Embaraço-me
enlaçando nas mãos as palavras
aquelas que não proferi,
"aguarda pela chuva"
conforta-me a vinda na pachorrenta desdita,
mas o montado ali tão perto
o pasto a quem basta as abelhas e o mel
de quem me vale um deserto
a tela, a paleta, o pincel?
As fiteiras do podador pendem na ramada,
abandonada,
na espera espaçada de um baldio
invisível,
como o uivo solitário da monda,
na nudez dos torrões sob o céu.
Como eu.
2017-10-20
2017-10-19
Cansado
encosta-se a mim o dia,
as estradas molhadas da secura
e as leiras escondidas
de tudo o que me ardia,
vem lesta a colhedura
germinados os joios entre margaridas
quer-se o aroma a vida fria
ou qualquer outras solitária fiança,
por entre o montado e o meu timbre
calado
nem o destino me alcança.
encosta-se a mim o dia,
as estradas molhadas da secura
e as leiras escondidas
de tudo o que me ardia,
vem lesta a colhedura
germinados os joios entre margaridas
quer-se o aroma a vida fria
ou qualquer outras solitária fiança,
por entre o montado e o meu timbre
calado
nem o destino me alcança.
2017-10-17
Vida às prestações
in Correio do Porto.
O termo meio do monte deve ter sido retirado por alguém que se deslocou aqui, onde estou. A carrinha entra folgadamente e sem custo, mas a saída avizinha-se difícil pois não há local para poder inverter a marcha. Um pouco como a vida, entramos de frente, saímos às arrecuas. A casa parece ter nascido ali, entre pinheiros e eucaliptos jovens, rodeada de caruma, bolotas calcadas pelo Verão e montículos de cinza onde, adivinho, se devem ter queimado restos da limpeza do terreno. Os cães surgem ao caminho, não ladram aos pneus da carrinha, fazem uma espécie de guarda ou inspecção minuciosa a quem lá vem.
Não há campainha, ouço uma saudação vinda da esquina e uma senhora surge, vestida de negro, encurvada talvez pelo tempo, talvez pela idade e embora possamos pensar que se trata da mesma coisa, tempo e idade, são lados bem distintos de uma moeda que teimamos em poupar. Há quem chegue à idade sem tempo e quem não tenha tempo para ter idade. Coisas estranhas. Como esta casa, térrea, quadrangularmente regular, onde me chama à atenção o poço e a nora de cocos. Seriam ornamento ou ainda funcionariam?
Cumprimenta-nos com uma simpatia própria de quem é senhora de si e manda-nos entrar. Diz-nos que já arrumou as coisas do quarto para caber a cômoda, pede desculpa por não ter nada para oferecer de beber, era o falecido que tratava das aguardentes que recebia quando andava a cantonar caminhos, agora de bebida só água e o café com borra que descansa na cafeteira metálica espessa.
Pousamos a cómoda, está algo escuro dentro de casa, não ajudará certamente o dia farrusco em que chove fuligem e choram as árvores. Sorrio ao passar por uma série de calendários de anos distintos, cada um com uma imagem diferente de Nossa Senhora de Fátima. De resto, a casa é sombra e alvura de paredes, mesmo na cozinha com a mesa de tampo zincado e uma só cadeira forrada com um avental. A lareira convidava a ficar sentado no mocho, um torpe resto de pinheiro, mas por educação esperei à porta.
Compra-se às prestações aqui. Algo certamente em desuso, penso. O senhor com quem vim tira dois cartões do tamanho de um vulgar cartão-de-visita, nos quadrados anota valores que deduzo serem as mensalidades ou prestações. Na primeira quadrícula do cartão coloca uma cruz, a primeira prestação é oferta, disse-lhe. Esta baixa o olhar envergonhada, não quer aceitar, mas perante a insistência agradece. Vai à arca congeladora e tira um frango, quer retribuir o gesto. Esboçando uma negação ele pega no frango congelado e ao mesmo tempo que faz o gesto de sair para guardar na carrinha o cadáver do galináceo, pede-lhe para ir ver se a medida da cômoda era mesmo aquela. Ela sai da cozinha, ele pisca-me o olho e rapidamente coloca o frango de volta na arca congeladora e ainda retira do bolso do casaco uma embalagem de comprimidos que coloca por entre outras caixas iguais.
A senhora surge, era mesmo aquilo, diz-nos, logo depois do terço já se irá entreter a meter a roupa nas gavetas. Saímos de casa, os cães parecem anuir o gesto de bondade do vendedor com uma escolta até à carrinha. A senhora acompanha-nos e antes de fechar o portão de madeira, diz que se conseguir vender a lenha dos dois pinheiros que caíram por cauda da doença ainda encomenda um banco pequenino de pinho para si mesma, como prenda de Natal.
O termo meio do monte deve ter sido retirado por alguém que se deslocou aqui, onde estou. A carrinha entra folgadamente e sem custo, mas a saída avizinha-se difícil pois não há local para poder inverter a marcha. Um pouco como a vida, entramos de frente, saímos às arrecuas. A casa parece ter nascido ali, entre pinheiros e eucaliptos jovens, rodeada de caruma, bolotas calcadas pelo Verão e montículos de cinza onde, adivinho, se devem ter queimado restos da limpeza do terreno. Os cães surgem ao caminho, não ladram aos pneus da carrinha, fazem uma espécie de guarda ou inspecção minuciosa a quem lá vem.
Não há campainha, ouço uma saudação vinda da esquina e uma senhora surge, vestida de negro, encurvada talvez pelo tempo, talvez pela idade e embora possamos pensar que se trata da mesma coisa, tempo e idade, são lados bem distintos de uma moeda que teimamos em poupar. Há quem chegue à idade sem tempo e quem não tenha tempo para ter idade. Coisas estranhas. Como esta casa, térrea, quadrangularmente regular, onde me chama à atenção o poço e a nora de cocos. Seriam ornamento ou ainda funcionariam?
Cumprimenta-nos com uma simpatia própria de quem é senhora de si e manda-nos entrar. Diz-nos que já arrumou as coisas do quarto para caber a cômoda, pede desculpa por não ter nada para oferecer de beber, era o falecido que tratava das aguardentes que recebia quando andava a cantonar caminhos, agora de bebida só água e o café com borra que descansa na cafeteira metálica espessa.
Pousamos a cómoda, está algo escuro dentro de casa, não ajudará certamente o dia farrusco em que chove fuligem e choram as árvores. Sorrio ao passar por uma série de calendários de anos distintos, cada um com uma imagem diferente de Nossa Senhora de Fátima. De resto, a casa é sombra e alvura de paredes, mesmo na cozinha com a mesa de tampo zincado e uma só cadeira forrada com um avental. A lareira convidava a ficar sentado no mocho, um torpe resto de pinheiro, mas por educação esperei à porta.
Compra-se às prestações aqui. Algo certamente em desuso, penso. O senhor com quem vim tira dois cartões do tamanho de um vulgar cartão-de-visita, nos quadrados anota valores que deduzo serem as mensalidades ou prestações. Na primeira quadrícula do cartão coloca uma cruz, a primeira prestação é oferta, disse-lhe. Esta baixa o olhar envergonhada, não quer aceitar, mas perante a insistência agradece. Vai à arca congeladora e tira um frango, quer retribuir o gesto. Esboçando uma negação ele pega no frango congelado e ao mesmo tempo que faz o gesto de sair para guardar na carrinha o cadáver do galináceo, pede-lhe para ir ver se a medida da cômoda era mesmo aquela. Ela sai da cozinha, ele pisca-me o olho e rapidamente coloca o frango de volta na arca congeladora e ainda retira do bolso do casaco uma embalagem de comprimidos que coloca por entre outras caixas iguais.
A senhora surge, era mesmo aquilo, diz-nos, logo depois do terço já se irá entreter a meter a roupa nas gavetas. Saímos de casa, os cães parecem anuir o gesto de bondade do vendedor com uma escolta até à carrinha. A senhora acompanha-nos e antes de fechar o portão de madeira, diz que se conseguir vender a lenha dos dois pinheiros que caíram por cauda da doença ainda encomenda um banco pequenino de pinho para si mesma, como prenda de Natal.
2017-10-08
Deus
Nada Te peço acima,
Deus,
do que quer que me vindime
nem vinha ou estio
sina que desfruto no vazio,
nos antípodas que excito
electrão proscrito
na órbita errante da existência,
faz-me crer neles como em Ti,
obrigado pela consciência
silenciosa alegria
da existência,
encontrar-Te na terra virgem
aqui ou além
e rezar-Te ainda assim
na elegia,
pelo infinito
e mais um dia.
Deus,
do que quer que me vindime
nem vinha ou estio
sina que desfruto no vazio,
nos antípodas que excito
electrão proscrito
na órbita errante da existência,
faz-me crer neles como em Ti,
obrigado pela consciência
silenciosa alegria
da existência,
encontrar-Te na terra virgem
aqui ou além
e rezar-Te ainda assim
na elegia,
pelo infinito
e mais um dia.
2017-10-01
Ad infinitum
Crónica de domingo, na Bird Magazine.
Ouço gemer, um ligeiro soluçar. A tarde quente, abafada, convida a passar o consciente pelas brasas, permitir à alma soltar-se um pouco e sorver vida.
Continuo a ouvir soluçar, abro a janela e nada que justifique o som vejo, apenas a paisagem ondulante de eucaliptos, campos arados e casas ao longe.
O soluçar, agora mais intenso, parece vir do andar inferior. Sem fechar a janela do local onde estou, desço os degraus lentamente, tentando antever o que irei encontrar.
O único barulho que ouço são os meus pés descalços em contacto com a madeira.
Empurro a porta da sala e saio, dou três passos em direcção à escadaria, não vejo nada à frente, à esquerda ou direita. Fecho a porta. Vou para a cozinha, agora com os pés na tijoleira fria, chegado lá descerro a porta que dá acesso ao exterior e vejo-a, com surpresa, encostada à parede, fugindo do calor do sol, aninhada, a soluçar, com a cabeça coberta pelos pequenos braços, sujos. As vestes, velhas e puídas, pareciam saídas de uma escavação arqueológica ou do fundo do coração de alguém que não se sabe alguém.
Aninho-me e toco-lhe na cabeça, o cabelo espesso de sujidade, escuro. Ao sentir o meu toque levanta a cabeça lentamente, na cara as lágrimas tinham aberto caminho pela sujidade e pareciam leitos de rio, que corriam para os olhos, um mar de lágrimas serenas e resignadas. Olhando-a, o rosto de sofrimento, abraço-a. Deixa agora de soluçar para soltar apenas longos suspiros à medida que respira.
Com a porta aberta, convido-a a entrar e pergunto se quer comer alguma coisa. A minha fartura é o mínimo, o essencial, nada que se apresente a convidados, mas ela parece adorar e aponta para as bolachas. Come duas rapidamente e depois, mais devagar, à medida que respira já sem suspirar, come mais uma, lentamente, em pequenas mordidas. Segura as bolachas com as duas mãos enquanto as come. Quando termina limpa a boca com as costas da mão suja e olha para mim. Sorri-me, baixa rapidamente a cabeça com timidez, ao fazê-lo vê as migalhas que tinha feito e apressa-se a baixar-se para as apanhar com o dedito e come-a. Levo a minha mão ao seu ombro e levanto-a, digo-lhe que não te, importância e ofereço-lhe outra bolacha, que ela come.
Saciada, pergunto-lhe o de onde vem, quem é, qual a idade, mas ela nada diz e os seus olhos marejam lágrimas. Sorrio-lhe, não deverás ter mais do que 5 anos, digo-lhe, mas o seu olhar diz-me não, tem milhares de anos, mais do que posso contar. Pergunto-lhe, agora, o nome. Diz-me, audível apesar da voz sumida, que se chama Amizade. O calor fora de época tolhe-me a consciência, indago-me como pode alguém ser tão velho e ao mesmo tempo possuir aparência infantil? Responde-me que nunca chega a crescer, não a deixam expandir. Ao fim de pouco tempo é esquecida, relembrada apenas quando dela necessitam, minguada como a flor não colhida a quem a Natureza se esqueceu de regar. Fica parada, olha para mim, e naquele olhar compreendo a dor, a ausência.
Não fala mais, mas ouço todos os seus murmúrios, alegrias e lágrimas que lhe pintaram vários dias. Limpo-lhe as lágrimas, abraço-a e sem intenção de a deixar partir, abro-lhe a porta do que sou, deixo-a crescer.
Alimento-a diariamente. Ocasionalmente alguém surge com o desejo de a ver e sentir, indo-se depois embora como quem mata a sede numa fonte ou consulta rapidamente os quilómetros num marco de estrada.
E fico novamente, eu e ela, só, em paz, ad infinitum.
Ouço gemer, um ligeiro soluçar. A tarde quente, abafada, convida a passar o consciente pelas brasas, permitir à alma soltar-se um pouco e sorver vida.
Continuo a ouvir soluçar, abro a janela e nada que justifique o som vejo, apenas a paisagem ondulante de eucaliptos, campos arados e casas ao longe.
O soluçar, agora mais intenso, parece vir do andar inferior. Sem fechar a janela do local onde estou, desço os degraus lentamente, tentando antever o que irei encontrar.
O único barulho que ouço são os meus pés descalços em contacto com a madeira.
Empurro a porta da sala e saio, dou três passos em direcção à escadaria, não vejo nada à frente, à esquerda ou direita. Fecho a porta. Vou para a cozinha, agora com os pés na tijoleira fria, chegado lá descerro a porta que dá acesso ao exterior e vejo-a, com surpresa, encostada à parede, fugindo do calor do sol, aninhada, a soluçar, com a cabeça coberta pelos pequenos braços, sujos. As vestes, velhas e puídas, pareciam saídas de uma escavação arqueológica ou do fundo do coração de alguém que não se sabe alguém.
Aninho-me e toco-lhe na cabeça, o cabelo espesso de sujidade, escuro. Ao sentir o meu toque levanta a cabeça lentamente, na cara as lágrimas tinham aberto caminho pela sujidade e pareciam leitos de rio, que corriam para os olhos, um mar de lágrimas serenas e resignadas. Olhando-a, o rosto de sofrimento, abraço-a. Deixa agora de soluçar para soltar apenas longos suspiros à medida que respira.
Com a porta aberta, convido-a a entrar e pergunto se quer comer alguma coisa. A minha fartura é o mínimo, o essencial, nada que se apresente a convidados, mas ela parece adorar e aponta para as bolachas. Come duas rapidamente e depois, mais devagar, à medida que respira já sem suspirar, come mais uma, lentamente, em pequenas mordidas. Segura as bolachas com as duas mãos enquanto as come. Quando termina limpa a boca com as costas da mão suja e olha para mim. Sorri-me, baixa rapidamente a cabeça com timidez, ao fazê-lo vê as migalhas que tinha feito e apressa-se a baixar-se para as apanhar com o dedito e come-a. Levo a minha mão ao seu ombro e levanto-a, digo-lhe que não te, importância e ofereço-lhe outra bolacha, que ela come.
Saciada, pergunto-lhe o de onde vem, quem é, qual a idade, mas ela nada diz e os seus olhos marejam lágrimas. Sorrio-lhe, não deverás ter mais do que 5 anos, digo-lhe, mas o seu olhar diz-me não, tem milhares de anos, mais do que posso contar. Pergunto-lhe, agora, o nome. Diz-me, audível apesar da voz sumida, que se chama Amizade. O calor fora de época tolhe-me a consciência, indago-me como pode alguém ser tão velho e ao mesmo tempo possuir aparência infantil? Responde-me que nunca chega a crescer, não a deixam expandir. Ao fim de pouco tempo é esquecida, relembrada apenas quando dela necessitam, minguada como a flor não colhida a quem a Natureza se esqueceu de regar. Fica parada, olha para mim, e naquele olhar compreendo a dor, a ausência.
Não fala mais, mas ouço todos os seus murmúrios, alegrias e lágrimas que lhe pintaram vários dias. Limpo-lhe as lágrimas, abraço-a e sem intenção de a deixar partir, abro-lhe a porta do que sou, deixo-a crescer.
Alimento-a diariamente. Ocasionalmente alguém surge com o desejo de a ver e sentir, indo-se depois embora como quem mata a sede numa fonte ou consulta rapidamente os quilómetros num marco de estrada.
E fico novamente, eu e ela, só, em paz, ad infinitum.
2017-09-30
A deus
A saudade soluça na espera de quem nunca chegou.
É o tempo germinado fora do útero.
A ti, meu vale, onde frago ainda o que sou, esta riqueza de me ambicionar pobre pinta-me ocre e ausência.
Contra Deus nem religião, nem ciência.
Dorme, Tua, afundado na tua inocência.
2017-09-17
Ilha
Crónica de domingo, 17/09/2017, na Bird Magazine.
Sem qualquer surpresa, o dia escorrega da noite para a iluminada parte da terra, percorrendo sem grandes veleidades léguas de chão parando poucas vezes para escutar o que de nada sai quando a mediocridade e inocência teimam em falar.
Fascina-me a inconstância meteorológica e os frutos que a terra vai parindo, seja fecundada profissionalmente ou somente com amor.
Fascina-me o acre do suor e o movimento de fuga da insectivorada esgravatando terra adentro como desejando voltar para os braços da mãe.
Fascinam-me anos passados numa memória que dura um segundo.
Quem não gosta?
Há um se e uma realidade, qual de ambos é real?
As costas voltadas à montanha ou a obsessividade pela vida que se sabe não existir?
Fascinam-me as cores sob as nuvens antes do Sol se pôr ao encontro dos momentos finais do dia, ainda que, como hoje, as cores vivam apenas na imaginação das palavras que me escrevem.
Que seriam de meus dias futuros, sem a incógnita dos passados?
Por tudo isto, quando o dia soluça e parece acordar, já eu venho a percorrer, em passo aflito, o caminho recortado na paisagem, sorvendo o orvalho matinal que ainda persiste porque não sabe que existe e levo já nos olhos o sono perdido e as lágrimas de júbilo por saber ali, dormentes, a espuma das ondas da maré que irei pastar.
Vão-se batendo de encontro à costa, inquietas.
Enquanto não chego entretêm-se a bolear à perfeição as pedras vulcânicas que a terra, inocentemente, pariu.
Restolham o som, desdobram-se em vagas de uma fervura de ouvidos quando a espuma se desfaz e deixa cair, de costas, no amparo do mar.
Elas sabem-me de lá, por isso apascentam e sorriem quando, ofegante, chego ao cimo do monte escarpado e com um dente de leão por cajado as saúdo.
Sorriem-me na maré dourada que se estende pelas sombras do que o Sol não cobre.
Ondas de lavoura e espuma de milheirais, na irregular costa da simplicidade de amar a terra, eis os despojos sem guerra.
Soçobro a passividade e pastoreio a espuma das ondas.
Gravo-me em arado que se verte pelo olhar.
Eu e as ondas, a suspirar.
O texto que teima em falar e eu, navegante, calado, sem me saber sequer vocalizar, porque há um hiato entre as vagas das vidas onde não sei nadar.
Sem qualquer surpresa, o dia escorrega da noite para a iluminada parte da terra, percorrendo sem grandes veleidades léguas de chão parando poucas vezes para escutar o que de nada sai quando a mediocridade e inocência teimam em falar.
Fascina-me a inconstância meteorológica e os frutos que a terra vai parindo, seja fecundada profissionalmente ou somente com amor.
Fascina-me o acre do suor e o movimento de fuga da insectivorada esgravatando terra adentro como desejando voltar para os braços da mãe.
Fascinam-me anos passados numa memória que dura um segundo.
Quem não gosta?
Há um se e uma realidade, qual de ambos é real?
As costas voltadas à montanha ou a obsessividade pela vida que se sabe não existir?
Fascinam-me as cores sob as nuvens antes do Sol se pôr ao encontro dos momentos finais do dia, ainda que, como hoje, as cores vivam apenas na imaginação das palavras que me escrevem.
Que seriam de meus dias futuros, sem a incógnita dos passados?
Por tudo isto, quando o dia soluça e parece acordar, já eu venho a percorrer, em passo aflito, o caminho recortado na paisagem, sorvendo o orvalho matinal que ainda persiste porque não sabe que existe e levo já nos olhos o sono perdido e as lágrimas de júbilo por saber ali, dormentes, a espuma das ondas da maré que irei pastar.
Vão-se batendo de encontro à costa, inquietas.
Enquanto não chego entretêm-se a bolear à perfeição as pedras vulcânicas que a terra, inocentemente, pariu.
Restolham o som, desdobram-se em vagas de uma fervura de ouvidos quando a espuma se desfaz e deixa cair, de costas, no amparo do mar.
Elas sabem-me de lá, por isso apascentam e sorriem quando, ofegante, chego ao cimo do monte escarpado e com um dente de leão por cajado as saúdo.
Sorriem-me na maré dourada que se estende pelas sombras do que o Sol não cobre.
Ondas de lavoura e espuma de milheirais, na irregular costa da simplicidade de amar a terra, eis os despojos sem guerra.
Soçobro a passividade e pastoreio a espuma das ondas.
Gravo-me em arado que se verte pelo olhar.
Eu e as ondas, a suspirar.
O texto que teima em falar e eu, navegante, calado, sem me saber sequer vocalizar, porque há um hiato entre as vagas das vidas onde não sei nadar.
2017-09-07
É a vida
Crónica do Nada, no Correio do Porto.
A vida faz uma pausa prolongadamente breve na tarde brevemente prolongada.
Ouço suspiros árduos serem derramados na impossibilidade masculina de ver ter lágrimas nas faces ásperas de socalcos mais ou menos arados.
Paira na invisibilidade do meu olhar a réstia nublada transparente do que é, timidamente ainda ligado ao que era, num interlúdio vago entre realidades distintas, a realidade irreal e a realidade infinitamente não real, para onde vaguearemos quando nos cansarmos de jogar, pelo tempo, pela vontade, pelo momento, pela idade.
Nesta irreal realidade dei já várias voltas à mais comum das claves, Sol. Parece uma eternidade quando nos habituamos a viver abaixo das nuvens, deixando-nos arrastar na temporalidade intermitente do quotidiano para onde nos empurram: Ide e possuí!
Dezenas suspendem-se, timidamente olha-se para o lado, procuram-se caras conhecidas, para nos percebermos desconhecidos de nós mesmos, vivos menos vivos que se aglomeram na homenagem ao vivo agora Vivo.
Morreremos, eis a certeza que nos baptiza e que independe de religião. E na correlação do que somos e saberemos ser, a tragédia acomete-se pelo esquecimento da mais profunda certeza: o meu próximo suspiro poderá ser o meu último olhar.
Porque não fazer de ambos, suspiro e olhar, o pão nosso de cada dia?
Deixarmos entrar pelo olhar o suspiro que sopra de cada ser vivo e inanimado como partes unas de uma díspar caminhada num longo trajecto, um trilho inacabado onde o chão se faz de neblina ténue, onde a única certeza é acabar-se-nos o chão para podermos, ainda que com receio do desconhecido, dar um passo firme a caminho do infinito.
As badaladas carregam em ombros o paralelepípedo ornamentado, já não estará cá quem de cá se despede. Ninguém partiu. Partimos nós de nós próprios quando nos julgamos viver fora dos outros e procuramos no exterior do que temos quem somos.
Os abraços prolongam-se e por momentos as nuvens copiam os movimentos das masculinas e femininas despedidas, arrastando pelo agora fresco entardecer uma brisa sensível, um conforto a nós, cegos, rodeando cada familiar, cada amigo, cada inimigo, com uma esperança de um dia termos daqui a honrosa saída, enquanto outros murmuram: é a vida.
Mas a vida apenas é quando a chamamos assim: Vida.
A vida faz uma pausa prolongadamente breve na tarde brevemente prolongada.
Ouço suspiros árduos serem derramados na impossibilidade masculina de ver ter lágrimas nas faces ásperas de socalcos mais ou menos arados.
Paira na invisibilidade do meu olhar a réstia nublada transparente do que é, timidamente ainda ligado ao que era, num interlúdio vago entre realidades distintas, a realidade irreal e a realidade infinitamente não real, para onde vaguearemos quando nos cansarmos de jogar, pelo tempo, pela vontade, pelo momento, pela idade.
Nesta irreal realidade dei já várias voltas à mais comum das claves, Sol. Parece uma eternidade quando nos habituamos a viver abaixo das nuvens, deixando-nos arrastar na temporalidade intermitente do quotidiano para onde nos empurram: Ide e possuí!
Dezenas suspendem-se, timidamente olha-se para o lado, procuram-se caras conhecidas, para nos percebermos desconhecidos de nós mesmos, vivos menos vivos que se aglomeram na homenagem ao vivo agora Vivo.
Morreremos, eis a certeza que nos baptiza e que independe de religião. E na correlação do que somos e saberemos ser, a tragédia acomete-se pelo esquecimento da mais profunda certeza: o meu próximo suspiro poderá ser o meu último olhar.
Porque não fazer de ambos, suspiro e olhar, o pão nosso de cada dia?
Deixarmos entrar pelo olhar o suspiro que sopra de cada ser vivo e inanimado como partes unas de uma díspar caminhada num longo trajecto, um trilho inacabado onde o chão se faz de neblina ténue, onde a única certeza é acabar-se-nos o chão para podermos, ainda que com receio do desconhecido, dar um passo firme a caminho do infinito.
As badaladas carregam em ombros o paralelepípedo ornamentado, já não estará cá quem de cá se despede. Ninguém partiu. Partimos nós de nós próprios quando nos julgamos viver fora dos outros e procuramos no exterior do que temos quem somos.
Os abraços prolongam-se e por momentos as nuvens copiam os movimentos das masculinas e femininas despedidas, arrastando pelo agora fresco entardecer uma brisa sensível, um conforto a nós, cegos, rodeando cada familiar, cada amigo, cada inimigo, com uma esperança de um dia termos daqui a honrosa saída, enquanto outros murmuram: é a vida.
Mas a vida apenas é quando a chamamos assim: Vida.
2017-09-03
De mãos dadas
Crónica de Domingo, na Bird Magazine.
Apenas o local se mantem igual, os lanços de escadas, a profundidade dos degraus, tudo mingou. Teria sido eu a crescer? Se o invólucro de base carbono que me serve de abrigo aumentou, continuo a ver o mundo sentado no pequeno banco de madeira ao qual dei o feminino nome de curiosidade, daí o meu espanto, estarei a relembrar-me no passado ou a visitar-me do futuro? Hoje Mini-mercado, antes era apenas a Loja, aliás era simplesmente o Senhor Moreira.
As prateleiras ornamentavam-se com preços manuscritos em tiras de papel, sem preocupação marketeira de colocar determinados produtos a determinadas alturas para determinados olhares. Havia o que existia, comprava-se de forma pautada, “é para pôr na conta” no caderno alto e azul-escuro, com redondas e trabalhadas letras dispostas no contabilístico “T”.
Um “dou-lhe a minha palavra” era o quanto bastava para reduzir a lixo o rating das agências actuais. Os olhares não mentiam, quanto muito escondiam-se por detrás da humildade, quase como uma ligeira timidez de se ser honesto. Assim como a simplicidade, estes grandes pequenos mercados foram completamente aglutinados pelas quotidianas arenas onde se leva o que não se quer, o envernizado fruto, o colesterolizado doce e ainda nos gabamos, inocentes, de termos poupado 20 quando na verdade gastamos 30 a comprar o que não precisávamos.
Lá, no último degrau, quando inspirei e me arrepiei pela emoção, quase pude ouvir o barulho da cinzenta, alta e metálica caixa registadora, a mesma para a qual ficava a olhar na esperança de alguém carregar na longa tecla “Total” e, num sorridente plim, ver abrir a preta gaveta onde se guardava o que o de menos valor existia, o dinheiro. Quase consigo ver a bacia de metal, com água e gelo, onde boiavam sacos de plástico com leite. As bolas vermelhas de queijo, os raros chupas ou rebuçados que, geralmente, acompanhavam o troco. Os cadernos, lápis, afias, canetas ordenadas por cor, dois ou três tipos de estojos para o novo ano escolar e o bloco de folhas A4 para os felizardos que andavam já no liceu. Quando não era altura de levar as compras na seira, as compras surgiam em casa. A Morris cinzenta surgia de marcha-atrás, parava, o Sr. Moreira saudava e abrindo as velhas portas mostrava um mundo civilizado e disposto por ordem de visita e cliente. Passava-me o arroz, azeite, esparguete, umas latas de atum e salsichas, os ovos (quando os vizinhos não os tinham para vender), um pacote de bolachas Maria ou Torrada, o queijo e o fiambre envolvidos num papel que ainda saboreio com o tacto da imaginação. Recordo o momento em que a minha mãe lhe entregava o dinheiro e eu subia o muro para ver o interior da “Dona Chêpa”, o volante, a alavanca de velocidades e ele, no raro sorriso, me dava um aperto de mão. A mim, uma criança!
Saio agora da Loja do Sr. Moreira, do outro lado acaba-se um corpo de quem quando eu novo era já velho. Desvio o olhar, emudecido, por entre memórias que passam e me saúdam, sinto falta do aperto de mão e, talvez por isso, dê por mim a descer os degraus com olhos nublados e de mãos dadas atrás das costas.
Apenas o local se mantem igual, os lanços de escadas, a profundidade dos degraus, tudo mingou. Teria sido eu a crescer? Se o invólucro de base carbono que me serve de abrigo aumentou, continuo a ver o mundo sentado no pequeno banco de madeira ao qual dei o feminino nome de curiosidade, daí o meu espanto, estarei a relembrar-me no passado ou a visitar-me do futuro? Hoje Mini-mercado, antes era apenas a Loja, aliás era simplesmente o Senhor Moreira.
As prateleiras ornamentavam-se com preços manuscritos em tiras de papel, sem preocupação marketeira de colocar determinados produtos a determinadas alturas para determinados olhares. Havia o que existia, comprava-se de forma pautada, “é para pôr na conta” no caderno alto e azul-escuro, com redondas e trabalhadas letras dispostas no contabilístico “T”.
Um “dou-lhe a minha palavra” era o quanto bastava para reduzir a lixo o rating das agências actuais. Os olhares não mentiam, quanto muito escondiam-se por detrás da humildade, quase como uma ligeira timidez de se ser honesto. Assim como a simplicidade, estes grandes pequenos mercados foram completamente aglutinados pelas quotidianas arenas onde se leva o que não se quer, o envernizado fruto, o colesterolizado doce e ainda nos gabamos, inocentes, de termos poupado 20 quando na verdade gastamos 30 a comprar o que não precisávamos.
Lá, no último degrau, quando inspirei e me arrepiei pela emoção, quase pude ouvir o barulho da cinzenta, alta e metálica caixa registadora, a mesma para a qual ficava a olhar na esperança de alguém carregar na longa tecla “Total” e, num sorridente plim, ver abrir a preta gaveta onde se guardava o que o de menos valor existia, o dinheiro. Quase consigo ver a bacia de metal, com água e gelo, onde boiavam sacos de plástico com leite. As bolas vermelhas de queijo, os raros chupas ou rebuçados que, geralmente, acompanhavam o troco. Os cadernos, lápis, afias, canetas ordenadas por cor, dois ou três tipos de estojos para o novo ano escolar e o bloco de folhas A4 para os felizardos que andavam já no liceu. Quando não era altura de levar as compras na seira, as compras surgiam em casa. A Morris cinzenta surgia de marcha-atrás, parava, o Sr. Moreira saudava e abrindo as velhas portas mostrava um mundo civilizado e disposto por ordem de visita e cliente. Passava-me o arroz, azeite, esparguete, umas latas de atum e salsichas, os ovos (quando os vizinhos não os tinham para vender), um pacote de bolachas Maria ou Torrada, o queijo e o fiambre envolvidos num papel que ainda saboreio com o tacto da imaginação. Recordo o momento em que a minha mãe lhe entregava o dinheiro e eu subia o muro para ver o interior da “Dona Chêpa”, o volante, a alavanca de velocidades e ele, no raro sorriso, me dava um aperto de mão. A mim, uma criança!
Saio agora da Loja do Sr. Moreira, do outro lado acaba-se um corpo de quem quando eu novo era já velho. Desvio o olhar, emudecido, por entre memórias que passam e me saúdam, sinto falta do aperto de mão e, talvez por isso, dê por mim a descer os degraus com olhos nublados e de mãos dadas atrás das costas.
2017-08-13
Azedume
Crónica. Domingo. Bird Magazine.
As tardes de Verão tiveram quase sempre,
no meu imaginário, três ou quatro bandas sonoras, monótonas, taciturnas e muito
pouco animadoras. Hoje não é excepção. A sirene dos bombeiros lamenta-se
arrastadamente, fecho os estores e imagino que seja noite, com a sua longa
túnica pontilhada aqui e ali com tremeluzentes pontos, longos, inimagináveis
distâncias de tempos em que eu, deduzo, fosse um outro qualquer aglomerado de
átomos, uma abundância relativa noutras percentagens, um isótopo ou apenas e só
o pontilhado feliz e errante dos electrões que surgem e desaparecem nos
diferentes níveis de energia. Ouço os carros zunirem, alternamente, novamente,
a sirene dos bombeiros brame na quente tarde enquanto alguém se queixa do
barulho,
- há quem tenha crianças para dormir
Sacudo a cabeça, antes fosse noite e todas
as vozes que não chegam ao céu se calassem por momentos, se cingissem ao gutural
arrastado de um ronco que sai da cavernosa reentrância para o vazio, que é a
boca de quem protesta.
- não se pode com este cheiro a fumo nas
casas
Ouço por entre o barulho do longo tapete
castanho com riscas cor-de-laranja, ondulando ao sabor da jugular força de
braços, a maré de pó que se esbate na praia das janelas dos pisos inferiores.
Não, não se pode com o fumo. Acredito que o lamentar se deva ao cheiro que se
incrusta nas narinas e não, nem por um momento, pelas assustadas aves
afugentadas pelo fumo, os coelhos e lebres, os raros esquilos, os inusitados
texugos que não acreditam ter visto, as fogueadas raposas e toda a bicharada
alada, corredora ou rastejante, fugindo para proteger o pelo, a pele, a
quitina.
- esta nortada, dá cabo da praia e das
férias, que nojo
E claro, o enjoado opinar dever-se-á,
tampouco, pela necessidade de dobrar o guarda-sol, escarrar e abafar duas ou
três beatas na areia acompanhadas pela garrafa de cerveja, deixar para trás o
pau do gelado ou o brinquedo que saiu no HappyMeal. Nunca seria preocupação
pelo alimentar das labaredas que continuam sem dar descanso a centenas de
homens e mulheres, enfarruscados, com o cansaço a gotejar nas faces.
- às tantas são eles que chegam o lume
para ganhar uns trocos
E nada me surpreende mais depois disto.
Rio num esgar de escárnio e divirto-me a imaginar os seus próprios umbigos como
um sepulcral buraco negro para onde escorre toda a estupidez que exala dos
pensamentos em forma de opiniões.
- não se pode com o que escreves
E nada mais do que fazendo a vontade a
quem se habitua a ser parede, continuo a azedar-me e fico-me por aqui. Um dia
deslevedo-me, volto a ser cereal e daí ao suor da mão de um agricultor bastará
um fino cordão de prata para voltar ao local de onde não deveria ter saído.
2017-08-06
Clar(a)idade
Crónica de domingo, na Bird Magazine.
Não há na profundidade de cada um superficialidade onde possam navegar serenamente sinceridade e despojamento.
Há, sim, à superfície um profundo naufrágio que se banha nas águas da aceite e mantida ignorância.
Não há ameias ou margens, apenas um leito que desagua na imensidão escura que são os olhos onde procuro a humanidade.
Nada se esconde que exista.
E eu, cáustico, vou diluindo-me na esperança da sublimação que me evapore e me leve, etéreo, olhar nos olhos das estrelas e pedir, envergonhado, para dormir com elas
Agora, baixinho, para não acordar o crepitar da lareira, vem sem medo para aqui, para a tua beira.
Deixa respirar a vida que te descolora a teimosia de sobreviver, vai ali ao fundo, vê-te desvanecer, pelos remendos que te orgulham o mundo, vai ali, a ti.
Sabes, as pétalas que te florem dos ombros, são os teus braços, não os deixes pendendo como marcando o compasso com que te querem relojoar, o tempo encarrega-se de cair aos teus pés, agora, tu, infinito.
És.
Que mais queres, tu, que vir agora, baixinho, para te encontrares contigo, sozinho?
Imagino os pequenos pontos luminosos como potenciais pirilampos no céu dos meus dias, há em cada um de vós o olhar de quem se descobre e assim se ensina, a centelha, a sôfrega ânsia de a cada momento ser mais um na soma de todos.
Espreito por entre as nuvens, a neblina que se cobre de todos os naipes do meu baralho, sou eu e o orvalho, imaginando a voz que nunca me soprou de outrem e aí, onde brilham como as estrelas, peço-vos que mas sussurrem pois daqui só posso sonhar com elas.
Clamo pela claridade de um dia só com noites, sem qualquer receio do fim a que se sujeitam os sonhadores, pois aconchego na mão contra o peito todos os bocadinhos de mim que semeio e germino quando velho me sinto, novamente, menino.
Não há na profundidade de cada um superficialidade onde possam navegar serenamente sinceridade e despojamento.
Há, sim, à superfície um profundo naufrágio que se banha nas águas da aceite e mantida ignorância.
Não há ameias ou margens, apenas um leito que desagua na imensidão escura que são os olhos onde procuro a humanidade.
Nada se esconde que exista.
E eu, cáustico, vou diluindo-me na esperança da sublimação que me evapore e me leve, etéreo, olhar nos olhos das estrelas e pedir, envergonhado, para dormir com elas
Agora, baixinho, para não acordar o crepitar da lareira, vem sem medo para aqui, para a tua beira.
Deixa respirar a vida que te descolora a teimosia de sobreviver, vai ali ao fundo, vê-te desvanecer, pelos remendos que te orgulham o mundo, vai ali, a ti.
Sabes, as pétalas que te florem dos ombros, são os teus braços, não os deixes pendendo como marcando o compasso com que te querem relojoar, o tempo encarrega-se de cair aos teus pés, agora, tu, infinito.
És.
Que mais queres, tu, que vir agora, baixinho, para te encontrares contigo, sozinho?
Imagino os pequenos pontos luminosos como potenciais pirilampos no céu dos meus dias, há em cada um de vós o olhar de quem se descobre e assim se ensina, a centelha, a sôfrega ânsia de a cada momento ser mais um na soma de todos.
Espreito por entre as nuvens, a neblina que se cobre de todos os naipes do meu baralho, sou eu e o orvalho, imaginando a voz que nunca me soprou de outrem e aí, onde brilham como as estrelas, peço-vos que mas sussurrem pois daqui só posso sonhar com elas.
Clamo pela claridade de um dia só com noites, sem qualquer receio do fim a que se sujeitam os sonhadores, pois aconchego na mão contra o peito todos os bocadinhos de mim que semeio e germino quando velho me sinto, novamente, menino.
2017-07-30
Em cinzas deitado.
Crónica na Bird Magazine, a 30/07/2017.
De aparição em surgimento, sem que se negue o sentimento, muito há a fazer para que da vontade se passe ao culto. No entanto, quando a vida procrastina os planos de alguém, nada mais parece haver a fazer do que subir os degraus de um santuário com maior ou menor custo. Por isso, encosto-me à parede ensombrada que o Sol permite e aprecio a paisagem como quem se enamora por um jardim. O Santuário ainda não transpira, mas eu sim.
Percorro os corredores de mármore, faço por não olhar para o chão, evitando ler os nomes de quem quer que tenha sido sepultado ali. Não pela falta de respeito, sabe-se a pessoa ausente dali, mas porque ninguém, tridimensionalizado ou não, merece o seu nome lido olhando para baixo.
As promessas estão enroladas em papel alvo, uns pautados, outros quadriculados, dependendo talvez da tendência linguística ou matemática de cada pedinte ou, parece-me o mais lógico, porque qualquer papel é bom para escrever num português esquecido pelas diferentes articulações de palavras, consoantes e vogais, que se estendem por diferentes cantões e países. Deus que tudo sabe, dispensaria tudo isto, mas pode existir uma tendência santificada, uma espécie de concurso entre as três figuras onde vi mais papéis (São Judas Tadeu, Menino Jesus de Praga e São José). Será porque as outras figuras dispostas na catedral estão altas demais para a estatura média do português?
Saio do bafiento local, a falta de aragem torna a respiração mais pastosa, como se além das promessas também ardesse a cera das coisas que tenho por dizer e que vão por aqui, presas e pigarreadas na glote.
O cerário é o meu próximo caminho. Aquele grande paralelepípedo de ferro forjado, com uma pequena entraída (mistura de entrada e saída), exibe a quem se aproxima uma espécie de caixa negra de promessas e fés, queimadas em altas velas de cores esbatidas pela fuligem e pelo esforço com que o fogo queima o pavio e desfaz a cera colorida de quem se encomenda a Deus.
Habituada visão à mudança de luminosidade, olho à direita e vejo-o ali, deitado. Entreabrindo os olhos, fita-me por detrás de uma íris luminosa. Ter-se-á assustado com o barulho das minhas sandálias? Pensaria que pelos pés assandalizados estaria um salvador prévio por estas passagens há dois milénios? Aquele olhar por entre a negridão do local contrasta em termos metafóricos que escuso redigir. O tecto escuro e o qualquer preparado que tenha sido aplicado desfaz-se em pétalas metálicas e negras que caem sobre as velas e a cera derretida. Ali, em cinzas deitado, um grande menino Jesus, sujo e magro, amortalhado nas vestes gastas e sebentas, dorme envolto em si como quem se abraça para espantar a solidão. Aproveitando a constante temperatura amena das velas ardendo na noite, ajeita-se puxando e ajeitando as promessas sobre si e volta a fechar os olhos claros e profundos, enquanto me sobra apenas a força para atiçar o próprio lume e, sem papel, rabiscar umas linhas e pedir-Lhe que me faça compreender naquilo que escrevo.
De aparição em surgimento, sem que se negue o sentimento, muito há a fazer para que da vontade se passe ao culto. No entanto, quando a vida procrastina os planos de alguém, nada mais parece haver a fazer do que subir os degraus de um santuário com maior ou menor custo. Por isso, encosto-me à parede ensombrada que o Sol permite e aprecio a paisagem como quem se enamora por um jardim. O Santuário ainda não transpira, mas eu sim.
Percorro os corredores de mármore, faço por não olhar para o chão, evitando ler os nomes de quem quer que tenha sido sepultado ali. Não pela falta de respeito, sabe-se a pessoa ausente dali, mas porque ninguém, tridimensionalizado ou não, merece o seu nome lido olhando para baixo.
As promessas estão enroladas em papel alvo, uns pautados, outros quadriculados, dependendo talvez da tendência linguística ou matemática de cada pedinte ou, parece-me o mais lógico, porque qualquer papel é bom para escrever num português esquecido pelas diferentes articulações de palavras, consoantes e vogais, que se estendem por diferentes cantões e países. Deus que tudo sabe, dispensaria tudo isto, mas pode existir uma tendência santificada, uma espécie de concurso entre as três figuras onde vi mais papéis (São Judas Tadeu, Menino Jesus de Praga e São José). Será porque as outras figuras dispostas na catedral estão altas demais para a estatura média do português?
Saio do bafiento local, a falta de aragem torna a respiração mais pastosa, como se além das promessas também ardesse a cera das coisas que tenho por dizer e que vão por aqui, presas e pigarreadas na glote.
O cerário é o meu próximo caminho. Aquele grande paralelepípedo de ferro forjado, com uma pequena entraída (mistura de entrada e saída), exibe a quem se aproxima uma espécie de caixa negra de promessas e fés, queimadas em altas velas de cores esbatidas pela fuligem e pelo esforço com que o fogo queima o pavio e desfaz a cera colorida de quem se encomenda a Deus.
Habituada visão à mudança de luminosidade, olho à direita e vejo-o ali, deitado. Entreabrindo os olhos, fita-me por detrás de uma íris luminosa. Ter-se-á assustado com o barulho das minhas sandálias? Pensaria que pelos pés assandalizados estaria um salvador prévio por estas passagens há dois milénios? Aquele olhar por entre a negridão do local contrasta em termos metafóricos que escuso redigir. O tecto escuro e o qualquer preparado que tenha sido aplicado desfaz-se em pétalas metálicas e negras que caem sobre as velas e a cera derretida. Ali, em cinzas deitado, um grande menino Jesus, sujo e magro, amortalhado nas vestes gastas e sebentas, dorme envolto em si como quem se abraça para espantar a solidão. Aproveitando a constante temperatura amena das velas ardendo na noite, ajeita-se puxando e ajeitando as promessas sobre si e volta a fechar os olhos claros e profundos, enquanto me sobra apenas a força para atiçar o próprio lume e, sem papel, rabiscar umas linhas e pedir-Lhe que me faça compreender naquilo que escrevo.
2017-07-29
Pouso a sombra das minhas mãos
ergo o calor da tarde
e brindo ao gradiente nublado
onde orbita a solidão.
Não me queime assaz a vida,
aprendo no vento que passa
e sopro longe a ondulação,
esqueça-me o tempo
invoque aos sentidos a fome,
escreva-me às dunas do tempo
a invisibilidade
pois não sei meu nome...
ergo o calor da tarde
e brindo ao gradiente nublado
onde orbita a solidão.
Não me queime assaz a vida,
aprendo no vento que passa
e sopro longe a ondulação,
esqueça-me o tempo
invoque aos sentidos a fome,
escreva-me às dunas do tempo
a invisibilidade
pois não sei meu nome...
No céu de tílias
há infusão de peregrinas fés,
içam-se manhãs milenares
nas escadarias onde descendo se subia
saboreando-se as tardes à sombra de um Sol que sorria,
urge a noite que me acorda
e eu, adormecido, rasgo o horizonte
semeando
apenas com o olhar
o futuro que ausculto,
não me desenho, vivo,
à vontade do que me tremeluz
saúdo, inebriado,
de peito arado e cego
o tríplice soar matinal.
Em nenhum deles te nego.
há infusão de peregrinas fés,
içam-se manhãs milenares
nas escadarias onde descendo se subia
saboreando-se as tardes à sombra de um Sol que sorria,
urge a noite que me acorda
e eu, adormecido, rasgo o horizonte
semeando
apenas com o olhar
o futuro que ausculto,
não me desenho, vivo,
à vontade do que me tremeluz
saúdo, inebriado,
de peito arado e cego
o tríplice soar matinal.
Em nenhum deles te nego.
As virtudes dos sentidos
na ascensão
embrutecida do sol encimado
pede ausência de luz,
aqui já nada seduz.
As azinheiras adormecem à sombra das pessoas
cinzentas,
amortalhadas pelo vazio esbatido,
um pouco de nada
nas vestes encardido.
Ribomba a noite em girândolas gulosas,
o meu peito infla e entumecem-me os olhos,
as estrelas tremeluzem
talvez saudosas (minto-me)
dos meus sonhos.
na ascensão
embrutecida do sol encimado
pede ausência de luz,
aqui já nada seduz.
As azinheiras adormecem à sombra das pessoas
cinzentas,
amortalhadas pelo vazio esbatido,
um pouco de nada
nas vestes encardido.
Ribomba a noite em girândolas gulosas,
o meu peito infla e entumecem-me os olhos,
as estrelas tremeluzem
talvez saudosas (minto-me)
dos meus sonhos.
2017-07-23
Quase tudo de todos
Crónica de domingo, na Bird Magazine.
A que lado da vida se encosta a tarde?
Percorrerão os passos o caminho que os olhos tentaram adivinhar? Teríamos imensos destinos num simples sulco na mão?
A que lado de mim se encosta a interrogação?
Ardem-me os olhos e, no entanto, vejo como se fosse já amanhã e todas as urgências se resumissem a um final de tarde numa sombra, onde trinam jovens casais enamorados e o passado não surja escamoteado de saudade.
Que farei eu às palavras que não conseguirei proferir porque me embola a boca com o ar pesado que sai dos pensamentos da multidão que se aglomera à entrada do abismo?
A cada passo ergo a Lua e a cada curva o calor da noite nas pedras da tarde aquece-me o imaginar.
Por vezes, sou quase pessoa.
Na ascensão do que julgamos impoluto, há uma miríade de perpendicularidades que se destinam a fazer-nos angulares, sem uma aresta imperfeita, coisas que a matemática nos faz sem necessidade, pois seremos já uma conta perfeita, à procura da subtracção que nos permita dividir um dia por inúmeros cálculos sem sentido.
No dia em que me somei, não encontrei na inversidade calcular o resultado sentado à direita do sinal.
Não seremos já o resultado de uma conta inacabada?
Só por hoje, faz de conta...
Há um pequeno ribeiro que desagua na almofada, diria que o dia está com sono e a maré alta da ressureição traz à vida os sulcos dos montes onde cresce a torga e o nome é fraco espelho da pretensão de ser rima.
É por nada aprender que tudo se ensina.
Vou dar a volta à nuvem onde me sento, ainda há pessoas com a textura do algodão doce, pudera eu fosse, sabor e louvor, para ostentar a pintura de um socalco que se pariu sem dor.
Sou da terra, do laço do passarinheiro, quando ao lado caem à dezena de milhar, que unguento guardo para desenhar na terra o sol que deseja brilhar?
Já o sonho espera ao fundo da cama, aqui só a noctivagueidade tem prioridade sobre o torpor lento que adormece.
Como eu.
Como o céu.
A que lado da vida se encosta a tarde?
Percorrerão os passos o caminho que os olhos tentaram adivinhar? Teríamos imensos destinos num simples sulco na mão?
A que lado de mim se encosta a interrogação?
Ardem-me os olhos e, no entanto, vejo como se fosse já amanhã e todas as urgências se resumissem a um final de tarde numa sombra, onde trinam jovens casais enamorados e o passado não surja escamoteado de saudade.
Que farei eu às palavras que não conseguirei proferir porque me embola a boca com o ar pesado que sai dos pensamentos da multidão que se aglomera à entrada do abismo?
A cada passo ergo a Lua e a cada curva o calor da noite nas pedras da tarde aquece-me o imaginar.
Por vezes, sou quase pessoa.
Na ascensão do que julgamos impoluto, há uma miríade de perpendicularidades que se destinam a fazer-nos angulares, sem uma aresta imperfeita, coisas que a matemática nos faz sem necessidade, pois seremos já uma conta perfeita, à procura da subtracção que nos permita dividir um dia por inúmeros cálculos sem sentido.
No dia em que me somei, não encontrei na inversidade calcular o resultado sentado à direita do sinal.
Não seremos já o resultado de uma conta inacabada?
Só por hoje, faz de conta...
Há um pequeno ribeiro que desagua na almofada, diria que o dia está com sono e a maré alta da ressureição traz à vida os sulcos dos montes onde cresce a torga e o nome é fraco espelho da pretensão de ser rima.
É por nada aprender que tudo se ensina.
Vou dar a volta à nuvem onde me sento, ainda há pessoas com a textura do algodão doce, pudera eu fosse, sabor e louvor, para ostentar a pintura de um socalco que se pariu sem dor.
Sou da terra, do laço do passarinheiro, quando ao lado caem à dezena de milhar, que unguento guardo para desenhar na terra o sol que deseja brilhar?
Já o sonho espera ao fundo da cama, aqui só a noctivagueidade tem prioridade sobre o torpor lento que adormece.
Como eu.
Como o céu.
2017-07-20
Translação instantânea
Crónica do Nada, para ler no Correio do Porto.
Durmo baixinho, entro no sono sem que ele se aperceba, encontro à minha espera um longo caminho que me levará ao meu verdadeiro útero.
Vou voltar por entre pétalas, em poesia que floriu sem que de mim nascessem flores ou mãos.
Emudecido caminho até ao acordar, triste por saber que mesmo não glorificando a dor, há algures aqui um verso a doer, talvez por isso passe anos a ver os dias passarem.
O corrupio e sucessão de voltas e subidas e descidas do Sol e o quanto isso afecta as pessoas assoberba-me.
Continuo a ficar encantado e surpreendido com as nuvens, raios de trovão com duração de longos segundos, pequenos rios de chuva com pepitas de granizo, persistentes a boiar na correnteza, caruma e terra solta com saudade de água, fazem subir ao palato aromas de terra, molhada, paciência e persistência que parecem inundar Trás-os-Montes.
Vou lavando a cara com as memórias de paisagens que se fazem correntes.
Para mim, um dia duraria um ano.
E nesse ano iria percorrer a pé todos os trilhos que pudesse degustar, parar numa berma e sentir o vento quente, fresco, todas as estações à sombra de uma vinha, mil mundos num só bago de uva.
E nesse ano, metade dos dias seria noite e aí, por ela dentro, teria em mim as saudades de casa no cintilar das estrelas.
Deixar que a nuvem se delicie em sombras pelas nuvens e se deixe ocultar pelas formas cinzentas e azuis que parecem saídas do sonho de um pintor em constante revolução.
Será amanhã outro ano.
Espero poder polvilhar as mãos com a poeira que ainda me resta no corpo e esperar, impaciente, pelo retorno dos dias que não se medem.
Durmo baixinho, entro no sono sem que ele se aperceba, encontro à minha espera um longo caminho que me levará ao meu verdadeiro útero.
Vou voltar por entre pétalas, em poesia que floriu sem que de mim nascessem flores ou mãos.
Emudecido caminho até ao acordar, triste por saber que mesmo não glorificando a dor, há algures aqui um verso a doer, talvez por isso passe anos a ver os dias passarem.
O corrupio e sucessão de voltas e subidas e descidas do Sol e o quanto isso afecta as pessoas assoberba-me.
Continuo a ficar encantado e surpreendido com as nuvens, raios de trovão com duração de longos segundos, pequenos rios de chuva com pepitas de granizo, persistentes a boiar na correnteza, caruma e terra solta com saudade de água, fazem subir ao palato aromas de terra, molhada, paciência e persistência que parecem inundar Trás-os-Montes.
Vou lavando a cara com as memórias de paisagens que se fazem correntes.
Para mim, um dia duraria um ano.
E nesse ano iria percorrer a pé todos os trilhos que pudesse degustar, parar numa berma e sentir o vento quente, fresco, todas as estações à sombra de uma vinha, mil mundos num só bago de uva.
E nesse ano, metade dos dias seria noite e aí, por ela dentro, teria em mim as saudades de casa no cintilar das estrelas.
Deixar que a nuvem se delicie em sombras pelas nuvens e se deixe ocultar pelas formas cinzentas e azuis que parecem saídas do sonho de um pintor em constante revolução.
Será amanhã outro ano.
Espero poder polvilhar as mãos com a poeira que ainda me resta no corpo e esperar, impaciente, pelo retorno dos dias que não se medem.
2017-07-16
Sentidos cinco sentidos, proibidamente fragmentados
Crónica fragmentada, um domingo inteiro, na Bird Magazine.
I
Tento perceber em que lado de mim quer a vida que eu viva. Se pelo saltitar pardalesco de nuvem em nuvem, se pelo nebular saltitado de pardal em pardal. Aqui já nem vive o bem, nem se amortalha o mal.
Quando a vida tenta perceber de que lado vivo, respondo-lhe no calado grito do que escrevo, a vida se vive em mim habita no horizonte que construo a cada piscar de olhos, não há lugar para dimensões quando o infinito é da cor do universo que finda. Há tempo, ainda?
II
Tenho que esperar que o futuro adormeça, para só aí poder tirar-lhe da fronte, em silêncio, a madeixa que se cola à sua vida e o faz pensar ser algo a ter.
Ganha o futuro e eu, calado, à espera que acorde e eu possa fingir dormir à revelia da rotação sobre um despossuído eixo. Translado-me e por aqui me deixo.
III
Agora que o dia ausenta as sombras vítreas que me nebulam, saio no vaguear da noite optando-me vagabundo, sem amaras que não a própria vida, vou lesto e nu porque nada me veste além da luminosidade obscura que orvalha dos candeeiros solitários.
Dispo-me enquanto se vestem, do berço até aqui, peça a peça, para me deitar em palhas dormindo, a saga de levantar nada e querer poder tirar pele que seja, desabotoar corpo e salgalhar por aí como pétala ao vento em dia de tempestade.
A meio caminho encontro outros, mesma direção sentidos diferentes, eu na ânsia de me livrar do supérfluo, outros na superfluocidade de se livrarem da ânsia, sigo confiante com o que me resta enrolado debaixo do braço e um abraço a tiracolo.
Quão longe poderá estar?
IV
Meço a noite antes de me deitar. É mais curta que o sonho. Mas respeita. Pouco vale o vale a quem ora, de hora em hora, se não sabe que o sonho nasce do mar e não do cetim onde se gabam deitar.
V
É na cálida madrugada do teu olhar que vejo o nascer de um dia futuro. O alimento da curiosidade traz-se pelos ombros carregados de dúvidas e ilusões, tuas e dos bichos-papões. Enquanto a vida não te molda adulto e te vinga pelas paredes de prédios devolutos que são as ideias de outrém, ergo-te à luz da lua e advogo-te às estrelas enquanto brindo com o breve nevoeiro, que te proteja o guerreiro adormecido da tua visão do amanhã.
Tu. Criança. Sã.
I
Tento perceber em que lado de mim quer a vida que eu viva. Se pelo saltitar pardalesco de nuvem em nuvem, se pelo nebular saltitado de pardal em pardal. Aqui já nem vive o bem, nem se amortalha o mal.
Quando a vida tenta perceber de que lado vivo, respondo-lhe no calado grito do que escrevo, a vida se vive em mim habita no horizonte que construo a cada piscar de olhos, não há lugar para dimensões quando o infinito é da cor do universo que finda. Há tempo, ainda?
II
Tenho que esperar que o futuro adormeça, para só aí poder tirar-lhe da fronte, em silêncio, a madeixa que se cola à sua vida e o faz pensar ser algo a ter.
Ganha o futuro e eu, calado, à espera que acorde e eu possa fingir dormir à revelia da rotação sobre um despossuído eixo. Translado-me e por aqui me deixo.
III
Agora que o dia ausenta as sombras vítreas que me nebulam, saio no vaguear da noite optando-me vagabundo, sem amaras que não a própria vida, vou lesto e nu porque nada me veste além da luminosidade obscura que orvalha dos candeeiros solitários.
Dispo-me enquanto se vestem, do berço até aqui, peça a peça, para me deitar em palhas dormindo, a saga de levantar nada e querer poder tirar pele que seja, desabotoar corpo e salgalhar por aí como pétala ao vento em dia de tempestade.
A meio caminho encontro outros, mesma direção sentidos diferentes, eu na ânsia de me livrar do supérfluo, outros na superfluocidade de se livrarem da ânsia, sigo confiante com o que me resta enrolado debaixo do braço e um abraço a tiracolo.
Quão longe poderá estar?
IV
Meço a noite antes de me deitar. É mais curta que o sonho. Mas respeita. Pouco vale o vale a quem ora, de hora em hora, se não sabe que o sonho nasce do mar e não do cetim onde se gabam deitar.
V
É na cálida madrugada do teu olhar que vejo o nascer de um dia futuro. O alimento da curiosidade traz-se pelos ombros carregados de dúvidas e ilusões, tuas e dos bichos-papões. Enquanto a vida não te molda adulto e te vinga pelas paredes de prédios devolutos que são as ideias de outrém, ergo-te à luz da lua e advogo-te às estrelas enquanto brindo com o breve nevoeiro, que te proteja o guerreiro adormecido da tua visão do amanhã.
Tu. Criança. Sã.
2017-07-09
Trovão
Crónica de Domingo, na Bird Magazine.
Começou com as nuvens negras a ofuscarem a luminosidade da tarde, abrigado que estou do calor, do Sol e da vida durante os meses quentes, pareceu-me bom augúrio. Começo a olhar para o relógio e a forçar a passagem dos minutos, mas tudo tem o seu tempo, até o próprio tempo.
A tarde começa a cair triste e soturna, os grandes flocos cinzentos parecem empurrar os alvos para bem lá do Marão, onde mandarão os de bom coração. Aqui começam a surgir os mais escuros, um cinza azulado negro saboreado, a cor que lhes dou quando me prometem aguaceiros por meio dos bafientos dias de Verão. De repente o vento aparece a correr, abana as montras, assobia de excitação, empurra portas entreabertas (não queremos cá indecisões, “ou abertas ou fechadas!”, diz-me ele, apressado), sacode os cabelos dos transeuntes, fá-los apertar a parca e veraneada roupa ao corpo. Quando vai já longe, perdendo um pouco mais de tempo a enrodilhar uma bandeira desfraldada, ouço o ribombar da trovoada. Os meus pelos eriçam-se, não de medo ou instinto, não de invocação a uma sossegada Bárbara, mas de excitação, um quase poder saborear a tensão, o rasgar numa fisgada aguda e repentina o ar que me separa do nada e, depois, o estremecimento, o ofuscamento ainda e o sacudir de todas as células do meu corpo.
Assim fosse o silêncio. Repentino. Intimidador. Acompanhado do infinito.
- Se vais sair leva o carro, vais molhar-te! - Sou parco de audição no que concerne a conselhos que não quero seguir. Abro a janela da sala, ergo o estore, pouso as mãos no parapeito frio e já molhado, encosto a cabeça à chuva que cai e sorrio. De passo apressado, quem nunca se molhou corre sobre os paralelos já cobertos de água, o guarda-chuva encolhe-se sobre si mesmo, as varetas soluçam e tremem, enferrujadas pelo não uso, como a palavra e o amor. As caleiras engasgam-se no vómito de expelir o que do céu cai, a chuva cai apressada consciente da brevidade do momento de precipitação nesta estação e saio decido à rua.
Levo um pequeno guarda-chuva como medida de defesa da mesologia. Quero lá saber se chove? Aliás, quero saber que chove e no meio disto, quero a chuva em mim, de cima a baixo!
Entro no terreno como dono baldio, por esta altura os pés já estão encharcados e não faço a mínima intenção de me desviar das poças de água ou da que corre no carreiro que se foi carreirando por eu ali passar. As flores vergadas ao peso da chuva erguem-me o olhar e parecem agradecidas pelo facto de me preocupar em não as calcar. Por breves segundos questiono-me pelas formigas que ontem vi, atarefadas, a tratar da vida da rainha e, como leais e inconscientes súbditos, esquecendo-se delas próprias.
Chego a outro terreno onde a caruma flutua contente nas barragens que o terreno levemente inclinado permite. Afundo-me um pouco na terra e sorrio. O guarda-chuva está fechado.
Encosto a mão à casca de um pinheiro na parte onde está molhado, afago-o e cheiro-o. Este odor que se ouve inebria-me. Felizmente tudo se recolhe ou corre apressado de olhos no chão, fico eu e a chuva e o silêncio de me ouvir chover também. Com o guarda-chuva pendurado num ramo firme e baixo, abraço o pinheiro, sujo-me e molho-me ainda mais.
Fecho os olhos por momentos. Rio-me um pouco. Choro um pouco também. A chuva continua a cair, nada me separa do céu agora que a água me conduz as vontades ao etéreo e, por momentos, quando a eternidade parece querer adormecer, deixo-me silenciar o corpo e adormecer. Quase como se te estivesse a escrever.
Começou com as nuvens negras a ofuscarem a luminosidade da tarde, abrigado que estou do calor, do Sol e da vida durante os meses quentes, pareceu-me bom augúrio. Começo a olhar para o relógio e a forçar a passagem dos minutos, mas tudo tem o seu tempo, até o próprio tempo.
A tarde começa a cair triste e soturna, os grandes flocos cinzentos parecem empurrar os alvos para bem lá do Marão, onde mandarão os de bom coração. Aqui começam a surgir os mais escuros, um cinza azulado negro saboreado, a cor que lhes dou quando me prometem aguaceiros por meio dos bafientos dias de Verão. De repente o vento aparece a correr, abana as montras, assobia de excitação, empurra portas entreabertas (não queremos cá indecisões, “ou abertas ou fechadas!”, diz-me ele, apressado), sacode os cabelos dos transeuntes, fá-los apertar a parca e veraneada roupa ao corpo. Quando vai já longe, perdendo um pouco mais de tempo a enrodilhar uma bandeira desfraldada, ouço o ribombar da trovoada. Os meus pelos eriçam-se, não de medo ou instinto, não de invocação a uma sossegada Bárbara, mas de excitação, um quase poder saborear a tensão, o rasgar numa fisgada aguda e repentina o ar que me separa do nada e, depois, o estremecimento, o ofuscamento ainda e o sacudir de todas as células do meu corpo.
Assim fosse o silêncio. Repentino. Intimidador. Acompanhado do infinito.
- Se vais sair leva o carro, vais molhar-te! - Sou parco de audição no que concerne a conselhos que não quero seguir. Abro a janela da sala, ergo o estore, pouso as mãos no parapeito frio e já molhado, encosto a cabeça à chuva que cai e sorrio. De passo apressado, quem nunca se molhou corre sobre os paralelos já cobertos de água, o guarda-chuva encolhe-se sobre si mesmo, as varetas soluçam e tremem, enferrujadas pelo não uso, como a palavra e o amor. As caleiras engasgam-se no vómito de expelir o que do céu cai, a chuva cai apressada consciente da brevidade do momento de precipitação nesta estação e saio decido à rua.
Levo um pequeno guarda-chuva como medida de defesa da mesologia. Quero lá saber se chove? Aliás, quero saber que chove e no meio disto, quero a chuva em mim, de cima a baixo!
Entro no terreno como dono baldio, por esta altura os pés já estão encharcados e não faço a mínima intenção de me desviar das poças de água ou da que corre no carreiro que se foi carreirando por eu ali passar. As flores vergadas ao peso da chuva erguem-me o olhar e parecem agradecidas pelo facto de me preocupar em não as calcar. Por breves segundos questiono-me pelas formigas que ontem vi, atarefadas, a tratar da vida da rainha e, como leais e inconscientes súbditos, esquecendo-se delas próprias.
Chego a outro terreno onde a caruma flutua contente nas barragens que o terreno levemente inclinado permite. Afundo-me um pouco na terra e sorrio. O guarda-chuva está fechado.
Encosto a mão à casca de um pinheiro na parte onde está molhado, afago-o e cheiro-o. Este odor que se ouve inebria-me. Felizmente tudo se recolhe ou corre apressado de olhos no chão, fico eu e a chuva e o silêncio de me ouvir chover também. Com o guarda-chuva pendurado num ramo firme e baixo, abraço o pinheiro, sujo-me e molho-me ainda mais.
Fecho os olhos por momentos. Rio-me um pouco. Choro um pouco também. A chuva continua a cair, nada me separa do céu agora que a água me conduz as vontades ao etéreo e, por momentos, quando a eternidade parece querer adormecer, deixo-me silenciar o corpo e adormecer. Quase como se te estivesse a escrever.
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