Crónica de Domingo, na Bird Magazine.
"Talvez eu seja o barco"
A solidão molda-nos a companhia.
Transporta-nos para aquilo que não desejamos transportar, apenas e só porque não nos sabemos caminho, nem caminhantes, apenas fugazes, esbaforidos, errantes.
A solidão molda-nos a alegria.
Como agora, quando a chuva bate no vidro e eu encho o peito, faço de conta que me escondo atrás do pinheiro, sinto a áspera casca e cheiro as recordações de arrancar, na ignorância, aquelas espessas crostas, raspá-las numa pedra e moldar rombudamente um casco de um batel, um barco tímido que soltamos no primeiro regato que nos aparece e vamos, correndo, andando, ao sabor da corrente de um aguaceiro que se faz chuva premente, até vermos felizes no bom rumo de algo que nos saiu das mãos e só aí, no despertar daquele rasto de vida que cai e ao chegar ao horizonte se esvai, percebemos que estamos encharcados, esvaídos em felicidade que chove por fora e pinga por dentro.
A solidão molda o que nos acorda, a porta que se escancara e o olhar de mãe, terno, que se confunde com a rispidez dos braços que nos despem enquanto colocam a cafeteira de água no fogão, o lume brando e a sussurrar butanicamente as labaredas azuis e amarelas num tuf-tuf assíncrono que se confunde com a sincronicidade dos batimentos do coração que uma mãe tem sempre à mão.
O dia de Inverno traz a forma de um banho quente, um azuleijado tímido e coberto de vapor de água, as sombras muito espartanas que com dificuldade aderem ao embaciado espelho e reflectem o reflexo que não sei ser, tudo, mas tudo serve para nos aquecer, o abraço, a companhia, a mão, a alegria, a imensidão carcereira do infinito que prende à vida.
Quando nos confundimos com o que não existe, o passado e o futuro numa rima em riste, serve-nos o presente enquanto não nos sabemos chover, apenas precipitar sobre a tarde que se quer profícua, inócua, como o vidro comigo condensado, onde nada mais consigo vislumbrar além da rua e das poças de água que me convidam a navegar, erradamente concerteza, sem qualquer assunto para escrever que não seja este, o pequeno que corre lá fora alheio aos avisos pré-programados maternalmente, o sorriso e o calcar das poças de água, as mesmas que lhe respondem com largos e altos salpicos nas pernas e a lama que se vai desprendendo das botas e salta antigraviticamente para o rabo e costas, o barco que vai abanando porque perdeu a tosca vela e agora apenas a vontade e a alegria do puto por ele vela e, antes que se penda para o bueiro fajuto e cheio de bocados de lixo de gente, ou gente de lixo, ultrapassa-o, ajoelha-se no molhado e apanha-o, aquela preciosidade em casca de pinheiro, sem preocupação de dinheiro nem sentido parco, porque ele é a solidão e talvez eu seja o barco.
2018-03-04
2018-02-25
Eles Verão
Eles Verão, crónica do nada, no Correio do Porto.
Faço questão que a vela ilumine o final de dia, perdeu a finalidade de me ajudar num certa hipnose oratória ou abstracionista, para passar a ser a recordação que mantenho de uma vida que não me lembro de ter vivido. A vantagem da luz, na minha escura opinião, é expurgar sombras que permaneciam a ondular à minha volta, projectando-as na parede à minha frente e assumindo, num desígnio que não entendo, um sentido de catarse e catálise, a dicotomia própria de uma vida abaixo de Deus.
O dia ganha forma na rememoração dos episódios que julgava esquecidos, formas extensas em toda a extensão da parede, um pleonasmo da vida, viver depois de viver. É assim que vejo como se ainda conduzisse nesta remendada estrada nacional baptizada com um número, como se fosse ela, e nós, o fruto da atribuição de um algoritmo programada por um ser humano sem ritmo.
Os paus, pedras, folhas e outras minisculanidades batem ofegantes na carroçaria. O soprador apressa-se a afastar da via os restos da cortadura.
Olho com curiosidade a inversão dos papéis tradicionalmente opostos, ele no chão a soprar, atento ao lixo e ao trânsito que embora afastado de vias mais problemáticas mantém uma cadência que não permite grandes distrações, ela a subir com alguma destreza as elevações, a cortar aqui e ali, a ver com certa admiração uma ou outra ave que foge assustada com a invasão dos locais tradicionalmente vivos porque abandonados estão pelos homens. Não resisto a pensar, imaginar, durante o dia que me sobra desta a manhã até ao meio-dia, que naqueles trabalhadores, verdadeiros arquitectos de uma obra que o público não valorizará, poderiam ser um casal, a arte partilhada de serem felizes no meio de nada.
No percurso inverso vejo-os novamente e páro como se fosse deitar algo no contentor do lixo. A carrinha alva e verde, ele encostado ao taipal, o guardanapo branco envolvendo o pão, perna dobrada com o pé apoiado no pneu, um sorriso entre dentadas, ela em pé a olhar para ele, pose feminina por detrás das vestes masculinas, a cara pigmentada de verde pelo que salpicou e passou pela viseira cardada exibe o rosto firme e aveludado de quem pela vida é moldado. O vento atira-lhe uma madeixa para a cara, o cabelo que se prende ao suor e ele, por simpatia, com pudor, sacode a mão no colete e, com o carinho de quem afaga o próprio ninho, tira-lhe o cabelo da face e naquele instante, no sorriso ruborescido dela, o mundo faz sentido.
A vela apaga-se, a cera ondula imperceptivelmente até o frio da estação a enrijecer e votar ao pálido e baço espectro daquilo que ardeu sem intuito de invocar mais do que memórias. Permaneço no escuro, a chuva bate na persiana e tenta entrar, eu calo-me e nesta trindade de chuva, frio e vento ouço Torga falar. Não irei adormecer, não sem antes sorrir e vê-los novamente, encostados ao taipal da carrinha, por entre outras lembranças.
Embora não o vejam hoje por causa do Inverno, um dia eles Verão.
Faço questão que a vela ilumine o final de dia, perdeu a finalidade de me ajudar num certa hipnose oratória ou abstracionista, para passar a ser a recordação que mantenho de uma vida que não me lembro de ter vivido. A vantagem da luz, na minha escura opinião, é expurgar sombras que permaneciam a ondular à minha volta, projectando-as na parede à minha frente e assumindo, num desígnio que não entendo, um sentido de catarse e catálise, a dicotomia própria de uma vida abaixo de Deus.
O dia ganha forma na rememoração dos episódios que julgava esquecidos, formas extensas em toda a extensão da parede, um pleonasmo da vida, viver depois de viver. É assim que vejo como se ainda conduzisse nesta remendada estrada nacional baptizada com um número, como se fosse ela, e nós, o fruto da atribuição de um algoritmo programada por um ser humano sem ritmo.
Os paus, pedras, folhas e outras minisculanidades batem ofegantes na carroçaria. O soprador apressa-se a afastar da via os restos da cortadura.
Olho com curiosidade a inversão dos papéis tradicionalmente opostos, ele no chão a soprar, atento ao lixo e ao trânsito que embora afastado de vias mais problemáticas mantém uma cadência que não permite grandes distrações, ela a subir com alguma destreza as elevações, a cortar aqui e ali, a ver com certa admiração uma ou outra ave que foge assustada com a invasão dos locais tradicionalmente vivos porque abandonados estão pelos homens. Não resisto a pensar, imaginar, durante o dia que me sobra desta a manhã até ao meio-dia, que naqueles trabalhadores, verdadeiros arquitectos de uma obra que o público não valorizará, poderiam ser um casal, a arte partilhada de serem felizes no meio de nada.
No percurso inverso vejo-os novamente e páro como se fosse deitar algo no contentor do lixo. A carrinha alva e verde, ele encostado ao taipal, o guardanapo branco envolvendo o pão, perna dobrada com o pé apoiado no pneu, um sorriso entre dentadas, ela em pé a olhar para ele, pose feminina por detrás das vestes masculinas, a cara pigmentada de verde pelo que salpicou e passou pela viseira cardada exibe o rosto firme e aveludado de quem pela vida é moldado. O vento atira-lhe uma madeixa para a cara, o cabelo que se prende ao suor e ele, por simpatia, com pudor, sacode a mão no colete e, com o carinho de quem afaga o próprio ninho, tira-lhe o cabelo da face e naquele instante, no sorriso ruborescido dela, o mundo faz sentido.
A vela apaga-se, a cera ondula imperceptivelmente até o frio da estação a enrijecer e votar ao pálido e baço espectro daquilo que ardeu sem intuito de invocar mais do que memórias. Permaneço no escuro, a chuva bate na persiana e tenta entrar, eu calo-me e nesta trindade de chuva, frio e vento ouço Torga falar. Não irei adormecer, não sem antes sorrir e vê-los novamente, encostados ao taipal da carrinha, por entre outras lembranças.
Embora não o vejam hoje por causa do Inverno, um dia eles Verão.
2018-02-18
Munch
“Munch”, crónica de Domingo, na Bird Magazine.
Com a chuva a bater timidamente no vidro, abriu as persianas da casa que o habita.
Serão poucos segundos depois dos primeiros, umas horas batidas no acolchoado dormido, o dia vai cavar-se lá fora onde os calcanhares, em invulgar caminhar, sulcaram aquilo que adivinho ser um talhão para futura plantação. A terra ali, aberta, liberta, por onde respiram as entranhas a deixar-se afogar pelas horas matinais do dia, o corpo enviuvado que vai encavalitando sementes do que não quer criado, atira-se as mãos vazias à terra na esperança que a terra nos atire a mão de volta. Em quantas vidas pode viver uma revolta?
Descerrou o cortinado, a pluviosidade encarregava-se de entoar a manhã de Inverno como se as várias translações a que se submeteu fossem cada uma delas uma estação diferente. Já não distingue os pingos de chuva como quando criança os contava, um, dois, três, a conta que Deus fez. Vão correndo desajeitados numa pressa esbatida porque o seu olhar encarrega-se de, pasma-se, olhar e eles porque não sabem ser nada mais do que são, felizes, escorregam, escorrem, regam, molham, cantam e encolhem-se quando batem no fim da janela e parte deles é absorvida pela madeira, enquanto os outros se divertem a marejar nos seus olhos.
A similaridade entre o passado e o presente é fulcral para tornar-se coro de um refrão que esquece porque de memória não lhe reza a história.
É triste, mas verdade.
E por ser verdade, alegra-se.
Cada cara sua face, mas aparentando aparentar, em qual dos rostos deve acreditar?
O céu cinzento vai ondulando acima dele, um mar que o submerge porque não sabe nadar no ar que respira, a solidão amedronta-se porque a companhia do frio traz no encalço o tempero do braseiro, o silêncio do crepitar e a aspereza do fumo que envolveu a cafeteira negra em tempos doutros tempos.
Em cima da mesa, tampo zincado, uma empoeirada garrafa de vinho vazia, a borra que secou quando a maré vazou fica colada ao longo da garrafa, o sulco de um corpo que rastejou, do topo ao fundo, do minuto ao segundo, do leito ao mundo.
De casa aberta, saiu à rua inquieto e imóvel, dois mundos que se complementam porque nenhum universo nasceu para ser sozinho, uno, verso, mas sim para se deixar tangenciar por tudo o que de trigonométrico urde e ali, ao centro, se complemente a enormidade de se saber nada.
Abriu os olhos, o despertador adormecido sobressaltou-se, tilintou por momentos, deixando-o a desfrutar do momento e ali, de dedo no ar, desfolhou a vida como um cardápio infinito porque não sabia dizer não, nem sim, tampouco qual dos princípios decida ele ser o fim.
Com a chuva a bater timidamente no vidro, abriu as persianas da casa que o habita.
Serão poucos segundos depois dos primeiros, umas horas batidas no acolchoado dormido, o dia vai cavar-se lá fora onde os calcanhares, em invulgar caminhar, sulcaram aquilo que adivinho ser um talhão para futura plantação. A terra ali, aberta, liberta, por onde respiram as entranhas a deixar-se afogar pelas horas matinais do dia, o corpo enviuvado que vai encavalitando sementes do que não quer criado, atira-se as mãos vazias à terra na esperança que a terra nos atire a mão de volta. Em quantas vidas pode viver uma revolta?
Descerrou o cortinado, a pluviosidade encarregava-se de entoar a manhã de Inverno como se as várias translações a que se submeteu fossem cada uma delas uma estação diferente. Já não distingue os pingos de chuva como quando criança os contava, um, dois, três, a conta que Deus fez. Vão correndo desajeitados numa pressa esbatida porque o seu olhar encarrega-se de, pasma-se, olhar e eles porque não sabem ser nada mais do que são, felizes, escorregam, escorrem, regam, molham, cantam e encolhem-se quando batem no fim da janela e parte deles é absorvida pela madeira, enquanto os outros se divertem a marejar nos seus olhos.
A similaridade entre o passado e o presente é fulcral para tornar-se coro de um refrão que esquece porque de memória não lhe reza a história.
É triste, mas verdade.
E por ser verdade, alegra-se.
Cada cara sua face, mas aparentando aparentar, em qual dos rostos deve acreditar?
O céu cinzento vai ondulando acima dele, um mar que o submerge porque não sabe nadar no ar que respira, a solidão amedronta-se porque a companhia do frio traz no encalço o tempero do braseiro, o silêncio do crepitar e a aspereza do fumo que envolveu a cafeteira negra em tempos doutros tempos.
Em cima da mesa, tampo zincado, uma empoeirada garrafa de vinho vazia, a borra que secou quando a maré vazou fica colada ao longo da garrafa, o sulco de um corpo que rastejou, do topo ao fundo, do minuto ao segundo, do leito ao mundo.
De casa aberta, saiu à rua inquieto e imóvel, dois mundos que se complementam porque nenhum universo nasceu para ser sozinho, uno, verso, mas sim para se deixar tangenciar por tudo o que de trigonométrico urde e ali, ao centro, se complemente a enormidade de se saber nada.
Abriu os olhos, o despertador adormecido sobressaltou-se, tilintou por momentos, deixando-o a desfrutar do momento e ali, de dedo no ar, desfolhou a vida como um cardápio infinito porque não sabia dizer não, nem sim, tampouco qual dos princípios decida ele ser o fim.
2018-02-04
Para onde nos levas, tempo?
“Para onde nos levas, tempo?”, crónica de domingo, na Bird Magazine.
É domingo. Escrevo-te do passado. Hoje é sábado, mas os meus dedos viram as estrelas que serpenteiam quando voo e decidiram casar com o dia de amanhã.
Talvez agora, no futuro, não sintas o frio que a noite traz, porque no teu corpo vivem as brasas de uma lareira recentemente apagada e nem o fumo, que ela teima em fazer crescer, te faz lacrimejar de saudade dum outro futuro.
Sentado na cadeira, os contos de Mestre Torga pululam-me no regaço, fechados com medo de os acabar depressa demais. Agora que me entretenho a olhar a ligeira e trémula chama azul e amarela no pavio retorcido, engomado, quase dobrado, sem aviso trazem-me a visão do Marão, do lado direito, e o vento frio que arrefece ainda mais, a subir para a terra onde mandam os que lá estão. Há um vento normal e um vento arrefecido, o que parece viver ali, entre a Pousada e o pequeno parque à esquerda, antes de começar a descer, que me força a abrir o vidro sempre que subo aquele troço do IP4 e me enregela a cara até deixar de a sentir. Chama-se imaginação, o vento e o momento.
Das vezes que chove e o Sol espreita, iluminando os pinheiros, regando de luz a caruma e as giestas que ondulam. (E, sei lá, se são giestas ou pinheiros?) Para mim têm todas a mesma cor, verde, azul e cinzento, das cores do que sonho quando a estrada se percorre por baixo do meu corpo e faz tempo (como se o tempo pudesse ser feito) que não leio o que escrevo, um pouco como tu.
Uma folha em branco basta, debaixo do despertador, com a caneta ansiosa a descansar de me levar para todo o lado. Os sonhos cansam-se de esperar pelos sonhador. Até mesmo aquele nosso eu que se desprende de nós próprios e corre, chamando-nos, está parado, sentado num marco da estrada, rabiscando umas distâncias e nomes de terras que ainda nem floriram.
Ainda na folha, em branco, deitam-se a dormir as dúvidas e crenças, mas rapidamente tornam-se fugidias, sem pouso certo levantam voo e aguardam ao lado da cabeceira da cama, pousando nos olhos, quando tentamos adormecer, içando a noite para os sonhos carregados de montes e vales, de veredas por onde nunca iremos entrar.
Confesso que me assusto, ao ver que nada vejo, ao ouvir a surdez que abafa os dias quando nos carregamos de um lado para o outro, na sofreguidão de chegarmos onde não estamos. Por vezes, em certas noites como esta, acerco-me de um qualquer ideal e rezo, para que não me esqueça de colocar alguns bocados de nuvem no peito, para que nunca soçobre a alma, nem a vontade de chegar aos sorrisos que ainda não vi, aos olhares de onde ainda não sorvi.
E é assim, quando me encontro em viagem, que me busco em mim mesmo num destino.
2018-01-29
2018-01-21
A saudade cabe-nos na mão
“A saudade cabe-nos na mão”, crónica de Domingo, na Bird Magazine.
Pelo caminho para a escola havia de se passar por uma fila de casas que se comprimiam ao longo das portas e janelas rendilhadas, parecendo que alguém teria feito daquele aglomerado uma concertina em tamanho grande, comprimida, sem fôlego, à espera que por algum desígnio se conseguisse escapulir e expandir, libertando a sonoridade a que isso fora vetada.Tudo é permitido à imaginação quando se tem olhos de criança.
À janela, outrora, cabiam sempre as mesmas vestes negras sob a padieira, as faces enrugadas e o horizonte ainda curto, cujo tempo faria o favor aos homens de desbastarem primeiro as copas das árvores, depois o resto das mesmas e, por fim, o monte todo, dando azo agora a ver prédios e estruturas inimagináveis noutros tempos, talvez porque noutros tempos a imaginação era parca, limitando-se a descortinar sombras entre esteios e medas de palha e lançar os boatos e lendas de gente perdida pelas colheitas e os anos de azar que daria a quem o descobrisse.
Os anos passam-nos, a acuidade visual diminui desgastada pelo tempo e pelos tubos de raios catódicos, adquire-se mais uns palmos de gente e pensamos conseguir ver mais e melhor, no entanto, aquela rua, apertada pelos muros que começam já a dar sinais de desgaste e cansaço como velhas tiras de couro ressequidas pelo descuidado abandono, já não tem o horizonte curto do espaço que se percorre daqui ao infinito.
Das vielas laterais já não saem miúdos, pequenos afluentes a desemborcar num rio principal cujo tráfego se resumia a petizes pés no chão, batendo compassadamente na corrida, suplantados pelo bater nas costas das velhas mochilas e, dentro destas, dos livro, sebentas e lápis aos tombos numa mistura multifrutada de saberes e sabores, agradavelmente saborosos porque o pomar onde se aprendia era feito de árvores inocentes. Se antes se parava na rua, não havendo um postigo aberto, facilmente surgiria o vulto atrás da cortina, para depois rodar a maçaneta do enferrujado, trazendo ao dia o luto eterno de quem permanece imortal do lado de lá da vida. Hoje, se paro na rua, poucas sombras se vultalizam atrás da cortina e já nenhuma destranca o ferrolho, espreita-se timidamente e volta-se aos afazeres televisivos. Planta-se um “Bom dia!” que já não se colhe.
Na minha boca sobrevive o sabor granulado da boroa caseira, a cebola cortada e os pedregulhos de sal, todos facilmente imersos na torrente negra do café com açúcar, mexido pela baça colher da sopa, que se leva à boca na retorcida caneca de metal com cuidado para não se comer demasiada borra, enquanto as roupas molhadas da escola secam nas costas da cadeira virada para a lareira.
As ruas trazem música abafada, os meus passos calcam-se a si mesmos e quando me desfaso da realidade quase sou derrubado por mim, puto, passando a correr para a escola, com os pés a baterem no chão e os livros, sacudidos, dentro da mochila, ao sabor de tudo o que irei aprender ao ser eu mesmo. A saudade cabe-nos na mão e caberia no olhar, se não fôssemos cegos.
Pelo caminho para a escola havia de se passar por uma fila de casas que se comprimiam ao longo das portas e janelas rendilhadas, parecendo que alguém teria feito daquele aglomerado uma concertina em tamanho grande, comprimida, sem fôlego, à espera que por algum desígnio se conseguisse escapulir e expandir, libertando a sonoridade a que isso fora vetada.Tudo é permitido à imaginação quando se tem olhos de criança.
À janela, outrora, cabiam sempre as mesmas vestes negras sob a padieira, as faces enrugadas e o horizonte ainda curto, cujo tempo faria o favor aos homens de desbastarem primeiro as copas das árvores, depois o resto das mesmas e, por fim, o monte todo, dando azo agora a ver prédios e estruturas inimagináveis noutros tempos, talvez porque noutros tempos a imaginação era parca, limitando-se a descortinar sombras entre esteios e medas de palha e lançar os boatos e lendas de gente perdida pelas colheitas e os anos de azar que daria a quem o descobrisse.
Os anos passam-nos, a acuidade visual diminui desgastada pelo tempo e pelos tubos de raios catódicos, adquire-se mais uns palmos de gente e pensamos conseguir ver mais e melhor, no entanto, aquela rua, apertada pelos muros que começam já a dar sinais de desgaste e cansaço como velhas tiras de couro ressequidas pelo descuidado abandono, já não tem o horizonte curto do espaço que se percorre daqui ao infinito.
Das vielas laterais já não saem miúdos, pequenos afluentes a desemborcar num rio principal cujo tráfego se resumia a petizes pés no chão, batendo compassadamente na corrida, suplantados pelo bater nas costas das velhas mochilas e, dentro destas, dos livro, sebentas e lápis aos tombos numa mistura multifrutada de saberes e sabores, agradavelmente saborosos porque o pomar onde se aprendia era feito de árvores inocentes. Se antes se parava na rua, não havendo um postigo aberto, facilmente surgiria o vulto atrás da cortina, para depois rodar a maçaneta do enferrujado, trazendo ao dia o luto eterno de quem permanece imortal do lado de lá da vida. Hoje, se paro na rua, poucas sombras se vultalizam atrás da cortina e já nenhuma destranca o ferrolho, espreita-se timidamente e volta-se aos afazeres televisivos. Planta-se um “Bom dia!” que já não se colhe.
Na minha boca sobrevive o sabor granulado da boroa caseira, a cebola cortada e os pedregulhos de sal, todos facilmente imersos na torrente negra do café com açúcar, mexido pela baça colher da sopa, que se leva à boca na retorcida caneca de metal com cuidado para não se comer demasiada borra, enquanto as roupas molhadas da escola secam nas costas da cadeira virada para a lareira.
As ruas trazem música abafada, os meus passos calcam-se a si mesmos e quando me desfaso da realidade quase sou derrubado por mim, puto, passando a correr para a escola, com os pés a baterem no chão e os livros, sacudidos, dentro da mochila, ao sabor de tudo o que irei aprender ao ser eu mesmo. A saudade cabe-nos na mão e caberia no olhar, se não fôssemos cegos.
2018-01-15
Dois lados da mesma moeda sem valor
Dois lados da mesma moeda, mais uma Crónica do Nada, no Correio do Porto.
Escolho salada de atum sem qualquer alternativa. A funcionária funga um sorriso por baixo dos óculos embaciados e, ao mesmo tempo, grita alto o suficiente para que o pedido entre pelo postigo, ladeado por um papel de parede encardido de pedidos, sebosos, que escorrem asperamente ao longo dos tempos. Pouco tempo depois, a bandeja de metal bate pesadamente no mármore entranhado, o molho de azeite e vinagre saltam por entre o feijão frade, a salsa sacode-se como os cabelos oleosos que conseguem fugir da prisão da touca amarelecida da cozinheira, e tilinta o atum, recém libertado do balde de plástico, com alvas semelhanças com as taínhas que vi à boca do esgoto como loucos saltimbancos em pirâmides humanas lutando pela proximidade dos dejectos.
Como directamente da bandeja, a rapariga leva o prato, limpa-o com o pano que traz à cintura e coloca-o no topo da pilha, deduzo que para mais tarde o entregar a outro cliente. A comida está surpreendentemente boa. Talvez porque, acredito, que o que me alimente agora seja a sala repleta de trabalhadores, alguns envergando ainda os cintos de ferramentas, as calças pintadas com restos de tinta de várias obras, um outro, mais distraído, usa ainda o boné da cor da preferência clubística e prendo o olhar num solitário. Come na ponta da mesa partilhada com outros operários, uma formiga de outro formigueiro, o lápis vermelho espreita a comida preso à sua orelha habituado apenas à textura da madeira ou do gesso. Os feijões, a salsa, a cebola e o tomate seguem o caminho memorizado, são alojados paciente e ordeiramente no prato, o garfo e a faca coreografados sem um tinir, a solenidade de se saber perfeição no meio do confuso caos metafórico e até pleonasmificado. O telemóvel toca, olha o visor e um sorriso floresce, atende-o “Estou? Filho? Como estás campeão? Eu? Eu estou de férias agora, a ver o rio e a comer um petisco. E tu? Já comeste? Não estás a chatear a mãe? Vais para a escola de tarde? Que bom! Aprende muito, para depois me ensinares, está bem? Se te portares bem até te levo uma coisa boa logo!”. Termina a chamada, guarda o telemóvel, desembrulha um guardanapo de papel e, cuidadosamente, retira o atum da bandeja, aperta-o entre o garfo e a faca para que as escorrências azeitadas e avinagradas saiam e, depois, deposita-o no pão aberto com o cuidado de quem deita um filho na cama. Quando o ritual termina, o pão é guardado dentro do casaco, o sorriso nasce e a vida fica um pouco mais perfeita.
Na sala ao lado, decorada com motivos regionais de uma aldeia globalizada, os pedidos são suavizados pelo arranhar inglesado e a simpatia forçada para os turistas, alheios alguns à vida que se escorre por dentro de outras vidas.
Dois lados da mesma moeda, num mundo onde o dinheiro se sobrepôs ao valor da vida.
Escolho salada de atum sem qualquer alternativa. A funcionária funga um sorriso por baixo dos óculos embaciados e, ao mesmo tempo, grita alto o suficiente para que o pedido entre pelo postigo, ladeado por um papel de parede encardido de pedidos, sebosos, que escorrem asperamente ao longo dos tempos. Pouco tempo depois, a bandeja de metal bate pesadamente no mármore entranhado, o molho de azeite e vinagre saltam por entre o feijão frade, a salsa sacode-se como os cabelos oleosos que conseguem fugir da prisão da touca amarelecida da cozinheira, e tilinta o atum, recém libertado do balde de plástico, com alvas semelhanças com as taínhas que vi à boca do esgoto como loucos saltimbancos em pirâmides humanas lutando pela proximidade dos dejectos.
Como directamente da bandeja, a rapariga leva o prato, limpa-o com o pano que traz à cintura e coloca-o no topo da pilha, deduzo que para mais tarde o entregar a outro cliente. A comida está surpreendentemente boa. Talvez porque, acredito, que o que me alimente agora seja a sala repleta de trabalhadores, alguns envergando ainda os cintos de ferramentas, as calças pintadas com restos de tinta de várias obras, um outro, mais distraído, usa ainda o boné da cor da preferência clubística e prendo o olhar num solitário. Come na ponta da mesa partilhada com outros operários, uma formiga de outro formigueiro, o lápis vermelho espreita a comida preso à sua orelha habituado apenas à textura da madeira ou do gesso. Os feijões, a salsa, a cebola e o tomate seguem o caminho memorizado, são alojados paciente e ordeiramente no prato, o garfo e a faca coreografados sem um tinir, a solenidade de se saber perfeição no meio do confuso caos metafórico e até pleonasmificado. O telemóvel toca, olha o visor e um sorriso floresce, atende-o “Estou? Filho? Como estás campeão? Eu? Eu estou de férias agora, a ver o rio e a comer um petisco. E tu? Já comeste? Não estás a chatear a mãe? Vais para a escola de tarde? Que bom! Aprende muito, para depois me ensinares, está bem? Se te portares bem até te levo uma coisa boa logo!”. Termina a chamada, guarda o telemóvel, desembrulha um guardanapo de papel e, cuidadosamente, retira o atum da bandeja, aperta-o entre o garfo e a faca para que as escorrências azeitadas e avinagradas saiam e, depois, deposita-o no pão aberto com o cuidado de quem deita um filho na cama. Quando o ritual termina, o pão é guardado dentro do casaco, o sorriso nasce e a vida fica um pouco mais perfeita.
Na sala ao lado, decorada com motivos regionais de uma aldeia globalizada, os pedidos são suavizados pelo arranhar inglesado e a simpatia forçada para os turistas, alheios alguns à vida que se escorre por dentro de outras vidas.
Dois lados da mesma moeda, num mundo onde o dinheiro se sobrepôs ao valor da vida.
2018-01-07
A véspera de amanhã
Crónica de domingo, na Bird Magazine.
Resta o sabor das filhoses impregnado nas traves de madeira.
Os barrotes negros da fuligem que ascende ao tecto à boleia das brasas incandescentes, misturadas com sonhos de outrora, nas lágrimas frias invernais das memórias de agora.
As telhas encavalitadas sobre e sob o musgo dos invernos, esquecidos no ressoado daquilo que o céu não quis, parecem a metáfora para o que não queremos acrescentar, o adjectivo que irá encapelar um mar que não sabemos navegar, no aguardo das mãos que as adornem às traves do costeado esqueleto de um corpo que se aguenta apenas porque, uma vez por ano, há momento em que se inspira o que alimenta e sustenta.
Passou-se o Natal, quase uma estação de um só dia na baforada de um cigarro que nem tempo tivemos de acender.
Ficou-lhe na véspera o presente de um dia que se esfuma como o vapor nas lentes quando, com todos ao redor da mesa entre o saboreio da fausta consoada e a recordação do patriarca ausente, saiu da cozinha.
Desandou o ferrolho da velha portada envidraçada, o frio espremia-se contra o vidro para ver melhor e deixava a marca em todos os recantos rectangulares quando a noite se escondia, fugidia, da luz que emanava.
Deitou a mão esquerda à romba e grande pedra côncava, outrora pia baptismal, resquícios de obras eclesiais na freguesia e uma disputa entre homens, bons apenas de dia, molhou as pontas dos dedos e benzeu-se, a água gélida na fronte, uma bolha salgada a crescer nos olhos cansados explode pacificamente e cai aos trambolhões nas rugas, como a enxurrada pacífica de uma tormenta que assome de cada vez que pensamos chover. Afinal, era apenas o sorriso a crescer.
Lá de dentro, pela curiosidade sadia infantil, espreita a criança mais nova que fastidiosamente embrulhava uma longa couve ao redor de uma batata cozida, fazendo divertidos e irregulares percursos sobre o azeite.
Na absorção entre garfadas e consultas periódicas, mas constantes, ao cintilar do led do smartphone, ninguém deu por ela agora, e pela idosa antes, saírem para o pátio descoberto ao coberto da noite de Natal.
A pequena dá-lhe a mão, fita-a e repete a posição de olhar erguido ao firmamento na invariável estrelada natividade, até que o silêncio seja quebrado pela impaciência curiosa de meninice:
- Avó, o que estás a ver?
- Tu e eu.
- Mais nada?
- Não, já só nos sobra o céu.
Resta o sabor das filhoses impregnado nas traves de madeira.
Os barrotes negros da fuligem que ascende ao tecto à boleia das brasas incandescentes, misturadas com sonhos de outrora, nas lágrimas frias invernais das memórias de agora.
As telhas encavalitadas sobre e sob o musgo dos invernos, esquecidos no ressoado daquilo que o céu não quis, parecem a metáfora para o que não queremos acrescentar, o adjectivo que irá encapelar um mar que não sabemos navegar, no aguardo das mãos que as adornem às traves do costeado esqueleto de um corpo que se aguenta apenas porque, uma vez por ano, há momento em que se inspira o que alimenta e sustenta.
Passou-se o Natal, quase uma estação de um só dia na baforada de um cigarro que nem tempo tivemos de acender.
Ficou-lhe na véspera o presente de um dia que se esfuma como o vapor nas lentes quando, com todos ao redor da mesa entre o saboreio da fausta consoada e a recordação do patriarca ausente, saiu da cozinha.
Desandou o ferrolho da velha portada envidraçada, o frio espremia-se contra o vidro para ver melhor e deixava a marca em todos os recantos rectangulares quando a noite se escondia, fugidia, da luz que emanava.
Deitou a mão esquerda à romba e grande pedra côncava, outrora pia baptismal, resquícios de obras eclesiais na freguesia e uma disputa entre homens, bons apenas de dia, molhou as pontas dos dedos e benzeu-se, a água gélida na fronte, uma bolha salgada a crescer nos olhos cansados explode pacificamente e cai aos trambolhões nas rugas, como a enxurrada pacífica de uma tormenta que assome de cada vez que pensamos chover. Afinal, era apenas o sorriso a crescer.
Lá de dentro, pela curiosidade sadia infantil, espreita a criança mais nova que fastidiosamente embrulhava uma longa couve ao redor de uma batata cozida, fazendo divertidos e irregulares percursos sobre o azeite.
Na absorção entre garfadas e consultas periódicas, mas constantes, ao cintilar do led do smartphone, ninguém deu por ela agora, e pela idosa antes, saírem para o pátio descoberto ao coberto da noite de Natal.
A pequena dá-lhe a mão, fita-a e repete a posição de olhar erguido ao firmamento na invariável estrelada natividade, até que o silêncio seja quebrado pela impaciência curiosa de meninice:
- Avó, o que estás a ver?
- Tu e eu.
- Mais nada?
- Não, já só nos sobra o céu.
2017-12-26
Infinitamente infinito
Crónica na Bird Magazine.
Quando o frio surgiu, não havia ponta por onde pegar. A braseira repuxava o frio contra o tecto, o calor amainava o ânimo, mas ainda assim havia a esperança inocente de quem tenta ver no nada o infinitamente infinito. O cheiro a rabanadas era complementado com o barulho do refugar na frigideira, o pousar dos pratos no mármore manchado e o arrastar da mesa para tirar um banco e pendurar, às escondidas, uma pinha de chocolate no pinheirinho, enquanto a criança se entretém no chão da sala, a tecer finas teias de número em número, até encontrar a figura final. Sabia a Natal.
De vez em quando a porta da cozinha é aberta, apura-se o ouvido e olha-se para o relógio, deve ser horas do comboio chegar.
- Já chegou mãe?
A Maria deste presépio sorri, engole a ânsia, volta para dentro e vai ter com o filho, ainda no chão da sala, agora a fazer dos pequenos tacos de madeira pequenas elevações por onde brinca com o carrinho imaculadamente pobre, passa as mãos no avental e, secas e ásperas, afaga-lhe o cabelo.
Ele levanta a cabeça e os olhos pequenos e azuis encontram-se com o rubor da braseira, a cara da mãe atrás da cortina ondulante do calor que se espreme na noite, e ainda que longe das indagações adultas, permite-se questionar que realidade o pariu, a anunciação social que o marcou com nove dígitos ou o amor brasonado de duas almas encarnadas, escancaradas e matrizadas, num pequeno presépio invisível a quem nunca viu?
Na mesa não cabem mais pratos, bolo-rei a transpirar açúcar branco em pó, pequenos pires com filhoses, sonhos, docinhos de bolina, frutos secos, uvas passas, alguma fruta cristalizada, uns rolinhos feitos com queijo, uma caixa de sortido ainda por abrir, uma travessa dividida a meio com leite-creme torrado aqui e ali em forma de coração e, na outra metade, aletria com motivos abstractos e uma estrela cadente tudo desenhado com amor e, também, canela.
A porta abre, a criança levanta a cabeça e o próprio calor parece pausar-se quando o pai entra em casa, o bafo que volita enquanto acalma a respiração, os braços da mulher ao redor do pescoço, o cabelo na testa suada e engordurada que ele, gentilmente, afasta, o beijo na testa e o tocar de lábios, boca na boca, como a reanimação da humanidade. O filho agarra-se à sua perna, enquanto ele, pai, tira o seu gorro e o coloca na cabeça do pequeno que, feliz, se sente homem por vestimenta de adulto.
Não tarda para que a noite passe, a trindade num presépio iluminado por um céu estrelado na admiração salvadora do amor em forma de metáfora. As luzes apagam-se, três corpos deitados na cama de casal, a mulher esgotada pela labuta de um dia feliz dorme, o homem mergulha na lentidão do sono embalado na certeza de um amanhã de descanso e a criança, desperta, ao ver os progenitores dormirem, coloca o gorro do pai, puxa-o para cima dos olhos e enrola os seus deditos nas mãos adultas que o moldaram. Natal é noite de mundos que se amaram.
Quando o frio surgiu, não havia ponta por onde pegar. A braseira repuxava o frio contra o tecto, o calor amainava o ânimo, mas ainda assim havia a esperança inocente de quem tenta ver no nada o infinitamente infinito. O cheiro a rabanadas era complementado com o barulho do refugar na frigideira, o pousar dos pratos no mármore manchado e o arrastar da mesa para tirar um banco e pendurar, às escondidas, uma pinha de chocolate no pinheirinho, enquanto a criança se entretém no chão da sala, a tecer finas teias de número em número, até encontrar a figura final. Sabia a Natal.
De vez em quando a porta da cozinha é aberta, apura-se o ouvido e olha-se para o relógio, deve ser horas do comboio chegar.
- Já chegou mãe?
A Maria deste presépio sorri, engole a ânsia, volta para dentro e vai ter com o filho, ainda no chão da sala, agora a fazer dos pequenos tacos de madeira pequenas elevações por onde brinca com o carrinho imaculadamente pobre, passa as mãos no avental e, secas e ásperas, afaga-lhe o cabelo.
Ele levanta a cabeça e os olhos pequenos e azuis encontram-se com o rubor da braseira, a cara da mãe atrás da cortina ondulante do calor que se espreme na noite, e ainda que longe das indagações adultas, permite-se questionar que realidade o pariu, a anunciação social que o marcou com nove dígitos ou o amor brasonado de duas almas encarnadas, escancaradas e matrizadas, num pequeno presépio invisível a quem nunca viu?
Na mesa não cabem mais pratos, bolo-rei a transpirar açúcar branco em pó, pequenos pires com filhoses, sonhos, docinhos de bolina, frutos secos, uvas passas, alguma fruta cristalizada, uns rolinhos feitos com queijo, uma caixa de sortido ainda por abrir, uma travessa dividida a meio com leite-creme torrado aqui e ali em forma de coração e, na outra metade, aletria com motivos abstractos e uma estrela cadente tudo desenhado com amor e, também, canela.
A porta abre, a criança levanta a cabeça e o próprio calor parece pausar-se quando o pai entra em casa, o bafo que volita enquanto acalma a respiração, os braços da mulher ao redor do pescoço, o cabelo na testa suada e engordurada que ele, gentilmente, afasta, o beijo na testa e o tocar de lábios, boca na boca, como a reanimação da humanidade. O filho agarra-se à sua perna, enquanto ele, pai, tira o seu gorro e o coloca na cabeça do pequeno que, feliz, se sente homem por vestimenta de adulto.
Não tarda para que a noite passe, a trindade num presépio iluminado por um céu estrelado na admiração salvadora do amor em forma de metáfora. As luzes apagam-se, três corpos deitados na cama de casal, a mulher esgotada pela labuta de um dia feliz dorme, o homem mergulha na lentidão do sono embalado na certeza de um amanhã de descanso e a criança, desperta, ao ver os progenitores dormirem, coloca o gorro do pai, puxa-o para cima dos olhos e enrola os seus deditos nas mãos adultas que o moldaram. Natal é noite de mundos que se amaram.
2017-12-08
Até já!
Crónica do Nada, no Correio do Porto, porque a vida é sempre um até já (ou daqui a ontem).
O balcão tem alguns pontos um pouco pegajosos, talvez do
hábito de rasparem o platinado que separa a sorte do azar, dos fundos dos copos
de fino ou dos sujos. A mão grande, calosa, seivosa, aberta como uma ruga
imensa no negro granito, bate uma única vez como o vociferado pregão,
respeitoso e respeitador. Eu tomava o café sem pressas, virando-me lentamente
como se algo na televisão me interessasse, apenas para os ver. A dupla
septuagenária com setentas dos antigos, onde os anos curvados valiam como uma
arrastada enxada no final da tarde, quando as leiras se recolhiam e os repolhos
aspiravam o fresco final do dia e do postigo, ao longe, se ouvia o debulhado
chamado da patroa, aquecido pelo caldo de nabos (e aqui a ficção recolhe-se
para dar passagem à degustação do cronicador). Setenta destes valem-me oitenta
no tempo quente e um centenário fresco nas tarde curtas do Inverno.
A boina no cabide, a cabeça alva, as mãos dentro do casaco
negro e os ombros encolhidos, como uma resposta sempre presente à própria vida,
um bom e velho – Que se foda e me desculpem a língua – Ria-se, obviamente, a
clientela. Já o conhecem pelo feitio rombudo e para aquecer o ambiente lá lhe
lançam o desafio de responder a coisas sem resposta, como quando lhe falam
sobre o futebol, a política, o tempo e as demais futilidades.
– Decidam-se sobre o que se querem queixar e deixem-me em
paz. – Em pé, sobre a grade de alumínio que separa o patamar azulejado onde se
sentam as pequenas famílias ao domingo, lê as gordas e negras letras do jornal
que outro velho desfolha. Acaba-se a leitura, o jornal não se fecha para não se
perder a vez, é passado de mão para mão como o testemunho da curiosidade de
saber o que andou o mundo a fazer no dia anterior. Foi assim que aprendi, pela
voz dele, que “notícias de hoje só quando o sino toca e avisa que alguém
morreu, as outras já nos chegam depois de meia volta ao mundo”.
Uma vez, apenas uma, antes de ter o jornal na mão, a voz
roufenha para disfarçar o embaraço diz – Empresta-me os teus óculos, deixei os
meus em casa. – Num encorrilhar do nariz, com as hastes metálicas estranhando a
face, deitou o olhar rápido para a necrologia franzindo os sobrolhos para
adaptar as letras na córnea e num instante ficou a saber quem ontem, sem que o
sino avisasse, tinha morrido. E, assim, fica-se mais vivo, porque "os
outros foram, mas eu não", paga o pingo, pisca-me o olho e "vou ver o
que a patroa meteu no caldo". Quando coloca a boina sobre os ralos cabelos
grisalhos não consigo deixar de pensar no quão perto também ele está daquela
página do jornal.
Já de costas, antes de fechar a porta castanha do café,
larga o tradicional
– Até já!
Passados dias ouço o sino, olho o relógio, não eram horas
certas por isso representava apenas que a morte tinha chegado e na sua exatidão
bramia a campânula deixando cair pétalas de ferrugem. Na mesma tarde, retomo o
café e sei-o, porque o sino repenica mas não fala, tinha morrido aquele que
pediu óculos para ver quem tinha morrido e como se pudesse ouvi-lo rir e
vociferar por certamente não ter direito a caldo de nabos, nem precisar de
óculos para ver que estava morto, pisco o olho para o vazio e digo-lhe também
2017-12-07
Entre a vida
e as oitavas
quem te conduz?
Que braço oscila
pendendo
entre o iluminado e a luz?
Uma nota acima
entre o passado e o futuro,
quem te canta? quem te rima?
Vai pautando,
sorriso em cara cheia,
nos intrínsecos de um coreto brando
a placidez de uma nota que se quer ameia.
Vai, caminhando,
partindo,
chegando enfim,
a existência não ascende
é esta espécie de colcheia que pende,
pedindo,
o conceito inacabado
que a conduza fora dos limites do limbo.
e as oitavas
quem te conduz?
Que braço oscila
pendendo
entre o iluminado e a luz?
Uma nota acima
entre o passado e o futuro,
quem te canta? quem te rima?
Vai pautando,
sorriso em cara cheia,
nos intrínsecos de um coreto brando
a placidez de uma nota que se quer ameia.
Vai, caminhando,
partindo,
chegando enfim,
a existência não ascende
é esta espécie de colcheia que pende,
pedindo,
o conceito inacabado
que a conduza fora dos limites do limbo.
2017-11-26
Com eira, sem beira
Crónica de domingo, na Bird Magazine.
Curva contra curva, as retas sucedem-se também tortas, o pequeno-almoço bamboleia desprotegido no estômago e começo a pensar se não será desta vez a primeira em que irei ficar mal disposto ao volante. Paro no que seria suposto ser um miradouro, o chão calcetado apresenta fosseis de folhas de eucalipto e memórias de quem por lá parou, acredito que em noites mais sombrias e frias, onde a cegueira do amor possa ver o que dois corpos jovens, ávidos, têm a dizer um ao outro.
Não satisfeito com o local arranco, mais uma mão cheia de curvas e encontro o local perfeito. O Sol irá em breve transformar o granito dos bancos em solarengo repouso, desligo o carro, abra a porta e rio-me da estupidez habitual em tentar sair do carro sem desapertar o cinto. Já sem cinto, física e homofonicamente, espreguiço-me com o à vontade de saber que ninguém está a ver. Ao fundo o Douro serpenteia, com mais ou menos sede, alheio às vontades de quem o navega sem valorizar a corrente de quem rio nunca se sente. Como previ, o Sol está agora a sair por detrás dos eucaliptos. Atrás de mim, mais acima, a encosta dourada em ocre queimada rivaliza com o vazio a tristeza, o chão negro lembra-me o chão negro e por isso mesmo entristeço-me. Debruço-me sem muita preocupação sobre o gradeado esverdeado, tenho que o fazer para fugir à sombra que a placa de um qualquer fundo europeu espalha.
É ali que vejo o telhado, à minha direita, do que me parece ser uma palheiro ou eira. Deito um olhar ao carro, adormeceu, acredito que cansado da música que lhe dou a ouvir e do trajecto irregular pelo qual o faço rodar (talvez assim saiba o que é ser-se eu). Alço-me sobre a grade e vou descendo, umas vezes com o cú, o carreiro cheio de folhas ainda molhadas. Acabo por parar com os pés na lousa, onde já uns riscos de luz ganham eira, sacudo as mãos e fico parado, ofegante, sem saber como subirei o caminho de volta. Ou se o quero fazer.
Alguém parece ter transformado o palheiro em casa, se ainda por cá mora não sei. Alto de mais para um piso, baixo de mais para dois, caminho em direção à porta e o ferrolho de madeira abre-se sem que o alavanque. Cheira a vazio e a vida. Umas calças estendidas sobre o resto de um braseiro.
Há espaço suficiente para o que se leva connosco quando decidimos ser fumo. O quarto fica no baixo primeiro piso, em cima de uma barra de batatas, a cadeira com restos de roupa balança tristemente ao ritmo do meu olhar. A janela é apenas um bocado do telhado sem telhas, permite ver o céu estrelado e deverá ser o despertador de todos os dias, tardio agora que amanhece depois da hora. Uma palete improvisa biblioteca e vários livros fitam-me, ensonados. Só depois o vi, ao canto, entorpecido, a dormir sob uma espécie de bata azul, escura, de trabalho. E ali tudo fez sentido, para mim, quando os meus olhos fecharam abriram-se os livros, e as letras acolheram-no. O colchão transformou-se em folhas, depois em letras que, volitando, o levaram a um céu que nunca ninguém conseguiu escrever.
Curva contra curva, as retas sucedem-se também tortas, o pequeno-almoço bamboleia desprotegido no estômago e começo a pensar se não será desta vez a primeira em que irei ficar mal disposto ao volante. Paro no que seria suposto ser um miradouro, o chão calcetado apresenta fosseis de folhas de eucalipto e memórias de quem por lá parou, acredito que em noites mais sombrias e frias, onde a cegueira do amor possa ver o que dois corpos jovens, ávidos, têm a dizer um ao outro.
Não satisfeito com o local arranco, mais uma mão cheia de curvas e encontro o local perfeito. O Sol irá em breve transformar o granito dos bancos em solarengo repouso, desligo o carro, abra a porta e rio-me da estupidez habitual em tentar sair do carro sem desapertar o cinto. Já sem cinto, física e homofonicamente, espreguiço-me com o à vontade de saber que ninguém está a ver. Ao fundo o Douro serpenteia, com mais ou menos sede, alheio às vontades de quem o navega sem valorizar a corrente de quem rio nunca se sente. Como previ, o Sol está agora a sair por detrás dos eucaliptos. Atrás de mim, mais acima, a encosta dourada em ocre queimada rivaliza com o vazio a tristeza, o chão negro lembra-me o chão negro e por isso mesmo entristeço-me. Debruço-me sem muita preocupação sobre o gradeado esverdeado, tenho que o fazer para fugir à sombra que a placa de um qualquer fundo europeu espalha.
É ali que vejo o telhado, à minha direita, do que me parece ser uma palheiro ou eira. Deito um olhar ao carro, adormeceu, acredito que cansado da música que lhe dou a ouvir e do trajecto irregular pelo qual o faço rodar (talvez assim saiba o que é ser-se eu). Alço-me sobre a grade e vou descendo, umas vezes com o cú, o carreiro cheio de folhas ainda molhadas. Acabo por parar com os pés na lousa, onde já uns riscos de luz ganham eira, sacudo as mãos e fico parado, ofegante, sem saber como subirei o caminho de volta. Ou se o quero fazer.
Alguém parece ter transformado o palheiro em casa, se ainda por cá mora não sei. Alto de mais para um piso, baixo de mais para dois, caminho em direção à porta e o ferrolho de madeira abre-se sem que o alavanque. Cheira a vazio e a vida. Umas calças estendidas sobre o resto de um braseiro.
Há espaço suficiente para o que se leva connosco quando decidimos ser fumo. O quarto fica no baixo primeiro piso, em cima de uma barra de batatas, a cadeira com restos de roupa balança tristemente ao ritmo do meu olhar. A janela é apenas um bocado do telhado sem telhas, permite ver o céu estrelado e deverá ser o despertador de todos os dias, tardio agora que amanhece depois da hora. Uma palete improvisa biblioteca e vários livros fitam-me, ensonados. Só depois o vi, ao canto, entorpecido, a dormir sob uma espécie de bata azul, escura, de trabalho. E ali tudo fez sentido, para mim, quando os meus olhos fecharam abriram-se os livros, e as letras acolheram-no. O colchão transformou-se em folhas, depois em letras que, volitando, o levaram a um céu que nunca ninguém conseguiu escrever.
Por encomenda... "poesia à medida"
Ontem
quando te nascia o amanhã
dei às letras o futuro enrubescido,
porque a cada sorriso ensinado
surge um ocaso feliz agora
que, pacificamente, se faz passado,
e não que te pertençam as horas,
mas porque o tempo
o teu infinito
é meu porto seguro
onde (em mim) moras.
***
Deus
em teus braços deposito os meus,
saídos do ocaso às madrugadas que sorvo
quero-me às sombras que urdem pelo fim
protegendo-os ao Inverno
Pai
que chova só em mim.
E neste dia que se abre ao mundo
benze-me tarde esta tarde na recordação
de meu ventre a homem
terá sido apenas um segundo?
Agora, nos teus olhos brilho
e os meus que levanto ao céu
digo, filho,
toma este caminho, é teu.
***
Não se cansam arfantes as palavras
onde joga o destino,
numa vida sem errantes amaras
no limite onde não sucumbe o início
o tempo que passo comigo
chama à noite pela companhia,
um amigo.
Queiram-me as mãos que outras mãos vencem
e dias longos onde se espreguice calmamente a noite
quando a vida em ti se avizinha
há toda essa felicidade
tua
mas também minha.
***
Levo comigo as mãos no olhar,
no abraço dado ao vazio
não amado
há um encontro em mim com a vida
o desejo de me fazer lar.
A noite lentamente sorvida pelas luzes fugidias
sai no regaço
escondida
com risos e cumplicidade de quem mora nos meus dias.
Brindo ao cansaço e esqueço a loucura do labor
hoje mora apenas, em nós, o amor que ecoou
e nesse feliz retrato onde me levo comigo
há o sonho que também estou
e onde vos me estendo como abrigo.
quando te nascia o amanhã
dei às letras o futuro enrubescido,
porque a cada sorriso ensinado
surge um ocaso feliz agora
que, pacificamente, se faz passado,
e não que te pertençam as horas,
mas porque o tempo
o teu infinito
é meu porto seguro
onde (em mim) moras.
***
Deus
em teus braços deposito os meus,
saídos do ocaso às madrugadas que sorvo
quero-me às sombras que urdem pelo fim
protegendo-os ao Inverno
Pai
que chova só em mim.
E neste dia que se abre ao mundo
benze-me tarde esta tarde na recordação
de meu ventre a homem
terá sido apenas um segundo?
Agora, nos teus olhos brilho
e os meus que levanto ao céu
digo, filho,
toma este caminho, é teu.
***
Não se cansam arfantes as palavras
onde joga o destino,
numa vida sem errantes amaras
no limite onde não sucumbe o início
o tempo que passo comigo
chama à noite pela companhia,
um amigo.
Queiram-me as mãos que outras mãos vencem
e dias longos onde se espreguice calmamente a noite
quando a vida em ti se avizinha
há toda essa felicidade
tua
mas também minha.
***
Levo comigo as mãos no olhar,
no abraço dado ao vazio
não amado
há um encontro em mim com a vida
o desejo de me fazer lar.
A noite lentamente sorvida pelas luzes fugidias
sai no regaço
escondida
com risos e cumplicidade de quem mora nos meus dias.
Brindo ao cansaço e esqueço a loucura do labor
hoje mora apenas, em nós, o amor que ecoou
e nesse feliz retrato onde me levo comigo
há o sonho que também estou
e onde vos me estendo como abrigo.
2017-11-12
Inexistência
Crónica de domingo, na Bird Magazine.
A tarde vai-se cedo para que a noite de inverno, ainda que outonal, traga a matiz oblíqua do distante astro e me faça perder uns segundos a apreciar as partículas de pó que volitam no vazio, cada vez mais vazio, que permeia o que sou e o que me rodeia. No nada, há espaço para mais algum inexistente?
Antes de subir o ocupar o espaço, um pouco como se me deslocasse por entre um fluído que se torna mais espesso à medida que envelhecemos, ou a paciência se nos esgota, vejo a mesma sombra de outrora, agora mais senhora de si, encostada às paredes velhas da oficina velha, aos meus olhos talvez sombrios, por isso velhos.
Nas mãos, depois de as sacudir sobra o cheiro a verniz, os dedos algo sujos percorrem algumas teclas cegas e gastas, as mesmas que mais primo quando digito. Será que temos partes igualmente gastas, nos locais onde a vida nos prime?
O Outono espreguiça as nocturnidades e obriga a luz adormecida a acordar cada vez mais cedo. Cá entre nós, nada disto incomoda, apenas o divagar me deixa um pouco inquietado pela tendência borboleteadora do meu pensamento, mas como poderei manter uma sequência lógica quando ao meu lado direito, sobre um velho pano de cozinha com padrões desusados e cores desnudadas estende-se o sabor ameno de um chã quente na cerâmica vidrada de uma caneca, cuja peculiaridade é ter uma seta no sentido ascendente, não fosse eu esquecer-me onde colocar os lábios gretados. Mas, como referi, nada disto apoquenta até porque não vou ler isto. Nem tu.
Tiro a gorjeta do bolso, logo pago eu as castanhas. O ritual repete-se, tenha eu 11 ou 41 anos, depois de um dia de trabalho a lazer que se compacta em duas ou três horas, entre embrulhar (ou encelofanar), carregar, acomodar e proteger, rir e praguejar não necessariamente nesta ordem, percorrer uns quantos metros que converto em quilómetros para a distância parecer menor, passar em terras cujo nome não decoro para me deliciar mais tarde, quando vir novamente as placas na estrada, com a estranha nomenclatura atribuída ao lugar ou freguesia.
Para trás ficaram os olhares dos esplanadeiros do café, o sorriso desdentado da senhora que me saúda e se desculpa “se tivesse saúde ajudava-o a levar isso”, o ingrime carreiro e o suor escorrido, as lentes embacias, a roupa colada ao corpo. Ficaram ainda a trindade menina senhora avó mais nova que eu, o pequeno que espreita por detrás das próprias mãos “já acabou o barulho?”, o chão deformado e os pequenos e brincalhões gatos que teimam em subir-me pelas pernas acima, agarrados com aquelas afiadas agulhetas a que chamam garras. O caminho mostra-me uma velha casa de pedra, um espigueiro que cobiço e meço mentalmente, caberei eu lá?
Por entre folhagem ocre de um incêndio, uma senhora sorridente carrega uma criança que parece apontar para as cinco ovelhas pintalgadas que pastam no verde socalco abaixo, alheias ao mundo, talvez porque saibam que até este se carrega já cansado, por nós moribundo.
A tarde vai-se cedo para que a noite de inverno, ainda que outonal, traga a matiz oblíqua do distante astro e me faça perder uns segundos a apreciar as partículas de pó que volitam no vazio, cada vez mais vazio, que permeia o que sou e o que me rodeia. No nada, há espaço para mais algum inexistente?
Antes de subir o ocupar o espaço, um pouco como se me deslocasse por entre um fluído que se torna mais espesso à medida que envelhecemos, ou a paciência se nos esgota, vejo a mesma sombra de outrora, agora mais senhora de si, encostada às paredes velhas da oficina velha, aos meus olhos talvez sombrios, por isso velhos.
Nas mãos, depois de as sacudir sobra o cheiro a verniz, os dedos algo sujos percorrem algumas teclas cegas e gastas, as mesmas que mais primo quando digito. Será que temos partes igualmente gastas, nos locais onde a vida nos prime?
O Outono espreguiça as nocturnidades e obriga a luz adormecida a acordar cada vez mais cedo. Cá entre nós, nada disto incomoda, apenas o divagar me deixa um pouco inquietado pela tendência borboleteadora do meu pensamento, mas como poderei manter uma sequência lógica quando ao meu lado direito, sobre um velho pano de cozinha com padrões desusados e cores desnudadas estende-se o sabor ameno de um chã quente na cerâmica vidrada de uma caneca, cuja peculiaridade é ter uma seta no sentido ascendente, não fosse eu esquecer-me onde colocar os lábios gretados. Mas, como referi, nada disto apoquenta até porque não vou ler isto. Nem tu.
Tiro a gorjeta do bolso, logo pago eu as castanhas. O ritual repete-se, tenha eu 11 ou 41 anos, depois de um dia de trabalho a lazer que se compacta em duas ou três horas, entre embrulhar (ou encelofanar), carregar, acomodar e proteger, rir e praguejar não necessariamente nesta ordem, percorrer uns quantos metros que converto em quilómetros para a distância parecer menor, passar em terras cujo nome não decoro para me deliciar mais tarde, quando vir novamente as placas na estrada, com a estranha nomenclatura atribuída ao lugar ou freguesia.
Para trás ficaram os olhares dos esplanadeiros do café, o sorriso desdentado da senhora que me saúda e se desculpa “se tivesse saúde ajudava-o a levar isso”, o ingrime carreiro e o suor escorrido, as lentes embacias, a roupa colada ao corpo. Ficaram ainda a trindade menina senhora avó mais nova que eu, o pequeno que espreita por detrás das próprias mãos “já acabou o barulho?”, o chão deformado e os pequenos e brincalhões gatos que teimam em subir-me pelas pernas acima, agarrados com aquelas afiadas agulhetas a que chamam garras. O caminho mostra-me uma velha casa de pedra, um espigueiro que cobiço e meço mentalmente, caberei eu lá?
Por entre folhagem ocre de um incêndio, uma senhora sorridente carrega uma criança que parece apontar para as cinco ovelhas pintalgadas que pastam no verde socalco abaixo, alheias ao mundo, talvez porque saibam que até este se carrega já cansado, por nós moribundo.
2017-11-07
Meia regueifa e uma vida inteira
“Meia regueifa e uma vida inteira”, crónica do nada, no Correio do Porto.
Com o tempo chuvoso não me parece que isto se possa chamar andar a pé ou caminhar, vou simplesmente a navegar pela rua abaixo, vendo entretido pequenos regatos que se formam nas bermas limpas de folhas de sobreiros, caruma e restos de tonas de eucaliptos.
O aumento do caudal faz a água soltar-se do leito rugoso do cimento, desfrutando da liberdade líquida, correndo livre pela estrada e arrefecendo o negro alcatroado caminho, molhando-me os calcanhares. A continuar assim transbordo-me.
Na entrada de uma garagem, sob um oleado esverdeado, dois jovens aninhados e protegidos da chuva, mas não do duro labor, martelam graniticamente os cubos que se encolhem e aconchegam na areia fina, criando solo sobre o chão.
O saco de pano, bege, com um motivo floral bordado, vai encostado ao peito enquanto a mão que lateja o calor interno de me sentir água na chuva tenta manter o guarda-chuva com a inclinação perfeita. Quando o plano se desinclina e entro no pequeno largo de paralelos, já me sinto molhado, com frio, as lentes embaciadas e o sorriso meio afogado. Ao fundo o cruzeiro esconde-se atrás da fé, a pedra molhada não cabe em si de contente e tudo o mais no horizonte é um retrato difuso de água que parece brotar de todos os cantos da atmosfera. Chove ou sou eu que chovo?
Abrando o passo, olho mais lentamente para o largo, imagino os dias de feira grande e eu pequeno, a imaginar quais as caixas de sapato com paralelos escondidos na tentativa de provocar umas gargalhadas a putos escondidos atrás de algum plátano.
Entro na padaria, o cheiro quente a farinha ascendida e crosta amarelada, no pão gretado, dá-me um consolo antevisto de sentir derreter-se na boca os nacos de vida construídos pelo maior poeta do mundo.
Atiro com cuidado alguns bons dias a quem sentado se espreguiça da vida nesta manhã molhada e fria, aquecendo o mundo na forma de uma meia de leite, um café, um olhar atrevido para um queque de chocolate ou um navio de coco. Tenho dificuldade em perceber que já se passaram uns 30 ou mais anos, que o meu corpo é um adulto a envelhecer a olhar ainda por olhos de criança para quem me habituei a ver já velho.
Dão-me o pão e pago, meia regueifa e uma vida inteira. Deveria ter pagado mais apenas pelas recordações. Parece-me agora mais simples viver com o pouco que tenho, qualquer moeda dá-me acesso a uma volta na feira das recordações, a reviver montras, adultos que andavam de bicicleta ao contrário, velhas senhoras que me davam o troco em caramelos.
Recolho o troco e os até mais logo e saio porta fora, cheio da coragem que não tenho, ganha-me a dificuldade em perceber o tempo e o momento, seremos um ou outro, e se não ambos pelo menos nada do que sermos o que seremos.
Sim, chove. Paro os momentos necessários para comer um bocado da regueifa, ainda quente, sob o guarda-chuva, entretido a ver as pessoas que já cá não estão por entre as gotas de água que chovem nos meus olhos.
Com o tempo chuvoso não me parece que isto se possa chamar andar a pé ou caminhar, vou simplesmente a navegar pela rua abaixo, vendo entretido pequenos regatos que se formam nas bermas limpas de folhas de sobreiros, caruma e restos de tonas de eucaliptos.
O aumento do caudal faz a água soltar-se do leito rugoso do cimento, desfrutando da liberdade líquida, correndo livre pela estrada e arrefecendo o negro alcatroado caminho, molhando-me os calcanhares. A continuar assim transbordo-me.
Na entrada de uma garagem, sob um oleado esverdeado, dois jovens aninhados e protegidos da chuva, mas não do duro labor, martelam graniticamente os cubos que se encolhem e aconchegam na areia fina, criando solo sobre o chão.
O saco de pano, bege, com um motivo floral bordado, vai encostado ao peito enquanto a mão que lateja o calor interno de me sentir água na chuva tenta manter o guarda-chuva com a inclinação perfeita. Quando o plano se desinclina e entro no pequeno largo de paralelos, já me sinto molhado, com frio, as lentes embaciadas e o sorriso meio afogado. Ao fundo o cruzeiro esconde-se atrás da fé, a pedra molhada não cabe em si de contente e tudo o mais no horizonte é um retrato difuso de água que parece brotar de todos os cantos da atmosfera. Chove ou sou eu que chovo?
Abrando o passo, olho mais lentamente para o largo, imagino os dias de feira grande e eu pequeno, a imaginar quais as caixas de sapato com paralelos escondidos na tentativa de provocar umas gargalhadas a putos escondidos atrás de algum plátano.
Entro na padaria, o cheiro quente a farinha ascendida e crosta amarelada, no pão gretado, dá-me um consolo antevisto de sentir derreter-se na boca os nacos de vida construídos pelo maior poeta do mundo.
Atiro com cuidado alguns bons dias a quem sentado se espreguiça da vida nesta manhã molhada e fria, aquecendo o mundo na forma de uma meia de leite, um café, um olhar atrevido para um queque de chocolate ou um navio de coco. Tenho dificuldade em perceber que já se passaram uns 30 ou mais anos, que o meu corpo é um adulto a envelhecer a olhar ainda por olhos de criança para quem me habituei a ver já velho.
Dão-me o pão e pago, meia regueifa e uma vida inteira. Deveria ter pagado mais apenas pelas recordações. Parece-me agora mais simples viver com o pouco que tenho, qualquer moeda dá-me acesso a uma volta na feira das recordações, a reviver montras, adultos que andavam de bicicleta ao contrário, velhas senhoras que me davam o troco em caramelos.
Recolho o troco e os até mais logo e saio porta fora, cheio da coragem que não tenho, ganha-me a dificuldade em perceber o tempo e o momento, seremos um ou outro, e se não ambos pelo menos nada do que sermos o que seremos.
Sim, chove. Paro os momentos necessários para comer um bocado da regueifa, ainda quente, sob o guarda-chuva, entretido a ver as pessoas que já cá não estão por entre as gotas de água que chovem nos meus olhos.
Apoio-me ao lavradio
o calor da terra desenterra a manhã
Outonalmente acastanho-me de castanheiro
enquanto não me sobro ao braseiro,
estou longe ti
Inverno
companheiro.
Greto os lábios do frio,
quando me vestem de nada
sacio a morte pela madrugada
e faço-me homem
ou ermo,
damos todos ao mesmo.
Agora que surge o ocaso
o Sol espreguiça-se a Oeste,
não consigo ser-me outro
aquele
ou este,
porque de mim ao infinito há uma dízima
e nela a sequência espiral
do Deus que lavro,
acima do bem
e do mal.
o calor da terra desenterra a manhã
Outonalmente acastanho-me de castanheiro
enquanto não me sobro ao braseiro,
estou longe ti
Inverno
companheiro.
Greto os lábios do frio,
quando me vestem de nada
sacio a morte pela madrugada
e faço-me homem
ou ermo,
damos todos ao mesmo.
Agora que surge o ocaso
o Sol espreguiça-se a Oeste,
não consigo ser-me outro
aquele
ou este,
porque de mim ao infinito há uma dízima
e nela a sequência espiral
do Deus que lavro,
acima do bem
e do mal.
2017-10-30
Na escarpada nesga
do papel
manuscrevo o horizonte
onde formo relevos, a cinzel,
com o olhar não vergado
em que me fujo,
evado
a monte
sem me encobrir a cidade,
longa nuvem na sombra
curta
meu corpo habitado por mim
ainda luta apraz
para que no sossego inaudito
dos dias que não existem
eu me veja nublado,
em paz.
do papel
manuscrevo o horizonte
onde formo relevos, a cinzel,
com o olhar não vergado
em que me fujo,
evado
a monte
sem me encobrir a cidade,
longa nuvem na sombra
curta
meu corpo habitado por mim
ainda luta apraz
para que no sossego inaudito
dos dias que não existem
eu me veja nublado,
em paz.
2017-10-29
Enxertia
Crónica de domingo, na Bird Magazine.
As uvas que ficaram para o podador pendem mutiladas de ferroadas agrestes, da vida e das abelhas, ébrias também de zunidos que mais ninguém escuta.acre odor das intrusas americanas encosta-se à tristeza de um Outono confundido, onde todos se queixam do queixume, sem permitirem ao azedume avinagrar na exacta medida do incorrecto, engolindo indiferentes as tragédias entre duas garfadas. O tempo de vindimar passou há muito, as folhas alaranjadas e avermelhadas aveludam o chão de pedras toscamente assentadas. Há um percurso aberto em par pelo portão de madeira que se vai desprendendo das chumbeiras e o musgo verde pacientemente aguarda a chegada do orvalho da manhã seguinte.
Chama-me à atenção a existência de um simples e alvo carrinho de bebé à entrada do pequeno carreiro. Faço por estacionar uns metros à frente e vejo a criança acompanhar o percurso com o ligeiro virar da cabeça, enquanto lhe cai das mãos o brinquedo simples e vulgar. Uma mão surge, suja, escura pelo ruborizado suco que cai quando as uvas, gordas, fartas, se esborracham em sentidos ao toque das mãos virginais de quem é pobre, bom, simples e, por isso, rico. A mão apanha o brinquedo que é soprado e colocado no colo da criança, sorridente, sem desviar olhar e ranho que brilha na minha direcção.
Vejo umas escadas de madeira, o homem e a mulher quase indistinguíveis no género sob as vestes sujas simples e divinais de quem labuta o que Deus dá. Percebo algumas folhas no caminho, soltas das solas de quem percorre os poucos metros entre o carreiro e a carrinha de caixa aberta, com uma jovem adolescente sentada no taipal, onde aguardam cestos e gigas abertas, de plástico e de vime, com letras marcadas, pintadas, na inocência caligráfica de quem aprendeu a escrever da própria vida.
Vindima-se escada acima e escada abaixo, sobe-se e desce-se os degraus de madeira escorregadia, peganhentos. Faço de conta que leio algo depois de disfarçar a minha presença com um telefonema fictício onde articulo uma conversa imaginária comigo mesmo. O bebé parece preferir o movimento dos, imagino, seus pais e facilmente se esquece de mim. De vez em quando o adolescente na carrinha assobia e o bebé sorri na sua direcção, familiarizado com o som e o amor que o mesmo parece fazer vibrar mecanicamente o ar que os separam. O homem ergue um cesto, grande e pesado, a mulher limpa o cabelo da fronte com as costas da mão enquanto sorri para o bebé, a adolescente recebe o cesto do pai e orienta-o para uma das gigas vazias, afagando depois o dorido ombro do pai, num bálsamo que só o toque de quem em ama consegue massajar.
Não faz sentido esta vindima, tardia, neste fim de manhã quente. Há quem diga que isto traz o diabo no ventre! Mas vejo agora que o divino está acima do bem e do mal, a vida tem planos não coplanares para cada órbita dos átomos que me compõem e eu, que até ali pouco sorria, vejo-me no retrovisor e percebo que a alegria me fez, no olhar, uma enxertia.
As uvas que ficaram para o podador pendem mutiladas de ferroadas agrestes, da vida e das abelhas, ébrias também de zunidos que mais ninguém escuta.acre odor das intrusas americanas encosta-se à tristeza de um Outono confundido, onde todos se queixam do queixume, sem permitirem ao azedume avinagrar na exacta medida do incorrecto, engolindo indiferentes as tragédias entre duas garfadas. O tempo de vindimar passou há muito, as folhas alaranjadas e avermelhadas aveludam o chão de pedras toscamente assentadas. Há um percurso aberto em par pelo portão de madeira que se vai desprendendo das chumbeiras e o musgo verde pacientemente aguarda a chegada do orvalho da manhã seguinte.
Chama-me à atenção a existência de um simples e alvo carrinho de bebé à entrada do pequeno carreiro. Faço por estacionar uns metros à frente e vejo a criança acompanhar o percurso com o ligeiro virar da cabeça, enquanto lhe cai das mãos o brinquedo simples e vulgar. Uma mão surge, suja, escura pelo ruborizado suco que cai quando as uvas, gordas, fartas, se esborracham em sentidos ao toque das mãos virginais de quem é pobre, bom, simples e, por isso, rico. A mão apanha o brinquedo que é soprado e colocado no colo da criança, sorridente, sem desviar olhar e ranho que brilha na minha direcção.
Vejo umas escadas de madeira, o homem e a mulher quase indistinguíveis no género sob as vestes sujas simples e divinais de quem labuta o que Deus dá. Percebo algumas folhas no caminho, soltas das solas de quem percorre os poucos metros entre o carreiro e a carrinha de caixa aberta, com uma jovem adolescente sentada no taipal, onde aguardam cestos e gigas abertas, de plástico e de vime, com letras marcadas, pintadas, na inocência caligráfica de quem aprendeu a escrever da própria vida.
Vindima-se escada acima e escada abaixo, sobe-se e desce-se os degraus de madeira escorregadia, peganhentos. Faço de conta que leio algo depois de disfarçar a minha presença com um telefonema fictício onde articulo uma conversa imaginária comigo mesmo. O bebé parece preferir o movimento dos, imagino, seus pais e facilmente se esquece de mim. De vez em quando o adolescente na carrinha assobia e o bebé sorri na sua direcção, familiarizado com o som e o amor que o mesmo parece fazer vibrar mecanicamente o ar que os separam. O homem ergue um cesto, grande e pesado, a mulher limpa o cabelo da fronte com as costas da mão enquanto sorri para o bebé, a adolescente recebe o cesto do pai e orienta-o para uma das gigas vazias, afagando depois o dorido ombro do pai, num bálsamo que só o toque de quem em ama consegue massajar.
Não faz sentido esta vindima, tardia, neste fim de manhã quente. Há quem diga que isto traz o diabo no ventre! Mas vejo agora que o divino está acima do bem e do mal, a vida tem planos não coplanares para cada órbita dos átomos que me compõem e eu, que até ali pouco sorria, vejo-me no retrovisor e percebo que a alegria me fez, no olhar, uma enxertia.
2017-10-20
Embaraço-me
enlaçando nas mãos as palavras
aquelas que não proferi,
"aguarda pela chuva"
conforta-me a vinda na pachorrenta desdita,
mas o montado ali tão perto
o pasto a quem basta as abelhas e o mel
de quem me vale um deserto
a tela, a paleta, o pincel?
As fiteiras do podador pendem na ramada,
abandonada,
na espera espaçada de um baldio
invisível,
como o uivo solitário da monda,
na nudez dos torrões sob o céu.
Como eu.
enlaçando nas mãos as palavras
aquelas que não proferi,
"aguarda pela chuva"
conforta-me a vinda na pachorrenta desdita,
mas o montado ali tão perto
o pasto a quem basta as abelhas e o mel
de quem me vale um deserto
a tela, a paleta, o pincel?
As fiteiras do podador pendem na ramada,
abandonada,
na espera espaçada de um baldio
invisível,
como o uivo solitário da monda,
na nudez dos torrões sob o céu.
Como eu.
2017-10-19
Cansado
encosta-se a mim o dia,
as estradas molhadas da secura
e as leiras escondidas
de tudo o que me ardia,
vem lesta a colhedura
germinados os joios entre margaridas
quer-se o aroma a vida fria
ou qualquer outras solitária fiança,
por entre o montado e o meu timbre
calado
nem o destino me alcança.
encosta-se a mim o dia,
as estradas molhadas da secura
e as leiras escondidas
de tudo o que me ardia,
vem lesta a colhedura
germinados os joios entre margaridas
quer-se o aroma a vida fria
ou qualquer outras solitária fiança,
por entre o montado e o meu timbre
calado
nem o destino me alcança.
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