Crónica de domingo na Bird Magazine.
Só ouço o cascalho ranger debaixo dos meus pés.
Os godos disformes fazem-me por vezes resvalar e tropeçar no ar como se inebriado me deixasse levar pelo vento e este, como sempre faz com todos os sonhadores, me fosse atirando contra as esquinas do tempo enquanto procuro aquilo pelo que o tempo me fez vir aqui.
Deixo cair a caneta e o bloco. Na verdade caem os dois, tenho o vício de trazer a caneta presa ao fio do caderno, vergo-me com o que as dores de costas me permitem e apanho-o novamente.
Eu e as palavras somos como um ioiô, juntas e afastadas pela gravidade que se enrola nas mãos e atrai ou repele as letras para, suspeito, simples deleite de me visualizar atrapalhado com a cadência sincronizada e, por vezes, pendular dos pensamentos.
Era o cascalho, dizia atrás, que me ouvia os passos falheiros enquanto eu subia o caminho, ladeado de uns muros de granito feito com pedras sobrepostas quase ao acaso, mas como em tudo o que existe debaixo das nossas pálpebras, nada se aleatoriza, ali havia traços ainda que não fossilizados de mãos e suores alagados de cansaço onde o musgo se encostou e cresceu para, vaidosamente, reter minúsculas gotas de orvalho que reflectem o céu e o meu olhar, como para abrigarem por ali pequenas aranhas que por lá fazem vida, alheias à minha vida e passagem. Aqui e ali um bosteiro, moscas que se debatem em zangadas zunidelas sobre o abatido resto de palha que algum exemplar vacum evacuou.
À terra o que é da terra. Do resto de uns far-se-á vida para outros.
E não me bastavam exemplos para o olhar apaixonado sobre a bosta, mas o calor que se avizinhava assim que o Sol se erguesse acima dos plátanos fez-me alçar pernas e andar lesto no resto do carreiro, até porque o godo terminava e substituía-se por uma manta de pedras polidas desordenadas e desconexas, sem o trato fino de ourives dos artífices da calçada portuguesa.
Passo por um contador de água cuja portinhola batia no plástico baço comido pelo Sol. Acredito que ninguém lá passe para medir o consumo, até porque ali ao lado, cristalino, puro, segue um regato no meio de um rego, ora de pedra, ora de terra, onde me parece que os animais matam a sede. Ora eu, nem mais nem menos animal que os outros, porque o portão está aberto, talvez nem feche tendo em conta o pender abandonado apenas de uma dobradiça feita de borracha escura, faço-me entrante e sigo pelas pegadas do gado, fugindo daqui e dali de largos poios, até chegar ao regato.
Pouso o caderno, a caneta escorrega e cai à água. Deixo-a ficar, terá sede tanta quanto eu. Encosto os joelhos na pedra e debruço-me até a água que passa a golfadas largas me molhar boca, beiços e nariz, fazendo-me engasgar, tossir, cuspir e por fim rir, à gargalhada. Há sempre qualquer coisa de criança em nós que faz expelir bofes e tosses para que o ar se enfie até aos pulmões e se hematose para que o mundo em nós vive tal como previsto, digo eu, que nem percebo nada disto.
- Olhe que a sede mata. – Ouço aturdido e assustado e por pouco não me faço gado e não deixo cair ali mesmo partes bostadas de mim.
- Desculpe. Estava com muita sede. Vi o portão aberto. Entrei. Bebi. – Respondi curto, rápido, com estes mesmos pontos finais que a terra há-de comer.
- Lá por estar aberto não quer dizer que seja maninho oh freguês.
- Eu pago-lhe a água, desculpe.
- E a água lá se paga? É de quem a beber e a deixe ficar para sede tiver. Ora essa.
- Desculpe. Mas fico em quê? No beber ou no ter bebido?
Solta-se uma gargalhada daquela cara feita de pele enrugada onde descansava sujidade e pelos barbados onde a navalha não chegava.
- Vá lá homem, estava a brincar consigo. Que o traz aqui?
Desconfiado e assustado, engulo o medo e atiro qualquer coisa como isto
- Eu nem sei, vim por aí atrás de alguma coisa e encontro-me aqui, pés na erva, mãos na cintura e cabeça debaixo do chapéu.
- Esse caderno é seu?
Aponta para o que estava em cima do murete, com a caneta ainda a bailar na água como um anzol à espera de espécies piscícolas, sem medo de se afogar.
- Sim, é.
Apanho-o, a caneta pinga, meto-o debaixo do braço e começo a andar. Vejo que a minha altura é bastante superior à dele faço-me maior com dois inspiradelas valentes na cavidade pulmonar e passo meio tolhido de medo meio tolhido de cagaço, não fosse lá sair daquelas mangas velhas e gastas uma qualquer navalha ou espigão ou qualquer outra coisa que não sei o nome mas que assusta na mesma.
Ele desvia-se. Passo por ele.
- Bom dia e obrigado.
- Bom dia. Olhe lá, que escreve você?
- Coisas.
- Essas coisas lêem-se?
- Era isso que queria, que alguém as lesse.
- Você não as lê?
- Claro, ora que caral... – Quase se me destravava a língua sem querer.
- Então alguém as lê.
- Não é isso. – Paro com a cara um pouco voltada para baixo. – É diferente.
- Posso ler?
Olho para ele. Não sei que me surpreenda mais, se aquele velho carcomido pelo tempo saber ler, se alguém perguntar para ler o que escrevo. Volto para trás, dou meia dúzia de unidades de passos e entrego-lhe o caderno. Ele pega-o, coloca-o debaixo do braço, encostado ao sovaco.
- É isto que quero ler. – E coloca aquelas mãos ásperas na minha cara esbranquiçada, parecia que o inverno tinha chegado mais cedo, olha-me fundo nos olhos, tão fundo que tive medo que descobrisse coisas que nunca tive ousadia de escrever.
Permaneceu ali uma quantidade de tempo que não sei quantificar, teria sido um momento ou algumas vidas? Mãos ásperas na face e um olhar que se permitia ver-me, a mim!, pelos olhos dele.
- Faltam-lhe uns parágrafos e vão dizer que a pontuação não deve ser feita assim, mas olha que a tem quase toda escrita.
Baixou as mãos, raspando-as pela minha cara, piscou os olhos humedecendo-os, tirou o caderno debaixo do braço e colocou-o debaixo do meu perante a minha perplexão e catatonia. Começou a descer o carreiro, deixando o portão de madeira aberto como sempre deve ter estado, enquanto eu me perguntava o que é que eu teria quase tudo escrito? Vejo-o parar, voltar-se, olhar-me, sorrir, dizer:
- A vida.
2016-06-05
2016-06-02
2016-05-29
Retalhos omnipresentes da capicua
Crónica de domingo na Bird Magazine.
Soçobro por entre a chuva e o sol, terra e ar. Que elemental e elementário se fracciona em dígitos que não sabemos decifrar, cifrar, digerir e aglutinar?
A questão moraliza, porquanto de resposta nos faça encontrar em nós um pouco mais de self, crescer a consideração, decrescer a virtualização, destruição de imagens reflexivas e descobrir que o melhor de cada um está em si próprio e não no reflexo de uma imagem que julgamos ser ou, pior (?), no reflexo em nós daquilo que outros são sem o serem e sem o saberem...
Sempre nós, sem nós que nos atem.
Tens nas asas o despertador que fará acordar-te para a inevitabilidade do voo sincronizado entre o que és e o que te são.
Os dedos intervêm quando a química obriga a trocar o horizonte pelo crepúsculo e troçar do futuro, a marca do que me visto tem traço onde os números não me medem, são coordenadas para as páginas e capítulos onde laureio obtenção da nudez com que tento vestir-me.
Concluo o folhetim sem sequer ter noção de onde comecei ou se comecei. De caminhos, apenas os que sigo quando vagabundeio sem me deixar apanhar pela solidão, pé ante pé, até chegar ao local de onde parti, a mim mesmo.
Vou a mim, volto já. Talvez com mais estrelas do que as levei no bolso, ontem, quando as palavras se sentiam banais e eu, contigo, era certamente mais.
Anseio pela maior junção de palavras que me permita exprimir e não espremer o sabor do fruto dos meus dias. Se cada olhar me prende pelo infinito, como poderei esgrimir argumentos entre o incalculável e imensurável? Os dias são eternos, cada milésimo de segundo replica-se eternamente, sempre à espera que eu volte atrás e retome a vida que ficou naquele(s) instante(s). Engana-se quem da vida conta horas e anos. A vida é o constante movimentar pelo universo e multiverso, de forma tão rápida que nos encontramos a nós próprios em todos os locais no mesmo instante...
A omnipresença representa-se pela inexistência, algo a que me reporto para me encontrar. Não estou aqui, inexistirei ali.
Entrego corajosamente à solidão, o medo, a timidez e a espuma que sobrou da última maré. Faz-se mar, mesmo a água que nunca choveu, numa espécie de arremesso da covardia onde se obtém apenas como eco o silêncio e a revoltosa ignobilidade de um sopro em forma de aroma de café. Cobre-te, criança, o frio da insatisfação pode hipotermar-te as ideias e os neologismos.
Capicuo-me de forma às minhas ideias utópicas fazerem sentido ou, talvez, seja apenas o meu desejo de da trindade santíssima sobrar um numeral que não menospreze quem se deixa adormecer de pé ou, sabiamente, se deita e diz, com a certeza que une os loucos e aqueles estranhos seres desassociados da sociedade actual, "por hoje já está, amanhã deus dará".
Precisamos do nada para descobrirmos e desmascararmos o tudo.
Previsão para os próximos minutos: horizonte nublado pelo vapor da chávena de café, calor na palma das mãos, humidade relativa em crescendo , pelo menos até o ar quente que a combustão da lenha que crepita me trouxer memórias de tempos de outros tempos, como agora, quando não sei se estou já do lado de cá da vida ou já adormecido a olhar pela última vez para trás e reverenciar a visão deste pequeno berlinde azul antes de rumar ao inexistente infinito.
Sobra pouco, muito pouco, de peças caídas do meu relógio.
Creio ter acreditado que o tempo era medido por mim e, talvez por isso, dias de hoje me saibam a segundos quando, por sua vez, segundos de viva Vivida em catraio me estejam ainda nas covas dos dentes e no fundo da retina circundados de verde.
Antes, um campo cheio de água era poço de aventuras, hoje é ponto inicial para, não se perca a rima, uma conversa banal.
Tempos houveram, tempos e nós, de admiração e pacatez, entre a vida e o que o caminho de terra em nós fez.
Agora sobramos adultos, campos cheios de água na qual não sabemos brincar.
Adultos.
Vultos.
Deixo-me agora regar, aproxima-se caronte, mas de mim leva apenas uma barca sem água onde navegar, nem uma moeda, coitado, de cego não sabe que o caminho se vislumbra melhor de joelhos, após uma queda.
Sobra pouco, muito pouco e por isso me sinto pleno, mais pleno.
A questão moraliza, porquanto de resposta nos faça encontrar em nós um pouco mais de self, crescer a consideração, decrescer a virtualização, destruição de imagens reflexivas e descobrir que o melhor de cada um está em si próprio e não no reflexo de uma imagem que julgamos ser ou, pior (?), no reflexo em nós daquilo que outros são sem o serem e sem o saberem...
Sempre nós, sem nós que nos atem.
Tens nas asas o despertador que fará acordar-te para a inevitabilidade do voo sincronizado entre o que és e o que te são.
Os dedos intervêm quando a química obriga a trocar o horizonte pelo crepúsculo e troçar do futuro, a marca do que me visto tem traço onde os números não me medem, são coordenadas para as páginas e capítulos onde laureio obtenção da nudez com que tento vestir-me.
Concluo o folhetim sem sequer ter noção de onde comecei ou se comecei. De caminhos, apenas os que sigo quando vagabundeio sem me deixar apanhar pela solidão, pé ante pé, até chegar ao local de onde parti, a mim mesmo.
Vou a mim, volto já. Talvez com mais estrelas do que as levei no bolso, ontem, quando as palavras se sentiam banais e eu, contigo, era certamente mais.
Anseio pela maior junção de palavras que me permita exprimir e não espremer o sabor do fruto dos meus dias. Se cada olhar me prende pelo infinito, como poderei esgrimir argumentos entre o incalculável e imensurável? Os dias são eternos, cada milésimo de segundo replica-se eternamente, sempre à espera que eu volte atrás e retome a vida que ficou naquele(s) instante(s). Engana-se quem da vida conta horas e anos. A vida é o constante movimentar pelo universo e multiverso, de forma tão rápida que nos encontramos a nós próprios em todos os locais no mesmo instante...
A omnipresença representa-se pela inexistência, algo a que me reporto para me encontrar. Não estou aqui, inexistirei ali.
Entrego corajosamente à solidão, o medo, a timidez e a espuma que sobrou da última maré. Faz-se mar, mesmo a água que nunca choveu, numa espécie de arremesso da covardia onde se obtém apenas como eco o silêncio e a revoltosa ignobilidade de um sopro em forma de aroma de café. Cobre-te, criança, o frio da insatisfação pode hipotermar-te as ideias e os neologismos.
Capicuo-me de forma às minhas ideias utópicas fazerem sentido ou, talvez, seja apenas o meu desejo de da trindade santíssima sobrar um numeral que não menospreze quem se deixa adormecer de pé ou, sabiamente, se deita e diz, com a certeza que une os loucos e aqueles estranhos seres desassociados da sociedade actual, "por hoje já está, amanhã deus dará".
Precisamos do nada para descobrirmos e desmascararmos o tudo.
Previsão para os próximos minutos: horizonte nublado pelo vapor da chávena de café, calor na palma das mãos, humidade relativa em crescendo , pelo menos até o ar quente que a combustão da lenha que crepita me trouxer memórias de tempos de outros tempos, como agora, quando não sei se estou já do lado de cá da vida ou já adormecido a olhar pela última vez para trás e reverenciar a visão deste pequeno berlinde azul antes de rumar ao inexistente infinito.
Sobra pouco, muito pouco, de peças caídas do meu relógio.
Creio ter acreditado que o tempo era medido por mim e, talvez por isso, dias de hoje me saibam a segundos quando, por sua vez, segundos de viva Vivida em catraio me estejam ainda nas covas dos dentes e no fundo da retina circundados de verde.
Antes, um campo cheio de água era poço de aventuras, hoje é ponto inicial para, não se perca a rima, uma conversa banal.
Tempos houveram, tempos e nós, de admiração e pacatez, entre a vida e o que o caminho de terra em nós fez.
Agora sobramos adultos, campos cheios de água na qual não sabemos brincar.
Adultos.
Vultos.
Deixo-me agora regar, aproxima-se caronte, mas de mim leva apenas uma barca sem água onde navegar, nem uma moeda, coitado, de cego não sabe que o caminho se vislumbra melhor de joelhos, após uma queda.
Sobra pouco, muito pouco e por isso me sinto pleno, mais pleno.
2016-05-22
A ti leitor
Crónica de domingo, na Bird Magazine.
O
quotidiano pura e simplesmente não me chega para todos os dias que quero viver.
De
noite, preso apenas pelos fios que vão da pequena cruz de madeira a cada membro
do meu corpo, deixo-me escapar até onde me permite a lei da física e, aí, a
flutuar com olhos num dos universos que compõem o multiverso interior, suspiro
com saudades de uma casa no futuro com alpendre de poeiras estelares e vista
sobre o presente.
Passageiro
de um turbilhão, sabes leitor, ausculto as horas que passam com incontável
curiosidade e de nada me socorro para te contar que nada te sei dizer ou
opinar, eu gosto apenas de viver e, também, respirar.
A
manhã trará os primeiros pingos de luz, é com essa chuva que a noite em mim se
reduz.
Podia
contar-te das subidas e descidas num só minuto de claridade, dos olhares
olhados por detrás da retina, da admiração da simplicidade escondida atrás da
cortina. Mas não, eu vou gastando a gravidade com os passos em torno de
palavras e letras que jamais soube possuir porque, pasma-te, eram elas que me
possuíam! Ainda que devaneie, este é o meu romance, as minhas mãos e o meu
sangue. Por isso tenho-te trazido no meu colo, percorro as mesmas ruas do
passado e vejo que lá já não mora o futuro pois as ervas cresceram por entre o
empedrado, tens visto? Ainda ontem, ou há anos, subi a rua, dei um aperto de
mão a um vizinho que me habituei ver grande e agora o grande sou eu, os braços
apoiados num portão de ferro velho com tinta nova, o ladrar do cão surdo e cego
de um olho, o sorriso… Ai o sorriso, o vislumbre da eternidade, a recordação de
alguém que se foi daqui tenro na idade.
Isto
é a minha crónica, ou o que sou, a diferença é fugaz, nada apreço ao custo do
preço de tilintar nos bolsos trocados em forma de berlindes. Dizia-te, antes do
pequeno desvio na narrativa, que ali no cima da rua, já depois de ter feito
inversão de marcha no final e olhar agora pelo espelho retrovisor vi a minha
cara, um pouco de dor, o reflexo de uns putos a correrem atrás de uma bola, o
inclinado cimento da entrada da garagem onde ainda estão pousadas as nossas
bicicletas, as bolas de ténis e de futebol, as caricas com cascas de laranja e
cera de vela, os pedaços de tijolo vermelho com que desenhávamos as metas
imaginárias, os baralhos de cartas e as velhas ferramentas de brincar quando
sonhávamos que em grandes íamos ser homens de trabalhar.
Dei-me
por ali aos eucaliptos, como me dou agora a ti, transparente no que não sei
ser, por vezes escrevo-me na expectativa de gostares, sei lá, de por momentos
sentires a porta por onde espreito e por ela entrares.
Sê
bem vindo, ou bem-vindo, eu vivo de acordos feitos comigo mesmo, talvez por
isso me sinta bem a escrever, deitado, no meu ermo.
Hoje,
sábado, enquanto ao fundo o ruído branco se transporta e barra a tarde
barulhenta da azáfama dos vizinhos, felizes, como eu, deixo-me languidamente
sucumbir à parte de mim que te vê enquanto lês estas linhas e, esforçado, ter-te
agora a sorrir
Enquanto
eu, e também tu, não acordarmos deste dia que se esvai no tecto das vidas que
temos vivido por cá, voluntária ou involuntariamente, deixo-te as minhas
palavras que são a crónica de tudo aquilo que sou. E digo sou com vaidade,
afinal, entre ontem e amanhã, hoje é a minha idade e é com ela que me deito a
cada passo fora da porta da entrada, passando pelo alpendre, socorrido de um
fio de ariadne prateado, por vezes manietado, na minha e nossa senda de
percorrermos os destinos com a certeza que em tudo o que faço a distância de
mim a ti é apenas um abraço.
Olha
esta chuva que cai
silenciosamente
por
entre as cores do Sol da manhã,
as
pedras frias da casa firme
o
odor a futuro que translucida no teu olhar.
Olha
a placidez do branco no andar
os
incontáveis amanhãs
nas
letras fugazes que me aprisionam.
Olha
a luz reflectida no muro amarelo
o
espectro não visível na retina
pelos
veículos que veiculam ruído.
Onde pernoitará agora a nuvem que ondula na parede?
Onde pernoitará agora a nuvem que ondula na parede?
2016-05-21
2016-05-15
Segredos
Crónica de domingo na Bird Magazine.
Começo por procurar trechos já escritos, palavras engavetadas no fundo da prateleira para onde atiro muito do que fui e já nem me lembro ser. À flor ficam apenas algumas letras que penso saber de cor, mas é engano, meu e das dunas que se formam nas minhas mãos. O nevoeiro adensa-se com a recordação leve e frágil do momento actual. O que permanece é sempre aquele que se quer igual e, por isso, nada que se recorde nos instantes actuais pode ascender a ser eterno enquanto o infinito ainda não tiver nascido.
Assim, porque nada é crónico, entro devagar pela folha branca, pouso as nuvens e o sextante, bato os pés no tapete enrugado e deixo-me cair ao vento como se uma nuvem me fosse amparar a queda ondulada. O café aquecido e as tostas a boiar por entre a espuma, do café e dos dias, enquanto o açúcar, deliciado, se deixa derreter lentamente, no café e na boca. Era capaz de viver para sempre assim. Perdão, era capaz de deixar a vida viver-se para sempre, assim, como se os dias se pudessem vestir da forma como a vida se veste de mim.
Custa-me acreditar que as minha mãos se deixem quedar na rugosidade do muro enquanto escolho qual das histórias escrever. Acumulo os episódios de tudo o que não chove e talvez isso não seja salutar, mas que fazer às opiniões que não formo e, como tal, não escrevo? De repente, porque o passado gosta de se emoldurar à gente como um nevoeiro que se dissipa de cada vez que desviamos o olhar da encosta, desfaço a curva alcatroada e entro de novo na mocidade física por onde passei rápido de bicicleta.
Já nada mais me assusta, nem o medo, enquanto existirem acenos e apertos de mão a resgatarem os fins de tarde passados a circundar o espaço bicicleticamente traçado numa qualquer entrada de garagem.
Vejo-a fitar-me, sei que por detrás daqueles olhos cansados por onde muita vida entrou e retinou há um esforço de menina em encontrar-me nos velhos escaparates de memória. A caminho de uma reentrância noutra vida a memória vai-se tornando mais espaçada, quase como se o corpo pressentisse a proximidade de uma despedida e desejasse seguir viagem com a alma. Na verdade, cada qual na sua direção, um no infinito e outro no finito, ambos partes polarizadas de uma existência em quem tentamos discernir início e fim, de onde vimos e para onde vamos, sem nunca podermos sequer apresentar a vida à eternidade porque nem numa, nem noutra, podemos entrar e carinhosamente acariciar a face, pois as mãos são os átomos onde a energia volita e se desfaz em órbitas.
A rapidez da sombra nas janelas, chão, bancos e pessoas, das árvores, que por mim passa deixa-me atónito. Há um burburinho que se pode saborear. Por favor, parte o nascer do dia em dois, para que amanheça de novo quando eu, lentamente, começar a anoitecer.
O Sol vai já descendo sobre esta abóbada onde projectamos nuvens que nos fazem sonhar além delas. Sabe a lareira, o burburinho. Não o burburinho, mas a pronúncia, a forma como as vozes chegam até aos meus ouvidos.
Uma sílaba e um cheiro a fumo de eucalipto queimado.
Outra sílaba, a visão de restos de poda tardia ardendo no final de tarde.
Uma interjeição, já o restolho em brasa se cala sob a imponente força da voz do frio da noite que cai. Serpenteando pela paisagem, vou antecipando a imagem de me ver almoçar para não perder tempo no almoço. Calam-se as vozes.
O burburinho, como as brasas, esmorecem e já não aquecem. Uma voz metálica soluça sílabas ao ritmo de um algoritmo, como quem fala e não sabe o que diz.
Eu. Eu vou sabendo o que digo. Só não sei para onde não corro.
Vou contar-te um segredo, de forma aberta, para que não esqueças, do segredo e de ti.
Quando o frio te come o andar e a terra te mastiga os passos pela neve fria que começou a levantar, quando, e só mesmo nesse momento, vês o céu pintar-se de laranja e o Sol se esforça para te iluminar a cara fria, fecha os olhos, essa vida ninguém a tira a ti.
Dá alguns passos na certeza de um pé seguir o outro.
O universo que és habita o universo que tens e no infinito espaço entre ambos está o sublime, a ausência que a presença oprime. Um dia, a palavra que escrever será a palavra que voou. Será atrás dela que irei.
É um segredo.
Eu sei.
Começo por procurar trechos já escritos, palavras engavetadas no fundo da prateleira para onde atiro muito do que fui e já nem me lembro ser. À flor ficam apenas algumas letras que penso saber de cor, mas é engano, meu e das dunas que se formam nas minhas mãos. O nevoeiro adensa-se com a recordação leve e frágil do momento actual. O que permanece é sempre aquele que se quer igual e, por isso, nada que se recorde nos instantes actuais pode ascender a ser eterno enquanto o infinito ainda não tiver nascido.
Assim, porque nada é crónico, entro devagar pela folha branca, pouso as nuvens e o sextante, bato os pés no tapete enrugado e deixo-me cair ao vento como se uma nuvem me fosse amparar a queda ondulada. O café aquecido e as tostas a boiar por entre a espuma, do café e dos dias, enquanto o açúcar, deliciado, se deixa derreter lentamente, no café e na boca. Era capaz de viver para sempre assim. Perdão, era capaz de deixar a vida viver-se para sempre, assim, como se os dias se pudessem vestir da forma como a vida se veste de mim.
Custa-me acreditar que as minha mãos se deixem quedar na rugosidade do muro enquanto escolho qual das histórias escrever. Acumulo os episódios de tudo o que não chove e talvez isso não seja salutar, mas que fazer às opiniões que não formo e, como tal, não escrevo? De repente, porque o passado gosta de se emoldurar à gente como um nevoeiro que se dissipa de cada vez que desviamos o olhar da encosta, desfaço a curva alcatroada e entro de novo na mocidade física por onde passei rápido de bicicleta.
Já nada mais me assusta, nem o medo, enquanto existirem acenos e apertos de mão a resgatarem os fins de tarde passados a circundar o espaço bicicleticamente traçado numa qualquer entrada de garagem.
Vejo-a fitar-me, sei que por detrás daqueles olhos cansados por onde muita vida entrou e retinou há um esforço de menina em encontrar-me nos velhos escaparates de memória. A caminho de uma reentrância noutra vida a memória vai-se tornando mais espaçada, quase como se o corpo pressentisse a proximidade de uma despedida e desejasse seguir viagem com a alma. Na verdade, cada qual na sua direção, um no infinito e outro no finito, ambos partes polarizadas de uma existência em quem tentamos discernir início e fim, de onde vimos e para onde vamos, sem nunca podermos sequer apresentar a vida à eternidade porque nem numa, nem noutra, podemos entrar e carinhosamente acariciar a face, pois as mãos são os átomos onde a energia volita e se desfaz em órbitas.
A rapidez da sombra nas janelas, chão, bancos e pessoas, das árvores, que por mim passa deixa-me atónito. Há um burburinho que se pode saborear. Por favor, parte o nascer do dia em dois, para que amanheça de novo quando eu, lentamente, começar a anoitecer.
O Sol vai já descendo sobre esta abóbada onde projectamos nuvens que nos fazem sonhar além delas. Sabe a lareira, o burburinho. Não o burburinho, mas a pronúncia, a forma como as vozes chegam até aos meus ouvidos.
Uma sílaba e um cheiro a fumo de eucalipto queimado.
Outra sílaba, a visão de restos de poda tardia ardendo no final de tarde.
Uma interjeição, já o restolho em brasa se cala sob a imponente força da voz do frio da noite que cai. Serpenteando pela paisagem, vou antecipando a imagem de me ver almoçar para não perder tempo no almoço. Calam-se as vozes.
O burburinho, como as brasas, esmorecem e já não aquecem. Uma voz metálica soluça sílabas ao ritmo de um algoritmo, como quem fala e não sabe o que diz.
Eu. Eu vou sabendo o que digo. Só não sei para onde não corro.
Vou contar-te um segredo, de forma aberta, para que não esqueças, do segredo e de ti.
Quando o frio te come o andar e a terra te mastiga os passos pela neve fria que começou a levantar, quando, e só mesmo nesse momento, vês o céu pintar-se de laranja e o Sol se esforça para te iluminar a cara fria, fecha os olhos, essa vida ninguém a tira a ti.
Dá alguns passos na certeza de um pé seguir o outro.
O universo que és habita o universo que tens e no infinito espaço entre ambos está o sublime, a ausência que a presença oprime. Um dia, a palavra que escrever será a palavra que voou. Será atrás dela que irei.
É um segredo.
Eu sei.
2016-05-08
Amem
in Bird Magazine
Vou ali, sem sair daqui, onde me desloco sem viajar, onde sou sem necessidade de estar, pelo simples prazer de me encontrar comigo mesmo e dizer: deixaste esvair um dia sem que apenas um e um só rápido segundo te ondulasse um sorriso na carne.
Estou aqui, sem sair dali, para onde viajei sem me deslocar, onde estou com necessidade de ser.
É por isto que admiro a tenacidade dos pastores, mesmo os sem cajado, capa ou rebanho. Quando já todas as luzes se apagaram, suas trindades reais que se ocidentalizaram, a ascensão de uma sofrida mãe e a morte de um artesão, restam os pastores como verdadeiros guardiões de um regresso, imaculado ou puritano. Perscrutando sob a pala do chapéu as faces e olhando com a sabedoria que só as noites estreladas lhes dão, quem sabe de onde virá novo burrico carregando dores de parir, puxado por um gaipirador que de mãos feitas de aparas alcofará um qualquer ninho onde possa nascer um, de muitos, que lhes diga, novamente, aos pastores, não a nós, sedes livres e, por isso, reis de vós mesmos. Não existe outro reino, apenas este, que nasce entre qualquer abraço ou beijo de quem se ama mais do que aquilo que possui.
Voltar, volitar, volver, entre diásporas e inacabadas conjugações que oscilam entre uma aberta e um aguaceiro. De quanto sol precisa um arco-íris de tons infinitos? A que saberão os limites do inalcançável diâmetro da circunferência da onda que se forma quando, quase vagabundeado, atiro mais uma pedrita a este lago a que chamam vida?
Não me contabiliza a chuva, nem tão pouco o sol, a minha conta corrente flui sem grandes cálculos, um dia traz outro e Salomão sentado à sombra do conquistado suspira e anseia ser um dos lírios do campo.
Longe, entre mim e o gume, a vida que se expressa como um sussurro ou um torpor, ninguém nada nunca sabe abrir o dia sem chuviscar dor.
O tempo entrega-me, em mãos, um caderno com tempos escritos em anos que não contei.
Cada palavra um eco.
Um eco de sons que não recordo ter frequentado. Apraz-me, o cheiro e a simplicidade destas linhas pautadas, como que traçando latitudes imaginárias onde poderiam, apenas, repousar incógnitas letras que acomodei à sombra de luzes menos brilhantes e de noites mais longas.
Nunca é tarde para nos encontrarmos ao largo deste zodíaco.
Vou entregar-te a chave da vida,
era minha
ofereço-ta,
para que encerres o capítulo
de caneta caída,
finda a batalha
de que nos serve a luta?
Gosto da fluência das rugas na face, cada sulco dermático um trilho, uma vontade, um percurso percursiado e uma palavra nova, que tento reduzir ao mesmo denominador: Viver.
Gosto do inaudível tique taque com que Deus brindou o Universo, um dia de cada vez, o amor nosso de cada dia nos dai hoje, porque o pão esse sairá das mãos, salgado pelo suor de quem perdoa os seus devedores.
Gosto da curiosidade sadia de uma criança que me pergunta o que é o infinito. E a resposta não iniciada nem finalizada, como quem se aguarda pela intemporalidade que espreita a cada semi cerrar dos olhos quando se sonha em Viver.
O amor nosso de cada dia nos dai hoje. E se não for pedir muito, amanhã também.
Amem.
Vou ali, sem sair daqui, onde me desloco sem viajar, onde sou sem necessidade de estar, pelo simples prazer de me encontrar comigo mesmo e dizer: deixaste esvair um dia sem que apenas um e um só rápido segundo te ondulasse um sorriso na carne.
Estou aqui, sem sair dali, para onde viajei sem me deslocar, onde estou com necessidade de ser.
É por isto que admiro a tenacidade dos pastores, mesmo os sem cajado, capa ou rebanho. Quando já todas as luzes se apagaram, suas trindades reais que se ocidentalizaram, a ascensão de uma sofrida mãe e a morte de um artesão, restam os pastores como verdadeiros guardiões de um regresso, imaculado ou puritano. Perscrutando sob a pala do chapéu as faces e olhando com a sabedoria que só as noites estreladas lhes dão, quem sabe de onde virá novo burrico carregando dores de parir, puxado por um gaipirador que de mãos feitas de aparas alcofará um qualquer ninho onde possa nascer um, de muitos, que lhes diga, novamente, aos pastores, não a nós, sedes livres e, por isso, reis de vós mesmos. Não existe outro reino, apenas este, que nasce entre qualquer abraço ou beijo de quem se ama mais do que aquilo que possui.
Voltar, volitar, volver, entre diásporas e inacabadas conjugações que oscilam entre uma aberta e um aguaceiro. De quanto sol precisa um arco-íris de tons infinitos? A que saberão os limites do inalcançável diâmetro da circunferência da onda que se forma quando, quase vagabundeado, atiro mais uma pedrita a este lago a que chamam vida?
Não me contabiliza a chuva, nem tão pouco o sol, a minha conta corrente flui sem grandes cálculos, um dia traz outro e Salomão sentado à sombra do conquistado suspira e anseia ser um dos lírios do campo.
Longe, entre mim e o gume, a vida que se expressa como um sussurro ou um torpor, ninguém nada nunca sabe abrir o dia sem chuviscar dor.
O tempo entrega-me, em mãos, um caderno com tempos escritos em anos que não contei.
Cada palavra um eco.
Um eco de sons que não recordo ter frequentado. Apraz-me, o cheiro e a simplicidade destas linhas pautadas, como que traçando latitudes imaginárias onde poderiam, apenas, repousar incógnitas letras que acomodei à sombra de luzes menos brilhantes e de noites mais longas.
Nunca é tarde para nos encontrarmos ao largo deste zodíaco.
Vou entregar-te a chave da vida,
era minha
ofereço-ta,
para que encerres o capítulo
de caneta caída,
finda a batalha
de que nos serve a luta?
Gosto da fluência das rugas na face, cada sulco dermático um trilho, uma vontade, um percurso percursiado e uma palavra nova, que tento reduzir ao mesmo denominador: Viver.
Gosto do inaudível tique taque com que Deus brindou o Universo, um dia de cada vez, o amor nosso de cada dia nos dai hoje, porque o pão esse sairá das mãos, salgado pelo suor de quem perdoa os seus devedores.
Gosto da curiosidade sadia de uma criança que me pergunta o que é o infinito. E a resposta não iniciada nem finalizada, como quem se aguarda pela intemporalidade que espreita a cada semi cerrar dos olhos quando se sonha em Viver.
O amor nosso de cada dia nos dai hoje. E se não for pedir muito, amanhã também.
Amem.
2016-05-01
Mães
in Bird Magazine.
O frio tinha ficado para trás e voltaria apenas quando, ao lume, as frieiras se lembrassem de arder por dentro, como o rubor de um amor que se ama porque não se sabe sentir outra coisa.
As mãos sobre a roupa, para a frente e para trás, raspam o sumo do velho camisolão, que se esgota no tempo e no corpo de quem vai cobrindo dias com pedações de lã, no andar e no sentir.
Vários invernos se solsticiavam, a sua voz embora falasse era muda, silenciada por quem a ouvia, mas nunca a escutava. Lembrava-se de vidas solteiras quando por entre a espuma do detergente surgiam pequenos tufos de claridade límpida onde o céu lá em cima espreitava e a relembrava mulher, com a madeixa de cabelo a cair sobre a fronte e a sensualidade ganha na recordação das ruas percorridas com luxúria inocente de quem não se sabe nobreza e raínha-se por entre os fins de tarde no caminho do tanque do fontanário para casa dos pais, invólucros esquecidos de apelidos de solteira.
“Mãe, o que é o comer?” sarapintado depois de caírem arrancados dos calcanhares as sapatilhas puídas pelas jogatanas de futebol. Era apenas a recordação que tinha parido, na inocência e ignorância dos recéns vintes de idade, aquele “mãe” ressoado com o desprezo da juventude era o prenúncio da adolescência e posterior adulteídade máscula de um mundo bipolar onde se esquece de si quem nunca se lembrou de ser gente.
Passar-se-iam milénios e outros énios se os houvesse para se perceber a feminidade da Primavera e de todas as estações, no descuido divino de fazer de si mesmo dois e, dos dois, martelar em barro um e desbravar de outro uma outra. O mundo sabe que é mundo não por ter sido criado, mas por ter sido servo e na subserviência encontrar o maior tesouro que o mundo não tem, a palavra mãe.
Todos os dias corriam ao montado do tanque de cimento, o ondulado esbranquiçado por onde rasgavam cansadas roupas, vestes e despes de mãos rompidas e cálidas. O suor no verão, o frio no inverno, as mesmas mãos firmes e gretadas, a aspereza tratada a golpes de esbranquiçado creme, o tilintar dos tachos ao lume e a corrida a galgar os degraus antes que um dos molhos transbordasse e inadvertidamente apagasse o lume que tremia, como a vida, saído das ranhuras do disco do fogão.
A mãe é um sabor, uma fome que nos alimenta, é um sentimento onde lavamos aquilo que só ela sabe que somos.
A mãe é ser terra e céu e em qualquer um deles termos certeza absoluta do nada que pisamos.
A mãe é também um pai, um filho, é um cadilho, é um trocadilho por onde brincamos com a imortalidade e viramos na esquina para fugir da ideia que, um dia, ser mãe será ter saudade do útero seguro onde de óvulo a mórula fomos embrião e saber sermos hoje nada.
A mãe é o cuidado e o afago na barriga dilatada, é o choro convulsivo de quando se tem um nada e do nada fazer o tudo.
A mãe é um tanque abandonado, onde as suas mãos e braços cansados moveram o mundo, é o infinito que gostaríamos de ter no relógio e olhá-lo, de segundo em segundo.
Mãe,
chamo-te,
quem me teve e quem me tem,
ser do mundo e ter-te,
ser eu
e, sem ti, ser ninguém…
O frio tinha ficado para trás e voltaria apenas quando, ao lume, as frieiras se lembrassem de arder por dentro, como o rubor de um amor que se ama porque não se sabe sentir outra coisa.
As mãos sobre a roupa, para a frente e para trás, raspam o sumo do velho camisolão, que se esgota no tempo e no corpo de quem vai cobrindo dias com pedações de lã, no andar e no sentir.
Vários invernos se solsticiavam, a sua voz embora falasse era muda, silenciada por quem a ouvia, mas nunca a escutava. Lembrava-se de vidas solteiras quando por entre a espuma do detergente surgiam pequenos tufos de claridade límpida onde o céu lá em cima espreitava e a relembrava mulher, com a madeixa de cabelo a cair sobre a fronte e a sensualidade ganha na recordação das ruas percorridas com luxúria inocente de quem não se sabe nobreza e raínha-se por entre os fins de tarde no caminho do tanque do fontanário para casa dos pais, invólucros esquecidos de apelidos de solteira.
“Mãe, o que é o comer?” sarapintado depois de caírem arrancados dos calcanhares as sapatilhas puídas pelas jogatanas de futebol. Era apenas a recordação que tinha parido, na inocência e ignorância dos recéns vintes de idade, aquele “mãe” ressoado com o desprezo da juventude era o prenúncio da adolescência e posterior adulteídade máscula de um mundo bipolar onde se esquece de si quem nunca se lembrou de ser gente.
Passar-se-iam milénios e outros énios se os houvesse para se perceber a feminidade da Primavera e de todas as estações, no descuido divino de fazer de si mesmo dois e, dos dois, martelar em barro um e desbravar de outro uma outra. O mundo sabe que é mundo não por ter sido criado, mas por ter sido servo e na subserviência encontrar o maior tesouro que o mundo não tem, a palavra mãe.
Todos os dias corriam ao montado do tanque de cimento, o ondulado esbranquiçado por onde rasgavam cansadas roupas, vestes e despes de mãos rompidas e cálidas. O suor no verão, o frio no inverno, as mesmas mãos firmes e gretadas, a aspereza tratada a golpes de esbranquiçado creme, o tilintar dos tachos ao lume e a corrida a galgar os degraus antes que um dos molhos transbordasse e inadvertidamente apagasse o lume que tremia, como a vida, saído das ranhuras do disco do fogão.
A mãe é um sabor, uma fome que nos alimenta, é um sentimento onde lavamos aquilo que só ela sabe que somos.
A mãe é ser terra e céu e em qualquer um deles termos certeza absoluta do nada que pisamos.
A mãe é também um pai, um filho, é um cadilho, é um trocadilho por onde brincamos com a imortalidade e viramos na esquina para fugir da ideia que, um dia, ser mãe será ter saudade do útero seguro onde de óvulo a mórula fomos embrião e saber sermos hoje nada.
A mãe é o cuidado e o afago na barriga dilatada, é o choro convulsivo de quando se tem um nada e do nada fazer o tudo.
A mãe é um tanque abandonado, onde as suas mãos e braços cansados moveram o mundo, é o infinito que gostaríamos de ter no relógio e olhá-lo, de segundo em segundo.
Mãe,
chamo-te,
quem me teve e quem me tem,
ser do mundo e ter-te,
ser eu
e, sem ti, ser ninguém…
2016-04-24
Os reternizados
Crónica de domingo na Bird Magazine.
Olá
filho, Escrevo um dia antes para te poder dizer isto: Parabéns!
A
tua mão dorme aqui, a meu lado, embrulhada como sempre numa almofada, está tão
enroscada que pergunto se não existirá na sua codificação genética algum tipo
de ascendência genética com o bicho-de-conta.
Gosto
de te ouvir gargalhar com estas pequenas idiotices minhas.
Ela
já não deve estranhar o barulho dos dedos no teclado e nem a luz fraca do
candeeiro a deve acordar. Acredito que depois do dia de hoje, quando o Sol saiu
da toca pela primeira vez em vários dias, nem o gotejar das estrelas no zinco
barrento do telhado a faria abrir os olhos.
Escrevo
como se não soubesses disto. Claro que sabes. Se calhar até foste tu que
encomendaste um dia solarengo, com nuvens coloridas e sarapintadas de formas
que apenas a imaginação infantil pode moldar.
Paro
um pouco antes de retomar a escrita, este meu hábito de escrever apenas no ar,
sem grafar, faz com que me perca várias vezes na necessidade de retocar letra a
letra as palavras que se vão desvanecendo no meu olhar e, na verdade, só abro
os olhos quando surges aos pés da cama e, maroto, me beliscas os dedos para
acordar daquilo que nego ser o meu adormecimento.
Brincadeira
de criança é galho florido nesta estação Primaveril. E noutros apeadeiros.
Quase
esqueço que escrevi várias linhas antes e sai-me de novo um: Olá filho.
Andamos
o dia todo contigo, não sei se sentiste. Aliás, não sei sequer se nos viste.
Mas andamos, por aí, como se do alto dos teus seis anos fosses guia nesta
excursão muitas vezes sem sentido, sentindo que no afago a qualquer outro ou
outra que connosco se cruza, possas orgulhar-te do alto das tuas galáxias por
viver do amor que sentimos por ti.
Olha
lá, aí em cima também vais aprender a ler? Ou estas coisas são quase como as
vidas, que se esquecem quando se nascem e vamos perdendo anos e anos a aprender
aquilo que tão bem nos poderia ter sido dado, quase como os dedos das mãos, os
dentes, os abraços.
De
vez em quando a cortina onde projectam a realidade dilui-se, talvez por causa
de um invisível vento que sopra da vontade de ver além do que se sabe
vislumbrar. Aí sinto que talvez este sonho a que chamam vida seja de facto um
onirismo de onde sairemos quando pensarem que adormecemos, para sempre como
dizem.
Porta-te
bem (este recado é da tua mãe). Nada de andar de gatas pelo universo, com o
risco de berlindar um planeta contra outro, deixa as galáxias bem arrumadas
depois de brincares com elas e em caso de dúvida sobre em que dimensão entrar
pede ajuda a Deus, embora não se veja, ele anda por aí atento a quem se atenta.
Não
sei se tens visto, mas tenho-me esforçado por fazer o que pediste. Vou olhando
para os outros pirralhos e comportando-me da forma que queres, mas nem sempre é
fácil. Sabes bem que sou distraído e esquecido, por mim e por outros. Mas na
incompreensão do sentir, vou tratando-os como se eles fossem tu (e não serão?),
a falta de posse despoja-nos do que poderíamos nunca ter e isso, dizes-me tu, é
razão da rima entre as palavras dor e amor, podemos sempre escolher aquele que
nos faz sentir melhor. Escolho o amor e lá vou, como queres, sorrindo e brincando
com a garotada como se cada um fosse tu próprio. Dizes que na cegueira do que
sou posso encontrar noutros a tua cara ou os teus gestos. Sou crente, acredito.
Porque não haveria de crer na palavra de uma criança? Ou de uma estrela?
Já
és crescidinho. Agora, quando te levantares e depois de lavares a cara com a
luz que sai de uma estrela, vê se dás a mão ao teu irmão, não torças o nariz
quando ele te pedir para fazer alguma brincadeira mais infantil, ele precisa de
ti assim como tu precisas dele, já te imaginaste andar por aí sozinho sem a
companhia segura do que pensas ser? Isto de viver tem dessas coisas,
experimentar caminhos por onde nem sequer sabemos caminhar, mas isto vais
aprender caso existem escolas desse lado da vida. Já por aí andei, mas esqueci
tanto do que se aprende que cada dia aqui é um desfolhar de livros na ânsia de
aprender a ler cada vez melhor, as palavras, as pessoas, os tempos e eu mesmo.
Vai
crescendo em saúde, nas sombras frescas que permeiam o universo e onde um dia
já me levaste pela mão, de dimensão em dimensão, como se a própria vida fosse o
recreio onde brincas seguro e adulto nas meninices de uma ilusão.
Há-de
vir um dia em que ao fechar os olhos possamos estender-te os braços a pedir que
nos pegues ao colo e, desse lado, crianças novamente nos tomes como filhos teus.
E de Deus.
Agora,
filho, vou dormir, o cansaço apega-se daqueles que não se cansam de sentir. Vou
pedir-te, mais uma vez, que não entoes estas palavras um pouco sem sentido. Por
vezes há que escrever assim, sem sentido, para se poder depois anagramar os
espaços em branco e encontrar no vazio deixado pelo renascer das vidas as
palavras que combinamos ler. Pouco leio agora, deve ser porque vejo mal quando
estou por detrás de uns olhos emudecidos.
Obrigado
pela estrela cadente, se calhar foi sem querer, talvez tenha sido o teu irmão que
deitou a chupeta de novo para o chão e resvalou aos trambolhões como uma pepita
incandescente no céu nocturno. Faço-me acreditar que foste tu, na eternidade, a
experimentar o lápis com que se escrevem as constelações e a garatujar as
mesmas palavras que me saem da boca agora: Amo-te.
2016-04-17
Completo. Todos um
in Bird Magazine
De real o Sol, o Ar, o espaço onde volito, a cara nua de quem se sabe ninguém, as linhas escancaradas às portas das palavras que choveram.
Um mundo, além do meu, do teu, onde o Sol é da cor da chuva e a neve cai de cada vez que sorris, um local feito de abraços e de silêncios, porque ninguém ousa falar palavras que não conhece, nem ninguém conhece o real, do Sol, do Ar, do espaço onde volito.
Que faço eu ao tempo?
Que me faz o tempo, enquanto me percorre de alto a baixo, zombando dos dias que ainda não vivi?
Sempre tive na noite minha companheira e confidente. Pessoa amiga das horas mais soturnas, dos meus momentos de solitude. À noite não sou boa companhia, levo comigo amizade e amor, no entanto, pouco falo, à noite não sou boa companhia.
Teve-me frio e medo, esperança e ilusão, amparo e sonho, choro e riso.
Teve-me sempre, sem reservas ou barreiras, no meio do nevoeiro, sob chuva intensa, iluminado pelas estrelas (que em Trás-os-Montes são mais estrelas), teve-me sempre.
Agora, à medida que também sou noite, começo a sentir que as estrelas que procuro estão bem perto, na palma da minha mão, na lombada da minha vida e ali, bem fundo em ti, em forma de coração.
Vamos deixando que os dias se preencham assim, como quem chove, um pouco aqui e um pouco ali e, nos intermédios do que somos, há sempre algo que secou, que tende a murchar, apenas e porque chove, mas não onde era necessário.
Há um pouco do que sou perdido pelos muitos lugares onde não estive. Locais que guardam os olhares que ainda não li. Há uma falta imensa de mundo nas pessoas, que as faz correr sem se saberem em casa. Uma indiferença que não lhes permite ouvir a chuva que cai, em qualquer local, e sentirem frio sem saberem porquê.
Cobre-me um manto branco que poderia ser neve, mas é apenas o véu liso, que cheira a arruda, com que me tapo quando sei que sonho.
Vou tacteando as pessoas, a medo, como quem reconhece um caminho pelas rugas e tufos de musgo nos muros que fazem o nosso caminho.
Há caminhos que desaguam em paredes de madeira, em caras aquecidas pelo braseiro, nas mãos que seguram uma fumegante caneca de café e de amizade.
A distância que nos eleva à saudade é a que dista dos olhos ao que não vemos, no entanto, de olhos fechados, tocamos e sentimos aqueles que amamos, pois percebemos que tudo o que somos, somos porque eles são em nós, de formas explicáveis apenas com o sorriso aberto quando os fechamos, os olhos, e sentimos a brisa deles a passar por nós. Ninguém é de ninguém. Ninguém se separa, somos todos Um.
Vou dormir, agora, de uma ponta à outra de mim, sabendo que no momento que fechar os olhos terei já este eu que me habita ao longo das estrelas, saltando de mundos em mundos, com a liberdade que procuro nas mãos, nas palavras que polvilho, nas entrelinhas que me conduzem a todos os abraços que dei ao universo. Sou este eu que me habita. Completo.
Percorro,
em passo incerto,
as rimas que tombam
sobre este dia,
o momento em que desperto
e quase morro
tem um nome:
poesia.
Parte de mim sou eu,
repousa nas ondas serenas da madrugada
um excerto,
um canto qualquer
que recria a alvorada
ou cair da noite, ao fundo
no horizonte...
Enquanto dia em mim
outro eu se esconde,
omite-se,
prescreve-se às máscaras que nascem
face a face
sem fim...
De real o Sol, o Ar, o espaço onde volito, a cara nua de quem se sabe ninguém, as linhas escancaradas às portas das palavras que choveram.
Um mundo, além do meu, do teu, onde o Sol é da cor da chuva e a neve cai de cada vez que sorris, um local feito de abraços e de silêncios, porque ninguém ousa falar palavras que não conhece, nem ninguém conhece o real, do Sol, do Ar, do espaço onde volito.
Que faço eu ao tempo?
Que me faz o tempo, enquanto me percorre de alto a baixo, zombando dos dias que ainda não vivi?
Sempre tive na noite minha companheira e confidente. Pessoa amiga das horas mais soturnas, dos meus momentos de solitude. À noite não sou boa companhia, levo comigo amizade e amor, no entanto, pouco falo, à noite não sou boa companhia.
Teve-me frio e medo, esperança e ilusão, amparo e sonho, choro e riso.
Teve-me sempre, sem reservas ou barreiras, no meio do nevoeiro, sob chuva intensa, iluminado pelas estrelas (que em Trás-os-Montes são mais estrelas), teve-me sempre.
Agora, à medida que também sou noite, começo a sentir que as estrelas que procuro estão bem perto, na palma da minha mão, na lombada da minha vida e ali, bem fundo em ti, em forma de coração.
Vamos deixando que os dias se preencham assim, como quem chove, um pouco aqui e um pouco ali e, nos intermédios do que somos, há sempre algo que secou, que tende a murchar, apenas e porque chove, mas não onde era necessário.
Há um pouco do que sou perdido pelos muitos lugares onde não estive. Locais que guardam os olhares que ainda não li. Há uma falta imensa de mundo nas pessoas, que as faz correr sem se saberem em casa. Uma indiferença que não lhes permite ouvir a chuva que cai, em qualquer local, e sentirem frio sem saberem porquê.
Cobre-me um manto branco que poderia ser neve, mas é apenas o véu liso, que cheira a arruda, com que me tapo quando sei que sonho.
Vou tacteando as pessoas, a medo, como quem reconhece um caminho pelas rugas e tufos de musgo nos muros que fazem o nosso caminho.
Há caminhos que desaguam em paredes de madeira, em caras aquecidas pelo braseiro, nas mãos que seguram uma fumegante caneca de café e de amizade.
A distância que nos eleva à saudade é a que dista dos olhos ao que não vemos, no entanto, de olhos fechados, tocamos e sentimos aqueles que amamos, pois percebemos que tudo o que somos, somos porque eles são em nós, de formas explicáveis apenas com o sorriso aberto quando os fechamos, os olhos, e sentimos a brisa deles a passar por nós. Ninguém é de ninguém. Ninguém se separa, somos todos Um.
Vou dormir, agora, de uma ponta à outra de mim, sabendo que no momento que fechar os olhos terei já este eu que me habita ao longo das estrelas, saltando de mundos em mundos, com a liberdade que procuro nas mãos, nas palavras que polvilho, nas entrelinhas que me conduzem a todos os abraços que dei ao universo. Sou este eu que me habita. Completo.
Percorro,
em passo incerto,
as rimas que tombam
sobre este dia,
o momento em que desperto
e quase morro
tem um nome:
poesia.
Parte de mim sou eu,
repousa nas ondas serenas da madrugada
um excerto,
um canto qualquer
que recria a alvorada
ou cair da noite, ao fundo
no horizonte...
Enquanto dia em mim
outro eu se esconde,
omite-se,
prescreve-se às máscaras que nascem
face a face
sem fim...
2016-04-11
Vou pintando nos olhos as nuvens
lestas somem-se no vento
abrigadas
pelas colinas esbranquiçadas
arrefecidas num lento lamento,
venta.
Eu sou folha e caruma
de mim o fruto que me cai aos pés
sem recordação da sombra
ou da areia dourada
escavada
ao redor da onda
sob a espuma.
Oscilo a caneta,
não há destino se não se tem meta,
ouço as vozes e escondo-me
por detrás do que não sei ser,
de mim a mim
a distância de um retorno
no olhar pousado no que não sei ver,
mas as palavras que me sabiam salvar
são as que me escrevem escondidas
de mim
porque não as sei falar.
lestas somem-se no vento
abrigadas
pelas colinas esbranquiçadas
arrefecidas num lento lamento,
venta.
Eu sou folha e caruma
de mim o fruto que me cai aos pés
sem recordação da sombra
ou da areia dourada
escavada
ao redor da onda
sob a espuma.
Oscilo a caneta,
não há destino se não se tem meta,
ouço as vozes e escondo-me
por detrás do que não sei ser,
de mim a mim
a distância de um retorno
no olhar pousado no que não sei ver,
mas as palavras que me sabiam salvar
são as que me escrevem escondidas
de mim
porque não as sei falar.
2016-04-10
Os mesmos caminhos percorridos com outros olhos
Crónica de domingo na Bird Magazine.
Percorri esta noite, a pé, o meu velho caminho até à escola primária.
Noite, Lua igual a tantas outras vezes, mas agora vista com outros olhos, um céu estrelado com algumas pinceladas de nuvens aqui e ali.
Meti pés à estrada.
O caminho até à estação continua igual ao percorrido e ficará para outras situações.
Cheguei à escola primária.
Perdeu o tamanho que possuía e a imponência que despertava em mim espanto e temor, mas continua mágica.
Não preciso fechar os olhos para me ver correr pelo recreio, era um puto, pequeno, com sonhos, com piscar de olhos a imitar um pirilampo dos carros dos bombeiros.
Os muros são agora mais baixos, as próprias paredes são menos brancas, baixas, do tamanho normal das casas.
Os degraus, que subia ofegante, são pequenas elevações.
O muro que separava a "escola de cima" da "escola de baixo" e que eu saltava com cuidado é do meu tamanho, do meu tamanho...
Tudo parece agora do meu tamanho, mas continuo pequeno.
Continuo a correr pelo recreio, a jogar ao "bom barqueiro", a saltar à corda, a jogar futebol toscamente, a saltar o muro para chegar primeiro à fila para beber o leite ("está frio? bochechem que ele aquece!"), a debruçar-me na torneira do tanque para beber água, sentado no topo do triângulo a lanchar e a falar sozinho.
Na luz ténue do luar vi-me ainda dentro da sala, a jogar raspa, a escrever, a ver o quão curioso era o número 2 ("oh mãe, é mesmo parecido com um ganso!"), a perceber o porquê de 2 x 2 serem 4. Continuo a adormecer sobre os cadernos, a pintar a cara com marcador cor-de-laranja fingindo ter sardas.
Continuo a escorregar pelo corrimão, a esfregar as mãos no ferro da carteira depois de levar uma reguada.
As telhas, as portas, as janelas, é tudo novo, tudo restaurado, mas tem ainda a capa da saudade, a cobertura de lembranças que mantém intacta a imagem deste caminho, visto agora com outros olhos.
A Lua já se mexeu um pouco, as pinceladas cobrem agora algumas estrelas.
Um toque no ombro faz-me despertar, é hora de continuar a caminhada, percorrer de novo estes velhos caminhos.
Esboço um sorriso ténue, nada de mais, apenas um esgar de saudade, de alegria, talvez ingenuidade.
Limpo a lágrima que teima em cair, creio que quer ficar lá, na escola. Saltou de mim e uma mão invisível levou-a para os olhos de um miúdo, cabelo e olhos claros, como os sonhos. Ele cerra as pálpebras e ela cai, pegando-a com carinho sorri para mim como que a dizer-me: "vai...". Virou costas e foi brincar com os outros putos enquanto eu rodei lentamente e suspirei.
Pareceu-me ouvir a professora Eugénia chamar-me de dentro da sala de aula, ao mesmo tempo que soava o som de um trovão, era o barulho dos putos a subirem os degraus de madeira.
A escola ficou lá, agora mais pequena.
Eu sou grande, não caibo mais nos sonhos de criança, não retorno a esta vida distante e paralela.
Enquanto me afastava no caminho, vi e ouvi os putos dizerem-me adeus.
Parei apenas um instante, apanhei um pouco de sonho caído no caminho e continuei, acompanhado, a andar, mais pequeno.
Sinto-me mais leve agora.
Percorri esta noite, a pé, o meu velho caminho até à escola primária.
Noite, Lua igual a tantas outras vezes, mas agora vista com outros olhos, um céu estrelado com algumas pinceladas de nuvens aqui e ali.
Meti pés à estrada.
O caminho até à estação continua igual ao percorrido e ficará para outras situações.
Cheguei à escola primária.
Perdeu o tamanho que possuía e a imponência que despertava em mim espanto e temor, mas continua mágica.
Não preciso fechar os olhos para me ver correr pelo recreio, era um puto, pequeno, com sonhos, com piscar de olhos a imitar um pirilampo dos carros dos bombeiros.
Os muros são agora mais baixos, as próprias paredes são menos brancas, baixas, do tamanho normal das casas.
Os degraus, que subia ofegante, são pequenas elevações.
O muro que separava a "escola de cima" da "escola de baixo" e que eu saltava com cuidado é do meu tamanho, do meu tamanho...
Tudo parece agora do meu tamanho, mas continuo pequeno.
Continuo a correr pelo recreio, a jogar ao "bom barqueiro", a saltar à corda, a jogar futebol toscamente, a saltar o muro para chegar primeiro à fila para beber o leite ("está frio? bochechem que ele aquece!"), a debruçar-me na torneira do tanque para beber água, sentado no topo do triângulo a lanchar e a falar sozinho.
Na luz ténue do luar vi-me ainda dentro da sala, a jogar raspa, a escrever, a ver o quão curioso era o número 2 ("oh mãe, é mesmo parecido com um ganso!"), a perceber o porquê de 2 x 2 serem 4. Continuo a adormecer sobre os cadernos, a pintar a cara com marcador cor-de-laranja fingindo ter sardas.
Continuo a escorregar pelo corrimão, a esfregar as mãos no ferro da carteira depois de levar uma reguada.
As telhas, as portas, as janelas, é tudo novo, tudo restaurado, mas tem ainda a capa da saudade, a cobertura de lembranças que mantém intacta a imagem deste caminho, visto agora com outros olhos.
A Lua já se mexeu um pouco, as pinceladas cobrem agora algumas estrelas.
Um toque no ombro faz-me despertar, é hora de continuar a caminhada, percorrer de novo estes velhos caminhos.
Esboço um sorriso ténue, nada de mais, apenas um esgar de saudade, de alegria, talvez ingenuidade.
Limpo a lágrima que teima em cair, creio que quer ficar lá, na escola. Saltou de mim e uma mão invisível levou-a para os olhos de um miúdo, cabelo e olhos claros, como os sonhos. Ele cerra as pálpebras e ela cai, pegando-a com carinho sorri para mim como que a dizer-me: "vai...". Virou costas e foi brincar com os outros putos enquanto eu rodei lentamente e suspirei.
Pareceu-me ouvir a professora Eugénia chamar-me de dentro da sala de aula, ao mesmo tempo que soava o som de um trovão, era o barulho dos putos a subirem os degraus de madeira.
A escola ficou lá, agora mais pequena.
Eu sou grande, não caibo mais nos sonhos de criança, não retorno a esta vida distante e paralela.
Enquanto me afastava no caminho, vi e ouvi os putos dizerem-me adeus.
Parei apenas um instante, apanhei um pouco de sonho caído no caminho e continuei, acompanhado, a andar, mais pequeno.
Sinto-me mais leve agora.
2016-04-03
Personas agem
Crónica de domingo, na Bird Magazine em 03/04/2016.
Há que introduzir vivacidade às personagens que vivem, nascidas agora, adultas outrora e, também, renascidas porque de serenismo bastaram no ocaso a que, silêncio involuntário, foram adormecidas. Estas são algumas das que me vivem atrás do que vivo.
“Personas agem”
O vento crepita na lareira com a força musculada de quem, de machado ao ombro, chora no desconsolo decidido entre o amor ao que vive e a necessidade de viver, cortando a madeira, golpeando entre murmuradas desculpas o tronco do que cairá e, posteriormente, arrastado por entre vegetação, seguirá caminho até que as garras metálicas de um guindaste articulado à força de comprimido ar o agarrem virilmente e o coloquem sem pudor ou respeito no costado de um camião. Ele seguirá, machadado também no íntimo de si, pelo caminho contrário, rompendo a vegetação agrilhoado à vida, porque de viver se mata e segue pensando apenas que o vento trará o consolo de umas nuvens prenhes a galgar pressões, altas e baixas, até se instalarem ali por cima do sono de um homem e se deixarem cair em fios longos e prateados de água até afogarem as mágoas de uma jorna num sono que, enquanto durar a noite, será rei e senhor das paredes de madeira que involucram o descanso de um guerreiro.
O casaco negro apontado ao horizonte descansa merecido no muro feito de granito alinhado onde minerais são azuis, que não se sabem se paridos da terra ou reflectidos do céu. A manhã foi ligeira dia acima porque enquanto o ombro encontra descanso do reumatizado corpo, há que dar ligeireza aos movimentos torpes e falar com a terra negra, fumegante e transpirada do rodopio orbital e cansada do saturado coro de pensamentos néscios que todos os dias se precipita como uma chuva eterna, em forma de sacholadas firmes de um metal rombudo e um cabo envernizado pelas cuspidelas curtidas das mãos que nunca souberam outro carinho além da contrição e emoção de segurar a medo a vida embrionária, onde um só choro levanta preocupação maior que a bicharada toda à solta no plantio. Entre divagações o cotovelo apoiado no cabo, a mão que segura a boina negra, o suor que cai da testa deixando um rasto húmido na alva cabeça empoeirada e cai, sem preocupação, no rego aberto como um livro, deixando suspensa uma pequena onda alveolar que, depois, também ela se deixa abater, de costas e a sorrir, no negro. Não há espaço para filosofias quando não se sabe quanto nos sobra de tempos ou de dias. Por isso, enquanto escapa à fome no rápido deglutir de uma côdea de boroa, vê a seus pés o húmus e interrompe a respiração para se sentir, apenas uma vez, dono de si e escravo do chão.
O vento como companhia, assim era o quotidiano da vida, tal como o frio e cinzento amanhecer que despertavam de cada vez que a noite se espreguiçava. E assim, a voar, partia por esses caminhos, fugindo às nuvens sorrateiras dos aglomerados de gentes sem pessoas, com apenas uma mochila azul e, lá dentro, uns cadernos, folhas soltas, recortes de jornal, uma saca de pano onde “antigamente” se guardava o pão. Dizem que vendia poemas, escritos na hora, a jeitos de artesanato, caseiros dizem alguns, com olhos de pessoas num verso e palavras frescas saltadas do coração em qualquer folha branca puída, ditadas por alguém e pelos outros, que moravam nos meus olhos, do lado de lá da ilusão.
Achas que vai chover?
Não sei...
Mas agora, que estou prestes a acordar sonhos, queria que sim, que chovesse.
E se chover não vou trabalhar, vou mais tarde!
Vou acordar e, apenas em roupa interior, vou correr até ao monte, passando e calcando as poças de água, sem me preocupar com as pequenas pedras que se cravam nas plantas dos meus pés.
Vou sentir a chuva cair no cabelo, no tronco, ombros, costas e pernas.
Vou sentir os salpicos de água com terra nas costas, que se soltam dos meus pés enquanto corro.
Vou parar num qualquer portão ou rede e sorver as gotas que pendem dos mesmos, tocando-as ao leve com a língua até que se desprendam.
Vou atirar-me para a primeira poça de água que encontrar na terra!
Vou rebolar.
Vou espirrar e ter frio sem medo de ficar doente.
Vou cheirar a caruma molhada, abraçar-me a pinheiros e eucaliptos e sentir o sabor frio da chuva e quente da Natureza.
Vou deitar-me de barriga para o ar e olhar, com os olhos semi-cerrados, a chuva cair do céu na minha direcção e…
E sabes quê?
Vou rir-me!
Vou rir-me alto, sem me preocupar com o que pensem!
Vou rir e chorar ao mesmo tempo!
Vou rir-me e engasgar-me com uma ou outra gota que entre directamente na garganta.
Vou fazer regos na terra com o calcanhar, para a água escoar de poça em poça, até formar um rio que se juntará a outra poça.
Vou pegar em terra com as minhas mãos, erguer-me e olhar para ela, para a terra e depois para a chuva e pensar em nada, apenas ver a beleza da chuva e da terra e sentir-me assim, sem medo de ser feliz.
Achas mesmo que vai chover?
E se chover, queres vir também?
Há que introduzir vivacidade às personagens que vivem, nascidas agora, adultas outrora e, também, renascidas porque de serenismo bastaram no ocaso a que, silêncio involuntário, foram adormecidas. Estas são algumas das que me vivem atrás do que vivo.
“Personas agem”
O vento crepita na lareira com a força musculada de quem, de machado ao ombro, chora no desconsolo decidido entre o amor ao que vive e a necessidade de viver, cortando a madeira, golpeando entre murmuradas desculpas o tronco do que cairá e, posteriormente, arrastado por entre vegetação, seguirá caminho até que as garras metálicas de um guindaste articulado à força de comprimido ar o agarrem virilmente e o coloquem sem pudor ou respeito no costado de um camião. Ele seguirá, machadado também no íntimo de si, pelo caminho contrário, rompendo a vegetação agrilhoado à vida, porque de viver se mata e segue pensando apenas que o vento trará o consolo de umas nuvens prenhes a galgar pressões, altas e baixas, até se instalarem ali por cima do sono de um homem e se deixarem cair em fios longos e prateados de água até afogarem as mágoas de uma jorna num sono que, enquanto durar a noite, será rei e senhor das paredes de madeira que involucram o descanso de um guerreiro.
O casaco negro apontado ao horizonte descansa merecido no muro feito de granito alinhado onde minerais são azuis, que não se sabem se paridos da terra ou reflectidos do céu. A manhã foi ligeira dia acima porque enquanto o ombro encontra descanso do reumatizado corpo, há que dar ligeireza aos movimentos torpes e falar com a terra negra, fumegante e transpirada do rodopio orbital e cansada do saturado coro de pensamentos néscios que todos os dias se precipita como uma chuva eterna, em forma de sacholadas firmes de um metal rombudo e um cabo envernizado pelas cuspidelas curtidas das mãos que nunca souberam outro carinho além da contrição e emoção de segurar a medo a vida embrionária, onde um só choro levanta preocupação maior que a bicharada toda à solta no plantio. Entre divagações o cotovelo apoiado no cabo, a mão que segura a boina negra, o suor que cai da testa deixando um rasto húmido na alva cabeça empoeirada e cai, sem preocupação, no rego aberto como um livro, deixando suspensa uma pequena onda alveolar que, depois, também ela se deixa abater, de costas e a sorrir, no negro. Não há espaço para filosofias quando não se sabe quanto nos sobra de tempos ou de dias. Por isso, enquanto escapa à fome no rápido deglutir de uma côdea de boroa, vê a seus pés o húmus e interrompe a respiração para se sentir, apenas uma vez, dono de si e escravo do chão.
O vento como companhia, assim era o quotidiano da vida, tal como o frio e cinzento amanhecer que despertavam de cada vez que a noite se espreguiçava. E assim, a voar, partia por esses caminhos, fugindo às nuvens sorrateiras dos aglomerados de gentes sem pessoas, com apenas uma mochila azul e, lá dentro, uns cadernos, folhas soltas, recortes de jornal, uma saca de pano onde “antigamente” se guardava o pão. Dizem que vendia poemas, escritos na hora, a jeitos de artesanato, caseiros dizem alguns, com olhos de pessoas num verso e palavras frescas saltadas do coração em qualquer folha branca puída, ditadas por alguém e pelos outros, que moravam nos meus olhos, do lado de lá da ilusão.
Achas que vai chover?
Não sei...
Mas agora, que estou prestes a acordar sonhos, queria que sim, que chovesse.
E se chover não vou trabalhar, vou mais tarde!
Vou acordar e, apenas em roupa interior, vou correr até ao monte, passando e calcando as poças de água, sem me preocupar com as pequenas pedras que se cravam nas plantas dos meus pés.
Vou sentir a chuva cair no cabelo, no tronco, ombros, costas e pernas.
Vou sentir os salpicos de água com terra nas costas, que se soltam dos meus pés enquanto corro.
Vou parar num qualquer portão ou rede e sorver as gotas que pendem dos mesmos, tocando-as ao leve com a língua até que se desprendam.
Vou atirar-me para a primeira poça de água que encontrar na terra!
Vou rebolar.
Vou espirrar e ter frio sem medo de ficar doente.
Vou cheirar a caruma molhada, abraçar-me a pinheiros e eucaliptos e sentir o sabor frio da chuva e quente da Natureza.
Vou deitar-me de barriga para o ar e olhar, com os olhos semi-cerrados, a chuva cair do céu na minha direcção e…
E sabes quê?
Vou rir-me!
Vou rir-me alto, sem me preocupar com o que pensem!
Vou rir e chorar ao mesmo tempo!
Vou rir-me e engasgar-me com uma ou outra gota que entre directamente na garganta.
Vou fazer regos na terra com o calcanhar, para a água escoar de poça em poça, até formar um rio que se juntará a outra poça.
Vou pegar em terra com as minhas mãos, erguer-me e olhar para ela, para a terra e depois para a chuva e pensar em nada, apenas ver a beleza da chuva e da terra e sentir-me assim, sem medo de ser feliz.
Achas mesmo que vai chover?
E se chover, queres vir também?
2016-03-27
Páscoa
-
E agora?
Pergunto
transpirado, apesar da madrugadora hora a que o faço, depois de sacudir as mãos
e o pó que se desprende se transformar numa espécie de neblina dourada que o ar
se encarrega de levar para polinizar o deserto, encostado à pedra que acabei de
rolar, de mãos gretadas e inchado de esforço.
Olhas-me
directo no olhar e esgueiras uma espécie de sorriso.
Há
nesse teu silêncio sorridente uma resposta a toda a indagação que ainda nem se
sabia pergunta, já tinha abraçada a si a compreensão daquilo que ainda não se
tinha incompreendido.
Pousas
a mão no meu ombro, a dor que moía maceradamente e me punha a pele comprimida
contra o músculo avermelhada desaparece. Dizes-me para sairmos daqui,
levanto-me a custo esquecido que estava do peso desta e da anterior noite, ao
relento, tal como tinhas dito.
-
Não podemos ficar por aqui? Estou cansado.
Mas
tu sorris novamente, mirando-me na ternura com que um pai espreita o filho
quando ele, inocente, se toma por si como mundo e nessa benevolência compreendo
a estupidez da minha pergunta, qual a minha legitimidade para me cansar depois
desses teus últimos dias?
Levanto-me
enrubescido, ergo o corpo o suficiente para me aperceber que a manhã vem já a
trautear despreocupado o horizonte, não se mostrando, mas anunciando-se na
claridade que vai percorrendo o mundo dia após dia.
Começamos
a caminhar não sem antes te passar a mão pela cintura e te auxiliar. Sei, ou
melhor, imagino que essas tuas entradas e saídas carnais, nos desafios
metafísicos que a ciência, ainda na sua infância, chamará de impossibilidades e
singularidades, te causam uma espécie de entorpecimento enquanto não se
aglomera a matéria desenergizada, descida que está pelas dimensões do que nem
sonho existir.
-
Seria necessário tudo isto? Não terias outra forma de o fazer?
Dizes-me
que a fantasia a que um dia te iriam votar as vozes sobre o que falaste pedia
que o esplendor e, também, a incredulidade do impossível fosse testemunho
firme.
Não
concordo, mas insistes, como se tivesses vindo agora de um futuro distante, uns
milhares de anos?, e atestasses que de facto assim seria, tu, escorraçado e
crucificado pelos teus, sereno sobre o alvoraçado tempo que se vai comendo a si
mesmo, triunfante sobre a matéria que compõe esta camada de vida a que chamamos
infinito.
Eu,
ainda longe de perceber a profundidade do teu silêncio, compreendo mal o que
falas, mas depois de te ver jorrado em sangue, apedrejado, escarrado pelas ruas
sob o fustigo destes que, embora não o compreenda, amas, capaz de os veres da
paliçada passividade de quem espera que o fruto nasça de semente que não se
sabe semeada, depois de percorrer as tuas ruas e ver, de olhos marejados, as
pedras ensanguentadas por onde passaste, trespassarem-te o peito, o olhar baixo
e perdido no sacrifício com que olhaste para mim e, quando nem o vento ousava
soprar-se naquela tarde fria, movimentaste os lábios para me dizer algo que
esqueci no vai e vem de vidas vividas.
Ungido
que és, nascido em díspares meridianos sobre outros nomes que te baptizem,
trazes-me às mãos o odor ao orvalho da manhã fria, oh filho do Sol.
Eu
nem me sei de nome, quanto mais de gente, sabes-me o que ainda nem me sei e
isso basta-me para ser eu com todo este nada onde me deito feliz.
Chegamos
onde queres, pousas as tuas mãos nos meus ombros, fazes nascer o universo onde
antes moravam os meus olhos para me deixares ver as ondulâncias e os contornos
do que não há.
Abraças-me
e quase me esqueço de ser eu, preso nos pés que me caminham no mundo, de olhos
fechados voam para longe as partes de mim que não me pertencem e esqueço-as
facilmente.
Deixo
de te sentir. Os meus ombros, apesar de não terem a leveza do teu abraço, ficam
mais pesados ainda, descubro que o desânimo é verosímil, palpável, seco e
agreste como tudo o que não é por apenas não ser.
Dou
por mim a soluçar baixinho, escondo-me quando ouço passos e alguém que grita,
apavorado, “Não está aqui!”.
2016-03-20
“Entre mundos”
Dois
passos e estou no balcão.
Bom
dia!
Rio-me,
ri-se,
Boa
tarde e quase bom fim-de-semana!
Engano-me
ainda como adolescente, mas dou por mim a precisar de dar apenas dois passos
para chegar ao balcão, quando antes precisava de mais dois, esquecendo-me até
que agora tenho que me vergar para a senhora do balcão dos CTT me ouvir, quando
antes tinha que me colocar em bicos de pés.
Por
vezes, ou sempre, é assim, transportado para um mundo mais pequeno, mais baixo,
acordado na casa dos enta, sem me lembrar de cá ter estado antes, como se à
saída da agência dos CTT estivesse a minha bicicleta e uma data de amigos à
espera para ir tomar banho ao rio.
Até
as mãos no teclado, que parecem nascidas com ele, sorriem quando me olham,
vendo-me crescer segundo-após-segundo, afagando-me a cara quando tenho frio ou
simplesmente escrevendo coisas que leio e que me fazem compreender o mundo, ou
o balcão.
Oscilando
entre infinitos mundos, é como se todos eles estivessem em mim...
E
ontem, ontem pensei em ti e vi um arco-íris.
Emocionei-me.
Coisa
de gente que fala de mãos e olhares.
Pensei
que eras tu, pensei se estarias a ver-me, se estarias simplesmente a piscar-me
o olho ou se estavas a exibir as cores que eu jamais te poderia dar.
Deixo
as mãos no teclado, o corpo todo imóvel, o computador ligado e saio para a rua.
Está
frio, outros corpos defendem-se do vento, que passa a correr e pisca-me o olho.
Olho
o céu, o destino faz puzzles com as nuvens cinzentas, que teimam em não ficar
no mesmo sítio.
Não,
não é a mesma coisa que lentamente hipnotizar o limpa pára-brisas em dias de
chuva com os grossos flocos de neve no Marão ou Alvão, mas percorrer a estrada,
com temperatura de tarde de Setembro, apesar de noite de Primavera, com o vidro
aberto e fazer de conta que os faróis são estrelas, que se movem aos pares,
algumas vezes em pares de um, faz-me sentir bem apenas porque sim.
Trago
um silêncio comigo e partilho-o com quem quero, deixo-o percorrer e envolver
quem não o ouve, apenas porque houve um som, algures, que não ouvi.
Começo
a ouvir a bicharada nocturna e a ver, ao Luar, as sombras dos campos e do que
lá está plantado e é como se no meio deste restolho que há-de vir, já eu me
levantasse, espreguiçasse, erguesse os braços, perdão, os ramos, ao ar e
dissesse: nasci!
Mas
nascer, nascer, nasci há alguns anos, com memórias e saudades de sítios que
nunca estive nestes anos de encadernação, sem me espreguiçar, apenas com um
lento recordar de quem sou, de onde vim e, curiosamente, sem saber muito bem
para onde ir, com a certeza de não encontrar, aqui ou ali, caminho que me
galgue.
Estas
palavras grudam-se, atropelam-se, é uma saudade do futuro, um pensamento sobre
um pensamento, que conduz a um pensamento, que por sua vez gera outro pensamento,
é um pensamento imenso e de repente sou eu.
É
esta necessidade de escrever, no papel e no tempo, nas pessoas e nas ausências,
que me vai consumindo, a noite e o dia, sem que anoiteça ou amanheça desde que
nasci.
Vou
e, ao mesmo tempo parado, é como se já lá estivesse chegado e, sorrindo
sozinho, tivesse constatado que afinal, nos deves e haveres, fui dar ao sítio
de onde nunca saí.
Volto
para aqui, ajeito-me ao meu próprio corpo, encaixo os dedos nas minhas mãos e
termino o texto.
Sou feliz, entre mundos, entre mim.
Sou feliz, entre mundos, entre mim.
2016-03-13
Quaresma abandonada
Crónica de domingo na Bird Magazine
Perdido por planaltos beirãs e transmontanos, encontro gentes, velhas, encostando as mágoas umas às outras, no frio do granito, enquanto as mãos se arrastam, palma com palma, aquecendo-se, abraçando-se no engano de se abraçar alguém.
Há um bom dia que salta, os castelos abandonados encerram bem lá dentro não dragões aprisionados, mas tristeza e solidão libertadas, em forma de caras que na força das rugas se perdem as feições.
O Sol vai aquecendo como pode uma terra, e gentes, que se quer por lá, perdida, sem voto na matéria, quase sem matéria, num deserto acampado às portas do viver.
Um ou outro gato, um ou outro cão, umas ovelhas algures sem pastor, tilintam o chocalho no que é a banda sonora de quem se levante e não sabe se é dia ou noite, à força de viverem no escuro do chão.
Os brasões ostentam ainda as talhas, as memórias que se apagaram e, no descer arrastado a que me voto, estrada fora, com as mãos ainda nas rugas daquilo que não sei se serei, encontro uma Escola.
Abandonada.
O recreio tem as balizas enferrujadas, mato em vez de relva, duas tabelas de basquetebol morreram e os cestos pendem penosamente enquanto a tabela, pela falta de rega, se quebrou e caiu.
As janelas ainda ornamentadas pelos recortes (são cães, gatos, esquilos, estrelas, flores, sonhos) parecem tremer pelo frio que vem da sala vazia.
Várias marcas de vandalismo em forma de vidros partidos passam despercebidas ao lado do acoitado vazio que toda a escola apresenta.
Violência.
Morte.
Ainda se ouvem as crianças correrem no recreio, atafulhando a entrada com risos e atropelos, enquanto uma voz as manda sentar.
Os passos apressados pelo soalho, o arrastar das cadeiras, algumas mãos debaixo dos cus para se aquecerem, há-de fazer frio hoje e sempre pelos dias de Inverno que, aqui, se parecem sobrepor ao Verão e Primavera.
Na inocência maligna de quem nasce torto e tardará a endireitar, ouve-se o grasnar de uma boca ainda com migalhas secas no queixo e o branco fio de ranho seco sobre o lábio superior.
- Tens as sapatilhas rotas!
Anuncia num tom jocoso, apontando para baixo da mesa, onde ele, com os pés cruzados, fazia por esconder o bocado de meia branca que fugia pelo pequeno rasgão na sapatilha.
O rubor na face, as orelhitas vermelhas pelo misto de vergonha e fúria.
- O meu pai diz que tenho o pé forte, não é roto!
E enquanto a resposta parecia ter incendiado mais as gargalhadas, já ninguém ouviu a voz sumida do petiz
- Tenho umas novas para usar na procissão...
Perdido por planaltos beirãs e transmontanos, encontro gentes, velhas, encostando as mágoas umas às outras, no frio do granito, enquanto as mãos se arrastam, palma com palma, aquecendo-se, abraçando-se no engano de se abraçar alguém.
Há um bom dia que salta, os castelos abandonados encerram bem lá dentro não dragões aprisionados, mas tristeza e solidão libertadas, em forma de caras que na força das rugas se perdem as feições.
O Sol vai aquecendo como pode uma terra, e gentes, que se quer por lá, perdida, sem voto na matéria, quase sem matéria, num deserto acampado às portas do viver.
Um ou outro gato, um ou outro cão, umas ovelhas algures sem pastor, tilintam o chocalho no que é a banda sonora de quem se levante e não sabe se é dia ou noite, à força de viverem no escuro do chão.
Os brasões ostentam ainda as talhas, as memórias que se apagaram e, no descer arrastado a que me voto, estrada fora, com as mãos ainda nas rugas daquilo que não sei se serei, encontro uma Escola.
Abandonada.
O recreio tem as balizas enferrujadas, mato em vez de relva, duas tabelas de basquetebol morreram e os cestos pendem penosamente enquanto a tabela, pela falta de rega, se quebrou e caiu.
As janelas ainda ornamentadas pelos recortes (são cães, gatos, esquilos, estrelas, flores, sonhos) parecem tremer pelo frio que vem da sala vazia.
Várias marcas de vandalismo em forma de vidros partidos passam despercebidas ao lado do acoitado vazio que toda a escola apresenta.
Violência.
Morte.
Ainda se ouvem as crianças correrem no recreio, atafulhando a entrada com risos e atropelos, enquanto uma voz as manda sentar.
Os passos apressados pelo soalho, o arrastar das cadeiras, algumas mãos debaixo dos cus para se aquecerem, há-de fazer frio hoje e sempre pelos dias de Inverno que, aqui, se parecem sobrepor ao Verão e Primavera.
Na inocência maligna de quem nasce torto e tardará a endireitar, ouve-se o grasnar de uma boca ainda com migalhas secas no queixo e o branco fio de ranho seco sobre o lábio superior.
- Tens as sapatilhas rotas!
Anuncia num tom jocoso, apontando para baixo da mesa, onde ele, com os pés cruzados, fazia por esconder o bocado de meia branca que fugia pelo pequeno rasgão na sapatilha.
O rubor na face, as orelhitas vermelhas pelo misto de vergonha e fúria.
- O meu pai diz que tenho o pé forte, não é roto!
E enquanto a resposta parecia ter incendiado mais as gargalhadas, já ninguém ouviu a voz sumida do petiz
- Tenho umas novas para usar na procissão...
2016-02-28
Quem é o sonhador?
Crónica de domingo na Bird Magazine.
É de uma forma desformada que a noite me vai entrando pelo corpo.
Começa pela sombra que contorna a caneta, depois pesa-me no olhar, desfoca-me a visão, aconchega-me com o pijama e um velho casaco azul gigante, a cor, não o casaco e, por fim, traz às costas um saco de pano do tamanho, vejamos, de um saco de pão normal, o saco, o pão também, e, lá dentro, todos os sonhos que vai mostrando.
Por vezes comporta-se como um vendedor, africano, abre o saco, olha em redor, estou sozinho, estende os sonhos no chão, faz um movimento de arco-íris, que é como quem diz meia-lua, não importa a fase agora, como que exibindo o que tem, depois olha para mim e é isto que jamais esqueço, o olhar da noite nos meus olhos, e parece questionar: Qual queres agora? E eu, recolector por natureza, fico com todos tendo como fiel depositário ela mesma, a noite. Hoje guardou o saco, não me mostrou sonhos e, por momentos, vi sair dali um qualquer diabrete, agarrando-se ao meu pescoço com uns braços pequeninos e dizendo: Que é do sonho o sonhador.
Fazem-me falta as palavras que não conheço, as que estão na paisagem que vi há pouco, tão calcada, tão desconhecida, com o vento frio que me semicerra os olhos e me faz ver espectros no azul do céu. O cacarejar das galinhas, o som abafado dos carros, poucos, na estrada com buracos, muitos. Ir a pé umas centenas de metros, com destino correcto, é análogo ao meu caminhar pelos montes da vida.
Saudades dos tempos em que centenas de metros eram os quilómetros que separavam aldeias, comer um punhado de grelos com azeite, alçar a perna no banco de madeira da cozinha e seguir viagem até um olival.
Creio que os tempos em que parecia não existir tempo para a vida, eram os tempos em que vivíamos o que existíamos. Como quando saí para a rua, para as traseiras da casa dos meus pais e deixei-me estar ali, com as mãos nos bolsos, o pescoço encolhido dentro do casaco, que o frio era muito.
Após a troca de presentes, que vale, para mim sobretudo, por olhar os sorrisos de outros e o olhar de criança que sempre surge nesta noite, saí.
Estava frio, acho que já o disse. Muito frio.
Vir até à casa dos meus pais, apesar da curtíssima distância, foi uma aventura de enregelar, tive que raspar o gelo do pára-brisas, por isso, estava frio, muito frio. Fiquei em pé, desliguei a luz de fora para poder ver melhor o céu que estava, como muitas das outras vezes, fabuloso, mas, para nós, o lar é sempre o lar, belo.
Sem o saber estava a receber mais uma prenda de Natal, murmurava ao meu ouvido, com aquela voz que só se ouve com o coração, lembrava-me as minhas próprias palavras de criança, quando dizia que o céu era um véu escuro, que nos separava de um sítio luminoso e que esse local era visto pelo brilho das estrelas, quando conseguirmos, dizia eu, olhar para dentro de uma estrela, veremos o lado de lá da vida. cegamente que as estrelas eram sonhos dos homens (de humanidade), que saíam do seu coração e subiam, no alto, até encontrarem o véu e o rasgarem ao leve. E esse rasgão, ou buraco, por onde passava a luz eram as estrelas.
Foi o meu melhor presente de Natal, sem desprimor para os que recebi, principalmente pelo carinho que senti neles, mas reencontrar aquela voz suave e terna, que sussurra dentro de nós e nos faz ver estrelas onde estão apenas luzes distantes.
Ficou composta a noite pela confirmação, que sempre chega, quando penso algo. Uma pequena luz azul que cruzou o céu e seguiu até desaparecer. "Esse é o teu sonho", disse-me a voz.
E porque nessa noite eu era criança novamente, acreditei e sorri.
É de uma forma desformada que a noite me vai entrando pelo corpo.
Começa pela sombra que contorna a caneta, depois pesa-me no olhar, desfoca-me a visão, aconchega-me com o pijama e um velho casaco azul gigante, a cor, não o casaco e, por fim, traz às costas um saco de pano do tamanho, vejamos, de um saco de pão normal, o saco, o pão também, e, lá dentro, todos os sonhos que vai mostrando.
Por vezes comporta-se como um vendedor, africano, abre o saco, olha em redor, estou sozinho, estende os sonhos no chão, faz um movimento de arco-íris, que é como quem diz meia-lua, não importa a fase agora, como que exibindo o que tem, depois olha para mim e é isto que jamais esqueço, o olhar da noite nos meus olhos, e parece questionar: Qual queres agora? E eu, recolector por natureza, fico com todos tendo como fiel depositário ela mesma, a noite. Hoje guardou o saco, não me mostrou sonhos e, por momentos, vi sair dali um qualquer diabrete, agarrando-se ao meu pescoço com uns braços pequeninos e dizendo: Que é do sonho o sonhador.
Fazem-me falta as palavras que não conheço, as que estão na paisagem que vi há pouco, tão calcada, tão desconhecida, com o vento frio que me semicerra os olhos e me faz ver espectros no azul do céu. O cacarejar das galinhas, o som abafado dos carros, poucos, na estrada com buracos, muitos. Ir a pé umas centenas de metros, com destino correcto, é análogo ao meu caminhar pelos montes da vida.
Saudades dos tempos em que centenas de metros eram os quilómetros que separavam aldeias, comer um punhado de grelos com azeite, alçar a perna no banco de madeira da cozinha e seguir viagem até um olival.
Creio que os tempos em que parecia não existir tempo para a vida, eram os tempos em que vivíamos o que existíamos. Como quando saí para a rua, para as traseiras da casa dos meus pais e deixei-me estar ali, com as mãos nos bolsos, o pescoço encolhido dentro do casaco, que o frio era muito.
Após a troca de presentes, que vale, para mim sobretudo, por olhar os sorrisos de outros e o olhar de criança que sempre surge nesta noite, saí.
Estava frio, acho que já o disse. Muito frio.
Vir até à casa dos meus pais, apesar da curtíssima distância, foi uma aventura de enregelar, tive que raspar o gelo do pára-brisas, por isso, estava frio, muito frio. Fiquei em pé, desliguei a luz de fora para poder ver melhor o céu que estava, como muitas das outras vezes, fabuloso, mas, para nós, o lar é sempre o lar, belo.
Sem o saber estava a receber mais uma prenda de Natal, murmurava ao meu ouvido, com aquela voz que só se ouve com o coração, lembrava-me as minhas próprias palavras de criança, quando dizia que o céu era um véu escuro, que nos separava de um sítio luminoso e que esse local era visto pelo brilho das estrelas, quando conseguirmos, dizia eu, olhar para dentro de uma estrela, veremos o lado de lá da vida. cegamente que as estrelas eram sonhos dos homens (de humanidade), que saíam do seu coração e subiam, no alto, até encontrarem o véu e o rasgarem ao leve. E esse rasgão, ou buraco, por onde passava a luz eram as estrelas.
Foi o meu melhor presente de Natal, sem desprimor para os que recebi, principalmente pelo carinho que senti neles, mas reencontrar aquela voz suave e terna, que sussurra dentro de nós e nos faz ver estrelas onde estão apenas luzes distantes.
Ficou composta a noite pela confirmação, que sempre chega, quando penso algo. Uma pequena luz azul que cruzou o céu e seguiu até desaparecer. "Esse é o teu sonho", disse-me a voz.
E porque nessa noite eu era criança novamente, acreditei e sorri.
2016-02-22
À janela
o gato preto enche a noite
de escuridão,
nada percorre mais veloz
as sombras da minha mão
que tudo o que calei
com a minha voz,
era o silêncio,
contava-te com o olhar embaciado,
nunca sem o saberes
imerso na naturalidade selvagem que te veste
ficavas calado
e nunca,
nunca,
nunca!,
te deixaste entrar pelo sonho
acordado.
o gato preto enche a noite
de escuridão,
nada percorre mais veloz
as sombras da minha mão
que tudo o que calei
com a minha voz,
era o silêncio,
contava-te com o olhar embaciado,
nunca sem o saberes
imerso na naturalidade selvagem que te veste
ficavas calado
e nunca,
nunca,
nunca!,
te deixaste entrar pelo sonho
acordado.
2016-02-21
Molhou-me Agosto
no despertado mareado da manhã
a encriptada onda
na espuma alva de ontem
esbatida aos meus pés
amanhã,
molhou-me
Agosto
ao encontro do peito
turbilhado pela terra árida arada
a rebeldia da semente
escorrendo correndo
no labor em minhas mãos feito
temperado, eu, com travo de nada,
molhou-me Agosto
a tempo do cair das estrelas esbatidas no término da tarde
eis-me em terras de suor
onde o dia se expele e arde,
com mãos frias
palavras criadas na clausura do silêncio
de tudo nada tentando
à noite que se dorme
de vez em quando, de vez em quando,
molhou-me Agosto
e na placidez da urze de Inverno
onde neva a vida a meio tom
molhou-me, uma vez mais, Agosto
talvez para me fazer recordar
um dia
também eu fui bom.
2016-02-15
2016-02-14
Pi(ão)
Crónica de Domingo na Bird Magazine.
É impossível não olhar para as crianças e sorrir convencido que se não crescerem serão o futuro. Mas temo, temo pelos pais (e que legitimidade tenho eu?), pelo sistema de deseducação, pela sociedade que lhes vai pedir tudo aquilo que eles não precisam. Mas, para já, ainda longe da idade de espreitarem as etiquetas das roupas, embora a idade das marcas e tipos de telemóveis tenha vindo a diminuir, vão sentando-se no chão, atirando uns piões moderníssimos (que a TV lhes vai vendendo), rindo-se das solas dos chinelos mais desgastadas, o joelho que se apoia no empedrado chão e se esfola, os risos, tudo vai ecoando pela entrada da tarde como um claro regato de água corrente que não vai a lado algum.
Fecho a porta do carro, pé na embraiagem, ligo-o, puxo o cinto de segurança num gesto automatizado e destravo-o, nada caiu, óptimo. A rádio, perdão, as rádios, debitam (vomitam) as mesmas músicas, as mesmas notícias, hoje nem a música clássica me apetece ouvir e os CD's são também os mesmos, sempre. Desligo o rádio, nada caiu do carro, óptimo. Arranco e vou retirando ruídos e barulhos, um a um, até sair toda a capa encardida e lodosa que se foi entranhando ao longo de um dia e ficar apenas o som dos putos a atirar os peões. De repente é como se a meu lado surgisse um puto, calções gastos e joelhos esfolados, com um baraço na mão e, na outra, um pião de madeira, ouvindo o som que a minha memória vai debitando, os piões de plástico e metal a zunirem no chão, a claquearem uns nos outros e, ele, ali, esbugalhado, sem saber como ali foi parar e sem saber o que fazer com o pião que tem na mão, de madeira, com aquela ponta de metal frio, que faz cócegas quando rodopia velozmente na palma da mão.
É pouco provável chegar a casa e ligar a televisão.
A futilidade hoje em dia parece grassar, espalhar-se como uma doença. Já não chega aquela que nasce em nós e que, na sua dose de erva daninha aceitável, se tolera, mas ainda se tem que receber, quase forçadamente, doses e doses de vazio, de sons articulados sem qualquer pejo pelo que se diz, com o único objectivo de sharingar, de ganhar espaços e audiências. Quando mais cruel e fria, quanto mais impacto aquele soco invisível nos causar melhor, quanto mais a pessoa se ache vítima, ainda que por simpatia, do que lhe é fornicado aos ouvidos melhor. E este movimento replica-se, em casa, na rua, nos transportes, no trabalho, quanto mais impacto, quanto mais visceral a anunciação melhor e assim nos vamos alimentando, de vísceras e vazio, até percebermos que, afinal, quando pensávamos estar a comer, estávamos a dar de fome a quem de tudo, até dos sonhos, se apodera lentamente.
E é assim, belicamente, que vou declarando morte ao vazio.
Na minha trincheira só cabem umas côdeas, pão, boroa, regueifa, seja lá o que for, água, uma licorada bem preparada, seja lá qual for, e uns quantos piões, amanhados ao canto.
Mantenho a cabeça baixa, nunca se sabe o que poderá surgir por aí, o tempo vai quente, consta que vai ser pior do que foi, se for mais quente, foi pior, se for mais frio, foi ainda pior, restam-me as nuvens, o Sol, a Lua, as estrelas e as fotografias de todos os bocadinhos de pessoas com gente dentro que vou guardando, emoldurando, atafulhando o que sou porque tenho medo, vá-se lá saber porquê, de deixar algum espaço de vago onde o vazio possa vir e fazer lá seu visceral trono.
Chego a casa. Já não recordo de onde saí, por onde passei, o que vi. Estaciono na rua, desligo o carro, nada caiu, óptimo. Coloco novamente a chave na ignição para fechar os vidros, vão subindo e chiando, como que resmungando e compreendo-os, afinal, quando fechados são eles que levam com o barulho do vazio. Tiro a chave, engato o carro, puxo o travão de mão, nada caiu, óptimo.
Saio ainda a tempo de ouvir a sirene dos bombeiros a baixar o tom, cansada dos constantes avisos de risco elevado de incêndio que lhe fazem prever noites de arreliação e esforço em levantar da cama os já cansados corpos dos bombeiros. Já depois de fechar a porta vejo-o.
Abro novamente o carro. No banco do passageiro um pião e o baraço, desembaraçado, desenleado, escorrido do banco até ao chão.
O correio nada deixou, entro no prédio, fecho a porta com cuidado e vou subindo os degraus enquanto tacteio aquele bocado de madeira torneado pelas mãos de alguém ou de ninguém, que embora possamos conhecer que o torneou, poderá esse torneador não se saber.
Entro em casa, pouso chaves, carteira, pão, trocados, tiro os sapatos da forma que a minha mãe sempre disse para não os tirar e vou andando até chegar à sala.
Sento-me no sofá, inclino-me e pouso o pião no chão, agarro o baraço, encosto-me e fecho os olhos para me deixar sorrir enquanto os sons dos putos, os risos, tudo vai ecoando pelo final de tarde como um claro regato de água corrente que não vai a lado algum.
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