2017-04-03

Nada sucumbe mais.
As encostas do Douro precipitam-se de amarelo polinizado e eu deixo de me surpreender.
Cada curva sua sentença.
A facilidade do desaprendido cultiva-me a paz.
Talvez hoje, que não chove, surjas por detrás do tempo e arrastes contigo tudo o que ele traz.
Mas agora, agora mesmo, no silenciado universo meu leito, escorrem-se as sombras veraneantes.
Nada é como dantes.
Os encimados claustros sem caminho.
Vais longe, oh peregrino?
A loucura pratica-se na paciência, a certeza de uma polaridade que se esconde sob um capitel,
as valetas valetam gente
a multidão sobre o demente,
teremos em nós ainda uma divindade que se sente?
Quis-me Deus homem e não fraga,
e que faça eu, oh eterno,
se me ausculto no enrugado granito que te pariu
e te afianço pelos reflexos
onde ninguém te viu?

2017-04-02

O sorriso alimenta-se a si mesmo

“O sorriso alimenta-se a si mesmo”, ao domingo, na Bird Magazine.

Gosto de ser surpreendido quando a surpresa se esgueira e me levanta a pálpebra da atenção trazendo o que muito bem entende, pensando que me vai fazer sorrir. 
Gosto de ser surpreendido com boa música, com conteúdo, bem longe do que querem que ouça. 
Só assim é possível alcançar alguma lucidez e calma. 
Chamemos-lhe idade, crise, inconsistência, mas cansa, estou cansado, as pessoas dizem-se cansadas. 
Ainda procuramos no cimo do caminho de terra, com a bola debaixo do braço ou a boneca presa ao peito, a chegada de amigos para jogarem e brincarem connosco.
Agora, no final da rua, está apenas uma bicicleta e eu ainda espero, um dia, pelas gargalhadas e travessuras, por tempos em que nascia um sorriso a cada vento, um abraço a cada golo.
Crescemos, sei-o, levo 41 voltas ao Sol e todos os dias me lembro que cresço, no entanto, a cada vez que olho para a bicicleta pergunto-me se crescemos nas direcções correctas, se vale a pena a maior parte deixar de lado a inocência, o sorriso, a confiança e a garantia de um "juro!"
Antes, como agora, comovo-me pela simplicidade, pelo olhar de júbilo aquando de uma vitória, pela forma mais inusitada de uma nuvem, pelo sorriso de uma cumplicidade. 
Embora todo o mediatismo e as redes sociais façam parecer o contrário, caminhamos todos em direcções diferentes, indiferentes ao que fazer, mandados por uma sociedade que, ao longo de gerações, tem conseguido que todos, quase invariavelmente, sejam aquilo que se espera deles.
Vale a pena ser mais, Mais. Como o grupo de amigos, um verão azul, o vento na cara e todos, sem excepção, a assobiar, por estradas diferentes com um destino único, nós mesmos.
Bastaria sermos amigos de nós próprios, sem necessidade de hashtags, no sossego ameno das nuvens que se atropelam na pressa de saírem da frente do Sol. No entanto vivemos ao sabor do vento, não do que sopra, mas do que nos sopram, como se fossemos pequenos barcos de papel, frágeis, nas mãos de gigantes que, ajoelhados no chão, sopram-nos ao sabor das suas mais asquerosas intenções. 
Crescei e multiplicai-vos rasurado sobre o crescei e amai-vos.
Nós, à deriva, derivando, vamos de vela levantada para onde nos dizem para ir. 
E quando a diversão termina ou o papel está já encardido, espetam um dedo indiferentes a quem por lá navega, com um sorriso cínico no rosto e ficam jocosamente a observar afundar-se um barco.
A liberdade nunca teria que ser conquistada, nasce connosco ainda antes de sermos corpo. 
Como o sorriso. 
E o sorriso é tudo o que basta para aquecer uma noite ou florir um mundo. 
Gratuito, sem depender do que temos, o sorriso alimenta-se a si mesmo e ganha vida, saltando de rosto em rosto, até, cansado, mas feliz, se deixar cair nos braços da amizade e ali ficar enquanto houver quem o escreva.
Era hoje, o dia, em que caminharia por todas as costas até perder de vista os meus passos para passar a ser areia, lavada, levada, pelas ondas do mar e, aí, ser água em todas as costas e descobrir que de terra e água todos temos um pouco, mesmo quem nunca viu o mar.
E o mar, que me tem, sabe-me a mar.

2017-03-26

Que me lembre, sempre, eu, de ser pobre,
adormecer desnudado de mim,
de não distinguir ouro de cobre,
mundano
contra o vil, espartano,
cair por olhar as estrelas
e seguir adiante, ainda que ignorante
do brilho soçobrante das velas,
no meu destino pelo infinito, 
errante.

Livros do que somos

Crónica de domingo, na Bird Magazine.

Faço-me de conta, sentado, banco de madeira, jardim, chuva, guarda-chuva, caderno, caneta, gotejar, pássaros, árvores, livro.
Roubo à vida todos os episódios dos filmes com que me cruzo.
Mais do que um guião, as pessoas, suas expressões, sorrisos, choros, conversas e silêncio são a sua própria legenda.
Eu (coitadito, diz a cigarra), apenas queria ser espécie de personagem, talvez por isso me encontre enfiado no meio de páginas amarelecidas de livros antigos, saído, talvez fugido, de histórias onde moram pessoas, gentes embebidas em fumo e que me acompanham onde quer que a imaginação me queira levar.
Cada narrativa uma vida, provavelmente por isso não me saiam dos dedos histórias, apenas palavras solitárias, casulos de uns quaisquer sentimentos que, acredito, raiam o toque que se quer do amor, Amor.
O Inverno acabou de sair , mas ainda me traz no frio o refúgio escrito na lombada do livro que me olha.
Que pena não me sobejar ambição quanta me brota em desejo de ser apenas o corpo onde repousa uma mão.
Amanhã nascerá dia, luta uns dirão, o corropio de correr atrás de uma falsidade e descansar, talvez cair, quando já o Sol se cansou de esperar por nós e ordena à Lua que nos venha deitar os olhos enquanto descansa.
Mais umas quantas palavras e tenho já o meu abrigo completo.
O vento passa já ao largo, assobiando nas esquinas daquilo que não encontra, um pouco mais e até a chuva se limita a deixar pingar o som das águas no telhado.
Poucas letras mais.
Faço a última fiada com aquilo que sonharei, sobrará espaço para o fumo sair e o lume, esse, que aquece, apenas crepitará já quando de olhos fechados, e talvez molhados, um dos personagens que me vestem de humanidade trouxer um braçado de sonhos em forma de lenha e perguntar:
- Consegues ouvir o quadro com as paisagens que te chamam?
Mas eu sou surdo também, mudo, mudo de sentido e de posição, porque o tempo não se intimida (nem eu).
O bater do relógio sabe forjar o tempo sem fogo.
É trôpego o nascer do dia, sem cansaço que o adormeça, diverte-se a pintar, minuto a minuto, cor a cor, o horizonte.
O que te chama, entre molduras, da chama ao café, do monte ao livro?

2017-03-23

Sorrisos grátis

In Correio do Porto.

Sentir e ver momentos de carinho despojado é raro, talvez por não estar com os olhos sempre sintonizados na frequência certa ou, simplesmente, porque nem sempre eles saltam à vista.
Estou na fila para a caixa da Staples (Constituição), na caixa três meninas, uma funcionária e duas pré-funcionárias (estagiárias).
A funcionária mais velha explica às duas meninas o que devem fazer, como fazer, aponta todos os detalhes, creio que alguns detalhes nem ela se lembrava.
Ensina com um carinho e sorriso na face, com uma sinceridade que desmancha o egocentrismo, uma autenticidade despojada de quem dá de si, para que outros sejam mais do que ela mesma.
Sem medo de se ver ultrapassada.
Parece-me tão raro.
Na vida e na escola.
Quantos de nós ensinamos de facto tudo o que sabemos a outros, sem medo que nos ultrapassem?
Ser professor, de escola e de vida, deve ser isto mesmo.
Sermos degrau para mais altos voos.
Paguei.
As estagiárias, atentas a todos os procedimentos, nem reparam que a monitora escreve incorrectamente o nome da empresa na factura, mas que interessa este pormenor?
No meio disto tudo, recebo as duas sacas e a resma de papel e levo comigo três sorrisos.
Sim, os sorrisos foram grátis.


2017-03-19

Pai

Crónica, na Bird Magazine, a respeito deste 19 de Março.

Aperto as mãos e faço força para que os braços não me escorreguem. 

Encosto a cara ao blusão velho, cujo cheiro consigo distinguir na memória e fecho os olhos. O barulho da mota soluça pela noite, tenho uma lágrima presa pelo frio e o sorriso congelado na felicidade de imaginar, ainda hoje, a mota negra a ribombar por uma estrada imaginária em direção ao céu.

Nada há que prenda mais à vida do que as mãos calosas de um pai, o cheiro a barba desfeita, o pegar no pincel às escondidas e imitar o gesto paternal, afagar a face barbeada e olhar, de baixo para cima, a imensidão de um ser que, saberemos depois, imitamos os gestos mesmo quando, muito mais tarde, nos confundem como irmãos. O tempo encarrega-se de nos parir para a vida, vamos subindo os dias como que se fossem ainda aqueles muros de pedras mal amanhadas e musgosas, cuja integridade se dilui um pouco como a espuma da barba quando a água se esvai pelo lavatório. 

“Ali ao fundo, vês?” Pergunto-te como se estivesses ali mesmo ao meu lado. Não o estás da mesma forma que os outros transeuntes, mas para mim é como se estivesses, ali e em todo o lado, porque me habituei a ver esta irrealidade que nos tenta içar ao infinito como se pelos teus olhos vislumbrasse e, mesmo assim, como os pequenos presentes de Natal ou os sacos de amêndoas de chocolate que escondias nas mangas do sobretudo, todo o insondável mistério da vida se augura como uma longa, por vezes lenta, caminhada de descoberta das nossas próprias mãos, das nossas próprias mães, dos nossos próprios pais. Sei bem a que sais, nas cãs e no silêncio em que pronuncias todas as milhares de páginas que leste e eu, filho, que nem sei como entrar nesta coisa a que chamam vida, ainda tímido sou a tarde de sábado que te convida: “Como é, vamos ao café?”

“Ali ao fundo, vês?” Pergunto de novo. Há um pai com os pés na água fria do mar, um sorriso que oscila na maré deste sábado de manhã, uma criança, talvez eu, que experimenta a areia fina cujo tempo depositou com carinho e caminha, não com medo, talvez curiosidade de sentir entre os dedos dos pés a facilidade com que foge de nós o momento em que juntos, pela cumplicidade, parecemos sós.

Sabes o quão estreita parece a vida, mas é por isso mesmo que, no crepitar sôfrego da vela sobre o pavio onde ouvíamos as noites sem electricidade, me faço mais homem. 

De eterno temo-lo a Ele e d’Ele, os olhos, os teus, são a porta de entrada para a recordação do que serei quando a vida me vier trazer mais Vida e, como tu, me pegar ao colo e me deixar adormecer porque a noite caiu e a maré terminou. É agora que sei quem sou, os dias ásperos de quem a própria transpiração suou, a terna carícia que surgia quando me fazia adormecido. Este mundo é pequeno demais para sermos pai e filho.

“Sem nada para falar, para tudo te dizer”, escreveste um dia como se todo o conhecimento se resumisse às vezes em que olhamos juntos, ainda hoje, páginas distintas de um só livro. De quanto vazio precisaremos todos para apenas assim sentirmos, sabermos, que é de facto desta forma que temos tudo?

Assiste-me a circular tendência de me ver família de mim mesmo. Sei que no início era o verbo e este, no infinitivo, conjuga-se assim pai: eu amo. Eu, pai, amo-te.

2017-03-12

Não saíram de mim as estrelas

Crónica de domingo, na Bird Magazine.

A campânula treme assustada pelo silêncio que se inclina sobre o vale. 
Aqui, as caminhadas nocturnas são feitas por entre o nevoeiro que se liberta da terra, quente ainda, porque os dias se fazem mais corados, estendidos no esverdeado pasto. 
O sino repenica pelo valado, cansado de subir encostas que só vêm eucaliptal e fogo, quando ao homem interessa tal.
As pessoas acumulam-se na multidão de pares, teremos seis ou sete casais, viúvas de gente feita, feitas de gente que jamais abraçou outra cor além do negro. O padre chegará e falará, do alto do seu catolicismo, muitas das vezes separado dos iniciais capítulos (e por isso mesmo, mais virginais) do evangelho e por entre o medo da vida e o terror da morte, cá se pecamina apenas e só por respirar.
O dia folcloriza-se, jazem ferramentas térreas, suadas de suor alheio, pelejadas de calos, caídas como sulfato aspergido ou como a estrela cadente que vi pousada num cabo eléctrico à espera que alguém a visse e se precipitasse horizonte abaixo, porque o horizonte não é onde a vista alcança, é onde os olhos descansam, a meros metros de distância, para lá do infinito ou, comummente, para cá do olhar, dentro da galáxia de células que dominam o meu olhar. 
Será sempre um caminho, percorrido ou por percorrer, um abraço ou uma bolacha de um velho sortido engalanado como presente de aniversário. 
Vou-me contando pelos dias, sabendo que quando os vivo transformam-se em mim mesmo, dia 12 de mim, de 2017 ou de 1935, um ano bastará para saber que contados os 365 dias e as 6 horas, não sobraram minutos ou segundos por viver, vendo paisagens e horizontes sem nunca se tocarem, como duas mãos de um mesmo corpo que nunca se juntaram, em oração, em exaltação, em carpintarização.
As mãos formam, cada uma a seu estilo, linhas disformes que afluem nos rios em que toco, sem lhes competir saber se o dono do composto químico baseado em carbono sabe, ou não, nadar.
Não saíram de mim as estrelas. 
Pelo contrário. 
Continuam desenhadas no interior de mim mesmo, para que as veja mesmo quando a nebulosidade de um dia cinzento ou a cinzenticidade de pessoas sem dias se sobrepõem ao facto de, para mim, o dia ser o momento em que procuro a sombra e a percorro, da cabeça aos pés, para me ver nascer da crepuscilidade ao desnivelado mirar trepidado pelo percurso altibaixado que faz vibrar cada letra que me compõe.
Há dias em que me vejo acordar ainda antes de abrir os olhos, acomodo-me a este invólucro e levanto-me como se o dia existisse mesmo, palpável, como um copo entre dedos, um corpo entre braços, para depois me ver adormecer, ainda antes de fechar os olhos, levantar-me e olhar para trás, para o milagre quântico que jaz apaziguado com o lençol e Eu continuo, de noite, ao encontro do verdadeiro Sol.

2017-03-10

Fascínios

Fascínios, no Correio do Porto.

Por vezes viver é isto mesmo, com letra pequena, perdido nos ses da vida, assim mesmo, com letra pequena, para me descobrir, sempre, com letra grande, sem me fazer escrever, porque também não sei viver muito bem.

Há algo de mágico que me fascina, sempre, as côdeas duras, o resto dos cereais no fundo do saco de pano que foi útero de pão que me alimentou, um casal de idosos que aguarda no separador central de uma avenida um carro que lhes dê passagem (e a passadeira a dez metros), o levantar do chapéu em saudação, o avental azul-escuro com um bolso central de alguém que traz um “puxo” de cabelo grisalho, uma cara vermelha que exibe o conteúdo de um saco plástico, um par de botas novas, marca feirex como usualmente ouço dizer em tom trocista, um puto que transporta um carro de bombeiros, de plástico, como há muito não via.

Serei feliz apenas com o meu olhar no fundo de uma chávena de cevada, quente, em que me vejo rodopiar no sentido dos ponteiros do relógio, envolto em mim e na espuma.

Serei feliz apenas com os olhares que encontro na vida e me recordam de mim.

Olhares fundos que procuram e encontram, nas pessoas e nos mundos, nas paisagens e nos encantos que as letras me trazem.

Não sei ser mais nada, além do que sou, e isto emociona-me.



2017-03-05

Olhares

Crónica de domingo, na Bird Magazine.

Vou redireccionando o sono para regiões recônditas do meu ser, mas onde quer que vá acabo por me encontrar. Amanhã suceder-se-á a este momento e lá me encontrarei, não sei com que estado de espírito, mas estarei. Fico a percorrer caminhos que trilhei apenas na mente, não são palpáveis, mas saboreiam-se, como o sabor de uma guloseima que cobiçámos, embora hoje em dia a oferta seja tanta, que os nossos gostos são moldados pelo que nos chega aos sentidos e não ao contrário. E por ser tanta a oferta e tão inusitado o gesto de escolher, que me retenho na recordação de um dia, ou noite, como outro ou outra qualquer, num corredor igual a tantos outros, que pena pecarem pelo mesmo as grandes superfícies. 
Seriam quase 22 horas, hora de fecho ou próximo, percorro sem olhar as prateleiras das guloseimas com um misto de saudade pelos tempos em que algo doce era um rebuçado da tosse ou uma bomboca, quando muito um pacote de bolachas alfa ou, o top dos tops, um gelado.
Fico no final do corredor, rodeado de delícias, quando vejo um adulto, mais velho que eu, com um pacote de gomas na mão e a olhar para os restantes pacotes, com imensas variedades de sabores, dezenas de cores cuidadosamente seleccionadas para atrair os pobres insectos em que nos tornamos, quando não moscas atraídos pelos excrementos que nos tentam impingir. 
Chama-me a atenção para o rosto do rapaz (e o aspecto singelo e puro que possuem aqueles que a sociedade cataloga de deficientes), o penteado, as calças de ganga desbotadas e curtas, as meias brancas e as sapatilhas uns números acima do que certamente calça. 
O pacote de gomas na mão, o olhar nas outras, a indecisão, a certeza de um sabor conhecido pela aventura de um pacote mais colorido e com múltiplos sabores. Eu, disfarçando, demorando mais tempo que o necessário em torno de umas bolachas que não tenciono comprar. 
Olhou para mim, cruzou o olhar comigo, apercebeu-se que estaria a admirar a cena e, num movimento rápido, trocou o pacote por outro, não sem antes baixar a cabeça e me olhar, pela última vez, com uma expressão que se assemelhou a mescla de vergonha com tristeza. 
No final, enquanto relembrava esta imagem, vá-se lá saber porquê, surgiam-me lágrimas nos olhos, um misto de alegria e tristeza, um rememorar de momentos em que eu, talvez, em frente a uma prateleira com duas ou três sacas de rebuçados, decidia pela que mais se adequava à minha carteira, consciente que, tal como na vida, alguns doces estão caros de mais para o que desejamos, mas no final, nenhum dos desejados serviria para a nossa fome de Ser.
São estes olhares que me mantêm vivo.
Sempre os olhares.

2017-02-26

Eu só sei ser calado

Crónica na Bird Magazine, em 26/02/2017.

Percorri as prosas rimadas que tinha esculpido. Há um sentimento de partilha comigo quando leio do que me escreveram as mãos, sinto um pouco de orgulho, havia ali uma sílaba que me fez sorrir, dizia-me: “Olha, era isto que estava a sentir”.
O vento bate na porta da igreja, encosto-me por instinto e por escassez de lugar nas últimas filas que ladeiam o corredor, lousado, irregular, que guia ao altar. Há a distância que se quer do sagrado. Sequer ousasse sacralizado.
Bate leve, levemente. Eu não sou, será gente? Era gente sim, que se escorre de frio e fecha o guarda-chuva no silêncio possível, deixando-o encostado a espremer-se de água caída e a dormitar orgulhoso de vareta curvado. Tudo na vida faz sentido, até o silêncio que trago comigo, arado.
Deu-se início à cerimónia, a natureza conspira contra o solene acto de mnemonizar grafias antigas que outros urdiram em sacralizar, o barulho da porta a bater nas minhas costas, o desequilíbrio e o bater de ambos, porta e eu na ladeira granítica. O olhar ríspido, altivo, inocente e sem sacralidade sobre os óculos para mim faz-me confundir com a porta. Encosto-me e finco os pés. Se alguém bater, por leve que seja, não entrará hoje aqui, na igreja.
Tu estás encostado à esquerda de toda a gente, quando nos disseram que estarias à direita do pai. Sei o que isso é, também eu ia à sua direita, imitando os gestos do volante com um velho livro do Lucky Luke. 
Lembraste quando me disseste onde ias estar dali a uns anos? Rimo-nos. E choramos. De quantos sois precisaria o olhar humano para sentir a imaginação sequer do ameno calor daquilo que nem a realidade te soube contar? Pelo teu acordar valeu a pena adormecer, de vela oscilando de sono no pavio retorcido, esmorecido.
Há uma cacofonia que teimo em não escutar. A pedra onde assentaste, sabia-lo, iria trazer a aridez plutónica do que arrefeceu na profundidade de cada um que se seguiu. 
Uns que entram e saem, admirados por me verem ali, de porta fechado, eu no futuro, eles no passado.
Confundem-me com a porta, saem todos no remoinho de gente no inverno, folhas que um vento levou porque rezaram, mas ninguém de ti se lembrou. 
As luzes desligam-me, fecham-me como porta, o ferrolho corre preguiçoso no áspero ferro. 
Há agora espaço de manobra, bancos de sobra, coincido-me com o andor e fecho os olhos quase como quem se acorda. Em espaços de madeira onde se ajoelham as saliências de quem se fez terra entre leira, também eu soçobro e deixo cair baixinho duas gotas de saudade. 
Tu surges. Ris-te. Eu choro, envergonhado, não lacrimejado. 
Há meia dúzia de palavras que nunca soube proferir, o ruído do ferro que se rangeu quando os pregavam, nós escondidos, eu com medo e tu senhor, em segredo, sabias já, sei-o agora, do bafiento agreste inodoro arrastar de sotainas por quem te chama em sussurro, para que não venhas. 
O vento bate com mais força. Eu nem sei porque me demoro, nem por que acordo, mas tu alças o braço sobre o meu corpo carregado de ignorância e desambição. 
“Eu só sei ser calado”, desabafo em torpor, mas dizes-me que “isso é o amor”. 
Eu chamo-lhe silêncio e tu, sorrindo: “Sim, por acaso me viste gritar?”

2017-02-19

O caminho não é senão o que fazemos imóveis

Crónica, na Bird Magazine.

Nada atemoriza tanto, nem cativa de forma igual face a tudo o que encerra, que uma folha branca num caderno onde sonhei depositar sonhos.
Não me parece existirem montes suficientes onde eu possa desfrutar, na mão cheia de dias de vida que me restem, de um pôr-do-Sol empoleirado numa rocha.
O colorido Sol que se aninha por trás de uma colina adivinha um tolde cinzento salpicado por cinzas pequenas, trazidas pelo vento, para que ao longe todos se apercebam da tragédia que são estas labaredas. Talvez seja um desesperado acto de consciencialização, as árvores, flores, vegetação e talvez até animais, que se deixam consumir em carvão e farrapos cinzentos, a cinza que se respira, que se aloja no nosso corpo e se transforma ou reforma dentro de nós, encostadas ao nosso âmago, aconchegando-se àquilo que nem nos lembramos de possuir, um coração, para que possam sobreviver mais um pouco.
Acredito que sejam estas cinzas que choram quando o meu corpo as leva, sem saber previamente, ao local onde elas próprias se cinzelaram. Não queimaram ali, mas a cinza (ao contrário do ser humano, sente e por isso sabe-o sem dar lugar a incertezas) vê no negrume do queimado as suas próprias mãos, ramos e sonhos. Uma árvore é-o aqui como é num outro monte, não há duas árvores, nem tão pouco uma floresta, uma árvore é a mesma árvore onde quer que esteja e não será, parece-me, por nós não o sabermos ou acreditarmos, que ela deixará de o ser e de sentir sua a perda de outras, assim o pensámos, árvores. Temos tanto a aprender com elas…
Vamos aprendendo o que outros sabem, sem grande margem para aprendermos o que nós próprios nos ensinamos, parece-me que corroborar algo escrito se torna o caminho mais fácil quando o escrito está já institucionalizado.
Percorremos as estradas que outros, a seu tempo, traçaram e, convenhamos, bem o fizeram, mas não será este o tempo de nos cansarmos dos mesmos caminhos e dar azo a que novos trilhos surjam, aqui e ali, primeiro como indeléveis percursos de vegetação calcada, gravilha depositada, serpentados atalhos daqui até ali, para darem origem a alamedas que, depois de abertas, surgem tão óbvias que nos fazem indagar, como raio é que não vi isto antes?
Até aqui a vegetação, as árvores, nos prestam o seu legado ao serem elas mesmas a dizer, vem por aqui, olha como me prostro, para que vejas este caminho. Serão elas, brevemente, a dizerem, perguntarem, não estás farto desse caminho? E a indicarem, a quem as quiser ler, que não sobram espaço nos livros para os mesmos caminhos, que há necessidade de mais, ou menos, e à medida que nos libertamos do peso daquilo que conhecemos vamos subindo, descendo, em espiral até ao momento em que este corpo será forro para o caminho que as árvores percorrerão e nós perderemos as dezenas de gramas que alguém pensou serem o peso da alma, mas a alma não tem peso ou massa. Estas dezenas de gramas são o correspondente às cinzas das árvores que nos fizeram caminho e estavam, há muito, alojadas no nosso coração.
Dia virá, como o vento, como as pessoas que passam neste trilho, em que saberemos o caminho para casa e as árvores não tenham a necessidade e quase obrigação, como espécie mais inteligente, de se sacrificarem e em cinza subirem connosco para que aprendamos: o caminho não é senão o que fazemos imóveis.

2017-02-12

Quando nada se vê é aí que tudo se tem

in Bird Magazine.

Não espero encontrar ninguém, no entanto, quando acabo de me desfazer da curva apertada à esquerda, enfrentando o calor, eu, a subida, o carro, um bordão alto e retorcido, negro como a ambição, apoiava-se a um homem hirto, senhor da sua idade, com uma boina sem qualquer padrão, contrastando com a indumentária quotidiana de quem se veste para proteger o corpo. A figura parece-me saída de uma encenação, acrescentando (e daí a riqueza) a pobreza de nada ter além da pose, o bordão, a mão sobre o nódulo da madeira e o queixo sobre a mão, deixando as costas da mão direita, como pude ver depois, com o picotado profundo da marca da barba rasteira como urzes e persistente como o amor.
Soluço, eu e o carro, subimos o alcatrão negro imaculado, não fosse esta estrada caminho para terras de ninguém, aqui nada deve passar além do que vai para além, entendam-se os defuntos, no último cortejo cujo negro cerrado contrasta com o colorido disperso de romarias em honra de santa qualquer coisa que Deus lhe valeu, a todos, menos eu. 
Em terras de cegos, todos vêm o que necessitam e por aqui, quando passo pelo homem que facilmente se confundiria com espantalho, abrando e lanço um educado boa tarde. A natureza traz-me silêncio e parcas narrativas à nascença, mas nunca falta de desenvoltura no bom “o que quer que seja”. Uma ligeira curva à direita e um pequeno largo antes do portão fechado à fé e aos ladrões. Ajeito o carro e o olhar para ficar voltado para o vale e fico ali, a ver o verde que se estendeu retalhado aqui e acolá por um pouco de castanho, pintalgado de branco, negro e castanho da vaquicidade que pasta. Ouço o cascalho ranger, uns passos. 
- O senhor vem por causa do terreno?
- Não, não venho, vim só ver as vistas.
- Olhe que vem ao melhor. Quem comprar ali a cavada não vai saber aproveitar.
Ficamos ali. Eu a fazer o que sei de melhor, calado, o vidro aberto, o calor abafado, o suor nos braços. Ele a olhar para o mesmo horizonte que eu, o corpo abafado ao calor habituado, o bordão a completar esta santíssima trindade.
- Se não chegam, vou eu, tenho ali uma estufa dos tempos da minha mulher, todos os anos dá morangos e agora desde que ela partiu, dá-os fora de época. Sabe o que é saudade? Oh pá, isto enfia-se pela gente e dá às vezes um nó tão grande que se ainda tivesse forças, mandava-me a pé até ao Ermelo e arremessava-me de lá de cima só para ir ter com ela. Mas, olhe, depois vem a consciência sabe, a consciência é coisa de Deus, a gente matuta nas coisas e pensa que se o tempo não nos colheu ainda é porque não é tempo de colhedura. Não acha? - não tenho tempo para pensar em nada. - E depois, quem ia tratar dos morangos fora de época? Já viu? Vêm os inocentes a este mundo, ainda lhes pus o prástico por cima e em dias de vento ainda calco com um pau grosso. Olhe, vê este? - é o bordão onde se apoia – Estava por lá hoje, mas como estou meio cansado do calor e num há vento, trouxe-o comigo. – O bordão impassível parece piscar-me o olho – Se eu lhes faltar, coitados dos morangos, nascem e morrem sem conhecerem ninguém.
O silêncio cai novamente e instala-se entre nós mais uns minutos, a olhar também para o horizonte.
- Olhe, aquilo do Ermelo, é a gente a falar sabe, eu não faria isso. Um homem se não fala não vive e se num manda isto para fora, ainda arrebenta.
Olhei-o, cruzamos o olhar por momentos e antes de eu me despedir apertando a minha mão esquerda na sua bolbosa mão, sem entender que a tarde quente me tinha feito mais homem, ainda rematou.
- A gente habitua-se a estar sozinho, mas nunca está sozinho, tem amor de Deus, sabe o que isso é? Foi ela quem mo disse. Amor de Deus, é como dizia o Cristo quando ninguém o escrevia, quando nada se vê é aí que tudo se tem.

2017-02-11

Moradas

in Correio do Porto.

Percorro atalhos com a visão enquanto permaneço no caminho usual. Não há plano, apenas uma curva a seguir à outra. Tenho tempo e distração suficiente para ver um pequeno triângulo de terra tratado, lavrado, plantado e florido, tudo num só retalho. Uma miragem real num solitário canto entre eucaliptos, pedras e matagal abandonado. Dou por mim em pé, descalço porque a situação assim o exige e também porque assim é que em nós entra aquilo que pariu. Olho para uma pequena planta. Tenho gosto a mais e conhecimento a menos. Não lhe sei o nome, não interessa, serviria apenas para a catalogar, assim liberto-me de identificar e dedico-me a desfrutar. Vejo-a crescer lentamente, mas ainda mais rápido do que poderia supor, enquanto passam por mim ascendentemente flores, folhas e suas nervuras, caule. Quase ouço a seiva bruta sugada à terra em forma de água sais minerais, só quando vejo o chão percebo que não era a planta que crescia, mas sim eu que diminuía. Descalço, minúsculo, começo a entrar pela terra até não ser mais eu, mas sim um pequeno torrão de terra, húmus, mineral e seiva. Vou diminuindo estranhamente, mas consciente, mais consciente agora que me sinto toda a terra, água e lava. Ascendo enquanto impludo, como se de mim crescesse algo que só se pode manifestar quando de tão pequeno se faz mais ínfimo. Rapidamente sou partícula, qualquer uma, esqueçamos nomes, que ancorou neste aglomerado, irmão e irmã de todas as outras partículas e não partículas e quando me vejo ser e não ser, com todos os infinitos como sendo meus, pergunto-me: será assim que se sente deus?
Estaciono o carro, olho pelo retrovisor e aguardo ao som de Ragcpickers Dream, passam poucos segundos quando me vejo correr saído da curva, sorridente, até chegar ao carro, entrar como se não existissem barreiras físicas, olhar-me extasiado e dizer-me, com o brilho de um puto que descobre algo inteiramente novo: sabes que descobri? E antes que eu argumentasse com o tempo que perco comigo e o preço do combustível, já eu me dizia: rezam sem o toque do chão nos pés descalços, encomendam milagres e resguardo de problemas seus, sem conhecerem que dentro delas também ele mora, quem? Deus.

2017-02-05

Tempos

in Bird Magazine.

Aquele adensar de cinzento leva-a a meter os imaginários, mas não menos reais, braços para abrir caminho, como quem se separa da multidão e abre espaços para passar, muitas das vezes sem saber para onde, o que é já o melhor dos motivos. 
O céu escurece, as nuvens querem-nos vedar o acesso às estrelas e a lua rompe por segundos o cerco, para olhar para mim muito séria, talvez, como eu, desconhecendo o que se está a passar. Pisca-me o olho, metaforicamente claro, e desaparece lentamente. Primeiro ainda acompanhei a luminosidade, depois vi-a diluir-se nas nuvens, como um sonho que tentamos recordar de manhã ao acordar e o mesmo se vai escondendo para dentro de nós próprios. 

Tenho os sonhos a espreitarem, timidamente, por entre as palhas do ninho. Que céus voar se o ar respirado esvoaça dentro de nós e nos expira de encontro ao mundo? Alguém se aperceberá da prisão com que nos cercam diariamente? Dão-nos o colorido papel de embrulho com o qual nos envolvemos, felizes por ter aquilo que disseram que queríamos, dizem-nos para dizer que assim se diz, assim se embrulha. Vai e ensina, sê um bom produto. Não tardará até nos darem o laço, a bruxuleante fita que ornamentará o pacote fechado onde dizem que te podes exprimir desde que digas o que te disseram para dizer. Um dia quererás chegar ao céu e conseguirás faze-lo, sem te aperceberes que tocas a tampa do teu invólucro e morrerás feliz, com f pequenininho, porque atingiste aquilo que te disseram que é suposto atingir. 
Atingirás algum dia quem és?

A noite está bem instalada, um cão ladra, ninguém responde. 
Acabará por cansar-se e, volta e meia depois, deitar-se-à e vai adormecer, entrando no sonho sem pedir licença e usufruindo da lua que o nevoeiro me roubou. 
Só por hoje, ouço, e embora sinta e saiba que muitas outras noites se seguirão, há algo nesta noite que me diz que a lua está à minha espera nos céus por onde voo quando acordo do lado de lá da minha vida.
Sabes quando desligo a luz e ao som da tímida chuva imagino o grosso cobertor de tiras, a camisola de lã, o resto das brasas a adormecerem, sombras invisíveis no prolongamento da noite pelas paredes. 
Arfas ao meu ouvido enquanto descansas a cabeça no meu ombro, farto de vagabundear em mundo sem árvores nem Outono. 
Desiludido, dizes-te cansado. 
Pergunto-te, porque corres tu tempo?

2017-01-29

Agora, que todo o tempo morreu

in Bird Magazine, em 29/01/2017.

Vou caminhando por entre as palavras, há um labirinto imenso de onde não quero sair, a dimensão onde tridimensionalmente me acometo às letras e as guardo, para mim, apenas, sem saber delas onde pousar lesto o pé e devagar o olhar. 
Cá dentro, na caixa onde se inspira um bater compassado, vou tecendo de olhos no céu um arco de volta perfeita, cabendo na palma das mãos a luz que invoco à gravidade do astro que um dia sonhei brilhar. 
Não há pausas na vida quando ela se senta ao sol, parada, contente, como um punhado de flores que se sabe feliz por não ser gente. 
Floresça a realidade por fruto de imaginação, quando nada há a dizer tudo se escreve pois infla soma e esvai-se psicose no direito a ser-se mesmice. 
Quem nunca pesadelou no que já disse? 
Esqueço-me de vós, mãos, porque vos trago em concha na tentativa de vos encontrar pousadas sobre os meus ombros.
Quantas palavras da nebulosidade condensaram os pensamentos ascensos? 
O Sol permite-se descansar no meu colo e enquanto tomo conta dele, passando-lhe, com cuidado, a mão sobre a cabeça cujos cabelos labaredam no final da manhã, o dia vai madrugando ainda que se faça noite dentro dele, do Sol ou do mim.
Olho o céu que me permite sonhar com dias sob um céu de todas as cores.
Acordo estupefacto e na ironia do despertador, cuja passividade horária me abala, sinto-me mais nuvem e menos cal, onde se abrasem água e terra, mineral e sal, tu e eu.
Da minha janela não vejo nada. 
Sonho com o descerrar da cortina que me permita ver o que sonho. 
Há-de haver a encosta, que a minha alma tanto gosta, e um cantinho de terra onde nascem as sementes que me plantaram. 
Há-de acabar por fim o vítreo do futuro que oscila entre ontem e hoje, para deixar que a tarde desensolarada se permita estender a sombra pelo meu corpo abrigado e vá, pé ante pé, aquecendo-me de dentro para fora.
Fecho-as, mãos, agora, que todo o tempo morreu e vou, caminhando, do silêncio semeado ao canteiro de onde me plantei, quase por acaso, quando por mim mesmo, ingenuamente, sonhei.

2017-01-22

Onde o ribeiro passava

Crónica de domingo na Bird Magazine.

É sob as estrelas que me confesso senhor da criança em mim. Longe dela, alcanço-a sentada a ler num qualquer valado. Lê campos de trigo, pomares e estuda ao pormenor as grainhas das uvas que imprudentemente trinca.
Chego a perguntar-lhe o que lê, mas afasta o livro e o pequeno bloco onde anota os shares e os custos das suas acções preferidas, as boas acções.
Desenha caras, episódios, gentes e momentos que parecem saídos dos tempos de escola, sentimentos, sensações, passos semipassados e alguns empurrões.
Tudo ganha forma de disformidade imaginada, existem poucas letras na beira da estrada, apenas passos a descansar, refúgios, não vá um dia o mundo acabar!
Consigo erguer-me à altura do ombro enquanto dormita embalado por alguma recordação.
Hoje não.
Amanhã talvez.
As palavras que este outro eu redige são as lembranças de criança adulta, poderia eu saber que estas frases mal confeccionadas são na realidade toda a minha, avulsa?
Cada passo imprevisível hoje traçado, estava há muito escrito pela criança que fui e sou.
Ontem não foi passado.
É um presente arrastado, que irá desaguar quando as primeiras chuvadas fizerem desfolhar caoticamente uns organizados trilhos e lembranças, que são minhas estradas no futuro.
Foi-se embora. Caderno em cima do muro.
Terá terminado o som do meu caminhar ou estará apenas a dar-me uma oportunidade para da vida descansar?
De uma passada passo, passivamente, de um momento para outro. Cada calçada sua sombra, cada sombra seu pavimento. Assim me disse ele antes de teimosamente zarpar numa forma de navegar a pé pela ondulação encrespada que rodeia o vau. Avisei-o do mau tempo, de promessa de vento, da noite que não tardaria e do perigo das estrelas geladas em terra fria. Ele sorriu, rejeitou a minha oferta, uma noite no meu coração, disse-me que precisava chegar a mais, assim lhe dita do alto um Adolfo com nome de arbusto ou flor, o mesmo que lhe prometera guarida caso a noite se fizesse ameaça à vida.
E partiu, encontrei-o anos mais tarde, ao dobrar uma folha, na aventura de um conto, pareceu-me novo, destes da montanha. Como invejo a liberdade de ver o mundo pelos olhos verdadeiros, sentar-me na margem de rios, ribeiros, esperando maré, vaza, e escutar o murmúrio do silêncio dizer-me:
sentem falta de ti, lá onde o ribeiro passava.

2017-01-20

Eu e tu, noite.

Crónica no Correio do Porto.

Pouso a saudade no cimento frio. Nestas noites, até de mim rio. Deixo-me a olhar o céu, a claridade do dia a desaparecer, sombras de um sol já a esmaecer, as estrelas começam timidamente a cintilar, parecem mais envergonhadas do que eu, ganham força contra o próprio céu e, de este para oeste, de oeste para este meu mundo, formam as constelações que eu quero. Fazia-me já falta, o deitar no chão, o calor da terra como cama, o frio que se desprende até à madrugada. Eu e tu, noite. Eu e tu.
Sibilantes correntes telúricas impelem-me a içar parte de mim, sou já folha de livro por ler, a esvoaçar, sem já me ter. Saio leve e sem prisão, sem fulgor ou religião, ascendo sem o saber, apenas puxado pelos sorrisos e aromas que mora em cada uma das estrelas. Sem lei, apenas uma, bem sei, gravada num olhar fechado sem cor, Amor.
Olho para trás, já só eu no chão jaz, passo para o lado de lá da noite e espreito por cada uma das estrelas para este pequeno mundo (que percorro feliz e vagabundo), quão pequenos, insignificantes, raros e preciosos, quão sobejamente subjugados por meia dúzia de perniciosos. Espreito por outra estrela, e por outra e mais outra! E tantos mundos e galáxias, estrelas e pulsares, tantos sonhos iluminados, tantas mãos para Amares... Rio-me da cadência das estrelas, do rasgar dos céus em sinfonia caótica, tudo tem ritmo próprio e propriedade sinfónica, tudo cintila em reverência, tudo tenho eu, até a presença da tua ausência.
Daqui, nunca as distâncias profundas que separam os quotidianos pareceram tão infames e ínfimas... De página em página folheio-me de regresso, caindo, amparado pelas invisíveis mãos de outros nomes já não proferidos, até por fim o calor do chão já frio me fazer sentir carne, ínfimo, infame.
Abro os olhos.
Sou maior que os meus sonhos.
Consagro-me ao silêncio, não fosse esta timidez de existir, dir-te-ia que tens bem perto no céu, uma estrela por ti a sorrir.

2017-01-17

Tu que me ouves o silêncio,
entrando
a noite sem cais,
um mar inteiro náufrago
pergunta à espuma baça da maré
onde vais?
Nem me sei escrito
eu que confundo o silêncio com a montanha
grito
onde me cais?
E soçobro à singularidade matinal
a vida na manhã sacia
o arado
o sonho
o Deus
dá-me vontade de outros tantos eus,
no olhado semeado
a inocência infantil aspira
reflexo apaixonado que partira
ausculta
em que nota amais?

2017-01-15

Caminhos

Crónica na Bird Magazine, 15/01/2017

Chego a um caminho que percorri de sacola às costas durante os anos da escola primária (saudades e reconhecimento à professora Eugénia e à Srª Rosalina, cujo sorriso ainda me cativa). Os campos tímidos e nus. Resta a presa de água, o rio e um pescador. Parece-me ver os marmeleiros do lado de lá do rio, os mesmos aos quais puxávamos os ramos na ânsia de apanhar algum marmelo. O caminho está mais largo, ainda de terra batida, rasgado para dar passagem a qualquer carro que deseje levar o seu dono pelo meu caminho da escola.
O sol cobre os campos saciados e convida a parar um pouco. Pergunto-me se a mina ainda está no mesmo sítio, se ainda tem rãs e quase me convenço a ir lá, tirar as ervas, afugentar as rãs e beber. É engraçado, não é? Não há nenhum caminho por onde tenhamos passado que não possua ainda os nossos passos. Tenho vontade de ficar sentado ali, a ver-me passar para a escola, neste caminho onde o passado e o presente se cruza, onde os meus olhos ficam rasos de água, apenas porque sou feliz.
Grande parte do caminho está tapado, o mato, silvas, eucaliptos e fetos cobrem o que antes era um carreiro de terra e onde se via passar uma ou outra raposa. Pergunto-me se a descida tem ainda a pedra em forma de V, onde eu passava rapidamente com a bicicleta e os pedais alinhados na horizontal, para que não batessem nas faces da pedra. As vezes que falhei e caí!
Poderia jurar que ainda por lá andava, eu e os meus amigos, de bicicleta ou a correr, com a mochila a empurrar-nos perigosamente na descida pensando sermos os "Heróis da esquadrilha", o "Justiceiro" ou "Os soldados da fortuna". Existe ainda o aqueduto de pedras rudes e frias, que levava a água de uns campos para outros e onde bebíamos água ou nos aventurávamos, qual "MacGyver", a saltar de pedra em pedra, desejando não meter um pé na água. Ou os dois.
Um muro com menos uma pedra que o habitual deixa verter um fio de água limpa. A sede convida-me, mas a prudência social da ténue linha da sanidade mental impede que eu pare o carro e beba.
Um marco coberto de musgo. Se tivesse o meu bloco sentar-me-ia ali. Depois começava a olhar para as folhas pautadas e brancas, convidando-as a mirarem a paisagem, para que pudessem ver o que vejo e não apenas umas letras aleatórias, para que depois de fechado o caderno conversassem entre elas, narrassem e comentassem o que cada uma delas viu, à sua maneira, as diferentes visões do mesmo horizonte.
Chego ao fim do caminho e com este outro se inicia e novas personagens já lá moram. Eu mesmo, mais velho, e outros, alguns que já nem neste presente estão, observam-me e sorriem.
Creio que também eles vêm o mesmo que eu não vejo.

2017-01-08

Nasceu a constelação

Crónica na Bird Magazine (08/01/2017).

Não havia muito por onde estar, estendia-se o olhar pelo horizonte e onde alcançássemos com a vista era onde poderíamos estar, por isso o que se via era o que existia. 
Ainda que se constasse que se sonhava, tal poderia ser apenas possível em jeitos de profecia, de vozes inacabadas que o tempo ia empurrando para a frente, de gerações em gerações.
O silêncio abalava-se apenas e só quando um badalo, que pendia nos muitos pescoços das pequenas nuvens que pastavam, mais pelo arrepio de frio ou por um ajuste necessário ao melhor conforto do corpo que pelo movimento. De noite todos dormem. Melhor assim, no silêncio, onde o desnível colorido entre o negrume noturno e a paisagem árida tornam possível olhar o céu na complacência ao alcance de quem, pastor, se deixa ver nas tremeluzentes estrelas que não se sabe ainda serem moradas celestes, apenas gigantes desenhos separados por um pequeno gesto de unir pontos, indicador em riste, até a imaginação deixar desenhar nos lábios um sorriso no exacto instante em que a noite nos pega no braço e o acomoda sobre o nosso peito.
Já o teriam avisado, os mais velhos, que no árido terreno onde até as cabras se queixam, balindo, de tão inóspito horizonte, sonhar tinha o caro preço de deixar fugir a sobriedade para terras de onde dificilmente voltariam, mas a juventude, sempre surda a vozes mais experientes, transforma todo e qualquer deserto em local fértil de miragens. Por isso, quando de repente, ainda de noite, se levanta sobressaltado e sobressaltando os demais alertando para o que uma voz lhe tinha dito, pouco crédito lhe atribuíram, deixando-o apenas com as faces que se voltaram para o outro lado da fogueira e os impropérios de quem já não se sonha. 
Levantou-se, cheirou um pouco da geada que caía sobre os penedos já frios e foi, acompanhado pelas fiéis pastoreantes que pareciam saber já da nova, caminhando pé ante casco, até aquele andar se transformar numa espécie de claquear, um ondular ritmado das grandes teias de ferro que percorreriam um dia as planícies, assim o diriam outros que não daquelas paragens, guardiões serenos de outras miragens.
Chegaram. Os animais, sem permissão, entraram, rodearam e aconchegaram-se aos que já lá estavam numa reverência selvagem a quem das profecias em homem se saiu da miragem. Olhou-os nos olhos, baixou a cabeça, deu dois passos encostando o bordão ao cancelo, a natividade eram ainda os três, o pai entre assustado e defensor, a mãe ainda cansada, serena e o terceiro, nas palhas deitado, sossegava da descida ao mundo irreal, aquecido pelo bafejar dos animais, pelo abanar da manjedoura manca que mostrava ainda restos secos de comida animal. 
Colocou-lhe a mão na fronte, afagou o curto cabelo, passou levemente e com cuidado o dedo na fronte trémula e amena. 
Ao mesmo tempo que pousava os lábios nas mãos do bebé, aquele novo pastor velho, o tal que diziam nem ter todas as luas, a seguir a uma lágrima que lhe nasceu dos olhos fechados, sussurrou: Tinha tantas saudades tuas.