De torga em torga
Crónica de domingo na Bird Magazine.
O frio agarra-se às pernas enquanto
caminho, parece um noviço gato ronronando, de cauda levantada, com olhos
amarelos e rasgados, atrasando-me os passos no seu movimento de infinito ao
redor de cada perna.
Desapegado do gato, que parece ter
desistido de ronronar e me segue em passo apressado de gato, que mesmo
apressado nunca é deveras rápido, vou caminhando e caminhado subindo e descendo
pequenas e grandes pedras incrustadas no solo como se fossem grandes e
preciosas gemas colocadas num anel que se oferecerá ao anelar dedo de uma
amante, baixo a cabeça para ver curiosas formações de erva verde e galhos secos
já mortos que o vento se encarregou de amontoar no vale em v fechado entre duas
rombas e gordas pedras.
Passo por um amontoado de gente que se
acotovela e estica o pescoço, erguendo a cabeça e espreitando para a frente
como se a vida fosse um livro semi aberto por onde todos queiram ver sem se
preocuparem em ler. Contorno-as facilmente e, curiosamente, sem que me vissem
passar por elas, deter-me por segundos, deixo-as para trás agarradas que estão
ao temor de não se saberem ler ou escrever, um livro ou o próprio livro que são.
O gato ficou para trás, ronronado por
um petiz, subindo para as pernas fletidas do garoto e aninhando-se na mão
quente e protectora que é o amor puro e irreflectido de uma criança.
O frio, o vento e agora esta morrinha
que me obriga a tirar os óculos para não ser apenas uma face especada atrás de
uma vidraça no Inverno, atrasam-me o passo dorido e fazem-me inevitavelmente
parar ao fim de alguns momentos e outros tantos passos lentos, afogueado, com
as mãos nas cruzes e a suplicar que no suplício carnal eu me veja
miraculosamente livre do apoquentado mal. Olho para o lado e alguém está
igualmente parado no caminho. Na esquina entre a dor e o desespero há sempre
alguém à espera de contornar a vida com um joelho e dois braços fortes sobre os
ombros parando a vida à entrada do peito. Reconheço-o e a medo solto um lauto
bom dia e daquela face funda onde orbitam dois berlindes escuros sai apenas uma
espécie de suspiro em forma de olhar, pede-me um joelho e dois braços fortes
sobre os ombros, parando a vida à entrada do peito. Eu? Eu nem sei do que sou
feito! Respondo. E ele, contrafeito, ouvindo alguém chamar ao fundo acima do
vento pautado pelo mundo, Oh Ti’Alma Grande!, levanta-se, esconde o olhar,
guarda o sorriso atrás do silêncio e desce os penedos como se tentasse libertar
de um punhado de medos.
Refeito e rarefeito, começo a caminhar
não sem antes ver duas crianças ao colo de uma outra, quase adolescente,
descendo o emparedado pedaço de terra sulcado pela mão de quem não se sabe
aluvião. Logo a seguir mais petizada corre embalada pela gravidade e a
despreocupação de ainda não ser medida pela idade, de olhos esbugalhados, tezes
distintas perfilhadas apenas pelos salgueiros ou dois corpos outrora em
braseiros, entre fetos e abetos, narizes avermelhados e secos e longos fios de
ranho agarrados à cara quase chegando ao limite em que a cara se agarra ao
cabelo. Atrás, não muito, vem ventre prenhe de longa idade e de uma vida de
afogueado receio, “não surja um que mos queira”, reza, enquanto com os braços
amarra mais o bebé de encontro ao peito, lançando-me o olhar desprendido que
por entre rugas busca ainda, na ignorância, a ausência que se fez infância.
As fragas ganham vida agora. Eu, que já
nem vejo a hora, começo a ter dificuldades em caminhar, o céu escurece pelo dia
que aí vem pintalgado de nuvens negras que imagino neve ser, pelo frio que me
faz tremer. Ganho alento ao ver uma ermida minúscula erguida ali à face da
estrada como se os milagres caminhassem de mão dada com o abandono e cansaço,
quase como as letras que faço, e esperassem quem de caminhado se cansou e ali
aos pés da santidade deixasse cair uma vida inteira vivida apenas pela metade.
As pernas abrem-se, salvo seja, pelos passos que me obrigo dar, de metro em metro,
até passar pelo demo, vade-retro!, e me deixar desiludir pelo que pensei ser o
átrio abandonado de uma fé, afinal, onde pensei descansar, já lá gente que dá
de si a pedir dos outros, envolto no frio para não deixar sair o calor, aquece
as mãos ao rubor, daquilo que arde e daquilo que se vive, numa natividade que
me emudece e faz pensar, jamais, conseguiremos unir uma santíssima trindade porque
de santo e louco nem a nós deu a vida tão pouco, para poder sairmos arrepiados
pelo destino a caminhar e antes de pedir, ter quem nos possa dar.
Percorro uns valentes metros, de
distância e de peito feito, soluço e escondo umas poucas de lágrimas que me
vidram a cara de encontro ao frio que neva já. Para trás os passos velhos de um
velho que entre o destino e a chegada conseguiu encontrar uma morada, quente,
entre o profano e o sagrado que o habita, vai soprando o vento de encontro à
alma fechada, até encontrar uma frincha por onde corra e lhe chame o nome,
Garrincha.
Já nada passa por mim, creio ter
encontrado o meu percurso. Dizem-me que daqui, nem água mole em pedra dura, de
tanto bater já nada se fura, vejo o teu corpo na neblina que parece emanar da
terra, como se fosses erva rasteira forte e perene a agitar ao vento não pela
fragilidade dos teus ramos face à intempérie, mas porque és tu, oh torga!, quem
no vento comanda os destinos e sem temores a própria vida se abranda, como o
mundo humildificado e ditoso se prostra ao entrar no que chamaste de maravilhoso.
Sento-me ao teu lado.
Fazes-me sinal para olhar para baixo,
mas eu não vejo o rio, daqui onde espreito há apenas flocos de frio.
Sorris e colocas a mão no meu joelho.
Dizes que isto, o joelho, deve ser apenas para tocar o chão em admiração, rimas
e sorris, vergado à telúrica santidade do solo que nos faz ventres prenhes de
humanidade.
Mestre, não sei o que hei-de escrever,
confesso, após largos minutos contigo em silêncio meditado. Tu olhas-me com
esse sorriso que brota de cada ruga que nunca sorriste numa crepuscular ausência
de som, apoias as mãos na pedra, afastas-te de mim para te inclinares sobre o
lado esquerdo e pousares a cabeça nas minhas pernas cansadas.
Entre a flor e rocha deixo as mãos
caírem no teu cabelo ralo. Sinto a aspereza da urze vergada ao peso das
minúsculas flores e saboreio pela primeira vez a paisagem sem dores.
Olhas-me e como se não precisasse de
candeias, fugindo de quem apaga as estrelas, fechas os olhos e, pela primeira
vez, pelos cantos do mundo por onde escorre a vida, sem nascente, sem foz,
escuto o borbulhar das palavras que me suspiraste a cada página e ouço, clara,
a tua voz.
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