2015-06-07

Bicho de contas

Crónica de Domingo na Bird

Encosto-me ao portão de ferro. A pintura negra apresenta diversas falhas, por onde brotam bolbosas bolhas de ferrugem, com se este óxido de ferro fosse uma quente e espessa lama que nasce por baixo da pintura. A mão habitua-se ao frio do metal e à rugosidade suave da tinta descascada. A estrutura metálica a que chamam portão faz-me lembrar uma velha cancela das linhas de ferro, onde uma mão atenta ia puxando a segurança ao longo de um gasto carril por onde nunca circulou um comboio, apenas as rodas conservadas pela espessa e melada massa consistente que as protegiam da intempérie e as faziam prender na areia e terra depositada, deixando no ar o característico cheiro a caminho de ferro.
Deixo-me ficar um pouco, atento ao trânsito que passa na curva cega da estrada, onde por vezes cegos condutores se aventuram como se por terem apenas meio olho fossem algo similar a rei. Ao fundo, abrigado do Sol por um telhado de chuchus e suas ramagens, vejo-o sentado no frio banco de granito, as mãos calejadas e um pouco cegas de articulações, talvez lhe falte a massa consistente ou a consistência de uma vida mais protegida, calejada, mas não ceifada. As favas ganham vida por entre os dedos, há uma espécie de destreza que parece inundar as pessoas que eram já velhas quando as conhecemos em criança. Estas, pessoas, nunca envelhecem, vão-se tornando mais enrugadas, mais encurvadas, com um andar mais vagaroso e cauteloso, o olhar viçoso dentro das órbitas já torneadas quantas e quantas vezes por uma vida que vai passando quase sem se dar por ela, translacionando-se sem que se saiba de que lado nasce o Sol ou se é mesmo ele que se mexe ou somos nós, migalhas de um pão sideral que caíram neste quintal a que chamamos Terra. 
As favas caem no balde, as cascas na bacia. O balde, negro, tem um arame protegido por um plástico azul escuro. Detenho-me a pensar se o plástico é para proteger as mãos do arame ou, se, porque não?, será para proteger o arame do contacto com as nossas calosas mãos, o suor que nos escorre das palmas e se esborrata com o pó levantado pelos passos descalços num terreno lavrado que pariu batatas aqui e ali, inteiras e rachadas, deixá-las lá, não se comem inteiras. 
O bocal do balde ou lá como se chamará a entrada do mesmo apresenta uma forma ovaloide, mas não me impede de tentar visualizar e calcular o diâmetro do mesmo e, assim, pensar no perímetro, depois a área, o volume segue-se imediatamente e quando dou por mim estou já a calcular o espaço que sobra se colocar vários baldes semelhantes lado a lado, uns sobre os outros, num espaço confinado. 
- Estás novamente a fazer contas, não estás? 
As pessoas mais velhas conhecem-nos melhor agora que estão velhas e nós as conhecemos desde o sempre que é o momento em que nos lembramos de nós como pessoas ou portadores de baldes. 
- Sim, estava – respondi com um sorriso tímido e envergonhado. 
A conversa continua, desde a saúde que já não é a mesma, passando pelo futebol, aventuras de outros tempos e sem cronologia, orbitando, como os olhos vagos, em travessuras de canalhada a correr descalça, calças remendadas sobre remendos, as côdeas de pão, a fruta roubada do pomar do senhor fulano de tal, os dias de soldadura às barrigas generosas das carruagens vermelhas e amarelas, o zumbir das catenárias, a modernidade dos alfas e as saudades das velhas locomotivas que pareciam enfurecidos gigantes cor de laranja a fumegar de esforço e orgulho em galgar montes e rasgar longas rectas por esse país fora, sucumbindo por fim ao cansaço e ronronando no abrigo secreto das oficinas, recebendo o carinho de quem as tratou como suas próprias mãos. A precessão das histórias levar-te-á pelas paredes do lagar e de quantas pessoas foram necessárias para o erguer, outros tempos, quando não havia nada e por isso tínhamos tudo, pelas caminhadas ao Sol e à chuva com o bombardino às costas e a merenda a bailar dentro do saco de pano que levavas ao ombro ou, ainda, das noites quentes e ardentes, literalmente, dos tempos de bombeiro, quando nem a ceia de Natal era poupada ao chamado rouco e aflito da sirene na noite escura de aldeia e tu te enfiavas, como tantos outros, a correr estrada abaixo, ainda de pijama, até ao quartel e se te pesava o cansaço ou a preguiça de olhar para o lado e fazer de conta que o que se ouve não é nosso, dizias que olhavas para trás e vias como se fosse tua própria casa a arder, logo te bafejava a adrenalina e os longos passos te levavam lesto ao quartel. 
Agora, as favas estão quase todas descascadas, eu fiz milhentas de contas, sem qualquer prova de nove ou de novo que me permita saber estar certo ou errado, as cascas na bacia beije (vim a saber que era castanha, modernice de plástico que nos traz contas e doenças, cujo tempo se entreteve a tingir de claridade) servirão de comida para as galhinhas e as favas, dizes tu, é para a patroa enfiar na sopa, isto de estufá-las já não é para ti, que nem o cheiro nem o sabor te enchem a barriga. 
Vamos os dois até ao portão, o Sol encarrega-se de nos fazer lembrar que esteve sempre ali, as favas e as cascas despedem-se por uma última vez enquanto alguém se encarrega de as levar para outro local, cada qual em seu recipiente. Os teus dedos estão verdes, sacode-los nas calças, levantas a mão a alguém que passa e encostas-te ao portão, quase como se fizesses de propósito para eu não o abrir e ir embora. Faço de conta que sim, que não reparei e encosto-me também ao portão, que se inclina e apoia na calha que o sustém e esta, por sua vez, deixa-se ficar chumbada ao pilar como sempre esteve. 
A conversa vai longa, o silêncio falou a maior parte das vezes em que abri a boca. É uma espécie de diálogo inter-estelar, cada qual na sua órbita. Sei que daqui irei um dia cavalgar numa qualquer linha poligonal até me perder de vista, para lá das nuvens íngremes agora e o troar que escutares não será trovoada, talvez tenha sido eu que me perdi nos cálculos e tive que começar de novo. 
- Estás aí? Nem te vi rapaz, entra! 
 Sou arrastado dos pensamentos, empurro o portão, sacudo a ferrugem das mãos e entro quinteiro dentro, a fugir do Sol para me abrigar por baixo da folhagem e dos chuchus, para te apertar a mão fria com dedos verdes das favas que descascas e para calcular quanto tempo terei eu perdido enquanto me dedicava a ver que resultado poderias ser?

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