“Fractal”, crónica de Domingo, na Bird Magazine.
O avião sacode-se como se libertasse das camadas pressurizadas da atmosfera, essa amálgama de gases que se deixa abater sob a gravidade. Ser-se ar não será certamente fácil. Aliás, ar nem é ar, sabemos lá o que respiramos? Somos sôfregos como qualquer animal embezerrado, a necessidade de acolhimento em úberes, a marrada ritmada num ventre e o sorver desregrado do leite ou ar. Mas não somos só leite, nem ar, aliás, o ar nem é ar, o leite nem é leite, o ar é uma mistura, uma composição de vários gases, sei lá qual deles respiro neste momento?! E eu? Uma mistura, um amarrotado molecular a que a minha consciência se constrita, e por me saber partido apesar de unido, sorvo todas as partículas de ar ou de outros compostos, de forma a que no meio deste emaranhado de fractais e meias medidas ou meias coisas, eu me consiga almejar inteiro, ou coisa.
Deve ser da pressão, das sacudidelas ou da ténue curva que vislumbro no horizonte, o degradiente colorido em tons de azul que vai do cinzento, das pessoas que lá em baixo se comprimem ao que pensam ser o destino, passa pelo alvo nublado dos tufos sorridentes da água gasosa, e vai escurecendo, escurecendo, até que se deixe abraçar pelo que não existe, no infinito, num azul escuro e um escuro negro do espaço. A cada abanão ou abanico, todo o meu partido ser chocalha, imagino-me desfeito do composto molecular, para novas configurações se avizinharem no sempre certo caminho do destino perdido.
A novo abanico, arrastado pelo som soprado no habitáculo, o barulho tinirento dos apertados aparatos onde se vendem perfumes, sandes, quentes e frias bebidas, raspadinhas e comissões escondidas nos sorrisos tímidos dos cabelos amarrados na nuca e no macarrónico inglês que nunca consigo perceber por inteiro, volto a mim eu que me habituei a sentir-me mais eu quando em mim não estou. Voltando. Ao texto. A mim. Olho para a esquerda e para baixo, apenas porque o simples olhar para a esquerda me faria contactar o olhar do passageiro a meu lado. A mão direita sobre a mão esquerda, as mãos carregadinhas de rugas e gretas, um encardido negro que não é sujidade, apenas uma assinatura de quem com as mãos escreve a vida, a pulso. Ergo o olhar para espreitar pelo estreito postigo e cruzamos o olhar. Na minha mania de ser calado, não me apercebi que ali, a olhar para mim, alguém pedia interlocutor para partilha de um medo: “Nunca me habituei a isto” e sorri, o cabelo negro e húmido colado à testa, o sorriso amarelecido e entreaberto com sílabas assemelhando-se a silvos cavado num rosto onde a lâmina abriu a pulso caminhos como um arado puxado por não menos que Deus, na labuta incansável de se criar um Homem. “Tantos anos longe e nunca me habituei a isto”, novamente, agora sem sorriso, rosto fechado, pensamento oralizado, “Da próxima vez não volto, fico lá, a ver a canalha crescer”. Para, a garganta treme-lhe. “A gente é mais que dinheiro”.
E eu, como sempre, com todas as palavras para dizer e um abraço para dar, fiquei mudo, inteiro, colado à vida pelo cheiro a povo e aquela aura de divino.
2018-04-15
2018-04-10
Não me faltes
aos passos,
o caminho e a vereda,
o linho e a seda,
não,
não me faltes ao caminho de volta a mim,
o caminhar agreste no inominável,
a cratera chamada dia
e o que o silêncio nos ensina,
a vida é uma palma de mão sem sina,
o arfar seguro,
a fenda no muro,
o parágrafo sem respirar,
o abraço que fica por dar,
não,
não me faltes aos passos
porque
não
sei
voar…
aos passos,
o caminho e a vereda,
o linho e a seda,
não,
não me faltes ao caminho de volta a mim,
o caminhar agreste no inominável,
a cratera chamada dia
e o que o silêncio nos ensina,
a vida é uma palma de mão sem sina,
o arfar seguro,
a fenda no muro,
o parágrafo sem respirar,
o abraço que fica por dar,
não,
não me faltes aos passos
porque
não
sei
voar…
2018-03-25
O ceramista nas palavras em brasa
“O ceramista nas palavras em brasa”, crónica de Domingo na Bird Magazine.
As brasas dormem, sussurradas pelo imaginar do que poderá ter sido uma lareira nocturna, das que espreitam por detrás de um gradeamento que policia o salto aventureiro de faúlhas e das sobras dos crepitares eufóricos quando o lume os transmuta.
À volta da mesa, redonda, o pó branco e grés reúnem-se esparramados no chão, esmagados por passos dados descalços, no cimento tijoleirado são exibidas as marcas do que parecem ser bailados de fantasmas, com os seus etéreos pés, sem direcção que se apresente viável apesar de se conhecerem todos os caminhos.
Na parede olham-me miríades de vidrados, cobaltos e ruborizados ornamentos sucumbiram ao vazio do calor que verga, cimenta, endeusa e apascenta. Esta vida, por vezes, faz-se de uma madrugada lenta, o eterno despertar adiado para que nunca se saiba acordado.
Quando o chá arrefece e deixa pairar o aroma da terra que pariu a folhagem, sobram as palavras em cavaqueira com uma qualquer miragem, porque artesanalmente já ninguém se abraça, nem com o braço firme, musculado, de um ofício que o tempo amassa.
Pela janela semi-fechada por semi-aberta, vislumbrei mais umas bancadas e aparatos com trejeitos de barro, cal, escorridos tomados pelas sobras que nunca viram forno.
A terra é de quem a ama, por isso quem dela se alimenta e veste, condenado está ao amor duradouro da natureza, aquela que ao vento reza, para nos cuidar sob a tenda erigida onde habitamos, vestidos de humanos, sem nos caber na algibeira o caminho curto e empedrado para as paisagens nas passagens a caminho do que se ama, na terra.
Escondi-me quando o vi mexer sob o avental, virou-se no sofá talvez por uma constância de movimentos que liberte o corpo para descanso mais prolongado. O aviso de bateria do computador pisca, fastidiosamente, como um farol azul no aviso lânguido de que a música está a tocar apenas no ouvido interno do ceramista. Quando voltei, mais tarde, já sem necessidade de me esconder ao abrigo que estava da noite curta do Inverno, ajoelhei-me sobre umas hortênsias alvas e espreitei por entre os bocados menos sujos com o pó branco da cerâmica e vislumbrei-o, a arte nobre de fazer com a mão aquilo que foi chão, moldar, levantar, lapidar, vidrar e amar, o barro, a argila, o esvoaço leve de uma peça pronta a cozer. E ali, a olhar para o vazio de uma peça virgem por lavrar, à luz da lareira que afogueava num raku teimoso contra os elementos que se rendem ao fogo, o ceramista escreveu incontáveis linhas de palavras nas cântaras, um livro de metamorfoses moldadas cuja escrita almejou apenas desaparecer sob a serradura ardente, num sentimento incandescente.
Há palavras destinadas apenas a serem lidas pelas nuvens quando o fumo ascende e a vida, escorrida a golpes de chuva, se desprende do firmamento e nos vem cair no colo, sem qualquer lamento.
As brasas dormem, sussurradas pelo imaginar do que poderá ter sido uma lareira nocturna, das que espreitam por detrás de um gradeamento que policia o salto aventureiro de faúlhas e das sobras dos crepitares eufóricos quando o lume os transmuta.
À volta da mesa, redonda, o pó branco e grés reúnem-se esparramados no chão, esmagados por passos dados descalços, no cimento tijoleirado são exibidas as marcas do que parecem ser bailados de fantasmas, com os seus etéreos pés, sem direcção que se apresente viável apesar de se conhecerem todos os caminhos.
Na parede olham-me miríades de vidrados, cobaltos e ruborizados ornamentos sucumbiram ao vazio do calor que verga, cimenta, endeusa e apascenta. Esta vida, por vezes, faz-se de uma madrugada lenta, o eterno despertar adiado para que nunca se saiba acordado.
Quando o chá arrefece e deixa pairar o aroma da terra que pariu a folhagem, sobram as palavras em cavaqueira com uma qualquer miragem, porque artesanalmente já ninguém se abraça, nem com o braço firme, musculado, de um ofício que o tempo amassa.
Pela janela semi-fechada por semi-aberta, vislumbrei mais umas bancadas e aparatos com trejeitos de barro, cal, escorridos tomados pelas sobras que nunca viram forno.
A terra é de quem a ama, por isso quem dela se alimenta e veste, condenado está ao amor duradouro da natureza, aquela que ao vento reza, para nos cuidar sob a tenda erigida onde habitamos, vestidos de humanos, sem nos caber na algibeira o caminho curto e empedrado para as paisagens nas passagens a caminho do que se ama, na terra.
Escondi-me quando o vi mexer sob o avental, virou-se no sofá talvez por uma constância de movimentos que liberte o corpo para descanso mais prolongado. O aviso de bateria do computador pisca, fastidiosamente, como um farol azul no aviso lânguido de que a música está a tocar apenas no ouvido interno do ceramista. Quando voltei, mais tarde, já sem necessidade de me esconder ao abrigo que estava da noite curta do Inverno, ajoelhei-me sobre umas hortênsias alvas e espreitei por entre os bocados menos sujos com o pó branco da cerâmica e vislumbrei-o, a arte nobre de fazer com a mão aquilo que foi chão, moldar, levantar, lapidar, vidrar e amar, o barro, a argila, o esvoaço leve de uma peça pronta a cozer. E ali, a olhar para o vazio de uma peça virgem por lavrar, à luz da lareira que afogueava num raku teimoso contra os elementos que se rendem ao fogo, o ceramista escreveu incontáveis linhas de palavras nas cântaras, um livro de metamorfoses moldadas cuja escrita almejou apenas desaparecer sob a serradura ardente, num sentimento incandescente.
Há palavras destinadas apenas a serem lidas pelas nuvens quando o fumo ascende e a vida, escorrida a golpes de chuva, se desprende do firmamento e nos vem cair no colo, sem qualquer lamento.
2018-03-24
Quando a poesia fechou os olhos
“Quando a poesia fechou os olhos", crónica do nada, no Correio do Porto.
Quando descemos para os calabouços, a luz trémula fazia prever um sombreado disforme nas paredes, quase como se nos pudéssemos mascarar de granito e darmos as mãos no escuro, onde as pedras se lamentam metamorficamente. Pé ante pé, os degraus soluçavam por baixo de nós e, pelos que vinham atrás, acima de nós também. Aquele caminhar, o descer à abóboda de um mundo ao contrário, parecia-me uma marcha silenciosa numa procissão de condenados, sobre nós o trovoar de passos de, deduz a minha imaginação, deuses que caminham pacientemente na esperança que a Natureza acorde os que adormecem ao Sol e sob nós o burburinho de uma Terra em ebulição e que nos faz sentir firmes, mesmo sobre um pequeno torrão.
Afiançaram-me que seria poesia e eu sem nada saber procurava ao redor de mim, onde estaria ela? De olhos abertos, fazia pequenas rimas em formas de apontamentos, notas para mim mesmo, uma protuberância de existência, uma pitada de inconsciência e mais degraus até à antecâmara onde palavras de quem já não falava testemunhavam o futuro. No final, um homem pequeno em frente a uma porta enorme. Quando todos parámos e silenciámos ouvi um ligeiro bater, o som abafado que vinha do lado de lá de onde quer que estivéssemos. Com a indumentária a rigor, o porteiro homem abre a porta deslizando-a, a parede foi engolindo o metal e quando se fartou susteve a respiração deixando que todos passassem e se sentassem.
A luz crepuscular abafava os inúmeros arquivos onde permaneciam inalterados os ditos e os não ditos. De olhar adaptado à semi-escuridão, esforço-me por ver as palavras que vão sendo declamadas, dedilhadas, sim, porque a música é também o falar de quem a sente, conversadas, enumeradas como se se fossem emoldurar em decretos, agrestes e soltas como um farol sem lei, ondulando pelas costas de um país que não compreende o rimar, o rir e o mar.
Os holofotes acendiam os olhos, de frente a luz pode ser uma escuridão branca e ofuscante, as palmas e os sorrisos acalmavam a noite de Inverno que tenta despedir-se com a ribombaria típica de trovões (ou seriam ainda os passos sobre mim?). Disseram-me que seria poesia e acreditei. Mas a verdadeira estava ali, em indumentária de contínuo, a suster a porta que a parede engoliu, com a barriga encolhida para que os convidados passassem entre ele e as cadeiras, com um sorriso rasgado escondido que apenas o lago marejado nas órbitas fazia prever.
Fui dando passagem a todos que pude, agradeciam ignorantes da minha intenção em propositadamente atrasar-me, confundidos com uma simpatia que não possuo, ou talvez seja isso a timidez. Quando sobrei eu apenas espreitei-o, ainda encostado à porta aberta, num sorriso cheio que o momento pedia, de olhos fechados saboreava e eu silenciosamente agradecia, afinal era ele a poesia.
Quando descemos para os calabouços, a luz trémula fazia prever um sombreado disforme nas paredes, quase como se nos pudéssemos mascarar de granito e darmos as mãos no escuro, onde as pedras se lamentam metamorficamente. Pé ante pé, os degraus soluçavam por baixo de nós e, pelos que vinham atrás, acima de nós também. Aquele caminhar, o descer à abóboda de um mundo ao contrário, parecia-me uma marcha silenciosa numa procissão de condenados, sobre nós o trovoar de passos de, deduz a minha imaginação, deuses que caminham pacientemente na esperança que a Natureza acorde os que adormecem ao Sol e sob nós o burburinho de uma Terra em ebulição e que nos faz sentir firmes, mesmo sobre um pequeno torrão.
Afiançaram-me que seria poesia e eu sem nada saber procurava ao redor de mim, onde estaria ela? De olhos abertos, fazia pequenas rimas em formas de apontamentos, notas para mim mesmo, uma protuberância de existência, uma pitada de inconsciência e mais degraus até à antecâmara onde palavras de quem já não falava testemunhavam o futuro. No final, um homem pequeno em frente a uma porta enorme. Quando todos parámos e silenciámos ouvi um ligeiro bater, o som abafado que vinha do lado de lá de onde quer que estivéssemos. Com a indumentária a rigor, o porteiro homem abre a porta deslizando-a, a parede foi engolindo o metal e quando se fartou susteve a respiração deixando que todos passassem e se sentassem.
A luz crepuscular abafava os inúmeros arquivos onde permaneciam inalterados os ditos e os não ditos. De olhar adaptado à semi-escuridão, esforço-me por ver as palavras que vão sendo declamadas, dedilhadas, sim, porque a música é também o falar de quem a sente, conversadas, enumeradas como se se fossem emoldurar em decretos, agrestes e soltas como um farol sem lei, ondulando pelas costas de um país que não compreende o rimar, o rir e o mar.
Os holofotes acendiam os olhos, de frente a luz pode ser uma escuridão branca e ofuscante, as palmas e os sorrisos acalmavam a noite de Inverno que tenta despedir-se com a ribombaria típica de trovões (ou seriam ainda os passos sobre mim?). Disseram-me que seria poesia e acreditei. Mas a verdadeira estava ali, em indumentária de contínuo, a suster a porta que a parede engoliu, com a barriga encolhida para que os convidados passassem entre ele e as cadeiras, com um sorriso rasgado escondido que apenas o lago marejado nas órbitas fazia prever.
Fui dando passagem a todos que pude, agradeciam ignorantes da minha intenção em propositadamente atrasar-me, confundidos com uma simpatia que não possuo, ou talvez seja isso a timidez. Quando sobrei eu apenas espreitei-o, ainda encostado à porta aberta, num sorriso cheio que o momento pedia, de olhos fechados saboreava e eu silenciosamente agradecia, afinal era ele a poesia.
2018-03-22
Asilo do conhecimento, num mundo de loucura
Texto incluído no "ProjectoPoesia&MusicaemlugarespoucoRecomendaveis" para o Arquivo Municipal de Penafiel.
Engavetamos a liberdade na escolha de sermos presos.
Primeiro os mais antigos, classificados por inutilidade, agrilhoados aos sentidos até não sentirem mais, eles, os sagrados, os profanos e os imbecis, a nós iguais.
Os sussurros que ouvimos são memórias distantes, um tempo que, relativamente a ontem, veio já antes.
O bater firme do metal ao fundo da gaveta, o sorriso papiresco e a morte esgrafiada pelo gume de uma baioneta.
Já nada sucumbe, porque nada vive ou habita, em nós, em vós, nesta modorra maldita, neste silêncio que faz companhia aos mundos sós.
Arquivado, o saber ocupa o lugar vago, o estorvo de uma vida com saber amargo.
Caberemos ainda no dossier amarelecido onde suaves dedos nos moldam e pincelam os medos?
De quando em vez, o olhar furtivo para dentro de um livro, o pousar terno e ameno de quem nos conserva, o calor humano sobre a rememoração do mundano.
Olha, aqui, sim, aqui, exibimos os episódios dos caminhos que inexistem no presente, porque no passado a guerra era travada frente a frente.
A paisagem dos blocos adormece o dia, quem no calabouço vagueia percorre as ruas pavimentadas pelas sombras do saber. Mas vocês fazem lá ideia? No recôndito metalizado frio, já não me rio, porque o destino é o mar, com pena minha, fiel, que apenas queria amar.
Sem valor, administramos a história, perpetuamos a memória, página a página, tomo a tomo, passo a passo num caminhar sem dono.
Encadernam-nos a vida em arquivos iletrados, mudos, vergados ao silêncio do mofo num parado coração de capa dura.
Vivemos no asilo do conhecimento, neste mundo de loucura.
Engavetamos a liberdade na escolha de sermos presos.
Primeiro os mais antigos, classificados por inutilidade, agrilhoados aos sentidos até não sentirem mais, eles, os sagrados, os profanos e os imbecis, a nós iguais.
Os sussurros que ouvimos são memórias distantes, um tempo que, relativamente a ontem, veio já antes.
O bater firme do metal ao fundo da gaveta, o sorriso papiresco e a morte esgrafiada pelo gume de uma baioneta.
Já nada sucumbe, porque nada vive ou habita, em nós, em vós, nesta modorra maldita, neste silêncio que faz companhia aos mundos sós.
Arquivado, o saber ocupa o lugar vago, o estorvo de uma vida com saber amargo.
Caberemos ainda no dossier amarelecido onde suaves dedos nos moldam e pincelam os medos?
De quando em vez, o olhar furtivo para dentro de um livro, o pousar terno e ameno de quem nos conserva, o calor humano sobre a rememoração do mundano.
Olha, aqui, sim, aqui, exibimos os episódios dos caminhos que inexistem no presente, porque no passado a guerra era travada frente a frente.
A paisagem dos blocos adormece o dia, quem no calabouço vagueia percorre as ruas pavimentadas pelas sombras do saber. Mas vocês fazem lá ideia? No recôndito metalizado frio, já não me rio, porque o destino é o mar, com pena minha, fiel, que apenas queria amar.
Sem valor, administramos a história, perpetuamos a memória, página a página, tomo a tomo, passo a passo num caminhar sem dono.
Encadernam-nos a vida em arquivos iletrados, mudos, vergados ao silêncio do mofo num parado coração de capa dura.
Vivemos no asilo do conhecimento, neste mundo de loucura.
2018-03-18
Diz-me de que mundo pendes
dir-te-ei
a que universo pertences.
Nada do que me soçobre
poderá almejar mais que o orbitado
eu, aqui em pé
orando
e Deus, ali, acordado
porque não tenho mais ocasos para florir
nem tu mais desejos
por sorrir,
olha-me fundo no desespero
algures um braseiro
aceso
é tudo o que me ilumina
toda a rosácea multicolor
talvez borratada
(o que nos faz o calor?)
vai do fundo do destino
ao início da sina.
dir-te-ei
a que universo pertences.
Nada do que me soçobre
poderá almejar mais que o orbitado
eu, aqui em pé
orando
e Deus, ali, acordado
porque não tenho mais ocasos para florir
nem tu mais desejos
por sorrir,
olha-me fundo no desespero
algures um braseiro
aceso
é tudo o que me ilumina
toda a rosácea multicolor
talvez borratada
(o que nos faz o calor?)
vai do fundo do destino
ao início da sina.
O pouso da palavra, o voo da opinião
Crónica de domingo, à sexta-feira, aquando do lançamento da nova Bird Magazine.
Conheci o Ricardo e concomitantemente a Bird Magazine no final da inauguração da exposição Alma Tua, no Ciclo Cultural da UTAD, no final de 2013. De telemóvel na mão, no pequeno gabinete da professora Olinda Santana, encostas do Alvão ao fundo e a minha imaginação a descansar, como uma pequena ave, nos ombros de mestre Torga, o estudante Ricardo direcciona uma entrevista para uma revista online, um blogue, um espaço de opinião e um sonho, tudo ao mesmo tempo. Naquele vinhedo de amadorismo, de um lado autores a contorcerem ideais em solo arável, mas infértil como se veio a verificar posteriormente (ah, este míldio político), do outro lado o entrevistador como uma casta que tenta vingar pelo factor correcto, a qualidade interior do que se tenta desconstruir no pensamento e pensar por si mesmo. O tempo passou, as caras facearam as imagens, as palavras afundaram-se no chão e as estações foram estacionando o pó sobre tudo o que valia (mas já não vale).
Em 2014, descendo as encostas virtuais das serranias desta aldeia global, surge o convite de quem se mostrou sempre acompanhador dos meus trejeitos escriturários (ou como nos podemos apagar a nós mesmos escrevendo nas mãos as paisagens daquilo que nos faz sermos passageiros, desacordadamente, iletradamente, numa enciclopédia de um só tomo, de uma só página, em branco). Aceitei o convite com a premissa de escrever sobre aquilo que sei, ou seja, nada. O Ricardo aceitou e foi-me incentivando, ora dando um retorno positivo, ora solicitando temas específicos para determinadas ocasiões e em bem hora o fez, o convite e as sugestões. Desde Outubro de 2014, quando saiu a minha primeira crónica, muito se tem emoldurado nas paredes deste muro. onde me abrigo, de forma regular e hoje, coincidência matemática que tem tanto, ela, a matemática, de sagrado como profano, como as palavras, esta é a crónica 150, cento e cinquenta. Bolas, cento e cinquenta! Indago-me o que me pedirá a vida posteriormente em troca destes cento e cinquenta desabafos, desconstruções, contrições, percursos expressivos e recursos gavetais, indagações e opiniões, vazios e silêncios orbitais. Mesmo que não queira olhar para os números, eu que me habituei a viver infinitos eternos a cada segundo que passa, não posso deixar de olhar com orgulho para este trabalho, amador por ser feito por quem ama o que faz, por uma equipa de pessoas que me habituei a ler e, do alto da caladura, conhecer no lançamento do primeiro volume de crónicas.
Indissociáveis, o Ricardo é a Bird Magazine, e acima de pontos de vistas, está de parabéns por aglomerar talentos, temáticas, tristezas e alegrias, de quem escreve e lê, de quem cega e vê, de quem pensa com Pê. Ainda que me soe, ultimamente, apenas quinzenalmente, sinto diariamente o prazer de coleccionar palavras no ninho para, posteriormente, a cada salto quinzenal do calendário, poder levar a página no bico e voar-me.
Hoje, ao contrário do slogan da Bird, deixo ficar serena a opinião para fazer voar a palavra ao encontro dos leitores, dos cronistas e, claro, do Ricardo dizendo: obrigado.
Conheci o Ricardo e concomitantemente a Bird Magazine no final da inauguração da exposição Alma Tua, no Ciclo Cultural da UTAD, no final de 2013. De telemóvel na mão, no pequeno gabinete da professora Olinda Santana, encostas do Alvão ao fundo e a minha imaginação a descansar, como uma pequena ave, nos ombros de mestre Torga, o estudante Ricardo direcciona uma entrevista para uma revista online, um blogue, um espaço de opinião e um sonho, tudo ao mesmo tempo. Naquele vinhedo de amadorismo, de um lado autores a contorcerem ideais em solo arável, mas infértil como se veio a verificar posteriormente (ah, este míldio político), do outro lado o entrevistador como uma casta que tenta vingar pelo factor correcto, a qualidade interior do que se tenta desconstruir no pensamento e pensar por si mesmo. O tempo passou, as caras facearam as imagens, as palavras afundaram-se no chão e as estações foram estacionando o pó sobre tudo o que valia (mas já não vale).
Em 2014, descendo as encostas virtuais das serranias desta aldeia global, surge o convite de quem se mostrou sempre acompanhador dos meus trejeitos escriturários (ou como nos podemos apagar a nós mesmos escrevendo nas mãos as paisagens daquilo que nos faz sermos passageiros, desacordadamente, iletradamente, numa enciclopédia de um só tomo, de uma só página, em branco). Aceitei o convite com a premissa de escrever sobre aquilo que sei, ou seja, nada. O Ricardo aceitou e foi-me incentivando, ora dando um retorno positivo, ora solicitando temas específicos para determinadas ocasiões e em bem hora o fez, o convite e as sugestões. Desde Outubro de 2014, quando saiu a minha primeira crónica, muito se tem emoldurado nas paredes deste muro. onde me abrigo, de forma regular e hoje, coincidência matemática que tem tanto, ela, a matemática, de sagrado como profano, como as palavras, esta é a crónica 150, cento e cinquenta. Bolas, cento e cinquenta! Indago-me o que me pedirá a vida posteriormente em troca destes cento e cinquenta desabafos, desconstruções, contrições, percursos expressivos e recursos gavetais, indagações e opiniões, vazios e silêncios orbitais. Mesmo que não queira olhar para os números, eu que me habituei a viver infinitos eternos a cada segundo que passa, não posso deixar de olhar com orgulho para este trabalho, amador por ser feito por quem ama o que faz, por uma equipa de pessoas que me habituei a ler e, do alto da caladura, conhecer no lançamento do primeiro volume de crónicas.
Indissociáveis, o Ricardo é a Bird Magazine, e acima de pontos de vistas, está de parabéns por aglomerar talentos, temáticas, tristezas e alegrias, de quem escreve e lê, de quem cega e vê, de quem pensa com Pê. Ainda que me soe, ultimamente, apenas quinzenalmente, sinto diariamente o prazer de coleccionar palavras no ninho para, posteriormente, a cada salto quinzenal do calendário, poder levar a página no bico e voar-me.
Hoje, ao contrário do slogan da Bird, deixo ficar serena a opinião para fazer voar a palavra ao encontro dos leitores, dos cronistas e, claro, do Ricardo dizendo: obrigado.
2018-03-04
Talvez eu seja o barco
Crónica de Domingo, na Bird Magazine.
"Talvez eu seja o barco"
A solidão molda-nos a companhia.
Transporta-nos para aquilo que não desejamos transportar, apenas e só porque não nos sabemos caminho, nem caminhantes, apenas fugazes, esbaforidos, errantes.
A solidão molda-nos a alegria.
Como agora, quando a chuva bate no vidro e eu encho o peito, faço de conta que me escondo atrás do pinheiro, sinto a áspera casca e cheiro as recordações de arrancar, na ignorância, aquelas espessas crostas, raspá-las numa pedra e moldar rombudamente um casco de um batel, um barco tímido que soltamos no primeiro regato que nos aparece e vamos, correndo, andando, ao sabor da corrente de um aguaceiro que se faz chuva premente, até vermos felizes no bom rumo de algo que nos saiu das mãos e só aí, no despertar daquele rasto de vida que cai e ao chegar ao horizonte se esvai, percebemos que estamos encharcados, esvaídos em felicidade que chove por fora e pinga por dentro.
A solidão molda o que nos acorda, a porta que se escancara e o olhar de mãe, terno, que se confunde com a rispidez dos braços que nos despem enquanto colocam a cafeteira de água no fogão, o lume brando e a sussurrar butanicamente as labaredas azuis e amarelas num tuf-tuf assíncrono que se confunde com a sincronicidade dos batimentos do coração que uma mãe tem sempre à mão.
O dia de Inverno traz a forma de um banho quente, um azuleijado tímido e coberto de vapor de água, as sombras muito espartanas que com dificuldade aderem ao embaciado espelho e reflectem o reflexo que não sei ser, tudo, mas tudo serve para nos aquecer, o abraço, a companhia, a mão, a alegria, a imensidão carcereira do infinito que prende à vida.
Quando nos confundimos com o que não existe, o passado e o futuro numa rima em riste, serve-nos o presente enquanto não nos sabemos chover, apenas precipitar sobre a tarde que se quer profícua, inócua, como o vidro comigo condensado, onde nada mais consigo vislumbrar além da rua e das poças de água que me convidam a navegar, erradamente concerteza, sem qualquer assunto para escrever que não seja este, o pequeno que corre lá fora alheio aos avisos pré-programados maternalmente, o sorriso e o calcar das poças de água, as mesmas que lhe respondem com largos e altos salpicos nas pernas e a lama que se vai desprendendo das botas e salta antigraviticamente para o rabo e costas, o barco que vai abanando porque perdeu a tosca vela e agora apenas a vontade e a alegria do puto por ele vela e, antes que se penda para o bueiro fajuto e cheio de bocados de lixo de gente, ou gente de lixo, ultrapassa-o, ajoelha-se no molhado e apanha-o, aquela preciosidade em casca de pinheiro, sem preocupação de dinheiro nem sentido parco, porque ele é a solidão e talvez eu seja o barco.
"Talvez eu seja o barco"
A solidão molda-nos a companhia.
Transporta-nos para aquilo que não desejamos transportar, apenas e só porque não nos sabemos caminho, nem caminhantes, apenas fugazes, esbaforidos, errantes.
A solidão molda-nos a alegria.
Como agora, quando a chuva bate no vidro e eu encho o peito, faço de conta que me escondo atrás do pinheiro, sinto a áspera casca e cheiro as recordações de arrancar, na ignorância, aquelas espessas crostas, raspá-las numa pedra e moldar rombudamente um casco de um batel, um barco tímido que soltamos no primeiro regato que nos aparece e vamos, correndo, andando, ao sabor da corrente de um aguaceiro que se faz chuva premente, até vermos felizes no bom rumo de algo que nos saiu das mãos e só aí, no despertar daquele rasto de vida que cai e ao chegar ao horizonte se esvai, percebemos que estamos encharcados, esvaídos em felicidade que chove por fora e pinga por dentro.
A solidão molda o que nos acorda, a porta que se escancara e o olhar de mãe, terno, que se confunde com a rispidez dos braços que nos despem enquanto colocam a cafeteira de água no fogão, o lume brando e a sussurrar butanicamente as labaredas azuis e amarelas num tuf-tuf assíncrono que se confunde com a sincronicidade dos batimentos do coração que uma mãe tem sempre à mão.
O dia de Inverno traz a forma de um banho quente, um azuleijado tímido e coberto de vapor de água, as sombras muito espartanas que com dificuldade aderem ao embaciado espelho e reflectem o reflexo que não sei ser, tudo, mas tudo serve para nos aquecer, o abraço, a companhia, a mão, a alegria, a imensidão carcereira do infinito que prende à vida.
Quando nos confundimos com o que não existe, o passado e o futuro numa rima em riste, serve-nos o presente enquanto não nos sabemos chover, apenas precipitar sobre a tarde que se quer profícua, inócua, como o vidro comigo condensado, onde nada mais consigo vislumbrar além da rua e das poças de água que me convidam a navegar, erradamente concerteza, sem qualquer assunto para escrever que não seja este, o pequeno que corre lá fora alheio aos avisos pré-programados maternalmente, o sorriso e o calcar das poças de água, as mesmas que lhe respondem com largos e altos salpicos nas pernas e a lama que se vai desprendendo das botas e salta antigraviticamente para o rabo e costas, o barco que vai abanando porque perdeu a tosca vela e agora apenas a vontade e a alegria do puto por ele vela e, antes que se penda para o bueiro fajuto e cheio de bocados de lixo de gente, ou gente de lixo, ultrapassa-o, ajoelha-se no molhado e apanha-o, aquela preciosidade em casca de pinheiro, sem preocupação de dinheiro nem sentido parco, porque ele é a solidão e talvez eu seja o barco.
2018-02-25
Eles Verão
Eles Verão, crónica do nada, no Correio do Porto.
Faço questão que a vela ilumine o final de dia, perdeu a finalidade de me ajudar num certa hipnose oratória ou abstracionista, para passar a ser a recordação que mantenho de uma vida que não me lembro de ter vivido. A vantagem da luz, na minha escura opinião, é expurgar sombras que permaneciam a ondular à minha volta, projectando-as na parede à minha frente e assumindo, num desígnio que não entendo, um sentido de catarse e catálise, a dicotomia própria de uma vida abaixo de Deus.
O dia ganha forma na rememoração dos episódios que julgava esquecidos, formas extensas em toda a extensão da parede, um pleonasmo da vida, viver depois de viver. É assim que vejo como se ainda conduzisse nesta remendada estrada nacional baptizada com um número, como se fosse ela, e nós, o fruto da atribuição de um algoritmo programada por um ser humano sem ritmo.
Os paus, pedras, folhas e outras minisculanidades batem ofegantes na carroçaria. O soprador apressa-se a afastar da via os restos da cortadura.
Olho com curiosidade a inversão dos papéis tradicionalmente opostos, ele no chão a soprar, atento ao lixo e ao trânsito que embora afastado de vias mais problemáticas mantém uma cadência que não permite grandes distrações, ela a subir com alguma destreza as elevações, a cortar aqui e ali, a ver com certa admiração uma ou outra ave que foge assustada com a invasão dos locais tradicionalmente vivos porque abandonados estão pelos homens. Não resisto a pensar, imaginar, durante o dia que me sobra desta a manhã até ao meio-dia, que naqueles trabalhadores, verdadeiros arquitectos de uma obra que o público não valorizará, poderiam ser um casal, a arte partilhada de serem felizes no meio de nada.
No percurso inverso vejo-os novamente e páro como se fosse deitar algo no contentor do lixo. A carrinha alva e verde, ele encostado ao taipal, o guardanapo branco envolvendo o pão, perna dobrada com o pé apoiado no pneu, um sorriso entre dentadas, ela em pé a olhar para ele, pose feminina por detrás das vestes masculinas, a cara pigmentada de verde pelo que salpicou e passou pela viseira cardada exibe o rosto firme e aveludado de quem pela vida é moldado. O vento atira-lhe uma madeixa para a cara, o cabelo que se prende ao suor e ele, por simpatia, com pudor, sacode a mão no colete e, com o carinho de quem afaga o próprio ninho, tira-lhe o cabelo da face e naquele instante, no sorriso ruborescido dela, o mundo faz sentido.
A vela apaga-se, a cera ondula imperceptivelmente até o frio da estação a enrijecer e votar ao pálido e baço espectro daquilo que ardeu sem intuito de invocar mais do que memórias. Permaneço no escuro, a chuva bate na persiana e tenta entrar, eu calo-me e nesta trindade de chuva, frio e vento ouço Torga falar. Não irei adormecer, não sem antes sorrir e vê-los novamente, encostados ao taipal da carrinha, por entre outras lembranças.
Embora não o vejam hoje por causa do Inverno, um dia eles Verão.
Faço questão que a vela ilumine o final de dia, perdeu a finalidade de me ajudar num certa hipnose oratória ou abstracionista, para passar a ser a recordação que mantenho de uma vida que não me lembro de ter vivido. A vantagem da luz, na minha escura opinião, é expurgar sombras que permaneciam a ondular à minha volta, projectando-as na parede à minha frente e assumindo, num desígnio que não entendo, um sentido de catarse e catálise, a dicotomia própria de uma vida abaixo de Deus.
O dia ganha forma na rememoração dos episódios que julgava esquecidos, formas extensas em toda a extensão da parede, um pleonasmo da vida, viver depois de viver. É assim que vejo como se ainda conduzisse nesta remendada estrada nacional baptizada com um número, como se fosse ela, e nós, o fruto da atribuição de um algoritmo programada por um ser humano sem ritmo.
Os paus, pedras, folhas e outras minisculanidades batem ofegantes na carroçaria. O soprador apressa-se a afastar da via os restos da cortadura.
Olho com curiosidade a inversão dos papéis tradicionalmente opostos, ele no chão a soprar, atento ao lixo e ao trânsito que embora afastado de vias mais problemáticas mantém uma cadência que não permite grandes distrações, ela a subir com alguma destreza as elevações, a cortar aqui e ali, a ver com certa admiração uma ou outra ave que foge assustada com a invasão dos locais tradicionalmente vivos porque abandonados estão pelos homens. Não resisto a pensar, imaginar, durante o dia que me sobra desta a manhã até ao meio-dia, que naqueles trabalhadores, verdadeiros arquitectos de uma obra que o público não valorizará, poderiam ser um casal, a arte partilhada de serem felizes no meio de nada.
No percurso inverso vejo-os novamente e páro como se fosse deitar algo no contentor do lixo. A carrinha alva e verde, ele encostado ao taipal, o guardanapo branco envolvendo o pão, perna dobrada com o pé apoiado no pneu, um sorriso entre dentadas, ela em pé a olhar para ele, pose feminina por detrás das vestes masculinas, a cara pigmentada de verde pelo que salpicou e passou pela viseira cardada exibe o rosto firme e aveludado de quem pela vida é moldado. O vento atira-lhe uma madeixa para a cara, o cabelo que se prende ao suor e ele, por simpatia, com pudor, sacode a mão no colete e, com o carinho de quem afaga o próprio ninho, tira-lhe o cabelo da face e naquele instante, no sorriso ruborescido dela, o mundo faz sentido.
A vela apaga-se, a cera ondula imperceptivelmente até o frio da estação a enrijecer e votar ao pálido e baço espectro daquilo que ardeu sem intuito de invocar mais do que memórias. Permaneço no escuro, a chuva bate na persiana e tenta entrar, eu calo-me e nesta trindade de chuva, frio e vento ouço Torga falar. Não irei adormecer, não sem antes sorrir e vê-los novamente, encostados ao taipal da carrinha, por entre outras lembranças.
Embora não o vejam hoje por causa do Inverno, um dia eles Verão.
2018-02-18
Munch
“Munch”, crónica de Domingo, na Bird Magazine.
Com a chuva a bater timidamente no vidro, abriu as persianas da casa que o habita.
Serão poucos segundos depois dos primeiros, umas horas batidas no acolchoado dormido, o dia vai cavar-se lá fora onde os calcanhares, em invulgar caminhar, sulcaram aquilo que adivinho ser um talhão para futura plantação. A terra ali, aberta, liberta, por onde respiram as entranhas a deixar-se afogar pelas horas matinais do dia, o corpo enviuvado que vai encavalitando sementes do que não quer criado, atira-se as mãos vazias à terra na esperança que a terra nos atire a mão de volta. Em quantas vidas pode viver uma revolta?
Descerrou o cortinado, a pluviosidade encarregava-se de entoar a manhã de Inverno como se as várias translações a que se submeteu fossem cada uma delas uma estação diferente. Já não distingue os pingos de chuva como quando criança os contava, um, dois, três, a conta que Deus fez. Vão correndo desajeitados numa pressa esbatida porque o seu olhar encarrega-se de, pasma-se, olhar e eles porque não sabem ser nada mais do que são, felizes, escorregam, escorrem, regam, molham, cantam e encolhem-se quando batem no fim da janela e parte deles é absorvida pela madeira, enquanto os outros se divertem a marejar nos seus olhos.
A similaridade entre o passado e o presente é fulcral para tornar-se coro de um refrão que esquece porque de memória não lhe reza a história.
É triste, mas verdade.
E por ser verdade, alegra-se.
Cada cara sua face, mas aparentando aparentar, em qual dos rostos deve acreditar?
O céu cinzento vai ondulando acima dele, um mar que o submerge porque não sabe nadar no ar que respira, a solidão amedronta-se porque a companhia do frio traz no encalço o tempero do braseiro, o silêncio do crepitar e a aspereza do fumo que envolveu a cafeteira negra em tempos doutros tempos.
Em cima da mesa, tampo zincado, uma empoeirada garrafa de vinho vazia, a borra que secou quando a maré vazou fica colada ao longo da garrafa, o sulco de um corpo que rastejou, do topo ao fundo, do minuto ao segundo, do leito ao mundo.
De casa aberta, saiu à rua inquieto e imóvel, dois mundos que se complementam porque nenhum universo nasceu para ser sozinho, uno, verso, mas sim para se deixar tangenciar por tudo o que de trigonométrico urde e ali, ao centro, se complemente a enormidade de se saber nada.
Abriu os olhos, o despertador adormecido sobressaltou-se, tilintou por momentos, deixando-o a desfrutar do momento e ali, de dedo no ar, desfolhou a vida como um cardápio infinito porque não sabia dizer não, nem sim, tampouco qual dos princípios decida ele ser o fim.
Com a chuva a bater timidamente no vidro, abriu as persianas da casa que o habita.
Serão poucos segundos depois dos primeiros, umas horas batidas no acolchoado dormido, o dia vai cavar-se lá fora onde os calcanhares, em invulgar caminhar, sulcaram aquilo que adivinho ser um talhão para futura plantação. A terra ali, aberta, liberta, por onde respiram as entranhas a deixar-se afogar pelas horas matinais do dia, o corpo enviuvado que vai encavalitando sementes do que não quer criado, atira-se as mãos vazias à terra na esperança que a terra nos atire a mão de volta. Em quantas vidas pode viver uma revolta?
Descerrou o cortinado, a pluviosidade encarregava-se de entoar a manhã de Inverno como se as várias translações a que se submeteu fossem cada uma delas uma estação diferente. Já não distingue os pingos de chuva como quando criança os contava, um, dois, três, a conta que Deus fez. Vão correndo desajeitados numa pressa esbatida porque o seu olhar encarrega-se de, pasma-se, olhar e eles porque não sabem ser nada mais do que são, felizes, escorregam, escorrem, regam, molham, cantam e encolhem-se quando batem no fim da janela e parte deles é absorvida pela madeira, enquanto os outros se divertem a marejar nos seus olhos.
A similaridade entre o passado e o presente é fulcral para tornar-se coro de um refrão que esquece porque de memória não lhe reza a história.
É triste, mas verdade.
E por ser verdade, alegra-se.
Cada cara sua face, mas aparentando aparentar, em qual dos rostos deve acreditar?
O céu cinzento vai ondulando acima dele, um mar que o submerge porque não sabe nadar no ar que respira, a solidão amedronta-se porque a companhia do frio traz no encalço o tempero do braseiro, o silêncio do crepitar e a aspereza do fumo que envolveu a cafeteira negra em tempos doutros tempos.
Em cima da mesa, tampo zincado, uma empoeirada garrafa de vinho vazia, a borra que secou quando a maré vazou fica colada ao longo da garrafa, o sulco de um corpo que rastejou, do topo ao fundo, do minuto ao segundo, do leito ao mundo.
De casa aberta, saiu à rua inquieto e imóvel, dois mundos que se complementam porque nenhum universo nasceu para ser sozinho, uno, verso, mas sim para se deixar tangenciar por tudo o que de trigonométrico urde e ali, ao centro, se complemente a enormidade de se saber nada.
Abriu os olhos, o despertador adormecido sobressaltou-se, tilintou por momentos, deixando-o a desfrutar do momento e ali, de dedo no ar, desfolhou a vida como um cardápio infinito porque não sabia dizer não, nem sim, tampouco qual dos princípios decida ele ser o fim.
2018-02-04
Para onde nos levas, tempo?
“Para onde nos levas, tempo?”, crónica de domingo, na Bird Magazine.
É domingo. Escrevo-te do passado. Hoje é sábado, mas os meus dedos viram as estrelas que serpenteiam quando voo e decidiram casar com o dia de amanhã.
Talvez agora, no futuro, não sintas o frio que a noite traz, porque no teu corpo vivem as brasas de uma lareira recentemente apagada e nem o fumo, que ela teima em fazer crescer, te faz lacrimejar de saudade dum outro futuro.
Sentado na cadeira, os contos de Mestre Torga pululam-me no regaço, fechados com medo de os acabar depressa demais. Agora que me entretenho a olhar a ligeira e trémula chama azul e amarela no pavio retorcido, engomado, quase dobrado, sem aviso trazem-me a visão do Marão, do lado direito, e o vento frio que arrefece ainda mais, a subir para a terra onde mandam os que lá estão. Há um vento normal e um vento arrefecido, o que parece viver ali, entre a Pousada e o pequeno parque à esquerda, antes de começar a descer, que me força a abrir o vidro sempre que subo aquele troço do IP4 e me enregela a cara até deixar de a sentir. Chama-se imaginação, o vento e o momento.
Das vezes que chove e o Sol espreita, iluminando os pinheiros, regando de luz a caruma e as giestas que ondulam. (E, sei lá, se são giestas ou pinheiros?) Para mim têm todas a mesma cor, verde, azul e cinzento, das cores do que sonho quando a estrada se percorre por baixo do meu corpo e faz tempo (como se o tempo pudesse ser feito) que não leio o que escrevo, um pouco como tu.
Uma folha em branco basta, debaixo do despertador, com a caneta ansiosa a descansar de me levar para todo o lado. Os sonhos cansam-se de esperar pelos sonhador. Até mesmo aquele nosso eu que se desprende de nós próprios e corre, chamando-nos, está parado, sentado num marco da estrada, rabiscando umas distâncias e nomes de terras que ainda nem floriram.
Ainda na folha, em branco, deitam-se a dormir as dúvidas e crenças, mas rapidamente tornam-se fugidias, sem pouso certo levantam voo e aguardam ao lado da cabeceira da cama, pousando nos olhos, quando tentamos adormecer, içando a noite para os sonhos carregados de montes e vales, de veredas por onde nunca iremos entrar.
Confesso que me assusto, ao ver que nada vejo, ao ouvir a surdez que abafa os dias quando nos carregamos de um lado para o outro, na sofreguidão de chegarmos onde não estamos. Por vezes, em certas noites como esta, acerco-me de um qualquer ideal e rezo, para que não me esqueça de colocar alguns bocados de nuvem no peito, para que nunca soçobre a alma, nem a vontade de chegar aos sorrisos que ainda não vi, aos olhares de onde ainda não sorvi.
E é assim, quando me encontro em viagem, que me busco em mim mesmo num destino.
2018-01-29
2018-01-21
A saudade cabe-nos na mão
“A saudade cabe-nos na mão”, crónica de Domingo, na Bird Magazine.
Pelo caminho para a escola havia de se passar por uma fila de casas que se comprimiam ao longo das portas e janelas rendilhadas, parecendo que alguém teria feito daquele aglomerado uma concertina em tamanho grande, comprimida, sem fôlego, à espera que por algum desígnio se conseguisse escapulir e expandir, libertando a sonoridade a que isso fora vetada.Tudo é permitido à imaginação quando se tem olhos de criança.
À janela, outrora, cabiam sempre as mesmas vestes negras sob a padieira, as faces enrugadas e o horizonte ainda curto, cujo tempo faria o favor aos homens de desbastarem primeiro as copas das árvores, depois o resto das mesmas e, por fim, o monte todo, dando azo agora a ver prédios e estruturas inimagináveis noutros tempos, talvez porque noutros tempos a imaginação era parca, limitando-se a descortinar sombras entre esteios e medas de palha e lançar os boatos e lendas de gente perdida pelas colheitas e os anos de azar que daria a quem o descobrisse.
Os anos passam-nos, a acuidade visual diminui desgastada pelo tempo e pelos tubos de raios catódicos, adquire-se mais uns palmos de gente e pensamos conseguir ver mais e melhor, no entanto, aquela rua, apertada pelos muros que começam já a dar sinais de desgaste e cansaço como velhas tiras de couro ressequidas pelo descuidado abandono, já não tem o horizonte curto do espaço que se percorre daqui ao infinito.
Das vielas laterais já não saem miúdos, pequenos afluentes a desemborcar num rio principal cujo tráfego se resumia a petizes pés no chão, batendo compassadamente na corrida, suplantados pelo bater nas costas das velhas mochilas e, dentro destas, dos livro, sebentas e lápis aos tombos numa mistura multifrutada de saberes e sabores, agradavelmente saborosos porque o pomar onde se aprendia era feito de árvores inocentes. Se antes se parava na rua, não havendo um postigo aberto, facilmente surgiria o vulto atrás da cortina, para depois rodar a maçaneta do enferrujado, trazendo ao dia o luto eterno de quem permanece imortal do lado de lá da vida. Hoje, se paro na rua, poucas sombras se vultalizam atrás da cortina e já nenhuma destranca o ferrolho, espreita-se timidamente e volta-se aos afazeres televisivos. Planta-se um “Bom dia!” que já não se colhe.
Na minha boca sobrevive o sabor granulado da boroa caseira, a cebola cortada e os pedregulhos de sal, todos facilmente imersos na torrente negra do café com açúcar, mexido pela baça colher da sopa, que se leva à boca na retorcida caneca de metal com cuidado para não se comer demasiada borra, enquanto as roupas molhadas da escola secam nas costas da cadeira virada para a lareira.
As ruas trazem música abafada, os meus passos calcam-se a si mesmos e quando me desfaso da realidade quase sou derrubado por mim, puto, passando a correr para a escola, com os pés a baterem no chão e os livros, sacudidos, dentro da mochila, ao sabor de tudo o que irei aprender ao ser eu mesmo. A saudade cabe-nos na mão e caberia no olhar, se não fôssemos cegos.
Pelo caminho para a escola havia de se passar por uma fila de casas que se comprimiam ao longo das portas e janelas rendilhadas, parecendo que alguém teria feito daquele aglomerado uma concertina em tamanho grande, comprimida, sem fôlego, à espera que por algum desígnio se conseguisse escapulir e expandir, libertando a sonoridade a que isso fora vetada.Tudo é permitido à imaginação quando se tem olhos de criança.
À janela, outrora, cabiam sempre as mesmas vestes negras sob a padieira, as faces enrugadas e o horizonte ainda curto, cujo tempo faria o favor aos homens de desbastarem primeiro as copas das árvores, depois o resto das mesmas e, por fim, o monte todo, dando azo agora a ver prédios e estruturas inimagináveis noutros tempos, talvez porque noutros tempos a imaginação era parca, limitando-se a descortinar sombras entre esteios e medas de palha e lançar os boatos e lendas de gente perdida pelas colheitas e os anos de azar que daria a quem o descobrisse.
Os anos passam-nos, a acuidade visual diminui desgastada pelo tempo e pelos tubos de raios catódicos, adquire-se mais uns palmos de gente e pensamos conseguir ver mais e melhor, no entanto, aquela rua, apertada pelos muros que começam já a dar sinais de desgaste e cansaço como velhas tiras de couro ressequidas pelo descuidado abandono, já não tem o horizonte curto do espaço que se percorre daqui ao infinito.
Das vielas laterais já não saem miúdos, pequenos afluentes a desemborcar num rio principal cujo tráfego se resumia a petizes pés no chão, batendo compassadamente na corrida, suplantados pelo bater nas costas das velhas mochilas e, dentro destas, dos livro, sebentas e lápis aos tombos numa mistura multifrutada de saberes e sabores, agradavelmente saborosos porque o pomar onde se aprendia era feito de árvores inocentes. Se antes se parava na rua, não havendo um postigo aberto, facilmente surgiria o vulto atrás da cortina, para depois rodar a maçaneta do enferrujado, trazendo ao dia o luto eterno de quem permanece imortal do lado de lá da vida. Hoje, se paro na rua, poucas sombras se vultalizam atrás da cortina e já nenhuma destranca o ferrolho, espreita-se timidamente e volta-se aos afazeres televisivos. Planta-se um “Bom dia!” que já não se colhe.
Na minha boca sobrevive o sabor granulado da boroa caseira, a cebola cortada e os pedregulhos de sal, todos facilmente imersos na torrente negra do café com açúcar, mexido pela baça colher da sopa, que se leva à boca na retorcida caneca de metal com cuidado para não se comer demasiada borra, enquanto as roupas molhadas da escola secam nas costas da cadeira virada para a lareira.
As ruas trazem música abafada, os meus passos calcam-se a si mesmos e quando me desfaso da realidade quase sou derrubado por mim, puto, passando a correr para a escola, com os pés a baterem no chão e os livros, sacudidos, dentro da mochila, ao sabor de tudo o que irei aprender ao ser eu mesmo. A saudade cabe-nos na mão e caberia no olhar, se não fôssemos cegos.
2018-01-15
Dois lados da mesma moeda sem valor
Dois lados da mesma moeda, mais uma Crónica do Nada, no Correio do Porto.
Escolho salada de atum sem qualquer alternativa. A funcionária funga um sorriso por baixo dos óculos embaciados e, ao mesmo tempo, grita alto o suficiente para que o pedido entre pelo postigo, ladeado por um papel de parede encardido de pedidos, sebosos, que escorrem asperamente ao longo dos tempos. Pouco tempo depois, a bandeja de metal bate pesadamente no mármore entranhado, o molho de azeite e vinagre saltam por entre o feijão frade, a salsa sacode-se como os cabelos oleosos que conseguem fugir da prisão da touca amarelecida da cozinheira, e tilinta o atum, recém libertado do balde de plástico, com alvas semelhanças com as taínhas que vi à boca do esgoto como loucos saltimbancos em pirâmides humanas lutando pela proximidade dos dejectos.
Como directamente da bandeja, a rapariga leva o prato, limpa-o com o pano que traz à cintura e coloca-o no topo da pilha, deduzo que para mais tarde o entregar a outro cliente. A comida está surpreendentemente boa. Talvez porque, acredito, que o que me alimente agora seja a sala repleta de trabalhadores, alguns envergando ainda os cintos de ferramentas, as calças pintadas com restos de tinta de várias obras, um outro, mais distraído, usa ainda o boné da cor da preferência clubística e prendo o olhar num solitário. Come na ponta da mesa partilhada com outros operários, uma formiga de outro formigueiro, o lápis vermelho espreita a comida preso à sua orelha habituado apenas à textura da madeira ou do gesso. Os feijões, a salsa, a cebola e o tomate seguem o caminho memorizado, são alojados paciente e ordeiramente no prato, o garfo e a faca coreografados sem um tinir, a solenidade de se saber perfeição no meio do confuso caos metafórico e até pleonasmificado. O telemóvel toca, olha o visor e um sorriso floresce, atende-o “Estou? Filho? Como estás campeão? Eu? Eu estou de férias agora, a ver o rio e a comer um petisco. E tu? Já comeste? Não estás a chatear a mãe? Vais para a escola de tarde? Que bom! Aprende muito, para depois me ensinares, está bem? Se te portares bem até te levo uma coisa boa logo!”. Termina a chamada, guarda o telemóvel, desembrulha um guardanapo de papel e, cuidadosamente, retira o atum da bandeja, aperta-o entre o garfo e a faca para que as escorrências azeitadas e avinagradas saiam e, depois, deposita-o no pão aberto com o cuidado de quem deita um filho na cama. Quando o ritual termina, o pão é guardado dentro do casaco, o sorriso nasce e a vida fica um pouco mais perfeita.
Na sala ao lado, decorada com motivos regionais de uma aldeia globalizada, os pedidos são suavizados pelo arranhar inglesado e a simpatia forçada para os turistas, alheios alguns à vida que se escorre por dentro de outras vidas.
Dois lados da mesma moeda, num mundo onde o dinheiro se sobrepôs ao valor da vida.
Escolho salada de atum sem qualquer alternativa. A funcionária funga um sorriso por baixo dos óculos embaciados e, ao mesmo tempo, grita alto o suficiente para que o pedido entre pelo postigo, ladeado por um papel de parede encardido de pedidos, sebosos, que escorrem asperamente ao longo dos tempos. Pouco tempo depois, a bandeja de metal bate pesadamente no mármore entranhado, o molho de azeite e vinagre saltam por entre o feijão frade, a salsa sacode-se como os cabelos oleosos que conseguem fugir da prisão da touca amarelecida da cozinheira, e tilinta o atum, recém libertado do balde de plástico, com alvas semelhanças com as taínhas que vi à boca do esgoto como loucos saltimbancos em pirâmides humanas lutando pela proximidade dos dejectos.
Como directamente da bandeja, a rapariga leva o prato, limpa-o com o pano que traz à cintura e coloca-o no topo da pilha, deduzo que para mais tarde o entregar a outro cliente. A comida está surpreendentemente boa. Talvez porque, acredito, que o que me alimente agora seja a sala repleta de trabalhadores, alguns envergando ainda os cintos de ferramentas, as calças pintadas com restos de tinta de várias obras, um outro, mais distraído, usa ainda o boné da cor da preferência clubística e prendo o olhar num solitário. Come na ponta da mesa partilhada com outros operários, uma formiga de outro formigueiro, o lápis vermelho espreita a comida preso à sua orelha habituado apenas à textura da madeira ou do gesso. Os feijões, a salsa, a cebola e o tomate seguem o caminho memorizado, são alojados paciente e ordeiramente no prato, o garfo e a faca coreografados sem um tinir, a solenidade de se saber perfeição no meio do confuso caos metafórico e até pleonasmificado. O telemóvel toca, olha o visor e um sorriso floresce, atende-o “Estou? Filho? Como estás campeão? Eu? Eu estou de férias agora, a ver o rio e a comer um petisco. E tu? Já comeste? Não estás a chatear a mãe? Vais para a escola de tarde? Que bom! Aprende muito, para depois me ensinares, está bem? Se te portares bem até te levo uma coisa boa logo!”. Termina a chamada, guarda o telemóvel, desembrulha um guardanapo de papel e, cuidadosamente, retira o atum da bandeja, aperta-o entre o garfo e a faca para que as escorrências azeitadas e avinagradas saiam e, depois, deposita-o no pão aberto com o cuidado de quem deita um filho na cama. Quando o ritual termina, o pão é guardado dentro do casaco, o sorriso nasce e a vida fica um pouco mais perfeita.
Na sala ao lado, decorada com motivos regionais de uma aldeia globalizada, os pedidos são suavizados pelo arranhar inglesado e a simpatia forçada para os turistas, alheios alguns à vida que se escorre por dentro de outras vidas.
Dois lados da mesma moeda, num mundo onde o dinheiro se sobrepôs ao valor da vida.
2018-01-07
A véspera de amanhã
Crónica de domingo, na Bird Magazine.
Resta o sabor das filhoses impregnado nas traves de madeira.
Os barrotes negros da fuligem que ascende ao tecto à boleia das brasas incandescentes, misturadas com sonhos de outrora, nas lágrimas frias invernais das memórias de agora.
As telhas encavalitadas sobre e sob o musgo dos invernos, esquecidos no ressoado daquilo que o céu não quis, parecem a metáfora para o que não queremos acrescentar, o adjectivo que irá encapelar um mar que não sabemos navegar, no aguardo das mãos que as adornem às traves do costeado esqueleto de um corpo que se aguenta apenas porque, uma vez por ano, há momento em que se inspira o que alimenta e sustenta.
Passou-se o Natal, quase uma estação de um só dia na baforada de um cigarro que nem tempo tivemos de acender.
Ficou-lhe na véspera o presente de um dia que se esfuma como o vapor nas lentes quando, com todos ao redor da mesa entre o saboreio da fausta consoada e a recordação do patriarca ausente, saiu da cozinha.
Desandou o ferrolho da velha portada envidraçada, o frio espremia-se contra o vidro para ver melhor e deixava a marca em todos os recantos rectangulares quando a noite se escondia, fugidia, da luz que emanava.
Deitou a mão esquerda à romba e grande pedra côncava, outrora pia baptismal, resquícios de obras eclesiais na freguesia e uma disputa entre homens, bons apenas de dia, molhou as pontas dos dedos e benzeu-se, a água gélida na fronte, uma bolha salgada a crescer nos olhos cansados explode pacificamente e cai aos trambolhões nas rugas, como a enxurrada pacífica de uma tormenta que assome de cada vez que pensamos chover. Afinal, era apenas o sorriso a crescer.
Lá de dentro, pela curiosidade sadia infantil, espreita a criança mais nova que fastidiosamente embrulhava uma longa couve ao redor de uma batata cozida, fazendo divertidos e irregulares percursos sobre o azeite.
Na absorção entre garfadas e consultas periódicas, mas constantes, ao cintilar do led do smartphone, ninguém deu por ela agora, e pela idosa antes, saírem para o pátio descoberto ao coberto da noite de Natal.
A pequena dá-lhe a mão, fita-a e repete a posição de olhar erguido ao firmamento na invariável estrelada natividade, até que o silêncio seja quebrado pela impaciência curiosa de meninice:
- Avó, o que estás a ver?
- Tu e eu.
- Mais nada?
- Não, já só nos sobra o céu.
Resta o sabor das filhoses impregnado nas traves de madeira.
Os barrotes negros da fuligem que ascende ao tecto à boleia das brasas incandescentes, misturadas com sonhos de outrora, nas lágrimas frias invernais das memórias de agora.
As telhas encavalitadas sobre e sob o musgo dos invernos, esquecidos no ressoado daquilo que o céu não quis, parecem a metáfora para o que não queremos acrescentar, o adjectivo que irá encapelar um mar que não sabemos navegar, no aguardo das mãos que as adornem às traves do costeado esqueleto de um corpo que se aguenta apenas porque, uma vez por ano, há momento em que se inspira o que alimenta e sustenta.
Passou-se o Natal, quase uma estação de um só dia na baforada de um cigarro que nem tempo tivemos de acender.
Ficou-lhe na véspera o presente de um dia que se esfuma como o vapor nas lentes quando, com todos ao redor da mesa entre o saboreio da fausta consoada e a recordação do patriarca ausente, saiu da cozinha.
Desandou o ferrolho da velha portada envidraçada, o frio espremia-se contra o vidro para ver melhor e deixava a marca em todos os recantos rectangulares quando a noite se escondia, fugidia, da luz que emanava.
Deitou a mão esquerda à romba e grande pedra côncava, outrora pia baptismal, resquícios de obras eclesiais na freguesia e uma disputa entre homens, bons apenas de dia, molhou as pontas dos dedos e benzeu-se, a água gélida na fronte, uma bolha salgada a crescer nos olhos cansados explode pacificamente e cai aos trambolhões nas rugas, como a enxurrada pacífica de uma tormenta que assome de cada vez que pensamos chover. Afinal, era apenas o sorriso a crescer.
Lá de dentro, pela curiosidade sadia infantil, espreita a criança mais nova que fastidiosamente embrulhava uma longa couve ao redor de uma batata cozida, fazendo divertidos e irregulares percursos sobre o azeite.
Na absorção entre garfadas e consultas periódicas, mas constantes, ao cintilar do led do smartphone, ninguém deu por ela agora, e pela idosa antes, saírem para o pátio descoberto ao coberto da noite de Natal.
A pequena dá-lhe a mão, fita-a e repete a posição de olhar erguido ao firmamento na invariável estrelada natividade, até que o silêncio seja quebrado pela impaciência curiosa de meninice:
- Avó, o que estás a ver?
- Tu e eu.
- Mais nada?
- Não, já só nos sobra o céu.
2017-12-26
Infinitamente infinito
Crónica na Bird Magazine.
Quando o frio surgiu, não havia ponta por onde pegar. A braseira repuxava o frio contra o tecto, o calor amainava o ânimo, mas ainda assim havia a esperança inocente de quem tenta ver no nada o infinitamente infinito. O cheiro a rabanadas era complementado com o barulho do refugar na frigideira, o pousar dos pratos no mármore manchado e o arrastar da mesa para tirar um banco e pendurar, às escondidas, uma pinha de chocolate no pinheirinho, enquanto a criança se entretém no chão da sala, a tecer finas teias de número em número, até encontrar a figura final. Sabia a Natal.
De vez em quando a porta da cozinha é aberta, apura-se o ouvido e olha-se para o relógio, deve ser horas do comboio chegar.
- Já chegou mãe?
A Maria deste presépio sorri, engole a ânsia, volta para dentro e vai ter com o filho, ainda no chão da sala, agora a fazer dos pequenos tacos de madeira pequenas elevações por onde brinca com o carrinho imaculadamente pobre, passa as mãos no avental e, secas e ásperas, afaga-lhe o cabelo.
Ele levanta a cabeça e os olhos pequenos e azuis encontram-se com o rubor da braseira, a cara da mãe atrás da cortina ondulante do calor que se espreme na noite, e ainda que longe das indagações adultas, permite-se questionar que realidade o pariu, a anunciação social que o marcou com nove dígitos ou o amor brasonado de duas almas encarnadas, escancaradas e matrizadas, num pequeno presépio invisível a quem nunca viu?
Na mesa não cabem mais pratos, bolo-rei a transpirar açúcar branco em pó, pequenos pires com filhoses, sonhos, docinhos de bolina, frutos secos, uvas passas, alguma fruta cristalizada, uns rolinhos feitos com queijo, uma caixa de sortido ainda por abrir, uma travessa dividida a meio com leite-creme torrado aqui e ali em forma de coração e, na outra metade, aletria com motivos abstractos e uma estrela cadente tudo desenhado com amor e, também, canela.
A porta abre, a criança levanta a cabeça e o próprio calor parece pausar-se quando o pai entra em casa, o bafo que volita enquanto acalma a respiração, os braços da mulher ao redor do pescoço, o cabelo na testa suada e engordurada que ele, gentilmente, afasta, o beijo na testa e o tocar de lábios, boca na boca, como a reanimação da humanidade. O filho agarra-se à sua perna, enquanto ele, pai, tira o seu gorro e o coloca na cabeça do pequeno que, feliz, se sente homem por vestimenta de adulto.
Não tarda para que a noite passe, a trindade num presépio iluminado por um céu estrelado na admiração salvadora do amor em forma de metáfora. As luzes apagam-se, três corpos deitados na cama de casal, a mulher esgotada pela labuta de um dia feliz dorme, o homem mergulha na lentidão do sono embalado na certeza de um amanhã de descanso e a criança, desperta, ao ver os progenitores dormirem, coloca o gorro do pai, puxa-o para cima dos olhos e enrola os seus deditos nas mãos adultas que o moldaram. Natal é noite de mundos que se amaram.
Quando o frio surgiu, não havia ponta por onde pegar. A braseira repuxava o frio contra o tecto, o calor amainava o ânimo, mas ainda assim havia a esperança inocente de quem tenta ver no nada o infinitamente infinito. O cheiro a rabanadas era complementado com o barulho do refugar na frigideira, o pousar dos pratos no mármore manchado e o arrastar da mesa para tirar um banco e pendurar, às escondidas, uma pinha de chocolate no pinheirinho, enquanto a criança se entretém no chão da sala, a tecer finas teias de número em número, até encontrar a figura final. Sabia a Natal.
De vez em quando a porta da cozinha é aberta, apura-se o ouvido e olha-se para o relógio, deve ser horas do comboio chegar.
- Já chegou mãe?
A Maria deste presépio sorri, engole a ânsia, volta para dentro e vai ter com o filho, ainda no chão da sala, agora a fazer dos pequenos tacos de madeira pequenas elevações por onde brinca com o carrinho imaculadamente pobre, passa as mãos no avental e, secas e ásperas, afaga-lhe o cabelo.
Ele levanta a cabeça e os olhos pequenos e azuis encontram-se com o rubor da braseira, a cara da mãe atrás da cortina ondulante do calor que se espreme na noite, e ainda que longe das indagações adultas, permite-se questionar que realidade o pariu, a anunciação social que o marcou com nove dígitos ou o amor brasonado de duas almas encarnadas, escancaradas e matrizadas, num pequeno presépio invisível a quem nunca viu?
Na mesa não cabem mais pratos, bolo-rei a transpirar açúcar branco em pó, pequenos pires com filhoses, sonhos, docinhos de bolina, frutos secos, uvas passas, alguma fruta cristalizada, uns rolinhos feitos com queijo, uma caixa de sortido ainda por abrir, uma travessa dividida a meio com leite-creme torrado aqui e ali em forma de coração e, na outra metade, aletria com motivos abstractos e uma estrela cadente tudo desenhado com amor e, também, canela.
A porta abre, a criança levanta a cabeça e o próprio calor parece pausar-se quando o pai entra em casa, o bafo que volita enquanto acalma a respiração, os braços da mulher ao redor do pescoço, o cabelo na testa suada e engordurada que ele, gentilmente, afasta, o beijo na testa e o tocar de lábios, boca na boca, como a reanimação da humanidade. O filho agarra-se à sua perna, enquanto ele, pai, tira o seu gorro e o coloca na cabeça do pequeno que, feliz, se sente homem por vestimenta de adulto.
Não tarda para que a noite passe, a trindade num presépio iluminado por um céu estrelado na admiração salvadora do amor em forma de metáfora. As luzes apagam-se, três corpos deitados na cama de casal, a mulher esgotada pela labuta de um dia feliz dorme, o homem mergulha na lentidão do sono embalado na certeza de um amanhã de descanso e a criança, desperta, ao ver os progenitores dormirem, coloca o gorro do pai, puxa-o para cima dos olhos e enrola os seus deditos nas mãos adultas que o moldaram. Natal é noite de mundos que se amaram.
2017-12-08
Até já!
Crónica do Nada, no Correio do Porto, porque a vida é sempre um até já (ou daqui a ontem).
O balcão tem alguns pontos um pouco pegajosos, talvez do
hábito de rasparem o platinado que separa a sorte do azar, dos fundos dos copos
de fino ou dos sujos. A mão grande, calosa, seivosa, aberta como uma ruga
imensa no negro granito, bate uma única vez como o vociferado pregão,
respeitoso e respeitador. Eu tomava o café sem pressas, virando-me lentamente
como se algo na televisão me interessasse, apenas para os ver. A dupla
septuagenária com setentas dos antigos, onde os anos curvados valiam como uma
arrastada enxada no final da tarde, quando as leiras se recolhiam e os repolhos
aspiravam o fresco final do dia e do postigo, ao longe, se ouvia o debulhado
chamado da patroa, aquecido pelo caldo de nabos (e aqui a ficção recolhe-se
para dar passagem à degustação do cronicador). Setenta destes valem-me oitenta
no tempo quente e um centenário fresco nas tarde curtas do Inverno.
A boina no cabide, a cabeça alva, as mãos dentro do casaco
negro e os ombros encolhidos, como uma resposta sempre presente à própria vida,
um bom e velho – Que se foda e me desculpem a língua – Ria-se, obviamente, a
clientela. Já o conhecem pelo feitio rombudo e para aquecer o ambiente lá lhe
lançam o desafio de responder a coisas sem resposta, como quando lhe falam
sobre o futebol, a política, o tempo e as demais futilidades.
– Decidam-se sobre o que se querem queixar e deixem-me em
paz. – Em pé, sobre a grade de alumínio que separa o patamar azulejado onde se
sentam as pequenas famílias ao domingo, lê as gordas e negras letras do jornal
que outro velho desfolha. Acaba-se a leitura, o jornal não se fecha para não se
perder a vez, é passado de mão para mão como o testemunho da curiosidade de
saber o que andou o mundo a fazer no dia anterior. Foi assim que aprendi, pela
voz dele, que “notícias de hoje só quando o sino toca e avisa que alguém
morreu, as outras já nos chegam depois de meia volta ao mundo”.
Uma vez, apenas uma, antes de ter o jornal na mão, a voz
roufenha para disfarçar o embaraço diz – Empresta-me os teus óculos, deixei os
meus em casa. – Num encorrilhar do nariz, com as hastes metálicas estranhando a
face, deitou o olhar rápido para a necrologia franzindo os sobrolhos para
adaptar as letras na córnea e num instante ficou a saber quem ontem, sem que o
sino avisasse, tinha morrido. E, assim, fica-se mais vivo, porque "os
outros foram, mas eu não", paga o pingo, pisca-me o olho e "vou ver o
que a patroa meteu no caldo". Quando coloca a boina sobre os ralos cabelos
grisalhos não consigo deixar de pensar no quão perto também ele está daquela
página do jornal.
Já de costas, antes de fechar a porta castanha do café,
larga o tradicional
– Até já!
Passados dias ouço o sino, olho o relógio, não eram horas
certas por isso representava apenas que a morte tinha chegado e na sua exatidão
bramia a campânula deixando cair pétalas de ferrugem. Na mesma tarde, retomo o
café e sei-o, porque o sino repenica mas não fala, tinha morrido aquele que
pediu óculos para ver quem tinha morrido e como se pudesse ouvi-lo rir e
vociferar por certamente não ter direito a caldo de nabos, nem precisar de
óculos para ver que estava morto, pisco o olho para o vazio e digo-lhe também
2017-12-07
Entre a vida
e as oitavas
quem te conduz?
Que braço oscila
pendendo
entre o iluminado e a luz?
Uma nota acima
entre o passado e o futuro,
quem te canta? quem te rima?
Vai pautando,
sorriso em cara cheia,
nos intrínsecos de um coreto brando
a placidez de uma nota que se quer ameia.
Vai, caminhando,
partindo,
chegando enfim,
a existência não ascende
é esta espécie de colcheia que pende,
pedindo,
o conceito inacabado
que a conduza fora dos limites do limbo.
e as oitavas
quem te conduz?
Que braço oscila
pendendo
entre o iluminado e a luz?
Uma nota acima
entre o passado e o futuro,
quem te canta? quem te rima?
Vai pautando,
sorriso em cara cheia,
nos intrínsecos de um coreto brando
a placidez de uma nota que se quer ameia.
Vai, caminhando,
partindo,
chegando enfim,
a existência não ascende
é esta espécie de colcheia que pende,
pedindo,
o conceito inacabado
que a conduza fora dos limites do limbo.
2017-11-26
Com eira, sem beira
Crónica de domingo, na Bird Magazine.
Curva contra curva, as retas sucedem-se também tortas, o pequeno-almoço bamboleia desprotegido no estômago e começo a pensar se não será desta vez a primeira em que irei ficar mal disposto ao volante. Paro no que seria suposto ser um miradouro, o chão calcetado apresenta fosseis de folhas de eucalipto e memórias de quem por lá parou, acredito que em noites mais sombrias e frias, onde a cegueira do amor possa ver o que dois corpos jovens, ávidos, têm a dizer um ao outro.
Não satisfeito com o local arranco, mais uma mão cheia de curvas e encontro o local perfeito. O Sol irá em breve transformar o granito dos bancos em solarengo repouso, desligo o carro, abra a porta e rio-me da estupidez habitual em tentar sair do carro sem desapertar o cinto. Já sem cinto, física e homofonicamente, espreguiço-me com o à vontade de saber que ninguém está a ver. Ao fundo o Douro serpenteia, com mais ou menos sede, alheio às vontades de quem o navega sem valorizar a corrente de quem rio nunca se sente. Como previ, o Sol está agora a sair por detrás dos eucaliptos. Atrás de mim, mais acima, a encosta dourada em ocre queimada rivaliza com o vazio a tristeza, o chão negro lembra-me o chão negro e por isso mesmo entristeço-me. Debruço-me sem muita preocupação sobre o gradeado esverdeado, tenho que o fazer para fugir à sombra que a placa de um qualquer fundo europeu espalha.
É ali que vejo o telhado, à minha direita, do que me parece ser uma palheiro ou eira. Deito um olhar ao carro, adormeceu, acredito que cansado da música que lhe dou a ouvir e do trajecto irregular pelo qual o faço rodar (talvez assim saiba o que é ser-se eu). Alço-me sobre a grade e vou descendo, umas vezes com o cú, o carreiro cheio de folhas ainda molhadas. Acabo por parar com os pés na lousa, onde já uns riscos de luz ganham eira, sacudo as mãos e fico parado, ofegante, sem saber como subirei o caminho de volta. Ou se o quero fazer.
Alguém parece ter transformado o palheiro em casa, se ainda por cá mora não sei. Alto de mais para um piso, baixo de mais para dois, caminho em direção à porta e o ferrolho de madeira abre-se sem que o alavanque. Cheira a vazio e a vida. Umas calças estendidas sobre o resto de um braseiro.
Há espaço suficiente para o que se leva connosco quando decidimos ser fumo. O quarto fica no baixo primeiro piso, em cima de uma barra de batatas, a cadeira com restos de roupa balança tristemente ao ritmo do meu olhar. A janela é apenas um bocado do telhado sem telhas, permite ver o céu estrelado e deverá ser o despertador de todos os dias, tardio agora que amanhece depois da hora. Uma palete improvisa biblioteca e vários livros fitam-me, ensonados. Só depois o vi, ao canto, entorpecido, a dormir sob uma espécie de bata azul, escura, de trabalho. E ali tudo fez sentido, para mim, quando os meus olhos fecharam abriram-se os livros, e as letras acolheram-no. O colchão transformou-se em folhas, depois em letras que, volitando, o levaram a um céu que nunca ninguém conseguiu escrever.
Curva contra curva, as retas sucedem-se também tortas, o pequeno-almoço bamboleia desprotegido no estômago e começo a pensar se não será desta vez a primeira em que irei ficar mal disposto ao volante. Paro no que seria suposto ser um miradouro, o chão calcetado apresenta fosseis de folhas de eucalipto e memórias de quem por lá parou, acredito que em noites mais sombrias e frias, onde a cegueira do amor possa ver o que dois corpos jovens, ávidos, têm a dizer um ao outro.
Não satisfeito com o local arranco, mais uma mão cheia de curvas e encontro o local perfeito. O Sol irá em breve transformar o granito dos bancos em solarengo repouso, desligo o carro, abra a porta e rio-me da estupidez habitual em tentar sair do carro sem desapertar o cinto. Já sem cinto, física e homofonicamente, espreguiço-me com o à vontade de saber que ninguém está a ver. Ao fundo o Douro serpenteia, com mais ou menos sede, alheio às vontades de quem o navega sem valorizar a corrente de quem rio nunca se sente. Como previ, o Sol está agora a sair por detrás dos eucaliptos. Atrás de mim, mais acima, a encosta dourada em ocre queimada rivaliza com o vazio a tristeza, o chão negro lembra-me o chão negro e por isso mesmo entristeço-me. Debruço-me sem muita preocupação sobre o gradeado esverdeado, tenho que o fazer para fugir à sombra que a placa de um qualquer fundo europeu espalha.
É ali que vejo o telhado, à minha direita, do que me parece ser uma palheiro ou eira. Deito um olhar ao carro, adormeceu, acredito que cansado da música que lhe dou a ouvir e do trajecto irregular pelo qual o faço rodar (talvez assim saiba o que é ser-se eu). Alço-me sobre a grade e vou descendo, umas vezes com o cú, o carreiro cheio de folhas ainda molhadas. Acabo por parar com os pés na lousa, onde já uns riscos de luz ganham eira, sacudo as mãos e fico parado, ofegante, sem saber como subirei o caminho de volta. Ou se o quero fazer.
Alguém parece ter transformado o palheiro em casa, se ainda por cá mora não sei. Alto de mais para um piso, baixo de mais para dois, caminho em direção à porta e o ferrolho de madeira abre-se sem que o alavanque. Cheira a vazio e a vida. Umas calças estendidas sobre o resto de um braseiro.
Há espaço suficiente para o que se leva connosco quando decidimos ser fumo. O quarto fica no baixo primeiro piso, em cima de uma barra de batatas, a cadeira com restos de roupa balança tristemente ao ritmo do meu olhar. A janela é apenas um bocado do telhado sem telhas, permite ver o céu estrelado e deverá ser o despertador de todos os dias, tardio agora que amanhece depois da hora. Uma palete improvisa biblioteca e vários livros fitam-me, ensonados. Só depois o vi, ao canto, entorpecido, a dormir sob uma espécie de bata azul, escura, de trabalho. E ali tudo fez sentido, para mim, quando os meus olhos fecharam abriram-se os livros, e as letras acolheram-no. O colchão transformou-se em folhas, depois em letras que, volitando, o levaram a um céu que nunca ninguém conseguiu escrever.
Por encomenda... "poesia à medida"
Ontem
quando te nascia o amanhã
dei às letras o futuro enrubescido,
porque a cada sorriso ensinado
surge um ocaso feliz agora
que, pacificamente, se faz passado,
e não que te pertençam as horas,
mas porque o tempo
o teu infinito
é meu porto seguro
onde (em mim) moras.
***
Deus
em teus braços deposito os meus,
saídos do ocaso às madrugadas que sorvo
quero-me às sombras que urdem pelo fim
protegendo-os ao Inverno
Pai
que chova só em mim.
E neste dia que se abre ao mundo
benze-me tarde esta tarde na recordação
de meu ventre a homem
terá sido apenas um segundo?
Agora, nos teus olhos brilho
e os meus que levanto ao céu
digo, filho,
toma este caminho, é teu.
***
Não se cansam arfantes as palavras
onde joga o destino,
numa vida sem errantes amaras
no limite onde não sucumbe o início
o tempo que passo comigo
chama à noite pela companhia,
um amigo.
Queiram-me as mãos que outras mãos vencem
e dias longos onde se espreguice calmamente a noite
quando a vida em ti se avizinha
há toda essa felicidade
tua
mas também minha.
***
Levo comigo as mãos no olhar,
no abraço dado ao vazio
não amado
há um encontro em mim com a vida
o desejo de me fazer lar.
A noite lentamente sorvida pelas luzes fugidias
sai no regaço
escondida
com risos e cumplicidade de quem mora nos meus dias.
Brindo ao cansaço e esqueço a loucura do labor
hoje mora apenas, em nós, o amor que ecoou
e nesse feliz retrato onde me levo comigo
há o sonho que também estou
e onde vos me estendo como abrigo.
quando te nascia o amanhã
dei às letras o futuro enrubescido,
porque a cada sorriso ensinado
surge um ocaso feliz agora
que, pacificamente, se faz passado,
e não que te pertençam as horas,
mas porque o tempo
o teu infinito
é meu porto seguro
onde (em mim) moras.
***
Deus
em teus braços deposito os meus,
saídos do ocaso às madrugadas que sorvo
quero-me às sombras que urdem pelo fim
protegendo-os ao Inverno
Pai
que chova só em mim.
E neste dia que se abre ao mundo
benze-me tarde esta tarde na recordação
de meu ventre a homem
terá sido apenas um segundo?
Agora, nos teus olhos brilho
e os meus que levanto ao céu
digo, filho,
toma este caminho, é teu.
***
Não se cansam arfantes as palavras
onde joga o destino,
numa vida sem errantes amaras
no limite onde não sucumbe o início
o tempo que passo comigo
chama à noite pela companhia,
um amigo.
Queiram-me as mãos que outras mãos vencem
e dias longos onde se espreguice calmamente a noite
quando a vida em ti se avizinha
há toda essa felicidade
tua
mas também minha.
***
Levo comigo as mãos no olhar,
no abraço dado ao vazio
não amado
há um encontro em mim com a vida
o desejo de me fazer lar.
A noite lentamente sorvida pelas luzes fugidias
sai no regaço
escondida
com risos e cumplicidade de quem mora nos meus dias.
Brindo ao cansaço e esqueço a loucura do labor
hoje mora apenas, em nós, o amor que ecoou
e nesse feliz retrato onde me levo comigo
há o sonho que também estou
e onde vos me estendo como abrigo.
Subscrever:
Mensagens (Atom)



