Crisma

"Crisma", a crónica recente nas minhas "Crónicas do Nada", no Correio do Porto.

https://www.correiodoporto.pt/prioritario/crisma

Com o calor a cobrir a tarde de sábado, o único escape, depois de deixá-las a uma das portas do improvisado (e fresco) templo, era parar no parque subterrâneo da superfície comercial. Até porque, reparo, apesar dos muitos e variados locais de estacionamento horizontal, um tetris veicular no emborrachado piso, ninguém estacionara debaixo dos painéis solares. Os carros, sedentos de uma sombra natural, acomodavam-se como podiam debaixo da única frondosa árvore que resistia, não por vontade própria, as árvores crescem na ignorância humana e alheias aos desígnios maniqueístas de uma evolução tecnológico-energética, mas porque parecera bem, suponho, a alguém, que no meio de tantos fotovoltaicos painéis um pequeno ponto verde sirva de aplauso ao povo, de carrinho de compras cheio, em subserviente anuência a quem lhes encurta o redil, o futuro é de quem tenha mais uns mil.

Mesmo no piso menos um, ou mais um à fresca, o bafiento calor de uma cúpula climática entrava e estacionava em todos os lugares sombrios. Escureçamos o povo e digamos que é para o seu próprio conforto. Mais aplausos. Saio e tento decorar o local onde deixei o carro, sozinho, sonolento, ávido que o leve a outras paisagens. Dentro da superfície comercial, o frescor atirava mais calor para o exterior, o preço do progresso é caro, mas útil, embora outros o achem fútil. Saio e colapso a vontade de percorrer as centenas de metros até ao local onde se fará o Crisma. Na verdade, não é Crisma, mas nestas questões estou pelo original, deixemos o veneno para as víboras e façamos de nós mesmos templo. 

Centenas de pessoas procuram local, sentado ou em pé, onde melhor vislumbrar crismandos, sacerdotes, coro, ajudantes, bispos em auxílio, fotógrafos e outras curiosidades. Acompanho o desenlace, de pé, amparado a mim. Um rosto conhecido aproxima-se. Conversamos como podemos enquanto o bispo não desloca o prateado cajado até ao altar. Pelo meio, a confissão, o receio das dores de estômago e o historial familiar de quem do papo padeceu. As semanas a fio fora do ninho e longe da menina que dá os primeiros passos alfabéticos na escola primária. O carro que ficou ao sol a fazer sombra à erva do improvisado estacionamento. A surpresa reservada à afilhada em cerimónia de unguento. Acompanho a narrativa como posso. A atenção voltada, também, para o encontro de quem venho acompanhar. Cedo o local a outros mais baixos que eu. Vou-me adensando no final da fila de pessoas, algumas, valendo por dois, preveniram-se e chegam munidas de pequeno e coloridos bancos desdobráveis. 

Há uma solenidade inesperada. O local, cedido em última hora pela autarquia, despia-se e cedia. Sob um tecto luminoso, as palavras caíam como bálsamo, impulsionadas, talvez, por quem além de cajado e vestes veste-se do que profere. Uma autoridade na assertividade da voz. Ali, entre milhares, conversando como a sós.

– Saudai-vos na paz de Cristo – ouvi ao mesmo tempo que o meu interlocutor, agora calado, me estica o braço sorridente e aperta a mão, que retribuo com um ligeiro aperto no antebraço. Aos lados e atrás, sorridentes, outros me cumprimentavam, apaziguados, alguns de fardos libertados. Pela esquina do observável, por entre calor e raios que a cúpula da velha adega transparecia, um ligeiro sorriso trazia de volta a esperança de um futuro não distante. Um puto estica-me a mão bolbosa. Eras tu, sei-o, mas ninguém te viu a fazer isto, pois não, Cristo?



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