2015-07-26

Dia dos Avós

Crónica de Domingo na Bird Magazine.

Mãe há só uma, verdade, ainda que omisso, pelas muitas mães que não o sendo, biologicamente falando, se encarregam de carregar na vida filhos e cadilhos, seus e de outrem. Já avós, que me lembre, assim de cabeça, de todos aos que chamei avô ou avó, trago sete, sim sete. Quatro avós e três avôs. Porque avô ou avó é toda a pessoa idosa, daquelas que conhecemos desde velhas e que, por isso, não envelhecem. É um fenómeno que nos assiste no quotidiano que se partilha com quem atravessa já os gastos dias enquanto nós, de joelhos esfolados, nos vamos rastejando enquanto os passos não possuem suficiente passada para nos levarem a um destino. 
Sabe Deus, e quem me conheça mais ou menos bem, que nada me separa de todos os outros e outras que fazem parte do espectro electromagnético que é o meu olhar semi cerrado e quase cansado, em suma, de quem amo. Tive sete avós, sim, sete. Na verdade continuo a tê-los, não sei se algum deles poderá já ser o neto de alguém, grande mistério o dos passos contados entre vidas, e por isso carrego a perfeição do número e a certeza de poder ter olhado para corpos cravejados de rugas, de movimentos tão tolhidos e prisioneiros, que cheguei a ouvir da voz funda e trémula, o desejo de morrer.
Os avós pela proximidade da barreira física, são quase o nosso contacto primário com a morte, o descer do caixão e a lágrima de saudade, mas não de tristeza. No dia dos avós, há um brinde que se ergue cristalino até atingir o fundo do cálice da recordação que mora onde as nuvens se fazem chover. Enquanto tento abstrair-me do não muito calor que se encosta a esta tarde, começo a ouvir os passos de cadência certa, o chinelo a bater no chão, o respirar mais pesado e profundo de quem aproveitou todo o ar que lhe entrou como primaveras quando no peito viviam dois pulmões já usados. 
Quatro avós, na linhagem do genuíno, dos que se traçam e entrelaçam na árvore biológica de uma família, foram meus, paternos e maternos. Dos meus paternos, as recordações esbarram com as mãos grossas e grandes de quem me içava criança e me sentava no carro de bois, a caminho do mato para cortar, as rodas a esmagarem o chão, o cajado no chão como um outro passo que sustenta o cansaço. O brincar com a pequena e velha bola amarela com losangos pretos, a bater despreocupadamente no chão de lousa, terra e merda que compunha o pátio, a porta enorme de madeira a arrastar-se pelo chão, desenhando quartos de círculos e o aviso, guardem isso que vou passar com o gado. 
E se canalha tem virtude essa é de não obedecer a regras, posto que foi preciso pegarem na bola, colocarem-na numa prateleira de lousa, baixa e inatingível a alturas de gente com três anos, escorada por um vaso barrento e um espelho raspado de ver tanta cara escanhoada, erguerem os netos e sentando-os nos degraus de pedra que davam acesso aos quartos acima das cortes do gado, não saiam daqui que vou passar com o gado. Quiseram estas escadas serem uma das duas rememorações da avó paterna, os seus passos lentos amparados pelas filhas, minhas tias, rumo ao quarto e a cara beneplácita no topo da mesa, olhando para um panelão negro, a sopa de cebola e ovo a fumegar e vertendo-se no prato, o meu olhar a baixar para a pequena malga que me deram e, talvez pelo calor, pelo vapor, quando ergui os olhos acabaram-se-me as recordações dela. 
Dos meus maternos, vão mais longe as memórias, a viagem de comboio, o frio inicial dos passos à saída da estação de S. Bento e o calor afogueado quando por Faria Guimarães, já a chegar a Damião de Góis, virava à direta numa rua que terá nome, mas que me fugiu sempre pois sempre foi a rua dos avós, subia uns paralelos, contornava a garagem do mecânico e depois seguia em frente por entre uma ilha, até encontrar uma porta, a minha mãe tocar à porta quando não a reconheciam antes as minhas primas na sua rua de catraia, as portas feitas de cortinados, o cheiro intenso a não sei o quê e o beijo da minha avó. Sabes avó, não sei outro que não o sabor do rectangular pedaço de marmelada envolto num papel fino e transparente que colocavas nas minhas mãos. Acho que por saber que nada mais havia a oferecer, tudo me sabia a riqueza. O meu avô deve ter nascido velho e com corpo franzino, com uma barba branca que me picava a face, é assim que o recordo nos livros que desfolho mentalmente, arrancando páginas em busca de um grão de letra dourado. 
O teu corpo na cama, o olhar impotente, os sulcos fundos que pareciam rugas escarpadas pelos anos, sei-te a história, mas facilita-me a narrativa quando passo de carro em Faria Guimarães e ainda te consigo ver sentado na esquina de um café com montra redonda envidraçada, a fumar, os dedos amarelados, o acatar dos dizeres da minha mãe, tua filha, como sendo tua mãe, a cabeça baixa e aquela vez em que te fomos buscar a casa e tu, enaltecendo a qualidade de volante do meu pai, passaste um domingo inteiro em nossa casa, na aldeia, e embora me falhe o dia, o mês ou o ano!, sei que foi num domingo, de tarde, tu sentado no sofá esverdeado forrado a napa rasgada, a televisão a mostrar imagens de um clube vermelho campeão contra o teu clube azul e branco. Depois disso, desculpa, já só a imagem de um caixão aberto, quase ninguém na capela, a minha mãe que se debruça sobre ti, diz pai, soluça, enquanto o meu pai me toca no ombro e diz-me, vamos lá para fora. 
E eu fui, sem perceber muito bem porque chorava a minha mãe, se tu estavas por ali a afagá-la enquanto ela chorava. Fora dos avós e avôs que se ergueram cedo ao firmamento, guardo o carinho profundo pelos velhinhos a quem chamava avós sem perceber porquê. Talvez pela sonoridade acompanhada dos meus primos, talvez por não lhes saber o nome. Tive uma avó que fazia barulho ao andar sobre o soalho de madeira e quando na cave, a ajudar o meu tio na pós-vindima, podia vê-la a andar de um lado para o outro, devagarinho, apoiando-se nos móveis e cozinhando algo que o meu palato esqueceu. A minha outra avó, depois percebi porque não era minha avó, deu-me um calduço bem dado com os nós dos dedos das suas mãos que tremiam e emitiam um barulho semelhante a um guizo por causa da pulseira dourada que trazia sempre, quando a tratei pelo nome e não por avó. 
Quis o tempo que fosse a que visse mais tempo, mais vezes, na força dos passos e na aspereza das palavras, no ligeiro andar que me fazia correr para a acompanhar até ao Bolhão, no raro sorriso e na gargalhada farfalhuda de quem sorria só quando o tempo se fazia espaço. Vi-a pela última vez numa cama, que não a dela, conheceu-me e olhava-me já por detrás do corpo idoso, imóvel, os olhos vivos ainda na retina fugidia que parece ensombrar os corpos que se aproximam do término. Eu ficava poucas vezes a olhar. Desviava a atenção para a janela e para as árvores cujos nomes não conheço, olhava ligeiramente e ocasionalmente para ela apenas para me aperceber da nebulosidade que teimava flutuar sobre o horizonte diário dela. Chegava a hora de ir embora e não sabia ser a última vez que a veria ali. Baixei-me sobre ela, dou-lhe um beijo na testa, outra na cara, a face dele treme e numa espécie de suspiro disse-me, eu queria era morrer. Ah, a vida é justa, fez-lhe a vontade e acredito seres mais feliz agora que te libertaste do colete sufocante que não permitia ouvir-te o som da pulseira dourada na tua mão trémula. 
As recordações começam a esgotar-se, agora que me vejo no ladrilhado branco e negro em frente ao Imperial, tu a dares-me a mão, alguém com um cigarro no canto da boca pergunta, quem é? E tu respondes, é meu neto, filho da Vira, e passas-me a mão na cabeça, sorris e piscas o olho quando o outro responde, neto, tens cada uma! Quando conduzo há o cheiro a Toyota Corolla no ar, um odor a viagem do Porto a Cête, o barulho das tuas mãos a baterem uma na outra e o raspar caraterístico de tu as esfregares uma na outra, o típico “foquinhas” que me habituaste a dizer quando ultrapassavas alguém. Ah, fazes-me rir agora, mesmo depois de te esquecer as feições na totalidade, apenas o cabelo grisalho puxado para trás, a cara longa, o olhar forte, o beliscar as tuas mãos e ficar entretido a ver a pele flácida lentamente voltar ao original. 
Desculpa-me se não recordo mais, são muitas, variadas, mas apenas algumas parecem querer florir e nada mais me emudece quando me lembro do teu corpo sentado no sofá a olhar para uma televisão desligada, o barulho da cidade lá fora, a botija de oxigénio e as cânulas no nariz levando-te o ar que anos de fumador te tiraram, eu chego, avô, tu olhas-me e sorris e quando me vanglorio de ter entrado (para algo que viria a abandonar brevemente) tu ergues-te lentamente, ofegante, e agarrado ao braço do sofá fazes-me uma continência e piscas-me o olho, como se estivéssemos os dois numa manhã fria em frente ao Imperial a vermos os autocarros passarem. Dos que não partiram resta-me a saudade de uma manhã de escola, a chuva torrencial, as calças molhadas sobre uma cadeira perto o suficiente da lareira para secar, enquanto nasce fumo da caneca de café quente e só a pobreza me poderia dar a riqueza de uma boroa caseia com meia cebola e vários grãos de sal. 
Os avós são imortais, sei-o, dos que partiram estão todos aqui, comigo, a rirem-se e a anuírem com um acenar a veracidade dos factos narrados. Se calhar é de mim, a imaginação, talvez sejam já eles corpos noutros corpos, algures, a olhar para os mais velhos como sendo avós. Mas sei, apenas, uma coisa, o olhar inocente da criança é o testemunho a Deus da reverência do avô, do idoso, pois foi quando foram olhados, eles, avós e avôs, novos ou velhos, no amor, inocência e verdade única que todos somos.

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