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O poeta

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O poeta , nova crónica na minha secção Crónicas do Nada , no Correio do Porto. O colorido dos insufláveis onde as crianças orbitam sem cessar, enquanto outros saltam de cor em cor perante o olhar atento de uma ajudante cansada, alternando o olhar e a atenção entre os catraios irrequietos e os instagramáveis acessos de quem pulula de irreal em irreal, concorre com o cantor, jovem, num improvisado palco de mesas de refeitório amarradas umas às outras à força de abraçadeiras de plástico e boa vontade, solicitando o bater de palmas a uma plateia distante. O chão do pavilhão multiusos descansa das investidas desportivas do andebol, basquetebol, futsal, karaté e outros menos organizados, como bater-bafo, corridas de meias e futebol com bolas invisíveis. A festa de final de período, com as divindades edis no olimpo de alvas cadeiras de plástico, os responsáveis de associações, pais, culturais, desportivas, associativas, musicais e outras que tais, convivem na placidez de uma tarde cinzenta, ...

Feliz Natal.

Há uma riqueza infinita em valorizar mais as pessoas que não têm, do que aquilo que tu próprio podes ter. Que os passos apressados sejam substituídos pelo caminhar de um lado para o outro no recinto a que chamam casa e eu, inocente, gosto de chamar estábulo.  Que nunca o pouco farte tanto como quando o nada que nos veste não pese no ego, e o sorriso que se cruza connosco abra boas tardes e boas noites sinceras, sem comentários, votações, partilhas e discussões. Que o silêncio diga grande parte do que se ouve enquanto a noite se digere e o céu nocturno, escuro, pintalgado de estrelas ausentes, se debate para encher de sonhos os mais inocentes. «Por arte mágica paternal, dentro da bota ortopédica surgia o que eu pedia (e a única coisa que na estreita chaminé cabia). A lanterna, já com pilhas necessárias e eu, ansioso, calado, com olhos húmidos, rasgando com cuidado o papel, abria a porta da cozinha voltada ao encantado arvoredo, sem qualquer frio ou medo, espreitava o pinheiro e o an...

São Martinho

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"São Martinho" Crónica de mais um dia diferente, na minha secção Crónicas do Nada no Correio do Porto São Lourenço do Douro mira plácido o rio que o nomeia. O vento empurra até às encostas do Marão o bafo ameno anunciador de chuva. O vaguear da encosta trajada de asfalto não permite grandes distracções ao volante, no entanto, não resisto a olhar o espelho dourado rasgado por um batel prenhe de simpáticos e bonacheirões nórdicos, parecem-me, à distância e à imaginação. As conversas oscilam como as copas das árvores e as placas de trânsito, indecisas, quanto aos limites de velocidade curva após curva. Chegados ao destino, o que nos quis, não o que quisemos, à porta assoma a simpatia sexagenária, metro e meio de viúva, a colorida indumentária, a casa sobranceira sorridente nas obras quase terminadas. Indica-nos onde colocar o que levamos, sorri novamente e a conversa oscila entre o vento, o mesmo que nos levou até lá, a possibilidade de chuva, que são, afinal, as coisas que as ...

Rosalin(d)a

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Rosalin(d)a, ou um encontro.  A minha nova crónica do Nada, no Correio do Porto.( https://www.correiodoporto.pt/prioritario/rosalinda ) O corredor de um hipermercado ostenta quase tudo aquilo que possui e que eu não necessito. David, do alto da sua vigésima terceira ode, sabia bem o que desejava, o nada que sobra de tudo o que não faz falta. De repente, encontro-a sentada num monte de sacos de peletes em sofá improvisado. O sorriso é do tamanho das décadas que me separam da felicidade que vive na memória, aquilo a que orgulhosamente posso chamar história. No beijo e abraço que trocamos reencontro o conforto das manhãs frias onde o quente leite adocicado, retirado da gigantesca panela, servido num usado e translucidado copo, me aquecia o corpo e, agora, o olhar. A sala de aula era ágora extraordinária, a professora no centro, em todo o lado a funcionária. O viveiro colorido que era a escola primária, agora ornamentado de pomposos nomes agrupados, era ameia, muralha, castelo e univer...

O último cacho

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" O último cacho ", nova crónica do Nada, no Correio do Porto. O frio cobre-me os braços para uma manhã de sábado pré-Outonal. Esfrego-os para me aquecer e continuo o caminho. Vozes inusitadas à hora matinal percorrem o nevoeiro e chamam-me a atenção. Risos. Aqui e ali uma voz adolescente chama por alguém, numa voz estridente alguém pergunta:   – Este cacho é para a travessa?   Uma voz septuagenária responde, arrastada e agastada.   – Nem para beber há que chegue, deita-o no balde.   Os termos, os sons das tesouras de poda a tricotarem a manta que cobre as minhas recordações, emocionam-me. Ou talvez seja o frio. Apercebo-me que é a época das vindimas quando, na minha mente, já a última poda tinha talhado toda e qualquer colheita que recordasse os meus dias de adolescente. Por entre as folhas das videiras fronteiriças um rosto assoma, espreita e saúda-me. Retribuo com um sorriso. O “bom dia” ficou preso nas rememorações atravessadas na minha glote.    Ao olh...

Verão

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Verão  Nova crónica na minha secção "Crónicas do Nada", no Correio do Porto. O calor acomete-se a quem, de véspera em vésperas de dias por vir, se inunda dos pretéritos que ainda não chegaram à margem do tempo presente. O tempo ausente banha os veraneantes, a contas com protecções dérmicas, bronzeados imigrados de uma tez que não existe. A irrealidade é vivida de publicação em publicação, a leitura pulula de comentário em comentário. A curiosidade inócua intromete-se na realidade da existência irreal que nasce nas leiras dos comentários, comentados entre comentários e figuras animadas de sorrisos e palmadinhas nas costas em forma de corações. O quão mais natural seria a voz, ainda que envergonhada, desabituada, proferir o que o coração muitas vezes quer dizer, mas por falta de prática não o sabe fazer. São férias, senhor, diria um espírito mais compassivo e ausente frequentador de orbes tão densos como este terceiro planeta a contar do astro rei. Enquanto ardem as labaredas ...

Arraial

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"Arraial", para ler no Correio do Porto , na secção "Crónicas do Nada".    Fora do silêncio, tudo parece ficar para trás, com excepção do verdadeiro, pois não há memória de mentira que nos adiante o passo, além da falácia de sermos mais uns do que outros. Ou menos. Que não iguais. Com o avançar da idade, a estrada à nossa frente parece enrugar-se e recuar num destino que, apesar de cada vez mais perto, esconde-se atrás de cada novo sonho urdido. Ao presente que nos presenteia a existência, acometem-se as sonoridades de tempos em que os arraiais eram menos fartos em néon. Na avenida cortada ao trânsito automóvel, transeuntes de vestes humanas passeiam-se desnudos, gastos e menos gastos na vida. Uma matilha de cães de peluche, num irritante estridente ladrar metálico, mexem automaticamente as pequenas patas desarticuladas numa corrida desenfreada sem sair do lugar (ou a tecnologia a imitar a humanidade). Ao fundo da rua cortada longitudinalmente pelo canteiro central ...