2016-04-24

Os reternizados

Crónica de domingo na Bird Magazine.

Olá filho, Escrevo um dia antes para te poder dizer isto: Parabéns!
A tua mão dorme aqui, a meu lado, embrulhada como sempre numa almofada, está tão enroscada que pergunto se não existirá na sua codificação genética algum tipo de ascendência genética com o bicho-de-conta.
Gosto de te ouvir gargalhar com estas pequenas idiotices minhas.
Ela já não deve estranhar o barulho dos dedos no teclado e nem a luz fraca do candeeiro a deve acordar. Acredito que depois do dia de hoje, quando o Sol saiu da toca pela primeira vez em vários dias, nem o gotejar das estrelas no zinco barrento do telhado a faria abrir os olhos.
Escrevo como se não soubesses disto. Claro que sabes. Se calhar até foste tu que encomendaste um dia solarengo, com nuvens coloridas e sarapintadas de formas que apenas a imaginação infantil pode moldar.
Paro um pouco antes de retomar a escrita, este meu hábito de escrever apenas no ar, sem grafar, faz com que me perca várias vezes na necessidade de retocar letra a letra as palavras que se vão desvanecendo no meu olhar e, na verdade, só abro os olhos quando surges aos pés da cama e, maroto, me beliscas os dedos para acordar daquilo que nego ser o meu adormecimento.
Brincadeira de criança é galho florido nesta estação Primaveril. E noutros apeadeiros.
Quase esqueço que escrevi várias linhas antes e sai-me de novo um: Olá filho.
Andamos o dia todo contigo, não sei se sentiste. Aliás, não sei sequer se nos viste. Mas andamos, por aí, como se do alto dos teus seis anos fosses guia nesta excursão muitas vezes sem sentido, sentindo que no afago a qualquer outro ou outra que connosco se cruza, possas orgulhar-te do alto das tuas galáxias por viver do amor que sentimos por ti.
Olha lá, aí em cima também vais aprender a ler? Ou estas coisas são quase como as vidas, que se esquecem quando se nascem e vamos perdendo anos e anos a aprender aquilo que tão bem nos poderia ter sido dado, quase como os dedos das mãos, os dentes, os abraços.
De vez em quando a cortina onde projectam a realidade dilui-se, talvez por causa de um invisível vento que sopra da vontade de ver além do que se sabe vislumbrar. Aí sinto que talvez este sonho a que chamam vida seja de facto um onirismo de onde sairemos quando pensarem que adormecemos, para sempre como dizem.
Porta-te bem (este recado é da tua mãe). Nada de andar de gatas pelo universo, com o risco de berlindar um planeta contra outro, deixa as galáxias bem arrumadas depois de brincares com elas e em caso de dúvida sobre em que dimensão entrar pede ajuda a Deus, embora não se veja, ele anda por aí atento a quem se atenta.
Não sei se tens visto, mas tenho-me esforçado por fazer o que pediste. Vou olhando para os outros pirralhos e comportando-me da forma que queres, mas nem sempre é fácil. Sabes bem que sou distraído e esquecido, por mim e por outros. Mas na incompreensão do sentir, vou tratando-os como se eles fossem tu (e não serão?), a falta de posse despoja-nos do que poderíamos nunca ter e isso, dizes-me tu, é razão da rima entre as palavras dor e amor, podemos sempre escolher aquele que nos faz sentir melhor. Escolho o amor e lá vou, como queres, sorrindo e brincando com a garotada como se cada um fosse tu próprio. Dizes que na cegueira do que sou posso encontrar noutros a tua cara ou os teus gestos. Sou crente, acredito. Porque não haveria de crer na palavra de uma criança? Ou de uma estrela?
Já és crescidinho. Agora, quando te levantares e depois de lavares a cara com a luz que sai de uma estrela, vê se dás a mão ao teu irmão, não torças o nariz quando ele te pedir para fazer alguma brincadeira mais infantil, ele precisa de ti assim como tu precisas dele, já te imaginaste andar por aí sozinho sem a companhia segura do que pensas ser? Isto de viver tem dessas coisas, experimentar caminhos por onde nem sequer sabemos caminhar, mas isto vais aprender caso existem escolas desse lado da vida. Já por aí andei, mas esqueci tanto do que se aprende que cada dia aqui é um desfolhar de livros na ânsia de aprender a ler cada vez melhor, as palavras, as pessoas, os tempos e eu mesmo.
Vai crescendo em saúde, nas sombras frescas que permeiam o universo e onde um dia já me levaste pela mão, de dimensão em dimensão, como se a própria vida fosse o recreio onde brincas seguro e adulto nas meninices de uma ilusão.
Há-de vir um dia em que ao fechar os olhos possamos estender-te os braços a pedir que nos pegues ao colo e, desse lado, crianças novamente nos tomes como filhos teus. E de Deus.
Agora, filho, vou dormir, o cansaço apega-se daqueles que não se cansam de sentir. Vou pedir-te, mais uma vez, que não entoes estas palavras um pouco sem sentido. Por vezes há que escrever assim, sem sentido, para se poder depois anagramar os espaços em branco e encontrar no vazio deixado pelo renascer das vidas as palavras que combinamos ler. Pouco leio agora, deve ser porque vejo mal quando estou por detrás de uns olhos emudecidos.

Obrigado pela estrela cadente, se calhar foi sem querer, talvez tenha sido o teu irmão que deitou a chupeta de novo para o chão e resvalou aos trambolhões como uma pepita incandescente no céu nocturno. Faço-me acreditar que foste tu, na eternidade, a experimentar o lápis com que se escrevem as constelações e a garatujar as mesmas palavras que me saem da boca agora: Amo-te.

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