2005-09-05

Os sorrisos meus, agora que fora de criança sou...

Quanto valerá um sorriso?
Dou por mim a pensar num preço, numa medida qualquer palpável, concreta, daquelas que estão padronizadas, mas não encontro medida ou valor…
O quanto custará sorrir?

Vamos lá ver se é desta que eu vou escrevendo… Domingo foi dia de passeio – convívio. Há muito combinado, o convívio das marchas populares teve lugar no domingo a um sítio apelativo: Srª da Boa Morte…

Posso ter 30 anos, quase, quase, mas estes passeios colocam-me com 9 ou 10 anos. Quando entro na camioneta e olho aquelas faces, com mais rugas, mais velhas, mas iguais ainda, sinto-me regressar no tempo, como se fosse possível, e vejo-me a percorrer a pé o caminho da escola para casa… Agora posso andar a pé, no mesmo caminho, mas os sorrisos não são mais os meus, nem as pessoas o são… Novas caras chegaram, velhas caras partiram… Voltando ao passeio… Entrar na camioneta (de Alpendorada – mais recordações…) e ver aquelas caras, olhar com sinal de respeito, eu sem estes olhares não sou nada, ou serei bem menos do que sou agora… Todas aquelas faces fazem parte da minha história, da minha infância…

A música, tinha saudade da música, do rancho e do cantar ao desafio em letras irónicas e mordazes… Tinha saudade de sentar-me no banco e afundar-me, mas agora as pernas não deixam, batem no banco da frente…

Gostava muito de poder grafar os meus pensamentos no exacto momento em que os sinto, em que eles me escrevem… Agora, com esta dor de cabeça, torna-se difícil passar para palavras o que se viveu…

Fico a imaginar o quão fácil para ser a convivência em harmonia, apesar de todas as diferenças… Em local de convívio surgiam faces desconhecidas, gente simples de farnel às costas, que se sentava perto só para ver e ouvir cantar e tocar, viola e concertina… E esta gente simples ficava sentada perto, comendo o panado ou o rissol, beberricando um tinto, rindo, apoiando a cabeça nas mãos…

O pó que se levantava durante e após os passos de dança, mais ou menos improvisados, de gente que cresceu dando vida e corpo a folclore, a desfolhadas e bailaricos de aldeia, banhado pelo sol parecia-me ouro, ouro fino com que os sorrisos daquelas gentes me vão enriquecendo.

As malhas, nas mãos a resina dos pinheiros, o pó, novamente o pó, e a terra revolvida pelo bater do ferro e do bater no meco, desgraçado, que tomba perante o nosso divertimento…

Junto a estes homens, gente de honradez e sorriso, jogando malhas com eles, sinto-me uma criança aceite pelos homens… Esqueço que tenho 30 anos, ups, ainda não, que sou como eles, mas ainda penso como sendo criança. Ontem, domingo, o tempo voltou definitivamente atrás…

Mas o sorrisos… Sorrisos de gente feliz, de gente que vive estes convívios, estes passeios que outros poderão chamar de chungas, chulas, num país marcado pela mesquinhez intelectual… Custa-me pensar que daqui a pouco tempo, políticos (tão pouco vieram deste povo) estarão, avessamente, beijando caras e apertando estas mãos calosas de gente boa, como se fossem deles, como se tivessem comido cebola com sal acompanhada com um bom naco de boroa e uma chávena de café com borra, se fosse Inverno… Não quero falar disto, do estupro praticado pelas hienas, quero voltar ao passeio, ao convívio…

Por umas horas, somos todos iguais, sempre o fomos, obviamente, mas é diferente, agora não há distanciamentos, há sorrisos, cantares, bailaricos, panados, boroa, uns tachos aqui e acolá, um garrafão (ou vários!) e olhares de felicidade…

Não consigo deixar de me comover com estas visões… Com a felicidade das pessoas bailando, braços no ar, olhares cercados por incontáveis rugas e sorrisos desdentados de gente boa e simples, povo que amo.

A Srª da Boa Morte fica em Ponte de Lima, num alto, como convém a qualquer santuário… Rodeado de árvores, este sítio de festejo pagão foi, como todos os outros, apropriado pela igreja… Fica a pensar na religião… O povo faz a religião, não é a religião que faz as pessoas… Veneradamente as pessoas entram na igreja, eu também, contemplam as figuras e fotografias de benfeitores, santos de madeira em restauro… Há qualquer coisa de sinistro na subida para o local onde estão os santos, do meu tamanho, e um caixão aberto onde está a suposta Srª da Boa Morte, não lhe faltando sequer uns olhos moribundos ou como diz a minha mão, de “carneiro mal morto”… Detenho-me alguns instantes, o local apertado e baixo, de pedra, pouco iluminado leva-me a alma para tempos antigos, de cátaros, de encontros anónimos. Resolvo-me subir quando, a meio, tenho que voltar atrás para deixar passar pessoas que descem… Subo e contemplo as imagens primeiro e, depois, o caixão… Parece-me macabro, mas ainda assim melhor do que por aí se vê, como entrar numa capela feita em ossos… O religioso confunde-se com o místico e transcendental, num folclore que é, inegavelmente, parte integrante da nossa história… No altar todas as figuras parecem olhar para mim, rostos ovais, como antigos Maias, de crianças com harpas, violas e outras coisas mais na mão…

O sino vai chamando as pessoas para a missa… Há que apressar o passo… O delas, não o meu…

A hora do regresso chegou, todos se sentam, ainda que por breves instantes, pois as colunas trémulas soltam música da minha gente… O motor faz interferência com a rádio, junto às castanholas, cavaquinhos, reco-reco, ferrinhos e outros que tais, ouve-se um silvo… O meu povo pôs-se em pé a dançar, braço no ar, suor a pingar e sorrisos, muitos sorrisos! Não consigo deixar de me comover com estas imagens… Às vezes acho que só a mim isto não me passa indiferente… Conheço poucas pessoas que parem por momentos apenas para ver os sorrisos dos outros e apreciá-los…

Hora da chegada, desfaz-se a companhia e acaba a festa… Os tempos são outros, poucos se levantam à alvorada para ir ao campo ou pensar os animais… Agora alimenta-se a máquina dos bilhetes de comboio e a alvorada é um caminhar, rápido, para a estação da CP e esperar encontrar lugar sentado, para dar mais uma hora de sono ao corpo.

Cada qual segue o seu caminho e eu fico, aqui, com os seus sorrisos, a sonhar sozinho…

1 comentário:

umbigo disse...

As tuas palavras encontraram o meu sorriso...