2018-03-22

Asilo do conhecimento, num mundo de loucura

Texto incluído no "ProjectoPoesia&MusicaemlugarespoucoRecomendaveis" para o Arquivo Municipal de Penafiel.

Engavetamos a liberdade na escolha de sermos presos.
Primeiro os mais antigos, classificados por inutilidade, agrilhoados aos sentidos até não sentirem mais, eles, os sagrados, os profanos e os imbecis, a nós iguais.
Os sussurros que ouvimos são memórias distantes, um tempo que, relativamente a ontem, veio já antes.
O bater firme do metal ao fundo da gaveta, o sorriso papiresco e a morte esgrafiada pelo gume de uma baioneta.
Já nada sucumbe, porque nada vive ou habita, em nós, em vós, nesta modorra maldita, neste silêncio que faz companhia aos mundos sós.
Arquivado, o saber ocupa o lugar vago, o estorvo de uma vida com saber amargo.
Caberemos ainda no dossier amarelecido onde suaves dedos nos moldam e pincelam os medos?
De quando em vez, o olhar furtivo para dentro de um livro, o pousar terno e ameno de quem nos conserva, o calor humano sobre a rememoração do mundano.
Olha, aqui, sim, aqui, exibimos os episódios dos caminhos que inexistem no presente, porque no passado a guerra era travada frente a frente.
A paisagem dos blocos adormece o dia, quem no calabouço vagueia percorre as ruas pavimentadas pelas sombras do saber. Mas vocês fazem lá ideia? No recôndito metalizado frio, já não me rio, porque o destino é o mar, com pena minha, fiel, que apenas queria amar.
Sem valor, administramos a história, perpetuamos a memória, página a página, tomo a tomo, passo a passo num caminhar sem dono.
Encadernam-nos a vida em arquivos iletrados, mudos, vergados ao silêncio do mofo num parado coração de capa dura.
Vivemos no asilo do conhecimento, neste mundo de loucura.

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