in Bird Magazine, em 29/01/2017.
Vou caminhando por entre as palavras, há um labirinto imenso de onde não quero sair, a dimensão onde tridimensionalmente me acometo às letras e as guardo, para mim, apenas, sem saber delas onde pousar lesto o pé e devagar o olhar.
Cá dentro, na caixa onde se inspira um bater compassado, vou tecendo de olhos no céu um arco de volta perfeita, cabendo na palma das mãos a luz que invoco à gravidade do astro que um dia sonhei brilhar.
Não há pausas na vida quando ela se senta ao sol, parada, contente, como um punhado de flores que se sabe feliz por não ser gente.
Floresça a realidade por fruto de imaginação, quando nada há a dizer tudo se escreve pois infla soma e esvai-se psicose no direito a ser-se mesmice.
Quem nunca pesadelou no que já disse?
Esqueço-me de vós, mãos, porque vos trago em concha na tentativa de vos encontrar pousadas sobre os meus ombros.
Quantas palavras da nebulosidade condensaram os pensamentos ascensos?
O Sol permite-se descansar no meu colo e enquanto tomo conta dele, passando-lhe, com cuidado, a mão sobre a cabeça cujos cabelos labaredam no final da manhã, o dia vai madrugando ainda que se faça noite dentro dele, do Sol ou do mim.
Olho o céu que me permite sonhar com dias sob um céu de todas as cores.
Acordo estupefacto e na ironia do despertador, cuja passividade horária me abala, sinto-me mais nuvem e menos cal, onde se abrasem água e terra, mineral e sal, tu e eu.
Da minha janela não vejo nada.
Sonho com o descerrar da cortina que me permita ver o que sonho.
Há-de haver a encosta, que a minha alma tanto gosta, e um cantinho de terra onde nascem as sementes que me plantaram.
Há-de acabar por fim o vítreo do futuro que oscila entre ontem e hoje, para deixar que a tarde desensolarada se permita estender a sombra pelo meu corpo abrigado e vá, pé ante pé, aquecendo-me de dentro para fora.
Fecho-as, mãos, agora, que todo o tempo morreu e vou, caminhando, do silêncio semeado ao canteiro de onde me plantei, quase por acaso, quando por mim mesmo, ingenuamente, sonhei.
2017-01-29
2017-01-22
Onde o ribeiro passava
Crónica de domingo na Bird Magazine.
É sob as estrelas que me confesso senhor da criança em mim. Longe dela, alcanço-a sentada a ler num qualquer valado. Lê campos de trigo, pomares e estuda ao pormenor as grainhas das uvas que imprudentemente trinca.
Chego a perguntar-lhe o que lê, mas afasta o livro e o pequeno bloco onde anota os shares e os custos das suas acções preferidas, as boas acções.
Desenha caras, episódios, gentes e momentos que parecem saídos dos tempos de escola, sentimentos, sensações, passos semipassados e alguns empurrões.
Tudo ganha forma de disformidade imaginada, existem poucas letras na beira da estrada, apenas passos a descansar, refúgios, não vá um dia o mundo acabar!
Consigo erguer-me à altura do ombro enquanto dormita embalado por alguma recordação.
Hoje não.
Amanhã talvez.
As palavras que este outro eu redige são as lembranças de criança adulta, poderia eu saber que estas frases mal confeccionadas são na realidade toda a minha, avulsa?
Cada passo imprevisível hoje traçado, estava há muito escrito pela criança que fui e sou.
Ontem não foi passado.
É um presente arrastado, que irá desaguar quando as primeiras chuvadas fizerem desfolhar caoticamente uns organizados trilhos e lembranças, que são minhas estradas no futuro.
Foi-se embora. Caderno em cima do muro.
Terá terminado o som do meu caminhar ou estará apenas a dar-me uma oportunidade para da vida descansar?
De uma passada passo, passivamente, de um momento para outro. Cada calçada sua sombra, cada sombra seu pavimento. Assim me disse ele antes de teimosamente zarpar numa forma de navegar a pé pela ondulação encrespada que rodeia o vau. Avisei-o do mau tempo, de promessa de vento, da noite que não tardaria e do perigo das estrelas geladas em terra fria. Ele sorriu, rejeitou a minha oferta, uma noite no meu coração, disse-me que precisava chegar a mais, assim lhe dita do alto um Adolfo com nome de arbusto ou flor, o mesmo que lhe prometera guarida caso a noite se fizesse ameaça à vida.
E partiu, encontrei-o anos mais tarde, ao dobrar uma folha, na aventura de um conto, pareceu-me novo, destes da montanha. Como invejo a liberdade de ver o mundo pelos olhos verdadeiros, sentar-me na margem de rios, ribeiros, esperando maré, vaza, e escutar o murmúrio do silêncio dizer-me:
sentem falta de ti, lá onde o ribeiro passava.
É sob as estrelas que me confesso senhor da criança em mim. Longe dela, alcanço-a sentada a ler num qualquer valado. Lê campos de trigo, pomares e estuda ao pormenor as grainhas das uvas que imprudentemente trinca.
Chego a perguntar-lhe o que lê, mas afasta o livro e o pequeno bloco onde anota os shares e os custos das suas acções preferidas, as boas acções.
Desenha caras, episódios, gentes e momentos que parecem saídos dos tempos de escola, sentimentos, sensações, passos semipassados e alguns empurrões.
Tudo ganha forma de disformidade imaginada, existem poucas letras na beira da estrada, apenas passos a descansar, refúgios, não vá um dia o mundo acabar!
Consigo erguer-me à altura do ombro enquanto dormita embalado por alguma recordação.
Hoje não.
Amanhã talvez.
As palavras que este outro eu redige são as lembranças de criança adulta, poderia eu saber que estas frases mal confeccionadas são na realidade toda a minha, avulsa?
Cada passo imprevisível hoje traçado, estava há muito escrito pela criança que fui e sou.
Ontem não foi passado.
É um presente arrastado, que irá desaguar quando as primeiras chuvadas fizerem desfolhar caoticamente uns organizados trilhos e lembranças, que são minhas estradas no futuro.
Foi-se embora. Caderno em cima do muro.
Terá terminado o som do meu caminhar ou estará apenas a dar-me uma oportunidade para da vida descansar?
De uma passada passo, passivamente, de um momento para outro. Cada calçada sua sombra, cada sombra seu pavimento. Assim me disse ele antes de teimosamente zarpar numa forma de navegar a pé pela ondulação encrespada que rodeia o vau. Avisei-o do mau tempo, de promessa de vento, da noite que não tardaria e do perigo das estrelas geladas em terra fria. Ele sorriu, rejeitou a minha oferta, uma noite no meu coração, disse-me que precisava chegar a mais, assim lhe dita do alto um Adolfo com nome de arbusto ou flor, o mesmo que lhe prometera guarida caso a noite se fizesse ameaça à vida.
E partiu, encontrei-o anos mais tarde, ao dobrar uma folha, na aventura de um conto, pareceu-me novo, destes da montanha. Como invejo a liberdade de ver o mundo pelos olhos verdadeiros, sentar-me na margem de rios, ribeiros, esperando maré, vaza, e escutar o murmúrio do silêncio dizer-me:
sentem falta de ti, lá onde o ribeiro passava.
2017-01-20
Eu e tu, noite.
Crónica no Correio do Porto.
Pouso a saudade no cimento frio. Nestas noites, até de mim rio. Deixo-me a olhar o céu, a claridade do dia a desaparecer, sombras de um sol já a esmaecer, as estrelas começam timidamente a cintilar, parecem mais envergonhadas do que eu, ganham força contra o próprio céu e, de este para oeste, de oeste para este meu mundo, formam as constelações que eu quero. Fazia-me já falta, o deitar no chão, o calor da terra como cama, o frio que se desprende até à madrugada. Eu e tu, noite. Eu e tu.
Sibilantes correntes telúricas impelem-me a içar parte de mim, sou já folha de livro por ler, a esvoaçar, sem já me ter. Saio leve e sem prisão, sem fulgor ou religião, ascendo sem o saber, apenas puxado pelos sorrisos e aromas que mora em cada uma das estrelas. Sem lei, apenas uma, bem sei, gravada num olhar fechado sem cor, Amor.
Olho para trás, já só eu no chão jaz, passo para o lado de lá da noite e espreito por cada uma das estrelas para este pequeno mundo (que percorro feliz e vagabundo), quão pequenos, insignificantes, raros e preciosos, quão sobejamente subjugados por meia dúzia de perniciosos. Espreito por outra estrela, e por outra e mais outra! E tantos mundos e galáxias, estrelas e pulsares, tantos sonhos iluminados, tantas mãos para Amares... Rio-me da cadência das estrelas, do rasgar dos céus em sinfonia caótica, tudo tem ritmo próprio e propriedade sinfónica, tudo cintila em reverência, tudo tenho eu, até a presença da tua ausência.
Daqui, nunca as distâncias profundas que separam os quotidianos pareceram tão infames e ínfimas... De página em página folheio-me de regresso, caindo, amparado pelas invisíveis mãos de outros nomes já não proferidos, até por fim o calor do chão já frio me fazer sentir carne, ínfimo, infame.
Abro os olhos.
Sou maior que os meus sonhos.
Consagro-me ao silêncio, não fosse esta timidez de existir, dir-te-ia que tens bem perto no céu, uma estrela por ti a sorrir.
Pouso a saudade no cimento frio. Nestas noites, até de mim rio. Deixo-me a olhar o céu, a claridade do dia a desaparecer, sombras de um sol já a esmaecer, as estrelas começam timidamente a cintilar, parecem mais envergonhadas do que eu, ganham força contra o próprio céu e, de este para oeste, de oeste para este meu mundo, formam as constelações que eu quero. Fazia-me já falta, o deitar no chão, o calor da terra como cama, o frio que se desprende até à madrugada. Eu e tu, noite. Eu e tu.
Sibilantes correntes telúricas impelem-me a içar parte de mim, sou já folha de livro por ler, a esvoaçar, sem já me ter. Saio leve e sem prisão, sem fulgor ou religião, ascendo sem o saber, apenas puxado pelos sorrisos e aromas que mora em cada uma das estrelas. Sem lei, apenas uma, bem sei, gravada num olhar fechado sem cor, Amor.
Olho para trás, já só eu no chão jaz, passo para o lado de lá da noite e espreito por cada uma das estrelas para este pequeno mundo (que percorro feliz e vagabundo), quão pequenos, insignificantes, raros e preciosos, quão sobejamente subjugados por meia dúzia de perniciosos. Espreito por outra estrela, e por outra e mais outra! E tantos mundos e galáxias, estrelas e pulsares, tantos sonhos iluminados, tantas mãos para Amares... Rio-me da cadência das estrelas, do rasgar dos céus em sinfonia caótica, tudo tem ritmo próprio e propriedade sinfónica, tudo cintila em reverência, tudo tenho eu, até a presença da tua ausência.
Daqui, nunca as distâncias profundas que separam os quotidianos pareceram tão infames e ínfimas... De página em página folheio-me de regresso, caindo, amparado pelas invisíveis mãos de outros nomes já não proferidos, até por fim o calor do chão já frio me fazer sentir carne, ínfimo, infame.
Abro os olhos.
Sou maior que os meus sonhos.
Consagro-me ao silêncio, não fosse esta timidez de existir, dir-te-ia que tens bem perto no céu, uma estrela por ti a sorrir.
2017-01-17
Tu que me ouves o silêncio,
entrando
a noite sem cais,
um mar inteiro náufrago
pergunta à espuma baça da maré
onde vais?
Nem me sei escrito
eu que confundo o silêncio com a montanha
grito
onde me cais?
E soçobro à singularidade matinal
a vida na manhã sacia
o arado
o sonho
o Deus
dá-me vontade de outros tantos eus,
no olhado semeado
a inocência infantil aspira
reflexo apaixonado que partira
ausculta
em que nota amais?
entrando
a noite sem cais,
um mar inteiro náufrago
pergunta à espuma baça da maré
onde vais?
Nem me sei escrito
eu que confundo o silêncio com a montanha
grito
onde me cais?
E soçobro à singularidade matinal
a vida na manhã sacia
o arado
o sonho
o Deus
dá-me vontade de outros tantos eus,
no olhado semeado
a inocência infantil aspira
reflexo apaixonado que partira
ausculta
em que nota amais?
2017-01-15
Caminhos
Crónica na Bird Magazine, 15/01/2017
Chego a um caminho que percorri de sacola às costas durante os anos da escola primária (saudades e reconhecimento à professora Eugénia e à Srª Rosalina, cujo sorriso ainda me cativa). Os campos tímidos e nus. Resta a presa de água, o rio e um pescador. Parece-me ver os marmeleiros do lado de lá do rio, os mesmos aos quais puxávamos os ramos na ânsia de apanhar algum marmelo. O caminho está mais largo, ainda de terra batida, rasgado para dar passagem a qualquer carro que deseje levar o seu dono pelo meu caminho da escola.
O sol cobre os campos saciados e convida a parar um pouco. Pergunto-me se a mina ainda está no mesmo sítio, se ainda tem rãs e quase me convenço a ir lá, tirar as ervas, afugentar as rãs e beber. É engraçado, não é? Não há nenhum caminho por onde tenhamos passado que não possua ainda os nossos passos. Tenho vontade de ficar sentado ali, a ver-me passar para a escola, neste caminho onde o passado e o presente se cruza, onde os meus olhos ficam rasos de água, apenas porque sou feliz.
Grande parte do caminho está tapado, o mato, silvas, eucaliptos e fetos cobrem o que antes era um carreiro de terra e onde se via passar uma ou outra raposa. Pergunto-me se a descida tem ainda a pedra em forma de V, onde eu passava rapidamente com a bicicleta e os pedais alinhados na horizontal, para que não batessem nas faces da pedra. As vezes que falhei e caí!
Poderia jurar que ainda por lá andava, eu e os meus amigos, de bicicleta ou a correr, com a mochila a empurrar-nos perigosamente na descida pensando sermos os "Heróis da esquadrilha", o "Justiceiro" ou "Os soldados da fortuna". Existe ainda o aqueduto de pedras rudes e frias, que levava a água de uns campos para outros e onde bebíamos água ou nos aventurávamos, qual "MacGyver", a saltar de pedra em pedra, desejando não meter um pé na água. Ou os dois.
Um muro com menos uma pedra que o habitual deixa verter um fio de água limpa. A sede convida-me, mas a prudência social da ténue linha da sanidade mental impede que eu pare o carro e beba.
Um marco coberto de musgo. Se tivesse o meu bloco sentar-me-ia ali. Depois começava a olhar para as folhas pautadas e brancas, convidando-as a mirarem a paisagem, para que pudessem ver o que vejo e não apenas umas letras aleatórias, para que depois de fechado o caderno conversassem entre elas, narrassem e comentassem o que cada uma delas viu, à sua maneira, as diferentes visões do mesmo horizonte.
Chego ao fim do caminho e com este outro se inicia e novas personagens já lá moram. Eu mesmo, mais velho, e outros, alguns que já nem neste presente estão, observam-me e sorriem.
Creio que também eles vêm o mesmo que eu não vejo.
Chego a um caminho que percorri de sacola às costas durante os anos da escola primária (saudades e reconhecimento à professora Eugénia e à Srª Rosalina, cujo sorriso ainda me cativa). Os campos tímidos e nus. Resta a presa de água, o rio e um pescador. Parece-me ver os marmeleiros do lado de lá do rio, os mesmos aos quais puxávamos os ramos na ânsia de apanhar algum marmelo. O caminho está mais largo, ainda de terra batida, rasgado para dar passagem a qualquer carro que deseje levar o seu dono pelo meu caminho da escola.
O sol cobre os campos saciados e convida a parar um pouco. Pergunto-me se a mina ainda está no mesmo sítio, se ainda tem rãs e quase me convenço a ir lá, tirar as ervas, afugentar as rãs e beber. É engraçado, não é? Não há nenhum caminho por onde tenhamos passado que não possua ainda os nossos passos. Tenho vontade de ficar sentado ali, a ver-me passar para a escola, neste caminho onde o passado e o presente se cruza, onde os meus olhos ficam rasos de água, apenas porque sou feliz.
Grande parte do caminho está tapado, o mato, silvas, eucaliptos e fetos cobrem o que antes era um carreiro de terra e onde se via passar uma ou outra raposa. Pergunto-me se a descida tem ainda a pedra em forma de V, onde eu passava rapidamente com a bicicleta e os pedais alinhados na horizontal, para que não batessem nas faces da pedra. As vezes que falhei e caí!
Poderia jurar que ainda por lá andava, eu e os meus amigos, de bicicleta ou a correr, com a mochila a empurrar-nos perigosamente na descida pensando sermos os "Heróis da esquadrilha", o "Justiceiro" ou "Os soldados da fortuna". Existe ainda o aqueduto de pedras rudes e frias, que levava a água de uns campos para outros e onde bebíamos água ou nos aventurávamos, qual "MacGyver", a saltar de pedra em pedra, desejando não meter um pé na água. Ou os dois.
Um muro com menos uma pedra que o habitual deixa verter um fio de água limpa. A sede convida-me, mas a prudência social da ténue linha da sanidade mental impede que eu pare o carro e beba.
Um marco coberto de musgo. Se tivesse o meu bloco sentar-me-ia ali. Depois começava a olhar para as folhas pautadas e brancas, convidando-as a mirarem a paisagem, para que pudessem ver o que vejo e não apenas umas letras aleatórias, para que depois de fechado o caderno conversassem entre elas, narrassem e comentassem o que cada uma delas viu, à sua maneira, as diferentes visões do mesmo horizonte.
Chego ao fim do caminho e com este outro se inicia e novas personagens já lá moram. Eu mesmo, mais velho, e outros, alguns que já nem neste presente estão, observam-me e sorriem.
Creio que também eles vêm o mesmo que eu não vejo.
2017-01-08
Nasceu a constelação
Crónica na Bird Magazine (08/01/2017).
Não havia muito por onde estar, estendia-se o olhar pelo horizonte e onde alcançássemos com a vista era onde poderíamos estar, por isso o que se via era o que existia.
Ainda que se constasse que se sonhava, tal poderia ser apenas possível em jeitos de profecia, de vozes inacabadas que o tempo ia empurrando para a frente, de gerações em gerações.
O silêncio abalava-se apenas e só quando um badalo, que pendia nos muitos pescoços das pequenas nuvens que pastavam, mais pelo arrepio de frio ou por um ajuste necessário ao melhor conforto do corpo que pelo movimento. De noite todos dormem. Melhor assim, no silêncio, onde o desnível colorido entre o negrume noturno e a paisagem árida tornam possível olhar o céu na complacência ao alcance de quem, pastor, se deixa ver nas tremeluzentes estrelas que não se sabe ainda serem moradas celestes, apenas gigantes desenhos separados por um pequeno gesto de unir pontos, indicador em riste, até a imaginação deixar desenhar nos lábios um sorriso no exacto instante em que a noite nos pega no braço e o acomoda sobre o nosso peito.
Já o teriam avisado, os mais velhos, que no árido terreno onde até as cabras se queixam, balindo, de tão inóspito horizonte, sonhar tinha o caro preço de deixar fugir a sobriedade para terras de onde dificilmente voltariam, mas a juventude, sempre surda a vozes mais experientes, transforma todo e qualquer deserto em local fértil de miragens. Por isso, quando de repente, ainda de noite, se levanta sobressaltado e sobressaltando os demais alertando para o que uma voz lhe tinha dito, pouco crédito lhe atribuíram, deixando-o apenas com as faces que se voltaram para o outro lado da fogueira e os impropérios de quem já não se sonha.
Levantou-se, cheirou um pouco da geada que caía sobre os penedos já frios e foi, acompanhado pelas fiéis pastoreantes que pareciam saber já da nova, caminhando pé ante casco, até aquele andar se transformar numa espécie de claquear, um ondular ritmado das grandes teias de ferro que percorreriam um dia as planícies, assim o diriam outros que não daquelas paragens, guardiões serenos de outras miragens.
Chegaram. Os animais, sem permissão, entraram, rodearam e aconchegaram-se aos que já lá estavam numa reverência selvagem a quem das profecias em homem se saiu da miragem. Olhou-os nos olhos, baixou a cabeça, deu dois passos encostando o bordão ao cancelo, a natividade eram ainda os três, o pai entre assustado e defensor, a mãe ainda cansada, serena e o terceiro, nas palhas deitado, sossegava da descida ao mundo irreal, aquecido pelo bafejar dos animais, pelo abanar da manjedoura manca que mostrava ainda restos secos de comida animal.
Colocou-lhe a mão na fronte, afagou o curto cabelo, passou levemente e com cuidado o dedo na fronte trémula e amena.
Ao mesmo tempo que pousava os lábios nas mãos do bebé, aquele novo pastor velho, o tal que diziam nem ter todas as luas, a seguir a uma lágrima que lhe nasceu dos olhos fechados, sussurrou: Tinha tantas saudades tuas.
Não havia muito por onde estar, estendia-se o olhar pelo horizonte e onde alcançássemos com a vista era onde poderíamos estar, por isso o que se via era o que existia.
Ainda que se constasse que se sonhava, tal poderia ser apenas possível em jeitos de profecia, de vozes inacabadas que o tempo ia empurrando para a frente, de gerações em gerações.
O silêncio abalava-se apenas e só quando um badalo, que pendia nos muitos pescoços das pequenas nuvens que pastavam, mais pelo arrepio de frio ou por um ajuste necessário ao melhor conforto do corpo que pelo movimento. De noite todos dormem. Melhor assim, no silêncio, onde o desnível colorido entre o negrume noturno e a paisagem árida tornam possível olhar o céu na complacência ao alcance de quem, pastor, se deixa ver nas tremeluzentes estrelas que não se sabe ainda serem moradas celestes, apenas gigantes desenhos separados por um pequeno gesto de unir pontos, indicador em riste, até a imaginação deixar desenhar nos lábios um sorriso no exacto instante em que a noite nos pega no braço e o acomoda sobre o nosso peito.
Já o teriam avisado, os mais velhos, que no árido terreno onde até as cabras se queixam, balindo, de tão inóspito horizonte, sonhar tinha o caro preço de deixar fugir a sobriedade para terras de onde dificilmente voltariam, mas a juventude, sempre surda a vozes mais experientes, transforma todo e qualquer deserto em local fértil de miragens. Por isso, quando de repente, ainda de noite, se levanta sobressaltado e sobressaltando os demais alertando para o que uma voz lhe tinha dito, pouco crédito lhe atribuíram, deixando-o apenas com as faces que se voltaram para o outro lado da fogueira e os impropérios de quem já não se sonha.
Levantou-se, cheirou um pouco da geada que caía sobre os penedos já frios e foi, acompanhado pelas fiéis pastoreantes que pareciam saber já da nova, caminhando pé ante casco, até aquele andar se transformar numa espécie de claquear, um ondular ritmado das grandes teias de ferro que percorreriam um dia as planícies, assim o diriam outros que não daquelas paragens, guardiões serenos de outras miragens.
Chegaram. Os animais, sem permissão, entraram, rodearam e aconchegaram-se aos que já lá estavam numa reverência selvagem a quem das profecias em homem se saiu da miragem. Olhou-os nos olhos, baixou a cabeça, deu dois passos encostando o bordão ao cancelo, a natividade eram ainda os três, o pai entre assustado e defensor, a mãe ainda cansada, serena e o terceiro, nas palhas deitado, sossegava da descida ao mundo irreal, aquecido pelo bafejar dos animais, pelo abanar da manjedoura manca que mostrava ainda restos secos de comida animal.
Colocou-lhe a mão na fronte, afagou o curto cabelo, passou levemente e com cuidado o dedo na fronte trémula e amena.
Ao mesmo tempo que pousava os lábios nas mãos do bebé, aquele novo pastor velho, o tal que diziam nem ter todas as luas, a seguir a uma lágrima que lhe nasceu dos olhos fechados, sussurrou: Tinha tantas saudades tuas.
2017-01-01
Folhas caídas de um mar
in Correio do Porto.
Não deves ter visto, quando certamente tiveste oportunidade já o que desenhei no céu da noite tinha desaparecido com a luz madrugadora do Sol ainda este vinha a barbear-se pelo monte acima.
Passei a noite de queixo encostado ao corrimão do alpendre, a olhar para o céu, a arrumar as constelações a meu jeito.
Diria que seria escrita, mas as palavras têm uma certa tendência para se aninharem no meu colo e quando as quero usar lançam-me o olhar mortiço e preguiçoso de quem está entre sonos e pede um pouco mais de descanso.
Acredito que hoje, a caminha de casa, quando for a imaginar os caminhos que gostaria de percorrer, surjam perenes e sem demandas se aninhem no banco do passageiro, criando paisagens que conheço apenas de antes de nascer.
Talvez logo, quando o cansaço da noite mal dormida me puxar o calção-pijama, eu sinta que as palavras que me fazem falta sejam o conforto que encontro na ausência piramidal de um futuro onde se falaram vozes que jamais ousei ouvir.
Deixo para o horizonte as imagens de paisagens que serão destino, viagens, sei lá, de quem se augure parir e partir.
Por aqui tudo sobe, sobra, desejo mil de desejar urdir por entre grossos aguaceiros o cubículo onde habita o que sou, sem ser mais que o menos.
É no nada que me cabem as histórias que teimosamente não escrevo, talvez egoísmo, talvez medo. Olho para dentro e procuro as mesmas estrelas que o único céu que conheci me mostrou. Sei lá, nem cá, encontrando aquilo que sou em cada localização onde não me encontro.
E não me expresso, sei-me hipérbole, feliz pela pacificidade encontrada na tua face, onde mais?, de sonhar com as palavras que são ensinadas por quem aprende, de quem se soltam as amaras, no casulo de uma folha em branca porque não se sabe, o papel, ventre imaculado, silêncio, o sagrado.
Talvez me canse, um dia, uma noite, de me ter labirintizado e percorrido com as mãos nas sebes todas as fronteiras entre este lado e as bandas de lá, onde se move o tempo como quem espalha as correntes pelos rios, subindo e descendo a horizontalidade e na verticalidade do sentir se deita cansado, cansada, quem à vida se deixar fazer inocência ancorada.
Olho o tempo, perdi segundos a pensar sobre ele, olho para mim e vejo-me navegado num rio que se vai esvaindo sem que necessite de o naufragar.
Afinal, estas águas são folhas caídas de um mar.
Não deves ter visto, quando certamente tiveste oportunidade já o que desenhei no céu da noite tinha desaparecido com a luz madrugadora do Sol ainda este vinha a barbear-se pelo monte acima.
Passei a noite de queixo encostado ao corrimão do alpendre, a olhar para o céu, a arrumar as constelações a meu jeito.
Diria que seria escrita, mas as palavras têm uma certa tendência para se aninharem no meu colo e quando as quero usar lançam-me o olhar mortiço e preguiçoso de quem está entre sonos e pede um pouco mais de descanso.
Acredito que hoje, a caminha de casa, quando for a imaginar os caminhos que gostaria de percorrer, surjam perenes e sem demandas se aninhem no banco do passageiro, criando paisagens que conheço apenas de antes de nascer.
Talvez logo, quando o cansaço da noite mal dormida me puxar o calção-pijama, eu sinta que as palavras que me fazem falta sejam o conforto que encontro na ausência piramidal de um futuro onde se falaram vozes que jamais ousei ouvir.
Deixo para o horizonte as imagens de paisagens que serão destino, viagens, sei lá, de quem se augure parir e partir.
Por aqui tudo sobe, sobra, desejo mil de desejar urdir por entre grossos aguaceiros o cubículo onde habita o que sou, sem ser mais que o menos.
É no nada que me cabem as histórias que teimosamente não escrevo, talvez egoísmo, talvez medo. Olho para dentro e procuro as mesmas estrelas que o único céu que conheci me mostrou. Sei lá, nem cá, encontrando aquilo que sou em cada localização onde não me encontro.
E não me expresso, sei-me hipérbole, feliz pela pacificidade encontrada na tua face, onde mais?, de sonhar com as palavras que são ensinadas por quem aprende, de quem se soltam as amaras, no casulo de uma folha em branca porque não se sabe, o papel, ventre imaculado, silêncio, o sagrado.
Talvez me canse, um dia, uma noite, de me ter labirintizado e percorrido com as mãos nas sebes todas as fronteiras entre este lado e as bandas de lá, onde se move o tempo como quem espalha as correntes pelos rios, subindo e descendo a horizontalidade e na verticalidade do sentir se deita cansado, cansada, quem à vida se deixar fazer inocência ancorada.
Olho o tempo, perdi segundos a pensar sobre ele, olho para mim e vejo-me navegado num rio que se vai esvaindo sem que necessite de o naufragar.
Afinal, estas águas são folhas caídas de um mar.
2016-12-28
Fito-o mais uma vez, mestre Torga, a lombada amarelada de um livro branco sujo, como a neve que se derrete cansada de ser alva.
Não permito que o sono me tombe sem, antes, talhar na retina com a mesma paciência do meu velho Garrinchas o caminho de volta para a terra.
A cacofonia da ausência de verde vai-se desfazendo à medida que ondulo montes abaixo até uma encosta de simplicidade me permitir escutar o bater do bordão nas pedras gastas por serem caminho de ninguém.
Quando este mundo me começa a fechar os olhos, faço-lhe a vontade, estico o braço ao frio o essencial apenas para alcançar o interruptor e, sereno, adormeço corpo e tosse na certeza de estar quase a acordar.
Não permito que o sono me tombe sem, antes, talhar na retina com a mesma paciência do meu velho Garrinchas o caminho de volta para a terra.
A cacofonia da ausência de verde vai-se desfazendo à medida que ondulo montes abaixo até uma encosta de simplicidade me permitir escutar o bater do bordão nas pedras gastas por serem caminho de ninguém.
Quando este mundo me começa a fechar os olhos, faço-lhe a vontade, estico o braço ao frio o essencial apenas para alcançar o interruptor e, sereno, adormeço corpo e tosse na certeza de estar quase a acordar.
2016-12-23
Feliz Natal
No regaço ameno da família, onde se soltam as máscaras, que te brilhe o interior adormecido e te sintas, também, deus menino.
Recebe o calor da simplicidade nos braços abertos ao que és, escuta o silêncio
que se apodera desta noite em bicos de pés.
E se o universo te escuta e na voz encontras solução, saibas que em todo o estranho habita um irmão.
Que te brinde e aconchegue o meu pedido, desembrulhado, para que a saúde te vista, a paz seja a tua conquista e embora humilde, atiro os desejos ao ar para que se precipitem em ti, mesmo sem nevar.
Feliz Natal.
Miguel
Recebe o calor da simplicidade nos braços abertos ao que és, escuta o silêncio
que se apodera desta noite em bicos de pés.
E se o universo te escuta e na voz encontras solução, saibas que em todo o estranho habita um irmão.
Que te brinde e aconchegue o meu pedido, desembrulhado, para que a saúde te vista, a paz seja a tua conquista e embora humilde, atiro os desejos ao ar para que se precipitem em ti, mesmo sem nevar.
Feliz Natal.
Miguel
2016-12-18
Está a chegar o verbo
in Bird Magazine em 18/12/2016
Não sei como medir as palavras que vejo e, depois, escrevo.
A distância que me separa de agora à letra é preenchida por inúmeros pensamentos, tantos que quando penso no pensamento sobre eles já eu sou rememoração.
Será possível eu ser uma parte, um resultado retornado a meio da recursividade que é uma vida entre vidas?
Já deitei o Universo, aconcheguei-lhe o colorido manto de estrelas enquanto ele me pedia uma história. Sem me lembrar de nenhuma, contei-lhe a vida de uma estrela que tentou brilhar por duas vezes:
- Duas vezes? - perguntou-me.
Eu lá lhe expliquei, com modos de eternidade, que era uma metáfora para algo que existiu sem ter acontecido.
Não me pareceu convencido, não o censuro, é ainda um universo em expansão, uma criança.
Entre perguntas e respostas, saltando recursos expressivos, cansou-se e antes de fechar os olhos de nebulosas, perguntou-me já meio adormecido:
- Essa história é sobre amor?
Disse-lhe que sim, era o Amor.
Bastou-lhe a explicação, virou a cara, sorriu e adormeceu de imediato.
Fica ligada uma pequena luz de presença, projecta no tecto flocos de neve multicolores. Foi ele que os escolheu, disse que só sabia fazer neve branca e gostava de a ver colorida.
Por fim, enfim, adormece.
Estremece no momento em que me levanto.
Terá sonhado com um buraco negro?
Noutra cama outro universo, de cabeça levantada pergunta se ainda lá vou.
Respondo afirmativamente e apenas isso bastou para se virar para o lado e adormecer.
Tudo dorme, agora.
Gravito-me até encontrar novas palavras que me levem a outras órbitas, vendo crescer infinitos a cada madrugada em que o olhar se cruza com o teu e tu, creio que sem o saberes, levas contigo o pouco que não sei criar.
Está a chegar o verbo, o início vai começar.
Não sei como medir as palavras que vejo e, depois, escrevo.
A distância que me separa de agora à letra é preenchida por inúmeros pensamentos, tantos que quando penso no pensamento sobre eles já eu sou rememoração.
Será possível eu ser uma parte, um resultado retornado a meio da recursividade que é uma vida entre vidas?
Já deitei o Universo, aconcheguei-lhe o colorido manto de estrelas enquanto ele me pedia uma história. Sem me lembrar de nenhuma, contei-lhe a vida de uma estrela que tentou brilhar por duas vezes:
- Duas vezes? - perguntou-me.
Eu lá lhe expliquei, com modos de eternidade, que era uma metáfora para algo que existiu sem ter acontecido.
Não me pareceu convencido, não o censuro, é ainda um universo em expansão, uma criança.
Entre perguntas e respostas, saltando recursos expressivos, cansou-se e antes de fechar os olhos de nebulosas, perguntou-me já meio adormecido:
- Essa história é sobre amor?
Disse-lhe que sim, era o Amor.
Bastou-lhe a explicação, virou a cara, sorriu e adormeceu de imediato.
Fica ligada uma pequena luz de presença, projecta no tecto flocos de neve multicolores. Foi ele que os escolheu, disse que só sabia fazer neve branca e gostava de a ver colorida.
Por fim, enfim, adormece.
Estremece no momento em que me levanto.
Terá sonhado com um buraco negro?
Noutra cama outro universo, de cabeça levantada pergunta se ainda lá vou.
Respondo afirmativamente e apenas isso bastou para se virar para o lado e adormecer.
Tudo dorme, agora.
Gravito-me até encontrar novas palavras que me levem a outras órbitas, vendo crescer infinitos a cada madrugada em que o olhar se cruza com o teu e tu, creio que sem o saberes, levas contigo o pouco que não sei criar.
Está a chegar o verbo, o início vai começar.
2016-12-13
Etéreas obras
in Correio do Porto.
Não pelo frio, que corre lá fora, mas pela memória de ver serpentear a espuma do café sob a negrura do líquido e dos dias, que me aquece as mãos em concha segurando a tigela.
Não pelo calor, que há-de deslizar a seu tempo pelas paredes exteriores e interiores de um mundo físico, onde cada sombra terá a certeza de sobreviver até nenhum sol mais nascer.
Por onde, por quê, porquê, os dias e dias salpicados de cadências rítmicas que não soam, que não são.
Há onde tu lá estás algum percalço que faça cair as estrelas quando tropeças nas etéreas obras que criaste?
Tenho por fundo o fundo, apenas.
Está para lá, onde as memórias se enaltecem do futuro que ajudaram a edificar, mas cujo fruto nunca puderam saborear.
A cada passa um futuro, o potencial gravítico que me agarra ao planeta.
Como o adoro.
O planeta.
O futuro.
Terminarei ainda antes da música, mas mesmo que não trinem as pautas, mesmo que a filosofia me abandone e eu seja apenas um pensamento parado, a sonoridade encontrará a sua própria forma de, pelo frio, pelo calor, se traduzir na tremeluzinda vela que dança ao sabor do nevoeiro que os nossos corpos, assim como a água quente do chuveiro, enevoaram.
Arrefeço agora, corpo e alma, na esperança da vida pensar que adormeço e o sono se aproxime, chamando o sonho e, assim, eu o capture antes de adormecer e anote todos os segredos que me sussurrou em criança.
Não pelo frio, que corre lá fora, mas pela memória de ver serpentear a espuma do café sob a negrura do líquido e dos dias, que me aquece as mãos em concha segurando a tigela.
Não pelo calor, que há-de deslizar a seu tempo pelas paredes exteriores e interiores de um mundo físico, onde cada sombra terá a certeza de sobreviver até nenhum sol mais nascer.
Por onde, por quê, porquê, os dias e dias salpicados de cadências rítmicas que não soam, que não são.
Há onde tu lá estás algum percalço que faça cair as estrelas quando tropeças nas etéreas obras que criaste?
Tenho por fundo o fundo, apenas.
Está para lá, onde as memórias se enaltecem do futuro que ajudaram a edificar, mas cujo fruto nunca puderam saborear.
A cada passa um futuro, o potencial gravítico que me agarra ao planeta.
Como o adoro.
O planeta.
O futuro.
Terminarei ainda antes da música, mas mesmo que não trinem as pautas, mesmo que a filosofia me abandone e eu seja apenas um pensamento parado, a sonoridade encontrará a sua própria forma de, pelo frio, pelo calor, se traduzir na tremeluzinda vela que dança ao sabor do nevoeiro que os nossos corpos, assim como a água quente do chuveiro, enevoaram.
Arrefeço agora, corpo e alma, na esperança da vida pensar que adormeço e o sono se aproxime, chamando o sonho e, assim, eu o capture antes de adormecer e anote todos os segredos que me sussurrou em criança.
2016-12-11
Advento
Crónica de Domingo na Bird Magazine em 11/12/2016.
O vento arrepia um pouco a noite. Os Clérigos erguem-se sem grande preocupação pelos tempos que se descem ou se sobem mediante a montra mais ou menos colorida. Por entre a escuridão perene de montras onde se compram pessoas pela suprema desnecessariedade, há luminosas escarpas onde se deitam cedo os estivadores dos sonhos, nos seus apartamentos de cartão com camas de jornal e tectos de velhos cobertores que a caridade alheia se lembrou de ali construir. Há um odor a abandono que se mistura com as fachadas lavadas (e as crianças cinzeladas a tinta colorida e olhares inocentes nos azulejos por cima da porta), aqui parece florir a prosperidade da solidão e desvio do normal. Ou seria o normal desvio da solidão prosperificada?
Esbarro os meus olhos em olhos negros e tristes de quem se vê gente, mas é vista pela gente como calçada. Desliza o dedo nos sulcos da cara como seus trilhos de eléctrico e apeia-se por momentos da memória, esquecendo as vezes, tantas!, vendida nas ruas, escuras, a transmorfeados chefes de família acabados de deixar os filhos a brincar no alcatifado chão da sala e a esposa, de quem se despede com o pousar suave dos lábios na sua testa suada de um dia de labuta. O corpo roliço e abandonado na ombreira faz a vez das luzes coloridas e o olhar parece querer agora, depois de vendido sexo, comprar amor. Há vida nas ruas e nunca me pareceu tudo tão morto. Claro que de toda a rectidão, mesmo na prosa, como na vida, sou torto.
A noite caiu sem grandes pressas, mas mesmo assim deixou-se escorregar, como é seu costume no advento do Inverno, sobre o dia de forma bem aligeirada. Ao olhar para trás apercebo-me que a sombra do meu inconsciente se encosta ao ardina e afia conversa, rindo-se acarinhadamente dos velhos fantasmas que por cá ficaram e ainda tentam descer a fajuta escadaria que dá acesso ao túnel, onde soavam saltos altos, escarros e pontas de guarda-chuva no chão húmido e pegajoso.
A cidade ganhou o cheiro dos cegos tocadores de concertina e acordeão, acompanhados pelo torpor caminhar de um suplicado pregão que não ouvia há tempos. Talvez me tenha feito surdo com o passar dos anos. Talvez a surdez me faça também cego. Talvez eu partilhe a memória do padre que, nos Congregados, celebra uma missa acelerada a uma pequena maré de cabeças alvas saltando o “saudai-vos na paz de Cristo” porque o respeito, a amizade, enfim o Amor, parecem ser fugidios estados sociais de redes onde se esperneiam a arfar os cardumes de pessoas que não se sabem estar a afogar.
Faço de conta que olho para o vendedor de castanhas com as mãos afiadas a rachar, atender, embrulhar e contar trocos lambendo as pontas dos dedos para tactear. Para lá, encostado à sua própria sombra na parede de São Bento, um mendigo vê reflectido na sua cara as tricolores luminosidades natalícias que o semáforo proporciona. Ele é-o vermelho. Ele é-o verde. Ele é-o amarelo. Ele é-o laranja e verde intermitente quando as luzes para os peões se cintilam e lhe dão à cara a solenidade de um menino Jesus grande e sujo, com o frio a reluzir na ponta do nariz e a cara sofrida de quem nem se sabe vivo. Finto as pessoas, a minha sombra, os fantasmas e as duas ambulâncias do INEM e passo por ele, para me encostar depois, em cima de um degrau, a uma das entradas de São Bento, a fitá-lo. Tem os olhos quase fechados para que (aqui deduzo apenas) por entre as pestanas lhe sobre um caleidoscópio de noites cinzentas e a sopa servida no tupperware quente lhe faça aquecer as mãos e abrir o apetite para mais uma noite no presépio citadino, onde nos falta a sobriedade e solenidade dos animais que O aqueceram quando cá esteve.
Sei que é Natal porque quando me decido ir à vida, a lutar contra a maré cheia nos meus olhos, vejo-o encostar os lábios gretados ao plástico azul e antes de sorver ruidosamente a argamassa de legumes ouço-o “Obrigado meu Deus”.
O vento arrepia um pouco a noite. Os Clérigos erguem-se sem grande preocupação pelos tempos que se descem ou se sobem mediante a montra mais ou menos colorida. Por entre a escuridão perene de montras onde se compram pessoas pela suprema desnecessariedade, há luminosas escarpas onde se deitam cedo os estivadores dos sonhos, nos seus apartamentos de cartão com camas de jornal e tectos de velhos cobertores que a caridade alheia se lembrou de ali construir. Há um odor a abandono que se mistura com as fachadas lavadas (e as crianças cinzeladas a tinta colorida e olhares inocentes nos azulejos por cima da porta), aqui parece florir a prosperidade da solidão e desvio do normal. Ou seria o normal desvio da solidão prosperificada?
Esbarro os meus olhos em olhos negros e tristes de quem se vê gente, mas é vista pela gente como calçada. Desliza o dedo nos sulcos da cara como seus trilhos de eléctrico e apeia-se por momentos da memória, esquecendo as vezes, tantas!, vendida nas ruas, escuras, a transmorfeados chefes de família acabados de deixar os filhos a brincar no alcatifado chão da sala e a esposa, de quem se despede com o pousar suave dos lábios na sua testa suada de um dia de labuta. O corpo roliço e abandonado na ombreira faz a vez das luzes coloridas e o olhar parece querer agora, depois de vendido sexo, comprar amor. Há vida nas ruas e nunca me pareceu tudo tão morto. Claro que de toda a rectidão, mesmo na prosa, como na vida, sou torto.
A noite caiu sem grandes pressas, mas mesmo assim deixou-se escorregar, como é seu costume no advento do Inverno, sobre o dia de forma bem aligeirada. Ao olhar para trás apercebo-me que a sombra do meu inconsciente se encosta ao ardina e afia conversa, rindo-se acarinhadamente dos velhos fantasmas que por cá ficaram e ainda tentam descer a fajuta escadaria que dá acesso ao túnel, onde soavam saltos altos, escarros e pontas de guarda-chuva no chão húmido e pegajoso.
A cidade ganhou o cheiro dos cegos tocadores de concertina e acordeão, acompanhados pelo torpor caminhar de um suplicado pregão que não ouvia há tempos. Talvez me tenha feito surdo com o passar dos anos. Talvez a surdez me faça também cego. Talvez eu partilhe a memória do padre que, nos Congregados, celebra uma missa acelerada a uma pequena maré de cabeças alvas saltando o “saudai-vos na paz de Cristo” porque o respeito, a amizade, enfim o Amor, parecem ser fugidios estados sociais de redes onde se esperneiam a arfar os cardumes de pessoas que não se sabem estar a afogar.
Faço de conta que olho para o vendedor de castanhas com as mãos afiadas a rachar, atender, embrulhar e contar trocos lambendo as pontas dos dedos para tactear. Para lá, encostado à sua própria sombra na parede de São Bento, um mendigo vê reflectido na sua cara as tricolores luminosidades natalícias que o semáforo proporciona. Ele é-o vermelho. Ele é-o verde. Ele é-o amarelo. Ele é-o laranja e verde intermitente quando as luzes para os peões se cintilam e lhe dão à cara a solenidade de um menino Jesus grande e sujo, com o frio a reluzir na ponta do nariz e a cara sofrida de quem nem se sabe vivo. Finto as pessoas, a minha sombra, os fantasmas e as duas ambulâncias do INEM e passo por ele, para me encostar depois, em cima de um degrau, a uma das entradas de São Bento, a fitá-lo. Tem os olhos quase fechados para que (aqui deduzo apenas) por entre as pestanas lhe sobre um caleidoscópio de noites cinzentas e a sopa servida no tupperware quente lhe faça aquecer as mãos e abrir o apetite para mais uma noite no presépio citadino, onde nos falta a sobriedade e solenidade dos animais que O aqueceram quando cá esteve.
Sei que é Natal porque quando me decido ir à vida, a lutar contra a maré cheia nos meus olhos, vejo-o encostar os lábios gretados ao plástico azul e antes de sorver ruidosamente a argamassa de legumes ouço-o “Obrigado meu Deus”.
2016-12-04
Vai dar entrada na linha número dois…
in Bird Magazine, 04/12/2016.
Puxo o mais que posso as mangas da camisola para os pulsos. Tento evitar o contacto da pele com o frio inox do balcão do bar da estação de comboios.
Saboreio, ainda antes de sorver, o cheiro quente do café em espuma misturada com o leite.
- Está muito quente?
Respondo que não com a cabeça, apenas por educação, pois já a língua me ardia e doía e os lábios, de gretados, passaram a uma espécie de carne mal passada num braseiro de noite de Natal.
Um senhor titubeia até ao meu lado, parece uma folha que cai e não sabe que já é Outono.
- Esta merda de doença.
Tem Parkinson, fala comigo ao mesmo tempo que tenta controlar o corpo.
- Já está pronta?
O senhor do outro hemisfério do balcão responde afirmativamente e diz-lhe para trazer a outra. De repente pára, olha-me e encolhe os ombros um pouco envergonhado, parece apenas agora reflectir sobre o que disse.
- Deixe estar, eu vou buscá-la.
E dirige-se para a cadeira/veículo eléctrico, levando a bateria que tinha desligado da alimentação. Esta exibia orgulhosamente vários led's verdes, numa pujança electrónica que só os indivisíveis parecem mostrar. Regressa o produto de uma dúzia com cinco segundos depois já com a bateria que tirou da cadeira/veículo e liga-a a uma tomada.
Com a face a tremer, a voz oscilante soluça algo para mim, a meio de um sorriso vencedor, de quem não se resigna ao corpo.
- Está sem bateria. – E aponta com o queixo para a cadeira/veículo. – A cadeira e eu também.
Deixo escorregar, do fundo da chávena para a boca, a espuma da meia de leite e com ela tento limpar internamente a boca, massajando as queimaduras que me vão custar alguns tempos de ardor.
Recordo com alguma saudade o colorido dos painéis de azulejos, os tectos baixos, os bancos de madeira e as caras estranhas, quase amedrontadoras, que se moviam sobre corpos quase humanos.
Desço as escadas, deixo os degraus seguirem o seu percurso sobre os meus pés e continuo, mãos nos bolsos, a percorrer com não menos indiferença as dezenas de passos que me distanciam da escada rolante que me levará à linha dois.
Faço um esforço para não fechar os olhos e vou oscilando entre o olhar em frente e a fuga dos obstáculos em que se tornam as pessoas quando saem do comboio a correr, talvez com pressa de serem obstáculo noutro local.
As paredes mortas, sem vida.
As lojas soturnas ostentam orgulhosas pequenos papéis pendurados nas vitrines cegas.
"Fechado", dizem-me e a quem quer ler.
Lá dentro, pó, pequenos pedaços de plástico, escuro e semi-escuro, luzes onde não entra a luminosidade.
Em tempos em que se vende tudo, até as memórias parecem querer ser vendidas, pedindo que alguém as compre e as leve para outro local, uma galeria com luz, sol, pessoas e não obstáculos.
De que tanto necessitamos? Porque nos dizemos ainda mercadores quando de mercado conhecemos apenas o pregão e esse, coitado, vai caindo como as folhas de papel amarelecidas, sozinhas, no chão:
- Vai dar entrada na linha número dois…
Puxo o mais que posso as mangas da camisola para os pulsos. Tento evitar o contacto da pele com o frio inox do balcão do bar da estação de comboios.
Saboreio, ainda antes de sorver, o cheiro quente do café em espuma misturada com o leite.
- Está muito quente?
Respondo que não com a cabeça, apenas por educação, pois já a língua me ardia e doía e os lábios, de gretados, passaram a uma espécie de carne mal passada num braseiro de noite de Natal.
Um senhor titubeia até ao meu lado, parece uma folha que cai e não sabe que já é Outono.
- Esta merda de doença.
Tem Parkinson, fala comigo ao mesmo tempo que tenta controlar o corpo.
- Já está pronta?
O senhor do outro hemisfério do balcão responde afirmativamente e diz-lhe para trazer a outra. De repente pára, olha-me e encolhe os ombros um pouco envergonhado, parece apenas agora reflectir sobre o que disse.
- Deixe estar, eu vou buscá-la.
E dirige-se para a cadeira/veículo eléctrico, levando a bateria que tinha desligado da alimentação. Esta exibia orgulhosamente vários led's verdes, numa pujança electrónica que só os indivisíveis parecem mostrar. Regressa o produto de uma dúzia com cinco segundos depois já com a bateria que tirou da cadeira/veículo e liga-a a uma tomada.
Com a face a tremer, a voz oscilante soluça algo para mim, a meio de um sorriso vencedor, de quem não se resigna ao corpo.
- Está sem bateria. – E aponta com o queixo para a cadeira/veículo. – A cadeira e eu também.
Deixo escorregar, do fundo da chávena para a boca, a espuma da meia de leite e com ela tento limpar internamente a boca, massajando as queimaduras que me vão custar alguns tempos de ardor.
Recordo com alguma saudade o colorido dos painéis de azulejos, os tectos baixos, os bancos de madeira e as caras estranhas, quase amedrontadoras, que se moviam sobre corpos quase humanos.
Desço as escadas, deixo os degraus seguirem o seu percurso sobre os meus pés e continuo, mãos nos bolsos, a percorrer com não menos indiferença as dezenas de passos que me distanciam da escada rolante que me levará à linha dois.
Faço um esforço para não fechar os olhos e vou oscilando entre o olhar em frente e a fuga dos obstáculos em que se tornam as pessoas quando saem do comboio a correr, talvez com pressa de serem obstáculo noutro local.
As paredes mortas, sem vida.
As lojas soturnas ostentam orgulhosas pequenos papéis pendurados nas vitrines cegas.
"Fechado", dizem-me e a quem quer ler.
Lá dentro, pó, pequenos pedaços de plástico, escuro e semi-escuro, luzes onde não entra a luminosidade.
Em tempos em que se vende tudo, até as memórias parecem querer ser vendidas, pedindo que alguém as compre e as leve para outro local, uma galeria com luz, sol, pessoas e não obstáculos.
De que tanto necessitamos? Porque nos dizemos ainda mercadores quando de mercado conhecemos apenas o pregão e esse, coitado, vai caindo como as folhas de papel amarelecidas, sozinhas, no chão:
- Vai dar entrada na linha número dois…
2016-11-27
Sem dimensão ou universo
in Bird Magazine, 27/11/2016
Porventura e por ventura, o silêncio do que falo é tudo o que consigo fazer ouvir.
Lamento que o quanto de tudo que recolho na vida seja inaudito, fica a bailar nos olhos, nalguma contracção muscular que faça erguer um sorriso ou na maré que, momentaneamente, possa trazer uma ondícula salgada até onde a minha parca vista alcança.
Habito-me sem me sentir em casa, habituo-me sem me fazer quotidiano, os dias rimam apenas porque tombam e se penduram na armação invisível que se ergue em redor do que escrevo.
Coroam-se as palavras, porque lhes louvo a ventura e ousadia de lavrarem o espaço que separa o meu sopro dos teus campos férteis, no entanto, nem bom vento, nem bom advento provém da atmosférica fronteira que me separa do que habito e de onde moro.
Calcorreio por entre estrepes aguçadas o percurso, desencantado, por não saber de cor o nome das estrelas embora me faça por estrelar a cada sorriso de uns petizes, esses, sim, que não o sabem e por isso são felizes.
Há um e outro, ao redor de uma e outra, gravitando as tardes porque o que educam não é o que aprendem, mas sim o que desencontram quando se soltam da pederneira as pequenas faíscas que os fazem arder brandamente no acampamento da vida.
Um dia, quando não me calar, vou levar alforge onde caibam os estilhaços dos espelhos que fui partindo, porque no reflexo de uma taça deve luzir o nome de quem à vida e na vida se alcança.
Todos clamam pelo sol, esquecendo o imenso calor que irrompe do esforço da chuva em se fazer sentir.
Pouco mais que o dinheiro, deixo a pobreza acompanhar-me.
Só assim consigo ter os bolsos suficientemente vazios para lá caberem todos os sonhos em formas de maias floridas que não colho.
Em tudo há o valor, inavaliado, de se ser uma pequena fragmentada porção de pó cósmico aglomerado num só corpo, num só pensamento, com saudades de ser praia e areal, terra e pinhal.
Acredito que um dia, um momento, possamos ver-nos como uma frágil fatia de um elaborado bolo cujo condimento é o sorriso que podemos fazer crescer numa outra fatia.
Todos parte de um e um que se parte quando nos esquecemos de nos abraçar de encontro ao que somos, um corpo de cada vez, até não sabermos distinguir por livre e espontânea vontade a etiqueta que nos separa do que nós somos do que nos fazem.
Tenho as mãos cansadas de tanto procurarem, no espaço que permeia a distância que me separa de amanhã, aquele momento em que me sei semeado pelo sol, colhido pela chuva.
Que me desculpem as palavras se as obrigo a serem aquilo apenas que sei ser, enfim, criança homem sem dimensão ou universo onde nascer.
Porventura e por ventura, o silêncio do que falo é tudo o que consigo fazer ouvir.
Lamento que o quanto de tudo que recolho na vida seja inaudito, fica a bailar nos olhos, nalguma contracção muscular que faça erguer um sorriso ou na maré que, momentaneamente, possa trazer uma ondícula salgada até onde a minha parca vista alcança.
Habito-me sem me sentir em casa, habituo-me sem me fazer quotidiano, os dias rimam apenas porque tombam e se penduram na armação invisível que se ergue em redor do que escrevo.
Coroam-se as palavras, porque lhes louvo a ventura e ousadia de lavrarem o espaço que separa o meu sopro dos teus campos férteis, no entanto, nem bom vento, nem bom advento provém da atmosférica fronteira que me separa do que habito e de onde moro.
Calcorreio por entre estrepes aguçadas o percurso, desencantado, por não saber de cor o nome das estrelas embora me faça por estrelar a cada sorriso de uns petizes, esses, sim, que não o sabem e por isso são felizes.
Há um e outro, ao redor de uma e outra, gravitando as tardes porque o que educam não é o que aprendem, mas sim o que desencontram quando se soltam da pederneira as pequenas faíscas que os fazem arder brandamente no acampamento da vida.
Um dia, quando não me calar, vou levar alforge onde caibam os estilhaços dos espelhos que fui partindo, porque no reflexo de uma taça deve luzir o nome de quem à vida e na vida se alcança.
Todos clamam pelo sol, esquecendo o imenso calor que irrompe do esforço da chuva em se fazer sentir.
Pouco mais que o dinheiro, deixo a pobreza acompanhar-me.
Só assim consigo ter os bolsos suficientemente vazios para lá caberem todos os sonhos em formas de maias floridas que não colho.
Em tudo há o valor, inavaliado, de se ser uma pequena fragmentada porção de pó cósmico aglomerado num só corpo, num só pensamento, com saudades de ser praia e areal, terra e pinhal.
Acredito que um dia, um momento, possamos ver-nos como uma frágil fatia de um elaborado bolo cujo condimento é o sorriso que podemos fazer crescer numa outra fatia.
Todos parte de um e um que se parte quando nos esquecemos de nos abraçar de encontro ao que somos, um corpo de cada vez, até não sabermos distinguir por livre e espontânea vontade a etiqueta que nos separa do que nós somos do que nos fazem.
Tenho as mãos cansadas de tanto procurarem, no espaço que permeia a distância que me separa de amanhã, aquele momento em que me sei semeado pelo sol, colhido pela chuva.
Que me desculpem as palavras se as obrigo a serem aquilo apenas que sei ser, enfim, criança homem sem dimensão ou universo onde nascer.
2016-11-22
São nuvens
in Correio do Porto, em 23/11/2016.
Saberemos sorrir, porque nos turva o céu, mas entre o sorrir e o caminhar sobram espaços onde se escondem caminhos que por nunca percorridos, jamais foram trilhos.
São uma espécie de meio termo entre a partida e a chegada.
Um pouco como o silêncio a que nos remete a ausência, seja ela qual for ou de que espécie desejar.
Vai-se sendo, ausente, até se desaparecer.
Para mim qualquer final de recta de um par de carris bastaria, ou uma pequena ermida, erigida saberá deus a quem, bem longe das pequenas serpenteadas estradas por íngremes socalcos e gentes socalcadas, poderia até ser sempre noite, para vivermos para sempre maravilhados pela luzidia e trémula claridade que fica gravada na íris quando olhamos para uma estrela.
Saboreio, ainda, cada sentimento que consigo compactar numa letra.
Não fico admirado pelas palavras parecerem desconexas, não conseguiria fazer uma letra com apenas um sentimento, cada uma, letra, traz com ela várias impressões subjacentes, assemelham-se à ponta do icebergue, um pequeno estilete que tem raízes profundas na profundidade máxima de mim até onde consigo mergulhar sem respirar, como poderia uma palavra falar por si se por mim apenas o silêncio se manifesta?
Agradeço a cada sentido que me faz, redundantemente, sentir.
Por eles vou fazendo de conta que o fim de tarde é passado com os pés enfiados numa poça de água quente enquanto um ou outro caranguejo me faz cócegas, por eles o Sol fica ali pendurado e periclitante entre o horizonte e o vácuo do espaço sideral, pendendo à minha vontade de ser peixe e dar um sermão à água, que vai falando comigo também nas suas formas imensas quando se deixa cair de costas, feliz, em espuma na praia.
Consegues ouvir?
Um dia virá, talvez, em que o que aprendemos será o que seremos, letra a letra, palavra a palavra e o dia cairá em nós como túnicas num fantasma já sem rememoração de corpo, até sem sentidos, para que nasçam outros, sentidos e corpos, dignos mais de mundano menos.
E, já agora, em que o tempo fale por nós e se reflicta num longo lago seco com um fundo de terra gretada. E se alguém, por descuido, perguntar pela água, que outrem possa responder, são nuvens.
Por entre as folhas de tília
onde os teus passos molhados saciavam a tarde
havia um vazio musicado,
as goteiras solitárias cantavam no misto de silêncio
de tudo que não vejo,
talvez me tenha cultivado na cegueira
e as raízes que o solo sustenta me levem devagar,
devagarinho,
para que não me ouçam
no grito escuro de um sonho,
sozinho.
onde os teus passos molhados saciavam a tarde
havia um vazio musicado,
as goteiras solitárias cantavam no misto de silêncio
de tudo que não vejo,
talvez me tenha cultivado na cegueira
e as raízes que o solo sustenta me levem devagar,
devagarinho,
para que não me ouçam
no grito escuro de um sonho,
sozinho.
2016-11-20
Possivelmente possível
in BirdMagazine, 20/11/2016
“Possivelmente
possível”
Por
entre os pingos da chuva, na infinidade de espaços onde a água não
se liquidificava, raiava o silêncio como se a estrada que nos levava
lá fosse toda ela feita de soluços, como as sandálias a
comprimirem o cascalho ou a túnica sacudida num vai e vem de
gotículas a salpicar todas as outras que caíam.
Quando
o tempo se sobra e se permite a veleidades veladas a quem não se
dispõe ao acaso, tudo sobra para que até as tardes de Outono
saboreiem sossegadas o aroma tépido de uma mão cheia de castanhas
e, depois, o enfarruscado abanar das palmas, uma na outra, a modos de
corpos de gente que se degusta.
Não
há muito a redigir para quem, talvez como eu, uma ensolarada
crepuscular idade basta para enternecer a visão gasta e os sentidos
desapurados.
Talvez
por isso me perca um pouco a saborear o ruído do solo que se
esmigalha a cada passo que dou pelo monte.
Desconstruo
as estradas por onde passo, faço por nem piscar os olhos, não me vá
fugir paisagem quando as pálpebras se dedicam a claquear o horizonte
como dando ordem ao cérebro gritando “acção!”.
Desconstruo,
também, o futuro.
Voto-me
à solidão como se apenas no calar da voz ouvisse e houvesse aquela
miríade de possibilidades que se soltam de uma inspiração, de uma
expiração, onde a sinceridade e honestidade típica do vazio
prevalecesse.
Rio-me
com o desequilibrar típico de quem se desvia de carreiros de
formigas ou de gafanhotos que, garbosamente, exibem diferentes
tonalidades como tontos e desconexos arco-íris monocolores
precipitando-se entre mim e o verde acastanhado das folhas que se
deixam outonar.
Há
uma ou outra sardanisca, osga para os leigos, que corre assustada por
entre dois ou três restos de ramos de pinheiros, pedras, por debaixo
da caruma quem sabe imaginando-se de onde tal adamastoreidade possa
surgir.
Detenho-me
num ou noutro pinheiro, sem as histórias que me suportam ou as
palavras retratadas nos olhares de quem não se lê, para por
momentos sentir na face a aspereza subtil e cuidada da casca resinada
e resignada de quem vê o tempo passar e sorri, caruma ao vento,
pelas intempéries que assolam a orla marítima de quem se observa
por entre o mar e o mundo.
Os
dias pequenos correm lestos, primeiro pela madrugada madrugadora,
depois ao subir do calor possível que o Universo catatónico
permite, para vir depois por aí abaixo até se deter no alaranjado
atonado céu, onde as nuvens brincam aos padrões e se esgrimam em
rendilhados pedaços de imaginação que me fazem, agora com frio,
sentir que o dia se vive quando se deixa ser, dentro da
possibilidade, possivelmente possível ou, matematicamente falando,
reciprocidade de uma hipótese sem tese.
A
Lua viu-se e desejou-se para nascer a poente de um horizonte, mas
destinou-se que, como o caos, as palavras se permitam orbitar o cerne
de um parágrafo crucificado.
Assim
foi o desfocado ocaso, na cruz ou apedrejado, por entre pares e
ímpares. mantenho-me aquecido no istmo que separa o falado e o
calado.
Não
havia espaço para mais, a metáfora terá que servir para o espaço
incólume que deixou pendente porque, como sempre, não se sabia
escrever e quem o poderia fazer, não o sabia ler.
2016-11-13
O corpo come, mas é a alma que se alimenta.
Crónica na Bird Magazine 13/11/2016
Escondi-me sem grande necessidade, não me viu chegar acorrentado que estava à pressa de fugir dos pingos que engrossavam a cada passo. Encostou-se ao primeiro muro que lhe deu garantia de protecção adicional contra este aguaceiro de chuva caduca e aninhou-se no chão, puxou dois renegados paralelos soltos da escravatura do solo e improvisou um banco. Abriu o enorme colorido guarda-chuva que lhe amparava os passos e, nestes dias farruscos, o abrigavam da sublimação que é caminhar em estado sólido sem se saber gasoso.
Sentado, o guarda-chuva preso entre os joelhos, as varetas a tinirem quando o vendo se lembrava de açoitar um braço em redor de um vazio ainda não soprado. Todo ele, agora, parecia um acampamento, lateral à margem da morte ou da vida, aqui ao lado do portão forjado com letras de arcaísmos e números agrupados na memória de outras temporadas vazam já em dois séculos atrás. Quando o vento soprava, ao abrigo da distração da chuva, e o guarda-chuva oscilava em pequenos arcos, na vaidade de ser ser visto de cima como um arco-íris rotativo de centro o e raio r, ele fazia por alinhar as varetas nos espaços de terra por entre o granito dos paralelos, prendendo-o.
Sorrindo, inclinou-se sobre o seu lado direito e espreitou a chuva que caía, agora, copiosamente na despreocupação de ser outra coisa que não a chuva.
[Ah, a liberdade de se ser quem se é.]
Fechou os olhos, molhou o rosto, sorriu agora um pouco mais e endireitou-se no chão, sentado degustando, deduzo eu, a alcalinidade líquida das moléculas que, apenas porque sim, se agrupam aos pares de hidrogénio e aos ímpares de oxigénio.
[Não me bastasse a inquietação das respostas para as quais não tenho perguntas, ainda me perco a comiserar porque razão a água é água e não poesia que se acumula na goteira do que não vejo.]
Inclina-se para a frente, encosta a testa ao frio metal do guarda-chuva e abre a mochila (era de cor azul, já o tinha dito?) tirando um saco grande de plástico. Senta-se hirto, como a chuva que teima em não abrandar de intensidade e pousa a saca no chão. Pareceu-me ouvir um tilintar. Quando começa a tirar o conteúdo sorrio.
[Aqui a narrativa apressa-se e com ela surgem as falhas na grafia, próprias de quem se inventa entre dois aguaceiros ou, vá, duas vidas. Talvez deva abrigar-me melhor, a chuva parece cair-me na cara ou, talvez não, não me deva emocionar com o simples que se abriga na complexidade de se ser o dia, presente.]
Começa por desembrulhar com cuidado os jornais que envolvem e conservam o calor desde a madrugada, quando a esposa (ou ele, como o poderei saber?) cozinhou o que quer que seja que o tacho conserva. Embrulhou os jornais, encostou-os à cara e sorriu, deveriam estar ainda quentes e talvez da celulose se soltasse ainda o carinho com que alguém lhe preparou o almoço.
[O corpo come, mas é a alma que se alimenta.]
O naperon azul pariu um par de pães alvos e farinhentos, cujos vestígios são agora as poeiras brancas no canto da boca e, logo de seguida, nas costas da mão que usou como guardanapo. O raspar da colher no metal contrasta com o burburinho da chuva e do vento a atirar um arame que serviu, certamente, de estendal. Arrumou na mochila jornais, naperon e tacho, partiu a maçã verde em duas metades, comeu uma metade por inteiro e a outra metade comeria inteira a meio da tarde, deduzo. Na falta do calor negro a rodopiar entre as bordas do universo que é uma caneca de metal, deixou-se encostado ao muro, ainda a segurar o guarda-chuva e a ouvir as grossas gotas que batiam no tecido transformando o som em embaciados óculos, salpicados por memórias secas de quando a vida poderia ser mais húmida, como as cavacas mergulhadas no leite.
Quando terminou o céu parecia já saciado, passara de um cinzento para vários cinzentos, ostentando aqui e ali uma gotícula de azul celeste e o branco que timidamente se anunciava abaixo da atmosfera que é o intervalo sagrado de quem respira para se viver.
Escondi-me sem grande necessidade, não me viu chegar acorrentado que estava à pressa de fugir dos pingos que engrossavam a cada passo. Encostou-se ao primeiro muro que lhe deu garantia de protecção adicional contra este aguaceiro de chuva caduca e aninhou-se no chão, puxou dois renegados paralelos soltos da escravatura do solo e improvisou um banco. Abriu o enorme colorido guarda-chuva que lhe amparava os passos e, nestes dias farruscos, o abrigavam da sublimação que é caminhar em estado sólido sem se saber gasoso.
Sentado, o guarda-chuva preso entre os joelhos, as varetas a tinirem quando o vendo se lembrava de açoitar um braço em redor de um vazio ainda não soprado. Todo ele, agora, parecia um acampamento, lateral à margem da morte ou da vida, aqui ao lado do portão forjado com letras de arcaísmos e números agrupados na memória de outras temporadas vazam já em dois séculos atrás. Quando o vento soprava, ao abrigo da distração da chuva, e o guarda-chuva oscilava em pequenos arcos, na vaidade de ser ser visto de cima como um arco-íris rotativo de centro o e raio r, ele fazia por alinhar as varetas nos espaços de terra por entre o granito dos paralelos, prendendo-o.
Sorrindo, inclinou-se sobre o seu lado direito e espreitou a chuva que caía, agora, copiosamente na despreocupação de ser outra coisa que não a chuva.
[Ah, a liberdade de se ser quem se é.]
Fechou os olhos, molhou o rosto, sorriu agora um pouco mais e endireitou-se no chão, sentado degustando, deduzo eu, a alcalinidade líquida das moléculas que, apenas porque sim, se agrupam aos pares de hidrogénio e aos ímpares de oxigénio.
[Não me bastasse a inquietação das respostas para as quais não tenho perguntas, ainda me perco a comiserar porque razão a água é água e não poesia que se acumula na goteira do que não vejo.]
Inclina-se para a frente, encosta a testa ao frio metal do guarda-chuva e abre a mochila (era de cor azul, já o tinha dito?) tirando um saco grande de plástico. Senta-se hirto, como a chuva que teima em não abrandar de intensidade e pousa a saca no chão. Pareceu-me ouvir um tilintar. Quando começa a tirar o conteúdo sorrio.
[Aqui a narrativa apressa-se e com ela surgem as falhas na grafia, próprias de quem se inventa entre dois aguaceiros ou, vá, duas vidas. Talvez deva abrigar-me melhor, a chuva parece cair-me na cara ou, talvez não, não me deva emocionar com o simples que se abriga na complexidade de se ser o dia, presente.]
Começa por desembrulhar com cuidado os jornais que envolvem e conservam o calor desde a madrugada, quando a esposa (ou ele, como o poderei saber?) cozinhou o que quer que seja que o tacho conserva. Embrulhou os jornais, encostou-os à cara e sorriu, deveriam estar ainda quentes e talvez da celulose se soltasse ainda o carinho com que alguém lhe preparou o almoço.
[O corpo come, mas é a alma que se alimenta.]
O naperon azul pariu um par de pães alvos e farinhentos, cujos vestígios são agora as poeiras brancas no canto da boca e, logo de seguida, nas costas da mão que usou como guardanapo. O raspar da colher no metal contrasta com o burburinho da chuva e do vento a atirar um arame que serviu, certamente, de estendal. Arrumou na mochila jornais, naperon e tacho, partiu a maçã verde em duas metades, comeu uma metade por inteiro e a outra metade comeria inteira a meio da tarde, deduzo. Na falta do calor negro a rodopiar entre as bordas do universo que é uma caneca de metal, deixou-se encostado ao muro, ainda a segurar o guarda-chuva e a ouvir as grossas gotas que batiam no tecido transformando o som em embaciados óculos, salpicados por memórias secas de quando a vida poderia ser mais húmida, como as cavacas mergulhadas no leite.
Quando terminou o céu parecia já saciado, passara de um cinzento para vários cinzentos, ostentando aqui e ali uma gotícula de azul celeste e o branco que timidamente se anunciava abaixo da atmosfera que é o intervalo sagrado de quem respira para se viver.
2016-11-10
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