2018-09-30

“Artesanalmente vivido"

“Artesanalmente”, crónica de Domingo, na Bird Magazine, para ler ou aqui.

Em todas as feiras artesanais questiono-me sobre a desprendida, livre e selvagem, porque pura, vida dos artesãos. Nestes momentos vou vivendo aquilo que não estou, como se por momentos a vida sofreasse e eu resvalasse noutra existência, minha ainda, desenrolando-se noutros sucalcos eras e locais, passados de menos e futuros de mais.
Sou já eu atrás dum balcão, eu quem dorme embrulhado, o fruto do trabalho almofadadamente sob a cabeça, estômago reconfortado pela chávena metálica com café e uma fogaça ainda quente. 
Durmo, confortavelmente mal instalado no saco-cama, ouvindo os barulhos da noite que se transformam em canções de embalar cujo compasso apenas o grande Compositor conhece. Acordo com o raiar do dia, o caderno ainda aberto e a caneta perdida dentro do saco-cama, trocando o susto de ver um insecto a centímetros de mim pelo riso de alguém ter partilhado um sonho comigo. Levanto-me, cruzo os braços atrás da nuca, encho o peito de ar ainda frio, cravo firme os pés na terra como quem se desterra e fecho os olhos, até o frio abraçar-me para mais um dia de vida. 
Talho condores visíveis apenas do céu, na madeira e por entre tufos de nuvens. Escrevo segredos em pequenas aparas de madeira, escondo-as em várias estatuetas que vendo, apenas pelo prazer de saber que alguém, algures, decifrará um segredo meu que não existe. Destapo a banca, alguém me roubou um artefacto, precisamente um que tinha um segredo guardado. Rio e afasto algum pó que se acumula. Coloco alguns dos coloridos piões mágicos à frente, carrinhos de brincar, feitos em madeira e cascas de pinheiro, um vira-vento de tonas de eucalipto, pulseiras mágicas e cadernos normalíssimos onde desenhei gravuras iguais às das planícies de Nazca (hão-de seguramente chamar a atenção dos miúdos, o primeiro que se sentir atraído pela banca vai levar com ele, gratuitamente, um caderno destes). Os dias desenrolam-se, assim, compassadamente, compassivamente, entre vilas e aldeias, faces conhecidas e outras que se dão a conhecer. 
Tudo termina após final do dia, noite alta, nas amenas conversas com tantos como eu e outros ainda, saindo das sombras, de mãos aquecidas em torno da chávena metálica, o café escuro onde leio o meu passado nas colinas em que a espuma se desenha. 
Esvaem-se na página seguinte, vida e espuma, quando num longo piscar de olhos me inebria o aroma a café, e vejo-me agora, aqui, em frente ao computador, o sono calcando as histórias imensas que afincadamente se atiram às pernas para que as desenhe, mas as minha mãos, intemporais, só sabem observar e, ocasionalmente, chorar. 
A luz trémula do monitor envolve o espaço. já sem café, espuma, passado porvir e futuro vestuto, olho sem compreender este artefacto em madeira a meu lado, a forma de condor e a tira de couro que sustém um pergaminho, como voou até aqui? Pego nele. Cheira a café e não estava aqui há escassos minutos. O futuro presenteia do passado seus frutos. Sorrio. Sou rio.

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