2015-08-30

Rei, nício lectivo

Crónica de domingo na Bird Magazine.

Era uma vez, o mundo, redondo, há quem o tenha visto nascer arestizado, mas a berlindada a que foi submetido arredondou-o numa eternidade que tem durado até os dias de hoje. Haja moratória e berlindará por mais algum tempo.
Perdoe-se-me a desatenção.
Era uma vez, o mundo começava a outonizar depois de um veraneio quente de serrim colado ao corpo tangido de cansaço pueril, de gotas de suor a marcar as frontes sujas do pó do campo de futebol improvisado entre pinheiros e relva feita de mato e silvas, balneários feitos da parte de trás de um pinheiro manso largo o suficiente. Quando o Verão se carpia em fins de tarde cada vez mais frios, ainda sem ninguém que gostasse do que dizíamos em forma de gostos, sabia-se vir aí o tempo de procurar no fundo da gaveta quais os cadernos ainda mal preenchidos, com folhas pautadas ou quadriculadas, sebentas não sebentas, impolutas, para pousar o pulso e girar um compasso assemelhado a ele mesmo, sem seguranças ou travagens de emergência, apenas a certeza rodopiante de um ângulo de 360º na simetria da exactidão matemática, a científica forma de reproduzir uma divindade deificada, o rei rainha.
Não sobrando cadernos, fazia-se conta às aulas diferentes que surgiriam, sem contudo deixar de sentir o borboletear no estômago da indecisão de se saber decidir, seria fácil ou difícil? Ouvi dizer que é muito difícil, mais difícil do que no ano passado, um pouco como a vida, ou vidas, mais difíceis que as anteriores. Descia-se a rua, se de manhã fresca, fecha-se os olhos e deixa-se a respiração para daqui a uns segundos quando o camião verde escuro, cansado mas tenaz, passar lentamente pela rua acima bafejando a negritude do esforço quente nas arrepiadas pernas de catraio. 
O supermercado, sem qualquer super poder, tinha duas, no máximo três, prateleiras com cadernos todos iguais, negros ou com padrão de mala de viagem, um rectângulo de cantos arredondados (ou seria um círculo de lados rectilíneos?) branco onde poderíamos escrever o nome, número, ano e turma ou, então, apenas o nome da disciplina. Um por cada uma delas, as disciplinas ou aulas.
O caminho inverso custava mais, pela subida e pela ideia fixa nas aulas prestes a começarem, a certeza de conhecidos na turma, a incerteza de desconhecidos na turma, o rosto a mudar, a voz a engrossar, as borbulhas e os cabelos da moda. Nada muda. Ou tudo moda. 
O estojo, daria o do ano passado?, guardava algumas canetas cuja tinta resistiu aos combates do ano lectivo anterior, e acolhia outras, novas, quase novas, dos brindes antigos da época do Natal ou uma e outra nova, com sorte um conjunto tricolor, preto, verde e vermelho, cujas tampas não furadas convidavam a qualquer inocente incauto perder o ano lectivo por morrer engasgado e sufocado. Recordo o olhar apetitoso para novos modelos (já lhes chamavam porta-lápis e não estojo), plástico brilhante e colorido, imitação de rostos de super-heróis que estava habituado a ver apenas a preto e branco. O fecho magnético, os locais exactos para encaixar as canetas, lápis e borracha (qual delas, a verde, a branca ou a multifuncional castanho e azul?).
A mochila teria agora mais ombro onde assentar, os nomes riscados e o remendo cosido, o espelho parecia convencer-nos que estávamos prontos para o embate e as séries televisivas de verão tinham-nos ensinado uns poucos truques para o sucesso.
As prateleiras vazias, os livros plastificados, o temor dos novos professores, o respeito pelos professores anteriores, o medo também dos professores anteriores. O dono do tempo era o próprio tempo e perante a rebeldia inocente da inocência a que éramos votados por nós próprios, afinal, a principal característica da adolescência, entrávamos pela escola pequenos senhores do nosso nariz, mudos e calados até ao primeiro olhar de uma menina/o, até aos primeiros trabalhos de casa (fogo, logo no primeiro dia de aulas?), até ao trémulo sombreado da lâmpada atrás do candeeiro sobre os cadernos virginais onde se lia ainda “Lição nº 1”.
Houve tempo, quando a prioridade de quem se prioriza parlamentarmente era ensinar, que o respeito coexistia com a educação que se trazia de casa e o conhecimento passado pela voz, calduços e letra de professores, onde todos nos revezávamos na tríade de aprender, ensinar e desaprender, para depois, mais tarde, sem o apelo brutal ao consumismo, valorizarmos todos os elementos que nos avaliaram, as letras e palavras, até o som das guitarradas!, sabendo-nos mais adultos (salvos sejam!) porque éramos donos de nós mesmos.
Agora, pasmo-me, com a brutalidade consentida por quem se empoleira e sem se saber nu vomita legislareidades, apelando a que mais do que a preparação mental e espiritual para a partilha de conhecimento, se deixem colar ao corpo as etiquetas com que os querem carimbar, metafórica e literalmente, idolatrando a rectangularidade do que parece modelar as mãos e eles, petizes, andam de mãos cheias sem se saberem que as levam cada vez mais vazias.
Li algures, numa qualquer publicidade desviante, que se pode ter tudo o que se precisa para o novo ano lectivo, para o reinício, que “quem manda agora és tu”. 
E eles, elas, os pais, correm e poupam o que não têm em cupões para comprarem mais tarde o que não precisarão, camuflam-se com tudo aquilo que os pesa, esquecendo a leveza da filosofia própria de quem se sabe que quanto mais se carrega, menos se vai e, não, não se enganem, quem vos apela ao “quem manda és tu” é quem a vós pertenceis, o que vos cozinha lentamente, em fogo brando, e vos comerá depois de temperada a ignorância que te faz nu.

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