de frio, sê de ti apenas mais uma candeia. Que frio é este no respirar? Porque razão fogem estas linhas às palavras? Vem, assim devagarinho, segura-me as pálpebras por um momento, deixa-me escrever a palavra carinho, fica mais um pouco ao pé de mim, ampara-me a cabeça difusa neste tormento, que pensas destas palavras, são belas? É bonito o teu sorrir, diz-me, Lua, és tu quem canta? talvez sejam meus ouvidos, ou a imaginação vagueando…

É sim senhora

As pessoas comovem-me, a sinceridade e a bondade ingénua, pura, intocável... Este tipo de bondade que, por vezes, se vê apenas nos "coitadinhos" e "bons rapazinhos"... Vi a cena há uns dias, talvez semanas, quando um senhor, humilde, tão humilde, era entrevistado por uma jornalista... A casa tinha ardido e, como tal, todo o seu recheio, o senhor, vou chamá-lo "coitadinho", que é assim que é visto, coitadinho, se calhar nunca viu a Quinta das Celebridades, deve ser de outro planeta (já estou a fugir do tema...), regressando, o senhor olhava para a jornalista, com um sorriso na face e um olhar estremecedor de tanta ingenuidade... - Então o senhor, ardeu-lhe a casa? - É sim senhora... (respondia com um sorriso e muito educadamente) A câmara mostrava, ao fundo, desfocando a cara do senhor, a casa ainda fumegante... A jornalista esperava que o senhor falasse mais, mas teve que tomar a iniciativa novamente... - E o senhor, salvou alguma coisa? - Só a roup...

Cinzento

Sento-me no sonho à espera que as sombras das árvores imponentes devorem a minha, este banco de jardim foi frio na noite quando as gotas que caem não são lágrimas mas partes de um mar solitário. Uma barreira ergue-se no olhar onde formas disformes dançam depois do real formando o horizonte imaginário do vaguear, que vento abana os cabelos do destino, que sussurro clama a alma à solidão que é este vulto que me estende a mão? Enterro histórias, descansam em palavras proferidas por um céu juntinhas ao abandono das memórias, agora que não vivo porque dizem que o poema morreu? Se eu fosse o que sou, abandonado pela paisagem onde o sorriso voou, talvez a brisa que ondula o verde brilhar do sorrir sentisse que o amor que dá faz todo o tempo que me circunda cair…

Finalmente...

Finalmente vivo! Respiro o mais que consigo, a caneta toca no papel e derrama tinta, é o rasto visível do meu pulsar. Pouso em todas as flores para obter mel, apenas agora, neste momento, sinto o sangue correr nas veias, as estrelas salpicam e caem do firmamento e a sua poeira camufla os sentimentos, derramam sobre os buracos da alma um pouco de luz e azul celeste, infundem em mim a calma, soltam do mais recôndito ângulo um sorriso agreste e aí, nas estrelas, ou no poema, sei que vivo em dias não medidos, pauto a existência em sentimento, talvez amor, talvez medo, e por entre rimas de poemas ou fluxos de prosa fecho as mãos em concha e, sorrindo, guardo para mim este segredo.