2016-04-10

Os mesmos caminhos percorridos com outros olhos

Crónica de domingo na Bird Magazine.

Percorri esta noite, a pé, o meu velho caminho até à escola primária.
Noite, Lua igual a tantas outras vezes, mas agora vista com outros olhos, um céu estrelado com algumas pinceladas de nuvens aqui e ali. 
Meti pés à estrada.
O caminho até à estação continua igual ao percorrido e ficará para outras situações.
Cheguei à escola primária. 
Perdeu o tamanho que possuía e a imponência que despertava em mim espanto e temor, mas continua mágica.
Não preciso fechar os olhos para me ver correr pelo recreio, era um puto, pequeno, com sonhos, com piscar de olhos a imitar um pirilampo dos carros dos bombeiros.
Os muros são agora mais baixos, as próprias paredes são menos brancas, baixas, do tamanho normal das casas. 
Os degraus, que subia ofegante, são pequenas elevações. 
O muro que separava a "escola de cima" da "escola de baixo" e que eu saltava com cuidado é do meu tamanho, do meu tamanho... 
Tudo parece agora do meu tamanho, mas continuo pequeno. 
Continuo a correr pelo recreio, a jogar ao "bom barqueiro", a saltar à corda, a jogar futebol toscamente, a saltar o muro para chegar primeiro à fila para beber o leite ("está frio? bochechem que ele aquece!"), a debruçar-me na torneira do tanque para beber água, sentado no topo do triângulo a lanchar e a falar sozinho.
Na luz ténue do luar vi-me ainda dentro da sala, a jogar raspa, a escrever, a ver o quão curioso era o número 2 ("oh mãe, é mesmo parecido com um ganso!"), a perceber o porquê de 2 x 2 serem 4. Continuo a adormecer sobre os cadernos, a pintar a cara com marcador cor-de-laranja fingindo ter sardas. 
Continuo a escorregar pelo corrimão, a esfregar as mãos no ferro da carteira depois de levar uma reguada.
As telhas, as portas, as janelas, é tudo novo, tudo restaurado, mas tem ainda a capa da saudade, a cobertura de lembranças que mantém intacta a imagem deste caminho, visto agora com outros olhos.
A Lua já se mexeu um pouco, as pinceladas cobrem agora algumas estrelas. 
Um toque no ombro faz-me despertar, é hora de continuar a caminhada, percorrer de novo estes velhos caminhos. 
Esboço um sorriso ténue, nada de mais, apenas um esgar de saudade, de alegria, talvez ingenuidade.
Limpo a lágrima que teima em cair, creio que quer ficar lá, na escola. Saltou de mim e uma mão invisível levou-a para os olhos de um miúdo, cabelo e olhos claros, como os sonhos. Ele cerra as pálpebras e ela cai, pegando-a com carinho sorri para mim como que a dizer-me: "vai...". Virou costas e foi brincar com os outros putos enquanto eu rodei lentamente e suspirei. 
Pareceu-me ouvir a professora Eugénia chamar-me de dentro da sala de aula, ao mesmo tempo que soava o som de um trovão, era o barulho dos putos a subirem os degraus de madeira.
A escola ficou lá, agora mais pequena. 
Eu sou grande, não caibo mais nos sonhos de criança, não retorno a esta vida distante e paralela.
Enquanto me afastava no caminho, vi e ouvi os putos dizerem-me adeus. 
Parei apenas um instante, apanhei um pouco de sonho caído no caminho e continuei, acompanhado, a andar, mais pequeno.
Sinto-me mais leve agora.

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