2018-04-15

Fractal

“Fractal”, crónica de Domingo, na Bird Magazine.

O avião sacode-se como se libertasse das camadas pressurizadas da atmosfera, essa amálgama de gases que se deixa abater sob a gravidade. Ser-se ar não será certamente fácil. Aliás, ar nem é ar, sabemos lá o que respiramos? Somos sôfregos como qualquer animal embezerrado, a necessidade de acolhimento em úberes, a marrada ritmada num ventre e o sorver desregrado do leite ou ar. Mas não somos só leite, nem ar, aliás, o ar nem é ar, o leite nem é leite, o ar é uma mistura, uma composição de vários gases, sei lá qual deles respiro neste momento?! E eu? Uma mistura, um amarrotado molecular a que a minha consciência se constrita, e por me saber partido apesar de unido, sorvo todas as partículas de ar ou de outros compostos, de forma a que no meio deste emaranhado de fractais e meias medidas ou meias coisas, eu me consiga almejar inteiro, ou coisa.

Deve ser da pressão, das sacudidelas ou da ténue curva que vislumbro no horizonte, o degradiente colorido em tons de azul que vai do cinzento, das pessoas que lá em baixo se comprimem ao que pensam ser o destino, passa pelo alvo nublado dos tufos sorridentes da água gasosa, e vai escurecendo, escurecendo, até que se deixe abraçar pelo que não existe, no infinito, num azul escuro e um escuro negro do espaço. A cada abanão ou abanico, todo o meu partido ser chocalha, imagino-me desfeito do composto molecular, para novas configurações se avizinharem no sempre certo caminho do destino perdido.


A novo abanico, arrastado pelo som soprado no habitáculo, o barulho tinirento dos apertados aparatos onde se vendem perfumes, sandes, quentes e frias bebidas, raspadinhas e comissões escondidas nos sorrisos tímidos dos cabelos amarrados na nuca e no macarrónico inglês que nunca consigo perceber por inteiro, volto a mim eu que me habituei a sentir-me mais eu quando em mim não estou. Voltando. Ao texto. A mim. Olho para a esquerda e para baixo, apenas porque o simples olhar para a esquerda me faria contactar o olhar do passageiro a meu lado. A mão direita sobre a mão esquerda, as mãos carregadinhas de rugas e gretas, um encardido negro que não é sujidade, apenas uma assinatura de quem com as mãos escreve a vida, a pulso. Ergo o olhar para espreitar pelo estreito postigo e cruzamos o olhar. Na minha mania de ser calado, não me apercebi que ali, a olhar para mim, alguém pedia interlocutor para partilha de um medo: “Nunca me habituei a isto” e sorri, o cabelo negro e húmido colado à testa, o sorriso amarelecido e entreaberto com sílabas assemelhando-se a silvos cavado num rosto onde a lâmina abriu a pulso caminhos como um arado puxado por não menos que Deus, na labuta incansável de se criar um Homem. “Tantos anos longe e nunca me habituei a isto”, novamente, agora sem sorriso, rosto fechado, pensamento oralizado, “Da próxima vez não volto, fico lá, a ver a canalha crescer”. Para, a garganta treme-lhe. “A gente é mais que dinheiro”. 


E eu, como sempre, com todas as palavras para dizer e um abraço para dar, fiquei mudo, inteiro, colado à vida pelo cheiro a povo e aquela aura de divino.

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