Acompanhado
Crónica de domingo na Bird Magazine.
O vento atira as nuvens na nossa
direcção.
O espanta espíritos espanta-se com as
formas nubladas e tilinta-nos o entubado som ecoando por entre as memórias do
que por aí vem.
Levantas a tua caneca fumegante e
ergues o braço, convidas, levanto a minha e sorrindo brindamos ao que quer que
seja que nos une.
O banco de jardim, inclinado,
transformado em banco de alpendre, brilha ostensivamente a camada de verniz
recente e ilumina-se quando a velocidade vertiginosa do longínquo raio chega
ofegante na sua eterna ânsia de chegar antes do ribombar do trovão.
Balanço o banco como sempre digo para
outros não o fazerem.
Ris-te.
Lá vem vento novamente, o teu cabelo
esvoaça e suspiras quando uns poucos se metem entre os teus lábios e o chã de
cidreira, com açúcar obviamente, e os beberricas inadvertidamente. Nada mais
faço que ver-te pelo canto do olho e rio-me sozinho, baixinho, levando a caneca
à boca na esperança que não me vejas escarnecer, mas tens trejeitos de quem se
adivinha, dás-me um encontrão no cotovelo que me faz balançar no banco e na
agilidade típica de um leão-marinho entorno um pouco sobre mim, engasgando-me,
tossindo, e deixando escorrer um pouco da minha cevada pelo canto da boca até
se aventurar pelo pescoço e esmorecer ao alcançar o espaço vazio entre o meu
peito e a camisa de flanela.
A vida tem sempre forma de se fazer
surpresa e surgir como quem se esgueira por entre um corredor vazio sem que a
vejam e nos salta para os braços, abraçando-se ao pescoço e cruzando as pernas
nas nossas costas. Por falar em costas, podias lembrar-te que me doem as
minhas, penso, mas deixo passar a incúria com o rosto aberto, os óculos tortos
e o casaco de malha, azul, molhado pelas pingas que se deixam precipitar quando
a isso a gravidade as convida.
Era capaz de ficar a ouvir este
silêncio para sempre, noto em mim uma certa melancolia, uma nostalgia, típica
de quem se sente imortal e na sua intemporalidade faz de conta que um ano é um
dia e um dia é aquele momento em que o arrepio do Outono nos lembra que atrás
das fumegantes chaminés ao longe, vem espevitado e austero o Inverno.
Há tempo para tudo, diziam-me, só não
há tempo para o próprio tempo. Coitado, penso, envolto nas voltas que se transladam
pelo sistema solar, sorrindo a tempos de outros planetas e a astros de outros
planos sem tempo de ser o próprio tempo.
Está a escurecer embora me pareçam ser
horas do Sol, acima deste tapete cinzento e azul negro, brincar na
heliocentricidade e decidir de que lado da vida se deseja pôr.
As nuvens revolvem-se e parecem formar,
vale-me a imaginação, uma espécie de invertida agitação marítima, onde ondas de
tufos cinzentos com tonalidades diferentes se precipitam sem saberem onde
rebentar ou em que praia desabar.
Vejo-me assim, entre dois mares, o que
me foge dos pés onde quer que pense e o que me alcança independentemente da
terra firme que procure.
Endireito-me no banco, as pernas da
frente fazem um barulho seco e oco ao baterem no chão de madeira já gasta. Cruzo
os pés, pouso a caneca que fumega ainda timidamente, já sem a cevada, na
pequena grade de madeira onde me apoio quando é a minha vez de soçobrar e
destapo os braços, prendendo a manta entre o queixo e o pescoço.
O caderno anima-se quando me vê pegar
na caneta e sem ajuda da brisa abre-se para me receber, exibindo as folhas
amareladas de cor e de sabor, fechando os olhos na saciedade prévia de quem se
saber ir ser escrito e, nisto de escrever, pouco importa o quê, mas sim o
quanto, venha a mim o vosso reino, maravilhoso.
Olho apenas uma vez mais em redor, a
chávena órfã, o banco ímpar, a serenidade de um tempo que se quer a arfar
escorrido por dentro de um corpo que a terra há-de comer.
De caneta entre os dedos, caderno sobre
os joelhos, prendo melhor a manta com o queixo e imaginando-me acompanhado,
começo a escrever assim:
“O vento atira as nuvens na nossa
direcção…”
Comentários