2015-03-15

Ainda que adormecido

Crónica de domingo na Bird Magazine.

A facilidade com que esta folha branca se ri de mim é enervante. 
Começa por um duelo, um olhar estarrecido para uma imensidão fértil, sem o conhecimento ou discernimento de qual fruto semear. Ouso acordar para a musicalidade de uns passos, o caminhar conhecido pelas mesmas ruas de hoje, mas com o mesmo olhar de ontem. 
O dia amanhece sem grandes preocupações, as palavras adormeceram sem pensarem acordar para uma singularidade não repetível, eu, aqui, neste planeta. 
Levo ainda o sabor a café, amargo, como uma cortina que se encosta ao interior da boca e me faz sentir acordado, ainda que adormecido. 

Imagino uma estrada sem buracos, um percurso nivelado que não se transforme no ziguezaguear contínuo por entre asfalto fractado, marcações a tinta envidraçada que ninguém ousa calcar, decisões que ousam indecidir. Perco-me na imaginação, ainda que adormecido, de me ver diluir num abraço sentido ou no olhar trocado com o sentido proibido.
Cansam-me as vidas que deixei para trás e que ainda me tentam alcançar, como se me visse do alto de mim mesmo e, ao meu redor, fossem ondulando as existências a meus pés, indo, vindo, trazendo consigo a espuma e o gélido aroma a maresia que me faz querer voltar ao que ainda não saboreei. Sim, ainda que adormecido, levanto-me do sofá bem depois de me ter içado e oscilado com o vento que abana a persiana, o vento traz-me a tarde por entre as cortinas da sala e espreita por todas as fotografias que me vêm sorrir. 

Agora, o sorriso, é reserva estabelecida para as noites estreladas ou, como hoje, para as conversas que se têm numa ou duas estradas. Senti-me novamente estranho ao corpo, na imagem que se reflecte e refracciona dentro de mim, sorri. Ri. Embora não me transforme no petiz que vi sentado no atrelado de um cacofoneiro tractor por entre sacos de, imagino, erva ou ração, ou no puto normal que se esconde por detrás daquilo a que chamam deficiência. Curioso como esta dimensão temporal se faz no agora aquilo que trouxemos pela vida fora. Um pouco como as frases que tento escrever, sem prestar atenção ao caminho e aos ramos baixos que teimam em bater-me na cara quando, incauto, um pouco parvo convenhamos, tento andar por entre pinheiros no meio do resto do dia que se ausenta. Os dias transportam um pouco de tudo. Um poema que vi escrito dentro de mim e que ficou a aguardar um novo caminho sentado numa fonte que, agora, não existe mais. 

Acredito que ficará por lá até que eu passe, veja o barulho do borbulhar e, ainda que adormecido, desperte para a cristalinidade de uma água que faz nascer a sede. Infelizmente, a calcificação do que sou não me permite alcançar a fluência do discurso e, um pouco triste, confesso, perco-me nos olhares e nas inúmeras metáforas que tento compor na esperança de, com isto, mostrar que o não mostrado é o que exibo de facto, um pouco como o beijo, o não dado, que se torna o mais saboroso por ter sido dado no silêncio da distância que embora aqui nos separe, nos une como nos longos serões onde o mundo parece ser feito de película e a película feita dos nossos corpos agasalhados um pelo outro e pelo travo doce de uma cabeça a descansar sobre o ombro. Ainda que adormecido não durmo. Reservo-me à prostração e alimento-me das conversas, de caminhos percorridos à distância de um braço, o calcar das pedras que foram pó um dia, como as pessoas, como a tarde quente que traz o que sou aqui mesmo à minha frente. Agasalhei as palavras o melhor que pude. 

Lamento imenso não conseguir sentar-me na soleira da porta de mim mesmo e escrever, ao sol de quem por mim passa e sorri, que tudo o que sou não sou, tudo o que tenho não é meu, porque meu são as noites e os dias, o passado e o futuro que não percorro porque estou agora, aqui, neste exacto momento, comigo a ser eu próprio. 

Que faço? Choro? Rio? Talvez a finalidade seja a inicialidade e a palavra que procuro escrever, falar, seja aquela que ouvi quando a pensei e, depois, aconchegando o lençol ao pescoço a deitei. Talvez seja isto, ainda que adormecido, estabelecer sequências rítmicas, o ciclo de palavras que ciclicamente me circundam e me fazem sentir espiral sem qualquer limite tridimensional, apenas para escutar o som das sombras das árvores que me permitem abrir os olhos no solareio final de um sábado de tarde. Vai, eu também irei, enriquecido e inebriado de energia dos locais onde residem as memórias de um tempo que será passado agora que chegou o futuro das nossas vidas. 

Espero que ouças o ranger dos teus passos no final de tarde, que a brisa de um Março te faça sentir ao longe a candura do abraço, que a cada rima se evaporem as luzes de quem nos ilumina lá de cima. 
Vai, eu estou por aqui, fazendo-me de mim esquecido, desperto, ainda que adormecido.

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