2015-09-06

Maré negra

Crónica de domingo, na Bird Magazine.

A manhã vai alta, mas do dia pouco nasceu ainda. O Sol criou-se e, pouco depois, fragmentou-se porque no meu olhar brilha ainda o sonho da noite anterior.
Vou mergulhando na sombra do prédio, debaixo da incaracterística paragem de autocarro cuja sombra se prolonga sobre outros veraneantes, por entre fumo de cigarro, pensamentos indistintos verbalizados na inexactidão do momento, está frio, diz que vem calor, é o Verão, pois é.
Ao meu lado um velho olha impaciente o relógio, abana a cabeça acenando negativamente, como se as horas que viu lhe comunicassem algo que só ele percebeu e, novamente, só ele negou.
Aguardarmos ambos, ele o autocarro, eu o tempo. Parece-me mais atrasado o tempo que o autocarro, de vez em quando passa do lado de lá da praça uma carcaça grávida, alivia-se de umas crias moribundas na paragem e quando contornar o elevado degrau de cimento onde um tosco guarda-linha de ferro vai fazendo sinais luminosos sem luz para todos os comboios que já não chegam a esta estação, chegará aqui. Vai abrir a guelra e por ela entrarão, o velho com um relógio negador e meia dúzia de vozes arbitrárias, dos pensamentos fica apenas o odor fétido que tento não inalar, mas que, mesmo assim, penetra nas ondulações do que cogito e vai toldando as águas do lago que eu tentava deixar sereno e límpido.
Enquanto aguardo o tempo, novamente atrasado, sinto chegarem aos meus pés as ondas da maré que sobe. Não me afasto, estou habituado a que o mar se chegue a mim, como se quisesse adormecer um pouco mais quente, saber-se sozinho por me encontrar.
De quando em vez embrulha-se nos pés um corpo ou outro, há-os aos milhares, fugidos de uma realidade que desconheço. Na verdade, desconheço eu e todos, chamam-lhes migrantes, talvez porque migram.
Fará frio lá, do lado de onde migram?
A comunicação social, seja qual o formato, vai vomitando os fortes murros que tentam acertar-nos no estômago e, com o impacto, fazer-nos enjoados, enojados, para, mais tarde, porque todos partilhamos algo: a ironia da partilha da emoção, um corpo de uma criança (criança o caralho!, criança nasce, é amada, cresce e, depois, morre, velha, quase a chegar a adulta) aos trambolhões no areal, para que se saiba que este mundo é vítreo, que nos pode matar viver.
Aflige-nos os migrantes, nós, que migramos em fuga da vida e pedimos asilo e nos recolhemos sobre o manto protector da rede social, do poder entregue a quem nos pede decisão e tudo decide ainda que ninguém ouça os indecisos.
O poder absurdo, a banalidade dos corpos esquartejados, a fragilidade humana que nos torna crias indefesas num mundo habitado pelo mais cruel dos cruéis animais, nós próprios.
Tudo nos entra pela cara dentro com a simplicidade (que se perca a poesia) de uma brisa marinha onde voam os minerais e os esvoaços frios da água salgada, almoçamos à hora do noticiário para que nos comam enquanto comemos, fazemos um esgar de nojo quando um membro arrancado por uma qualquer deificada personagem que não se sabe morta e pensa ser viva ou lá o que é aquilo a que chamam mortos vivos, tem história, dizem-me, acredito, mas não vejo, para crueldade chega-me a conversa no autocarro ou as imagens dos soldadinhos de chicha, explodidos em milhentos pedaços de resto de gente ou, ainda, as memórias de um matadouro.
Que queremos nós colher agora? Semeamos trevas, regamos com a água turva em que nos banhamos, porventura teremos a cristalinidade do hidrogénio e oxigénio combinados para colher? Mas por que divindade queremos nós enquanto espécie crescer, se nos temos atados a meia dúzia de polegadas, a uns impulsos digitais, à reciprocidade de um gostar virtual e à partilha codificada daquilo que nem sabemos reproduzir?
A vida tornou-se um jogo mais estranho, os peões marcham não para a guerra, mas dentro da guerra, em combate, ainda que à sua frente baile apenas a frágil certeza de um todo poderoso legislador que por si olha, a paternal imagem de quem se gladiara em falsas falácias de quem mente a alguém e, por fim, convence a si e aos outros que veracideia.
Questiono-me se será a velocidade de rotação tão forte assim para nos fazer, a todos, tontos passageiros deste berlinde acoplado a uma estrela deste lado do universo. Teremos a gravidade da Lua mais forte, tão mais intensa que a própria maré se confunde e se mareia mais vezes e mais forte? Não sei a resposta, estou zonzo.
Temo abrir a janela, olhar o céu nocturno. Que paisagem poderei eu ver? Que cegueira estarei eu autorizado a vislumbrar? Qual a dedução fiscal que me poderá trazer o bom dia pela manhã a quem comigo se cruza no alcatroado sobe e desce da vida?
Estamos doidos, não varridos, porque esses, por varridos serem, estão a salvo da demência com que nos ensinam a viver. Estamos doidos, repito, por discurso e por senilidade, pela entrega a que nos votamos quando acordamos pela madrugada fora e não somos capazes de observar que além do dia também cavalga pelo horizonte clareador a esperança.
Criança rima com ela, a esperança.
E se delas, o corpo adormecido na areia molhada, a onda que ternamente a beija e tenta acordar, não conseguimos discernir que no meio da tragédia estamos todos, vistos e observados, medidos e ordenhados, por uma mão de ferro que não ousa surgir, que manieta no escondido recanto do poder multidões, filosofias e religiões, então estamos desde já condenados a sermos o que sempre fomos, escravos.
Acredito sinceramente na sinceridade de um olhar, na pacatez de uma existência que se herda e se quer cumprir da melhor forma, na clareza de espírito para educar sem doutrinar, amar sem aprisionar, trabalhar sem escravizar, eleger sem se temer, escolher não ver o que outros escolheram para vermos e abrir os olhos para a vida que nos entra pela janela dentro sem esforço.
Até lá somos todos migrantes, filhos de uma guerra com denominador comum, marionetas ao redor de um mundo que parece cansar-se de nos ter, afogados na história e náufragos de um futuro para o qual poupamos a carne que arrancamos do corpo a cada dia de trabalho com a esperança de, mais tarde, na velhice, a podermos usar descansados.

Sabes, o tempo parece atrasado, acho que estamos já todos afogados.

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